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NETFLIX APRESENTA
Há certamente um engano.
Foi-nos dito que os bilhetes estavam no nosso nome.
Lamento, mas não.
Morf Vanderwalt, Artweb.
- Não, é hoje. Dois bilhetes VIP. - Olá, Morf.
Quero falar com o responsável.
Que bom revê-lo.
Ridículo, adquirimos Ultraworld do Shogrun no mês passado em Nova Iorque.
NÃO HÁ CONFUSÃO EM MINHA CASA O COLETIVO SADDLER
TRABALHO EM TROCA DE COMIDA
VAGABUNDO
Já se sentiu invisível?
Outrora, construí uma ferrovia.
- Ali está ele. Morf. - Cloudio.
É do Kenji, como sabes. Chama-se Vagabundo.
A resposta tem sido fantástica. Talvez seja o melhor da exposição.
Wolfon, Female Figure, há quatro anos.
- Não, é novo. São temas diferentes. - É uma iteração. Sem originalidade.
Sem coragem, penso eu.
Respeito muito o poder da tua opinião,
mas isto abrange uma escala global.
É tão atual e frontal que transpira pop, cinema e economia.
Sente-se o vento do Apocalipse.
Não o posso salvar.
Temos uma proposta de quatro milhões de um comprador em Xangai.
Vais escrever a tua crítica hoje?
- Olá. - Tens um minuto?
Não, vou entrar agora.
- Tenho de te contar algo sobre o Ricky. - O quê?
- Josephina, ele está a trair-te. - A sério?
- Vi-o com uma rapariga. - Quando?
Ontem, num bar.
- O quê? - Estavam ambos embriagados.
- A que horas? - Não sei. Dez?
- Estavam os dois agarrados. - Mesmo no bar.
- Lamento, Josephina. - De certeza que era ele?
Estavam mesmo ao meu lado.
Tenho de ir.
- Posso ajudar? - Não.
Obrigada, a sério, adeus.
- Como estás, Morf? - Olá, Jon.
É fantástico, não é?
O Piers anda com a Dorothy?
Terás de lhe perguntar a ele.
Com licença.
- Morf, querido. - Gretchen.
Licitámos pelo museu. O Jon quer 3,7.
A Rhodora não venderia por menos de cinco, é uma boa oportunidade para nós.
Estou curiosa para saber a tua opinião.
Estar sóbrio não tem sido bom para ele.
Isto já tem quinze anos.
O Piers estava completamente alcoolizado, nesta altura.
Exato.
Então, achas que é uma boa compra para o museu?
Com licença.
Josephina. Estás bem?
É o pior dia de sempre.
A tua maquilhagem.
Estou atrasada. Enviaram-me vinte mensagens.
Também vou para lá.
Que pessoas horríveis.
- Quem? - Toda a gente.
O Piers vai trocar de galeria?
Eu atendo telefones e compro café. Seria a última a saber.
Chegaste atrasada. A Rhodora já lhe levou café.
Estás onde queres estar?
Não vou ouvir bocas do instalador.
O que achou?
Não me sentia assim há anos.
- Chegou o Morf. - Obrigada, com licença.
Então?
Cor,
vida... Adoro.
Estou farta de espaços brancos.
Isso é tão estranho.
Tenho preferido coisas mais arrojadas em termos de trabalho e paletas, ultimamente.
Esta insistência em mostrar cubos monocromáticos estéreis.
É preguiça. Queria fazer umas justaposições.
Estou, precisamente agora, a escrever sobre isto.
- Isto não estava no catálogo. - Pois não.
É do Minkins.
Chama-se Sphere.
Cria uma sensação única,
que depende de pessoa para pessoa e do buraco que quiserem explorar.
Tal como a vida.
Usa todo o tipo de sensores e aparelhos.
É sobre escolha, desejo, sexo. O pacote todo.
- É pioneiro. - É todo teu.
Foi revelado ao público há dez minutos.
Vou publicar uma crítica. Quanto custa?
É muito mais fácil falar de dinheiro do que de arte.
Que piadinha.
Por falar nisso, o Piers vai trocar-te pelo Jon Dondon?
Represento o Piers há dezassete anos.
Não respondeste.
Ora... porque não pões a mão lá dentro?
Vê o que sentes.
Não vale a pena o investimento.
Estás enganado.
Será um evento invulgar,
já não falando do incentivo fiscal.
- Há água em Miami? - No bar, senhor.
Não sei.
Porra.
Não posso garantir a tua posição como...
Com licença.
Piers.
Estava a flutuar no oceano e, durante um momento incrível,
senti que me tinha ligado a uma consciência primitiva.
Uma ligação ao mundo, na sua forma mais pura.
O Ricky ainda o nega.
"Querida, deixa-me explicar." Juro que quero magoá-lo.
Talvez te liberte para coisas novas.
Isto era novo. Ele tinha acabado de se mudar.
Tenho de dizer, tenho as minhas reservas sobre o Ed.
Ele tem uma fantasia em que nos casamos.
Estou farta de artistas.
Já estão num relacionamento.
Ouve, Damrish,
o teu website não dá um sentido de escala ou textura.
Mas ver o teu trabalho ao vivo, na feira de novos artistas,
tive o meu momento "Meu Deus".
Transmite energia, agride e devora.
Há seis meses,
vivia na rua, expunha no passeio.
Essas são as minhas origens, percebes?
Deixa-me explicar.
Tudo isto... é um Safari para caçar a próxima novidade e comê-la.
Disseram para ter cuidado contigo.
Sou inofensiva.
Uma gatinha, na verdade.
Sei tudo sobre ti, desde os dias mais rebeldes.
Isso foi há muito tempo.
- Velvet Buzzsaw. - Bem, o nome ficava no ouvido.
As coisas antigas eram fantásticas.
E depois tornou-se o quê? Auto-paródia?
Depois da Polly sair.
Porque se separaram?
Quem se lembra, com tanto álcool e comprimidos.
O que quero dizer é,
passei de anarquista a fornecedora de bom gosto.
Por isso percebo a ironia.
Nada disto é novo.
Já foi tudo feito desde...
... que cobraram um osso para ver as primeiras pinturas rupestres.
Por isso... Obrigada.
Em que caverna expões tu?
Eu e o pessoal fundámos um coletivo.
Bem, um brinde a isso.
Bem, eu adoro lealdade.
Mas matava para exibir o teu trabalho.
Recusei uma oferta para uma exposição individual do Jon Dondon.
E por aí em diante.
Ele está lá dentro a tentar convencer o Piers.
