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Original subtitles

- Art Subs - 10 anos fazendo Arte para voc�!

Legenda - BethRockefeller -

Legenda - Frederic -

Revis�o - Frederic -

Esta obra � do artista argentino Renzo Nervi,

famoso pelo mundo por sua pol�mica hist�ria de vida.

N�o se perguntem o que significa.

Arte n�o � a mera representa��o da realidade.

A arte pode criar sua pr�pria realidade.

N�o pense: "eu n�o entendo".

N�o h� o que entender.

A ideia � engajar-se na experi�ncia

que a obra prop�e aos seus sentidos.

E para faz�-lo n�o � preciso ser especialista ou professor.

De modo algum...

Proponho que disponham de um minuto para absorver a obra.

Apenas um minuto.

Aposto que a maioria nunca dedicou algum tempo

para prestar aten��o a uma pintura,

como talvez j� o tenham feito com um livro ou filme.

A quest�o � mais simples com as artes visuais.

Agora os deixo com a obra. V�o em frente.

MINHA OBRA-PRIMA

Muito bem...

Por favor, atr�s da faixa.

Buenos Aires � a melhor cidade do mundo.

Mas, paradoxalmente, tamb�m pode ser a pior.

E esse contraste

� o que a torna t�o sedutora.

Outro destaque da cidade s�o as pessoas.

Viajei pelo mundo todo.

Conhe�o bem Nova Iorque, Londres, T�quio.

Mas a ambi��o e a loucura de Buenos Aires

a tornam absolutamente �nica.

Algu�m disse que � a capital

de um imp�rio que nunca existiu.

Tem algo da sofistica��o das capitais europeias,

mas com a exata e necess�ria cota de decad�ncia

que faz com que n�o tenha a beleza excessiva de Paris.

Buenos Aires � ca�tica, imprevis�vel,

cruel, contradit�ria.

Mas s�o justamente esses defeitos

que a fazem respirar.

Tudo pode acontecer em Buenos Aires.

Desculpem. Me deixei influenciar pela paisagem.

Na verdade, n�o pretendia falar sobre Buenos Aires.

Queria me apresentar e contar-lhes um segredo.

Meu nome � Arturo Silva, e sou marchand de Arte.

O segredo...

o segredo � que sou um assassino.

A hist�ria come�a e termina com um homem.

Um grande artista e amigo.

Renzo Nervi.

CINCO ANOS ANTES

Renzo, n�o s� n�o vendemos nada,

mas as cr�ticas foram devastadoras.

Aranovich, do Notici�rio Nacional, disse textualmente

que n�o entende como no s�culo XXI

insisto em um artista preso no s�culo passado.

Ligou para ler a cr�tica de um idiota de um jornal?

N�o, liguei porque sua exposi��o termina esta semana.

Voc� n�o deu uma �nica entrevista � imprensa.

Nem mesmo apareceu na inaugura��o.

Renzo, as pessoas querem conhecer o artista.

Um pouco de rela��es p�blicas, querido!

Certo, mas o papel de palha�o � seu!

O mundo mudou, Renzo.

N�o sei se percebe isso da pocilga onde vive.

Voc� tem que se atualizar, se modernizar.

Voc� j� terminou, cara?

Para completar, voc� se faz de dif�cil!

H� 10 anos n�o vendo um maldito quadro seu!

Voc� deve uma boa grana. Como vais me pagar, cacete?

Perd�o.

Est� bem, est� bem. Desculpe-me.

N�o se preocupe, encontrarei uma solu��o.

Muito bem, Renzo. Certo.

� uma obra magn�fica.

Mais uma vez a ironia, o sarcasmo...

- Quanto custa? - 10 mil d�lares.

- E este outro? - O mesmo.

Uma vis�o cr�tica do poder.

Da frivolidade.

� seu dia de sorte.

A� vem o pr�prio artista,

Renzo Nervi. Vou apresent�-lo a voc�.

Renzo, quero lhe apresentar...

A� est�. Agora est� modernizado.

Agora venda-o para algum imbecil

que queira compr�-lo.

Devo chamar a pol�cia?

- Sim? - Renzo, certo?

- Sim. - Sou Alex.

Como vai? Muito prazer.

- E...? - Bem...

Gostaria de ter aulas de pintura com voc�.

Quem mandou voc�? Como chegou aqui?

Perguntando.

- A quem? - A muita gente.

Todos concordam que voc� � o �ltimo pintor de verdade.

Voc� � uma lenda viva.

Uma lenda viva?

N�o aceito mais alunos.

Avisaram-me que voc� era dif�cil de se lidar,

e muito exigente.

Mas, por favor, me d� uma chance. Teste-me.

N�o tenho mais vagas.

Senhor, quero ser seu disc�pulo.

Perd�o, sou meio teimoso.

Ent�o voc� � teimoso?

Est� bem. Entre.

Voc� � espanhol, obviamente.

Sim, senhor, de Madri.

Trouxe alguns dos meus desenhos.

O que faz aqui,

quando poderia viver num pa�s medianamente civilizado?

N�o diga isso.

Venho viajando por a� h� 6 meses.

Estive na Col�mbia, Peru, Bol�via, e agora na Argentina.

A vida aqui � muito...

- Deprimente. - Deprimente...

Quero conhecer em primeira m�o

a realidade dos pa�ses emergentes.

Emergentes? Eu os chamo

"pa�ses com capacidades diferentes".

Para mim, a Argentina � fascinante.

Tem muitos contrastes.

Contrastes? Certo, vamos come�ar.

Deixemos claro que isto � um teste.

Depois veremos se voc� fica ou vai embora.

- Siga-me. - Certo.

Primeira aula. Observe com muita aten��o

todos os objetos que est�o nesta sala. Todos.

A l�mpada, o caiaque, os Bambis,

a m�quina de costura. Todos mesmo.

Mas sem tocar em nada, s� observando.

- Mas qual � a ideia? - N�o importa.

- Voc� j� vai entender. - Mas que devo ver?

A primeira coisa a fazer � sentar-se e observar

nos m�nimos detalhes todos os objetos nesta sala.

Creio que duas horas ser�o suficientes.

Esta � Laura, tamb�m � uma aluna.

- Este �... Como se chama? - Alex.

Alex � um novo aluno.

Come�ou hoje, est� em experi�ncia.

Certo. Vou para a faculdade.

- Certo. - Esqueci de contar,

o senhorio ligou ontem e disse que deves 8 meses de aluguel.

- Se n�o pagar esta semana... - Certo.

Diga �quele explorador de merda que se tem algo a me dizer,

que venha, toque a campainha e diga na minha cara,

se for capaz.

Melhor voc� mesmo dizer isso a ele.

- Tchau. - Tchau.

Sente-se.

- Bonita sua namorada, mestre. - Sente-se.

Arturo... � Renzo.

N�o quer falar comigo, s� com voc�.

- Disse que eu estava? - Disse.

- Eugenia... - Desculpe.

- Al�? - Ol�.

Voc� vendeu o quadro em que eu atirei?

Se n�o, voc� � um mau vendedor.

Pois fiz o que me pediu, modernizei o quadro.

Olhe, n�o tenho interesse em falar com voc�.

Mas te informo que balear obras de arte

j� foi feito mil vezes. Voc� n�o entende nada.

Al�m de violento, voc� � ignorante.

Eu sei, eu sei. Desculpe. S� estou brincando.

Eu me descontrolei. Desculpe, desculpe.

Ainda bem que reconhece.

Estamos embalando todas as suas obras.

Eugenia ligou para voc� para entreg�-las,

junto com a conta pelos seus estragos na galeria.

N�o, na minha casa n�o, n�o tenho espa�o,

� uma bagun�a esta casa. � imposs�vel.

