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Original subtitles

Está bem.

Está um dia lindo e vou tricotar.

Acho que já chorei o suficiente. Chorei todos os dias.

Acho que chorei todos os dias nas últimas

cinco semanas.

De vez em quando.

Não sei como expressar

como me sinto.

Mas espero que, aconteça o que acontecer, e seja qual for o resultado,

que fique em paz em breve

e que consiga seguir em frente fazendo as coisas que quero.

E viver uma vida muito privada onde não tenho

de voltar a falar disto.

Odeio falar disto.

O PREDADOR DE SEVILHA

EPISÓDIO 3: O JULGAMENTO

SEVILHA, ESPANHA

12 DE MARÇO DE 2019

Passamos agora a um alerta da Embaixada dos Estados Unidos.

Falam sobre um predador sexual em Sevilha.

Aconselham-se os viajantes desta cidade a tomarem precauções extra

para evitarem contacto com este suposto agressor sexual.

Os EUA emitiram um alerta sobre um guia turístico de Sevilha.

Segundo informações da Embaixada dos Estados Unidos,

os seus cidadãos estão a ser avisados sobre a conduta

que está ligada a abuso sexual por parte deste homem.

Um sevilhano que tem uma agência de viagens.

No seu website, tem todos os seus dados. Incluindo o primeiro e o último nome.

ALGUNS DIAS ANTES

Quando estava a passar pelo processo de tentar divulgar informação,

comecei a ver no Facebook que havia uma empresa nova.

E tinha um marketing parecido à Discover Excursions.

Tinha ex-funcionários da Discover Excursions a trabalhar lá.

A empresa podia ser do Manuel e pensei:

"Ele teve coragem para abrir outra?

O mesmo negócio outra vez?"

Fui à embaixada e disse:

"Quero que saibam isto. É possível que ele tenha um negócio novo."

Eles enviaram um alerta, um aviso para as raparigas, sobre ele.

ALERTA DE SEGURANÇA

SEVILHA, ESPANHA

CONTRA MANUEL BLANCO VELA

Estou nesta profissão há 22 anos e nunca vi uma embaixada,

dos EUA ou de outro país, a emitir um alerta deste género.

ALERTA DOS EUA: PREDADOR SEXUAL EM SEVILHA

GUIA TURÍSTICO É ACUSADO DE VIOLAÇÃO

PREDADOR SEXUAL DE ESTUDANTES

ABUSO SEXUAL EM SEVILHA

Não me lembro exatamente o que dizia,

mas era um aviso para os americanos terem cuidado.

AMERICANOS A ESTUDAR EM ESPANHA,

CUIDADO EM SITUAÇÕES QUE ENVOLVAM ÁLCOOL,

SOBRETUDO COM BEBIDAS QUE VOS SÃO OFERECIDAS.

Porque é que os EUA fizeram isto? Porque a investigação era complexa.

Os eventos ocorreram fora de Espanha.

POLÍCIA INVESTIGA QUEIXAS DE VIOLAÇÃO

A Espanha não tinha como provar

algumas das acusações feitas contra ele, que datavam de há vários anos.

Assim, este homem ficou livre e continuou a fazer o mesmo.

Não tive medo.

Durante este tempo todo, não tive muito medo.

Apenas estive muito zangada.

Tive medo quando percebi que tinha de escrever a minha declaração.

Eu diria que a embaixada deu o seu melhor para nos ajudar,

mas foi muito clara em relação às suas limitações.

Eles nunca tinham tido um caso assim.

E nós pedimos: "Podem ajudar-nos?"

Não sabíamos o que fazer.

Como se inicia um processo de violação em Espanha?

Com quem devemos falar?

Várias mulheres vieram ter comigo para eu recolher os depoimentos delas.

Para, depois, os entregar ao procurador.

E-MAIL NOVO

Eu pedi às mulheres para escreverem as histórias delas,

Respondia a perguntas, ia à embaixada,

obtinha respostas e partilhava as respostas.

Depois, recebia o formulário e as mulheres assinavam.