Sabes onde estou, Damrish?
Estou aqui a beber shots contigo.
Refrigerante. Com lima.
O mercado sobe sempre para ti, Piers.
A minha tolerância para as tuas tretas é zero.
Lekker, sem tretas.
A Rhodora sobrevalorizou-te.
Passou-te. Está totalmente perdida.
Vendi o Cranial hoje por 3,7, tal como prometido.
Se vieres comigo, a nossa galeria tem métodos de análise de ponta
para maximizar negócios e procura global.
Estou a esforçar-me para voltar à criação,
à revelação, a mil milhões de anos de energia a atravessar o nosso cérebro.
Eu não ando de um lado para o outro a tentar vender bilhetes.
Nesta economia, ser-se famoso é uma forma de arte.
Sabes que só dou comissão nos trabalhos novos?
Reproduções, impressões, réplicas é tudo comercializado com a minha marca.
Já ficarei muito feliz, se puder por ter o exclusivo dos teus futuros trabalhos.
Ouvi dizer que a Rhodora vendeu a Sphere por sete milhões.
É uma atração carnavalesca.
É brilhante.
Nunca devia ter deixado de beber.
Josephina,
vais para o SLS?
Vou a uma exposição nos arredores da cidade.
Vou contigo.
O que se passa contigo?
Como assim?
És o Morf Vanderwalt, porra.
Porque vais comigo a uma exposição?
Gosto de estar contigo.
Temos uma relação baseada no bom gosto.
Isso é tabaco?
Óleo de haxixe.
Talvez possa dar uma passa.
Foi a pior exposição que vi em anos.
E quem era aquele tipo furioso, quando saímos?
Não sabes?
Era Imeldus Vanderhost, arraste-o, no ano passado.
Traz duas vodcas do frigorífico.
Sabes, estás em muito melhor forma do que o Ricky.
Eu... faço muito Pilates e ando de bicicleta.
Lembro-me do teu corpo.
E eu lembro-me do teu.
Desde Berlim, estou sempre a pensar em ti.
Estávamos bêbados.
Continuo a dizer isso a mim próprio.
A tua pele...
... é a mistura mais bela de amêndoa e castanho claro.
Deixo-te duro, é?
Deixas-me confuso.
Deve ser difícil para um crítico.
Voltei a LA ontem à noite e analisei os números.
Caramba.
Além da excelente venda do Minkins,
Miami não foi um mercado próspero.
Resumindo, não vendemos nenhum Rubek.
Sei que o escritório de Londres tem um fraco por ele,
mas, na minha opinião,
a última coisa de que precisamos é de investir no revivalismo da arte Pop.
Arte Pop.
Arte Pop.
Foda-se.
VELVET BUZZSAW
"A estrela da secção Nova foi a Go-Pro Kindergarten da Mertilla Splude
uma disquisição inspirada na experiência infantil."
Inspira-te e junta-te a mim na piscina.
Ele está bem?
Ligue para o 112.
Quem é que devia cá estar?
A Josephina. Atrasou-se... novamente.
Tu, Rococo.
Vai para a receção.
É... Coco, na verdade.
Galeria Haze. Posso ajudar?
Estou?
Desligaram, certo? Sim, os ricos são impacientes.
Sou um artista, sabias?
Fiz o Froot Loop Hippo do Bandini, conheces?
E colei todos os Froot Loops.
Sim.
Está exposto no The Broad.
Não broad. As pessoas confundem com Broad.
- Broad, brode, sim. - Certo.
Posso arranjar bilhetes, se quiseres.
Eles conhecem-me lá.
- Quando voltaste? - Ontem à noite.
Sei de fonte segura que o Piers te trocou pelo Jon Dondon.
Estou a ficar aborrecida agora.
Isto é bombástico. Porque haveria de te deixar?
Porquê. Porquê tudo?
Talvez quisesse que ele fosse.
Entretanto, vou contratar novos talentos.
Sei que conseguiste o Damrish. Ele é forte.
E, esta manhã,
Mertilla Splude.
Estamos em sintonia, juro.
A Go-Pro Kindergarten vai ser incrível.
Deus te oiça.
Espera. No nosso mundo, tu és Deus.
E eu estou atrasada. Tenho de ir.
Está bem.
Desculpa.
Um tipo morreu no meu prédio.
Estou verdadeiramente surpreendida.
Rhodora, não estou a brincar.
Um vizinho morreu. Encontrei o corpo.
O Bryson informa-me sobre tudo o que acontece por aqui.
Os teus atrasos crónicos...
O Bryson está furioso porque...
... se atirou a mim. E eu recusei.
É completamente tarado.
Posso dizer que o interesse que tinha em ti desvaneceu.
Considerava-te minha protegida.
Todas as nossas conversas sobre as tuas dificuldades e ambições.
E depois insultas a minha inteligência.
Vou tirar-te da linha frente.
Não terás contacto com os clientes até melhorares o teu desempenho.
- Bom dia. - Bom dia.
Temos Berlim? Singapura? Londres?
Sim, temos.
Tenho dois artistas favoritos novos que estou ansiosa por vos contar.
Sou da Perlack.
VETRIL DEASE
Somos donos do prédio.
Conhecia-lo?
O tipo que morreu?
Algum artista, acho.
Não.
Encontrei o corpo.
Era reservado.
- Tinha um gato. - Está lá. Amanhã encontramo-lo.
As coisas que ele tinha...
E vai tudo para o lixo.
O velho queria que fosse tudo para o lixo.
Sem deixar vestígios, como pediu.
Parece que o começou a fazer, mas morreu antes de terminar.
Bem, boa noite.
Olá, gatinho.
Olá, pequenote.
Ainda bem que ligaste.
Dava-te um abraço, mas estou todo suado.
Adoro a camisola. Essa cor fica-te mesmo bem.
Miami foi uma revelação.
Deixa-me começar por aí.
Não tenho certeza sobre mais nada na minha vida,
mas sei que me sinto... bem contigo.
Muito melhor, e para lá de bom.
Encontrei uma coisa.
É o que estou a dizer.
Quem fez isto?
O que achas?
São visionários.
Hipnotizantes. Uma mistura...
... absolutamente incrível de meios.
Estou enfeitiçado.
- Achas que há mercado? - Enorme.
Para além disso.
Quem os representa?
Eu.
Estou a morrer de curiosidade.
Quem é?
O jackpot de hoje são 400 milhões de dólares.
Para ganhar o jackpot, deve acertar nestas cinco bolas brancas,
O primeiro número vencedor é o 54, seguido de 32.
