All language subtitles for Portobello - 1x05 - Episode 5.WEB.EDITH.pt

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Original subtitles

4 DE FEVEREIRO DE 1985 INÍCIO DO PROCESSO DA NCO

BUNKER DE POGGIOREALE

CELAS PARA DISSOCIADOS E ARREPENDIDOS

- Como se chama? - Capone, Luigi.

MEMBROS DA CAMORRA DE CUTOLO

GUIDO MARMO MINISTÉRIO PÚBLICO

QUINTO EPISÓDIO

- Melluso, bom dia! - É a minha jornalista preferida!

Acaba de sair. Fala de si.

Obrigado.

- Posso ficar com ela? - Claro, é sua.

Obrigado.

- Adeus. E boa sorte. - Adeus.

- Dr. Pandico? - Mas qual doutor?

Ainda não me licenciei.

Mas é o primeiro arrependido da Camorra.

Não sou arrependido. Sou dissociado, que é bem diferente.

Pandico! Tu não és ninguém!

- Ninguém! - Ulisses também era Ninguém.

- E olha o que fez. - És um homem morto!

Chibo!

Não prestas!

Igualmente.

Sem educação, sem cultura.

A Itália não tem futuro. Está condenada.

Melluso, confirma a acusação realizada na instrução contra Tortora?

Sim.

- Quer acrescentar alguma coisa? - Queria dizer, Sr. Presidente,

que a minha família queria que acusasse os magistrados

de que foram eles a instigar-me a acusar o Tortora.

Queriam que mentisse para evitar as ameaças que me estão a fazer.

Mas se escutasse a minha família, hoje não estava aqui.

E o meu irmão Angelo provavelmente estava vivo.

O que querem de mim?! Sacanas!

Silêncio!

Silêncio!

Não me metem medo, homens de Cutolo, de Tortora e da Camorra!

Mataram-me um irmão que tinha apenas 18 anos!

Saia. Saia, Melluso.

Homens de Tortora? Nunca me passaria pela cabeça.

Giovanni Pandico, confirma a acusação da instrução contra Enzo Tortora?

Confirmo que Enzo Tortora é um homem da Camorra.

Membro honorário da Camorra.

Ocupa mais precisamente o lugar 60

na hierarquia da Nova Camorra Organizada.

E sei, embora não estivesse presente,

que foi integrado na casa da Sra. Nadia Marzano

na presença de Raffaele Cutolo e Pasquale Barra.

Basta! Têm de fazer silêncio!

Queria citar, se me permite, Sr. Presidente,

parte do Evangelho Segundo Lucas, capítulo 23, versículo 34.

"Senhor, perdoa-os, pois não sabem o que fazem."

Claro que não me quero comparar a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Saia, Pandico. Saia.

Chamemos a Sra. Nadia Marzano.

Por favor, minha senhora, faça o juramento.

"Ciente da responsabilidade moral e jurídica

"que assumo com o meu depoimento,

comprometo-me a dizer toda a verdade e a não esconder nada do que sei."

Diga que jura.

Juro-o.

Venha, instale-se.

Sente-se, minha senhora.

Sra. Marzano, ou Nadia,

está aqui para relatar o que declarou no interrogatório

na fase de instrução.

Pasquale Barra depôs ao juiz instrutor que Enzo Tortora pertence à Camorra,

fidelizado normalmente,

e que se associou à NCO na sua casa, em Milão, em 1978,

na presença de Raffaele Cutolo.

Confirma isto?

Confirmar é uma palavra forte.

Aproxime-se do microfone.

Confirmar é uma palavra forte, Sr. Presidente.

Sabe, eu, na verdade,

para dormir, porque sem isso morro, segundo dizem os médicos,

e também o bom senso...

Enfim,

para dormir tomo psicofármacos e soporíferos.

Não divague.

Já depôs sobre esta afiliação.

Mas naquela noite, quando me prenderam,

em plena noite,

chegaram uns polícias e tiraram-me do meu apartamento.