Elas enviavam e a embaixada dizia: "Tem de estar em espanhol."

E eu pensava: "Cabrões!"

Decidi ligar à minha abuela, que é uma cubana pequenina,

a pedir para traduzir as violações do meu violador.

Perfeito. Muito obrigada pela ajuda.

Isto durou muitos meses.

Foi assim que a embaixada me ajudou, mas eu é que fiz tudo.

Foi reconfortante ouvir outra sobrevivente.

E foi muito bom saber que alguém estava a fazer alguma coisa.

E pensei: "Não nos vão ignorar a todas.

Com as provas de tantas pessoas que passaram por isto,

a polícia terá de fazer alguma coisa."

Sabem…

Quando alguém não investiga o nosso caso,

é como nos dizerem que não temos importância.

Não é justo o que me aconteceu.

E sinto-me mal ao olhar para mim com 19 anos.

Eu não merecia aquilo. Era inocente e querida.

Olá!

Pensei mesmo que ia morrer.

O Manu convidou-me a mim e às minhas amigas para sairmos.

E disse que me oferecia uma bebida. Eu agradeci.

Eu bebi-a e depois…

A partir daí, comecei a sentir-me mal.

Comecei a vomitar sem parar, deitada de lado.

Não tinha controlo sobre o meu corpo e caía para o lado.

Lembro-me de que não conseguia mexer-me.

E lembro-me de não conseguir ver.

Estava tão assustada que pensei que fosse ficar cega.

Lembro-me de pensar que era assim que ia morrer.

E ia morrer naquela casa de banho.

Ele disse às minhas amigas: "Divirtam-se mais.

Eu cuido da Zora.

Vou levá-la para o apartamento e ela vai ficar bem. Vai ser seguro."

Ele continuou a insistir

e a dizer às pessoas para me deixarem com ele.

Estou muito grata por as minhas amigas terem sido inteligentes.

Elas disseram que não se iam separar de mim.

Graças a Deus!

Fico feliz por conseguirem proteger-me.

Depois de ser drogada, pensei que tinha sido o barman.

Ou um estranho no bar.

Nunca teria imaginado que tinha sido o Manu.

E só alguns anos depois é que vi que havia um website

que a Gabrielle criou.

JOVEM VIOLADA POR GUIA TURÍSTICO

ENCERRADA

E, quando pesquisei, vi tudo.

E, depois, percebi.

OLÁ, GABRIELLE. SOU A ZORA MIHALEY. TENHO INFORMAÇÃO SOBRE O MANU.

Disse à Gabrielle que queria ajudá-la a prender aquele homem.

Porque ele é um criminoso horrível.

E acabei por voltar a Portugal.

17 DE JULHO DE 2021

Enquanto estava lá,

apresentei queixa à polícia por ter sido drogada por ele.

Este é a queixa que apresentei.

E a resposta deles ao caso…

Diz: "Devido à falta de provas, o caso será arquivado

ao abrigo do artigo 277,

número dois, do código penal."

Portanto…

Eu senti-me inútil.

BECO SEM SAÍDA

Eu sabia que, provavelmente, começou e acabaria comigo.

Se algo me acontecesse, isto teria ido por água abaixo.

A Gabrielle tinha 19 anos, talvez tivesse 21 anos

quando ela estava a tentar apanhá-lo.

E as raparigas confiavam nela.

Foi muito difícil para mim ver as raparigas a confiarem na Gabrielle

para fazer justiça por elas.

Eu nunca quis falar sobre isto.

Não contei à minha família ou amigos até à possibilidade de um julgamento

e representação legal ter surgido.

Havia tanto em jogo e tanta coisa que devia

ser tornada pública sobre a pessoa horrível que ele é

que me pareceu uma oportunidade importante.

Acho mesmo que as pessoas acharam que eu não ia aguentar.

Mas eu sou muito teimosa.

A Gabrielle tinha o trabalho a tempo inteiro

como nossa terapeuta, secretária e também ajudante legal.