Em seguida, temos o 52. O próximo número é o 34.
A bola branca final desta noite de sexta-feira é o 25.
Se ninguém acertar nos cinco números...
O ambiente parecia mais arrojado na Biennale.
A iluminação está igual?
Penso que sim.
Bem, verifica as especificações.
Eu giro o coletivo do Damrish.
Não pensei que os coletivos tivessem responsáveis.
Isso não defrauda todo o conceito?
Eu represento-o.
Já não.
Estamos a desenvolver algo diferente de toda esta porcaria comercial.
Não é apenas pelo dinheiro.
Roubar o Damrish acaba connosco.
Muito bem. Sabe que mais? Ele não é uma criança.
É escolha dele.
- Acha que isto já acabou? - Saia já daqui, porra!
Eu tentei impedi-lo.
Bem, falhaste.
Inacreditável.
- Nunca mais... voltará a acontecer. - Sai!
Coco. Não me disseste que querias um gato?
Podemos falar mais tarde?
Claro.
Olá!
- O que raio achas que estás a fazer? - O que é isto? Quem é?
Isso estava na secretária.
Vi isto, enquanto procurava fita-cola.
Isto é assédio.
- Diz-me quem é o artista. - Qual é o teu problema, porra?
Faço mais do que manutenção.
Não tenho capacidades limitadas.
Esta merda... mexe comigo.
Olá. Ouvi dizer que vinhas cá.
Vou criticar a vossa exposição do Purlfoy.
Sê gentil. Não estamos populares.
Diz-me uma coisa.
Já ouviste falar de Vetril Dease?
D-E-A-S-E.
Não.
Podes verificar?
Não. Não está no registo, e nós temos todos.
Morf, querido, eu...
Preciso de falar contigo.
Sobre?
Vou-me embora para me tornar consultora de arte.
Eu sei. Não posso dizer para quem.
Mas ganharei o suficiente para ter um carro adorável e um jardim.
Olá, Morf.
Olá, Jim.
Vim para o museu porque queria mudar o mundo através da arte.
Mas os ricos ficam com tudo, menos as migalhas.
O melhor trabalho só é apreciado por uma minoria.
E compram o que lhes dizem, porque não juntar-me à festa?
A questão do dinheiro está em todo o lado.
Para antecipar a minha mudança, procuro peças para o meu novo cliente.
Talvez te interesse saber
que te posso dar uma recompensa generosa, por baixo da mesa,
por qualquer orientação que me possas dar no reino do...
... subvalorizado, antes da crítica, talvez.
Não faço isso.
Qual é o teu acordo com a Rhodora?
Nenhum.
Então, as compras dela anteriores às tuas críticas são prescientes?
A minha vida é isto.
Como me ligo a qualquer tipo de espiritualidade no presente.
Claro.
Avalio por apreço.
Vou mais além o universo que avalio.
Desculpa, eu...
Porra.
Beijinhos.
Olá. Que se passa?
Diz-me tu.
Que fazes aqui?
Que diabo.
Bryson.
Incrível.
Tenho de te pedir para sair.
Não se tivesses armada.
Não te diz respeito.
Na verdade, diz.
Assinaste uma cláusula de não concorrência que, se a leres,
lembras-te que é, na verdade, muito mais abrangente que isso.
Conta-me tudo sobre o Vetril Dease.
O nome é a cereja no topo do bolo.
Não me faças começar um interrogatório.
Agora somos apenas as duas,
com toda a nossa amizade e amor uma pela outra.
Como os obtiveste?
Um tipo lá de cima morreu.
E tu ficaste com eles?
Ele não tinha nem família nem amigos.
Não te maço com as perguntas óbvias,
mas deves ter planos enormes.
Eu inventei o faz-tu-mesmo.
E isto é demasiado para ti, querida.
Tens de arquivar, catalogar e estabelecer propriedade.
E rentabilizar.
Estou disposta a fazer isso tudo
por uma percentagem razoável.
Podemos entrar em ações judiciais intermináveis, ou...
... podes ficar rica,
famosa e bem-sucedida.
Que, ambas sabemos, foi o que sempre quiseste.
Dizemos que foram abandonados, que os encontrou no lixo.
- E fez tudo para encontrar o dono. - Parece que não tinha herdeiros.
É apenas inquilina. O dono do prédio pode reclamar?
O tipo disse que se estavam a livrar de tudo.
Demorei horas a levar tudo para o meu apartamento.
Havia tanta coisa.
Encontraste a arte no lixo, não foi no apartamento dele.
Isto é importantíssimo. Agora que te lembras, encontraste tudo no lixo.
Não foi assim?
No lixo.
Sim, agora, já me lembro.
Criticar é tão limitante e emocionalmente desgastante.
Sempre quis fazer algo duradouro, para lá da opinião.
Aventurar-me na exploração da origem e essência.
Uma metamorfose de espírito em realidade.
Nunca tive como, até agora.
Um artista amador, descoberto após a morte.
Quero começar a pesquisar já.
Há prazos. Isso altera os nossos extensos planos de marketing,
que ainda nem abordámos.
Posso escrever a brochura da exposição.
Isso impulsionará o lançamento.
Mas quero direito exclusivo ao livro e a várias peças.
Isso parece-me bem.
Olá, Rhodora.
Estou a arquivar o material dele e a analisar as tintas.
E é estranhíssimo.
Nem sei como descrever.
Não me atrevo a arriscar um palpite.
Galeria Haze, por favor, aguarde.
Galeria Haze, por favor, aguarde.
Galeria Haze, por favor, aguarde.
Sim, a Josephina não está disponível, mas posso dar o recado.
Muito bem, aguarde.
Galeria Haze.
Sim, a Rhodora sabe da reunião, mas está ao telefone de momento.
- De certeza que é o mesmo Dease? - Sim.
Como podes ter a certeza?
Visitei a instituição. Encontrei os registos.
- Meu Deus. - Não me preocuparia.
O ficheiro é tão antigo que não há cópias. Fiquei com a única.
Muito bem, envia-me. E não deixes vestígios.
- E acrescenta um zero à tua fatura. - Obrigada.
Vetril Dease aparece, pela primeira vez, num censo de Los Angeles de 1930,
a viver numa casa pobre com o pai, a mãe e irmã mais nova.
Nove anos depois, Vetril aparece listado com o seu pai
como os únicos sobreviventes de um incêndio suspeito que destruiu a sua casa.
Pouco depois do incêndio, o seu nome aparece num documento legal.
