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FALLEN: LUZ E SOMBRA
Sr. Sparks?
Está bem.
Lucinda Price.
Os meus medicamentos mudaram?
Olanzapina e zopiclona.
Abra.
Está bem.
Chegaste cedo à nossa sessão de hoje.
Não tinha nada para fazer.
Pensaste mais sobre qual foi o gatilho?
Fazia seis meses que não te cortavas.
Teve a ver com a chegada da Luce?
Gosto da presença dela.
Mas também a odeio.
Tendes a pôr as pessoas num pedestal, Arriane.
Queres ser como ela?
Não podes sair da tua vida e entrar na de outra pessoa.
Não é assim que funciona.
É que...
Na minha cabeça...
há tanto barulho
e é confuso.
O tempo todo.
É uma repetição sem fim.
Tipo "Devia ter dito aquilo?
Porque disse ela aquilo? O que significa?
Porque não me calo?"
E a dor abafa o barulho,
deixa tudo em silêncio.
Por um tempinho.
Já falámos de outros métodos que causam essa sensação
de forma segura.
Para algumas pessoas, ajuda segurar um cubo de gelo
até ele derreter.
Ou coçarem-se.
Não sou um gato.
Há outro método que não discutimos.
É a técnica da borboleta. Já ouviste falar?
Desenhas uma borboleta onde costumas magoar-te.
Dentro da borboleta,
escreves o nome de pessoas queridas.
Depois, se vier a tentação de te cortares outra vez,
terias de cortar a borboleta
e os nomes dos teus amigos.
Olá. Posso sentar-me?
Claro.
Tive um sonho estranho.
Bem... não foi exatamente um sonho.
Encontrámos uma foto no portátil.
De um acidente de mota.
Aconteceu algo quando vi a foto, tipo...
...uma visão.
Foi como se eu estivesse lá...
Contigo.
Sentia o cheiro do fumo,
ouvia os sons dos insetos e...
Cigarras.
Sim.
Não parecia um sonho.
Foi como se eu estivesse lá.
E tu...
tentaste falar disso comigo, não foi?
Depois daquilo com o Cam.
Estavas na garupa quando batemos.
Tu...
Eu morri, não foi?
Mas estás aqui.
- Estou a enlouquecer. - Eu também.
Olha, eu...
continuo a reviver o momento com o Cam,
a pensar nisso sem parar.
Agora quando vejo,
não estou a tentar salvá-lo.
Estou a atacá-lo, como o Howson disse.
Havia outra residente, a Cassie.
A que fugiu?
Sim.
Ela acreditava que o Howson mexia nas memórias dela.
Dizia que eram os medicamentos e a terapia.
Os meus medicamentos mudaram.
É a mesma receita mas não são comprimidos brancos.
Tomo aquilo há anos.
Não importa a embalagem, são sempre brancos.
Até agora.
Mas como é que a Cassie fugiu?
Aproveitou uma oportunidade.
Nós aproveitámos uma oportunidade.
Bem, pelo menos tentámos.
Pois.
Todos os caminhos levam à Sword and Cross.
Onde estará ela agora?
Não sei.
Olha, se o Howson anda a mexer nos medicamentos,
isso é ilegal, não é?
Se conseguirmos provar isso, podemos sair daqui.
Não só nós dois, mas todos.
Como vamos provar isso?
Não sei.
Estou... a tratar disso.
Falamos depois.
Está bem.
Não te preocupes, eu consigo fazer isso.
É por isso que gosto de ti.
Olá, Molly.
Anda lá, anda lá...
IMPLANTE DE MEMÓRIA
SEM RESULTADOS
Lucinda.
Sei que estou atrasada para o trabalho.
Avisei que estás aqui.
Está tudo bem?
Tudo ótimo.
MEMÓRIA E SUPRESSÃO DE TRAUMA SEM RESULTADOS
Normalmente, quem está ótimo
não procura livros sobre supressão de traumas.
Eu só estava a pesquisar.
Tenho dificuldade em lembrar-me das coisas.
Ou lembro-me de algo diferente do que pensei, e então...
É comum as pessoas terem lembranças diferentes.
Então como vamos saber qual é a verdade?
Depende de até onde queres ir.
Aquilo a que chamamos "realidade"
é mais subjetivo do que imaginamos.
A informação transmitida pelos sentidos,
sobretudo a visão e a audição,
é limitada.
