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- Legendas - Luís Filipe Bernardes
Esta obra inspirada em fatos reais.
Por respeito aos personagens, vivos e mortos,
os realizadores declaram que aos fatos são misturam elementos de ficção.
Senhores, se precisarem de uma informação...
Capitão Marchand, brigada financeira.
Prossigam.
O que vocês estão fazendo? O que vocês querem?
Estamos lhe dando voz de prisão.
Vamos fazer uma busca. Queira me seguir.
Sr. Bonjean, pode vir.
Trabalhei 12 anos para o senhor e a senhora Farrère.
Cheguei através de uma agência especializada.
Ela me fez uma pergunta sobre cozimento de aspargos.
Eu soube responder.
20 minutos em fogo brando.
O senhor gostou que eu fosse da Provence, que tivesse servido o exército.
Você é um homem da terra, ele me disse.
Eu nunca havia visto daquilo.
Uma luminária que quebrasse era preciso mandar restaurar da Inglaterra.
Achei que não aguentaria três dias numa casa daquelas.
A gente fala, mas fica.
- Que flores são essas? - Lírios.
Tão sinistros esses buquês.
O cardápio para esta noite.
O Senhor Chirac adora tête de veau.
Bom dia, Jérôme.
Bom dia, madame. Como está esta manhã?
Como ontem.
E como amanhã, eu temo.
- Ainda é sua enxaqueca? - Entre outras coisas.
Uma coisa atrai a outra.
Bom dia, senhor.
Bom dia, Jérôme.
Jérôme, esse buquê não me permite ver o Guy. Tire-o daí.
Parece o aeroporto de Honolulu.
- Dormiu bem? - Hm-hm.
Você está brava comigo por ter organizado esse jantar ridículo?
Claro que não. Ademais, não foi perda de tempo.
O ministro ficou feliz de sentar-se à sua direita.
Era preciso convidá-los algum dia nem que fosse por cortesia.
Pierre fez sucesso com o daube de boeuf.
É verdade.
Todos ficaram encantados.
- Mas será que podemos contar com ele? - Hm-hmm.
- Jérôme, esse é o mesmo chá de sempre? - Sim, madame.
Tem certeza?
Não quero ter essas queimações de estômago.
É o mesmo.
Madame, a agenda do dia.
Às dez horas, seu fisioterapeuta.
Às onze horas, senhor de Véret.
Ao meio-dia, conselho de administração.
Às treze e quinze, almoço no refeitório da empresa com a senhora Jean-Marc.
Às quatorze e trinta, reunião com Médicos do Mundo.
Às quinze e trinta, retorno aqui para uma entrevista com a revista Selfish.
E às dezesseis horas, sessão de fotos.
O que é essa Selfish?
É uma revista. Você esqueceu?
Frédérique insiste. Pela sua imagem.
Eu não tenho imagem.
Ela acha que é uma boa ideia.
Boa ideia teria sido se eu tivesse me tornado enfermeira.
O que precisamos, a meu ver, é todo ano lançar novas linhas de produtos,
e nos renovarmos em função dos estudos de mercado...
...que fazemos sobre modas e tendências.
Nós não seguimos tendências. Nós as lançamos.
É preciso não deixar parecer que a marca está descansando sobre seus louros...
sem se reinventar, sem se questionar.
Obrigada, Jean-Marc, mas independente dessas boas intenções,
não sou favorável a alguns desses novos produtos.
Nossa clientela sabe o que compra conosco.
Se lançarmos 100 novos cosméticos por ano, o que será dos nossos clássicos.
Pensarão que avançamos sem bússola.
Ao sabor do vento.
Não podemos entrar no século 21 com as receitas do século 20.
Meu pai dizia que preferia realizar 100 controles de qualidade para um produto,
a ter 100 produtos novos controlados uma única vez.
O luxo e a beleza são nossos critérios, e é uma tradição sólida.
Mas precisamos conquistar novos territórios.
É preciso ter uma política de desenvolvimento mais ofensiva.
Sim, como no Oriente Médio.
Aquelas mulheres de emires maquiadas como carroças sicilianas...
...e escondem tudo atrás de um véu.
Meu pai dizia também que não se deve sempre consultar os outros acionistas.
É uma questão de confiança, claro, mas que deve ser compartilhada.
Você continuará sendo o capitã à frente da frota?
Claro! Os investimentos que fiz este ano na empresa serão os lucros de amanhã.
Vocês querem fazer negócios, faremos negócios.
Michelle, poderia me preparar uma sacola com os produtos novos?
- Sim, senhora, ela já está pronta. - Obrigada.
Então, amanhã passamos a tarde juntas?
Para fazer o quê?
Um cinema, uma exposição, as lojas, o que te agradar.
Ah, eu adoraria, querida. Mas você combinou de sairmos amanhã?
- Sim. - Então eu esqueci.
Obrigada, Michelle.
É uma revista muito esnobe.
Não tenho a menor vontade de fazer isso.
Estou com dor de coluna.
Mas é a oportunidade pra falar um pouco de você.
Seus gostos, suas aspirações.
Se as pessoas te virem como um ser humano,
terão outra ideia da mulher mais rica do mundo.
Não preciso me justificar por ser quem eu sou.
Não, claro que não.
Mas na França, as pessoas odeiam os ricos.
- Ainda mais agora com a esquerda no poder. - Não estamos tão mal.
Com Mitterand como presidente, mesmo sendo um economista deplorável,
mas não acabamos diante do pelotão de fuzilamento.
Está me convidando a compartilhar sua depressão?
Quem é esse fotógrafo?
Ele tem nome, sobrenome?
- Pierre-Alain Fantin. - Ah, sim.
- Faz fotos muito bonitas. - E tem uma péssima reputação.
Quem tem uma boa?
Eu o achei encantador.
Todo mundo sabe que ele depenou a pobre da Adélette Brunner...
...que até o jogou escada abaixo.
- É tudo boato. - É essa a sua descoberta?
Acho que é uma boa ideia.
É seu amante?
Sou casada. Não tenho amantes.
Bem, se mulher casada não tem amantes, quem tem então?
Você é a mulher mais rica do mundo.
O que isso significa para você?
'Rica' não é uma palavra bonita.
'Afortunada' é melhor.
Fortuna faz parte da sorte.
Riqueza se herda, necessariamente.
Mas ser rica é deixar de se pertencer completamente.
A partir de um certo valor, as pessoas enlouquecem.
É preciso muito talento para ser rico.
Para quem que não me conhece, não sou a Rainha da Inglaterra.
Eu trabalho, sou uma mulher de negócios...
...passional e, espero, um pouco competente.
Onde termina o poder do dinheiro?
Onde começa o gosto pela vida.
Obrigada, senhora.
- E onde vamos fazer as fotos? - A escolha é de Pierre-Alain.
Ele tem um olho infalível.
Fico muito feliz em te conhecer.
Ah, você não se lembra de mim.
Já nos vimos?
Sim, há alguns anos, na casa dos Lazareff.
Você só falava com Malraux. Não ousei abordá-la.
Você parecia tão inacessível.
Tão bela, tão misteriosa.
Lembrava certas estrelas de cinema.
Sim, já me disseram isso.
Se importaria de vestir outra calça?
Quer que eu me troque?
Está muito elegante, mas, me perdoe, meio banal.
Meio burguesa.
Quero que esta fotografia conte perfeitamente a mulher que você é.
Que tem um destino, mas para quem nem tudo tenha acabado.
No sentido de que ainda tem muito por realizar.
Em resumo, o que eu quero ver é uma heroína.
Então?
Vamos ficar com a calça, permitirá poses mais variadas.
Muito mulher de ação, isso.
Mulher de ação não é tão ruim.
- Por que você está gritando? - Sei lá, me disseram que você era surda.
As coisas que falam de mim.
Cruzes, não, parece calça de mordomo.
- Este aqui? - Pronto, esse está ótimo.
Agora uma chemise, algo meio masculino, sem ser fanchona.
- Esta? - Formidável!
Agora você está sublime, divina. Excepcional.
Não sou nada suscetível a elogios.
Sim, está bom aí.
Sim, está com cara de quem vai dizer: 'Não vem que não tem'.
'Visto camisa de homem porque estou cagando pra você.'
'E não usa joias justamente porque sou rica.'
Posso te despentear?
Ah, seu cabelo... não é possível.
O que tem meu cabelo?
Está morto, todo durinho, não respira.
Vejo bonecas de brinquedo na Galeries Lafayette com mais vida que isso.
Olha só.
Quem fez isso? Quem é o assassino?
- Alexandre Zouhari, na Alemanha. - Ah, então está explicado.
A Zouhari, a assassina.
E o que você estava fazendo na sua idade na seção de brinquedos?
Pegação não era, pode ficar tranquila.
Não toque no cabelo.
Não toque nesse animal morto.
Não banque a garotinha.
É que você me faz rir.
- Ela é magnífica, não? - Sim.
- Fiz bem em insistir. - Sim.
Você também. Um dia vou te fotografar, Frédérique.
Olhe para mim.
- Você fica bonita sem esses óculos. - Mas não vejo nada.
Isso não importa. Importa é que os outros te vejam.
Obrigado.
Ficou fascinado, já?
É preciso insistir.
É um estado de graça.
Bem, obrigado pelos seus conselhos, Senhor Fantin.
E quando eu verei as fotos?
Sou eu que escolherei.
Você as verá na revista.
Bem.
Talvez nos vejamos de novo.
Acho que deveríamos.
- Adeus, Frédérique. - Adeus.
Estou na lista telefônica.
Meu marido é judeu, mas minha família o aceitou sem restrições.
Como costumo dizer, eu o conheci de calças curtas, muito jovem.
Mas eu o esperei.
Sim, fiz um casamento por amor que não era exatamente...
...o que minha família tinha imaginado para mim. Mas eles aceitaram.
Encontramos um belo duplex bem em frente.
Era só atravessar a rua para nos vermos.
Era tudo muito alegre.
Acho que posso dizer que éramos uma família unida.
Cúmplices, até.
Veja bem, meu pai a amava muito.
Muito.
Como ela está linda.
Sim, a madame mandou comprar uma centena...
para todos os seus amigos e todos nós em casa.
Olhe.
Sim, e não é a cores.
- Uma bela foto. - Adorei. Está magnífica.
- Viu como foi boa a ideia? Adorei.
- Bom dia, Marianne. - Bom dia.
Bom dia. Jérôme, onde paramos na nossa lista?