Pronto.

E naquela altura eu...

Em 77, estava na montanha.

Está a contradizer as declarações anteriores.

O meu filho tinha tosse convulsa e levei-o para a montanha,

como me tinham mandado os médicos.

O que tem o ano de 77 a ver?

A senhora afirmou, repito,

que em 1978 o Enzo Tortora estava em sua casa.

Mas sempre falei da tosse convulsa.

E acho... Acho que era 78.

Aliás, sim, tenho a certeza de que era 78.

Portanto, em 1978, o seu filho teve tosse convulsa.

E a senhora não vivia em Milão

porque levou o seu filho para se curar na montanha.

Dr. Della Valle, não a conduza.

A senhora disse 77.

77 ou 79.

Os demónios, Sr. Presidente.

A pergunta é simples.

A pergunta é simples, é inútil chorar.

Esqueça os demónios, que eles são complicados.

Bem, confirma ou não que o Tortora e o Barra estavam em sua casa?!

O Pasquale Barra, sim, conheço-o.

Mas não sei se estava presente.

Como não?

- Não conheço o Enzo Tortora. - Como assim, não o conhece?

A nós não interessa se o conhece ou não.

Queremos saber se esteve em sua casa.

Escrivão, escreva! Escreveu?

Deixe estar o escrivão, que sabe o que tem de fazer.

Não tenho dúvidas disso, só perguntei se escreveu

que o Barra não estava na afiliação, que hoje a testemunha nega.

Não.

Acho que não estava presente.

Ouviram? Está a negar.

Tem noção da gravidade do que está a dizer?

Primeiro diz uma coisa e depois contradiz-se.

O que disse?

Presidente, a minha cliente já tentou suicidar-se cinco vezes!

Sim, a minha mãe,

a minha avó e até o meu marido chamavam-me doida.

Mas é só uma alcunha, porque eu na verdade...

Sr. Presidente, queremos que fique em ata

a planta do pequeno apartamento da Sra. Marzano.

Doutor? Doutor, um momento. A senhora não se sente bem?

- Talvez seja melhor ficarmos por aqui. - Não! Não, Sr. Presidente!

É fundamental que ela confirme que não houve qualquer afiliação.

É fundamental que diga a verdade!

Não me interrompa! Deixe-me falar!

Bem, Sr. Presidente,

a senhora disse exatamente o oposto de quando depôs para o Juiz Fontana.

- A senhora pode sair. - Não, Sr. Presidente!

Ouça, a Sra. Nadia Marzano

disse o que disse na instrução porque sofreu pressões.

Deixe-a responder. Ia responder, é fundamental!

Doutor, eu não gosto de inferir.

A testemunha está confusa.

Mantém-se o primeiro depoimento,

no qual confirma que Tortora se afiliou na sua casa.

Para nós, está bem. E a lei consente-o.

Malditos! Malditos!

Saia, minha senhora.

Silêncio!

Nadi!

Nadi! O que fazes? Esqueceste-te do meu cheiro?

Já eu não me esqueço do teu cheiro.

Deixaste-te comprar!

Começamos a próxima audiência com o dissociado Salvatore Imperatrice.

É a tua vez, percebeste?

Outra acusação baseada em boatos.

Arrependeu-se e arrependeu-se de se arrepender.

Para o tribunal, bastam declarações coincidentes

de três arrependidos para terem uma prova.

Inacreditável. Basta a palavra. Como o anúncio do laxante.

Enzo, é agora.

Bom dia. Bom dia, amigos.

Estão fazer algo extraordinário com a Radio Radicale.

Importantíssimo!

Enzinho? Enzinho?

Como vai Bruxelas?

- Não responda. - As couves são boas?

Está aberta a audiência.

O depoimento de Salvatore Imperatrice não poderá ter lugar,

uma vez que esta noite suicidou-se na cadeia onde estava detido.

Era bom rapaz!