Referindo crueldade para além dos limites da humanidade,
os serviços sociais retiram Vetril do seu pai abusivo
e colocam-no no Orfanato dos Bons Templários em South Vallejo.
Aí, a sua estada é um mistério,
o único registo é o da sua partida, aos 18 anos.
Mas o verdadeiro mistério é o que se segue.
Dease desaparece durante três décadas, como se fosse um fantasma.
Reaparece como funcionário da administração de veteranos de Sawtelle,
onde foi contínuo, durante 42 anos.
Dease viveu sozinho e isolado,
utilizando a sua arte para mergulhar nas profundezas da sua própria psique.
O artista batalhou os seus próprios demónios durante décadas.
O resultado é uma saga épica de violência e loucura.
Um grito por respostas e por uma resolução que nunca chega.
O meu ex-namorado, Ricky, tem uma exposição na sexta.
É um pintorzeco.
Um hipster com a mania.
Nunca teve uma ideia original em toda a vida.
Além disso, rouba toda a gente.
Mas sabes isso, não é?
Conheço bem o seu trabalho.
Devias ir à exposição dele,
ver com os teus próprios olhos que ele não presta.
E fazer o que tu fazes.
Estás a falar a sério?
Por mim.
Olá, Morf.
Certo.
É contemporâneo?
Não está com merdas e dá forma ao verdadeiro sentimento.
Que transmite?
Que sentes?
Usam a tecnologia de um modo inovador.
A ideia é uma plataforma que inclua todos os média.
Agora, tudo é interativo.
Veio do nada, não conhecia ninguém,
e se a nossa Josephina não tivesse sido tão observadora,
o seu trabalho de génio teria ido para o lixo.
E ele teria sido esquecido.
Vi-o num contentor, ao pé de um candeeiro.
Quantas peças existem?
Bem, infelizmente,
a criação do Sr. Dease é o contrário do que poderíamos chamar prolífico.
E, certamente, não fará mais.
Há um no qual estamos muito interessados.
Fiquem a saber que a procura é avassaladora.
Sim.
Atraente.
Antes do sublime, todo o corpo treme.
Com estes preços, o teu museu está de fora.
Eu deixei o museu ontem, posso falar livremente.
Sou consultora de um cliente privado.
Quem?
O nosso amigo que comprou a Sphere.
Bem, que hilariante para ti.
Como tal, estou de olho em vários dos quadros grandes.
Os vendedores têm estado atarefados.
Está tudo reservado.
Talvez possamos pagar um extra.
- Isso não melhora a tua oferta. - E que merda melhoraria?
Vendo-te dois do Dease...
... se comprares três peças na exposição do Damrish, no próximo mês.
E se ele não agradar ao meu cliente?
És a consultora. Aconselha-o.
Olá.
Porra.
No próximo mês, és tu.
Tenho... tenho de ir.
Está bem.
Não é fantástico ver algo substancial?
Além de tatuadores famosos e...
... balões a fazer de pincéis.
Estou a escrever um livro sobre ele.
Odiei a sua crítica do Ricky Blane, ontem.
Achei a exposição inspiradora.
Bem, eu não a percebi, suponho.
Vimos exposições muito diferentes.
É preferível ter uma má crítica a afundar-se no oceano do anonimato.
Isso foi uma piada?
Que eu saiba não.
O Ricky embebedou-se e teve um acidente ontem.
Está em coma.
Sentiu-se esmagado.
Pelo carro?
Pela sua crítica. Arschloch.
Como assim o Bryson está a armazenar alguns trabalhos?
Se a De Beers vendesse todos os diamantes,
seriam baratos como vidro.
Não te ensinaram nada na escola de arte?
Quantos dizemos que ele fez?
Valem por serem escassos, por isso não importa o que dizemos.
É a realidade.
A realidade é que temos mais de mil peças armazenadas.
Isso é um disparate.
Duvido que seja metade disso.
O que fizeste?
Tirei-as de circulação. Guardadas para tempos difíceis.
Porra.
Porra!
Porra!
Merda. Foda-se!
Está aí alguém?
Olá! É o Dondon.
Calma, rapaz. Ainda não.
Visita ao estúdio. Estou entusiasmado.
Não suporto nada alegre.
Não sou idiota. Lembra-te disso.
É uma honra representar-te e ver o que tens feito.
Aposto que sim.
É aqui que a magia acontece?
Isso é uma piada?
Desculpa?
Isto são reproduções e réplicas.
O estúdio é lá em cima.
Rupert, vamos.
Isto é notável.
Não é arte.
Então?
Bem, eu... estou a absorver tudo.
É fascinante ver um trabalho em curso.
Dá-me a porra de uma opinião sincera sobre o que estás a ver.
Consigo ver a ligação com o resto do teu trabalho.
Então...
Estou a copiar-me?
Não é cópia se fores o autor.
Pensei que o estúdio era na baixa.
Demasiadas tentações.
- Trabalhei aqui no último ano. - Bem, eu...
Queria ver tudo o que fizeste desde a mudança,
porque a equipa está motivada para vender tudo o que tens.
Muito bem.
Claro, muito bem.
Não, tens estado em gestação.
A gestação implica nascimento.
As ideias vêm, mas morrem assim que aparecem.
Isto é um matadouro.
Bem-vindo a bordo.
REBOQUES EASTSIDE
Quando recebemos a chamada, demorámos alguns dias a encontrar.
Temos estado ocupados.
Parece que ele embateu contra uma bomba de gasolina
na Floresta Nacional de Angeles.
O local está fechado há anos.
O que causou o acidente?
Não sei.
Penso que bateu com a cabeça e ficou desorientado.
É fácil perder-se por ali.
Recuperaram alguma coisa?
Colocámos tudo ali atrás.
Achamos que o veículo foi vandalizado, antes de o encontrarmos.
Há um campo de sem-abrigos ali perto.
Teriam levado tudo, se o tivessem encontrado primeiro.
Havia algo de valor no interior?
Não.
Que eu saiba não.
Foi tudo o que encontraram?
Não.
Havia isto.
Para onde é que ele foi?
Onde estão as obras?
Porque haverias de confiar nele?
Não lhe disse o que havia nas caixas.
Só tinha de as levar para um armazém em Lancaster.
Se isto correr mal, digo-te já,
digo que foi tudo ideia tua.
Não tive nada que ver com isso.
Ligou para o Byson. Obviamente não atendi.
Bryson, sou eu.
Onde raio estás tu?
Estás a fazer fazer-me frente, a tentar sozinho? O quê?
Não brinques comigo, Bryson. Liga-me.
Vim na altura certa.