Baronesa Philippine de Rothschild, madame.
Acho que ela está em Mouton para a colheita.
Então, em seguida, dois exemplares para o Professor Bernard.
Que ele colocará na sala de espera.
Pronto, agora é só enviar.
Mas os correios estão fechados, madame. Hoje é domingo.
Mande abrirem.
Jean-Marc, o que você acha?
Um para o Primeiro Comando do Exército?
Que entusiasmo.
Cuidado para não amassar, pode ser que ainda falte alguém.
Está feliz?
Finalmente saí do museu Grévin.
O gigot está pronto.
- O almoço vai ser servido - Vamos comer.
Não, não darei um centavo.
Escuta, todo ano eles penduram merda no Beaubourg.
Ainda querem que eu pague para ser visto?
E Guéran Hermès, ele não pode financiar?
Pois bem, ligue para ele, sim.
Falou, tchau.
Querem que eu pague pelos salgadinhos.
Será que estou sonhando?
Pra que servem nossos impostos?
Sim. Estou atrasado pra aula. Tenho que correr.
Você é estudioso demais, Raphaël.
Na sua idade, eu já tinha escrito dois romances. E Aragon...
'Te comparava a Radiguet, que, por sua vez, morreu antes.'
Você é lindo.
Mas a beleza não é uma promessa de felicidade.
Sabe o que meu tio Jacques me disse quando eu tinha 18 anos?
Pierre-Alain, você é tão bonito que dá vontade de foder.
Um visionário.
Até mais tarde.
Sinto muito, a madame e seu marido vão se atrasar um pouco.
Eles entenderão se propuser um novo encontro.
Ah, não, já estou aqui, vou esperar.
Bom, então siga-me.
- Como você se chama? - Jérôme.
Jérôme.
Meio apertado para uniforme de mordomo, não?
Perdão?
Isso mesmo. Faça-se de inocente.
Viremos procurá-lo.
Decididamente, não consigo me acostumar.
Existe coisa mais sinistra que o bom gosto?
Sabe por que você está bonita nas minhas fotos?
Porque eu não fotografo as pessoas, eu as enlevo, eu as abraço.
Se as pessoas são famosas ou não, tanto faz.
É como um grande apetite sexual, uma grande fome.
Odeio tudo que é falso.
Não precisa passar as patas debaixo do me nariz desse jeito,
apesar da manicure perfeita.
- Estou fazendo meu trabalho, senhor. - Entendi.
Minha guerra é contra as mentiras.
Por isso que nunca fotografo seus amigos políticos.
Porque para eles, tudo é teatro, simulacro.
Não é culpa deles. Mesmo sendo sinceros é preciso interpretá-lo.
Sinceridade tem que ter mão no coração, senão ninguém acredita.
Gosto muito.
Tudo que você toca vira ouro.
Diziam o mesmo do seu pai, se não me engano.
Na verdade, meu pai era um imenso artista.
Ele criava como respirava. Ousava tudo, nada o fazia recuar.
Meu pai também, nada o fazia recuar.
Ele me batia.
Ele me esbofeteava por qualquer coisa, dia e noite.
Ele me segurava pelos pés e batia minha cabeça no assoalho.
Que horror.
E sua mãe, o que ela fazia?
Ela olhava para o outro lado.
Pare de guinchar, Guy.
Eu guinchar?
Sim, isso mesmo, você estava guinchando.
Desculpe, mas é porque achei esta foto sinistra.
Você não entende nada de fotos.
Fui ministro dos assuntos culturais.
- Dois meses e meio? - E sou membro do Instituto.
- E você também não entende nada. - Mas sou boa aluna.
Quando vejo essas fotos percebo que é um universo diferente que eu ignorava.
Vou comprá-la!
Só lhe peço que não se recuse a responder o que vou lhe perguntar.
Quanto você precisa para a publicação de seu catálogo...
...para a exposição no Centre Pompidou?
250.000 francos.
Você vai pagar 250.000 francos por essa droga?
Para mim, este rosto é tão belo e clássico quanto os dos deuses do Olimpo, Guy.
Todo mundo me pede dinheiro. Pelo menos não será para ministros, médicos,
pesquisadores que prometem salvar o planeta e não vejo nada acontecer.
Ademais, o que o que significa essa quantia para nós?
O lugar de uma mulher rica não é numa espreguiçadeira esperando a morte.
Eu quero estar em contato com o mundo.
Estou precisando disso.
Quero que você seja reconhecido.
Mas se me permite, Pierre-Alain, nada de sobremesa na sua exposição
Precisa perder uns quilos. Quatro ou cinco.
E pese-se todos os dias.
Na mesma hora.
Fique apresentável!
É fascinante falar sobre o talento de um artista.
É um risco a se correr.
E pronto.
Fico sem jeito.
Mas pode crer que é melhor investimento que alguns dos seus quadros.
Dégas, um mau investimento?
Especialmente sendo uma falsificação.
Falsificação?
Evidentemente. Veja, esse traço não é dele.
O dele é muito mais difuso.
Nem o pigmento é dele.
Não é só por ter dinheiro que se deve comprar qualquer coisa.
Olhe esse relógio, é absurdo.
E esses bronzes, aí?
E isso?
Vamos, tudo para o porão.
Essas duas poltronas, aqui. Mão são antigas, são velhas.
Esta casa não tem o tchan que você merece, Marianne.
Quando vejo um lugar mal decorado, é mais forte que eu.
Me sinto sufocado, parece uma alergia.
- Sente-se sufocado mesmo? - Sim.
- Pois eu também. - É mesmo?
Mais uma coisa que temos em comum.
Decididamente, é como se fôssemos irmãos.
Meu avô, Isaac Spielman, rabino em Thionville, depois em Annecy,
sempre se recusou a deixar a França durante esses anos sombrios.
Ele queria permanecer perto de sua comunidade e compartilhar do sofrimento.
Ele conseguiu salvar 700 deles ao informar de uma batida iminente.
Depois, deportado em abril de 1943 com minha avó, ele não voltou de Auschwitz.
Mas hoje, esta cerimônia para o bar mitzvah de seu bisneto
é testemunho do quanto ele está presente entre nós e na nossa lembrança.
É isso. Obrigado a todos.
Vai ficar grudada nessa cadeira o dia inteiro?
É o melhor lugar para garantir que ninguém roube nada.
O discurso de Jean-Marc foi bom, não?
Achei comovente.
Sim.
Mme. Jean-Marc.
Olha a Frédérique. Ela está radiante.
É o zelo dos convertidos.
Está escrevendo um livro sobre a Bíblia?
É mais um livro sobre as relações entre judeus e cristãos.
Eu procuro modestamente esclarecer aqueles que, como nós, fizeram um casamento misto.
E é Alain Decaux quem fará o prefácio.
Não é um meio enfadonho, a Bíblia?
De jeito nenhum. É muito bonito.
Eu reli o livro de Jó, que era o homem mais rico e poderoso de Israel.
E Deus lhe tirou tudo, ele ficou sem nada.
Mas ele terminou a vida miserável... mas feliz.
Ele dizia, "Deus me deu, Deus me tirou."
Brrr!
Fabrice, me dê esse envelope.
Charles!
Toma. É para você.
Chega de privação, seu primeiro milhão.
Na sua idade, meu pai me deu isso.
Mas não o gaste de qualquer maneira.
Obrigada, Marianne.
Está brincando?
Por que diz isso?
Talvez um dia ele esteja à frente da empresa.
É bom que comece desde já a gerir seu dinheiro.
Ademais, é um bom teste, é divertido.
Se ele o dilapidar, tiraremos a dúvida.
E o que você fez com seu primeiro milhão?
Ora, eu ainda o tenho.
Jean-Marc, não me diga que você também está chocado.
Marianne, não é possível.
Não tem sentido.
Um milhão na idade dele? O que você vai dar de casamento?
Não, não concordo.
Você sabe muito bem que tentamos criá-lo com um certo rigor.
Ele recebe 1000 francos de mesada, anda de ônibus.
Dinheiro só por mérito próprio.
Porque você foi forçada a trabalhar para viver?
Algum dia você trabalhou e eu não percebi?
Não leve a mal, mas somos assim.
Mas isso não é justo.
Olha a voz do menino.
Ah, você tem pais puritanos, meu pobre querido.
Não cabe a você decidir.
Tem certeza, Frédérique?
Toda.
Bravo, Mme. Jean Marc.
Eu admirava muito Marianne.
É uma mulher formidável, inteligente, singular.
Trocamos milhares de cartas.
Ela escreve como fala. Com uma elegância pura.
O que ela me deu não é nada diante do que ela me ensinou.
Nossa amizade era bonita.
Tinha uma cor. Azul.
Como um Matisse.
Isso! Nada na cabeça, nada nos braços.
Vamos!
Ponto final.
Desembarquem todos!
Estação Palais-Royal.
Museu do Louvre.
Me dá vontade de cantar a marcha nupcial.
Com certeza.
Então?
- Gostou? - Está magnífico!
Então?
- Para! - Não, quero um beijo de língua!
- Não! - Sim, estou com vontade.
- Diante da plebe! - Para!
Todo mundo está...
Vamos, tirem essa porcaria. É atroz.
- Vai tirar? - Tem que livrar disso.
Não ponha a máscara africana diante do Rousseau, é redundante.
Criem contraste, coloquem na frente do Turner.
Sejam criativos. Vocês são uma nulidade para contrastes.
Pronto, não têm mais nada pra fazer aqui, seus serviçais.
Fora! Vamos, todos fora!
Pronto.
Jérôme, traga-nos champanhe. Não fique de braços pendurados.
Grande preguiçoso.
Ah, como trabalhamos, hein?
Uma coleção é um olhar, uma fantasia, uma alma.
- E muito trabalho. - E um pouco de dinheiro também.
Não entendi nada do que quis dizer.
Que horror é esse?
- É Frédérique? - Sim, com 13 ou 14 anos, eu acho.
É uma foto que Guy gosta muito.
Assim não dá, fotos de férias e de comunhão.
Mas eu não posso privar Guy das fotos de sua filha.
Não.
Família, eu amo vocês.
- Madame. - Obrigada, Jérôme.
Madame.
Você merece mais que Guy.
Tudo o que ele faz é estreito, prudente.
Você é uma rainha, ele é um burguês.
O que você quer que eu faça? Que me case de novo?
Por que não?
Tchin.
Está alegre.
Agora está fresca.
Tudo isso um dia será seu.