- Sabiam? - Não.

- Uma toupeira a menos. - Sobram 17.

Menos um sacana.

- Basta! - Parecem todos idiotas!

Mataram-no! Como mataram o Angelo Melluso!

- Exato. - Silêncio!

Logo no dia em que ia confirmar a acusação contra Enzo Tortora,

a testemunha suicida-se. Que coincidência extraordinária!

Vocês têm na consciência a morte deste pobre rapaz!

Atiraram-no para uma angústia horrível! Fizeram-no enlouquecer!

Tem de estar calado. Não tem o direito da palavra agora!

Como se atreve? Claro que tenho o direito!

Vou fingir que está louco.

Mas se bem se lembra,

o senhor, que é tão moralista, Catão, o Censor,

o seu cliente foi eleito com os votos da Camorra.

A morte de Salvatore Imperatrice, sejamos claros,

demonstra que quem tem a coragem de violar a lei do silêncio

paga essa escolha com a vida.

E vocês vêm com lições de moral? Deviam ter vergonha! Vergonha!

- Tenha vergonha você! - É de loucos!

Mas qual lição de moral! Isto vai para lá da moral!

Não, deixa-me falar. Quero falar.

Tenho de poder limpar-me de alguma maneira,

até perante si, Sr. Presidente,

desta onda de lama que começou há dois anos contra mim.

Tenho de poder dizer-lhe

com toda a dor e indignação que sinto quem sou na verdade!

Há uma distância de tal forma grande

entre o homem real, que está aqui à sua frente,

e esse verme que não para de ser representado neste tribunal.

Ao ponto de me dar arrepios contínuos!

Há dois anos que vivo com arrepios e desgosto!

Há dois anos que luto contra a loucura!

Sr. Presidente, acredite,

para um inocente isso é uma eternidade.

Peço desculpa, Sr. Presidente, por esta intervenção improvisada,

mas estou a falar-lhe de coração nas mãos.

E deixe-me dizer-lhe com a maior das amarguras

que foi logo desta cidade, que era a cidade do meu pai,

que partiu esta explosão de lama que eu não mereço!

Silêncio.

Silêncio!

Basta!

Enzo! Enzo!

Basta, já disse!

Têm de estar calados!

Pandico, um comentário?

Defendeu-se como alguém da Camorra, o camarada Tortora.

Os seus compinchas aplaudiram-no.

Bravo, bravo!

Gostava que o Sr. Melluso

precisasse ao menos a que horas,

ou pelo menos se era de dia ou de noite,

se era dia útil ou fim de semana,

se realizou esse encontro com Francis Turatello na casa

que indicou, se não me engano, em Viale Monza.

Foi durante a noite.

Deviam ser oito ou nove horas.

Setembro ou outubro de 1975.

- Dá cabo dele! - Sim, setembro ou outubro.

Não posso precisar porque foi há dez anos.

Portanto, não se lembra se era sexta-feira ou domingo?

Como me hei de lembrar?

Lembra-se se era sexta ou domingo numa noite de há dez anos?

Eu não me lembro porque não estava lá.

Não, estavas.

Tenho de lhe pedir gentilmente que me trate por você como eu o faço.

Tem razão, desculpe, fiz como antes, mas agora trato-o por você.

- Posso até tratá-lo por ministro. - Não, Sr. Tortora chega.

Muito bem!

O confronto não inclui ataques pessoais, está bem?

- Desculpe. - Limitem-se aos factos.

Tem razão, desculpe, mas são pormenores importantes.

E é a única maneira que tenho

para desbastar esta névoa de recordações do Sr. Melluso

e fazê-lo agarrar-se à realidade dos factos.

Bem, nessa casa de Turatello, onde, segundo as suas declarações,

insiste que esteve comigo,

lembra-se de como eu estava vestido ou de que falámos?

- Se o apartamento estava quente? - Outra vez?

Como me posso lembrar de coisas assim?

Quente, frio, que roupa tinha...