Não, não. Agora não.
Tenho muito que fazer.
Ainda faltam três horas.
Vou demorar isso para me arranjar.
É só uma angariação de fundos.
Haverá fotografias.
A nossa primeira saída. É muito importante para mim.
Quero estar bonita.
Encontrei um vestido lindo.
Este sofá é muito pequeno para a altura do teto.
Fica a nadar aqui.
Estive a catalogar quadros para o livro.
Há algo que não faz sentido.
O quê?
Quase não há estudos nem esboços. Parece que faltam.
E ainda várias falhas em diferentes períodos da sua obra.
Ele datava-os, sabias.
Não, tudo o que encontrei está lá.
Acredita, eu sei.
Tenho um ótimo champanhe no frigorífico.
Abre-o, enquanto nos arranjamos.
GALERIA DONDON
A sua marcação chegou. Entrevista para a vaga de arquivista.
És demasiado nova.
Tenho vinte e dois anos.
O cargo requer alguém com anos de experiência.
Volta quando tiveres quarenta.
É assim?
É mesmo assim.
Trabalhaste com a Rhodora?
Apenas durante algumas semanas.
Portanto, a cláusula de não concorrência não se aplica.
- Ela despediu-te? - Estava na minha pausa.
Um homem entrou e falou-lhe e ela nunca o esqueceu.
Estavas lá na abertura da exposição do Dease?
- Foi o caos. - Sabes quanto ela ganhou?
- Vi os números. - A lista de compradores?
Os nomes todos.
O teu cliente comprou dois.
Muito engenhosa.
Aprendi que tenho de o ser.
A Rhodora tinha um ficheiro sobre o Dease que mantinha guardado.
Um dia, encontrei a chave e foi uma leitura muito interessante.
Sabes que mais? Talvez tenha uma vaga.
Vem ao escritório e diz-me que mais sabes.
Sinto falta disto.
A camaradagem, a pureza do propósito,
o rolo de carne às terças, o café com vista para os poços de petróleo.
Bem, vamos a Vetril Dease.
Na união federada do universo,
duvido que, neste momento, exista algum artista mais procurado.
Desde a abertura exposição, ele tem estado nas tendências do Twitter.
Temos interesse numa exposição.
De quantas peças estamos a falar?
Posso fornecer duas do meu cliente.
E outras dez por empréstimo da Galeria Haze.
Envia as dimensões e fotos para o grupo, e apontamos para a próxima época.
Quero-as expostas o mais cedo possível.
Na sala principal,
ala nova, com direito a marketing.
Existe um processo, Gretchen.
Tinha um conceito glorioso para apoiar o meu antigo patrão,
e suposto museu de arte contemporânea de Los Angeles,
com a primeira exposição do Dease!
Apreciamos a consideração,
mas há a questão do espaço.
Muda o Horse Penis do Banyo ou a Jeweled Vagina.
Põe um dentro do outro, quero lá saber.
Há a questão fiscal, e o meu cliente quer o Dease exposto já.
E, em troca pela minha oferta generosa,
também quero que exibam a Sphere do Minkins.
Vá lá Gretchen, isto não é um bazar.
Não, é uma equação com uma solução no final.
Se não percebes isso,
garanto-te que existem outros museus
que percebem.
Beijinhos.
CENTRO ADMINISTRATIVO DE VETERANOS
CENTENÁRIO DO HOSPITAL DE VETERANOS DE SAWTELLE
Lamento.
Não o vi aí.
Olá.
Chamo-me Morf Vanderwalt.
Estou a pesquisar Vetril Dease.
Estou... a escrever um livro sobre ele.
Para quê?
Tornou-se um artista importante
no estilo da arte bruta.
Trabalhou com ele?
Dezoito anos.
Seria extremamente útil, se pudéssemos falar um pouco.
Tenho tantas perguntas e poucas pessoas o conheciam.
Podia ter falado com um determinado veterinário.
Tinha algumas medalhas e uma boca grande.
Gostava de provocar, especialmente o Dease.
Acabou morto num campo.
De mãos atadas.
Nunca encontraram o responsável.
Está a dizer que foi o Dease?
- Credo. - Porra!
Estou a dizer para o deixar em paz.
Não tenho mais nada a dizer. E pode dizer isso ao outro tipo também.
Quem?
O que veio cá ontem.
Não sei quem poderá ter sido.
Tome.
RAY RUSKINSPEAR INVESTIGADOR PRIVADO
Confirmámos que o Dease esteve preso durante 20 anos,
com documentos legais, registos policiais,
e histórico de emprego.
O Dease deixou o Orfanato dos Bons Templários aos 18 anos.
Foi recrutado.
Serviu dois anos no exército.
E quando saiu,
sofreu um esgotamento.
Nessa altura,
encontrou o pai abusivo e matou-o.
Não o matou logo.
Demorou dias,
torturou-o e queimou-o vivo.
O Dease passou duas décadas num hospital psiquiátrico para criminosos.
Os presos eram utilizados para experiências médicas.
Injeções... choques...
Sabe-se lá mais o quê.
Eram cobaias humanas.
Libertaram-no, quando o tribunal encerrou o local.
Daí, partiu para LA,
arranjou trabalho na casa de veteranos e viveu isolado.
Sem conta bancária, carro, carta.
Nem uma foto consegui encontrar.
E verificaste tudo isto? Tens a certeza?
Tudo bate certo.
Estes são os factos.
Muito bem, publicarei isto amanhã.
Fala com a imprensa, prova as tuas credenciais,
a autenticidade do ficheiro e a natureza atroz
e perturbadora do que encontraste.
Achava este tipo de coisa aumentaria o valor da sua obra.
Não.
Isto é outro nível.
- Tem uma boa noite. - Boa noite.
VETRIL DEASE
RUSKINSPEAR E ASSOCIADOS
Daqui fala Morf. Deixe mensagem.
Como estás, Morf? É o Jon.
Liga-me assim que puderes. Tenho algo sobre o Dease,
que acho que te poderá interessar.
Está aí alguém?
Está aí alguém?
Que raio?
Jon?
Jon?
Estamos aqui presos, não estamos?
Que música foleira é esta?
E o caixão. Que cor é aquela?
Laranja fumado?
Comprou em saldo?
Não fales tão alto.
A sério, imagina passar a eternidade ali.
Meu Deus. Nunca nada é bom para ti.
É o meu trabalho. Sou seletivo.
Que sugeres?
Deixar de ter bom gosto e padrões?
Sussurrar a verdade?
Que mundo trágico seria esse.
