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- É outra medicação? - Não sei.
- É mais forte? - É tudo igual.
- O que te disseram? - Nada. Estou normal.
E por que trocaram a medicação?
Por que não me conta nada?
Eu não estou contando?
Você está doente?
Não.
10 mil pesos?
Mãe, você só pensa em dinheiro. Me dê 20 mil.
Não.
E não leve o carro. Só lave e guarde.
Olha, esta carta é do Deutsche Bank,
o principal banco da Alemanha.
E está assinada pelo gerente Paul Aschreiner.
Aqui diz que, nesta semana, o presidente dos EUA
vai assinar o decreto que vai liberar os fundos.
- Javier, devolve minha grana. - Mas vão liberar os fundos.
- Você diz isso há um ano. - É investimento a longo prazo.
E o que você tem que me dar?
Um comprovante da sua conta bancária
e uma cópia do seu documento
pra transferirem a grana pra você.
- Não tenho conta. - E como vai receber a grana?
Não, Javier, devolve o que investi.
Poeta, você é burro?
Esta é uma oportunidade de negócio.
Temos que identificar um bom negócio quando ele surge.
O que você investiu é mixaria comparado ao que vai receber.
Escuta.
Meu contato disse que os títulos já estão sendo resgatados,
e tudo com a aprovação do governo do Zimbábue.
Você investiu em títulos no valor de US$ 10 milhões.
Vou deixar você milionário, seu filho da puta.
Você vai poder escrever poeminhas
numa fazenda linda que tenha um rio.
É um bom negócio. É só me emprestar sua conta.
Não dou mais nada.
Não pedi dinheiro. Vão transferir pra mim!
- Já falei que não. - Por que faz isso comigo, mãe?
Mãe.
Mãe.
Mãe.
Mãe.
O que você tem?
- Vou sentar um pouquinho. - O que você tem?
- Você está doente, né? - Já vai passar.
Me diga a verdade.
É você, que me irrita.
Eu?
O problema é que estou velha.
Não vou viver pra sempre.
Você quer morrer?
Eu ajudaria.
Se quiser, vou com você.
O quê? Iria comigo? Você está bêbado?
"Óscar Restrepo,
poeta nascido em Santuario, em 1968.
Historiador da Universidade de Antioquia.
Grande admirador e estudioso de José Asunción Silva,
a quem dedica alguns de seus poemas.
Em 1992, seu livro "Los Desusos"
ganhou o 5º Prêmio Nacional de Poesia
da Casa de Cultura Pepe Sixto Aguinaga.
Muito obrigado. Boa noite.
Antes de tudo, obrigado de novo, Alonso,
por me deixar compartilhar minha poesia
neste belo santuário da palavra,
onde cada poeta é um pequeno deus,
e cada um de vocês, à medida que interpreta o poeta,
é outro pequeno deus.
Podemos dizer que Óscar Restrepo é um sempiterno,
um sonhador eterno,
que busca quimeras através da palavra.
Eu comecei lendo aos 12 anos.
Depois, comecei a fazer versos.
Aos 15 anos, eu já me sentia, me achava um poeta.
Minha única pretensão
era ser um poeta vaidoso e desafortunado.
"Desafortunado" porque a dor foi a matéria-prima da minha poesia.
Quem leu meus livros pode confirmar isso.
Me identifico com Wilde quando ele diz:
"Onde há sofrimento, há solo sagrado."
Mas devo admitir que nós, poetas, somos hiperbólicos.
E essa hipérbole que manejamos,
esse exagero constante do nosso sofrimento,
nós a levamos a um terceiro ou quarto nível.
Certa vez, um leitor me disse:
"Poeta, como você consegue
escrever um poema tão lindo, mas tão triste?"
E eu citei Ernesto Sabato no livro...
Osquitar.
Qual poema vamos ler?
Nenhum poeta chegou aos pés do José Asunción Silva
nesta merda de país!
A acentuação, o ritmo, a música...
Em 100 anos, não existe!
- Vai dizer que é melhor que...? - Quem?
O que ganhou o prêmio, o bigodudo.
- García Márquez? - Isso, García Márquez.
- Ele escreveu "O Alquimista". - É do Paulo Coelho!
Não, não.
García Márquez escreveu "Cem Anos de Solidão"!
Isso. O García Márquez é o melhor.
O García Márquez tinha sede de reconhecimento!
O José Asunción Silva nunca escreveu por reconhecimento!
Por isso, nem a mãe dele o conhece.
A mãe dele?
Cara, olhe pra ele! Olhe!
Você acha insignificante?
O García Márquez está na nota de 50.
- Superestimado! - Compra uma cerveja com isso.
A vida do José Asunción foi um verdadeiro poema!
Ele tinha 30 anos quando atirou no próprio coração! Pá!
Afundado em dívidas
e arrasado com a morte da querida e jovem irmã Elvira!
"Uma noite,
uma noite repleta de perfumes,
de murmúrios e de música de asas.
Uma noite em que ardiam na sombra nupcial e úmida
os vaga-lumes fantásticos."
PARTE UM: O FRACASSO
Vai embora. Eu pago o aluguel e não te quero aqui.
E a mamãe? Só eu cuido com ela.
- Aí vai matá-la? - Carlos, eu falo com ele.
Você pode se matar,
mas não leve a mamãe junto, filho da puta!
Carlos, sai, por favor.
Você tem 15min pra pegar suas coisas.
Por que você disse aquilo pra mamãe?
A mamãe vai morrer.
A mamãe não vai morrer.
Ela está bem pra idade que tem.
- Ela está doente. - Você não está bem, né?
Como anda o alcoolismo?
O alcoolismo está relativamente mal.
Se a mamãe morrer, o que você vai fazer?
Não tem mais aposentadoria, e o Carlos te tira daqui.
Eu me viro.
Vai acabar virando indigente.
O que houve com você, Óscar?
Você era tão inteligente e profissional!
Há quanto tempo não trabalha?
Sou um poeta.
Você é um desempregado.
- "Poeta sou se ser poeta..." - Ai, para de palhaçada.
Vou lucrar com um negócio.
Que negócio?
Um negócio grande que estou fazendo.
- Pensou na Daniela? - Não, não, Yolanda.
Não, não fode.
- Yolanda, não é assim. - O que você fez por ela?
Yolanda, não toca nesse assunto. Yolanda, por favor.
Não fode! Chega, Yolanda! Por favor, chega! Não fode!
- Por que não aceita o trabalho? - Não.
Não quero dar aula em escola, muito menos de filosofia.
- Não vou ensinar isso. - É o que tem.
Você não está podendo escolher.
- Não é a minha praia. - Qual é a sua praia?
Estou escrevendo um livro.
Ah, um livro? Óscar, pelo amor de Deus!
Vamos fazer o seguinte:
vou falar com o Carlos.
Eu digo a ele que chegamos a um acordo
pra ele não te tirar daqui.
Aí ligo para o William
e digo que, na segunda, você vai bem cedo pra escola.
Mas, Óscar, você tem que me prometer.
- Vou embora desta casa. - Óscar!
Eu vou embora desta casa!
Não leve meu carro.
- Oi. - Oi.
- O que houve? - Não houve nada.
Só vim dar um "oi". Como você está?
Bem. E você?
Bem.
Eu estou almoçando.
É?
Desculpa. Volto outra hora.
Você já almoçou?
Quer entrar?
Sua mãe está?
Ela ainda não sabe, está estudando as opções.
Mas tem que decidir rápido porque a prova está chegando.
Do que você gosta?
Não sei.
Comunicação social, filologia, letras.
Muito bom.
Onde você quer estudar?
Prefiro a Universidade de Antioquia.
Sinceramente, não gosto dessa universidade.
Vai acabar virando uma rebelde que atira pedras.
Não é mesmo?
Também é muito difícil de passar.
Se não passar, tente a Universidade de Medellín.
- Não sei. - Como assim, não sabe?
Sabe, sim. O problema é que a de Medellín é bem cara.
