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Conhecemos nossos antepassados medievais

a partir do que eles deixaram.

A grandeza dos seus castelos.

A beleza de suas catedrais.

Mas as ideias medievais s�o uma �rea menos conhecida.

Quem foi esse povo que viveu h� mil anos

e construiu esses pr�dios e fez essas coisas extraordin�rias?

Como compreendia o mundo? O que sentia?

E, principalmente, no que acreditava?

POR DENTRO DA MENTE MEDIEVAL

CREN�A

MUSKETEERS Albattroz Otoni Kakko

Entre os s�culos X e XV,

o Ocidente foi dominado pela religi�o e cren�as sobrenaturais

de uma forma que � dif�cil imaginarmos.

As pessoas viam o mundo sob o prisma de tais cren�as.

Era um mundo influenciado pela import�ncia divina.

Encantado... incerto... imprevis�vel.

Um mundo no qual

alguns limites eram menos claros do que s�o hoje.

Os limites entre o natural e o sobrenatural eram indefinidos,

entre o normal e o milagroso,

entre os vivos e os mortos.

Os registros medievais evocam uma �poca

na qual os mortos estavam sempre conosco.

O abade do monast�rio de Burton-on-Trent

registrou uma s�rie de eventos estranhos

ocorridos por volta de 1090.

"Dois moradores de Stapenhill fugiram para a vila vizinha.

"No dia seguinte, �s 9h, eles morreram subitamente.

Pouco ap�s seus corpos serem queimados,

surgiu a not�cia de dois seres estranhos

perambulando pela mata.

"Apareceram sob a forma de dois homens

"carregando caix�es de madeira nos ombros.

"Agora, sob apar�ncia de ursos ou c�es.

Os moradores morriam de medo

dos dois fantasmas dos homens mortos

que andavam pelo campo � noite.

O bispo autorizou os moradores a exumar os corpos.

"Os panos de linho sobre seus rostos

"estavam manchados de sangue.

"Deceparam as cabe�as dos homens

"e as puseram no meio das pernas,

"arrancaram os cora��es dos corpos e os queimaram."

Quando os cora��es foram queimados,

eles se partiram fazendo um grande barulho.

Todos viram um esp�rito maligno na forma de um corvo

sair voando das chamas.

Quando tudo acabou,

os mortos e os fantasmas tinham desaparecido.

Estes registros mostram que esta hist�ria not�vel,

com mortos-vivos e panos manchados de sangue,

era levada muito a s�rio.

Esta n�o era uma hist�ria de fantasma

inventada para passar a noite perto da fogueira,

mas um lembrete de uma realidade premente.

Que os mortos n�o viravam p�,

mas podiam ocupar o mesmo mundo que os vivos.

In�meros relatos semelhantes

sugerem que os mortos eram uma presen�a persistente.

Herefordshire, na d�cada de 1150.

O cad�ver de um homem mau vagava pelas estradas � noite,

chamando os nomes dos moradores, que adoeciam e morriam.

Em Annandale, Esc�cia, um cad�ver percorria as vilas

espalhando a peste com seu h�lito f�tido.

Na d�cada de 1190, em Buckinghamshire,

um defunto voltou � cama de sua vi�va

quase esmagando-a com seu peso.

Essas hist�rias de horror eram tidas como fato

por cronistas como William de Newburgh.

"N�o seria f�cil acreditar que cad�veres saem de seus t�mulos

"e andam por a� a aterrorizar os vivos,

"se n�o houvesse tantos casos apoiados por amplo testemunho."

� �poca desses estranhos acontecimentos,

era comum reenterrar os corpos dessas almas penadas.

Escava��es dos cemit�rios medievais em todo o pa�s

revelaram cad�veres enterrados de forma incomum.

Com a cabe�a decepada e colocada entre as pernas,

assim como na hist�ria,

para impedir que o morto voltasse a andar.

Os mortos medievais dividiam o mundo com os vivos.

E podiam ser encontrados a qualquer hora.

Um dos contos medievais populares mais comuns

era a hist�ria dos "Tr�s vivos e os Tr�s Mortos".

Tr�s jovens ricos passeavam

quando se depararam com tr�s mortos.

Os mortos, cada um em diferente est�gio de decomposi��o,

tinham algo a dizer aos jovens ricos.

"Cuidado", disseram eles.

"Assim como voc�s s�o, n�s fomos.

"Assim como eu sou, voc�s ser�o."

Eles os censuravam por seu amor �s coisas materiais.

"Riqueza, honra e poder", diziam eles,

"n�o t�m valor na hora da morte."

O nosso tempo entre os vivos era descrito como

"mais curto que um piscar de olhos."

O que importava era a hora da morte,

a passagem para o outro mundo,

quando tamb�m poder�amos nos tornar como um dos tr�s mortos,

vagando pela Terra, alertando os vivos

para se prepararem para o que estava por vir.