Olá.
Sou a Josephina.
Trabalho com a Rhodora. Sou sócia da galeria.
- Certo. Sou o Damrish. - Claro.
- Sou fã do teu trabalho. - Obrigado.
Sou responsável pela coleção Dease.
- É sobrenatural. - Obrigada.
A tua crítica do Vagabundo arruinou a venda.
Em vez de estar exposto, está a ganhar a pó no armazém.
Não sou o teu porta-voz.
Meu Deus.
Competíamos por tudo,
mas desprezo ter de estar aqui.
Por que estava ele a passar, para fazer algo assim?
Ele estava fútil como sempre, da última vez que falámos.
Tinha começado novamente a beber.
Que bom.
Esta zona é para a família e amigos.
O Jon começou na minha galeria, onde que quer que me sente?
Senhoras e senhores, vamos começar.
Tomaste Viagra ou assim?
Estou quase.
Não. Tenho de ficar por baixo.
- Não. - Não consigo ficar assim.
Sim.
Abre os olhos.
Estou aqui em baixo.
Porra.
Algo se passa.
Temos um problema do caralho. Literalmente.
Estou a ver coisas,
coisas a mexerem-se.
A sério, estou assustado.
Excitava-me a tua paixão.
Ouvir a tua mente brilhante, e agora tornaste-te não sei em quê.
As tuas críticas pioraram,
e ainda sentes algo pelo Ed, admite.
Não sinto nada pelo Ed.
Ele disse à Gretchen que vocês falaram, estavam a resolver as coisas.
O Ed é um grande mentiroso,
e a Gretchen é uma cabra!
Vi o teu telefone. Tinhas seis chamadas.
Ele ia mudar-se, estávamos a combinar as coisas.
Como assim as minhas críticas pioraram?
O teu olho...
A tua intensidade...
Faz sentido, não sabes do que gostas ou que queres.
Digo-te do que gostei.
A exposição do Ricky Blane.
Mas pediste-me para o arrasar!
Não me ponhas as culpas em cima.
Como se fosse a tua primeira má crítica. Poupa-me.
Não te estou a culpar.
Estou a dizer que me arrependo.
Olha,
acho que tenho passado demasiado tempo
a olhar para todas estas obras e material do Dease.
Vou ao oftalmologista.
Isto vai passar.
Escuta a minha mente inteligente.
Então?
Não me entusiasma.
É um pequeno passo, suponho, em direção a algo,
mas sejamos francos.
O que receias?
Já nos conhecemos há muito.
Quero partilhar algo contigo.
"A dependência mata a criatividade.
A criatividade brinca com o desconhecido.
Não existe qualquer estratégia que possa definir o reino infinito
da novidade.
Apenas a confiança no próprio permite ultrapassar os medos e o conhecido."
Escrito pela Polly Anna, em 1983.
Encontrei-o no seu apartamento,
depois da overdose dela.
Desisti de ser artista há muito,
mas sei como isto funciona.
Esquece o mundo da arte.
Precisas de te afastar disto. Fazer uma pausa.
Usa a minha casa na praia e fica lá,
até fazeres algo para ti próprio.
Qual é o melhor? Primeiro.
- Segundo. - Segundo.
Muito bem. Segundo.
Primeiro. Melhor, pior ou igual?
Igual.
Muito bem. Aqui vamos.
Pronto. Ora bem...
... a sua acuidade melhorou, desde a última vez.
Esperava que encontrasse algo que pudesse explicar o que se passa.
Os movimentos fantasma?
Acho que tenho a síndrome de Charles Bonnet.
Alucinações, visões, objetos a mover-se.
Foi à internet. Pois...
É muito improvável sem outros sintomas.
Mas marcamos outra consulta esta semana.
Dilatei as suas pupilas,
por isso, use isto durante umas horas.
São horríveis.
Merda.
Porra.
Sim, quem fala?
- Sou eu. - Espertinho. Bloqueaste o teu número.
Porque nunca me atendes.
Depois da tua mensagem de ontem, estás surpreendido?
O quê?... Eu...
Disseste à Josephina que ainda estou com o Ed?
Ah, foi por isso?
Nós acabámos. Falei com ele por causa das mudanças.
Espero um pedido de desculpas.
O Ed disse-me que havia mais qualquer coisa.
Limitei-me a contar o que ouvi.
És uma anedota!
Eu... não tens credibilidade nenhuma!
A sério? Bem, nesse caso,
também deve ser mentira que a tua amiguinha Josephina
anda com o Damrish, com quem, devo acrescentar,
está, literalmente, prestes a partir para ver o pôr do sol.
Gita?
Sim.
Olá.
- Sou Morf Vande... - Vanderwalt.
- Sim. - Claro. Conheço o seu trabalho.
Sim.
Esses são os novos Persols?
Sim, isso mesmo.
Isso é um Freud.
- Sim, é. - Nunca tinha visto este.
Está numa caixa desde 1992.
E vai voltar para outra.
Adorei a sua brochura da exposição do Dease, já agora.
Obrigado.
Como disse pelo telefone, quero expandi-la para um livro.
Bem, há muito aqui para isso.
Catalogou a coleção, antes da venda.
Não cataloguei.
A minha prioridade foi a sua metodologia distinta.
Demorei três semanas a identificar convenções, fluxo, classificações.
Era impossível distinguir o trabalho em curso dos...
... bens pessoais.
Honestamente, fiquei feliz por ter terminado.
Não sabia que havia bens pessoais para além dos que tenho comigo.
Nada no sentido tradicional.
Refiro-me a tecidos.
Papel?
Talvez devesse falar com a Rhodora.
A Rhodora...
... apoia o livro.
Tenho o seu apoio total
e confiança, claro.
Com tecido quero dizer plasma sanguíneo.
Do artista, presumo.
Ele utilizava-o para criar os pretos avermelhados e as sombras.
Estava em todas as peças que analisámos.
Isso é inaceitável. Mesmo vindo de ti.
Não compreendo a renitência em fazer
uma retrospetiva da obra de Minkins no outono.
Já concordámos em integrar a Sphere
em troca dos doze Deases.
A sério, Gretchen, é rude e idiota.
Se querias impor mais obras do teu colecionador
para lhes aumentar o valor,
devias tê-lo feito antes do negócio do Dease,
não na noite antes da abertura.
Sei que o marketing espera poder tornar a coleção Dease itinerante.
Até já fizeram projeções.
A minha "vantagem" é considerável.
Não há qualquer espaço para uma exposição sobre Minkins no outono.