Eu precisaria de um empréstimo, mas tudo bem.
Quanto custa?
9 milhões de pesos por semestre.
Eu posso ajudar.
Pode me emprestar 5 ou 10 mil pesos?
Este é o meu primeiro livro publicado.
E este é o meu segundo livro.
- Prêmio Nacional de Poesia? - Sim, senhor.
Maravilha.
Você era bem jovem.
Eu tinha uns 24,
25 aninhos.
Já deu aula no ensino médio?
Não, senhor. Só na faculdade. Fui professor universitário.
E o que aconteceu?
Nessa busca pessoal, tentando encontrar minha voz,
me dediquei totalmente à escrita.
Sei o tipo de pessoa que você é.
Sua irmã foi muito sincera comigo.
Não vou te julgar.
E vou acreditar que você quer contribuir com a escola
para que os alunos sejam seres humanos melhores.
Não, ele disse que se sentiu muito mal,
que isso não é pra ele,
que ele não se vê como professor de escola,
que ele é um poeta.
Fala com a Yolanda, Óscar.
Ele não quer falar.
- Óscar, está ouvindo? - Está.
Estou furiosa com você. Qual foi o combinado?
Assim, você me queima com o William.
Se não voltar, me esqueça, Óscar!
Parece um moleque.
- Óscar! - Ele não quer falar.
Ele não quer falar.
Não sei o que faremos com ele.
Ele só faz o que quer. Não, não.
Não sei mais o que fazer.
E aí, Osquitar?
Por que está aqui tão cedo? O que houve?
Nada. Não houve nada.
É que...
Será que não dá pra fazer meus livros venderem mais?
Deixá-los mais visíveis ou oferecê-los ao povo.
Seus livros estão à mostra.
Você sabe que isso não dá dinheiro.
Ou fazer alguma divulgação para o povo comprar.
Podemos fazer uma leitura dedicada à sua obra.
Não estava escrevendo outro livro?
Será que não tem algum trabalho aqui pra mim?
Que tipo de trabalho?
Sei lá.
De escritório ou...
coordenando coisas.
É que a minha filha vai pra faculdade.
Preciso de dinheiro.
Aqui é uma casa pequena.
Quase todo mundo é voluntário.
Está até difícil conseguir recursos
para o Festival de Poesia.
Você poderia dar aula na escola de poesia,
mas, antes, fale com o Efraín, porque é ele quem cuida disso.
Ele está vindo pra ler com vocês.
Podemos falar com ele e ver no que dá.
"Prêmio Nacional de Poesia em três ocasiões:
Prêmio Vorágine com o primeiro romance,
Prêmio Cidade de Buenos Aires com o segundo romance,
Prêmio Julio Estrada de ensaio,
além de muitos outros reconhecimentos.
A obra dele,
comprometida com a realidade latino-americana,
explora suas raízes
e denuncia seus mecanismos sociais e políticos.
Efraín Mendoza é uma das vozes mais revolucionárias
da literatura colombiana."
Boa noite. Muito obrigado pela presença.
Há uns 30 anos,
Alonso, outros loucos e eu fundamos esta casinha.
Não foi fácil.
No meu caso, sou muito ocupado
e não posso dedicar todo o tempo que eu gostaria.
Mas ver a casa transbordando de amor pela poesia
é realmente maravilhoso.
Também fico muito feliz de ver aqui
esses jovens tão talentosos da nossa escola de poesia!
E me sinto muito honrado de ser mentor deles este ano.
Por eles, pra eles, quero ler pra vocês este poema.
As artes estão hierarquizadas, pertencem à elite.
Mas nós, artistas de verdade, criamos por prazer.
Óbvio, temos que comer,
mas comemos pra continuar criando.
Diga isso a uma criança de origem humilde,
sem ensino, sem poder estudar essa arte.
É, eu concordo.
Você, por exemplo, teve um ótimo ensino,
é uma privilegiada.
Uma menina que cresce na extrema pobreza
aos 15 anos já tem dois ou três filhos.
Acham que ela vai pensar em escrever poesia?
Não. O certo seria frear a gravidez na adolescência,
mas não é o que está acontecendo.
Olha, a arte não para as bombas,
- a poesia não impede a guerra. - Pode ser.
Mas a arte e a poesia podem defender uma sociedade melhor.
Não sei, Óscar, não me leve a mal.
Não acho que você tenha perfil pra dar aula de poesia.
Que perfil?
A gente te conhece, irmão.
Como assim?
Vamos fazer a leitura dedicada à sua obra.
Você gostaria de aparecer na TV?
Podemos arrumar uma entrevista pra divulgar seus livros.
Claro. Podemos conseguir uma entrevista.
Você alcançaria um público maior.
Que tal?
Bom dia pra você e todos os telespectadores.
É um prazer estar aqui.
Hoje vai ter música, dança, e vamos ler poesia.
Então sejam bem-vindos ao "Nossas Manhãs".
Vamos ao nosso primeiro convidado,
don Arnulfo Vélez, que está feliz.
Ele é prefeito de Sopetrán
e veio falar do belo e delicioso Festival das Frutas,
que vai acontecer de 20 a 24 de janeiro.
Prefeito, bom dia. Bem-vindo.
Bom dia. Sejam bem-vindos ao Festival das Frutas.
Também temos outro convidado muito especial.
Óscar Restrepo é um renomado poeta,
vencedor do Prêmio Nacional de Poesia
da Casa de Cultura Pepe Sixto Aguinaga.
Ele veio ler sua poesia linda pra gente.
Que tal começar com um poema de amor bem lindo
para as nossas telespectadoras?
- De amor? - É, desses que tocam o coração.
Bom, enquanto o Óscar procura o poema indicado pra vocês,
vamos cumprimentar uma figura importantíssima da música urbana
que se chama JB.
A música que estamos ouvindo desde que o início do programa
é o novo lançamento dele, "Molha Minha Jacuzzi".
Ele já tem 80 mil visualizações no YouTube.
Exato. Já sabem, né?
Estou sempre me reinventando por e para meus fãs.
Se eu soubesse que era assim, não teria ido.
E você acha que aqui tem programa de poesia?
- Alonso, foi desrespeito. - É o que tem.
- Tenho a ver com esse programa? - Você quis ajuda. É isso.
Não, não.
Sei lá...
Acho que...
O que você quer?
Como você consegue?
Como consigo o quê?
Você me acha um bom poeta?
Você acha que não tenho talento, né?
Você tinha um pouco.
Era apaixonado, inquieto.
E conseguiu escrever duas ou três coisas muito bonitas.
Pensei que eu estaria melhor nesta idade.
Melhor como? Com mais reconhecimento?
Eu fracassei.
A questão não é o reconhecimento.
O problema é você.
Você é um poema, e dos bens tristes.
Quer saber a verdade?
Você não vai mudar. Não consegue mudar.
Você é como é.
E carrega uns demônios bem grandes aí dentro.
Mas você pode ser como o Kafka ou como o José Asunción Silva,
um desses loucos que ganharam reconhecimento depois da morte.
Mas, pra isso, você precisaria ter escrito um poema foda,
mas você não fez isso, pra ser sincero.
Você venderia muito mais livros se eu fosse seu empresário.
Eu falaria com as pessoas certas.
Eu devia ter me matado aos 30.
Você tem que escrever poemas sobre guerra, violência,
pobreza, indígenas, o Amazonas, as bichas.
Todas essas coisas que os europeus curtem aqui.
Esse manja das coisas.
Escuta, este poema é de minha autoria:
"Que linda está a Lua, redonda como uma fruta,
e, se ela cair, que pancada filha da..."
Óscar, por que faz isso comigo? Não venha aqui, por favor.
Desculpa.
O que é isso?
Desculpa!
Não precisa pedir desculpa. Só não faça isso comigo.
Me desculpe por eu ser assim.
Me desculpe por você ter que aguentar este pai.
Estou tentando.
Você não tem que tentar nada. Eu estou bem.