E este tr�fego entre os vivos e os mortos era de m�o dupla.

Assim como acreditavam que os mortos visitavam os vivos,

tamb�m acreditavam que os vivos podiam visitar os mortos.

Em 1206, na tranquila zona rural de Essex,

um campon�s chamado Thurkill, do vilarejo de Stisted,

trabalhava nos campos.

Um acidente o deixou em coma profundo.

Por dois dias, ele ficou deitado como se estivesse morto.

Quando ele retornou,

tinha uma hist�ria extraordin�ria para contar.

Para o que se imagina fosse uma plateia at�nita,

ele recontou tudo que tinha ocorrido

enquanto seu corpo estava em sono profundo.

O que ele descreveu foi nada menos

que uma viagem de ida e volta ao outro mundo.

Ele deu aos seus ouvintes um relato detalhado

da geografia da vida ap�s a morte.

Thurkill cita que chegou a uma igreja misteriosa,

diferente de todas na Terra.

"Ao norte havia uma parede com cerca de 2 metros de altura.

"No meio da igreja havia uma fonte,

"da qual sa�a uma chama brilhante.

Thurkill disse que esp�ritos malignos vieram ao seu encontro,

gargalhando uns com os outros.

Era onde as almas dos mortos vinham para serem julgadas,

algumas para serem condenadas e levadas ao inferno.

"Elas gritavam, amaldi�oavam pai e m�e,

"que as conduziram ao tormento eterno."

Os salvos passavam direto pelos port�es ornados de joias

rumo � igreja de ouro.

Quanto ao resto de n�s,

o destino seria cumprir nossa pena no purgat�rio,

a angustiante sala de espera do C�u.

O lugar onde os nossos pecados eram purgados, da� o nome.

E quanto maior o pecado, maior a espera.

Depois, Thurkill atravessou o fogo

e cruzou uma ponte de pregos e estacas.

Foi ali, no meio do amontoado de pecadores,

que ele vislumbrou uma figura sombria.

Era o pai dele, terrivelmente magro e deformado pela dor.

O pai se esfor�a para lhe dizer que estava definhando ali

por causa de seus neg�cios escusos.

Thurkill ouve a voz de S�o Miguel.

"Dez missas libertar�o seu pai,

"e ent�o voc� poder� acompanh�-lo

"at� a igreja do Monte da Gl�ria."

Thurkill n�o vislumbrou a m�e.

Teria sido ela condenada a sofrer pela eternidade no inferno?

Para os moradores de Essex,

a vis�o de Thurkill deve ter parecido terrivelmente familiar.

Era uma jornada que aguardava a todos eles.

Esta descri��o da vida ap�s a morte n�o foi um fato isolado.

Tais vis�es eram frequentes na Inglaterra medieval.

E muitas delas seguiam o padr�o da de Thurkill,

com tormentos concebidos para determinados pecados.

Como glut�es for�ados a passar fome,

ou avaros tendo ouro empurrado goela abaixo.

A liga��o entre este mundo e o outro

era uma realidade cotidiana.

Essas hist�rias eram debatidas

e repetidas em p�lpitos por toda a parte.

Essa vis�o de uma jornada para o outro mundo

� o tema de uma das maiores obras da literatura medieval...

a Divina Com�dia de Dante.

O inferno � um pesadelo de tormento eterno.

O purgat�rio � uma montanha

onde os com poucos pecados cumpriam sua pena

antes de se juntarem a Deus no C�u.

Os mortos podiam visitar os vivos,

os vivos podiam ajudar os mortos.

Os limites entre esses mundos eram perme�veis.

A vida na Terra era apenas uma fra��o da exist�ncia eterna.

O mundo real n�o era este, mas o outro.

Em constante movimento entre esses dois mundos

estava uma ra�a de seres espirituais.

O bem e o mal.

Liderando as for�as das trevas estava o diabo, Satan�s.

Um antigo anjo expulso do C�u

que fazia oposi��o implac�vel a Deus e � Sua cria��o.

O diabo e seu batalh�o de dem�nios

estavam por toda a parte.

Para nos tentar, enganar e destruir.

O diabo pode aparecer sob todos os tipos de formas.

Talvez sob a forma de um sapo...

ou um cachorro negro.

Ou um corvo.

Algo assustador. Algo incomum.

Mas algo que pud�ssemos encontrar todos os dias.

Na d�cada de 1230, havia um homem chamado

William de Aberdeen, um marinheiro,

que caminhava pelos p�ntanos escoceses.

Ele notou que um pequeno c�o o seguia.

De repente, o c�o aumentou bastante de tamanho,

e virou um drag�o.

William foi possu�do por um dem�nio.

Ele rasgou toda sua roupa, exceto as cal�as,

e foi � cidade de Dunfermline.