Vou reunir-me com o vosso conselho amanhã
e sugerir uma redução na exposição de artistas emergentes.
De qualquer maneira, não vendem bilhetes.
Por cima do meu cadáver.
Gretchen?
A cópia física do material de imprensa está feita,
e os kits eletrónicos serão enviados à meia noite.
Vem cedo.
E mantém-me informada sobre celebridades ou artistas.
Se não te importares, queria ir para casa
e dormir um pouco.
Corrigiram a luz na Sphere?
As luzes laterais, sim.
Pedi que as deixassem ligadas para veres antes de ires.
Então, vai lá.
Boa noite.
EVOLUÇÃO DE UMA ESFERA
ESCOLHA UM BURACO PARA EXPLORAR
Ajudem!
O MEU ANIMAL GOSTA DE CARINHO
Por favor ajudem! Ajudem!
Estou?
Não.
Quando?
Esta manhã.
Ficou presa lá dentro.
Houve uma espécie de avaria que lhe...
... arrancou o braço e ela esvaiu-se em sangue.
Foi horrível.
Os guardas pensaram que fazia parte da instalação nova
e deixaram as pessoas entrar.
A exposição Dease foi anunciada ontem à noite,
por isso estava cheio.
Todos passaram por ela como fizesse parte da exposição.
Depois chegou uma visita de estudo.
Pensaram que era sangue falso,
por isso começaram a pisá-lo e espalhá-lo por todo o lado e...
... quem sabe quanto tempo aquilo teria durado
se a Coco não chegasse para falar sobre a exposição Dease.
Ela viu Gretchen e passou-se.
Ainda estás aí?
Rhodora?
Não compreendo.
Bryson, depois Jon. Agora a Gretchen.
Que raio se passa?
Não sei.
Ainda ontem a vimos.
Fecharam aquela ala do museu,
mas a exposição do Dease está cheia.
Sai daí.
Estamos em alta no Moments e no Instagram. É um sucesso.
Rhodora, ainda estás aí?
Ouviste o que eu disse?
Sim.
A exposição sobre Dease está a ser um sucesso.
Está alguém à porta. Tenho de ir.
Já sabes...
... da Gretchen?
Sabes?
Caramba.
Dá para acreditar?
Tens de te ir embora. Não podes entrar assim.
Preciso de estar com alguém. E acho que tu também.
O que se passa?
Estás a gozar comigo?
Não estávamos juntos. Fui clara.
Disseste "um tempo".
A admiração que tinha pelo teu trabalho evaporou-se por completo.
Ouve, não te queria provocar, percebes?
Ela disse que tinham acabado.
Acabámos?
Diz-me que não partilhamos algo real.
Nunca estive verdadeiramente obcecada.
Pensávamos que vinha ontem.
Até encerrámos a exposição durante meio dia.
Pensei que a Artweb tinha sido clara quanto ao timing.
Eu sei, lamento. A culpa é minha.
Sei que é uma pré-estreia.
Tive alguns problemas pessoais.
E depois, claro, a Gretchen, esta manhã.
- Se não for uma boa altura... - Não, tudo bem.
Já era tempo.
Escrevo a minha crítica e envio-a hoje.
Lillith Vanlandingham está a fascinar o mundo
com as suas exposições sonoras revolucionárias.
Ganhou o Prémio Nam June Paik, no ano passado.
A sua última obra chama-se Mysticete.
Tal como discutido, preparámos tudo para que a possa experienciar sozinho.
Olha para ele ali.
Apenas aceita o que conhece.
Sem dúvida, uma das piores exposições da história de arte contemporânea.
Peça por peça, o maior desperdício de metal desde o Titanic.
Esta exposição devia ser destruída.
Se tirarmos o fator moda, a sua última obra é aborrecida.
A sério, Mna. Minati, estou a falar consigo.
Parece que não tem ninguém que o diga.
Pare.
Pare com a choradeira.
Não há nada com qualidade nesta exposição.
Nada, senão embaraço...
É uma peça horrenda e meio repugnante.
Passou de inocente e estúpida...
Odeio-te para sempre por teres dito isso!
Mal escondida.
Vil.
Enganosa!
Enganosa!
Morf!
A crítica deve ser criticada.
É tão mau hoje como...
É um falhanço monumental.
Morf!
Morf, destruíste-nos!
O Ricky Blane é o exemplo clássico do imitador que tenta passar por inovador.
O exemplo clássico do imitador que tenta passar por inovador...
Lamento a demora, tivemos problema com o computador.
Nós... vamos começar agora.
O que acabei de ouvir?
Nada. Esta sala é insonorizada.
Voz...
Vozes.
Não faço ideia.
A Mysticete é uma sinfonia de cantos de baleias
gravados no fundo do oceano, na Fossa das Marianas.
Está preparado?
Ando a ver coisas.
E a ouvir coisas.
Coisas inexplicáveis.
Coisas impossíveis.
E isto é difícil de admitir,
como um adepto do aqui e do agora
e como negador de crenças infantis.
Mas está a passar-se algo realmente muito estranho, porra!
O que aconteceu ao Bryson?
De acordo com a Polícia, ele teve um acidente
e perdeu-se no deserto.
Falei com a Polícia.
Têm imagens de videovigilância da noite em que o Bryson desapareceu.
Estava a carregar a carrinha com caixas de obras de arte.
Muito bem.
O que estava nas caixas?
E que tem isso que ver?
Dease!
O estado alterado, alma torturada,
fases da porra da lua!
Não sei como!
Estas mortes,
o desaparecimento,
tudo o que está a acontecer,
está tudo relacionado com as suas obras.
Imbuídas de um certo espírito.
Criado a partir de um ideal vital.
É um pouco Barroco, não achas?
- Vim para te avisar. - Muito bem.
Sabes que mais? Têm sido semanas de merda!
Ouve o que estás a dizer!
Falei com os donos do prédio, para a pesquisa.
Ficaram surpreendidos
quando souberam da venda das obras do Dease.
Pelos vistos,
ele deixou instruções explícitas para que fossem todas destruídas.
- O que estás a dizer? - Para de vender Dease!
É uma coleção de oito dígitos
e queres que deixe de vender por causa de um espírito?
Vou escrever sobre isto.
Sobre Dease, o seu passado, métodos, sobre tudo o que se passou.
- Vai arruinar a tua carreira. - Livra-te disso.
Armazena tudo.
É isso que eu vou fazer.
Toda a arte é perigosa, Morf.
Tem sido a loucura desde a abertura.
Fizemos contas e concluímos
que fomos forretas na oferta.