Ela teve de fazer imensas coisas

enquanto lidava com o seu próprio trauma.

Viram o meu dossiê?

Eu fiz uma investigação.

É o meu melhor trabalho.

Aqui está o caso. Prendam-no.

MADRID, ESPANHA

A Gabrielle Vega contactou-me em Espanha.

Ela contou-me o que aconteceu.

Não tenho dúvidas de que a história dela é verdadeira.

Expliquei-lhe o processo legal, os passos que tínhamos de seguir.

E também a complexidade do assunto,

tendo em conta que alguns dos eventos aconteceram fora de Espanha.

O território onde aconteceram não faz parte da União Europeia.

Havia também a dificuldade de potenciais testemunhas,

como os eventos se tinham desenrolado…

A queixa foi apresentada em 2018.

Passaram sete anos.

Porque demorou tanto tempo a ir a julgamento?

Este caso era óbvio.

Tinha relatórios policiais. De que estavam à espera?

DUAS SEMANAS ANTES DO JULGAMENTO

Em que estás a pensar? O julgamento é daqui a quantos dias?

- Treze dias. - Que dia é hoje?

- São 13 dias? - Acho que sim. Ou talvez menos.

Em que estás a pensar?

Estou a tentar não pensar nisso.

A única coisa que posso fazer é não pensar nisso. Não sei.

Achas que algum dia conseguirás voltar a Espanha?

Não sei. Há muita pressão para voltar a Espanha para o julgamento.

- Sim. Diz-me. - Em parte, sinto que…

Se não correr bem,

vou pensar que talvez fosse diferente, se estivesse estado lá.

Mas sinto que teria tido um esgotamento mental,

se fosse a Espanha.

Não quero pensar nisso. Prefiro não saber.

Mesmo que ele estivesse do outro lado do país,

não sei se me sentiria confortável em ir a Espanha.

Só iria se ele estivesse preso.

Mas, se não estiver, aceito não voltar lá.

Acho que vais sentir muito alívio quando isto acabar.

- Sim. - Sabendo que fizeste tudo o que podias.

- Não sei o que mais podia fazer. - Não podias fazer mais nada.

- Mais nada mesmo. - Sim. Não sei.

MADRID, ESPANHA

27 DE JANEIRO DE 2025

Tem início o julgamento contra o guia turístico de Sevilha

acusado de violação de várias estudantes americanas.

Ele tinha um padrão.

Aproveitava-se do facto de serem miúdas no estrangeiro.

Os investigadores estão convencidos de que pode ser um predador sexual

porque ele pode ter abusado de muitas outras mulheres.

O arguido era dono e guia turístico de uma agência de viagens em Sevilha.

Foi assim que ele entrou no tribunal, esta manhã,

a tapar-se com um guarda-chuva.

No dia em que chegámos ao final do processo,

há sempre incerteza quanto à forma como o tribunal avaliará as provas.

Parte de mim quis ver o julgamento. Como podia não ver?

Mas decidimos não ver o julgamento.

Provavelmente, seria muito difícil.

Ótimo. Bom dia.

Vamos começar a audiência. Advogada, prossiga.

Além da Gabrielle, apresentei queixas,

que mantive no julgamento,

em nome de mais duas mulheres que foram atacadas.

MAIO DE 2017

AGRESSÃO SEXUAL

Houve atos de exibicionismo,

toques e provocações.

Eu perguntei às mulheres sobre quem queria avançar.

E, basicamente, fui eu, a Hayley e a Carly.

A Amanda Gormsen foi outra das vítimas.

Na altura, acompanhamos a queixa dela.

O tribunal exigia que houvesse uma procuração para nós avançarmos.

NU

ASSUSTADOR SEXO

Antes do início do processo,

foi apresentado um recurso de reconsideração

em relação à representação legal da Amanda Gormsen.

No entanto, dado que o julgamento começava hoje,

já emitimos uma ordem a rejeitar o pedido de reconsideração.

Por isso, estamos a comunicar a nossa decisão.