Mas lembro-me que falava com Turatello sobre os democratas cristãos.

Perguntavam o que faziam eles, estavam enojados.

E lembro-me disso porque tenho-o visto na televisão

a apertar a mão do secretário dos democratas cristãos.

E disse para mim: "Olha só!

Antes criticava-os e agora aperta-lhes a mão porque lhe convém?"

- Isto é verdade? - Genial!

Como terei chegado a esse encontro? De automóvel? De que marca?

Pergunta coisas impossíveis de lembrar para não falar do que lhe entreguei.

- A cocaína! - Já lá vamos. Já lá vamos, Melluso.

Já lá vamos.

Então,

em que ano, mês e dia

terá sido feita a primeira entrega de droga

num sítio que leio sempre nas suas declarações

entre Melegnano e Legnano.

- Legnano. - Agora é Legnano?

É que Melegnano e Legnano são em sítios opostos.

A primeira vez.

Sim, a primeira vez foi em Legnano, não em Melegnano.

É inútil fazer gestos com os dedos como se dissesse: "Já vais ver."

Não me vai fazer ver nada!

Melluso, sem comentários e sem críticas.

Peço desculpa.

Bem, os contactos diretos, tinha-os o Turatello consigo.

Eu só levava a droga.

Você esperava-me dentro de um carro com um amigo seu.

Porque não era famoso como agora.

É inútil dizer às pessoas: "Eu, o famoso Enzo Tortora,

nunca faria tal coisa." - Melluso!

Não queremos saber dessas suas críticas.

- Posso continuar? - Sim.

Há dez anos, não era ninguém.

Aliás, foi o Turatello que fez a RAI contratá-lo de novo.

Não é verdade? Não foi o Turatello que os fez contratarem-no de novo?

Nego-o de forma absoluta e acho bastante inacreditável.

Tortora, evite comentários. Negue e pronto.

Não estou a comentar, mas é tudo tão surreal.

Sabemos que é um homem da cultura,

mas não há nada de surrealista aqui.

De loucos.

Bem, como, quando e onde

foi, ou terá sido, a segunda entrega fantasma?

- Nada de piadas. - Desculpe, desculpe.

A segunda entrega?

- Quando e onde? - E possivelmente como.

Na segunda vez, não o vi, quando fui a Cinisello Balsamo.

Buzinou duas ou três vezes.

Parei, fiz marcha-atrás e fui.

Portanto, entrou em Cinisello Balsamo, mas por onde?

É que tem muitas entradas.

Tortora, não nos interessa por onde entrou.

Melluso, essa segunda entrega?

Bem, levei cocaína pela segunda vez a Cinisello Balsamo.

E chegamos à famosa fotografia, a prova rainha.

- Tortora, não critique. - Desculpe, Sr. Presidente.

Sr. Melluso,

a propósito dessa fotografia, que segundo as suas...

... declarações me colocam a seu lado,

pode dizer-me, por favor, em que ano, mês, semana, dia, hora

e sobretudo onde terá sido tirada?

Não me lembro.

- Não me lembro. - Não? Mas eu pergunto-lhe isto

porque a fotografia não está aqui.

Muitos depuseram sob juramento que a viram.

- Posso fazer algumas perguntas? - Pode apenas contestar.

Ataca, ataca.

Não é verdade que me piscou o olho quando nos vimos em fevereiro?

Como que a dizer para ter cuidado com o que faço.

Também havia juízes presentes.

Mas os juízes não podem ver, eles não tem um telescópio.

Isto parece-me mesmo surreal.

Fomos parar a um quadro de Bosch? Agora pisco o olho?

Sejamos sérios, Melluso!

Eu estava aqui e você estava aí. Estava doente, lembra-se?

Levaram-me de Milão na ambulância.

Nem é preciso pensar. Como me lembraria de piscar o olho?

Vai para lá de qualquer imaginação!

E se me permite, uma imaginação ridícula.