Huh?
A máscara africana, os quadros, as luminárias.
Tudo isso você fez comigo. É natural que retorne para você.
Você sabe se beija por menos que isso nos bosques vizinhos.
Não deboche, estou falando sério.
Graças a você, é como se eu vivesse de novo.
Não estou mais mal, eu sempre tinha alguma coisa.
É como se eu saísse do meu sarcófago.
Guy!
Estavam falando bem de você.
Que tal eu estou?
Como a casa.
Nova.
É um falo?
Sim.
Mas cuidado onde põe, Guy.
É uma peça de colecionador, não um sex toy.
Sim.
Tudo bem, senhor?
A maldita gota.
Prepare meu banho.
A que levou seu irmão que quer comprar um hotel?
Ah, tinha algumas coisas na Bretanha, perto de Quimper, mas...
Com o currículo dele, as pessoas...
As pessoas ficam desconfiadas.
Você poderia ter seguido o mesmo caminho que ele.
Foi por pouco, sim.
O que lhe sobrou dessa época?
Um diploma de gourmet.
Uma tatuagem.
Qual eu uso? Azul ou vermelha?
Ponha a vermelha.
Obrigado, Amidou, vá abrir.
Ufa, é alto demais.
Vou mandar instalar um elevador pra você.
Um elevador? Você me mima demais.
Imagina, é puro egoísmo. Sem um eu jamais voltaria.
Mas atenção, isso não é mais mecenato, é ilegal.
Se fosse levar a lei a sério.
É só um pombal.
Bem, eu te trouxe minhas baguettes e os queijos,
a mimolette envelhecida e meu queijo de cabra, muito cremoso.
Magnífico.
- Amidou, onde você vai guardar isso? - Na geladeira.
Olha só, o retardado. No fresco!
Na soleira da janela.
Ah, esses criados. Um bando de ignorantes!
Vai me dar trabalho durante séculos.
Eles têm cérebros atrofiados. Não sabem nada, não se interessam por nada!
Resultado, manda fazer uma coisa, tem que fazer tudo de novo.
- Você mora sozinho aqui? - Não.
Ah, não.
Oh, não.
Parece meio apertado.
Não tem nenhum apartamento vizinho vazio?
Seria meu sonho para expandir.
Então façamos isso!
Eu quero fazer mais do que todas essas mulheres.
Acho que elas não entenderam quem você realmente é.
É verdade? Você acredita em mim?
Você tem todos os dons.
- Literatura, imagem... - Você não leu nada mau.
E você pinta também.
Um dia, submeti um dos meus desenhos a Dali.
E ele disse, "Meu jovem, seu traço é largo demais, como deve ser seu cu."
Essas mulheres que você conheceu, você as amou?
Sim.
Ah, quer saber se as fodi? Não.
Não, mas existem várias formas de amor.
Criam-se laços mais raros, mais fortes, mais preciosos.
As patas à la Silvana Mangano.
Ah, muito obrigada, Amadou.
- Amidou. - Ah, perdão.
Não tem problema.
Amidou.
Você deu um olhar reprovador há pouco quando me dirigi a Amidou.
Sim, achei você agressivo.
Odeio gente que trata seus empregados com distância.
Como se fossem inferiores.
Com eles eu ralho, dou bronca, como se fossem família.
Eu te olho e não consigo ver a mulher de negócios em você.
Pois se engana. Para mim, é uma paixão.
Devo isso ao meu pai, eu o adorava.
Negócios são como um grande jogo, tipo adivinhação.
Mas é preciso ter visão.
Um olho pra saber o que vai acontecer amanhã.
Eu sei exatamente onde está meu dinheiro, para onde ele vai, e o que faço com ele.
Sua empresa é realmente o que há de mais importante para você.
É importante para todo o país.
Para todos que trabalham lá.
Oitenta e oito mil no mundo inteiro.
Não posso traí-los.
Somos os melhores.
Não posso vacilar, seria uma loucura.
E Frédérique, como ela está?
Ela gravou um disco, onde toca Bach.
- Um disco? - Hm-hmm.
Ah, mas é inencontrável. Nós compramos todos.
Ela inventa uma vocação e faz o que pode.
Ela tem um nome pesado de carregar.
Sabia que eu descobri recentemente que meu pai era judeu?
Fantin é de Fanztein.
Não diga.
Que horror.
É uma loucura como se passa toda a juventude se achando uma coisa...
...e num estalo vemos que era tudo mentira.
Eu entendo.
- Enfim, você está segura. - Por quê? Como você me vê?
Bom, você não está sentada sobre um monte de segredos horríveis.
Você pertence à elite.
Você sabe o que os americanos dizem?
"You feel lonely at the top."
Abandonem toda a esperança. Você já entrou.
- Olá, Pierre. - Oi.
Betsy!
Tive medo de não te reencontrar.
Você sumiu.
Pensei em você.
Ah, como você me mima.
Apresento-lhe Marianne.
- Encantada, madame. - Você está magnífica.
Quer me deixar com ciúmes?
Foi Marianne quem comprou sua foto.
Minha foto.
Nem quero revê-la. Estou pavorosa.
Por quanto você vendeu?
Não, não me diga.
Hein, seu ladrão!
Betsy, é uma mulher que escolheu sua vida.
Ela era casada com um médico no Parc Monceau.
Ela tinha contatos, filhos, roupas da Chanel.
De repente, largou tudo da noite para o dia.
E a senhora, o que faz na vida?
Trabalho com cosméticos.
- E você não se arrepende de nada? - Não.
É minha liberdade.
É meu luxo.
Betsy, que tal cantar uma canção do seu repertório, por favor?
Sim, se você quiser.
Mas minha voz está cansada.
Obrigado, querida.
Já estava preocupado.
Você não dormiu lá?
Você se divertiu pelo menos?
Não me olhe desse jeito!
Faço como quero.
Com Pierre-Alain, eu me divirto.
Nós voamos, nos arriscamos.
Jérôme, prepare-me uns ovos com presunto.
- Comerei no meu quarto. - Pois não, madame.
Fala-se muito mal de gente rica.
São mais duros.
Mais egoístas.
É verdade que não soltam fácil seu dinheiro.
É por isso mesmo continuam ricos.
Mas no fundo...
...eles não estão preparados que a gente para a vida.
E até...
...procuram viver a vida que todo mundo vive.
Mas eles são de outro planeta.
Ah, vocês chegaram!
Você está aí, minha querida!
Como vai?
Melhor, agora que você chegou.
Bem, apresento lhe... Raphaël Dalloz.
Bom dia, Raphaël.
Bom dia, Marianne.
- Seja bem-vindo. - Obrigado.
As férias com Guy e Frédérique parece um retiro das Carmelitas.
- Você reza? - O Guy, sim!
Depois joga paciência na cama.
Frédérique colhe conchas na praia com o filho.
- E um monte de bobagens. - Que horror.
- Bom dia. - Bom dia.
Frédérique! Que prazer em vê-la.
Marianne acabava de me falar das suas férias maravilhosas.
Apresento-lhe Raphaël Dalloz.
- Bom dia. - Bom dia.
Bom dia.
Sua mãe não se importa que venha passar suas férias com o ex dela?
Esse canalha largou minha mãe por essa mulher?
Quando penso que você podia ser filho do Spielman.
Venha. Vamos dar um mergulho.
Vou vestir meu calção.
Não precisa, Guy e Marianne se banham nus.
- Boceta ao vento. - Não!
Claro.
Não se mexa.
Está magnífico nessa luz.
Está na posição perfeita, se se mexer eu te mato.
Não olhe para mim.
Olhe lá pra fora.
Eu te amo.
Está ouvindo isso?
Que diferença de Bach.
Espera, não se afaste demais.
Imagine que está no Volga.
Você não é uma gaivota que plana sobre os fossos de Roland.
Hoje de manhã ela estava com dor nas costas.
Um dia desses podíamos passar as férias em outro lugar.
O mundo é vasto.
Por quê?
Cansou daqui?
Não sentiríamos muita falta.
Escuta, Marianne, não era tédio. Preciso criar, só isso.
Agora quero pintar e não tenho nada. Nenhum pincel, nenhuma tela.
Estou desesperado. Fazer o quê?
- Venderemos um Learjet. - Jura?
Oh, obrigado, minha gordinha.
Obrigado, obrigado, obrigado.
Oh, obrigado, obrigado.
Ai, Pierre-Alain! Precisa cortar as unhas, você me arranhou.
Com água salgada arde.
- Ele é um bruto. - Tem razão, sou um bruto!
Sou um bruto! Quando amo, preciso morder!
Não tentem me impedir, como até cru!
Scrabble, é?
Oh, que delícia!
Venha dar um mergulho! Devia vir nadar, está delicioso.
Precisa passar creme nas costas, Jérôme. Vai ficar com queimaduras horríveis.
Olha só. Está todo vermelho.
Você também, Guy.
Agora chega.
Não sou muito parecida. Você acha mesmo?
Uma versão Guernica de você.
Frédérique.
Ainda por cima não consegue dormir?
Podemos nos fazer companhia.
Você sempre foi assim?
A gente melhora quando ousa.
É esplêndido.
Nada nem ninguém atrapalha minha visão.
Tirando Jérôme quando está servindo.
Nosso quarto é maravilhoso.
Tem que nos reserva-lo para os próximos 20 anos.
Ele é seu.
Gosto de te ver despenteada assim. Fica mais solta. Parece que respira.
Sabe o que vamos fazer como, Marianne, como um jogo?
Vou destrancar tudo que está guardado dentro você.
Só você tem a chave.
Gostaria de fazer um brinde.
A Marianne.
E ao Guy.
Que nos recebem tão generosamente, Raphaël e eu,
os dois sodomitas.
Temos a sensação de ter sido adotados e de fazer parte da família.
A Guy e a Marianne.
- Você podia fazer uma tatuagem, não? - Tatuagem? Eu?
Um dragão. Ou uma rosa selvagem... como você.
Cheia de espinhos começando no ombro e indo até o pescoço.
Não? Como os yakuza no Japão.
Sim, ficaria bonito.
E você, Jean-Marc, nunca pensou em se tatuar?
Sei lá, por exemplo. As iniciais de um amor de juventude.
Seria preciso isso para alguém se lembrar?
Catherine.
Sua mãe se Catherine, não?
Sim.
Não? Não te diz nada, Catherine?
Perto de Cap Ferret. E de repente, puff!
O pretendente desapareceu.