Eu apresentei o recurso e foi recusado.

Se tivesse insistido, o julgamento seria suspenso,

haveria discussão e isso teria resultado em mais atrasos nos procedimentos.

Acho que é uma falha em muitos sistemas diferentes.

Acho que, mesmo quando tentamos,

não conseguimos fazer nada,

ter resultados ou um desfecho,

porque os sistemas são confusos, lentos

e pouco claros.

Por isso, mesmo que tentemos,

parece fútil continuar.

O ato criminoso não desapareceu

só porque o tribunal não aceitou a acusação.

A acusação mantém-se. O ato não foi apagado.

O crime continua a existir

e a possibilidade de apresentar queixa também.

Fiquei um pouco desiludida.

Fiquei nervosa, porque tinha muitas mulheres

e ficámos só eu

e mais duas, as duas originais.

Quando havia muitas mulheres que queriam fazer isto.

Está na hora de o arguido testemunhar, se assim o desejar.

Por favor, sente-se numa dessas primeiras cadeiras

e aproxime o microfone de si.

Estar na mesma sala do que uma pessoa assim,

com aquela tranquilidade

com a qual cometeu os crimes…

Tivemos casos em Espanha de um violador em série.

Mas, nesse caso, houve quatro ou cinco agressões.

Que já são muitas, muitas mesmo.

Mas, neste caso, vai muito além disso. É incompreensível.

Como arguido neste julgamento tem o direito de não se declarar culpado,

de não testemunhar contra si mesmo ou de não testemunhar.

Para mim, seria uma verdadeira surpresa se o caso acabasse numa condenação.

Aqui, estamos a falar do testemunho de uma pessoa contra outra.

Quer responder às perguntas da procuradora,

da acusação e da defesa?

Não tenho problemas em responder às perguntas da procuradora,

do meu advogado e da meritíssima.

Está bem, não responderá às perguntas da acusação.

Correto.

Era de prever, porque é comum o arguido

não responder às perguntas do advogado de acusação.

O que achas que o Manuel vai dizer?

Não sei. Provavelmente, ele não dirá algo inteligente.

Não sei o que ele vai dizer.

"Não aconteceu. Nunca vi esta rapariga na vida."

Não sei o que ele vai dizer.

O que me importa o que ele diz?

A defesa.

Com a sua permissão, meritíssima.

Manuel.

Em relação à viagem a Marrocos de dia 2 de novembro,

nega ter tido algum tipo de relação com a Gabrielle Vega?

Nenhuma relação. Nenhuma.

Pode dizer-nos o que aconteceu no quarto?

Lembro-me de que fui com as três raparigas.

Vi-as no café.

Havia um café-bar no topo.

Fomos para o quarto e pedimos champanhe, acho eu.

Eu bebi um copo e, cerca de uma hora depois, saí.

Foi isso que aconteceu.

Não teve nenhuma interação sexual com nenhuma…

De todo.

Não tenho mais perguntas, meritíssima.

Ele ia continuar a negar tudo,

como tinha feito até ao julgamento, onde continuou a negar.

Muito bem. Passo a palavra à procuradora.

Boa tarde.

Em relação ao relato da Gabrielle,

para além de o negar,

disse que não reconhecia a cara ou o nome da Gabrielle.

Mantém essa afirmação?

Fiquei a saber disto pela Internet, em…

Não me refiro aos eventos.

Estou a referir-me ao que disse sobre não se lembrar da cara ou do nome

e que só soube disso pelas redes sociais.

Nunca a tinha visto?

Vi-a na viagem.

Então, já a tinha visto.

Sim, mas eu não… Devo tê-la visto.

Provavelmente, sim, mas não me lembrava dela

quando a vi na televisão a falar.

Eu sei exatamente com quem tive relações e não tive nenhum tipo de relação com ela.

Vi-o com a convicção e, desculpem a expressão, arrogância

de quem pensa que não lhe acontecerá nada.

Mas isso é falso, porque ele fez.