A mente tem de preencher tantas lacunas.
Então cada pessoa tem uma lembrança diferente.
Exatamente.
O passado não é real e acessível.
É uma silhueta, uma sombra,
que se forma no meio do que todos decidem lembrar.
Mas e se eu... não o conseguir ver?
Ou se mudar?
Sabes com quem deverias falar?
Dr. Howson.
Obrigado, Srta. Sophia.
Podes sentar-te.
Infelizmente não começámos com o pé direito.
Mas espero que confies em mim.
Talvez, se eu entendesse o seu plano de tratamento...
Talvez seja melhor pensar no que esperas dele.
Ser capaz de confiar na minha memória,
na minha mente,
para que as coisas não mudem o tempo todo.
Podemos trabalhar com esse objetivo.
Mas precisamos da tua colaboração.
Se eu colaborar e a terapia resultar,
é possível reduzir a minha pena?
Dependendo do progresso e das tuas escolhas,
podemos marcar uma revisão em seis meses,
logo após fazeres 21 anos.
Estou em sessão!
Desculpe incomodar.
Com licença um instante.
Encontraram a Cassie.
- Morta. - Onde?
A uns 320 km fora do perímetro.
E há mais.
Estão a trazê-la agora, deve chegar ao meio-dia.
Os residentes têm uma excursão até ao lago.
Devem voltar às 17h, por isso a entrega será simples.
Bem... deixe-me terminar aqui.
Eu... lamento, Srta. Price,
mas fui chamado para um assunto urgente.
Continuaremos
noutro dia.
Obrigado, Dr. Howson.
Cam?
...para os elevadores para a excursão.
Olá.
Se quiseres algo de fora, tens alguém a quem pedir?
Depende do que queres.
O Roland consegue chocolate, cigarros, coisas pequenas.
Mas se quiseres algo maior,
tipo um Lamborghini...
- Ou um helicóptero. - Isso já não dá.
Está bem. Obrigada.
Alguma novidade?
- Gabbe. - Bom dia, Dr. Howson.
Devias estar no setor 3.
Vou ficar na clínica a semana toda.
Já não és socorrista. Vai juntar-te aos residentes.
Se é por causa do portátil, já disse que foi uma armação.
- Fale com a Lucinda. - Tens provas para me mostrar?
Não és melhor do que ninguém, Gabbe.
Os privilégios são conquistados, e tens de tentar outra vez.
Por isso, podes ir.
Claro.
Vamos caminhar até ao lago.
Lembrem-se de que, graças aos drones e às tornozeleiras,
para quem as usa,
saberemos onde estão a todo o momento.
Peguem numa mochila e formem duplas.
Todos os residentes podem ir.
Eu pego na mochila.
Olá. Alguma notícia do portátil?
Quando eu souber, tu saberás, está bem?
O Cam disse que arranjas coisas.
Consegues arranjar um telemóvel?
Em troca de quê?
Não tenho nada. Levaram as minhas coisas.
Não tem de ser uma coisa.
Se eu precisar de um favor, de cobertura
ou de algo que consigas, ficarás a dever-me.
Posso confiar nisso?
- Podes. - Então está feito.
O pacote já vem a caminho. Espera pelo próximo mês.
Não, vai ser tarde demais.
É pegar ou largar.
Olha quem está aqui...
Vais misturar-te com a gentalha?
Não partas uma unha.
- Estás bem? - Estou.
Muito bem, vamos andando!
- Estás pronta? - Estou.
Desculpa.
Não faz mal.
Mas olha por onde andas.
Já ficámos para trás.
Estou a tentar.
A sério, Penn! Presta atenção!
Odeio fazer trilhos.
Andar, correr...
Mas é melhor do que suar na cozinha.
Falaste com ela sobre o acidente?
Não vais falar comigo?
Da última vez que o fiz, o Howson repetiu cada palavra.
Sabes como ele é.
Errei, está bem? As pessoas erram.
Especialmente eu.
Trouxeste a coisa?
O meu pacote chega esta noite.
- Não consegui os medicamentos. - Muito bem.
Desde a invasão à clínica, mudaram o meu turno.
E hoje... não tive acesso. Preciso de fiado.
- Não tens crédito. - Como assim, não tenho?
Sabemos que não és de confiança.
Roland, vou resolver tudo. A sério, vou...
Não me venhas com isso.