Minha obriga��o � mand�-las para voc�. Fa�a o que quiser.

N�o sei, fa�a um churrasco com elas,

ou jogue-as no lixo.

Aqui n�o � dep�sito de lixo, Renzo.

V� pra puta que te pariu!

Lixo! Merda!

O que voc� faz aqui? O que quer?

Faz quase 3 horas que estou observando.

Segunda tarefa...

Tire tudo que est� aqui,

todas essas porcarias, os trastes, tudo,

e ponha ali.

De modo que aqui n�o fique absolutamente nada. Nada.

- E para qu�? - Depois voc� saber�.

Que n�o fique nem um peda�o de papel.

De acordo?

At� mais.

Depois do reboco, podes pintar?

Sim, senhora.

- Pode embalar aquele? - Claro.

Mande tudo de uma vez para ele. N�o vou voltar.

Contei ao Sr. Larsen sua ideia de incorporar obras de arte

ao patrim�nio da empresa.

Pensamos que talvez fosse interessante

uma obra hist�rica para o sal�o principal da nossa matriz.

E se em vez de comprar uma obra hist�rica...

que acham de encomendar uma pe�a original,

feita especialmente para voc�s?

Convoquem um grande artista,

pe�am a ele que fa�a uma obra para esse fim.

Essa obra poderia at� referir-se � empresa.

Parece bom.

Naturalmente, o investimento seria mais alto,

mas... � outra coisa.

� uma obra original.

Feita sob encomenda.

E quem seria o artista?

H� muitos pintores excelentes.

Me deem alguns dias e trarei uma proposta.

Ol�.

- Oi. - Oi, oi...

- Pare, o que est� fazendo? - Que foi?

- O rapaz ainda est� aqui. - E da�?

Vamos ver as fotos.

Veja.

- E ent�o? - Sim.

Diga-me alguma coisa.

- O qu�? - O que acha delas?

Voc� � muito bela.

A juventude � bela.

Depois tudo vira uma merda.

Um beijinho.

- Pare, s�rio. - Que �?

- Diga-me o que acha. - Deixe-me ver.

Eu mesma as tiro.

S�o interessantes.

- Interessantes? - �.

� s� o que tem a dizer?

N�o sou um cr�tico, nem quero ser.

N�o sou ningu�m para dizer se s�o boas ou ruins.

Nem mesmo sei por que eu pinto!

Certo. Falando de novo sobre si mesmo.

N�o, n�o � isso. N�o posso afirmar

se isso � ou n�o art�stico. N�o seja malvada.

Sabe qual � o problema? Estamos juntos h� meses

e voc� n�o tem ideia do que penso, do que fa�o...

- Voc� nunca me viu! - N�o � assim.

Sim, voc� � um egoc�ntrico de merda!

N�o diga isso, seja gentil.

Voc� � muito ego�sta, sabe?

- Vamos... - N�o quero mais ver voc�!

Escute!

Ent�o v�!

Renzo Nervi?

N�o tem outro para dar um tal encargo?

N�o sei, algu�m mais jovem, menos problem�tico...

Mais civilizado, por assim dizer.

Chamei Desagastiz�bal, mas ele est� na Espanha.

E na verdade, um pintor competente

que fa�a uma pintura contundente

de tamanho grande, n�o conhe�o outro.

Infelizmente, Eugenia.

Al�m disso, ele n�o cria problema sobre dinheiro,

nem sobre porcentagem. E isso � importante.

E eu gostaria de ajud�-lo. Ele n�o tem onde cair morto.

N�o gosto mesmo dele.

Est� sempre flertando comigo ao telefone, usa palavr�es.

- Ele � nojento. - Ora, ora, ora.

� incr�vel ver voc� pintar.

O que �? Voc� j� terminou?

- Impec�vel. - Obrigado.

- N�o foi f�cil, mas acabei. - N�o, n�o acabou.

Agora vem o mais importante.

Lembra-se da observa��o que fez no primeiro dia?

Agora voc� tem que trazer tudo de volta

e botar os objetos no lugar em que estavam.

Este � um exerc�cio de mem�ria,

por isso voc� ficou tantas horas observando,

como eu havia pedido.

Leve todo o tempo que precisar

para fazer isso conscientemente.

Voc� tem no m�nimo uma semana.

Comece.

Vejamos. Alex, rapaz!

Venha c�.

Leia isto, por favor.

Vejamos o que diz.

"Este � um aviso de demanda. Tem 24 horas

para desocupar o im�vel

localizado na rua Pedro de Mendoza, 1.671

na cidade de Buenos Aires,

sob pena de despejo e outras a��es legais..."

- Perfeito, �timo. Obrigado. - Mas isto �...

Nada. Um s�bio chin�s disse:

"N�o fales se n�o achar que pode melhorar o sil�ncio."

V� trabalhar. � o que lhe diz uma lenda viva.

Obrigado.

Filho da...

Olhe, aqui est�o eles.

Oi, o que h�?

Estamos esperando l� em cima, por que n�o subiu?

Finalmente uma mostra decente na sua galeria!

Muito bem, parab�ns.

- Obrigado. - Arte contempor�nea.

Quem � o g�nio?

� um jovem artista argentino.

Mora em Berlim. J� vendi 5 pe�as dele.

Que porcaria!

A porcaria foi vendida.

Voc� n�o entende nada, n�o adianta.

A obra desse rapaz � maravilhosa.

Esque�a. Preste aten��o.

Fiz um esbo�o de obra para uns caras e disse que foi voc�.

Eu tinha que apresentar algo.

Voc� fez um esbo�o?

Fiz s� um desenho, nada mais. E eles adoraram.

Execut�-lo ser� moleza para voc�.

N�o sabia que voc� era pintor.

N�o se fa�a de bobo e preste aten��o.

O velho se chama Alberto Larsen.

� o dono da empresa. O cara ao lado dele

� um bajulador encarregado dos investimentos da fam�lia.

Entramos juntos, fa�a seu papel preferido,

o artista introvertido que n�o fala,

e eu lido com a situa��o.

- Arturo... - Ol�, linda!

Est� vendendo como novo algo que � velh�ssimo.

Duchamp fez isso h� mais de 100 anos.

Voc� est� mais linda do que nunca.

O bom � que, apesar da agenda lotada,

Renzo se interessou por este projeto.

Renzo, o Sr. Larsen e a fam�lia dele

se encantaram pelo seu esbo�o.

Isso � bom. Posso ver?

Minha netinha gostou demais.

Que bom para a sua netinha!

Renzo, conte-nos como se inspirou para fazer essa obra.

Conte a eles.

O artista s� fala atrav�s de sua obra.

Ent�o contarei eu.

Renzo se referia � hist�ria da empresa,

desde a chegada, da Noruega, dessa fam�lia de vision�rios,

at� se tornar essa imensa empresa.

- Excelente. - Ser� uma obra-prima

ao estilo dos grandes muralistas mexicanos,

mas atual.

Uma pe�a sob medida,

sobre o que significa a empresa Larsen,

mas tamb�m na medida que necessitam

para exibi-la no sagu�o de entrada do edif�cio.

- � dois por um, certo? - Sim, exatamente.

Perfeito, ent�o.

Ele est� muito entusiasmado.

Pronto. Perfeito.

Veja que pintor. Eu com certeza compraria este retrato.

Ent�o compre-o.

Veja quanto tem no bolso, talvez possa compr�-lo.

Voltemos � realidade. Sente-se.

Foi tudo bem com os Larsen, n�o?

A obra deve ficar pronta...

Sinto muito, mas francamente n�o sei se posso fazer isso.

N�o estou acostumado a pintar sob encomenda.

Isso poderia ser feito por um estudante de Arte.

J� que voc� tem dinheiro sobrando...