Enviei-te seis fotos de obras do Dease,
todas disponíveis para compra imediata ao preço referido,
mas destinadas a uma valorização significativa.
Todas. Isso é ótimo.
Vou enviar a papelada.
Muito bem. Sim.
Vejo-te em Basel.
O que se passa?
Fechamos a primeira fase do Dease. Porque estamos a vender mais?
O Morf está obcecado em escrever uma história.
Ligou o desaparecimento de Bryson
e as mortes do Jon e da Gretchen às obras do Dease.
Acredita que são um canal para uma espécie de...
... espírito.
Espírito?
Que tipo de espírito?
Não conheço os tipos.
Então, deixa-o escrever. Que interessa?
Não vendemos bens de consumo, vendemos perceção.
Frágil como uma bolha.
Usa os contactos, vende o máximo que conseguires,
antes de ele publicar alguma coisa.
- Quem se segue? - Tens o Roxy em espera.
Olá, querido. Estou a contactar-te pelos Deases que querias.
JOSEPHINA
Isso é seda. Tira os sapatos.
Abre isto.
Tens mãos fortes.
Já viste este quadro?
Reparas em alguma coisa?
Se olhares muito, move-se.
Está vivo.
- Já o vendi. - O quê? Eu teria comprado.
Não poderias pagar.
Não o queremos.
Acredita, estou a fazer-te um favor.
Tenho de ir à Traction Avenue.
Mas íamos passar a noite em casa.
Sim, surgiu um imprevisto, tenho de o resolver esta noite.
Estás a dar-me uma tampa?
Quero que venhas.
Porque me continuas a ligar?
Porquê?
Acabamos e tu escreves um artigo para destruir o meu sustento.
Não o fiz para me vingar de ti.
É a obra do Dease. Todos os que lucraram com ela estão em perigo.
E decidiste publicar?
Meu Deus. Estou a ler agora.
Perdeste completamente a cabeça?
Só nos apercebemos do valor dos amigos, quando eles desaparecem.
Ainda te considero uma amiga, Josephina.
Vai-te foder e apaga o meu número!
Muito bem, então.
Estou?
É o Morf.
Olá.
Tive uma alteração de planos.
Vou guardar algumas obras e vou partir imediatamente.
Preciso de uma assistente, enquanto estiver fora.
Bem, estou disponível.
Podes começar hoje?
Acho que sim. Claro.
Tenho de te dar as chaves da minha casa e do armazém.
Há um miradouro em Mullholland, depois de Cahuenga.
- Sei qual é. - Bom. Vemo-nos lá.
Sr. Vanderwalt. Olá.
Já o publiquei, Coco.
E com este artigo, estou... a dar cabo de mim.
É o meu fim.
Não tenho escolha.
Foi-me revelado
que existe um grande poder,
alguma entidade empenhada no nosso esforço.
Empenhada como?
Na violação...
... de regras invioláveis.
Terei enlouquecido?
A meu ver, não.
Encontrei os dois corpos.
Durmo com a luz ligada.
Além disso, se não arranjar trabalho em breve,
terei de voltar para o Michigan.
Tenho de lhe dizer uma coisa.
O quê?
Fui assistente pessoal da Rhodora.
Vi as suas verificações. Ouvi as chamadas.
Ela, por vezes, esquecia-se de que eu estava a ouvir.
Diz-me.
O seu ex-namorado, Ed,
trabalhou para ela.
Treinava com ela. É treinador pessoal.
Não.
A Rhodora pagava-lhe para saber as suas críticas antecipadamente.
Ele dizia-lhe o que tinha gostado, antes de o publicar,
e ela adquiria as obras.
Ainda tenho o emprego?
Estas são as chaves do armazém.
Preciso que tudo o que lá está seja catalogado.
Muito bem.
O meu carro está seguro lá fora?
Como raio hei de saber?
Onde foste?
Este é o Ben. Gere o meu antigo coletivo.
Olá.
Adorável. Já podemos ir?
Eu fico.
Mas não gosto deste sítio.
Sim, estou a falar a longo prazo.
Vou deixar a Rhodora, a galeria.
Não, não vais.
Não posso lá estar.
Planeámos uma grande exposição.
Estás drogado. Vamos.
Estou a falar a sério.
Estás prestes a tornar-te uma estrela.
Vamos tornar-te global.
Vais abdicar disso? Por quê?
Por um espaço numa garagem deprimente para vender graffitis?
Meu Deus! Para que serve a arte, se ninguém a vir?
Porra!
Sim, há um carro a bloquear o meu. Quero um reboque.
Não sei.
Espere.
Dois-zero-cinco-sete, Seventh Street.
Estou à espera.
ARMAZÉNS
Está aí alguém?
Estou só à espera de um reboque.
Graças a Deus.
JOSEPHINA
Estou?
O Damrish vai deixar-nos.
Encontrou-se com expositor antigo num bar e disse-me que vai voltar.
Acabou.
Que bom para ele.
Que queres dizer com isso?
De que estás a falar?
Josephina, sabias que o Dease pediu
para destruírem todas as suas obras?
Teria alterado alguma coisa?
Tê-las-ia destruído?
Não.
Ele era um mestre.
Caramba. Espera, Josephina.
Stella.
Stella.
Raios partam.
Já se sentiu invisível?
Outrora, construí uma ferrovia.
Rhodora?
Rhodora?
Vá lá Stella. Vá lá.
Stella, anda.
Linda menina.
Vá lá, Stella! Porra!
Stella!
Stella!
Rhodora?
Credo.
Ai meu...
Ai meu...
Não!
Eu compreendo!
Eu compreendo!
Não o posso salvar.
Meu Deus, não acredito no que aconteceu.
Josephina? Estou?
Onde?
Caralhos me fodam!
HAZE
O quê?
Como?
Num armazém?
Bem, o que acham aconteceu?
Não.
Hoje não vou.
Tenho de desligar.
JOSEPHINA
Atende o telefone.
Olá. Sim, já está.
Não há sinal do dono.
Vamos levar o carro.
Sim.
Está tudo.
Tudo?
Cada imagem, desenho, postal,
cada obra de arte? - Sim.
- Diga. - Está completamente vazio.
Quarenta e sete peças. Tirámos tudo.
Obrigada.
- Aeroporto. Terminal cinco. - Muito bem.
VELVET BUZZSAW
- É lindo. - Pois é.
Quanto custa?
Não sei. Cinco dólares.
Está bem.
Obrigado.
Aqui tem.
- Obrigado. - Fiquem bem.
Legendas: André Alves
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