"Instigado pelo dem�nio,

"ele tentou fazer muitas maldades por l�.

"Ele for�ou para dentro de casa,

"crian�as, donzelas, os velhos e jovens,

"e tentou derrubar suas portas com um machado afiado."

Ele acabou sendo desarmado, amarrado,

levado ao templo local, o Mosteiro de Santa Margarida.

Ele ficou 3 dias por l�,

uivando, gemendo e sem comer nada,

at� recobrar os sentidos.

Os monges lhe deram p�o e queijo,

ele confessou seus pecados e o dem�nio o abandonou.

Mas o homem medieval n�o estava s�

em sua luta contra o mundo demon�aco.

Um ex�rcito celestial de anjos

estava pronto para lutar em seu nome.

Nove ordens deles. De serafins a querubins,

passando por arcanjos e meros anjos,

cada um com seu papel definido.

O padre, Geraldo de Gales,

descreveu a posi��o deles no esquema das coisas.

"Eles t�m uma ess�ncia mais sutil que o homem,

"uma posi��o mais elevada

"e uma familiaridade mais �ntima com Deus."

Anjos e dem�nios lutavam constantemente

pela posse de nossas almas.

"Os anjos mostram cuidado constante por nosso bem-estar.

"Os dem�nios nos atacam ferozmente

"para nos obrigar a render-se."

Por volta de 1110, William de Corbeil

viu esta batalha diretamente em sua casa em Dover.

"Quando adoeci,

"um grupo de dem�nios hediondos se aproximou

"e sentou-se ao redor da minha cama,

"discutindo o que fariam comigo."

Mas, ent�o, William notou uma presen�a ao lado de sua cama,

a Virgem Maria.

Ele ainda estava apavorado, mas a Virgem assegurou

que os dem�nios n�o podiam lev�-lo.

"Ela lhes disse que os anjos

"Miguel, Gabriel e Rafael lutariam contra eles.

"Os dem�nios sa�ram,

"resmungando que eles n�o iriam enfrent�-los."

William foi salvo.

Mas, a qualquer instante,

a vida de algu�m podia ser transformada,

para melhor ou para pior, por esses seres espirituais.

Essas ideias geravam ansiedade ou tranquilidade?

Provavelmente, ambas em momentos distintos.

Mas n�o importa a resposta.

N�o havia nada de estranho na interven��o divina.

Era apenas parte de como eram as coisas.

A mais espetacular das interven��es divinas

era o Dia do Ju�zo Final, o pr�prio Apocalipse,

quando o mundo seria destru�do e os mortos ressuscitariam.

Quando exatamente isso iria acontecer?

Os estudiosos medievais calcularam

que o homem estava vivendo a sexta e �ltima era.

Portanto, para as pessoas da �poca,

a Idade M�dia n�o era a Idade M�dia,

era o fim dos tempos.

O fim do mundo se aproximando. Visitas dos mortos-vivos.

Relatos em primeira m�o de viagens ao al�m.

Batalhas invis�veis entre anjos e dem�nios.

O sobrenatural n�o era nada abstrato.

Ele era real e estava por toda a parte.

A �nica mediadora entre este mundo e o outro

era uma das for�as mais poderosas da hist�ria.

A Igreja medieval.

O aumento das catedrais na Idade M�dia

protegia as almas de homens e mulheres

contra as interven��es malignas do al�m.

O poder de Deus manifestado em pedra.

A Igreja possu�a um quinto da riqueza do pa�s.

Ela ficava com um d�cimo da renda de todos os crist�os.

Em troca, lan�ava um escudo protetor em torno dos fi�is.

Dizer que esta era uma �poca religiosa

n�o reflete bem a realidade.

Nas sociedades ocidentais modernas,

a religi�o � quest�o de escolha.

Os governos n�o devem intervir

em nome de uma religi�o contra a outra.

Nos EUA, a separa��o entre Igreja e Estado

foi escrita na Constitui��o.

Tais ideias seriam incompreens�veis na Idade M�dia.

� �poca, a Igreja n�o era uma associa��o

de indiv�duos com interesse comum, juntos por escolha.

Ela era o pr�prio arcabou�o da sociedade.

Na linha de frente da defesa contra o mal

estavam os grandes mosteiros medievais.

No s�culo XIII,

havia pelo menos mil casas religiosas

somente na Inglaterra.

Muitas constru�das em lugares remotos,

ressoando a luta de Cristo com Satan�s no deserto.

A Abadia de Pluscarden, perto de Inverness,

� o �nico mosteiro medieval na Gr�-Bretanha

ainda usado para o seu objetivo original.

No in�cio do s�culo XII, o monge, Orderico Vital,

descreveu o papel dos mosteiros no ex�rcito de Deus.