Sr. Tortora, não comente e evite as críticas.

- Está bem. - De gosto e estéticas.

Será que percebeu que não está no Portobello?

E também não é verdade que me chamou traidor na esquadra?

Para me fazer perceber que me ia tramar.

Tudo o que aconteceu na esquadra está escrito.

- Então, é verdade. - Está escrito.

E porque me chamou traidor?

Porque aprendi à minha custa a linguagem da prisão, Sr. Melluso.

Sabe o que significa traidor?

Alguém que traiu a confiança.

Diga que traí a sua confiança!

Porque falei, porque disse tudo o que não queria sobre si!

Por isso é que me chamou traidor!

KO.

Estás a ouvir?

O quê?

Insuportável.

Já não pinga.

- Bom dia, Francesca. - Bom dia.

MELLUSO APLICA KO A TORTORA

MELLUSO VENCE CONFRONTO

ENTREGUEI-LHE DROGA QUATRO VEZES

MELLUSO VENCE CONFRONTO

A própria linguagem é repugnante.

Ouve o que este escreve.

"Olhos habilmente cintilantes."

Ele nem me conseguia ver a cara, estava de costas para os jornalistas.

- É só um. - Não, não é um. São muitos.

Se ainda há tanta gente a acreditar que sou da Camorra e traficante,

é porque há muitos merdas a escrever "olhos habilmente cintilantes".

O que tenho de fazer para acreditarem? Tenho de me matar?

Tenho de cortar um dedo como o Padre Sergio?

Quem é o Padre Sergio? Não estou a perceber.

Estás a pensar no quê?

Estou a pensar no aplauso da Camorra para mim

quando me clamava inocente. Penso muito nisso.

E nos arrepios.

MÃE DE PANDICO ASSASSINADA

CAMORRA ATACA A FAMÍLIA PANDICO

Sr. Pandico, queria dar-lhe os meus sentimentos.

Lamento.

Giovanni, perder a mãe é a coisa mais terrível que pode existir.

- Os meus sentidos pêsames. - Obrigado, doutor.

Está aberta a audiência.

Sr. Presidente, desculpe.

Antes de avançarmos,

queria pedir ao tribunal que concedesse a possibilidade

ao arguido Giovanni Pandico de assistir ao funeral da pobre mãe,

que infelizmente faleceu na explosão do contentor em que...

... ainda vivia desde o trágico sismo de 80.

Obrigado, Sr. Procurador. É muito gentil e generoso.

Mas não se incomode. Sinto-me mais seguro nesta cela.

A minha mãe...

... vai esperar-me calmamente no cemitério.

Sempre foi uma mulher paciente

e vai entender a minha ausência.

Ora essa. Como queira.

- Retiro o meu pedido. - Queria só fazer uma declaração

acerca do homicídio da minha mãe.

- Isso não afeta este julgamento. - Afeta, afeta.

E já lhe explico porquê.

Eu declaro...

... que o Enzo Tortora é o responsável pela morte da minha mãe.

Representa Raffaele Cutolo em todos os aspetos.

É o mandante putativo do homicídio da minha mãe.

O Cutolo é um comunista revolucionário!

- Silêncio! - O meu dever é apenas servir a justiça.

É um camarada! Um professor!

Não basta dizer mandante putativo. Nós precisamos de provas.

E há provas, Sr. Presidente.

REQUISITÓRIO DO MINISTÉRIO PÚBLICO

Sr. Presidente.

antes do meu requisitório,

queria entregar-lhe uma carta de Salvatore Sanfilippo,

um dissociado da Nova Camorra, aqui presente.

Foi endereçada a mim a pedir-me para a ler aqui.

A decisão é sua, claro.

Ou posso colocá-la em ata.

"Posso jurar perante Deus que o Enzo Tortora

já tratou de encomendar o seu assassinato porque o odeia..."

É inacreditável, Sr. Presidente,

que se leia aqui, em tribunal, as infâmias delirantes de um assassino!