Ela soube do seu casamento pelo Figaro.
A pessoa não tem o direito de ver que se enganou?
Espero que sua mãe esteja bem.
Sim, está bem, sim.
Bem, Pierre-Alain, cale-se.
Conte-nos sobre seu almoço com Mitterand.
- Você esteve com o presidente? - Sim.
É um velho avarento, mas esperto.
Sabe o que eu lhe disse depois que li seu futuro?
Disse que ele era todo rosa.
Gosto muito dele.
Éramos inseparáveis quando jovens.
Mas não tínhamos nenhuma ideia comum sobre como governar um país.
Eu sei disse. E depois veio Vichy.
Ah, seus anos loucos!
Quantas lembranças maravilhosas para vocês dois.
Oh, de novo essas velhas lendas.
Você não conhece bem esse período.
Ninguém ignora que meu pai recebeu a medalha da Resistência.
E que Mendès-France o colocou em seu governo em reconhecimento.
Pierre-Alain, só está brincando, Frédérique.
E sou obrigada a achar engraçado?
Ora, Guy! Precisa levar tudo a sério? Não percebe que é só zombaria?
Ah, então é só provocação? Não deixa de ser afetuoso.
Com certeza.
- Jérôme? Cadê ela? - Estou aqui, senhor.
Pode me servir um pouco de champanhe, por favor?
Gostaria de fazer um segundo brinde...
à República...
una e indivisível...
...e à integração social.
Na verdade, Jérôme, Raphaël não se oporia se fizesse um boquete em você.
Assim, rapidinho.
Prometo que não olho.
Vamos, para com isso.
O que devo dizer, senhor?
"Senhor Fantin. Crise."
Mas vai passar.
Você é incorrigível, Pierre-Alain.
Frédérique!
- Exagerou um pouco, não? - Eles adoram isso.
Nunca vi coisa igual.
Tanta grosseria.
E tanta obscenidade na frente de Charles.
Sem falar na trilha sonora de seus arroubos sexuais.
Não reconheço mais minha própria casa.
Ora, ora, não seja tão dramática.
Além do que, a casa não é sua, é minha.
E o que ele ousou dizer ao meu pai?
Confesse, ele mal conseguia respirar.
Invente uma desculpa qualquer. Diga que precisamos voltar pra Paris.
Impossível. Seria uma grosseria.
Ademais, não tenho a menor vontade. Estou me divertindo à beça.
Está fora de cogitação que passe mais um segundo com esse aproveitador.
Mas você não é obrigada a ficar, querida.
Você está todo vermelho.
Precisa passar um creme.
Temos isso em todas as lojas.
É divino.
Onde estão os outros?
Frédérique está fula com você por causa de ontem.
Ah, tudo bem, ela que tenha mais senso de humor, merda.
O que deu em você?
Por que essa história mexe tanto com você?
Meu pai é judeu, esqueceu?
Mas também havia a malícia.
- Posso te dizer uma coisa? - Claro.
É uma reflexão de uma das minhas amigas mais antigas.
"Seduzida por Fantin, arruinada por Fantin."
Eu te arruinar? Missão impossível.
Mas esse crush pode dar problema.
Eu sou um golpista.
Um impostor.
Um ladrão.
Um mentiroso profissional.
Você é severo.
Não sou nem herdeiro, nem gigolô. Sou uma mistura inteligente dos dois.
Sou o homem que se adora odiar.
Então, o que eu estou fazendo aqui?
Marianne...
Por que você me convidou?
Sou curiosa.
Quero ver até onde isso pode nos levar.
Até que os cães ferozes te mordam.
Grrr!
Grrr!
Grrr!
De novo imitando cachorro? Não acredito.
- Ele me mordeu! - É horrível, não?
Da última vez ele fez is no Chez Lip.
É verdade. Lambi os culhões de Jean Dormaisson. Foi difícil de encontrar.
Ah! Sentado!
Isso... aqui.
Pronto, pronto.
As coisas que tenho que aguentar.
É hora da mamadeira.
Como ele é bobo.
Eu faço grandes fotos e pequenos livros, não é questão de formato.
A precocidade é uma maldição.
Às vezes morre-se por isso.
Esperaram demais de mim.
E eu esperava demais de mim.
Eu me dispersei.
Era uma forma de fugir.
Pode-se ver a vida como uma obra.
Olha, tem mais.
"Em vinte anos, o Sr. Fantin passou de pequeno Mozart das letras..."
"... a uma espécie de Minou Drouet quadragenário."
"Fantin, um impostor." Esse é o título.
"Os favores de Aragão ou Mauriac se dirigiam mais ao rostinho do autor..."
"...que às suas qualidades estilísticas."
"Fantin, o ex-queridinho dos anos 70, tornou-se uma caricatura de Dorian Gray."
"Ele carrega em seu rosto gasto e desagradável..."
"...o traço de todos os seus pecados."
O mesmo das minhas fotografias.
"Nenhum valor no mercado de arte."
"Uma possível saída para Fantin,"
"a revista mundana Point de Vue Image du Monde."
Droga, vou abandonar tudo!
Ora, não seja idiota. Esqueça o que dizem esses jornalecos.
O importante é que falem de você.
Todo artista já foi massacrado.
E você é um artista.
Um verdadeiro artista, logo, um incompreendido.
- Como pode saber? - Pois vou te provar.
Me sinto como um impostor.
Farei um contrato de 10 anos para suas criações.
- Um contrato? - Hm-hmm.
2 milhões por ano. Parece razoável.
Você se dedicaria só às suas obras.
Razoável?
Você é uma mina de ouro, Marianne.
Faço o que quero do meu dinheiro.
Afinal, minha fortuna eu fiz com banho de espumas.
Meu pai, antes de me morrer, me disse: "Você tem o mundo inteiro a seu favor."
Você também o terá.
As pessoas não te conhecem.
Ou te te idolatram ou te jogam na lama.
No fundo, é a mesma coisa.
A luta não me assusta.
Eu sou uma lutadora. Isso até me excita.
Não desejo a ninguém que seja meu inimigo.
E te proíbo de falar do meu pai.
De sujar o nome dele.
Afinal, que mal há em reconhecer que seu pai era nazista?
Você não viveu essa época.
A França estava arrasada.
As pessoas acreditaram que Pétain seria a salvação.
Meu pai estava ocupado demais com seus negócios para se envolver com a Cagoule.
Ele nunca fez parte da Cagoule.
Ele a financiou, Marianne. "Financiou." E antes mesmo da guerra.
- São erros de juventude. - Ele tinha 61 anos, seu papai.
Sua empresa era, e ainda é, um antro de fascistas.
Também há muitos israelitas.
Ele era um homem cheio de esperança. Um otimista. Um visionário.
Ele criou um mundo.
Foi um homem notável pego em tempos difíceis.
Mas Guy, na libertação, todo mundo achava que você era da Resistência.
Aí você se casa com a filha, o pai é inocentado, o dinheiro continua a entrar.
Rios e mais rios, uma inundação.
Já chega, para.
Se esse dinheiro é sujo, por que você o aceita?
É a verdade que te incomoda.
Encare os fatos e me deixe em paz.
Ou então fique com suas velharias.
E todos que te puxam o saco.
Eu te amo.
Então eu te falo com franqueza.
Pode terminar sem mim.
Não quero mais te ver.
São os vinhos Bordeaux.
Dos vinhedos de madame no Haut-Médoc. Ponho aqui?
Sim.
- Aceita um suco de frutas? - Sim.
- Posso lavar as mãos? - Claro.
O que é isso?
Da parte de Madame Farrère.
Às vezes, uma jarra de Côte-du-Rhône é menos decepcionante que um Grand de Bordeaux.
Não quebre este copo.
Ele pertenceu à princesa Mathilde.
Diga a Marianne que, se eu voltar, será quando eu escolher.
Como vai ela?
Não tem saído muito.
Aceita partilhar da nossa modesta refeição?
Previno que só tem frios.
Tirando eu.
Não, tudo bem.
Claro, você tem seu lanchinho.
Sua marmitinha.
Bom, vou embora.
Adeus, Jérôme.
Pierre quer saber se já pode servir.
- Ele não ligou? - Não.
Você está infeliz.
Você acha?
Me sinto só com tudo isso.
Eu estou aqui.
Não estou preparada para isso.
É preciso os arbustos ali.
Sim.
Desculpe, Raphaël. Boa noite.
Boa noite, Marianne.
Pierre-Alain não está aí?
Não, ele saiu.
Sente-se, por favor.
Ele não disse aonde ia?
Não o viu hoje de manhã?
Tem certeza que ele não está aí? No escritório?
Ele não está lá, tenho certeza.
Nem sempre ele me diz para onde vai.
Às vezes desaparece até o dia seguinte.
É um rapaz atormentado.
Mas você o acalma.
Talvez.
Os tempos mudaram.
Eu não acreditava que dois homens pudessem ser felizes juntos.
Você me esperou.
O dia inteiro.
Sim. Estou aqui.
E você está aí.
Precisa acreditar que senti sua falta.
Eu também estava te esperando.
Desaparecendo?
Eu me senti acuado.
Você derramou sobre mim uma torrente de benefícios.
Não seria uma armadilha?
Por que inventar dificuldades?
A vida já é complicada como é, não?
Você é lado meio lelé, sabia?
Seja mais simples.
Eu tenho uma ambição para você.
Gostaria que nossa amizade entrasse para a história.
Um dia talvez você faça uma fundação.
E gostaria que ela levasse nossos dois nomes.
Será que este será você?
Está ouvindo?
O quê?
As gotas.
Continuam caindo e já parou de chover.
Uma a uma.
Quando me lembrar deste momento, saberei que a chuva parou de cair.
Só para nós dois.
Se me reprovarem por ter dado tanto dinheiro a Pierre-Alain Fantin,
direi que foi uma peça que a vida pregou em mim.
Ou o que eu fiz da vida.
Não sei o que é o amor.
Só queria que aquilo continuasse.
David Steiner,
quando Guy Farrère se une ao La Terre Française, jornal pró-Vichy,
criado pelos nazistas, ele só tinha 20 anos.
E daí?
Ele escreveu 64 artigos que eles fizeram de tudo para dissimular, fazer desaparecer.
E foi graças a um bibliotecário de Versalhes...
...que podemos finalmente lê-los hoje.
É são de uma gravidade avassaladora.
Quando ele escreve: "Um judeu será mais facilmente avarento que um cristão."
"Os jovens de toda parte devem ser agentes do marechal."