Eu quero te ajudar.
Não precisa. Não se preocupe.
Estou muito sensível ultimamente.
Eu tenho que ir.
- Dá pra você ir primeiro? - Tá bom.
Não me queime com o William.
Que vergonha! Ele foi tão legal com você!
Falei pra ele que você estava doente,
mas que, na segunda, na volta às aulas,
você vai dar aula.
E, se você não for, eu mesma faço suas malas.
Óscar, abre.
Sofrimento.
A penumbra.
O que podemos dizer da penumbra?
Não seria, por acaso, o crepúsculo do ocaso tardio
na alvorada resplandecente do dia solar?
Buracos negros onde tudo se esquece
na voracidade de suas fauces pantanosas,
planetas subjugados pelo frio.
Esparsos e silenciosos com luas enclausuradas.
Vocês têm alguma pergunta?
E a poesia?
A poesia!
A poesia é...
Vocês conhecem poemas?
Já escreveram ou leram algum poema?
Fala com ela. Ela escreve poemas.
Você escreve poemas?
De amor? Para o namorado? Sobre o quê?
Yurlady, mostra pra ele.
Todos estes poemas são seus?
Sim. Tem uns poemas e outras coisas que escrevo.
E os desenhos? Também são seus?
São.
Você também vive numa tristeza profunda?
Você é melancólica?
Não. Só que, às vezes,
me dá vontade de escrever quando me sinto assim.
Você lê?
Mais ou menos.
- Às vezes. - Lê o quê?
Sei lá...
Eu curto Pizarnik.
Alejandra Pizarnik?
"Alejandra, Alejandra.
Embaixo estou eu. Alejandra."
Uma professora fez a gente ler a obra dela,
e gostei muito dos poemas.
Essa professora te ensinou?
Mais ou menos.
Você quer ser poeta?
O que gostaria de fazer?
Não sei. Gosto de maquiagem,
fazer cabelo...
Estou aprendendo a fazer unha...
Essas coisas.
Você me empresta este caderno?
Tá bom.
Meu quarto é organizado.
Meu quarto é limpo.
Meu quarto tem cores.
Rosa, violeta e verde.
Cores de muitos sonhos.
Sonhos presos nesse quarto.
As paredes são de concreto frio.
O piso é branco e reluzente.
Mas tem uma mancha num canto.
Nunca desaparecerá.
Sempre permanecerá.
Lar e prisão.
Refúgio e armadilha.
Somos iguais.
Meu quarto e eu.
Me mandaram fazer uns exames.
Óscar.
Que exames?
"Durante o Renascimento,
a autoridade aristotélica foi rechaçada
e discutida na Baixa Idade Média.
O...
O humanismo dessa época
teve uma orientação basicamente...
neoplatônica."
E você não quer fazer faculdade?
Não sei. Talvez.
Por que "talvez"?
Lá em casa, a prioridade é outra.
Que prioridade?
Você mora com quem?
Com minha avó, meu tio,
e... meu irmão,
minhas outras duas irmãs e meus sobrinhos.
Quanta gente...
Então todos os seus irmãos têm filhos?
- Têm. - Eles são bem mais velhos?
Mais ou menos.
O Maicol é o mais velho. Tem 22 anos.
Com 22, já tem filho?
E as suas irmãs?
- O que tem elas? - Também são mães?
É, são.
A Verónica tem dois filhos.
Quantos anos a Verónica tem?
Acho que tem 20.
E a Karen tem um filho.
A Karen tem quantos anos?
- 17. - 17?
Ela está enfeitiçada pelo namorado,
que já fez um filho nela.
Minha mãe também mora com a gente,
mas só vai lá no domingo
porque trabalha numa casa de família.
É empregada doméstica?
Você não tem filhos?
Não.
PARTE DOIS: "MAGNUM OPUS"
São bons.
São lindos, e tem muitos.
O que você quer fazer?
Não sei.
Acho que ela tem alguma coisa especial.
- Deveria fazer alguma coisa. - Tipo o quê?
Sei lá.
Vocês não têm um prêmio, uma bolsa pra jovens poetas?
- Quem garante que não é plágio? - Não, são todos dela.
Traz a menina aqui.
Mas você a quer na escola de poesia?
Preciso conhecê-la primeiro.
Não, já é minha aluna. Eu estava pensando
no prêmio, numa bolsa ou algum outro tipo de ajuda.
O único apoio que temos é o prêmio
que damos no Festival de Poesia a um jovem promissor,
e isso inclui dinheiro e a publicação dos poemas.
E ela pode participar?
Só quem está na escola de poesia pode concorrer ao prêmio.
- Traz a menina, e a gente vê. - Não sei, Efraín.
Se a menina tem talento, não vejo problema em ajudar.
Mas você vai trazer a menina e a levar.
Não podemos ter mais despesas. Estamos sem um tostão.
Não sei. Preciso perguntar à minha avó.
Quer que eu fale com ela?
- Você falou com a sua mãe? - Não.
Temos que perguntar à mãe dela. Ela vem aos domingos.
Você é professor dela, né?
Sim, senhora.
- E ela vai ganhar um prêmio? - É possível, se participar.
- E o prêmio é em dinheiro? - É em dinheiro, sim.
- Quanto? - Não sei dizer.
- Não vai almoçar? - Não demoro.
Não posso levá-la porque meu joelho não aguenta
- e preciso cuidar das crianças. - Eu posso levá-la.
Se não tem que pagar nada...
Porque a situação está braba, e não dá nem pra comprar um ovo.
Você quer ir?
Deixe de ser boba. Você vai ganhar uma grana.
Temos que aproveitar as oportunidades que Deus dá.
- Obrigado. - Karen, o bebê está chorando.
Verónica, abaixa isso.
Vem cá.
Ele é muito feio.
Muito feio.
Yurlady!
Professor, desculpa pela roupa.
- Edilson. Sou tio dela. - Prazer.
- Vim pegar uma roupa. - À vontade.
"Oi, Gigante.
Te admiro, Gigante.
Você é tão alto que é amigo da Lua!
Até os pássaros moram no seu cabelo.
Você vê minha casa aí de cima?
Você já pegou uma estrela cadente?
Sua pele áspera sente os meus chutes?
Como você comemorou seus 900 anos?
Por isso, você tem tantos anéis?
Nunca responde às minhas perguntas,
mas continuamos sendo amigos.
Se uma menina pode ser amiga de uma árvore."
Osquitar, ela é fantástica.
Sério?
Quero que ela leia na abertura do Festival de Poesia.
- E ela pode concorrer? - Claro.
Pensei até em fazer uma entrevista com ela
pra divulgar o festival.
É uma história muito bonita que merece ser conhecida.
E o que você está fazendo por ela é lindo.
Sei lá, eles são estranhos.
Então você não gostou?
Não sei.
Eles te amaram.
Você é poeta?
Eu tento.
Por que está fazendo isso?
Te trazer pra cá?
Porque você tem muito talento.
Mas isso me ajuda em quê?
Pode ajudar muito.
Pode desenvolver seu talento.
Eles podem ajudar você a ganhar o prêmio.
Através da arte, dá pra alcançar...
um caminho diferente do...
de pessoas como você.
- Pessoas como eu? - É.
Pessoas...
com poucas oportunidades na vida,
que podem facilmente largar os estudos porque...
tiveram filhos.
Qual é o problema de ter filhos?
- Você quer ter filhos? - Quero.
- Agora? - Bom, então,
agorinha, não sei. Talvez.
Pode deixar isso pra depois.
Você tem que pensar no seu futuro.
Você pode ser uma grande poeta.
E pra que quero ser uma grande poeta?
Dá pra viver disso?
Você não gostou do pastel?
Eu quero levar para os meus sobrinhos.
De queijo?
É, ou o havaiano.
Podem ser quatro?
Dois de queijo e dois havaianos, por favor.
- Você vende saco de leite? - De leite? Sim.
- O lance do poema é verdade? - O quê?