N�o � isso, � que me custa pintar

para uma fam�lia de exploradores filhos da puta

como se fossem her�is.

� complicado.

Claro. Voc� � um artista independente.

Exatamente.

Picasso era independente, Renzo, porque fazia o que queria.

E tamb�m trabalhava por encomenda.

Era milion�rio e genial.

N�o h� contradi��o nisso.

Por que voc� � t�o preconceituoso?

N�o pe�o que fa�a uma obra para Hitler.

S�o escandinavos que vieram ao fim do mundo

para ganhar dinheiro, como todos na �poca.

Como em todas as �pocas, enganando as pessoas.

Voc� � cansativo.

Sempre com esse discurso in�til.

N�o consigo trabalhar assim, Arturo, entenda.

Voc� n�o tem escolha.

Tenho que dizer... sempre que menciono o seu nome,

sempre me dizem "Renzo Nervi?"

"Pensei que ele tivesse morrido."

- Talvez tenham raz�o. - Voc� vai faz�-lo.

Repita comigo, "Mesmo sendo um artista recalcado

e um velho babaca,

farei essa obra." Corte o papo furado.

Leve o esbo�o e aperfei�oe-o.

Tem que estar pronto em duas semanas,

pois � anivers�rio da empresa e me comprometi a entreg�-lo.

Duas semanas? Imposs�vel. N�o posso fazer isso.

Voc� o far�, ou pego o caminh�o de entregas

em duas semanas e levo a obra como estiver.

Tudo que voc� fizer eles v�o gostar.

E ela ser� exibida dentro da empresa.

Somente eles a ver�o.

Basta!

Muito bem.

Aranovich est� aqui, visitando a exposi��o.

- Aranovich? - O cr�tico?

- Sim. - Gostaria de falar com ele.

- N�o � necess�rio. - Sim, por que n�o?

- Ol�, Maur�cio. - Arturo.

- Como vai? - Bem.

Perd�o, eu queria fazer um coment�rio

sobre a cr�tica que voc� escreveu

sobre minha �ltima exposi��o.

Nervi, n�o costumo discutir minhas cr�ticas...

Se voc� se sentiu mal,

escreva queixando-se para o jornal.

N�o, por favor, Aranovich, voc� � livre

- para dizer o que quiser. - Obviamente!

E apesar de ter sido agressivo com minha obra,

sempre acabamos aprendendo com suas ideias.

� assim. Quem sabe, sabe.

Ora, agrade�o. Desculpem-me, tenho que ir.

- Tudo bem. - �.

Esse rapaz � �timo.

Como ele d� novo significado a objetos di�rios

do universo esportivo.

Muito lascivos.

- Parab�ns. - Obrigado.

Muito talentoso esse jovem.

- Bem, vou indo. - Tchau, Maur�cio.

E obrigado por analisar minha obra e estar aqui.

- Obrigado. - N�o, por favor.

- Muito prazer. - Tenho que ir.

Tire suas m�os de mim.

Obrigado, obrigado.

- Basta. - Obrigado.

- Bruto! Rato humano! - Pare, Renzo.

Perd�o. Aceite minhas desculpas.

Saia fora, voc� tamb�m.

- Renzo n�o est� bem. - N�o desculpo voc� nem ele.

Voc� � um galerista decadente e ele um med�ocre e selvagem.

� mesmo?

Lave a boca antes de falar de um artista como Renzo Nervi.

Voc� n�o � nada comparado a ele.

Aqui voc� n�o entra mais, Aranovich.

N�o entra mais!

Obrigado.

Certo. Vamos come�ar.

Tabeli�o. Avarento.

Vendedor de seguros. Melindroso.

Taxista. Colesterol alto.

Vejamos...

Assistente de marketing. Depressivo.

Estudantes do interior. Torta de ab�bora.

Bartender. Possui um Volvo antigo, dos quadrados.

Soci�logo peronista.

Dermatologista. Coleciona patos de madeira.

Empres�rio de jogador de futebol.

Escuta Supertramp.

Sim, Eugenia, diga-me.

Arturo, a Sra. Figueroa ligou.

Finalmente decidiu-se e quer comprar o nu de Nervi.

Aquela pintura antiga, lembra-se?

Sim, a mulher nua.

Ela disse que 5 mil n�o pode pagar,

mas ofereceu 3.500 d�lares em dinheiro.

Que velha p�o-dura!

Com certeza ela gasta isso em um jantar.

Diga a ela que sim, que est� bem.

Lembra-se do seu quadro da mulher nua?

- Lembro. - Uma boa not�cia.

Vendi para uma cliente. Vim peg�-lo para dar a ela

3.500 d�lares, meio a meio.

- N�o o tenho. - Como assim, n�o o tem?

- N�o, est� com Laura. - Qu�? Deu para ela?

- N�o acredito! - N�o comece. Calma.

Ligo para ela e troco por outro, sem problema.

- Tem certeza? - Tenho.

Vai. Bom.

Aqui.

Pronto. Pronto.

- Renzo? - Qu�?

Obrigado.

Oi, � Laura. Deixe sua mensagem.

Oi, Laurita, como vai?

Ora, j� passou.

Faz tempo que voc� n�o me atende.

Voc� tirou fotos novas? Gostaria de v�-las.

Vamos... Fale comigo. N�o foi grande coisa.

Beijos.

Vamos, vamos.

Tem certeza de que ela est� na faculdade?

Tenho.

Ali est� ele. E ela n�o o pendurou.

- Certo, vamos peg�-lo. - Sim.

N�o, pare...

- Cacete! Quem � voc�? - Relaxe, garoto, relaxe.

Sou o pai da Laura.

E Laura?

Foi para a faculdade.

Escute. Estou muito preocupado com ela.

- Venha, venha, por favor. - Qu�?

- Qu�? - Este � meu...

Jer�nimo. S�cio do doutor

e amo Laura como a uma filha.

- Certo. - Isto deve ficar entre n�s,

- pe�o-lhe por favor... - Certo.

n�o conte nada a ela.

- Pegue o quadro, sim? - N�o se preocupe.

N�s temos que ir.

Tchauzinho! Tchauzinho!

Tchau.

- Tchau, meu caro. - Muito prazer.

Que bizarro!

Um pouco.

Est� bom.

- Muito bom. Excelente! - Obrigado.

Como continuaremos?

Espero que seja algo mais relacionado com arte.

N�o, n�o continuaremos. J� terminamos.

- Fiz algo errado? - N�o, n�o.

N�o, ao contr�rio. Voc� fez tudo certo.

- E ent�o? - Ent�o voc� se salvou.

N�o vai ser artista.

Como?

Desde o in�cio mostrou que � rigoroso,

consequente e sobretudo humilde.

N�o s�o atributos para um artista.

Para ser um artista de sucesso,

� preciso ser ambicioso e ego�sta.

Quem faz arte � porque n�o sabe fazer outra coisa,

� uma esp�cie de incapacidade.

Voc�, em vez disso, pode aspirar a ser algo

que seja �til para os outros.

Mas voc� � artista.

Sou um exemplo perfeito do que acabo de dizer.

Fa�o algo absolutamente in�til,

que n�o interessa mais a ningu�m.

Mas quero pintar porque...

sinto necessidade de me expressar

e dizer o que tenho para dizer.

N�o, n�o se deve dizer, mas fazer.

Somos o que fazemos...

n�o o que dizemos.

Escute-me, rapaz.

D� o fora daqui.

Sei que vai me odiar, mas daqui a um tempo

voc� vai me agradecer.

Mas, mestre...

Preciso � que me pague as aulas agora, por favor.

- S�o 2.500 pesos. - Como, 2.500?

- Voc� me disse 500. - Tudo aumentou.

Aumentou?