Ou ainda: "Para a eternidade, a raça deles é manchada pelo sangue dos justos."
"Serão amaldiçoados por todos."
"A denúncia é um dever, pois serve verdadeiramente à coletividade."
'Quantas pessoas seguiram seu conselho?'
'Ao encorajar a delação, quantas mortes ele tem na consciência?'
Guy Farrère é uma figura pública, oficial, a maior fortuna da França.
Ministro sob De Gaulle, sob Pompidou, amigo íntimo de François Mitterrand, senador.
Segundo Serge Klarsfeld, ele poderia ter seu visto para os Estados Unidos revogado.
E a TF1?
Na época eu te falei pra comprar a TF1 deles.
Mas de onde eles desenterraram essas coisas velhas?
Pensei que tudo tivesse sido destruído.
Nós somos os mais ricos da França. Mas também somos os maiores anunciantes.
Nem eles não sobra nada.
Acabou. Cai a cortina. Fim de papo.
Ademais, somos os melhores amigos do presidente.
O que esse merda acha que pode fazer contra nós?
Vou ceder meu lugar. Jean-Marc deve assumir as rédeas.
Não, não, não.
Mas sim, Marianne, se for preciso.
Para a empresa, é uma questão de sobrevivência.
Vamos esperar a poeira baixar. Estamos todos de cabeça quente.
É o caos.
Precisamente. Por isso vou sair da empresa.
Não quero que se fale nisso.
E se falarmos, o que não é o caso, com certeza não será Spielman.
Ademais, tenho certeza que ele está por trás disso tudo.
Jean-Marc? Não me diga besteira.
Se eu não pedir demissão, amanhã, quando a Bolsa abrir,
as ações estarão em queda livre.
Se tudo desmoronar, me avise.
Pode ser que ainda sobrem uns cremes pra aproveitar.
Encontre outra pessoa, eu te imploro.
Dentre um milhão de candidatos, seria o último que eu escolheria.
Jean-Marc, é a única opção. O que você tem contra ele?
É uma sensação. Eu não a sinto.
Ele não é dotado para negócios.
Ele compraria um cemitério e as pessoas parariam de morrer.
Você não pensou em mim?
Com ele, ele não sairia da nossa casa.
Quer que a marca passe para outra pessoa?
Você imagina a obra do seu pai saindo da família?
É isso que você quer?
Obrigada.
"Coisas lindas para minha linda. Pierre-Alain."
Jérôme, você é meu amigo?
Não ousaria dizer isso, madame.
Vou lhe falar abertamente.
Neste momento, só sinto vontade de chorar.
Mas é engraçado, porque não estou triste.
Sinto vontade de chorar... por cansaço.
Como as crianças quando não dormiram.
Você entende?
Não sei se conseguirei suportar isso tudo.
Conseguirá, sim.
Poucos conseguiriam, mas você... você sim.
Espero que você tenha razão.
- Quer que lhe traga os jornais? - Não, chega de podridão.
Boatos, calúnias...
Jornalista sé diz merda.
As flores não estão nem aí pra isso tudo.
Elas vivem em silêncio.
De hoje para amanhã.
São lindas, essas rosas.
São lindas, sim, essas rosas.
Mas tem todo o resto.
Meu pai me pediu para sempre proteger nossa empresa.
Todo dia eu tento atender ao seu desejo, porque ele está sempre perto de mim.
O que se escreve por aí me repugna.
Exijo que suspendamos nossos anúncios na mídia...
...que continuar veiculando essas maldades contra o grupo.
Pergunta aos proprietários de jornais e TV quem está a meu favor.
Quem não estiver a meu favor, estará contra mim...
e deverá arcar com as consequências dessa posição.
Se disserem que é censura?
Não se trata de censura.
Não se trata de calar o que não existe.
Eu tratarei disso...
Até logo.
Não tenho te visto mais.
E sabe muito bem por quê.
Você sabia?
O que você sabia?
Você já tinha lido esses textos?
Nunca. Ou então esqueci. Dá na mesma.
Eu tinha 20 anos em 40.
Sempre me arrependi desses escritos.
Arrependeu-se em silêncio?
Principalmente os que envolvem a comunidade judaica.
Diga "os judeus".
Eu não conhecia nenhum.
No catolicismo da minha infância, foram eles que mataram Cristo.
Eu era habitado por essa ideia.
Não era eu quem falava.
Era um ambiente, uma época.
Ademais, sejamos justos, em 1942, juntei-me a Mitterrand e optei pela Resistência.
É possível portar a Francisque, atirá-la na sarjeta...
e tornar-se Presidente da República.
Será que não consegue entender, querida, que a verdade muda?
Que isso acontece duas ou três vezes em uma vida.
A pessoa pode mudar, não?
Mas não sei o que fazer disso tudo.
Como é que eu fico?
Que herança.
Fui muito repreendido por isso.
Alguns não entenderam, mas eu aceitei.
Tornei-me o fiador da empresa.
"Assim, garanti sua sobrevivência."
"É preciso admitir que houve alguns ajustes,"
"correções de itinerário na vida."
"Aí, então, pensei no futuro."
Pensei em meu filho.
A ideia de dinastia é universal.
Ela deve ser mais forte que as circunstâncias.
Ela existe desde sempre em todas as culturas.
Sempre soube que Frédérique e seu marido querem se descartar de mim.
Ne tirar de cena.
É a grande oportunidade para eles.
É como se tudo desmoronasse ao meu redor.
O trabalho de uma vida, o trabalho do meu pai. O que eles entendem de tudo isso?
É como um segredo que eles ignoram.
Uma empresa é um corpo, é uma alma.
A vida são escolhas afetivas.
Os negócios também, mas é muito mais vasto.
Marianne, para! O que você está fazendo?
Olhe só.
Porca.
Por favor, limpe isso e traga a conta.
Obrigado.
Posso segurar sua mão?
Quando fecho os olhos, acho que estou na minha cama.
Venha descansar aqui.
Pronto.
Eu te amo.
Eu te amo.
Ah, Jean-Marc, isso não está funcionando.
Ainda não consertaram essa máquina?
Você colocou uma moeda?
Como assim?
Precisa colocar uma moeda na fenda, ali.
Isso é novidade?
- O que você gostaria? - Suco de cranberry.
Ah, obrigada.
Marianne, pouco importa o que Guy possa ter escrito no passado, ele é um bom homem.
Obrigada, Jean-Marc.
Desculpe-se com seu filho, acabei de comer o último Eskimo.
- Não devia comer tanto doce. - Você não é minha médica.
Você falou com Jean-Marc?
Jean-Marc joga com as próprias armas.
Ou seja?
Sabe muito bem, você também joga com as suas.
E eu, as minhas.
E quais são suas armas?
Todo mundo joga, minha querida, é a vida.
Você nunca gostou de Jean-Marc?
Bem...
É que...
E você tem razão, mas não pelo que está pensando.
O que eu penso?
Me magoou muito o dia em que você disse...
...que eu não gostava de Jean-Marc porque ele era judeu.
Vivi minha vida toda cercada de judeus, esqueceu?
Você não se entedia com ele?
Deve perceber que lhe falta um pouco de consistência.
Ele é astuto, sim, mas não tem ideias.
Você é muito injusta.
Você poderia gostar dele.
Você conseguiu gostar de papai.
Ah, mas eu amo seu pai.
Só que eu não suporto me sentir presa a um papel.
O de uma mulher que depende de um homem,
que se sente só quando ele não está lá ou quando ele morre.
E ele sabe disso. Quando fomos comprar minha aliança, eu disse logo,
"Que não me aperte muito".
Você pode me deixar trabalhar, agora?
Eu não entendo. Vocês estão me deixando louco!
Tudo que eu peço, um dia é sim, o outro não.
Ainda bem que anoto tudo que você me promete num caderno.
Eu não sonhei, você prometeu me colocar no conselho de administração.
Não, isso eu nunca falei.
Você pirou? Esquece tudo.
E esse contrato de seguro?
Está redigido, só falta assinar.
As seguradoras dizem que não é aconselhável nesses termos.
Quais?
Essa gente está sentada no seu dinheiro.
A Sra. Farrère ficaria sujeita a enormes encargos fiscais.
Escuta aqui, nem sei quem você é? Quem é você. De onde você saiu?
Se ela resgatar esse seguro de vida para que você se beneficie, serão 60%.
Mas é só dinheiro, e eu preciso dele, Marianne,
para levar em frente certos projetos.
Se você precisa dessas quantias, por que não fazer um empréstimo?
Com o lucro que vier a ter, não terá problema.
Mas não é questão de dinheiro. Não estou nem aí pra dinheiro.
Isso eu já tinha antes de conhecer Marianne.
E você me prometeu, prometeu!
É como as joias no cartório.
Você disse que elas passariam para mim. Não inventei isso.
Você ameaçou me jogar pela janela se eu recusasse.
Não se pode prometer isso a alguém e trair sua confiança.
Podemos falar de outra coisa além de dinheiro?
Você me deixa exausta.
Mas é você que não para de falar. Está brincando comigo.
É a cenoura que faz o burro andar.
Bem, agora chega. Vamos lá, você vai assinar!
- Vamos lá , vamos... - Para, está me machucando!
- Assine já! - Pierre-Alain, pare!
Você me machucou.
Não se dá valor a mais nada.
Tudo que eu poderia realizar foi pelos ares.
Danem-se os impostos.
Vamos acabar logo com isso.
Obrigado. Você ajudou muito.
Um amigo que precisa de um ateliê.
- Um amigo? - Sim
Mas... quem você tem ao seu redor? Quem são seus amigos?
Cite um. Uma. Vamos.
Pois é. Ninguém. Pronto.
- Antes de me conhecer... - Ah, estou cansada.
Quero viajar pra longe daqui.
Então vamos.
Vamos para Saint-Tropez. Para Saint-Joseph.
Para Saint-Moritz.
Qualquer santo.
Singapura.
Estou muito cansada.
Não ia ficar para almoçar, Sr. Fantin?
Estou sem fome.
Ah, que cara feia. O que foi, Sr. Jérôme?
Não gosta do jeito como você fala com a madame.
Você escuta atrás das portas? Isso é feio.
É uma discussão de casal.
Existe amor dentro.
Você nunca brigou com as criadas?
Madame não é sua esposa e mão permitirei que lhe faça mal.
Hm, cavalheiresco, bem machão.
Pois aceito o desafio.
Vamos. Bate em mim.