Se eu fizer um poema pra uma garota,
ela pode gostar de mim?
- Pode. - Como?
- Me conta quem é. - A Carolina.
- Besta. Não gosto dela. - Quem é?
- Ela não estuda aqui. - O poema tem que ser de amor?
Posso escrever sobre outra cosa?
- Claro. - Sobre minha mãe ou minha irmã?
- Você gosta da Angela. - Eu, não.
É aquela ali, de trança.
- Não gosto dela. - Escreve pra ela se apaixonar.
- Não gosto dessa garota. - Gosta, sim.
Fala sério.
Boa tarde.
- Professor. Como vai? - Bem. E você?
Bem, graças a Deus.
Quero te dizer uma coisa.
Tenho umas enciclopédias muito completas,
com todas as informações necessárias.
Eu não concluí o ensino médio, mas sempre li muito.
Posso dizer agora a capital de qualquer país do mundo.
O que você quiser. Pode perguntar.
A Yurlady está?
Ela saiu.
Mas as enciclopédias estão juntando poeira,
mas estão em perfeito estado.
Não sei se te interessa. Posso mostrar?
Edilson, não o perturbe.
Vou trazer pra você ver.
Professor, quero te agradecer pelas compras. Deus te pague.
Você não sabe como é a nossa vida.
O Edilson comprou uma TV enorme à prestação,
e nós somos muito pobres.
Todo dia, ligam cobrando, e ele ainda não pagou nada.
- A Yurlady não está? - Foi encontrar a amiga, Natalia.
- Ela sabia que você vinha? - Eu disse que vinha buscá-la.
Vou ser bem sincera.
A menina é muito talentosa, mas é preguiçosa.
Não tem iniciativa. Essas meninas são bem difíceis.
- Vó, que fofoqueira! - Fofoqueira, não. É verdade.
Professor, olha.
Mas você vai me dar?
Não, você faz o preço.
O que foi? Você não vai?
- Agora? - Sim, vamos nos atrasar.
Não sei se posso.
Como não?
Tenho que cuidar dos meus sobrinhos.
Sua avó não me disse nada.
Pode vir aqui rapidinho?
Vou amanhã.
Amanhã?
Não.
Você tem que se esforçar, fazer sacrifícios.
Pense no seu futuro.
Como quer estar daqui a 10, 20 anos?
Você quer estar melhor
ou pintando as unhas com a sua amiga?
Vamos tentar mais uns dias.
Se não gostar, não insisto mais.
Mas, se formos tentar,
vamos tentar de verdade. Pode ser?
Você tem 10 mil pesos?
Pra quê?
É pra um esmalte lilás com brilho.
Oi, Yurlady, tudo bom?
Olha, quero te apresentar à Frida.
Ela é adida cultural
da embaixada da Holanda na Colômbia.
Ela ajuda a gente a financiar o festival
e está bem animada porque contei
que você vai ler na noite de abertura.
Oi.
"Urley", ouvi falar muito de você.
Yurlady.
"Ur"... "Urlady".
Yurlady.
"Ur"... "Urlady".
Yurlady.
Muito conectadas.
Você e eu.
Obrigada.
Gosto de poesia
porque ela me permite expressar o que sinto.
Gosto de fazer poemas
sobre o que me acontece ou o que vejo por aí.
Ela é muito talentosa desde pequenininha.
Por isso, achamos muito importante que...
- a apoiem. - Com apoio
e recursos,
eles podem ter êxito
com suas expressões artísticas
e não se envolverem em projetos de violência.
Vimos que nossa cidade tem meninos e meninas
até dos bairros mais humildes
com muito talento e poucas oportunidades.
E o objetivo da nossa escola de poesia
é usar a arte como ferramenta pra incentivar mudanças sociais.
Que bonito, que emocionante!
Que trabalho lindo estão fazendo com essa escola de poesia!
E, agora que vocês vieram aqui promover o Festival de Poesia,
quero perguntar à Yurlady:
como é ter a oportunidade de ler seus poemas
diante desse público enorme?
É bom, eu estou muito feliz.
Que gracinha, que linda! Do que você mais gosta?
Da oportunidade que estão me dando.
E estou aprendendo muito.
Yurlady, e qual é o seu sonho?
Você poderia ler qualquer poema. Todos são lindos.
Mas sabe de uma coisa?
Não tem nenhum contundente o suficiente
pra abertura do festival.
Você poderia escrever um que aborde temas mais sérios.
Por exemplo, as dificuldades que você enfrenta no bairro,
as poucas oportunidades que você tem,
a cor da sua pele. Entendeu?
Não, mas acho os poemas dela muito bons.
Eles são lindos, é claro,
mas temos que pensar no público que está ouvindo,
como ampliar esse público, como comovê-lo.
Isso até poderia fazer os jurados do prêmio
se conectarem mais com a sua poesia, e você ganhar.
O objetivo é escrever um poema que fale de você,
do que você é e significa socialmente.
Discordo. Ela gosta de escrever coisas simples.
Osquitar, você é poeta, sabe muito de poesia,
escreve poesia,
mas não faz a menor ideia
de como a arte funciona diante do público.
Acho que é justamente por isso que sua obra não é...
Como posso dizer?
Muito conhecida.
O objetivo também não é fazer propaganda política.
É colocar no subtexto da sua poesia, que já é linda,
uma camada sutil de temas importantes
que façam o povo vibrar.
Isto é, dizer o que eles querem ouvir.
Garanto que você vai virar uma poeta ainda mais incrível.
Você vai convidar alguém pra leitura?
Não sei.
Minha mãe tem que trabalhar,
e minha avó tem que cuidar dos meus sobrinhos.
E minhas irmãs não curtem muito.
Talvez o meu irmão, mas ele também vive ocupado.
E o seu pai?
Não tem?
Não. Ele não mora com a gente.
Mas você fala com ele?
Não. Ele foi embora quando eu era bem pequena.
Onde ele está?
Não sei.
E você não quer falar com ele?
Não.
Antes, eu ficava triste...
mas não sinto mais nada.
Não espero mais nada e nem sinto raiva.
Você não gosta dele?
Não.
- Obrigado. - De nada.
Eu tenho uma filha.
Ela é quase da sua idade.
Ela se chama Daniela.
Ela mora com você?
Não.
Ela mora com a mãe.
Mas você a visita?
Às vezes.
Na verdade,
ela não gosta muito de mim.
E eu entendo.
Por que ela não gosta?
Não fui um bom pai.
Você gosta dela?
Muito.
Mas sou uma pessoa...
muito...
problemática.
Estou tentando.
Por que "problemática"?
Às vezes, nem sei.
Não sou uma pessoa muito...
Como posso dizer?
Normal.
Não acho que seja muito divertido
ter um pai como eu.
Eu não sou normal.
Se seu pai procurasse você,
você voltaria a gostar dele?
Acho que não.
Não.
Seu pai está lá fora.
Vai sair, ou digo pra ele entrar?
O que você me emprestou.
Quando é a prova?
Na semana que vem.
Como você se sente?
Não sei.
Você está estudando?
Estou.
Posso te ajudar.
Tranquilo. Valeu.
Quero te pedir desculpa por aquele dia.
Sem problema.
Tenho muito orgulho de você.
Obrigada.
Se você não passar,
pago sua faculdade.
Óscar.
Por favor, para.
Sei que você está muito ressentida comigo.
Não estou ressentida com você.
Você não sente nada?
O que eu deveria sentir?
Eu estou mudando.
Desta vez, é diferente.
Que bom...
Você não se importa.
Né?
Óscar, o que você espera que eu diga?
Você parece criança.
Desculpa.
Você me odeia?
Tenho pena de você.
Tenho que voltar a estudar.
"'Conforme a arte se liberta
da esfera reguladora da sua proposta estética
por meio do controle social e financeiro,
à medida que reivindica
a supremacia de seus poderes estabelecidos,
o artista é um ser autônomo, e a obra, ainda mais.'