N�o os tenho aqui. Tenho que juntar.

- N�o sei, posso... - O mais breve, por favor.

Nem precisa tocar a campainha,

enfie o dinheiro por debaixo da porta, certo?

N�o se zangue garoto.

Mas traga o dinheiro, sim?

Est� bom.

E ent�o?

Muito bom.

Voc� trabalha bem sob press�o.

Nisso voc� � uma pessoa normal, viu?

Larsen vai adorar.

�, ficou bom. Mais ou menos.

A netinha � que tem que gostar.

Verdade, a netinha.

O frete vem peg�-lo amanh�,

o evento na empresa � ao meio-dia.

�timo! Isso me dar� tempo para uns retoques.

Que retoques? N�o, est� perfeito! N�o toque nele.

N�o, n�o. Sim, quero dar um �ltimo toque com a m�o.

A pr�pria obra diz quando est� terminada.

N�o me venha com essa, deixe isso para seus alunos.

Preciso de um adiantamento.

Preciso uns trocados.

Para comprar combust�vel para trabalhar � noite.

Escute. O frete vir� amanh� �s 9h.

- Certo. Pronto, obrigado. - Deixe pronto e embalado.

- Sim, perfeito. - Est� bom, muito bom.

Vamos, vamos, vamos.

Devagar. Cuidado com o degrau.

Mais para cima. Obrigado.

�timo. Obrigado.

�timo. Bem na hora.

Pe�o um aplauso para o autor da obra,

o artista Renzo Nervi.

Infelizmente, n�o p�de estar presente, por raz�es pessoais.

Mas seu representante veio em seu lugar,

o galerista Arturo Silva,

que foi o promotor principal deste projeto.

- Arturo, por favor. - Muito obrigado.

Assim como no Renascimento

os artistas criavam suas obras

gra�as aos mecenas que os apoiavam,

hoje a empresa familiar Larsen

continua essa nobre tradi��o,

encomendando a Renzo Nervi,

sem d�vida um dos artistas mais not�veis da Argentina,

esta obra magistral que celebra

e homenageia uma das fam�lias

que forjaram a grandeza deste pa�s.

Sr. Larsen, por favor, e sua neta...

Azul, certo? Venha, querida. Vamos.

Vamos.

N�o!

Como � a 4� vez que ligo e voc� n�o atende, a� vai...

seu b�bado de merda.

Seu cr�dito acabou. Acabou.

Voc� estragou a �ltima coisa que tinha, que era eu.

Seu lado selvagem assumiu

e voc� se tornou o velho ressentido que �.

Ent�o pode ir � merda

e espero nunca mais v�-lo na minha vida!

� uma brincadeira, crian�as!

Garoto, tome conta de tudo um instante,

que vou comer e j� volto.

Obrigado.

Muito bom.

Venha...

- Senhor? - Estava tudo �timo!

- Muito obrigado. - Mas deixo claro,

n�o me traga a conta porque n�o vou pagar.

- Como assim? - � o que voc� ouviu.

N�o vou pagar a conta.

Prefiro aproveitar outra dose desta graspa italiana

que est� maravilhosa.

Ande, ande, ande...

Senhor, aqui est� a sua conta.

Acabo de dizer ao gar�om que n�o vou pagar.

Senhor, n�o nos obrigue a chamar a pol�cia.

Esta comida � uma retribui��o m�nima

� contribui��o que como artista

fiz a esta sociedade de merda durante 50 anos.

- Senhor... - J� tomei esta decis�o.

E voc� deveria estar contente,

- porque s� melhoro a m�dia... - Por favor.

da clientela de desonestos e corruptos que voc� tem.

Traga-me a graspa que eu vou embora.

Obrigado, obrigado.

O que faremos?

D� a graspa a ele para que v� embora.

Voc� est� bem, senhor?

Melhor que voc�, com essa camisa, estou.

N�o v� que estou atravessando, idiota?

Velho imbecil!

Ol�!

Ol�!

Ol�!

Est� me ouvindo?

O m�dico disse que n�o lembras de nada.

Sabes quem sou eu?

Um caminh�o o atropelou h� alguns dias.

O levaram a um hospital p�blico

e eu o trouxe para esta cl�nica.

Voc� fez de tudo para morrer s� e abandonado,

mas n�o teve sorte.

N�o quero carregar esse fardo, ent�o aqui estou, novamente.

Est�s com tr�s costelas quebradas,

um joelho destru�do,

e levou pancadas muito fortes na cabe�a e nas pernas.

O levaram para a UTI e agora est� est�vel...

mas com amn�sia.

O m�dico pediu para ajudar a reconstruir seu passado

para exercitar sua mente.

Certo? De acordo?

Vamos come�ar do in�cio?

Seu nome � Renzo Nervi. Voc� � pintor.

Eu sou Arturo Silva,

seu galerista h� uns mil anos.

Ol�, como est� indo?

Esta foto � pr�-hist�rica: 1975.

A� estamos voc� e eu.

Somos amigos h� mais de 40 anos, Renzo...

Aqui estamos de f�rias.

Eu estava com In�s, rec�m a havia conhecido.

E voc� estava com a garota do momento,

acho que se chamava Beatriz.

Lembra de alguma coisa?

Veja. Minha antiga galeria, na rua Juncal. A� est� voc�.

Reconhece?

N�o importa, deixa pra l�...

Esta � sua obra.

Dos anos 80.

Claro...

- E vendia? - Sim, � claro.

Foi nessa d�cada que voc� estourou.

Vou deixar este livro,

tem muitas mais para que vejas.

Uma obra muito potente, muito pop.

Ganhamos muito dinheiro.

Voc� foi procurado por galerias muito mais importantes.

Ofereceram mais dinheiro, exposi��es no exterior...

E voc� recusou.

Escolheu nossa amizade, em vez do benef�cio profissional.

� algo que nunca esquecerei.

Um �poca boa. Nos divert�amos muito.

Vend�amos tudo o que voc� fazia. Tudo.

- E agora? - Agora, n�o...

Preste aten��o...

Veja esta mulher, a de preto.

Voc� a reconhece?

N�o.

- N�o a acha atraente? - N�o.

Foi sua esposa por 20 anos.

Raquel... Faleceu h� algum tempo.

Coitada.

Esteve muito tempo com uma polonesa...

- Que tal a polonesa? - Um desastre.

- N�o diga... - �.

Teu est�mago sempre foi um mist�rio.

Aqui estou eu com In�s, de f�rias.

Veja s�... com meu filho Agustin.

Tinha cinco anos, agora � um homem.

Tem 30 anos, mora nos EUA, � engenheiro...

- E voc� ainda est� com... - In�s? N�o.

- Nos separamos h� um tempo. - Que pena...

Tudo bem.

O que eu quero mostrar...

Aqui est�.

Este � o Agustin hoje.

Olhe para ele.

Voc� tamb�m tem um filho. Se chama Pablo.

Voc� o viu nascer, ficou uns dias

e ent�o se mandou.

Acho que a m�e se chamava Ester, uma rela��o casual.

Espera... consegui algumas fotos do Facebook.

Aqui est�, veja.

� um cara grande, viu? O gordo com a barba Van Dyke.

Esta � Ester, seria sua esposa,

e seus netinhos, gordinhos e bonitos.

N�o tivesse fugido, esta seria sua fam�lia.

� isso...

Veja o que eu trouxe.

N�o pude comprar o quadro de 1 milh�o que gostavas,

mas trouxe o cat�logo de sua �ltima exposi��o.

Obrigado.

Um celular, para que mantenhamos contato.

E os �culos que me pediste.

Foram muitas coisas...

O �ltimo per�odo foi muito dif�cil.

N�o vend�amos absolutamente nada.

Por que n�o vend�amos?