"Aqui, as tropas de Cristo

"rejeitam o mundo e seus parasitas,

"desqualificando todos os seus prazeres como imund�cie,

"para lutar corajosamente contra o diabo."

Os monges aqui seguem a regra de S�o Bento,

formulada no s�culo VI.

A ess�ncia da regra beneditina � a busca por Deus,

em uma vida comunit�ria organizada

com �nfase especial na ora��o, leitura e trabalho.

Viver sob uma regra, viver sob a autoridade de um abade.

Viver uma vida crist� dedicada celibat�ria.

O dia do monge come�a �s quatro horas da manh�

e segue um padr�o que pouco mudou desde a Idade M�dia.

Para seus antecessores medievais,

tal rotina fazia parte de uma guerra incessante.

"Um mosteiro � um castelo constru�do contra Satan�s,

"onde campe�es com armadura

"travam combate incessante contra o diabo."

O monge est� engajado numa luta

contra tudo que � ego�sta nele mesmo,

ou com as for�as do mal, por assim dizer,

dentro dele mesmo.

Assim, nesse sentido, sim,

� a ideia de um combate espiritual.

Um combate muito antigo,

remontando aos Padres do Deserto.

Al�m das muralhas destes castelos erguidos contra Satan�s

estavam as tropas locais, as igrejas paroquiais.

A igrejas medievais montavam guarda

sobre a alma de cada homem, mulher e crian�a.

Como intermedi�rios de Deus,

os padres ministravam os sacramentos,

marcando as fases mais importantes

na perigosa jornada do nascimento � morte.

Primeiro, o batismo,

uma forma de exorcismo, expulsando o dem�nio.

Depois, a confiss�o.

A comunh�o.

O casamento.

E, finalmente, eles conduziam o enterro,

o rito de passagem mais dram�tico de todos.

Os mortos medievais permaneciam no meio de n�s.

Eles eram nossa liga��o com o mundo do al�m.

A mistura dos vivos e mortos � incomum.

Na Gr�cia e Roma antigas,

era proibido enterrar cad�veres na cidade.

O Cristianismo medieval os trouxe para pr�ximo.

Toda igreja paroquial tinha um cemit�rio.

Se forem a uma sinagoga, mesquita,

ou a um templo budista ou hindu,

voc�s n�o ver�o memoriais ou l�pides.

Toda igreja paroquial est� repleta deles.

Costumamos ignorar.

Mas isso � parte do que podemos chamar de culto aos mortos.

Os t�mulos dos mortos lembravam a todos, ricos e pobres,

que este mundo n�o era o seu verdadeiro lar.

Nas capelas medievais,

os ricos investiam em t�mulos magn�ficos

para ajudar a diminuir seu tempo no purgat�rio.

O t�mulo de Richard Beauchamp, Conde de Warwick,

um dos homens mais ricos e poderosos da Inglaterra.

Quando morreu em 1439, deixou dinheiro

para que 5 mil missas fossem celebradas por sua alma.

Mas sua verdadeira prote��o

contra o sofrimento do purgat�rio era esta capela.

Constru�da 20 anos ap�s sua morte,

custou milhares de libras,

o equivalente a milh�es hoje em dia,

onde ele esperava, em suas pr�prias palavras,

que iriam rezar por ele "at� o fim dos tempos."

A ef�gie de Richard Beauchamp conservada para a eternidade.

Suas m�os abertas em ora��o e venera��o � Virgem Maria

que olha para ele do teto abobadado acima.

Ao redor das laterais do t�mulo,

est�tuas, conhecidas como carpideiras,

familiares em luto por sua morte

e orando por sua ascens�o aos bra�os de Deus.

Neste mundo, monges e padres rezam pelos mortos,

ajudando a reduzir seu tempo de tormento

no labirinto do purgat�rio.

Da mesma forma, os mortos sagrados,

os santos do C�u, estavam ocupados,

oferecendo sua ajuda aos vivos.

As pessoas veneravam os santos, homens e mulheres

que tinham vivido uma vida especialmente sacra

ou realizado milagres.

Eles podiam intervir diretamente nos assuntos dos vivos.

Assim, o culto aos santos estava no �mago da vida medieval.

Todo paroquiano podia ver os santos

pessoalmente nas pinturas da igreja local,

onde eles ficavam cara a cara com esses seres celestiais.

Alguns santos tinham uma especialidade,

talvez associada a algum incidente nas pr�prias vidas.

Rezava-se para Santa Margarida de Antioquia durante o parto,

talvez porque ela saiu ilesa

da barriga de um drag�o que a tinha engolido.

Santa Apol�nia era padroeira da dor de dente.

Ela foi uma santa m�rtir que foi torturada

tendo todos os dentes arrancados.

E quanto � Santa Wilgefortis,

sua especialidade era ajudar esposas

a se livrarem de maridos indesej�veis.