'Reivindicar' equivale no texto a:
A, lutar,
B, negar,
C, alcançar,
D, se opor."
A: lutar.
Você acertou essa?
Sou melhor em interpretação de texto.
Deixo o raciocínio lógico por último.
- Não dá tempo. - Você vai se sair bem.
Se eu não passar, me mato.
Não. Também não é assim.
Se você não passar, e só fazer de novo.
Minha avó fica sozinha quando você sai?
Essa é a minha vida.
Às vezes, a Yolanda vem,
mas ela fica sozinha quase sempre.
Eu posso ficar com ela.
Se ficar com ela, ajudo você a estudar.
"Pergunto 'como vai?', e ela não responde.
Não sei o que fazer, se, por ela, arrasto um bonde.
Se ela me dissesse 'oi, Elkin', eu me alegraria,
daria uma rosa e a levaria pra piscina.
Ela é alta, linda e se chama Carolina."
Muito bem, cara! Dá pra ver que está inspirado.
Mas consegue levar mais a sério e escrever outra coisa?
- Não tenho outra ideia. - Algo mais intenso.
Não sei se a Carolina gostou da declaração.
- Só gosta dos poemas da Yurlady. - O que você disse?
- Nada. - Fale. Eu ouvi.
Que você só gosta dos poemas da Yurlady.
Não é verdade. Eu só comento pra vocês melhorarem.
Mas não diz nada pra ela.
- Já leu? Quer ler? - Não.
E como vou saber se é bom?
- Chama a Yurlady. - A poeta.
A poetisa!
- Seu filho da puta! - Como é?
Você me ouviu!
Não fiz nada, e ela me xingou. Não fiz nada com ela.
É uma atividade extracurricular fora da instituição?
E por que você não me contou?
Ela é muito talentosa, e estou ajudando.
É delicado. Você deve seguir um protocolo,
fazer uma carta especificando a atividade,
o horário, o local, e assinada pelos pais.
Aí não teria problema.
Sobre o que aconteceu em aula,
não acho necessário tomar nenhuma medida.
Converse com eles para que façam as pazes.
Muito bem.
Eu não quero mais ir.
Não quer ler no Festival de Poesia?
Tá bom.
Não é possível.
Ela estava feliz no programa de TV.
Ela não quer. Nunca quis.
Ela vai ser a primeira poeta jovem a ler.
Todo mundo quer ouvi-la.
A embaixada holandesa está animada.
Mostre como isso é importante pra ela e para o futuro dela.
- Por que não falam com ela? - Porque ela veio graças a você.
Veja tudo que você fez pela menina.
Ela é sua obra-prima, sua "magnum opus".
O melhor poema que você já escreveu.
Olha.
Compra um vestido bem bonito pra ela
e faz compras pra família.
Isso!
É!
Consegui!
- Mas você trapaceou. - Não!
- Não? - Trapaceei nada.
- Ganhei! - Isso!
Tchau, pai.
Tchau.
"Nós, poetas, como supermercados tristes,
temos um sortimento completo de fantasmas.
De fantasmas?
A cidade tão grande, e eu te procurando..."
"Lembre-se, mulher:
ao seu espetáculo de caixinha de música
eles não vêm pra admirar você, e sim pra serem admirados.
Não se esqueça.
Eles não passam de traficantes de derrotas,
monarcas de fracassos, e você é o palco mais propício."
"O que seria de mim se eu fosse menos negra?
Se tivesse menos fome?
Se tivesse um futuro garantido?
Se no meu bairro tivesse paz?
Talvez eu andasse leve,
sem medo na alma,
sem perguntas que queimam,
sem um mundo que observa,
sem barreiras que cegam.
Mas eu sou tudo isso,
e tudo isso me deixou forte.
Cada sombra,
cada luta,
cada sonho que busco
neste céu sem promessas."
Obrigado.
Põe mais frango, por favor?
Nesta também, por favor.
Obrigado.
Olha, dois.
Também posso levar um arranjo de flor?
Acho que sim. Quando a gente for, você pega.
Saúde! Quem quer?
Eu.
Yurlady, não. Você, não.
É só uma tacinha.
É só uma tacinha, cara. Pra comemorar.
- Cadê a sua taça? - Não estou bebendo.
- Saúde. - Saúde.
Nós ganhamos menos.
Não temos trabalho. Tomaram nossas terras.
Nós só podemos ter filhos e ser donas de casa.
Tomaram suas terras e apagaram sua memória?
Já apertaram sua bunda?
Cuide do marido, cuide dos filhos.
Mulher na sua comunidade é pra isso?
Em vez de ler aqui, deveria varrer a casa.
- Ainda se diz poeta. - Com muito orgulho.
- Poeta! - Vim representar a comunidade.
Saúde!
- O que você faz aqui? - Vim ouvir poesia.
Muito lindo. Adorei o poema da menina negra.
Este é o meu novo sócio, Baldomero Muñoz,
gerente de um escritório de advocacia.
Champanhe.
Saúde.
Nem todo mundo consegue identificar um bom poema
ou um bom poeta.
É preciso sensibilidade
pra descobrir a poesia nos lugares mais inesperados.
Debaixo das pedras,
numa rua, no dia a dia. É mais difícil que escrever.
Há poesia em tudo, até nas palavras mais mundanas.
Nem todo mundo vê.
Tem que saber ver pra não deixar escapar.
E não me refiro a um entardecer ou a um arco-íris. Não.
O que entra num buraco negro desaparece. Ele engole tudo.
E não estou falando como se jogássemos coisas nele.
Ele engole o tempo!
Ele o absorve, o desdobra como um liquidificador.
Pesquisei o que estou dizendo. Sabe o buraco de minhoca?
Não sabemos o que tem no buraco negro.
Pode ser Deus, um universo paralelo,
o passado, o futuro...
O mito é o consolo dos ignorantes.
Sabe o que está falando?
Como estão as aulas?
Bem.
Algum novo talento?
Não.
Alguma com outros atributos?
O que você disse?
Bundinha, peitinho...
Ah, não.
Quer?
Ai, cacete.
Ela está muito bêbada.
- Temos que levá-la ao hospital. - Não. Vamos ter problema.
Será que a levamos pra casa?
É melhor esperar o efeito passar. Já volto.
Você quer vomitar?
Vomite, vomite.
Vomite. Não.
É muito pesada.
Vocês podem me ajudar?
Efraín!
Não...
O que foi?
Ai, que merda!
Meu Deus! O que houve com ela?
Malditos!
Filhos da puta!
Desgraçados!
Yurlady, está ouvindo?
O que ela tem?
- Está bêbada. - Ou a drogaram.
- O que houve? - Não sei. Ela estava no chão.
Por que isso está acontecendo?
Não, ela está viva.
Bendito seja Deus!
Vamos levá-la para o hospital.
- O Edilson está dormindo? - Não chegou.
E o Maicol?
Eu estou de carro.
Se quiserem, podemos levá-la ao hospital.
- O que houve com a menina? - Bebeu demais.
Bebeu demais? E quantos anos ela tem?
- Quinze. - Quinze?
Tão novinha, e vocês a deixam beber?
Não vê que foi ele quem a trouxe bêbada?
- Você é pai dela? - Não, é o professor da escola.
Eu sou a avó, e ela é a irmã.
O professor? Você estava com ela?
Estávamos num festival de poesia.
Ela leu os poemas e começou a beber.
Então eu a levei pra casa.
- Você deu bebida pra ela? - Não. Ela bebeu com os colegas.
- E vocês sabiam? - Não.
Era pra ela estar num evento da escola,
mas não voltou a noite toda.
Até esse daí deixar a menina no chão.
Não.
Então...
Estávamos numa mesa,
e um deles chegou com uma garrafa.
E você bebeu?
Bebi.
Eu acho.
Sente-se.
Do que mais você se lembra?
Por que está com lesões no corpo?
Você tem lesões pequenas
que costumam aparecer com uma pancada ou compressão.
Você caiu? O que houve?