Nas viagens, viajamos com muitas pessoas.

Não me lembro de todas.

Na altura, em 2013,

era o administrador da Voodoo Travel.

Voodoo Travel era o nome legal para fins fiscais e contabilísticos.

E Discover Excursions era o nome comercial.

Começou como estagiário?

Sim. Entrei para lá em 2010, acho eu, como estagiário.

Depois, passei a funcionário e, mais tarde, a diretor.

E, depois, venderam-me a empresa.

Atualizámos o website e fiz alterações. No escritório também.

A empresa estava quase falida. Os números não eram bons.

E ele conseguiu dar a volta ao negócio fazendo marketing para as universidades.

Ele foi a universidades de Espanha e da Europa

distribuir cartazes e panfletos,

promovendo-se

e oferecendo preços muito competitivos

para o contratarem.

E, quando isto aconteceu em 2018, a empresa estava muito bem.

Acabámos por fechar em 2018 devido às raparigas terem ido à televisão.

Teve uma relação invulgar

com as suas clientes e levava-as para os seus quartos?

Como funcionava isso?

Durante o tempo em que trabalhei naquela empresa,

tive algumas relações com raparigas nas viagens, mas sempre foi consensual.

Também afirmou que, muitas vezes, as clientes adormeceram em sua casa

e não aconteceu nada.

As clientes não iam para minha casa.

Na minha vida pessoal, não posso ter relações com pessoas?

É uma pergunta.

Pergunta retórica.

Por favor, prossiga.

Não tenho mais perguntas, meritíssima.

Pode sentar-se lá atrás.

Obrigado.

Não sei. Tem piada.

Passei imenso tempo da minha vida a trabalhar nisto e, depois, vi-o

a depor durante 15 minutos,

quase a rir de algumas coisas, a contradizer-se,

a mentir, a dizer que nunca me viu.

Entretanto, toda a minha vida quase foi destruída por causa disso.

O Manuel Blanco sempre manteve a mesma versão dos eventos,

afirmando a sua inocência e dizendo que não fez nada.

Ele tem, por assim dizer, o direito de mentir, ao qual me oponho.

Aqui está ele.

Aqui está ele.

Manuel, achas que vais para a prisão?

- Estás a rir-te? - Não.

- Tens algo a dizer às vítimas? - Não.

Porquê?

Diz-me. Como é possível que todas as suas declarações sejam tão parecidas?

- Não me toques. - Para.

Estou só a falar contigo.

Se elas não se conhecem, como é que as declarações coincidem?

SEGUNDO DIA DO JULGAMENTO

Ainda está escuro aqui, às 7h10 da manhã.

É um dia muito importante para mim.

Tudo pelo qual trabalhei durante todos estes anos,

para ele ter de se responsabilizar e dizer o que me aconteceu.

E…

E para recuperar a minha vida.

Veremos o que acontece.

VISITANTE

É verdade que o testemunho da Gabrielle é muito consistente.

Mas ela não irá testemunhar a Espanha. Ela fá-lo-á por videoconferência.

Eu sempre quis que fosse feito pessoalmente.

Mas havia um problema.

O problema era enfrentar o agressor, o que é angustiante.

Ela não conseguia estar perto dele.

Ela tinha muito medo de o encontrar num corredor ou assim.

Bom dia para os EUA.

Daqui fala o Supremo Tribunal.

O juiz quer que diga o seu nome completo, por favor.

Gabrielle Nicole Vega.

Se a vítima fizer uma declaração coerente,

como o seu testemunho à NBC, o caso pode acabar numa condenação.

Mas, se não o fizer, será muito mais difícil.

- Jura dizer a verdade? - Sim.

Primeiro, vai responder às perguntas da procuradora.

Com a sua permissão, meritíssima.

Pode dizer ao tribunal

o que se lembra da noite de 2 de novembro de 2013?

Sim. Eu tinha adormecido e, a dada altura,

não sei durante quanto tempo dormi, mas acordei.

Não estava ninguém no quarto e fiquei muito confusa.