A regra é a mesma, eu dou algo, tu dás algo.
Sem exceções.
Como está a tua cabeça?
Linda de morrer, claro.
Sabes que medicação estás a tomar?
Mexatrila... tem muitas consoantes.
Não sei. Porquê?
Não interessa.
É bom estar ao ar livre.
Sim. Espera até veres o lago.
Costumam deixar-nos nadar. É muito bonito.
O que foi? Sei ser sincero.
Posso achar que algo é bonito.
O que foi?
Nada. Só me esqueci de onde estava.
- Estavas ali? - Fui-me embora.
- Queres um biscoito? - Não, obrigado.
Dá uma ajuda.
Toma.
Biscoito? Vou aceitar.
Eu não vi, mas alguém deve ter visto algo.
- Talvez os dos vermelhos. - Como?
Vais acabar por arranjar maneira.
Conseguiste da última vez.
- Olá. - Olá.
- Como estão? - Tudo ótimo.
Sou a rainha do "ótimo". Não me venhas com essa.
Conta-me.
Eu vinha aqui com o meu pai.
Sim, neste mesmo lugar, perto do lago.
Éramos só nós os dois, mas... sabes?
Sei como é.
Não vou lamentar-me. Já passaram dois anos.
Não. Penn, não faz mal ficar triste.
Aprendi isso com uma década de terapia.
Por isso...
Não quero ficar triste para sempre.
Preciso ser mais forte. Como disseste.
Não quis dizer para...
Não, é verdade.
Que desenho bonito!
O que é?
É uma borboleta.
Uma amiga minha também tinha uma.
Tem o meu nome?
Não estranhes, por favor. Não tinha mais ninguém e...
Não, acho ótimo. Fico feliz.
Está na hora de irmos até ao lago.
Se não acabaram o almoço, comam pelo caminho.
- Bem, temos de ir. - Vamos lá.
Levem isto lá para baixo.
Com licença.
Olá.
Tenho de te mostrar uma coisa.
O quê?
Vem.
O que foi?
Tirei isto do escritório do Howson.
- Lembras-te de ele te fazer isto? - Não.
Tirei-as de uma pasta, mas deve haver mais.
Isto aqui deve ser de quando o Cam ficou ferido.
E isto aqui...
Esta é a Cassie, não é?
O que é que lhe aconteceu?
Daniel?
A Cassie combinou enviar-me uma mensagem todos os dias às seis
até eu sair daqui.
Ela vinha buscar-me.
Como eu não fui, devíamos voltar a essa rotina,
mas não consigo falar com ela desde que saí da solitária.
- Ela não responde. - Será que está bem?
Espero que sim.
Pedi um telemóvel ao Roland. Vou ver se os meus pais ajudam.
Luce?
Não precisamos desse problema.
Tens as fotos contigo.
Vamos tentar manter a calma, está bem?
- Eles estão de olho em nós. - Sim.
Controlar as emoções.
Relaxa, sou profissional.
- Vou mergulhar. - Tenta uma vez!
Vão entrar?
- Claro. - Claro. Já vamos.
- Não. - Não! Não!
- Estás bem? - Tudo ótimo.
Então está bem.
Vamos.
Olá.
Olá.
- Boa. - Medalha de prata.
Quando começaste a pintar?
A desenhar.
Sim, foi isso que quis dizer.
Claro que foi.
Nem tenho a certeza.
Mas tenho vários cadernos cheios.
Paisagens, retratos...
Coisas aleatórias.
Por isso acho que já faz bastante tempo.
O que gostas mais de desenhar?
Pessoas.
Principalmente pessoas.
Li uma vez que os artistas têm dificuldade
com certas partes do corpo, tipo...
...as mãos.
As orelhas podem ser complicadas.
Às vezes alguém pode ficar meio desproporcional.
Vais desenhar-me como o Dumbo?
Sim, há esse risco.
Às vezes alguém pode ficar meio queixudo.
Sabes? Com a boca e o queixo enormes, tipo um babuíno.
- Meu Deus, quero ver. - Não!
- Anda lá, mostra-me! - Não! Ainda não acabei.
Acredita em mim.
Podes acreditar.
Gosto de desenhar os olhos.
De encontrar as linhas do rosto.
O sorriso.
Se consegues captar a luz do sorriso de alguém
e passá-la para o papel...
Uau...
É lindo.
Sim, sabes como é.