N�o sei, para mim voc� ainda � um pintor extraordin�rio.

Mas a moda muda...

A coisa foi virando para outro lado...

voc� foi ficando para tr�s.

E com o tempo, Renzo, voc� se tornou teimoso e antissocial.

"Todos s�o idiotas e n�o percebem como sou genial."

Imagine s�...

E quando conseguiu trabalho por encomenda,

o que poderia reergu�-lo,

p�s tudo a perder por ressentimento e bebedeira.

Este � meu amigo. Continue...

Foi despejado do pardieiro que alugava...

- S�rio? - Sim.

Penhoraram suas coisas, inclusive suas obras,

que est�o num dep�sito da Justi�a.

- Eu deveria ter morrido. - �, isso seria o ideal.

Mas � muito dif�cil que aconte�a algo sensato em sua vida.

Voc� n�o morreu. Ao inv�s disso est� aqui, um velhote,

todo quebrado e sem mem�ria. � um panorama...

Mam�ezinha!

Com cuidado, rapazes.

J� descarregaram as obras de Nervi.

S�o muitas.

Bem. Temos que separar...

as obras que est�o boas das que precisam de restauro.

Obras inacabadas e esbo�os de um lado...

E voc�, senhora, fotografe tudo.

Vamos.

Que tal come�armos com estas?

Ent�o trazemos aquelas...

Vejo, vejo...

O que voc� v�?

Uma coisa...

De que cor?

Preto, como o cu da ta m�e, a puta que te pariu!

Se manda daqui com esse nariz de merda,

n�o quero te ver de novo!

Bem, vamos melhorando, muito bem.

Melhorando o qu�? A puta que pariu...

Oi, Laurita. Obrigado por vir.

Santi, meu namorado. Arturo...

- Como vai, Santi? - Ol�, como vai?

Te devo desculpas, mas conheces o Renzo.

Est� tudo bem, n�o se preocupe.

Tem devo��o por voc�, por isso resolvi cham�-la.

- Eu entendo, mesmo. Tudo bem. - Muito obrigado.

Como eu falei, Renzo quase morreu.

Est� um pouco melhor, mas muito deprimido.

N�o se assuste quando o vir. Tente faz�-lo sorrir, se animar.

Espero que a reconhe�a.

Est� no quarto 303.

- Obrigado. - Vamos.

N�o, garoto, melhor ficar aqui. Fique aqui.

Ol�.

Me reconheces? Sabe quem sou eu?

Laura! Como vai, Laurita?

Bem, e voc�?

Velho asqueroso, mis�gino de merda...

agora que est� a� deitado, n�o ir� me espiar nunca mais!

Al�m disso, aviso que troquei a fechadura.

Quero que voc� apodre�a.

Agora estou com um homem que me come bem comida,

n�o como voc�, velho broxa!

Obrigado por tudo.

Muito obrigado, Laurita.

Ver voc� certamente fez muito bem a ele.

Muito obrigado.

Acabou.

Muito interessante. Muito.

N�o posso...

N�o vejo muita...

afinidade com a minha galeria. N�o � o que costumo...

Vamos ver, um momento...

Eugenia, preciso ir at� a cl�nica.

Por favor, tente encontrar para este artista

um lugar mais underground, mais afim com seu estilo.

Est� em boas m�os...

- Obrigado. - Disponha...

Assistiu muito � TV? At� muito tarde, vov�?

Este vov� est� meio surdo.

Sabes se os movimentos fisiol�gicos est�o bem?

N�o saberia dizer... Renzo?

O que ocorre � que os idosos desidratam facilmente.

Ele precisa beber muita �gua.

Ouviu vov�? Muita �gua, certo?

At� amanh�, se Deus quiser.

At� amanh�, enfermeira.

Arturo...

Tudo bem?

Bem n�o... Est� mal.

Quero acabar com tudo isto.

Por que diz isso? Voc� est� bem melhor.

Est� se recuperando.

Quando sair do hospital, a vida seguir� na cidade.

Na cidade cheia de gente de merda, com empregos de merda,

dentro de suas casinhas de merda...

Que profundo e desolador!

Sei que contou uma vers�o melhorada de minha vida.

Mas quer saber?

Me pareceu pat�tica mesmo assim.

Bem, qualquer vida contada desse modo

parece pat�tica e sem sentido.

- A minha, a sua... - Vou dizer s� uma vez.

Prefiro morrer do que seguir vivendo assim.

Quer me ajudar?

J� sabe o que deve fazer.

Agora o vov� vai dormir.

Tchau.

Que horror o que est� me contando.

Achei que esse cara j� estava morto.

� uma situa��o muito complicada mesmo.

Rec�m est� recuperando a mem�ria.

N�o tem um centavo sequer.

Estou ajudando como posso.

Que dif�cil...

A �nica coisa que lhe resta � sua obra,

a qual, honestamente, est� bastante desvalorizada.

Ele n�o existe, basicamente.

Sim, mas ele � �timo.

E se n�o sair dessa situa��o, o coitado...

Voc� entende, se ele morrer,

- os pre�os subir�o como loucos. - Podem subir, ou n�o...

Tenho toda a obra dele na minha galeria, toda.

Umas 200 pinturas.

O trabalho de uma vida inteira.

O que ofere�o concretamente, Dud�,

� que fiques com metade da obra. 100.

Em que pre�o est�s pensando?

1 milh�o de d�lares. Pense s�... � nada.

Uns 10 mil por obra.

Sabes que as pinturas do Nervi n�o baixam de 15 ou 20 mil.

N�o acho que estejam vendendo esse cara a 20 mil, honestamente.

E na verdade n�o � um artista que me desperte interesse.

E tenho d�vidas de que desperte interesse no futuro.

- 900 mil? - N�o barganhe, Arturo.

N�o disse que achava caro,

mas que o artista n�o me interessa.

Se comprarmos todas as obras a 300 mil d�lares,

sai 1.500 por obra...

N�o, � muito pouco.

Ele n�o tem ideia do dinheiro. Para ele � uma fortuna,

pode comprar tudo pelo pre�o que quiser.

Por isso a responsabilidade � maior, Eugenia.

N�o quero ferrar o Renzo, � meu amigo.

Quero pagar um pre�o justo.

A 2.500 por obra quanto d�?

Seriam 500 mil.

� muito, n�o posso pagar.

- Bom dia. - Oi...

Estava pensando... E meus bichinhos de estima��o?

- Os sacrificamos, � claro. - O qu�?

N�o, fique tranquilo...

Todo o zool�gico imundo est� a salvo,

gato, cachorro, p�ssaro.

O que faremos com a despesa do abrigo? � um dinheir�o.

Pe�o que deixe tudo como est�,

e al�m disso vou pedir que se responsabilize

caso algo me aconte�a...

Ent�o vamos falar de dinheiro.

Mas preste bem aten��o.

Al�m do abrigo que eu mencionei,

estou cuidando da interna��o, o que � muito caro.

Mas n�o � s� isso. Resgatei sua obra,

que estava penhorada num dep�sito da justi�a

e paguei a d�vida de aluguel, para que n�o sejas processado.

E como pagarei isso?

- Fique com toda a minha obra. - Sua obra est� salva.

Est� na minha galeria, n�o imagina o que era o dep�sito.

Ratos, goteiras... um nojo.

Estamos classificando e documentando tudo.

Voc� tem, aproximadamente, 200 pinturas.

Fazendo um esfor�o grande, Renzo, posso comprar sua obra

por 300 mil d�lares.

A raz�o de 1.500 d�lares por obra.

O dinheiro n�o me importa. Eu lembro de tudo.

Sei o amigo leal que foste por toda a minha vida...

E tenho enorme prazer em dizer-lhe...

Obrigado...