Como é?
Entendeu? No me toque mais nela!
Não toque em mim!
Sou uma criança maltratada!
Até as criadas são loucas nesta casa.
Canalha.
Você diz que ela esteve quantas vezes no tabelião?
Três vezes.
E ele estava sempre presente, claro.
Sim.
Você ouviu mais alguma coisa?
Também falaram de quadros.
Quantos anos você tem, Jérôme, agora?
Fiz 38 anos, senhor.
Você é bonito... ainda.
Poderia ter sido ator de cinema.
Não fique constrangido. Você está corando?
Não.
Faz tempo que eu não coro, infelizmente.
Jérôme, se um dia você sair deste museu,
se nós morrermos, Marianne e eu,
você não se sentirá meio perdido?
Não se deixe levar pelas aparências.
Não tenho medo da vida.
Abrimos um corredor pela parede-meia dos dois imóveis.
Instalamos vigas para sustentar o conjunto.
Não quero que pareça dois imóveis separados.
Quero que um seja o apartamento um prolongamento natural do outro.
Passaríamos da área da galeria para o ateliê para piscina num só movimento.
Mas será assim.
Por isso poremos o mesmo piso nos diferentes espaços.
Necessariamente dará essa impressão.
Pode tirar a camisa se estiver com muito calor.
Escuta.
Eu falei com Daniel Feu.
Ele quer pagamento antecipado.
Não.
Então espere.
Que maravilha! Parece que estou jogando Lego!
Bom dia, Pierre-Alain.
Dá licença.
Senhor.
Vejo que você está expandindo.
Sim, o apartamento vizinho foi desocupado. Vou derrubar essa parede
Em breve, terá o edifício inteiro.
E você virá chapinhar na minha piscina.
Não te esperava, Guy.
Mas atenção. Eu amo o Raphaël.
Não estou a fim de um adultério nem ménage à três.
Parto esta noite para Saint-Joseph com Marianne.
E não me convidaram.
É uma viagem de velhos apaixonados. Fica para a próxima vez.
Quero falar com você, Pierre Alain.
Sem Marianne aqui, você estará só.
Todos desejarão sua queda.
Por quê? Todo mundo me adora.
Escute.
Estive na contabilidade e no tabelião.
Nós listamos todos os seguros que Marianne fez em seu nome.
Você é louco de aceitar quantias desse porte.
Eu não peço nada.
Claro que pede. E eu repito. É uma loucura.
Que seguros? Que seguros?
Não sei de nada. Estou sabendo por você.
Não se faça de ingênuo comigo.
O que você pretende fazer?
Essas obras.
Esse santuário.
E tem minha filha. Ela saberá de tudo. Eu a conheço.
Você será processado por captação de herança.
Pode ser. E daí?
E não é só Frédérique.
Tem a empresa. Está tudo conectado inextricavelmente.
Você não entende nada desse mundo.
É um ninho de víboras.
Elas te estrangularão. Vão te devorar.
Afinal, o que você quer de mim? Aparece aqui feito um papa-defunto!
Me ameaça.
É insuportável.
Acredite se quiser, estou tentando te proteger.
Até de si mesmo.
Não entre em jogo em que só tem a perder.
Espera, desculpe...
- O que foi? - Espera...
Sinta meu coração.
Está palpitando. Veja meu pulso.
- Tudo bem, tudo bem. - Você sabe fazer massagem cardíaca?
Respira, vai...
- Vou te pegar um copo d'água. - Não, não vá.
Não me deixe.
- Vou ligar para ela. - Não.
- Pierre-Alan, não. - Sim, sim.
Guy, que história é essa?
Como ousou dizer isso a ele? Não ficarei mais aqui. Vou embora.
- Me solta! - Marianne, escute!
O dinheiro é meu, está me ouvindo? Do meu pai e meu.
Você já não tem o suficiente?
Quem pagou sua carreira política, seus sapatos e seus charutos?
Marianne! Marianne!
Safado! Safado!
Madame!
Minha querida.
Que história.
- Jean-Marc. - Tudo bem, Guy?
O que estou fazendo na África?
Estamos na França.
Agora vai ficar tudo bem.
- Ele vai morrer? - Quem?
Meu pai.
Foi meu pai que caiu, foi Guy.
- E não, ele não vai morrer. - Sm, Guy.
Mas aonde estamos indo? Não quero ficar sozinha.
Você não está sozinha, eu estou aqui.
Me solte.
Me solte.
Me solta, já disse.
Há um diagnóstico para a madame?
Sim.
Síndrome confusional devido a queda acidental e uso de analgésicos.
Ela tomou muitos analgésicos.
Tudo bem, Jérôme? Parece exausto.
Seus olhos estão cansados.
É de tudo que têm visto ultimamente.
- O que está acontecendo? - A criadagem.
Todos pedindo aumento.
Até a mim ela aumentou.
Diz que não vê razão pra negar.
Aumentos de quanto?
Uns quase dobraram.
O chef Pierre passou para 30.000 francos.
- E o que ela diz? - Ela diz sim a tudo.
- E Rasputin? - Fantin? Ele a assedia.
Nunca é bastante para ele.
Isso contagia todo mundo. É como a gripe.
Você deveria falar com a contabilidade.
Amém.
Shabat shalom.
Shabat shalom.
Fui ao cinema ontem à noite. Vi Titanic.
- Tudo bem, querida? - Sim.
Tem certeza?
Claro.
O que nosso mordomo te disse?
O que está acontecendo lá é obsceno.
Você é como um filho para mim.
Não te incomoda muito dormir nessa cama de campanha?
Não, me faz lembrar o exército.
Está passando mal?
Não me sobra muito tempo, Jérôme.
Não diga isso, senhor.
Quero que cuide bem de Marianne quando ela estiver sozinha.
Pode contar comigo.
Com que direito você cancela meu almoço com Bernadette Chirac?
Eu não queria te expor tão cedo num evento oficial.
Você liga para minha secretária para dar suas instruções.
- Para te proteger. - Não, para me apagar.
Não estou entendendo. Perdeu o juízo?
Conviria muito bem a você se fosse o caso.
Isso não é legal.
Você quer saber quanto eu gasto e para quem assino meus cheques.
Mas isso não é da sua conta. Ponha-se no seu lugar!
Entendo muito bem sua jogada.
Mas ninguém me fará de boba.
Lá em casa não se falava em dinheiro. A palavra nem era pronunciada
Dinheiro.
Fui ensinada a não me impressionar com nada.
Me transmitiram valores de humildade e de discrição.
Então, a invasão de um mercenário neste universo, o meu.
Um tipo arrogante, vulgar, que não respeita nada.
Na nossa casa não se ostenta nem a riqueza, nem o estado de espírito.
Não se trata de um dândi.
É um grosso.
Um bruto.
É mais forte que ele. Ao gosto de sangue, ele ataca.
E eu, defendo minha família.
Não se lance numa guerra contra Marianne.
Pelo menos enquanto eu estiver vivo.
Certa ou errada, é preciso deixá-la fazer o que quer.
Ela fica cega, passa por cima, e sobrevive.
Ele lhe oferece alguma coisa que nós somos incapazes de dar.
Não quero que você reaja com paixão.
Com ódio.
Como se chamava aquele café na rua Royal em frente ao Société?
O Weber.
- Não existe mais, não é? - Há muito tempo.
Durante anos,
quando eu passava em frente, eu pensava...
'Vou tomar uma café com creme enquanto espero até me casar.'
Por que está se lembrando disso?
Não voltarei tarde.
Você renascerá quando ele morrer.
Minha querida.
"Ficará mais sóbrio."
"Só o nome "Guy Farrère" gravado..."
"Nada pior do que se expor."
"Virar bochicho da cidade inteira."
"As pessoas adoravam o Guy."
Ele só tinha amigos.
Em todos os círculos.
Vai causar muita comoção.
Você está aí?
Não vai me dar um beijo?
Estamos em família. Podia nos deixar?
Pierre-Alain, fique aí e escute.
A casa é grande o suficiente para todos os que queiram velar seu pai.
Não suporto a presença dele.
- Se quiser, Marianne, eu vou embora. - De jeito algum.
Então eu fico.
Quer me privar do meu melhor amigo?
Ele não imagina dirigir minha vida.
Queria compartilhar um pouco da minha dor com você.
Minha dor você respeite.
Eu a compartilho com quem quiser e com quem realmente me ama.
Que providências você vai tomar para o enterro?
Vou atender ao que seu pai queria.
Ele deixou instruções precisas.
Ser enterrado na intimidade.
Estarei ao seu lado, Marianne.
Enfim, se conseguir entrar na igreja sem pegar fogo.
A felicidade de Marianne pra você não importa.
- O que você quer é se vingar. - Me vingar de quê?
De não ser como ela.
Não tenho vontade alguma de ser como ela.
Ademais, cale-se, estamos de luto.
Seu plano pode ter funcionado muito bem, mas agora, acabou.
Se você diz.
Jérôme, sinto vontade de te beijar por tudo o que você fez pelo Guy.
Você até que é fácil, na verdade.
Meu pai, meu amigo.
Obrigada por ter sido como você foi.
Obrigada por ter-me protegido e sabido escutar meus desejos.
Não importam as polêmicas dos últimos tempos...
...e aqueles que procuraram sujar seu nome.
Isso em nada o atingiu.
Os momentos com você passaram rápido demais.
Você se foi rápido demais.
Sentirei imensas saudades.
Bravo!
Você não se pronunciou no cemitério?
É preciso deixar os mortos em paz.
Eles têm muito o que fazer.
Você é crente?
Tenho a fé da minha infância.
Talvez seja falta de imaginação.
- Ele chegou. - Aonde você foi?
Fazer uma comprinha.
Pierre-Alain, você é maluco.
Num dia como hoje?
Principalmente num dia como hoje.
Madame.
Jérôme, eu gostaria que você continuasse trabalhando para mim.
Que fique responsável pelo primeiro andar.
Particularmente do escritório de Guy.
Quero que nada seja mexido.
Nem seus livros, nem seus objetos.
Que a tinta de suas canetas não seque.
Que ninguém se sente em sua poltrona.
Você é casado há quanto tempo, Jérôme?
Não sou casado, madame.
Eu fui casada desde...
E aí, tudo desmoronou.
Durante uma refeição, mesmo sem falar nada,
o marido estando lá, há os gestos.
As mãos.
Mas ele nem precisava falar.
Ele olhava para você.