E o senhor valida-as!

Mandem entrar os agentes.

Levem-nos daqui.

Meta isso em ata! Não pode ler!

Eu tenho essa autoridade!

E o senhor não se atreva a interromper outra vez!

"Porque o odeia de morte, Dr. Marmo.

"Os mafiosos que não só mataram o meu pai,

"como também ameaçaram afogar o resto da minha família no seu sangue,

"até me incitaram ao suicídio fazendo saber o seguinte:

"'Se te forcares à janela...'

Enforcares. Queria dizer enforcares.

'Se te enforcares à janela da cela, não tocaremos na tua família'."

Ele nem sabia escrever! Mongoloide!

Quero silêncio imediatamente. Não vamos começar.

- Sanfilippo, mata-te, é melhor. - Cala-te, burro!

Têm de fazer silêncio! Silêncio!

Coloquemos isto em ata.

Muito bem.

O Enzo Tortora

é um honorável europeu que goza de imunidade parlamentar.

Aqui está livre, mas para mim, lamento, é um homem da Camorra.

Se me permitem.

O Enzo Tortora foi eleito com votos de muitas pessoas boas.

A minha mãe, uma mulher santa, provavelmente votou nele.

Mas também com votos da Camorra.

Votaram nele nas áreas de grande densidade da Camorra.

Votaram de forma esmagadora nele!

Por exemplo,

o voto de Poggioreale é um voto da Camorra.

São 555 votos da Camorra.

Fui ver se esses 555 votos eram reais.

Não queria dizer disparates. São reais.

Votaram no Enzo Tortora porque é da Camorra.

Tortora livre, todos livres.

Sabemos, o que é ainda mais grave,

que se cai a acusação contra o Enzo Tortora,

desacredita-se de forma imediata toda a instrução.

O Enzo Tortora pensa nisso?

Mas qual pensa! Espera!

É humano.

Mas o Enzo Tortora é um comunicador fortíssimo.

É o hipnotizador de 28 milhões de italianos.

É o homem do "Portobello"!

Mas há provas. Há!

Foram confessadas, confirmadas e confirmadas novamente

por onze dissociados! Mas vamos por partes.

Este julgamento não é brincadeira.

Está cheio de sangue.

A morte violenta do pobre Salvatore Imperatrice,

o homicídio de Angelo Melluso ou da mãe do Giovanni Pandico.

Há tantos movimentos mortais

que é compreensível que nesta barafunda

alguns arrependidos se tenham juntado para ganhos pessoais

ou retratado por medo.

Mas também é verdade, também é verdade,

que onze arrependidos mantiveram-se.

Mantiveram-se inabaláveis. Inabaláveis nos seus depoimentos.

Declararam-se corréus,

agravando assim a sua posição de arguidos.

E estas onze testemunhas resistiram até agora

aos ataques da Defesa

e de uma imprensa liberal cada vez mais empolgada.

A Defesa insiste em dizer

que entre os arrependidos há uma grande confusão.

Algumas acusações, alguns retratamentos..

Isto demonstra mais uma vez que os onze irredutíveis,

que são o contrário de terroristas irredutíveis,

estes onze irredutíveis estão a defender a verdade.

Eu até os compararia com mártires imolados no altar.

Portanto, peço,

serenamente,

serenamente, para o Enzo Tortora,

que ouso definir, repito,

um cínico comerciante de morte,

assumindo a responsabilidade penal de defini-lo desta maneira,

peço uma condenação exemplar.

A saber,

treze anos de prisão,

35 milhões de multa

e a interdição perpétua a cargos públicos.

- Bravo, doutor! - Silêncio!

Não vamos começar outra vez! Silêncio!

Silêncio.

Silêncio!

Silêncio!

Silêncio!

A arte da comédia.

"TORTORA É CULPADO"

ARGUMENTO DA DEFESA

Damos a palavra ao Professor Dall'Ora.