Vá lá... Mal olhaste para mim.
Não.
Posso ficar com ele?
Claro.
Último mergulho antes de voltarmos.
Vais entrar?
Vou tentar.
Vais saltar da pedra?
Pois, é do acidente.
Eu sei que não é bonito de se ver.
Não sei. Discordo.
Vamos lá, como tu disseste.
Deixa de te lamentar e vive a tua vida.
Estás bem?
Vou saltar do baloiço.
Tens a certeza?
E se eu for contigo?
Pronto.
Lembra-te, só podes largar depois de te afastares bem.
Olhem! Ela vai saltar!
- Tu consegues... - Estás bem?
Tu consegues...
Salta. Estás à espera de quê?
Arriane, deixa que ela decida.
Ela quer fazê-lo.
Anda lá! Que criancice...
Tu consegues!
Salta. Salta. Salta.
Salta! Salta! Salta!
Salta! Salta! Salta!
Salta! Salta! Salta!
Salta! Salta! Salta!
Salta! Salta! Salta!
Salta! Salta! Salta! Salta!
Salta! Salta! Salta! Salta!
Salta! Salta! Salta!
Salta! Salta! Salta!
Salta! Salta! Salta!
Salta! Salta! Salta!
Correu mal.
Para trás.
Afastem-se. Mais ninguém mergulha.
Estás bem.
Estás bem.
Estás bem! Respira. Respira.
Desculpa. Nem devia ter tentado.
Está tudo bem.
- Algo puxou a minha perna. - O quê?
Algo puxou a minha perna.
Viste o que era? Algum animal?
Não era um animal.
Parecia... meio humano.
- Obrigada! - De nada.
Pronto. Chega. Abraçar é horrível.
Toalhas! Trouxe toalhas!
Agradeço, grande herói.
Estás a sangrar.
- Vocês os dois, para aqui. - Ela foi atacada?
Não, é impossível. Estamos dentro do perímetro.
Volta para o grupo.
Desculpa.
Está bem.
Para com isso. Adoro-te.
Arriane?
Desculpa.
A culpa é minha.
- Eu só queria ajudar. - Para, tu não...
Sou tão idiota!
Porque sou assim?
Posso ajudar?
- Obrigada. - De nada.
Roland, não posso pagar o telemóvel agora, mas vou pagar.
Para quem queres ligar?
É privado.
Para os quartos!
Encontrei outro comprador.
O quê? Quem?
A Lucinda?
A sério... O que é que ela te pode dar?
É privado.
Idiota.
Vocês os dois, para o centro médico.
Srta. Miriam, posso ajudar com os curativos se quiser.
Para o quarto!
Ela tem a certeza do que viu?
Tem.
Não entendo como passou pelas nossas defesas.
Deve ter estado lá o tempo todo, perto do Vellom.
Acha que estava aqui desde o início?
Dormente? Isso...
São milhares de anos.
Se estiver por aí, vamos encontrá-lo.
A Miriam vai enviar uma equipa ao lago.
Não pode ser coincidência.
- O quê? - A Cassie.
Não sei.
A profecia fala em legiões.
Se há um aqui... virão mais.
Entre!
Gabbe, isto pode esperar?
Pediu provas, por isso quero dizer que reparei
em alguns residentes a fazer contrabando.
Entendi. Podes ser mais específica?
Acho que, entre outras coisas,
o Roland Sparks vai trazer um telemóvel para a Lucinda Price.
Pediu provas e eu trouxe-as. Revistem o quarto dele.
Pedi provas sobre o portátil.
Mas deste-me algo valioso, suponho.
Se se confirmar, podes voltar para a clínica.
Foi um dia muito longo, Gabbe.
Claro. Obrigada.
Pronto. Vou trazer roupa limpa.
Luce.
Sabes as fotos que mostraste?
Acho que foram tiradas atrás daquela porta.
É igual, não é?
Aqui está.
Obrigada.
Obrigado.
Olha.
Acho que tinhas razão.
É igual, não é?
Sim.
- Vou entrar. - O quê?
O quê? Luce!
Enfermeira Ryan?
Sim?
A minha perna está a doer imenso.
A ligadura deve estar apertada...
- Larga-me! - Não te quero magoar.
Larga-me!
Não entres aí!
Daniel!
Socorro!
Cassie...
O que te fizeram?
Está a vir atrás de mim.
Legendas: Nisbgui
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