E já bastava pra dizer sim ou não...
...sem olhar.
Bom dia, Jérôme.
Não se esqueça de preparar meu prato.
Não é meu trabalho.
Um pouco de botânica.
É muito bom para as plantas.
Da próxima vez farei cocô.
Eu cago grosso.
Sou muito anal.
- É minha decisão. - Tem certeza?
Não é um procedimento muito complicado?
O tabelião deve ter-lhe dito. É um simples caso de adoção.
Questão de poucos meses.
E dane-se o que falarem.
Sou virgem de qualquer filiação.
Meus pais, eu os repudiei. Expulsei da minha vida.
Por isso, essa loucura eu quero fazer com você.
Tem que me aceitar como sou.
Como uma criança velha. E orgulhosa de sê-lo.
Meu bebezão.
Pierre-Alain Farrère?
Você ouviu ele dizer isso?
Sim.
Era isso que ele queria desde o início. É isso que ele quer.
Este homem é o mal.
À parte o diabo, quem imaginaria uma coisa tão perversa, tão amoral?
É monstruoso.
Parece que a ideia partiu dela.
Ainda não vimos tudo do que ele é capaz.
Maior canalha eu nunca vi.
E sei reconhecê-los
O que há de tão urgente que me obrigue a cancelar um compromisso?
Quero que você feche definitivamente suas portas a Fantin.
Pare com isso, seus ciúmes são grotescos.
Enquanto meu pai era vivo, eu não disse nada.
E agora que sou viúva, tenho que ser dependente?
Agora as coisas não serão do seu jeito.
Recorrerei à justiça se for preciso.
Mas você não pode fazer isso.
Farei o que preciso fazer.
Mas como você pode?
O que você tem na sua vida que não veio de mim?
Irei até o fim.
A culpa é minha.
- Eu te mimei demais. - Mas me amou?
Agora é tarde demais. Não podemos mais salvá-la de si mesma.
Sinto muito.
Sinto muito que não seja talhada para nosso mundo.
É preciso crescer.
Você pode escrever livros, tocar piano, tudo bem.
Mas este mundo, Frédérique, não.
Você não tem estofo.
Ela não ousará jamais. Tem consciência do nome que carrega.
Não fará disso um espetáculo num tribunal de justiça.
Ela não foi lá.
Ela não é muito de sair de casa.
Vive como uma batata debaixo da terra.
O tribunal será assediado pelos jornalistas.
Prepare-se para um espetáculo.
Se quebrar o mito da família, você compromete a marca.
Eles vão querer te culpar, te conspurcar.
Marianne é capaz de te matar.
O que eu era para ela?
Um acessório na foto de família?
Ela nem era má. Só era ausente.
Ausente, não seria justo. Ela era indiferente.
O que é pior.
Posso perdê-la?
Sim.
Será que suportarei?
Eu estarei aqui.
Você precisa passar uma imagem menos austera.
É preciso que sofra e que as pessoas vejam isso.
Escapou das minhas mãos.
Tudo bem, eu mesma já deveria ter feito isso.
Não gostava dele.
Sinto muito, madame.
Madame, entregaram esta carta para você.
"Querida Marianne, apresentei queixa-crime contra X..."
"...por abuso de vulnerabilidade contra sua pessoa."
"Recentemente, você me censurou por não gostar de seus amigos."
"Não teria sido problema se se tratasse de uma verdadeira relação de amizade."
"Mas não é o caso, diante de tudo que pude constatar pessoalmente em relação..."
Ah, lá está ela.
Não consegui fazê-la entrar.
Está querendo morrer?
Você veio.
Se arrependeu?
Vamos, entre.
Vai pegar um resfriado.
Não, isso faz bem.
Sentir a chuva no rosto.
As gotas na pele escorregando pelas costas.
Quando menina, eu já adorava isso.
Mas isso é demais para você, não?
Eu gosto muito de você, Jérôme.
Gosto do seu sorriso.
Você se esforça muito.
O que faço por você, eu lhe devo.
Devido a vocês quem eu sou hoje.
Vocês me me acolheram, me deram uma educação e valores.
Sim, mas faz tempo que nada disso existe mais.
Será que algum dia existiu?
Você não tinha planos de um hotel na Bretanha?
Sim.
Com meu irmão Jean, sim.
- Os quartos terão vista para o mar? - Sim.
Pegue meu talão de cheques.
Pegue meu talão de cheques!
Você viu quando entramos? O silêncio.
Uma aparição.
Você é uma espécie de Garbo, mas acessível.
Você está lá.
Uma majestade.
Sorridente.
Serena. Simpática.
Precisa acabar com essa babaquice de ser uma reclusa.
A sequestrada, não de Poitiers, mas de Neuilly.
Sim, é isso.
Uma rainha com seu pajem.
Seu velho pajem, minha rainha.
E o resto que se foda.
- Que se fodam! - Pare!
- Sua mesa está pronta. - Obrigada.
Olhe para nós.
Não acha que combinamos?
Não sei, mas de qualquer forma, nos encontramos.
Verificar minha saúde mental.
É terrível ter que passar por isso.
Não faz sentido ter que me submeter a esses exames.
Tenho plena consciência de meus atos e memória de sobra.
Não percebe?
- O quê? - O ar desta sala.
É carregada de lembranças.
Isso às vezes me transporta.
Como uma descarga de memórias.
Às vezes, eu pisco os olhos por um segundo e uns flashes me vêm à mente.
Frédérique tocava piano ali.
Ela era uma gracinha.
Isso nunca acontece com você?
"Frédérique, você suborna os médicos."
"Me mentem sobre os exames que não quero fazer."
"Este é um último aviso."
"Nem ouso nem pensar no risco de vazamento,"
"e partes interessadas vierem a saber de seu processo para provar..."
"minha suposta incapacidade mental e intelectual."
"Se você não desistir de sua ação,"
"entrarei com um processo de revogação por ingratidão das doações que te concedi."
Conceda-me um minuto, Frédérique.
Não falo com você.
Não quero lesar ninguém. Tem dinheiro de sobra pra todo mundo.
As coisas que você me faz dizer, Frédérique.
Podemos fazer um acordo.
Pra que um escândalo?
Escândalo é seu DNA, não?
O único acordo possível é você sair da vida de Marianne.
Eu tenho todas essas cartas dela.
Ela me autorizou a publicá-las.
As pessoas descobrirão outra verdade.
Isso só provará que ela está sob sua influência.
Não posso ter influência sobre Marianne. Ela tem personalidade demais.
Nunca existe nada de verdadeiro ou sincero no que você diz?
É fácil.
Esse dinheiro, você terá que devolver,
e o fará porque agora está nas mãos da justiça.
"...a cargo do recipiente..."
Entre, Jérôme.
'Você estava ciente de que os direitos de registro...'
Não são as perguntas que precisa decorar, só as respostas.
Em amarelo, você tem as perguntas, em rosa, as respostas.
Ah, muito bem.
Bem, faça-me essa pergunta.
'Você adquiriu em setembro de 1998 uma obra de Odilon Redon...'
'cuja propriedade de direito passará para Sr. Fantin após sua morte?'
Esta doação foi objeto de uma declaração fiscal?'
'Na época...'
'meu tabelião disse que...
'Segundo...'
'Segundo as normas vigentes...'
'e da lei, prestar...'
'...as declarações pertinentes junto aos órgãos competentes.'
Ufa!
Continuamos?
Não posso cair nas garras sujas dessa gente, Jérôme.
Você sabe o valor total de suas doações a Pierre-Alain Fantin?
- Quais? - Todas.
O total desde que o conheceu.
Não faço a menor ideia.
- Mas você pagou tudo, Sra. Farrère. - Não mais que a tantas outras pessoas.
Mas elas se calam, ele não.
Acha que o Sr. Fantin pode ter abusado de sua amizade?
Ora essa.
Posso muito bem responder às suas perguntas mais triviais,
mas quando se trata de finanças não tenho noção.
Você é cabeça-dura. Custa a entender.
Um bilhão de euros é demais.
- Para você? - Para todo mundo.
E para mim também.
Então trabalhe mais, Sr. Capitão.
- O motorista, ele aceita? - Sim.
- O jardineiro? - Não.
Ele se recusa a testemunhar contra ela.
Que pena.
Eu tenho razão... de fazer isso tudo?
Gostaria que você me encorajasse.
Ou então desisto. Jogo tudo pro alto.
Não fizemos tudo isso para desistir agora.
Não pode se submeter a sentimentos.
Sentimentos que nem ela sente.
E por que você faz tudo isso contra Lilou? Não entendo.
Que diferença faz se ela distribui seu dinheiro?
Ela já te deu tudo. Você é mais rica que ela.
Não é uma questão de dinheiro, meu amor.
Não se preocupe.
Deus só gosta de finais felizes.
Se não é feliz, é porque não é o fim.
É bom que você tenha voltado ao conselho.
Obrigada em nome dos acionistas.
Obrigada em nome da empresa.
E obrigada pela família. Fiquei comovida.
Você não consegue me comover, eu não consigo te comover.
Tudo que estou fazendo não é contra você, é contra ele.
Atacar Pierre-Alain é atacar a mim.
Não, não é tarde demais, Sr. Jérôme.
Acho que não escolheu o momento certo, senhor.
É sempre um prazer te ver, Jérôme.
Mas vou te dar um pequeno conselho de relacionamento.
No futuro, você dirá 'bom dia, senhor, como vai?'
Depois irá avisar a madame da minha presença.
Madame está deitada em seu quarto.
Sim, e 'Como vai?'
- Bom dia, senhor, como vai? - Muito bem, obrigado.
Você disse no quarto, né? Muito bem.
Faça o favor de por gasolina na minha mobilete.
Já disse que não era meu trabalho, senhor.
- E vai tomar no cu! - Eu ouvi.
Então!
Vai dormir, minha querida?
Mas não era pra você vir hoje.
E sua noite?
Um saco. Saí antes pra te ver.
Estou com sono. Tive um dia puxado na empresa. Estou com enxaqueca.
Estava quase dormindo.
Eu entrei tarde demais em sua vida para não compensar o tempo perdido.
Você sabia que vou expor em Frankfurt?
Graças a você.
Estou muito feliz com isso.
Mas hoje não. Amanhã.
Amanhã à noite, se você quiser.
Me sentirei melhor.
Não trouxe minha Leica, que pena.
O adormecer da rainha.
- Você é uma criança. - Ainda bem.
Ah, localizei um pequeno desenho de Goya.