Ela tamb�m � chamada Santa Uncumber.

A interven��o de um santo podia representar

a diferen�a entre a vida e a morte,

fazendo at� mesmo Deus rever Seu julgamento.

No julgamento medieval por ord�lio,

Deus revelava a culpa ou inoc�ncia de um suspeito

atrav�s de sua rea��o a um teste excruciante.

No teste da �gua, se o acusado boiasse,

era culpado.

Se afundasse, era inocente

e rapidamente era retirado.

No teste do fogo,

era culpado se sua pele inchasse com bolhas,

inocente ela se recuperasse.

Por volta de 1200,

uma mulher em York foi acusada de homic�dio.

"Ap�s a mulher ter carregado um ferro quente,

"foi descoberto um incha�o na m�o

"t�o grande com uma noz, assim foi condenada � morte."

Deus revelara a sua culpa.

Mas a acusada pediu permiss�o para orar

no t�mulo de S�o William.

"Assim que a mulher entrou na capela,

"o incha�o sumiu sem deixar rastro."

"Os ju�zes declararam sua inoc�ncia,

"dizendo que se Deus e S�o William a tinham absolvido,

"eles n�o desejavam conden�-la."

Os santos eram companheiros, guiando-nos e protegendo-nos.

Seu incr�vel poder estava especialmente presente

em seus restos f�sicos.

Pequenas por��es de ossos, cabelo ou roupa

foram vigorosamente coletadas e guardadas

nos anos e s�culos ap�s suas mortes

por pessoas que acreditavam que esses objetos tang�veis

continham poder sobrenatural.

Tais restos eram chamados "rel�quias".

A palavra significa literalmente aquilo que � deixado para tr�s.

Objetos de poder sobrenatural,

aproximavam-se deles com respeito, at� terror.

O monge, Jocelim de Brakelond, em 1198,

descreve como ele ajudou a remover

o corpo do m�rtir S�o Edmundo

para o altar-mor da igreja da abadia.

"Aproximando-se com rever�ncia,

"nos apressamos para abrir o caix�o.

"O abade disse desejava contemplar seu padroeiro."

Mas o abade aproximou-se

dos ossos de 300 anos do santo com medo.

Um outro abade havia ficado paralisado

ao tocar os restos do santo.

"Enquanto o resto da abadia dormia,

"ele removeu cuidadosamente

"as camadas do pano de seda que envolvia o corpo."

"Segurando a cabe�a em suas m�os,

"ele fez uma prece.

"�, glorioso m�rtir, n�o me amaldi�oe,

"um miser�vel pecador,

"� perdi��o por se atrever a tocar-te.

"Tu compreendes minha devo��o e prop�sito."

Desta vez, o abade foi poupado da ira do santo.

O cad�ver permaneceu completamente im�vel.

Isso era o mais pr�ximo que pod�amos chegar

de tocar o sagrado.

N�o era algo para ser encarado com leviandade.

Aproximar-se de santos mortos era uma paix�o medieval.

Peregrinos viajavam grandes dist�ncias

na esperan�a de assim o fazer.

Para Roma, para Santiago na Espanha...

e, claro, para Canterbury.

Como Chaucer escreveu sobre os peregrinos:

"Quando a primavera chega,

"elas desejam partir em peregrina��o.

"Desejam partir".

As estradas da Gr�-Bretanha medieval

eram cheias de peregrinos.

Homens e mulheres viajando centenas de quil�metros,

geralmente a p�, para se aproximar

de uma rel�quia ou rezar em um templo.

Ao longo do caminho dos peregrinos a Canterbury

ficava o Priorado de Aylesford,

o local de descanso predileto dos viajantes medievais.

O priorado, que remonta ao s�culo XIII,

era uma casa da Ordem dos Frades Carmelitas.

Hoje, Aylesford abriga uma das raras rel�quias medievais

da Gr�-Bretanha...

o cr�nio de S�o Sim�o Stock.

Um venerado frade carmelita,

que fora aben�oado com uma vis�o da Virgem Maria.

A Europa medieval estava repleta de rel�quias.

Os restos mortais dos santos, os mortos sagrados.

Os santos podiam estar no c�u, mas tamb�m estavam aqui,

em seus ossos, em suas rel�quias.

Vinha-se at� elas, rezava-se,

tentava-se chegar o mais pr�ximo poss�vel.

Podia-se at� esperar por uma cura milagrosa.

O caminho de Canterbury levou milhares

ao local de peregrina��o mais venerado na Gr�-Bretanha.

Foi aqui na catedral,

que S�o Tom�s Becket foi assassinado por soldados do rei.

� medida que chegavam, ofereciam-se aos peregrinos

garrafas com o sangue do m�rtir como lembran�a.

E havia muito mais aqui para impressionar.