Sr. Presidente, está muito calor, apesar do ar condicionado

e de terem trazido ventoinhas. Como é evidente, não é suficiente.

Mas o calor não é boa razão para que alguns colegas,

muitos colegas, não endossem a toga,

que é obrigatória numa audiência de tribunal.

E eis que chegou Tarquínio, o Soberbo.

O colega milanês veio dar-nos um sermão.

Não, não, caros colegas, não é nenhum sermão.

Isto é um sacerdócio laico.

Peço a todos que coloquem a toga.

Vamos tratar de aumentar o ar condicionado.

Está bem?

Obrigado.

Muito bem. Obrigado.

É uma velha opinião minha.

As declarações de um presumível delator

- prefiro usar esta expressão para me referir ao arrependido -

não é fonte de prova.

É nula. Vale zero.

Só pode entrar no julgamento num único âmbito.

O de abrir o caminho para as provas.

Aqui, pelo contrário, temos onze declarações

e nenhuma delas foi indicada como prova da Acusação.

Já as provas propostas pela Defesa foram todas recusadas.

Como aconteceu com o depoimento da Sra. Marzano.

Uma senhora cheia de dor, de sofrimento,

que disse aqui, no tribunal, que não conhece o Enzo Tortora

e que nunca houve uma afiliação do Enzo Tortora na sua casa.

Não bastava o seu depoimento hesitante perante vós,

as suas contradições e dúvidas, o seu medo,

para se debater o primeiro depoimento perante o juiz instrutor.

Não. Não.

É assim e pronto.

Peço-lhe que não acredite apenas nas palavras dos arrependidos.

Nas suas declarações sem qualquer prova.

Sem qualquer indício.

Em nome deste princípio de acusar sem prova,

são onze a fazê-lo e nenhum a demonstrá-lo.

Todos aceitam acusar sem qualquer prova!

Parece-me, ao ler os documentos,

que o juiz instrutor terá sido hipnotizado.

E não pelo Enzo Tortora, como quer o Ministério Público.

É que se não o virmos como uma forma de hipnose,

custa a crer nas ameaças de morte recebidas pelo Gianni Melluso

quando sabemos que a morte do irmão nada tem que ver com a Camorra!

Não deixem que a justiça pareça uma máquina monstruosa

que digere inocentes e culpados,

dissolvendo irremediavelmente a sua identidade.

Não deixem que o Gianni Melluso, com a sua cara sem expressão,

ou que o Pasquale Barra, autor confesso de 66 homicídios...

Ainda vais ser o 67.

... ou que o Giovanni Pandico, também ele homicida e paranoico,

o que é gravíssimo, vençam a sua aposta.

E dizemos ao Ministério Público, cuja ausência nos fere,

com humilde franqueza,

para retirar este pedido.

E pedir connosco a absolvição do Enzo Tortora

por não ter cometido o facto.

Obrigado, Sr. Presidente.

Obrigado.

Uma lembrança. Para cheirar legalmente.

Obrigado, obrigado.

Menina?

- Mna. Pecoraro, como se sente? - Estou muito feliz.

Não teme qualquer vingança por casar com o Gianni Melluso?

Pode acontecer, mas agora só penso no meu futuro.

Dezassete anos é muito tempo. O que fará até ele ser libertado?

Vou esperar por ele como uma boa mulher.

- Vamos? - Estás pronta?

Vamos. Cuidado, por favor.

Um momento!

- Sr. Presidente da Câmara? - Obrigado por estar aqui hoje.

O assessor da cultura.

- O assessor do turismo. - Prazer.

O assessor dos serviços sociais.

Desculpe, desculpe! Podem repetir?

- Outra vez? - Outra vez, sim.

Lindo!

Outra vez.

Eu, Presidente da Câmara do concelho de Campobasso,

declaro em nome da lei que estão unidos em matrimónio.

Olhem.

Um sorriso.

Não se mexam. Isso. Mais um.

Sasá?

Olha quem se casou.