Tenho que trazer...

toda a papelada para que assines o certificado de autenticidade.

Ou n�o poderei vender para ningu�m, certo?

- Sim, querido... - Certo, j� chega.

- D� o fora daqui! - Perd�o...

Assine aqui.

Muito bem. Aqui.

Sim?

Ol�. Me chamo Alex. Fui aluno do Renzo h� algum tempo.

- Sim? - Sim.

Entre, por favor.

Como vai, garoto?

- Como voc� est�? - Que tal?

Vim cumprir minha palavra. Trouxe os 2.500 pesos.

N�o precisava...

Fui a sua casa e vi que n�o morava mais l�

Ent�o lembrei da intima��o, soube do acidente

e passei semanas procurando por voc�.

Sabes que sou teimoso.

N�o, voc� n�o me deve nada.

Devo sim. E mais importante...

queria agradecer por seus conselhos.

Porque naquele momento me sentia mal, frustrado,

mas com o tempo o entendi, e agora...

consigo medir a import�ncia do nosso encontro.

Porque... mesmo que negues, o considero meu mestre.

Mas que mestre, pare com isso.

Aqui est� o dinheiro das aulas.

N�o, por favor, guarde para voc�.

N�o, s�rio. O que aprendi com voc� n�o tem pre�o.

Por que n�o ajuda algu�m com esse dinheiro?

Renzo est� sendo bem cuidado, n�o precisa de nada.

Perd�o, insisto. N�o vou embora at� que pague minha d�vida.

Bem, ent�o aceite, Renzo.

Certo, deixe por a�.

O que voc� estava assinando?

Arturo, que � meu galerista e amigo pessoal...

aceitou minha obra, que n�o vale nada,

como pagamento por tudo o que lhe devo, sabe?

E ele est� pagando sua interna��o?

Quer dividir a despesa comigo, garoto?

N�o, n�o...

N�o recomendo, n�o sabes como � caro sofrer um acidente.

Ent�o, pensa em seguir com a pintura...?

N�o, n�o... Estou trabalhando como volunt�rio numa ONG

que � patrocinada pelo governo holand�s.

- N�o diga! - Sim, somos como uma patrulha

que... quando encontramos moradores de rua,

lhes damos comida, banho... Salvamos vidas.

Acho que esta � minha voca��o: Ajudar.

E tamb�m me dei conta disso por sua causa, mestre.

Porque n�o falamos, mas fazemos,

como me disse uma vez. Lembra?

Isso ficou na minha cabe�a, e n�o...

- Est� cansado, Renzo? - Sim, um pouco.

O mestre j� quer dormir.

Al�m disso, o hor�rio de visitas est� acabando.

Claro. Vou deixar um cart�o.

Ligue quando quiser, sabe que aqui tem um fiel seguidor.

Obrigado. Tchau, querido.

Quando vai para casa, mestre?

O mestre n�o voltar� para casa, ele n�o mora mais l�.

- Por favor... - Certo.

- Nos vemos. - Arturo...

- Mestre. - Tchau, querido.

Olha o jeito que ele...

- � um bom garoto! - Bem, � exagerado...

SOLIDARIZ-ARTE A ARTE DE DAR

Arturo!

N�o aguento mais.

- Ol�. - Arturo Silva?

Sim, sou eu.

� da cl�nica, sobre o paciente Nervi.

Aconteceu alguma coisa?

Ele est� aqui.

Se desconectou � noite.

Sai do quarto e foi para a enfermaria,

onde tomou tudo o que tinha.

- O encontraram inconsciente. - Puta merda!

Est� est�vel, se recuperando.

N�o ir� para o quarto at� amanh�.

Qualquer coisa me encontre na enfermaria.

Sim, muito obrigado.

FINAL

- Venha... - Sim.

- Podemos falar em particular? - Sim, claro.

Queria agradecer

por tudo o que fez pelo meu amigo todo esse tempo.

Imagine, � meu trabalho.

Mas para mim foi muito importante o que fez, e isto � para voc�.

Muito obrigado. N�o precisava.

Voc� merece.

Al�m disso, quero...

Quero pedir um favor muito importante.

Certamente n�o � a primeira vez que pedem algo assim, mas...

Preciso que me consiga alguma subst�ncia, uma droga...

para caso n�o melhore eu possa dar um fim na dor do meu amigo.

Algo que n�o deixe rastro.

O que aconteceu foi claramente uma tentativa de suic�dio,

e acho que Renzo tem todo o direito do mundo

de decidir se quer viver ou n�o.

Me mata v�-lo desse jeito.

Um cara cheio de vida...

� s� por preven��o, n�o quer dizer que v� usar.

Dissolva em qualquer l�quido.

� fulminante e indetect�vel.

- Este encontro nunca ocorreu. - � claro. Muito obrigado.

- Boa sorte. - Obrigado. De verdade.

Se est�o assistindo isto,

quer dizer que eu...

estou morto.

Nasci no ano 332 da era Rembrandt.

Eu conto a partir de Rembrandt, que foi um g�nio,

e n�o de Cristo, que foi um maluco.

Por que voc�s trabalham?

Para comprar coisas?

Para tirar f�rias?

A escravid�o n�o acabou.

Agora se chama "trabalho".

Estudos, universidade... tudo � in�til.

Ignorante e culto, ignorante em dobro.

Este lugar n�o tem solu��o. Pois se um pa�s inteiro

senta a bunda frente a uma TV

para assistir 22 milion�rios correndo atr�s de uma bola,

n�o h� esperan�a.

N�o existem mais ideologias.

Existe o homem.

O homem concreto, que age assim ou assado.

O homem n�o vem do macaco.

O homem � um macaco.

Um macaco ereto que caga sentado.

E agora o mais importante...

Sou t�o pessimista...

que sou otimista.

Porque os extremos se tocam...

e o frio queima.

E v�o � merda todos voc�s. Adeus!

Antes de tomar a palavra,

quis mostrar este v�deo de Renzo.

Encontrei essa mensagem p�stuma em seu celular,

entre seus pertences...

e � fort�ssimo.

Senhor Ministro, Diretor do Museu de Belas Artes,

p�blico em geral...

muito obrigado por virem a esta exposi��o p�stuma

deste grande artista,

que nos deixou h� quase dois meses.

Eu sempre...

sempre sentirei, como uma adaga no cora��o,

a falta deste amigo.

Um artista fiel a si mesmo.

Nunca o interessou as modas e flutua��es do mercado.

Sou testemunha de sua dignidade e integridade,

mesmo nos momentos mais dif�ceis.

Mas nunca p�de se recuperar do acidente...

Hoje nos deixa essa grande obra como legado.

Mas seguirei sentindo sua falta como grande amigo.

Apreciem a exposi��o...

Arturo...

Tem um rapaz aqui que quer v�-lo.

Alex, da Solidariz-Arte.

Nossa, � um p� no saco...

Diga que estou em reuni�o, que vou viajar amanh�,

e qualquer coisa mande um e-mail.

- Certo... - Senhor Silva.

Como vai? S� vai levar um minuto.

Veja, vou viajar amanh� e estou muito ocupado.

S�o s� algumas perguntas.

- Bem, pode ir, Eugenia. Entre. - Com licen�a.

- Como vai, tudo bem? - Sim.

S� uma coisinha, por curiosidade...

Para onde vai o dinheiro da venda das obras de Renzo?

Ele deixou herdeiros?

Andei perguntando,

e uma obra dele n�o vale menos de 30 mil d�lares.

Na verdade n�o sei por que devo responder a essa pergunta.

Para sua informa��o posso dizer que...

toda a obra de Renzo me pertence, pois a comprei legalmente.

Sim...

Ent�o, o dinheiro que pagou... onde est�?