Deve ser porque tive que carregá-la para o carro
e, depois, pra casa.
Vamos deixá-la em observação até amanhã
porque está muito desidratada.
Só uma pessoa pode ficar de acompanhante.
Óscar.
Óscar.
PARTE TRÊS: A ARTE VAI NOS SALVAR
- Bom dia. - Bom dia.
Com licença. Esta é a Doris Rodríguez.
Caso não conheçam, é a psicóloga da escola.
Oi, bom dia.
- Oi. - Bom dia.
Bom dia, senhor.
Oi, meninas.
Oi.
Foi mal, estamos comendo.
- Como está a Yurlady? - Muito mal.
Desidratada, intoxicada, muito fraca, suando, vomitando.
Sentimos muito. Nós não estávamos sabendo disso.
O professor fez isso fora da instituição
e sem autorização.
Não era atividade da escola?
- Não mesmo. - E como vocês permitem
que o professor leve a menina da escola?
- É que nós não... - Vocês também são responsáveis.
Isso não devia ter acontecido.
Estamos aqui para evitar que situações assim aconteçam,
mas vocês têm que entender que é muito difícil.
E, às vezes, as coisas fogem do nosso controle.
Será que posso falar com a Yurlady
para fazer uma avaliação rápida?
Ela acabou de chegar do hospital e está deitada.
Vocês tinham que ter visto.
Ele a trouxe e a deixou jogada na frente de casa.
E foi embora.
Se a Karen e eu não vemos, ele se mandava.
Ele a deixou jogada?
Foi.
Aí fora, às duas da manhã, e foi embora.
Não sabiam que ela estava com o Óscar?
- Eu não sabia de nada. - Ele era todo fofo,
fazia compra de mercado e dava coisas pra ela
pra apoiá-la, porque ela era muito talentosa.
Veio até gente da TV pra filmar a menina.
E por que você deixou esse homem entrar?
Trabalho o dia todo, não posso ficar de olho.
Eu te falei
que o professor vinha chamá-la pra ler poemas na escola,
e ela não gostava muito, mas tinha vergonha de dizer.
Mas não tem nada a ver com a escola.
Olha só, não vamos mentir.
Ele era muito simpático,
e confiamos porque ele se apresentou como professor.
Só que a menina está com o corpo cheio de marcas estranhas,
então será que ele fez alguma coisa com ela?
Até parece. A Yurlady encheu a cara, e ele a trouxe.
- Como você sabe? - Conheço a Yurlady.
Como são as marcas?
Ela está com as costas cheias de hematomas.
Oi, Yurlady.
Como você está?
Quer sentar?
Você se lembra de alguma coisa?
Acha que o Óscar pode ter feito algo com você?
Como você sabe? Você o conhece bem?
Ele te falou alguma coisa
ou se comportou de maneira inadequada?
Ou não?
Vocês têm que me provar que ele não fez nada com ela.
Porque, pra mim, ele estava seduzindo a menina.
Que professor vai na casa de uma aluna,
compra coisas pra ela,
a embebeda e a deixa jogada no chão? Pra quê?
Isso é muito grave,
e, como mãe, tenho que desconfiar.
Vocês o conhecem?
Vocês vão me garantir que ele não é um tarado?
O que houve?
Falei para você seguir o protocolo. Falei ou não?
- Como ela está? - Não podemos informar isso.
- Mas ela está bem? - Está perturbada.
Não se lembra de nada do que aconteceu.
Será que os alunos da escola de poesia
podem confirmar que beberam com ela?
Mas é claro.
A mãe dela está furiosa com a gente e com você.
Falou em tomar medidas legais.
Você tem que deixar muito claro
que agiu sem o consentimento
e sem o conhecimento desta escola.
Agora, precisamos afastar você do cargo de professor.
Não, William, por favor. Preciso do trabalho.
Minha filha vai pra faculdade, e preciso pagar.
Por que não pensou nisso antes de fazer o que fez?
- Não, escuta. - Você se mandou.
Escuta. O que eu te falei?
Pra esperar passar.
E fui arrumar um quarto no hotel pra ela deitar um pouco.
- Não. - Não foi?
- Por que não falou? - Não sei.
- Mas você a levou. - Tive opção?
Esperar a bebedeira passar, dar água, um caldo,
qualquer coisa, menos fazer o que fez.
- Você os deixou beber. - Não.
Falei que eles podiam tomar uma tacinha de champanhe. E só!
Você era o responsável por ela!
Alonso,
e se falarmos com os alunos da escola de poesia?
Estão furiosos porque você mostrou a bunda pra eles.
Mostrei a bunda?
É. Vocês estavam falando de buracos negros ou algo assim,
aí você abaixou a calça e disse: "Vejam este buraco negro."
Não... Eu fiz isso?
Você arrumou uma baita encrenca.
Como você leva a menina do hotel tendo a fama que tem?
O que houve com a minha irmã?
O que houve com a minha irmã?
Calma, rapaz.
Quero saber o que houve com a minha irmã.
Nada. Ontem foi a inauguração do festival que a gente faz.
Ela leu os poemas dela
e, depois, começou a beber com os colegas.
Vocês deram álcool pra ela? Uma menina que só tem 15 anos?
Não, falei pra ela não beber.
E por que a deixou jogada como um cadáver?
Você não acha isso horrível?
Não acha muito suspeito?
E as marcas no corpo dela?
Não. Eu só queria ajudá-la a ter êxito com a poesia.
- Isso é ajuda? - O que você quer?
- A verdade. - É a verdade.
Você quer grana?
- Grana? - Não! Não!
Ei! Socorro!
- Socorro! - Diga o que fez com ela.
Diga o que você fez com ela.
Diga o que fez com ela!
Desgraçados! Vou mandar todo mundo pra cadeia!
Filhos da puta!
Deixou a menina jogada? O que fez com ela?
- Nada. - Nada?
Você vai falar com o rapaz, negociar com ele,
oferecer dinheiro, se for preciso.
Você trouxe a menina e é o responsável.
Vamos esclarecer tudo com os alunos.
Não temos nada a ver com isso.
Me dedico a esta casa há muitos anos
e não vou deixar você destruir tudo.
Óscar! Óscar!
- Quero falar com eles. - Óscar, sai!
- Preciso falar com eles. - Não vai...
- Estuprador! - Até quando?
- Calma, pessoal. - Calma, nada!
- Misógino! Mostrou a bunda! - Não me lembro disso.
Eu vi. Tem uma pinta na bunda. E ela é peluda!
Danço. Danço pela Yurlady e pelas que já se foram.
Danço por nós, danço por todas,
danço porque vocês não agem enquanto nos matam!
Existe violência.
Existe violência!
Óscar, por favor, sai!
Me soltem!
Não...
Não, não, não...
Não...
Não!
O que houve?
O William me ligou.
O que houve com a menina?
Não, Yolanda. Não quero conversar.
Essa menina quer dinheiro.
O que você vai dizer pra Daniela?
Dizer o que pra ela?
A Daniela estava com a mamãe quando o William ligou.
- Você contou? - Ela ouviu.
Ouviu o quê?
Ai, Óscar...
As mulheres são más. Conheço bem.
Ela está furiosa e muito triste.
Me deixa explicar.
Ela já conhece você e sabe que nunca vai mudar.
Eu mudei. Quero avisar que foi um mal-entendido.
E daí? Você sempre acaba fazendo merda!
Não vê que a Daniela não gosta de ser vista com você?
Ela tem vergonha de você aparecer bêbado.
- Ela é minha filha! - E daí?
Quero fazer parte da vida dela!
Não! Você nunca fez parte da vida dela!
E ela não quer falar com você.
Não a iluda mais. Não a faça sofrer!
Deixe-a em paz! Siga sua vida, porque estamos bem aqui.
Sai daqui!
- Daniela. - Sai! Para de me perturbar!
Tomara que você morra, e eu não olhe mais pra sua cara!
Sai daqui, Óscar. Sai daqui.