ÚLTIMA AUDIÊNCIA

Esse sacana!

Olha, olha.

A miúda é mesmo bonita!

Casou com este maricas?

Obrigado.

"Entretanto, Gianni, atrás das grades,

diz sim à sua professora."

Pode tirar-me isto da frente?

Obrigado.

"Pela sua paz, por quem tem piedade..."

Está aberta a audiência.

Se algum advogado da parte civil ou se o procurador quiserem refutar...

Ou se quiserem declarar algo antes de reunirmos...

- Um momento, Sr. Presidente. - Sim.

- É uma brevíssima declaração. - Diga.

Queria dizer: "Eu sou inocente. Espero que vocês também o sejam."

- Queres suicidar-te? - Desaconselho-o.

Estás a duvidar da sua imparcialidade pouco antes de irem deliberar.

- É como pedires para te condenarem. - Veriam isso como uma provocação.

O meu cliente renunciou.

O tribunal vai reunir-se para deliberar.

- As senhoras chegaram. - Chame quando estiver pronto.

- Claro. - Obrigado.

- Vemo-nos amanhã? - Obrigado.

- Bom trabalho. - Adeus.

Não comes?

Não, não tenho fome.

Se não comes, também não como.

- Por mim, perpétua. - Mas qual perpétua?!

O procurador pediu 13 anos.

- Como está a absolvição? - De certeza?

- De certeza. - Seis para um.

400 mil liras na absolvição do Tortora.

300 mil na absolvição.

- Cem para um. - Toma.

- Oito, oito. - Façamos dez.

- Absolvição? - Está bem, está bem.

Está aberta a audiência!

17 DE SETEMBRO DE 1985 LEITURA DA SENTENÇA

Em nome do povo italiano, o Tribunal de Nápoles

reunido em sessão fechada de 10 a 17 de setembro de 1985,

ao abrigo dos artigos 478, 479 e 483 do Código Penal declara:

Gianni Melluso, tendo em conta o julgamento,

declaramos provada a responsabilidade do arguido

no que toca à acusação, além das circunstâncias agravantes,

e condenamo-lo a três anos e a dez milhões de multa,

além das custas de processo.

Quem tem esse valor?

Giovanni Pandico, tendo em conta o julgamento,

declaramos provada a responsabilidade do arguido

no que toca à acusação, além das circunstâncias agravantes,

e condenamo-lo a três anos e a pagar as custas de processo.

Enzo Claudio Marcello Tortora, culpado dos crimes de...

Não te podes demitir. Eles metem-te na cadeia.

... violação do artigo seis em matéria de estupefacientes.

Reconhecida a exclusão das agravantes

e ao abrigo do código 81 do Código Penal,

condenamos Enzo Tortora a uma pena de dez anos,

a 50 milhões de multa e à interdição a cargos públicos.

Isto é justiça!

Silêncio!

É uma vergonha! O meu pai é inocente!

Que teatro de julgamento! É uma vergonha!

- É uma vergonha! Não! - Calma!

Está encerrada a audiência.

Correu muito mal, mas já estava à espera.

Acho que hoje foi cometido o pior erro de justiça da história do nosso país.

- Estou calmo. - E as polémicas?

Quais polémicas? Não vou falar do Enzo Tortora.

É uma vitória do povo italiano, uma vitória da arma dos polícias.

uma vitória da procuradoria de Nápoles,

uma vitória de todos os cidadãos honestos e bem-pensantes.

Bravo, Giovanni!

Agora esperamos que alguém do Estado nos ajude.

Senhoras e senhores. a comédia acabou.

Vamos levantar os copos e fazer um brinde a esta vitória,

que também é nossa, podemos dizê-lo.

Digam! Ganhámos!

À verdade!

E à nossa vitória, humildes cronistas.

A verdade triunfa sempre, lembra-te.

Livrámo-nos finalmente desta chatice.

FIM DO QUINTO EPISÓDIO

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