A lista de rel�quias de Catedral de Canterbury, no ano de 1316,

inclu�a 12 corpos inteiros de santos,

3 cabe�as, 12 bra�os,

peda�os da cruz de Jesus, prep�cio, ber�o e t�mulo,

bem como in�meras amostras de ossos, cabelo e sangue.

Como peregrino, voc�s atravessariam a catedral,

e subiriam os degraus at� a �rea mais sagrada da igreja.

Este era o objetivo final.

O relic�rio de S�o Tom�s de Canterbury.

Ele ficava aqui, incrustado com ouro e joias,

contendo os restos do santo mais famoso da Inglaterra.

Um lugar de milagre.

Um centro de poder sobrenatural.

O relic�rio de S�o Tom�s foi criado para despertar temor

no cora��o dos peregrinos medievais.

Como muitos relic�rios, ele tinha aberturas laterais

para permitir que os fi�is pudessem tocar

e chegar ainda mais perto da rel�quia.

Como um imenso livro de gravuras,

os vitrais coloridos ao redor do sacr�rio

contam a hist�ria dos milagres de S�o Tom�s.

Um lembrete aterrorizante

de que os santos podiam ser tanto vingativos como benignos

� mostrado na hist�ria do cavaleiro Jordan Fitz-Eisulf.

Sua fam�lia foi acometida por uma terr�vel doen�a.

Entre os que morreram estava seu filho ca�ula.

Naquele momento, ele recebia a visita

de peregrinos vindos de Canterbury,

que traziam consigo �gua benta do relic�rio de S�o Tom�s.

Ele pensou em us�-la.

Ele derramou um pouco da �gua benta na boca do menino.

O garoto milagrosamente ressuscitou.

Naturalmente, ele prometeu ir em peregrina��o por agradecimento

ao relic�rio de S�o Tom�s em Canterbury.

Mas uma coisa e outra o fez adiar a peregrina��o,

mesmo Tom�s tendo aparecido numa vis�o para lembr�-lo.

Um dia, a paci�ncia de S�o Tom�s acabou.

Ele voltou e matou o filho mais velho do cavaleiro.

Desta vez, claro, Jordan e sua fam�lia fizeram a peregrina��o.

Milhares vinham aqui, � espera de um milagre.

E milagre era o que n�o faltava.

O que hoje achamos coincid�ncia,

na Idade M�dia era tido como algo milagroso.

Se tivesse um problema na perna ou uma dor de dente,

bastava ir em peregrina��o para rezar pela cura, que melhorava.

E isso era visto como prova da interven��o divina.

A peregrina��o medieval tornou-se uma grande ind�stria.

O dinheiro vinha da venda de ins�gnias, lembran�as

e das ofertas deixadas no local do santu�rio.

Com o dinheiro veio a corrup��o.

At� falsifica��o.

Por volta de 1270,

o reverenciado frei, Walter de S�o Edmundo,

havia sido sepultado recentemente.

Um dia, um homem disse a um dos frades

que podia torn�-los ricos se quisessem.

Quando perguntado como, o homem explicou

que o frei Walter tinha fama de santo

e se ocorressem alguns milagres em seu t�mulo,

isso geraria uma boa renda para os frades.

Quando o frade perguntou como os milagres aconteceriam,

sen�o por ordem de Deus,

o homem tinha uma resposta imediata.

"Ele tinha 24 homens sob seu comando

"que produziam os milagres que quisesse.

"Ele os tinha enviado a muitos locais na Inglaterra

"para produzir milagres por dinheiro."

Apesar dos casos de corrup��o e fraude,

a influ�ncia da Igreja sobre a mente medieval

permaneceu forte.

A palavra da Igreja era a palavra de Deus.

Ela podia absolver os seus pecados.

Proteg�-lo contra Satan�s.

At� mesmo mand�-lo para a guerra.

Se n�o aceitasse as cren�as e rituais da Igreja

era considerado um estranho, e possivelmente um inimigo.

Na Idade M�dia, a Igreja tornou-se

cada vez mais beligerante em rela��o aos estranhos,

pessoas de cren�as diferentes, dentro e fora do pa�s,

e qualquer um que discordasse da Igreja,

os hereges, o inimigo interno.

O Cristianismo n�o come�ou como uma religi�o belicosa.

"D� a outra face", Cristo disse.

Os crist�os do s�culo XI tinham um opini�o diferente.

O foco de sua ira foi a ascens�o do Isl�.

Em poucos s�culos, seus ensinamentos tinham se espalhado

para locais t�o distantes, como a China e a Espanha.

Seus ex�rcitos haviam capturado a cidade sagrada de Jerusal�m.

Era uma pedra no sapato do Cristianismo medieval.

Em 27 de novembro de 1095,

o Papa Urbano II fez um serm�o que mudaria a hist�ria.