Mas sabia que devia ir à casa de banho.

Abri a porta da casa de banho

e vi a Nicole, a Ashley e o Manuel no duche.

Eu fechei a porta quando os vi.

E os três saíram da casa de banho.

E eu entrei para usar a casa de banho.

Então, sentei-me na sanita.

E, quando estava sentada na sanita, estava virada para a porta.

E não tranquei a porta.

E…

E…

Só me lembro do Manuel a entrar.

E, depois disso, só me lembro

de ele me obrigar a fazer-lhe sexo oral.

Depois, ele empurrou a minha cabeça e eu caí para o lado.

E só me lembro disso e, depois, acordei na manhã seguinte.

A versão dela sempre foi idêntica e consistente de como tudo aconteceu.

Teve algum tipo de desconforto físico

quando acordou?

Sim, quando acordei na manhã seguinte,

doía-me a barriga, na parte inferior

e estava muito dorida na minha região anal.

E tinha nódoas negras nos joelhos.

Um esclarecimento, quando perguntado pelo procuradora

em relação a ter sentido dor, referiu a região anal

e também mencionou a parte inferior da barriga.

Referia-se à zona vaginal?

Sim.

Achei-a muito convincente e emotiva, porque ela teve de reviver a situação.

Acho que a Gabrielle foi muito clara e precisa

ao narrar e ao informar o tribunal,

não só sobre como os eventos se desenrolaram,

mas também sobre o peso emocional do momento e de testemunhar em tribunal.

Advogada de defesa.

Quando regressou a Espanha,

foi ao médico para ser examinada?

Não, não fui ao médico, mas falei com…

Quero ser clara. Eu não conhecia a língua.

Não sabia como dizer "violação" em espanhol, por isso, não fui.

Não tenho mais perguntas.

Boa tarde, Gabrielle.

Isto afetou as tuas relações com outros homens?

Sim.

É muito difícil para mim ter relações íntimas com homens.

Nunca tive uma relação a sério com ninguém desde então.

E isso está diretamente relacionado com isto.

Muito obrigado.

Não temos mais perguntas.

Agora, vou perguntar-te sobre o futuro.

Com o que sonhas?

Com que sonho?

Fico entusiasmada só de pensar

em ter uma vida simples.

Não sei. Vou arranjar um cão depois do julgamento.

Um cachorrinho. E parece uma coisa parva, mas tipo…

Estou entusiasmada por estar no campo.

Por estar na natureza, por ter o meu cão, por ter os meus amigos

e por tirar fotografias.

Quero pintar todos os dias. Quero fazer aquilo de que gosto.

Se pensar mais além, no futuro,

se conhecer alguém, se me apaixonar

e tiver a sorte de ter um bebé…

Sinto que saberei…

… que fiz o meu melhor para garantir que o mundo é um pouco mais seguro.

Um dia-chave no julgamento contra o guia turístico de Sevilha

acusado de abusar estudantes norte-americanas

nas viagens que organizava.

Temos duas testemunhas,

as duas raparigas que estavam com a Gabrielle Vega

e o Manuel Blanco Vela no quarto de hotel onde tudo aconteceu.

LIGAR

Tenho a Ashley comigo.

Muito bem.

Vou passar a palavra à procuradora.

Boa tarde.

Com a sua permissão, meritíssima.

Vai testemunhar sobre o que se lembra

de uma noite em que partilhou um quarto de hotel em Tânger

com a Gabrielle Vega.

Correto.

E com a Nicole também.

- Correto. - Sim.

Este testemunho pode ser essencial, dependendo do que ambas disserem,

para determinar se o Manuel Blanco é condenado ou absolvido.

Nós as três ficámos juntas num quarto.

E encontrámo-nos naquela semana, quando voltámos para Salamanca.

NOVEMBRO DE 2013

Eu perguntei-lhes sobre aquela noite, perguntei se se lembravam.

Tipo…

Eu disse: "Ele entrou no quarto e não me lembro de nada."