Um nanquim, lindo, bem escuro.
Ótima ocasião. 34 por 40.
Para você ou para mim.
Ainda sobra um espacinho ao lado do Fragonard no banheiro.
Amanhã.
Amanhã você me conta.
Não durmo com meu talão de cheques debaixo do travesseiro.
Ah, é? Será verdade?
Cadê o talão?
Estará aqui? Cadê ele?
Onde você está, talão?
Onde ele está? Vou encontrar.
Oh!
- Até amanhã. - Até amanhã.
Você acredita em sinais, Jérôme?
Não muito.
Mas um eclipse solar, o que significa isso?
Significa... que ele voltará.
Você não gosta do Senhor Fantin, não é?
Não. É um crápula.
Mas você não o denunciaria à polícia.
Madame.
Sentimos sua falta ontem à noite.
O coral estava magnífico.
Um coral?
Estava lotado.
Sentei ao lado do filho de Frédérique, fazia tempo que não o via.
Ele estava bem. Alto, elegante.
Muito obrigado. Tudo bem.
Sim, senhor, tudo bem, obrigado.
Ele não está perguntando por você, Jérôme.
Ah, perdão.
"Fantin pegou 120 milhões para investir na nova fundação."
"O que mais me incomoda é que os Spielman nos denunciem."
"Acha que Frédérique seria capaz de fazer isso?"
"Não sei a que ponto ela pode chegar. Ela está quase matando Marianne."
"Essa conta, vamos colocar em Singapura."
"O segundo cheque é para o Ministro do Planejamento."
"Temos que ajudá-lo também."
"Mas se Frédérique conseguir colocá-la sob tutela,"
"se você assinar isso, o juiz será obrigado a te nomear como tutor."
"Isso me permitiria comprar o barco dos meus sonhos."
"Quando era mais jovem, Frédérique era ciumenta. Mas ela me amava."
- "Eu desconfio de Jérôme. - Jérôme?"
"O terceiro cheque é para o presidente."
Recomeçamos.
'Senhor presidente, eu o apoiei em sua eleição com todo prazer.'
'Continuarei a ajudá-lo pessoalmente.'
'Tenho sérios problemas com a senhora Frédérique Spielman...'
'...que podem acarretar consequências para a minha empresa.'
'Portanto, para a economia do país.'
Marianne, estamos de acordo?
Sim, sim, sim.
Entenda que os tempos mudaram.
Ninguém mais se interessa pelas tragédias dos reis. Acabou.
Agora é a era das vítimas.
Nosso trabalho? Fazer de você uma vítima.
Se tudo correr bem, o que restará da ação de Frédérique?
E um café para a senhorita.
Não diga nada, sou ilegal.
Isso não pode faltar.
'É importante que não chegue a Pierre-Alain o que vou lhe dizer.'
'Eu liguei para o Elysées.'
'Disseram que o procurador ia anunciar que a ação de Frédérique é improcedente.'
'Então, caso encerrado. É isso.'
Essas fitas, é a nós que você entrega?
Por quê? O que você quer?
Dinheiro?
Não, faço isso a troco de nada.
Você sabe que esse tipo de prática é considerado um delito?
Mas foi o que me pediram, não?
Não lhe pedimos nada, Jérôme.
Você percebe que corre o risco de agir contra os interesses da Sra. Farrère?
Não, eu quero protegê-la.
Não podia ficar parado sem fazer nada.
Mas eu confio em vocês.
O que for que fizerem com essas fitas, eu aceitarei as consequências.
Tudo que eu quero que o Sr. Fantin...
...e todos que se aproveitaram dela sejam julgados e paguem caro por isso.
Ela não terá nada a ver com isso.
Não me importo. Eu assumirei tudo.
Isso não quer dizer nada. Pense no que está fazendo.
Essas fitas, esses grampos podem nos ferrar.
- Você está com medo. - Escuta, não terá como voltar atrás.
Se quer o divórcio, peça.
Não diga besteiras, Frédérique!
Estou do seu lado, mas pense bem.
O que será da vida de Marianne depois disso?
E a empresa, a memória do seu pai?
A repercussão política, o caos que vai criar.
Estaremos lá, desnudos.
Os impostos, as contas offshore, a vergonha, os jornais.
E o futuro do nosso filho.
Bem, isso limpará tudo.
Pagaremos e recomeçaremos do zero.
Tudo bem, papai?
Senhora Spielman.
Em nome da lei, dou-lhe voz de prisão.
Com que direito?
Uma queixa apresentada contra você por abuso de vulnerável...
...contra a pessoa de Marianne Farrère.
Pode ir para o curso, combinei com Marianne para jantar.
Não, eu não vou. Vou com vocês.
Nós o seguiremos.
De onde partiu essa iniciativa?
O presidente está sabendo?
O que fazemos, madame?
Não sei.
Como você explica a hostilidade da Sra. Spielman contra você?
Frédérique Spielman acha que eu roubei o lugar dela.
Mas esse lugar não existia.
Mas esse dinheiro todo.
Colossal.
Por que tanto?
E por que, em algum momento, não parou?
Era como um romance sem fim.
Como um absoluto.
E você nunca pretendeu ceder essas fitas ao Sr. Fantin?
Não.
Não sou um chantagista.
Você se arrisca a um ano de prisão, sabia?
Meu hotel, nunca o abri.
Não toquei em dinheiro algum.
Não é verdade o que disseram.
Não encontrei outro lugar.
Todas as portas se fecharam.
Eu me tornei um delator na casa.
Ninguém confia mais em mim.
Não há nada que me revolte mais que isso, nada.
Nossa história fascina a França inteira.
Você conseguiu evitar os cães?
Sim, teria matado um ou dois.
Já que, segundo você, eu sou um assassino.
Passei os sensores.
Seu valete inescrupuloso.
Você diz que tem medo que eu te mate.
Eu disse isso?
- E isso te chocou? - Não.
Seria ainda mais romântico.
Então, o que fazemos agora?
Hm? Uma viagem.
Pra bem longe. Longe da multidão.
Ao Chile, não? Ou à Mongólia Exterior.
Parece que eles têm uma arquitetura stalinista magnífica.
Ah não, já sei o que vamos fazer.
Vamos criar uma bolsa...
para todos esses jovens que querem fazer coisas, mas que são impedidos...
...por uma burguesia de terno e gravata...
...porque são gays, negros, árabes, brancos, sei lá.
- É muita gente. - Sim.
Mas não precisamos de ninguém.
Você e eu.
Você parece cansado, meu querido.
Tirei umas fotos.
É uma história de loucos, não é?
Vamos esquecer isso tudo?
"Justiça. A hora das requisições no Tribunal Correcional de Paris."
"O promotor ordenou esta manhã uma pena de dois anos..."
"...prisão contra o fotógrafo Pierre-Alain Fantin."
"Os advogados de Frédérique Spielman exigem 120 milhões de euros em perdas e danos..."
"...e restituição de parte dos bens subtraídos da herdeira da Winler, Marianne Farrère."
Eles ficaram com o dinheiro sujo deles.
Em geral dizem que fulano morreu sem um tostão como se fosse uma catástrofe.
Eu pelo contrário, acho isso muito digno.
Estou sentindo vertigem, Raphaël!
Não quero ir para a prisão.
Tenho algo a te dizer.
- Os oficiais estão aí. - Não precisa.
Olhe sempre um pouco acima da cabeça das pessoas.
- Você me ajudará. - Claro.
Nós te ajudaremos. Te amamos.
Mas desconfie de todo mundo.
Mesmo de nós.
Pode deixar. Obrigado.
Vou proceder à leitura do documento.
Apenas os pontos principais.
Prossiga.
'Madame Marianne Farrère se compromete a aceitar ser colocada sob tutela,'
'o que nos autoriza a dispor mais livremente de seus bens e dinheiro em seu nome.'
Pode se adiantar.
'O Sr. Charles Spielman é nomeado tutor da Sra. Farrère...'
'e administrador geral de suas empresas...'
No que concerne o Sr. Fantin.
'O presente acordo estipula que o Sr. Pierre-Alain Fantin...'
'...manterá a totalidade das doações feitas a ele pela Sra. Farrère,'
'no valor de 700 milhões de euros,'
'na condição de que não haja mais qualquer comunicação direta ou indireta...'
'...entre a Sra. Farrère e o Sr. Fantin.'
'O presente acordo encerra qualquer processo judicial...'
'...da parte da Sra. Frédérique Spielman,'
'tanto em relação à Sra. Farrère quanto ao Sr. Fantin.'
Vamos assinar.
Espera!
O que foi? Veio me pedir perdão?
- Não. O que eu fiz... - O que você fez, você fez por si.
Agora você encontrou o que procurava?
Só quero que a gente se veja de novo, só isso.
O que você quer que eu te diga?
Que te amo?
Mas eu não sei se eu te amo.
Eu não sei.
"Marianne Farrère e Frédérique Spielman se aproximaram para pôr fim..."
"...aos conflitos que perturbaram suas vidas familiares..."
"...e decidiram olhar para o futuro."
"A decisão que Frédérique e eu tomamos, para mim é uma fonte de esperança."
"Esse acordo nos faz finalmente reencontrar a harmonia familiar."
"A Sra. Marianne Farrère e a Sra. Frédérique Spielman..."
"...não pretendem fazer mais comentários e desejam viver doravante em serenidade."
Você falou com a Marianne?
Não.
Só terceiros. Vozes que eu não conheço.
Criaram uma barreira.
Como se ela estivesse morta e ninguém dissesse.
Não tem problema.
Pode-se viver com os mortos.
Ah!
- Tudo bem, Lilou? - Chega aqui.
Pode nos deixar?
Bom dia.
- Tudo bem? - Bem, e você?
Sente-se.
Fico feliz em te ver.
- Mas o que está fazendo aqui? - Trouxe uns papéis para você assinar.
Sim, mais tarde você me explica.
Onde você encontrou uma camisa assim?
É tão branca.
É de linho.
Você vai ficar alguns dias?
Não, não posso. Só vim para de dar um beijo.
- Preciso ir a Dubai. - Não diga!
Porque todos os quartos estão livres.
Senhora?
Vou dar um mergulho rapidinho.
Desculpe, mas você se incomoda que eu me deite por 15 minutos?
São os remédios com esse calor.
Não está se sentindo bem?
Não se preocupe comigo.
Sou indestrutível.
À minha mãe.
- Legendas - Luís Filipe Bernardes
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