Ele incitou os cavaleiros que o ouviam

a marchar para o leste, para Jerusal�m

� Igreja do Santo Sepulcro,

supostamente o local da ressurrei��o de Jesus,

e libert�-la do dom�nio mu�ulmano.

A rea��o foi impressionante.

Milhares responderam ao chamado de guerra.

Eles marcharam � Terra Santa.

Em menos de 4 anos, eles retomaram Jerusal�m.

Essa extraordin�ria campanha

hoje � conhecida como a Primeira Cruzada.

Muitas outras se seguiram a ela.

Lutar, at� morrer nas Cruzadas,

era um dos mais altos ideais da Idade M�dia.

A Igreja do Templo, em Londres,

simboliza as aspira��es dos cruzados.

Ela imita a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusal�m.

Ela foi a casa dos Cavaleiros Templ�rios,

um grupo de elite de monges guerreiros

que formaram uma das unidades mais temidas das Cruzadas.

As Cruzadas eram diferentes das demais guerras,

pois eram guerras santas. Guerras santas crist�s.

Foram autorizadas pelo Papa,

e traziam benef�cios espirituais para quem lutava nelas.

Se morresse numa cruzada,

todos os seus pecados estavam perdoados.

A luta na Terra entre o bem e o mal,

tinha atingido um outro n�vel.

S�o Bernardo de Claraval

apelou aos seus companheiros crist�os.

"Surgia um novo tipo de cavalaria.

"O cavaleiro de Cristo, digo eu,

"mata com mente despreocupada.

"Um crist�o deve se glorificar com a morte de um pag�o,

"pois Cristo foi glorificado."

As Cruzadas, sem d�vida,

aprofundaram a hostilidade entre crist�os e mu�ulmanos,

fazendo os dois mundos entrarem em colis�o

de forma que tem consequ�ncias at� hoje.

A pr�pria palavra "cruzada" tem significados opostos

no Ocidente e no mundo mu�ulmano.

No Ocidente, ela significa uma luta por uma boa causa.

No mundo mu�ulmano, ela evoca imagens

dos ocidentais brutais e agressivos.

Os mu�ulmanos hostis � presen�a americana no Oriente M�dio

insultam os soldados americanos como "os cruzados".

O mundo crist�o agora estava na ofensiva.

Se os mu�ulmanos eram vistos como o inimigo pr�ximo,

havia um outro inimigo ainda mais pr�ximo.

Os judeus.

Na maior parte da Europa medieval,

o Juda�smo era a �nica religi�o n�o-crist�

oficialmente tolerada.

Sua posi��o era prec�ria e �s vezes perigosa.

Os judeus eram insultados,

mas tamb�m eram tidos como financiadores.

Eram, tecnicamente, propriedade do rei,

uma rela��o inc�moda que permitia explora��o e prote��o.

Na Gr�-Bretanha medieval,

os judeus eram tratados com intoler�ncia crescente.

Havia boatos de pr�ticas estranhas nas sinagogas.

Em 1144, judeus em Norwich

foram acusados de um assassinato ritual,

de raptar e matar um menino crist�o

ridicularizando a crucifica��o.

Mas foi em York

que a hostilidade aos judeus acabou em viol�ncia.

Em mar�o de 1190,

o povo de York se virou contra os judeus locais.

"Nem a lei, nem a raz�o, nem a humanidade os deteve,"

nas palavras de um cronista contempor�neo.

O ataque foi liderado por nobres

que deviam dinheiro aos judeus,

e fizeram quest�o, durante os tumultos,

de confiscar e queimar os pap�is que registravam suas d�vidas.

Em desespero, os judeus refugiaram-se no castelo real,

hoje conhecido como Torre de Clifford.

L� fora, a multid�o crist� se reunia,

os nobres endividados, os aprendizes locais,

um eremita que disse:

"Est�o fazendo a obra de Deus".

Os judeus resistiram como puderam,

atirando pedras sobre os sitiantes,

uma das quais matou o eremita.

Mas sua situa��o era desesperadora.

Os crist�os trouxeram catapultas,

imensas m�quinas que arremessavam pedras

e demoliam as muralhas.

Os judeus sabiam que era imposs�vel resistir mais.

Eles recorreram ao seu membro mais velho e s�bio, o rabino,

que lhes deu um conselho simples mas aterrador.

Suic�dio em massa.

Cada um dos homens judeus devia pegar sua faca

matar a pr�pria esposa e filhos, e se matar.

Eles atearam fogo no castelo,

que � �poca era feito de madeira,

e no meio das chamas come�aram essa atrocidade.

Os judeus que n�o optaram pelo suic�dio

imploraram aos crist�os l� fora que os deixassem ir.

Os crist�os concordaram. Os judeus sa�ram.

Foram todos massacrados.