O que você disse pra ela?
Mas, William, não acho que o Óscar faça essas coisas.
Mas não sou eu que estou dizendo isso dele.
É a família da Yurlady.
Que idiota...
Tem aluno dizendo que o Óscar dava aula bêbado
e que levava a Yurlady à casa dele.
Não é verdade! Quem está dizendo isso?
Alguns alunos.
É mentira! A Yurlady sabe que não é verdade!
Ela também está duvidando de você,
porque alguns alunos da casa de poesia foram vê-la
e contaram que você mostrou suas partes íntimas.
Yolanda, sabe que gosto muito de você,
mas foi um erro receber seu irmão aqui,
ainda mais conhecendo a reputação dele.
Preciso desligar. Tchau.
Óscar, o que você fez?
Posso ter fama de bêbado, de louco, do que for,
mas só agi pensando no bem da Yurlady.
Eu só quis ajudar. Não fiz nada. A Daniela precisa saber disso!
Vocês deixaram a menina beber e participar das atividades
sem a carta de autorização da mãe.
Vocês também são responsáveis.
Podemos ter sido coniventes com o consumo de bebida,
mas entenda que eram jovens que estavam comemorando.
Porém, quando o Óscar a levou à casa de poesia,
nós aceitamos recebê-la com a condição
de que ele seria o responsável.
Só me disseram que eu teria que trazê-la e levá-la.
Eu disse que aceitava que ela participasse
se você fosse o responsável por ela.
Então, pra nós, era lógico
que o Óscar tinha autorização da família e da escola.
Vocês me disseram pra levá-la, mesmo sem ela querer.
Estamos esquecendo que o maior problema aqui
foi a forma como você levou a menina do hotel.
Ela estava bêbada. Eu a levei pra casa, você viu.
Só vi que você levou a menina do hotel.
E por que a deixou no chão?
Não foi legal ter deixado fora de casa.
Reconheço que mandei mal. Me apavorei.
Se apavorou por quê?
Deixou a garota jogada porque se sentiu culpado.
Dá pra pensar isso.
- E tem as marcas na pele. - Porque tive que carregá-la.
O laudo médico diz:
"Marcas na pele que podem ter sido causadas por pancada
ou por compressão."
Não diz que foi porque você a carregou.
Olha, eu a carreguei assim.
Não tem necessidade. O que é isso?
- Vem que eu mostro! - Não. Sente-se, por favor.
Na verdade, Óscar, você não tem testemunhas nem provas
que comprovem o que você fez.
Eles que prestem queixa! Nem ligo.
Só quero que saibam a verdade.
Nós, como instituição de ensino, já afastamos você do cargo.
Agora, nosso dever é acompanhar a aluna e a família no processo
perante o Ministério Público e a Secretaria de Educação.
Nós nem deveríamos estar aqui, porque essa merda é sua.
Mas não podemos estar metidos em problemas jurídicos
em pleno Festival de Poesia.
Os holandeses podem retirar o apoio
se esse boato se espalhar.
Isso tem uma solução bem simples.
Fala com a família. Conta o que aconteceu.
Pede desculpa. Faz com que não prestem queixa.
Pedir desculpa seria admitir que fiz algo.
Só quero que minha filha saiba que não fiz nada.
Se você convencer a família disso,
a Yurlady pode falar com a sua filha e dizer...
A Yurlady pode falar pra ela que não aconteceu nada.
Ninguém quer que isso vá parar nos tribunais.
- Você seria o mais prejudicado. - Que prestem queixa!
Pra que arrumar problema que não vale a pena?
Óscar.
Colabore.
Faça isso pela casa de poesia.
Você faz parte dela. Quer que ela acabe?
Olha as meninas da escola de poesia,
com sovaco peludo e revoltadas. Que preguiça!
A poesia não é mais como antes.
Antes, a poesia era mais...
Não acho que a família da menina queira falar com o Óscar.
- Oi. - Oi.
A vovó está?
Vó!
Não acredito que ele só queria ajudá-la a escrever poemas.
Escutem, senhores,
não podemos afirmar que ele fez algo com ela.
Mas existe uma coisa na lei colombiana chamada
"além de qualquer dúvida razoável".
O que isso quer dizer?
Que, pelos elementos de provas existentes,
pode haver certeza de que ele fez alguma coisa.
Entendeu?
Obrigado.
Senhora...
nós compreendemos o seu lado perfeitamente.
E entendemos a sua raiva. Eu também teria.
Mas uma coisa eu posso garantir:
o que nós sempre buscamos, por meio da poesia,
é promover o bem-estar de jovens como a sua filha.
É isso que a poesia é pra nós.
E o que aconteceu não é poesia,
não representa essa maravilhosa expressão
da qual a sua filha é uma representante digna.
Vimos muito talento nela. Por isso, quisemos apoiá-la.
Escutem.
Deixem o Óscar contar o que aconteceu.
Óscar!
Não.
Não vejo sinceridade nos seus olhos.
Óscar, explique direito. Faça a sua parte.
Senhora.
É verdade.
- Yurlady, você sabe. - Não, ela não sabe.
Ela não sabe quem é você, não o conhece o suficiente.
Você também não a conhece.
Senhora, minha filha está furiosa comigo.
E quero que ela saiba...
O que a sua filha já sabe é que você é um tarado.
Porque não estou convencida do contrário.
- Mãe, mas... - Você fica calada.
Está de castigo.
Nós conhecemos o Óscar muito bem
e sabemos que ele é um problema ambulante.
É meio burro, meio desajeitado, um poeta ruim.
Mas, como dizia Raúl Gómez Jattin,
pessoas como o Óscar só fazem mal a si mesmas.
Então tudo que vocês imaginam que ele fez com a Yurlady
nunca aconteceu.
Não. Eu não vejo sinceridade nos olhos dele.
O Óscar está disposto a dar dinheiro pra vocês.
Como assim?
Pra compensar toda a angústia que vocês sofreram.
- Está me oferecendo dinheiro? - Não leve a mal.
Podemos ser muito pobres, mas temos muita dignidade!
Yaneth, espera.
- Quanto seria? - Como assim?
- 1 milhão. - 1 milhão?
- 1 milhão. - Que falta de respeito...
Isso é o mesmo que me pedir pra vender a minha filha.
- Isso é muito grave! - Yaneth.
Vem, vamos conversar.
Yaneth, vem cá rapidinho.
O que é isso, cara?
Não sei como, mas você vai me pagar até o último peso.
- Tem caixa eletrônico aqui? - Sim, virando a esquina.
- Yaneth, pensa bem. - Não tenho o que pensar.
Ele veio explicar que não fez nada com ela.
Encerra esse assunto. A grana vai ser muito útil.
- Yurlady, sai. - Ele não fez nada comigo.
Entrar na Justiça demora e não resolve nada.
Pense no que é melhor pra menina.
Ela já sofreu muito. Você vai prolongar a angústia?
É, mãe. Já sofri muito.
- O dinheiro não é pra você. - É pra casa.
- Fico com a metade. - Não.
Mas sou a vítima.
2 milhões de pesos, e assunto encerrado.
Não dá. O Óscar não tem mais.
Temos que levar certas coisas em conta.
Meu irmão, é o que tem.
Bom, tudo bem.
Mas tem mais uma coisa.
Precisamos de uma garantia
de que não vão tomar mais nenhuma medida.
É simples.
Assinamos um documento dizendo que está tudo certo.
Achamos melhor fazer um vídeo.
- Como assim? - Vídeo?
Um vídeo da Yurlady dizendo
que se responsabiliza totalmente pelo ocorrido,
que ninguém fez nada com ela,
que ela se embebedou sozinha,
e nos peça desculpa pelo inconveniente...
Pedir desculpa?
- Não, Efraín. - Pra mostrar pra quem?
Não, pra ninguém.
É só uma garantia pra nos proteger.
Acho que não tem necessidade.
Falei com meu advogado. Ele que sugeriu.
Não, então paga mais.