E depois, antes de eu ter dito algo,

a Nicole disse: "Eu não me lembro de nada."

E eu lembro-me…

… de perguntar à Ashley.

Lembro-me de que ele foi à casa de banho.

Ela disse-me que ele esteve lá comigo durante 30 minutos.

E eu disse: "Eu acho que fui violada."

E fez-se

silêncio.

Porque acho que elas perceberam o que tinha acontecido.

Nunca mais falámos disso.

Nunca.

O que se lembra daquela noite?

Lembro-me de que estávamos em Marrocos

e ficámos no hotel.

Depois, o líder da organização, o Manuel, ele foi ao nosso quarto

e mandou vir champanhe para nós.

Bebemos o champanhe e ficámos no quarto com o Manuel.

Lembra-se de fazer jogos sexuais

com o arguido nessa noite?

Sim, mas não me lembro de que jogos eram.

Lembro-me de ele namoriscar connosco

e de nos fazer perguntas.

Mas não me lembro especificamente do que aconteceu na altura.

Nesse momento, a Gabby zangou-se

porque ela tinha demonstrado interesse no Manuel.

Eu e a Nicole fomos para a cama

e só me lembro de ela estar na casa de banho com o Manuel.

Quando diz que o Manuel e a Gabrielle estavam na casa de banho,

viu-os a entrar?

Sinto que tenho uma memória deles a entrarem na casa de banho.

Lembra-se se a senhora, a Ashley e o Manuel

foram tomar banho e, depois, a Gabrielle entrou?

Não, não me lembro disso.

Não, não me lembro.

Advogada de defesa.

Repararam nos ferimentos nos joelhos da Gabrielle na manhã seguinte?

Não me lembro.

Não.

Quando souberam que a Gabrielle achava que o Manuel a tinha violado?

Eu soube disso anos depois.

Eu só soube quando a notícia passou no The Today Show.

- Não tenho mais perguntas. - Muito obrigada.

O testemunho terminou e podemos desligar.

O caso está submetido a julgamento. Podem sair.

Os testemunhos

contradizem parcialmente o relato da vítima principal, a Gabrielle Vega.

As versões delas diferem da versão da Gabrielle.

As duas raparigas também não deram testemunhas adicionais.

Se o tribunal tiver em conta estes testemunhos,

o arguido poderá acabar por sair beneficiado.

Seria ultrajante para mim se este homem,

e peço desculpa pela expressão, escapasse impune.

30 DE JANEIRO DE 2025

É o dia a seguir ao julgamento.

Estive a pensar sobre o que a Ashley disse no julgamento

e sobre o quão zangada ela parecia estar.

Acho mesmo que ela acredita que não fui violada.

Sofri durante anos por causa disto.

Sofri durante 11 anos por causa do que se passou.

E alguém pode entrar numa sala e dizer:

"Bem, ela estava interessada."

E?

E?

O conceito de consentimento

é muito claro.

Eu fiquei…

… incoerente.

Não me conseguia aguentar em pé.

E fui atacada.

Onde está o consentimento?

Depois do testemunho,

contactei-a, escrevi-lhe.

Disse-lhe como tinha corrido o julgamento e disse-lhe o que achava.

Só nos restava esperar pela decisão.

Eu estava confiante de que ele seria condenado.

E também lhe disse que,

caso o Manuel Blanco fosse absolvido,

a não ser que ela não quisesse, a minha posição seria recorrer.

Não quero recorrer.

Aconteça o que acontecer,

não posso continuar.

Eu posso fazê-lo. Eu podia fazê-lo.

Sou capaz disso, mas não quero continuar.

Eu sei que vai ser ela quem o vai pôr na prisão.

Ele vai arrepender-se de a ter conhecido, de ter visto o nome dela.

De certeza que já está arrependido.

E depois penso,

se não correr como queremos,

haverá muitas raparigas que vão ver a série que estamos a filmar

e isto vai expô-lo.

Vão haver vítimas que não conhecemos.

De certeza que algumas delas estarão dispostas a submetê-lo ao processo.