N�o restou um judeu vivo em York naquele dia.

A hostilidade contra os judeus era alimentada

por uma Igreja e Estado cada vez mais intolerantes.

Eles foram obrigados a usar sinais identificadores.

E, em 1290, Eduardo I da Inglaterra

anunciou que todos os judeus deviam se converter

ou deixar o reino para sempre.

Eles s� voltariam no governo de Oliver Cromwell.

Com os judeus banidos,

a ofensiva contra os infi�is continuou,

� medida que a Igreja se concentrava em um novo alvo...

os reformadores religiosos em suas pr�prias fileiras.

Esses reformadores eram perigosos,

"o inimigo interno", e precisavam ser eliminados.

Seus oponentes os chamavam de lollardos,

que significa "resmung�es".

Muito do que eles "resmungavam"

atacava a pr�pria ess�ncia da Igreja medieval.

Da cren�a na peregrina��o, � interven��o dos santos.

Os lollardos foram inspirados pelo te�logo de Oxford,

John Wycliffe. Durante 10 anos ele foi reitor desta igreja,

Santa Maria de Lutterworth, em Leicestershire.

Ele atacava a riqueza da Igreja e seu envolvimento na pol�tica,

e queria que a B�blia fosse traduzida

do latim para o ingl�s,

para que o povo pudesse ouvir e entender

as palavras da Escritura em sua pr�pria l�ngua.

Essa medida amea�ava os intermedi�rios de Deus,

os padres que interpretavam a B�blia latina para os fi�is.

E pior, Wycliffe atacou a cren�a central

que, durante a Santa Comunh�o,

o p�o e o vinho se transformavam no sangue e corpo de Cristo.

Seu desprezo por essa doutrina

acabava com o mist�rio e a magia do ritual crist�o.

� medida que o apoio a Wycliffe crescia,

no Pal�cio de Lambeth, sede do arcebispado de Canterbury,

as autoridades eclesi�sticas decidiram agir.

Em 1378, Wycliffe foi trazido � capela do Pal�cio de Lambeth

para ser julgado por suas cren�as.

Foi um evento turbulento.

Londrinos vieram manifestar seu apoio.

Wycliffe defendeu suas opini�es, com calma e convic��o.

Mas, ao final, os bispos o condenaram ao sil�ncio perp�tuo.

Wycliffe voltou a Lutterworth,

proibido de voltar a falar contra a Igreja.

Ele morreu ali em 1384.

O Papa n�o esqueceu John Wycliffe.

Anos depois, ele ordenou que seus ossos fossem queimados

e suas cinzas jogadas no rio local.

Apesar disso, os seguidores de Wycliffe n�o foram silenciados.

Em 1395, eles afixaram um ataque pungente contra a Igreja

na porta do Sal�o Westminster.

"N�s, pobres homens, exigimos a reforma

"da Santa Igreja da Inglaterra,

"que h� muitos anos est� cega e leprosa,

"e � um grande fardo para o povo ingl�s."

Reforma n�o era uma palavra que a Igreja medieval queria ouvir.

V�rios seguidores de Wycliffe foram presos e interrogados.

Alguns, dizem, foram presos no pr�prio Pal�cio de Lambeth.

O nome tradicional deste lugar � Torre Lollarda.

� um lugar sombrio e assustador.

Ainda podemos ver as manilhas nas paredes

as quais os prisioneiros foram acorrentados.

� um lembrete um tanto assustador

dos perigos de ser herege na Inglaterra medieval.

Em 1401, um pregador lollardo foi queimado na fogueira.

Ele foi o primeiro de muitos queimados por sua cren�a

na Inglaterra medieval.

Por toda a Europa,

a Igreja objetivava erradicar toda a oposi��o.

Homens e mulheres foram levados a tribunais eclesi�sticos.

Toda a heresia devia ser destru�da.

Milhares foram mortos em nome de Deus.

Para um n�mero crescente de pessoas,

a intransig�ncia brutal da Igreja

se tornou intoler�vel.

Cem anos ap�s os lollardos

atacarem a ideia da reza pelos mortos,

a peregrina��o, a riqueza e poder dos bispos

e o que chamavam de "falso milagre da missa",

outro ataque foi lan�ado

para atingir o cora��o da Igreja medieval.

E o que se seguiu foi uma guerra de ideias em grande escala,

que marcou o in�cio da Reforma Protestante.

A Igreja medieval estava prestes a enfrentar

seu pr�prio julgamento.

O cen�rio religioso da Gr�-Bretanha

jamais seria o mesmo.

O medo do Armagedom.

O fasc�nio pelo sobrenatural.

O culto aos santos.

As grandes viagens de peregrina��o...

estavam destinados a se tornar rel�quias da era medieval.

MUSKETEERS Legendas Para a Vida Toda!

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