Sei que usou boa parte para pagar a interna��o,

voc� mesmo o visitou.

E o resto?

N�o fa�o ideia. N�o sei se o satisfaz a resposta,

quer que acrescente algo?

N�o, porque... voc� o tirou do hospital,

o que significa que estava melhor, n�o?

E de repente ele morre...

Foi isso mesmo.

Tudo muito r�pido e bastante lament�vel...

De qualquer forma, tenho que ser franco.

Essas perguntas e suspeitas me parecem...

Muito inapropriadas.

Renzo era como um irm�o para mim.

N�o apenas o ajudei econ�mica, mas tamb�m humanamente.

E me aborrece muito que algu�m que o conheceu por cinco minutos

passe dos limites como voc� est� fazendo.

Voc� desrespeita a mem�ria de Renzo.

E me ofende...

Portanto, d� o fora daqui, ou juro que chamo a pol�cia.

- Desapare�a! - Sim, eu o farei...

Mas h� muitas sombras em tudo isso.

Muitas sombras... que po�tico! D� o fora!

Sombras!

Arturo! Obrigada por vir.

Agora a situa��o � diferente.

Os pre�os das obras do Nervi dispararam depois de sua morte.

H� uma demanda...

Arturo, n�o me venha com essa.

Conhe�o este neg�cio melhor que voc�.

Mas vendi muito mesmo.

Por isso pedi que viesses.

Est� vendendo a pre�o de mercado interno.

Proponho que d� um salto, gerar demanda no estrangeiro.

E se continuar vendendo tanto

ficar� sem obras para quando os pre�os subirem.

N�o se preocupe, tenho muitas obras.

No momento em que veio me ver,

n�o via jeito.

Agora que ele morreu, est� tudo a seu favor. Vamos...

Arturo, sabes que jogo em outra liga.

Temos filiais em Xangai, Nova Iorque, S�o Paulo...

� outra escala de vendas.

Eu sei disso.

Posso organizar exposi��es do Nervi

nos melhores museus do mundo.

Certo, Dud�.

- Falemos de n�meros. - Melhor.

O que est� oferecendo, exatamente?

Simples. Te dou 2 milh�es de d�lares

e somos s�cios em 50% em todas as futuras vendas de Nervi.

� o dobro que me pediu quando veio da outra vez.

Disse 60% para mim e 40% para voc�?

Entendeu mal, Arturo...

Garanto um volume de vendas cinco vezes maior,

ou mais, voc� sabe.

55% para mim e 45% para voc�, e eu entro.

Renzo n�o tem teto, Dud�.

Certo, de acordo.

Depois faremos a papelada.

O que acha, como primeiro passo,

de organizarmos uma exposi��o num museu estrangeiro?

Acho �timo.

UM ANO DEPOIS

Oi, Dud�, onde voc� est�?

Certo, estou chegando.

Nos vemos na sala.

M�s passado uma obra de Nervi foi vendida num leil�o

a 140 mil d�lares. E n�o foi uma exce��o.

143 mil, exatamente.

Disse que sem d�vida vale.

Muito obrigado. Por favor...

Esta � minha obra favorita.

� dos anos 80, per�odo de estreia do Nervi.

� uma pintura extraordin�ria.

Quanto querem pela obra?

Qual, esta, ou... qual exatamente?

Todas. Toda a obra.

Refere-se a toda a exposi��o?

Correto, senhor.

Claro, s� n�o temos...

muitas obras de grande porte.

� um n�mero limitado, n�o podemos nos desfazer de tudo.

O xeque disse que quer toda a exposi��o,

como disposta aqui, para seu pal�cio.

Quanto querem por toda a obra?

Diga que agradecemos muito o interesse, mas...

a obra inteira n�o est� � venda.

S� um segundo, quero falar com voc�...

S� um segundo. J� voltamos, com licen�a.

Com licen�a.

O que foi?

Venda tudo, � uma boa grana, Dud�.

N�o, Arturo... Vender tudo � uma loucura,

temos que ter algo para o futuro.

Os pre�os est�o subindo sem parar.

- Parece pouco inteligente. - Eu tenho mais.

Al�m disso, se ele leva a obra para o pal�cio,

ser� apreciada pelo har�m dele e s�,

e a obra sai de cena.

Temos que circular pelo mundo, museus, leil�es...

Dud�, eu tenho mais. Muito mais.

Apareceram obras do Renzo na casa de uma tia,

onde ele morou por 10 anos na d�cada de 80.

- De uma tia... - Sim.

- E por que n�o disse antes? - Depois eu explico...

� um lote grande de 90 obras ou mais, da d�cada de 80.

Venda tudo e depois iremos repor. Vamos...

- Voc� � um merda. - N�o!

- N�o � isso, Dud�... - Um merda.

Muito bem.

Diga que se a oferta for bem generosa,

estaremos dispostos a vender toda a exposi��o.

O xeque disse que a proposta ser� mais que generosa.

Por isso quer convid�-los para jantar e fechar o neg�cio.

Muito obrigado.

A exposi��o da China foi impressionante.

Logo estaremos nesse mercado gra�as aos contatos da Dud�.

Pensar que em pouco tempo fizemos exposi��es particulares

no Rio de Janeiro, Boston, Roma,

Paris, Pequim, Frankfurt...

Estamos indo muito bem com as vendas.

Os pre�os n�o param de subir, mas...

Precisamos de mais obras dos anos 80. A demanda � grande.

Farei dos anos 80 o quanto quiseres...

Pode vender que eu reponho.

Esta est� pronta.

Vamos ver.

Muito bom.

Pena que ficou famoso depois de morto, como Van Gogh.

Viu?

Mil novecentos e oitenta e quanto...?

E quatro, coloque.

Pronto.

A menina que tr�s as verduras frescas.

� divina, voc� vai ver.

Cenouras...

Algo mais?

Sim, dois piment�es.

Est� vindo uma moto.

O qu�?

- Onde? - Ali.

Vamos ver.

Sim? Quem � voc�?

Alex!

O que faz aqui, garoto?

N�o acredito nisso.

Olha s�...

O que est� fazendo?

O que quer fazer? Tirar foto?

Espere, est� sozinho?

Inacredit�vel.

N�o garoto. Largue isso. Pare de filmar.

- Pare. Desligue isso. - Espere...

- Escute. - Pare de gravar, largue isso!

Estou dizendo para parar! Pare de filmar!

- Devolva! - Deixe-me explicar!

N�o h� o que explicar! Devolva o celular!

Por favor, acalme-se!

Escute, vamos entrar, esta � minha casa.

Conversemos como gente civilizada.

Escute seu mestre.

Entre na casa. Est� tudo bem, Alex. Entre.

- Venha... - Vamos. Est� tudo bem.

- Venha, querido. - Entre.

Voc�s enganaram a todos.

O que fizeram � errado, muito errado.

Lamento, mas n�o tenho escolha sen�o denunci�-los

- quando chegar em Buenos Aires. - N�o, n�o...

Pense. Pense um pouco.

Foi a melhor forma de ajud�-lo, e acho que n�o me enganei.

Olhe para ele. Est� melhor que nunca.

- Mas � uma fraude. - A arte � uma fraude.

N�o fizemos mal a ningu�m. Fa�o o que gosto

sem me submeter a nenhuma humilha��o.

Prejudica quem compra sua obra de boa f�.

Quem compra a obra dele

est� comprando uma obra original.

Sim, � minha.

Sejamos francos. O que voc� quer?

Como?

Me seguiste at� aqui, 1.700 Km de Buenos Aires...

descobriu a trama. Muito bem, parab�ns!

Quanto voc� quer?

- Quer me subornar? - Sim, quero te subornar.

N�o vim at� aqui para extorqui-los.