Quero que ele seja preso.

Quero que ele saia das ruas e que deixe de ser uma ameaça.

Mas também quero que isto seja feito por ela.

Ela não…

Gosto muito dela.

Ela não merece reviver isto vezes sem conta.

Ela merece ser libertada disto

e ela só será libertada depois deste julgamento.

Ele afetou a capacidade dela,

a nossa capacidade de viver e a nossa saúde mental.

Só espero que haja justiça nesse aspeto.

Que…

… ele seja reconhecido como violador e como predador.

Para nós termos um desfecho.

Sou muito cínica

em relação às mulheres verem a justiça ser feita neste tipo de crimes.

Espero que chegue a algum lado.

Acho que ele será condenado.

Ele devia passar o resto da vida na prisão.

Acho que muitas mulheres sabem

que é muito difícil conseguir condenações.

Espero que, pelo menos, este caso traga mais notoriedade pública em relação a ele.

Ele merece. É uma pessoa horrível.

Não tenho medo por dizer a verdade.

Ele é que devia ter medo. E acho que ele tem.

Há pessoas como ele por aí.

E é muito difícil aceitar isso.

Porque se soubéssemos quantos monstros há por aí…

Meu Deus! Não sairíamos de casa.

A ideia de que isto só acontece aos outros tem de ser reconsiderada,

porque acontece mais do que queremos reconhecer.

Tenho de acreditar que ele será responsabilizado,

porque acho que os homens continuam a fazer isto porque acham que não serão.

Algo tem de mudar.

Estamos aqui porque não temos medo dele.

Não tinhas nada de especial.

Tu apenas escolheste as tuas vítimas porque nós éramos vulneráveis

e tu achavas que não íamos dizer nada.

E estavas enganado.

Acho que ele sabe que isto é o fim da história para ele.

12 DE FEVEREIRO DE 2025

DUAS SEMANAS APÓS O JULGAMENTO

VIDEOCHAMADA COM A GABRIELLE VEGA

JORNALISTA

Olá.

Olá. Bom dia, Gabrielle.

Tenho um pressentimento.

Tens um pressentimento? Então?

É um veredito?

- Sim. - Está bem.

Ele é culpado.

MANUEL BLANCO FOI CONDENADO PELO TRIBUNAL A SEIS ANOS DE PRISÃO

POR ABUSO SEXUAL DE GABRIELLE VEGA.

Vou ligar ao meu pai.

O TRIBUNAL ACRESCENTOU DOIS ANOS E MEIO À SENTENÇA

POR ATACAR CARLY E HAYLEY.

Já sabemos!

Como?

A Ana ligou-nos.

Quando tu ligaste…

Gabby! É fantástico! Conseguiste!

Meu Deus!

Acreditas?

Não.

MANUEL BLANCO RECUSOU FALAR PARA ESTE DOCUMENTÁRIO.

É fantástico.

Eu sei.

Eu sei.

Não acredito.

Estou em choque. Eu queria acreditar, mas estou em choque.

Eu também.

DEZENAS DE MULHERES PARTILHARAM

QUE TAMBÉM TINHAM SIDO VÍTIMAS DO MANUEL BLANCO

GRAÇAS AO #METOO DA GABRIELLE.

Pronto.

Eu…

… não faço ideia de como começar.

Até agora,

hoje, dia 12 de fevereiro de 2025,

é o melhor dia da minha vida, e nunca o esquecerei.

Vou mudar-me para o campo.

Vou comprar uma mula e vou chamar-lhe Gabby.

E, sempre que vir essa mula,

vou lembrar-me de algo que é teimoso, amoroso,

cheio de perseverança

e de que somos capazes de tudo na vida,

desde que sejamos honestos.

E podemos mandar os maus para a prisão.

É a melhor sensação do mundo, na minha opinião.

MANUEL BLANCO VELA RECORREU AO TRIBUNAL ESPANHOL.

A SENTENÇA NÃO É FINAL.

Legendas: Ruben Oliveira

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