Não tem como. É tudo que temos.
Eu, Yurlady Guerrero,
assumo toda responsabilidade pelo que aconteceu.
Ninguém fez nada comigo.
"Ninguém fez nada comigo na noite de abertura
do Festival de Poesia."
Ninguém fez nada comigo na noite de abertura
do Festival de Poesia.
Me embebedei sozinha
e peço desculpas pelos inconvenientes causados.
"E desejo tudo de bom à Poesia Viva e ao festival."
Desejo tudo de bom à Poesia Viva e ao festival.
Perfeito. Decorou tudo?
Efraín, não precisa disso. Paga, e pronto.
Vocês querem aparecer no vídeo?
Venham, por favor.
Isso. As crianças atrás. Vamos, vamos.
Edilson, você também, por favor.
Você é nosso tio.
Tá bom.
Isso. Venham.
Venham, por favor.
E fiquem bem juntinhos pra caber no vídeo.
- Pronto? - Pronto. Gravando.
- Não, Alonso, espera. - O que foi?
- Óscar, pode ir embora. - Não precisa disso.
Estamos tentando consertar a merda que você fez.
- Tem outra solução? - Pra que fazer isso com eles?
Você toma uma decisão pior que a outra.
Deixa, que eu sei o que estou fazendo.
Você não quer se resolver com a sua filha?
Pronto?
Pronto. Gravando.
Eu, Yurlady Guerrero,
assumo toda responsabilidade pelo que aconteceu.
O que é isso?
- Óscar, sai daí. - Me dá o celular!
O que você quer? Fazer mais besteira?
- Me dá o celular! - Não vão gravar vídeo!
- E a grana? - Sem vídeo, sem grana.
- Paga. Depois, te pago. - Com que dinheiro?
Eu te pago!
- Eu gravo. - Viu? Ela quer gravar?
Isso não me afeta em nada. Não estou nem aí pra vocês.
- Não vão gravar. - Me dá o celular.
- Não. - Me dá!
- Não dou! Não dou! - Me dá!
- Me dá! - Não dou!
- Me dá essa porcaria. - Não dou!
- Não! - Anda, estamos acabando.
- Não! - Me dá.
Não, cara!
Não!
Não!
Não!
- Não! - Para de palhaçada!
- Já estamos acabando. - Não!
Não!
Saiam da minha casa agora!
Agora! Fora!
- Sem vídeo, não tem grana. - Dane-se a sua grana!
Saiam daqui agora!
Você é o poeta mais medíocre que já conheci, cacete.
Espero que você seja lembrado como o melhor poeta do país
e escreva muitos versos lindos e de sucesso.
Desculpa.
PARTE QUATRO: UM POEMA FELIZ
"Diante dos acontecimentos lamentáveis
que ocorreram recentemente no nosso Festival de Poesia,
a Casa Cultural Poesia Viva esclarece que não tem
nenhum tipo de relação com o poeta Óscar Restrepo.
Ele não será convidado para nenhum evento futuro.
Condenamos veementemente comportamentos inadequados
que atentem contra os valores e os princípios da Poesia Viva,
um espaço seguro que promove o bem-estar da nossa comunidade.
Um lugar onde habitam o amor, a ternura e a poesia
na sua definição mais profunda."
Desgraçados!
Vou me matar.
Não. Não começa.
Não aguento mais esta vida.
Chega. Já fracassei em tudo. Desisto.
Desisto da poesia, da vida, desisto de tudo.
Vou me jogar da janela.
Se jogue. Quero ver. Vamos.
- Nem se matar consegue. - Você não entende.
Como se eu não te conhecesse.
É a pessoa mais previsível do mundo.
Já vai encher a cara, né?
Não sei o que fiz pra merecer tanta desgraça...
Você adora se fazer de vítima. Parece até que gosta.
Você não passa de um covarde
que não tem coragem de encarar a vida.
É difícil pra todo mundo!
Ninguém é responsável pela sua desgraça!
Você é o responsável por cair nesse buraco escuro,
se achando um poeta triste
que carrega uma fatalidade e uma maldição.
Acorde! Saia desse buraco!
Você não precisa dessa gente.
Eles não são seus amigos.
Você pode até ser um bebum,
mas é nobre.
Você tem a mim.
Quer um lanchinho?
Obrigado, mãe.
Oi, Daniela.
Você não me conhece, mas eu fui aluna do seu pai.
Primeiro de tudo,
eu queria pedir desculpa por ter pegado o seu caderno.
Achei muito bonito, e, como o meu estava acabando,
pensei em usá-lo. Desculpa.
Foi onde achei o seu endereço.
Segundo, escrevo porque eu soube que você odeia o seu pai.
Disseram que ele me fez mal.
Ele não fez nada comigo.
Ele só queria me ajudar.
Ele queria que eu fosse uma grande poeta.
Mas esse sonho era dele, não meu.
Ele me fez perceber que eu não gosto de poesia,
ou, pelo menos, da poesia que conheci com ele.
Eu só gosto de escrever o que sinto e de desenhar.
Meus sonhos são mais simples:
ter uma casa, um trabalho,
ajudar a minha mãe,
a minha avó, os meus irmãos.
Essas coisas.
Não preciso de muita coisa pra viver em paz.
Seu pai me falou de você,
da relação distante que vocês têm.
Eu te entendo.
Também tenho um pai assim, e você não tem culpa.
É como se tivéssemos sido condenadas
a ter esses pais pelo resto da vida.
A única coisa que posso garantir é que ele te ama muito
e que está tentando mudar.
Realmente, espero que ele consiga,
e que esta carta sirva pra que você não o odeie.
Bom...
era só isso.
Desejo tudo de bom na sua vida.
Até mais. Yurlady.
- Oi. - Oi.
Esse é o do seu pai?
- É. - É?
Gosto mais do outro.
Um amarelinho. Estava por ali.
Você não leu este?
Não? Olhe.
Leia este poema.
Seu pai escreveu quando eu estava esperando você.
"Minha pequena flor linda que plantei no jardim,
quero cuidar de ti e te amar,
mas, sem água nem adubo, tenho medo de te estragar."
A florzinha é você.
Oi.
Oi.
Aqui é bem bonito. Você vem muito?
Às vezes.
Eles têm Bukowski.
Não curto Bukowski.
Eu não odeio você.
Nem quero que morra.
Mas também não quero uma relação mais próxima com você.
Não acho que me faça bem.
Na verdade, prefiro que volte a ser como antes.
Conversar de vez em quando
ou quando eu for visitar minha avó.
Quando seja estritamente necessário.
Sabe o que eu acho?
Você é um bom poeta.
Mas isso não me interessa.
- Só seja uma pessoa boa. - Realmente, tentei.
Isso não é o suficiente.
O que quer? Que eu ame você?
Não exija algo pelo qual nunca lutou.
Estou lutando. Não é fácil.
Não lutou o suficiente.
Procure ajuda.
Mostre que mudou mesmo,
mas não me arraste mais com você.
Me procure quando tiver mudado mesmo.
Tudo bem.
Eu entendo.
Eu te amo muito.
Tchau.
Yurlady...
espero não te incomodar com estas palavras.
Prometo que vão ser as últimas.
Quero agradecer pela carta que escreveu pra minha filha.
Hoje me deu vontade de escrever um poema.
Fazia tempo que eu não escrevia.
Quero compartilhá-lo com você.
Eu queria que fosse um poema menos triste,
menos melancólico, como os seus.
Não sei se consegui,
mas me surpreendeu eu ter gostado.
Óscar.
- Chama a ambulância. - O que foi?
- Chama a ambulância. - O que você tem?
O poema que escrevi é assim.
"Aqui estou.
Um homem,
um dinossauro antiquado,
portador de injúrias,
merecedor de condenações...
sonhador frágil.
Mas não percam a fé
neste poeta triste
que está tentando escrever
um poema feliz."
UM POETA
Tradutora: Fabiana Barúqui DISPOSITIVA
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