Pode ficar com 5%, Alex.

- Est� falando s�rio? - 10%, e � a �ltima oferta.

Quem pensas que eu sou? Est� me ofendendo...

Queria saber a verdade e agora sei.

Fico feliz por estar vivo, Renzo, mas vou para Buenos Aires.

Fique para o almo�o.

Fiz guisado de lhama. Depois voc� vai.

Tem uma longa viagem ainda, por um lugar deserto.

Viu, Alex...

Achou que era um assassino,

e mostrei que tipo de pessoa e amigo eu sou.

Nisso tem raz�o, e pe�o desculpas.

Mas que cometeu fraude, isso cometeu.

E isso o prejudica em qu�?

N�o, a mim n�o... A quest�o � que � errado,

e n�o quero ser c�mplice de algo errado.

N�o seja. Deixe tudo como est�.

Pode devolver meu celular, por favor?

N�o se come com o celular na mesa.

Al�m disso, aqui n�o tem sinal, internet, nada...

Bem, conte-nos algo de sua vida, Alex, quais s�o seus planos?

Via tirar alguns dias de f�rias aqui em Jujuy?

N�o. S� vim porque o segui.

N�o, n�o sabem que vim. Tenho que voltar para Buenos Aires

porque tenho muito trabalho na ONG.

J� sou coordenador geral.

O promoveram?

Estamos fazendo jornadas de permutas...

para arrecadar fundos para a tribo Qom.

Estamos trocando artesanato Qom por dinheiro e comida.

Podemos colaborar com essa ONG.

- Podemos doar dinheiro. - Claro.

Dinheiro sujo...

Para mim, primeiro vem os valores.

Aprendi com voc�, Renzo.

- De quem? - De mim?

Como est� o guisado?

Muito bom.

Devo confessar que meu pr�ximo passo

ser� deixar de comer animais.

- Veja s�... - Faz bem.

Tenho que ir, n�o quero me perder na montanha � noite.

Onde � o banheiro?

Embaixo, na porta � esquerda.

Uma figura esse garoto, n�o?

Um idiota com letra mai�scula.

N�o se convence com nada, n�o se importa com dinheiro.

Como um escoteiro, mas com bolas peludas arrastando.

� uma desgra�a, Renzo.

Vai chegar em Buenos Aires e nos denunciar.

Achas que seria capaz?

Sem d�vida. Com um tipo honest�ssimo desses...

- Renzo... - Sim.

O que � isso?

Um veneno fulminante que n�o deixa rastro.

O que vai fazer com isso?

Seu enfermeiro na cl�nica que me deu.

Lembra quando pediu para que te matasse?

- Voc� faria... - N�o, eu n�o usaria.

Bem, acho que n�o...

Agora � outra coisa.

- Ouviu o que ele disse? - O qu�?

Que n�o sabem que ele est� aqui.

Sim.

Coloco no caf� dele?

Agora acho que me vou.

Espere, garoto, tome um caf� antes.

O Arturo vai preparar, vai ser �timo.

Certo. Um cafezinho r�pido, certo?

Conte como � o projeto com os Qom.

Estamos terminando uma sala de jantar.

� a terceira. Recebemos muitas doa��es,

mas o problema � organizar a log�stica

para que tudo chegue onde � preciso.

As crian�as Qom s�o bonitas, s�o saud�veis,

que n�o conhecem tecnologia, porque n�o possuem, certo?

O maior luxo delas s�o doces de alguma loja de conveni�ncias.

No dia da crian�a fizemos uma coleta de brinquedos

e n�o imaginas como foi bonito.

Foi �timo entreg�-los a elas

e ver os sorrisos em seus rostos inocentes,

com olhos grandes e pretos...

Na Holanda est�o preparando uma caminhonete

para transportar as coisas.

Aqui est� seu celular. Me desculpe.

- N�o apaguei nada. - Obrigado.

N�o, pode conferir.

- Arturo, confio em voc�. - Certo.

- O caf�... - Obrigado.

- Caf�. - Sim.

Um pouco mais de a��car.

O que foi?

Nada.

Estava pensando.

Voc� tem raz�o.

O que fizemos foi errado. Foi uma fraude, Renzo.

Sim, eu sei l�...

- O que � errado � errado. - O que � errado � errado.

Um jovem solid�rio e idealista

deu uma li��o nestes dois velhos que erraram, Renzo.

N�o � pra tanto, Arturo, mas obrigado.

N�o, o que �, �.

Quando chegar em Buenos Aires, fa�a o que tiver que fazer.

Lamento, mas n�o me resta alternativa.

Certo...

O caf� vai esfriar.

Perd�o, mas vou ao banheiro. Com licen�a.

J� est�...?

N�o sei. Sim, acho que sim.

Vamos esperar um pouco.

- E ent�o? - Caralho, espere!

Vamos ver.

Sim... J� est�.

- Venha. - N�o, me sinto mal.

- N�o se preocupe. - � a altitude.

Estamos acima de 3 mil metros.

- Perdoem pelo show, mas... - N�o.

- Me deem um pano e eu limpo. - N�o se preocupe.

- Que pano, que nada. - Est� melhor?

N�o sei... Vomitou de repente.

A lhama estava uma merda, certamente.

Tchau...

Voltemos ao come�o.

Disse a voc�s que era um assassino, e n�o menti.

Com o tempo o veneno perdeu seu efeito letal.

Estava vencido.

Mas tive a inten��o de matar um inocente.

E a levei a cabo.

O destino mudou as coisas.

O debate interno conduzo apenas com meu analista.

� um segredo que compartilhamos, meu amigo Renzo, eu,

e agora voc�s.

Como seguiu a hist�ria?

Como suspeit�vamos...

como um escoteiro correto e imbecil,

Alex nos denunciou por fraude.

Perguntas?

Tivemos que prestar servi�os comunit�rios. N�o foi nada.

Pagamos muito pouco.

Estamos � inteira disposi��o da Justi�a,

aqui com o senhor Renzo Nervi.

Renzo e eu est�vamos por toda parte.

Como Dud� n�o sabia de nada, ficou livre.

A Argentina � um pa�s singular.

E o mercado da arte � imprevis�vel.

Muitos consideraram nossa fraude uma obra de arte.

E os pre�os e prest�gio de Renzo

subiram ainda mais que com sua suposta morte.

Renzo continua morando em Jujuy.

Pinta da manh� at� a noite.

E mesmo que agora possa fazer isso,

ainda detesta vir para a cidade.

Ao contr�rio de mim,

que j� estou com saudade de Buenos Aires.

Ol�!

Feliz anivers�rio.

Venha, trouxe alguns presentes.

Graspa, azeite de oliva, champanhe, caviar...

Olha s�... veja s� esta graspa, que maravilha!

� demais!

- Falta uma coisa. - O qu�?

Venha, vamos entrar.

Agora sim. Feliz anivers�rio.

Isto vale um milh�o de d�lares.

Um pouco mais.

Mas agora tens oitenta anos.

Em que est� pensando?

Na morte.

E o que pensa sobre a morte?

Que sou contra.

Sabes que h� uma semana...

Tive uma reuni�o com a fam�lia real da B�lgica...

E o rei e a rainha s�o fan�ticos pela sua obra.

E viram um quadro com esta paisagem num museu,

e querem que fa�as uma especialmente para eles.

O quadro j� est� feito, lamento.

� uma das cole��es mais importantes do mundo.

O pre�o n�s definimos. N�o h� limite.

Sabes que n�o pintor de encomendas.

Ainda segues com isso...

Al�m disso, detesto os reis.

Falamos com mais calma depois, l� embaixo.

J� estou calmo. A resposta � n�o.

Vamos ver se � n�o. Vamos ver...

MINHA OBRA-PRIMA

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