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Tem um monte de... Sei lá...
Lendas urbanas nessa cidade.
-As pessoas contam histórias. -Que tipo de histórias?
Histórias muito específicas. Digo, no quesito lendas urbanas.
Estou aqui há quase um ano.
As pessoas com quem trabalho contam umas paradas muito loucas.
CARNES PEACH
Por exemplo, você chegou na cidade quando?
No fim de semana passado.
Então viu os grafites, né?
Vi.
Tem dois adolescentes grafitando perto do parque...
Meu avô trabalhava na Carnes Peach.
-O seu também? -É.
Não, obrigado.
Sabe qual era o emprego dele?
Ele arrancava línguas.
-O quê? -Pois é.
A cabeça da vaca chegava na linha de produção... Valeu.
Ele arrancava a língua.
-Que nojento. -Trinta anos.
Deve ter arrancado umas 200 mil línguas.
Línguas.
Aí cortaram caminho pelo parque,
o que nunca se deve fazer.
-Por que não? -É perigoso.
É uma floresta no meio da cidade.
Já te mostrei como curo soluço?
Deu certo?
O que é isso?
De onde isso surgiu?
Vamos vazar daqui. Vem.
Como assim, uma escadaria?
Acredite ou não, o lance é esse. Escadarias no parque.
Até a galera das antigas na polícia fala que, se você vir uma,
não pode parar pra olhar, nem chegar perto,
e jamais suba nelas.
-Vamos voltar. -Não.
Vamos subir.
Não.
Não sei o que era aquilo.
Vamos embora.
Vamos.
Não. Tem alguma coisa ali.
Kara.
Vem.
É melhor irmos.
Kara.
Ei.
Acho que é uma criança.
Eu vou embora. Kara.
Kara.
Ei.
Ei.
Oi?
Ben!
Ben!
Ben!
Ben!
Ben!
Ben!
Ben!
CHANNEL ZERO: BUTCHER'S BLOCK INÍCIO INSIDIOSO
Por que aqui? Por que Garrett?
Bom, um professor meu me falou do emprego.
Depois li uma matéria muito boa na Mother Jones:
"A pior cidadezinha da qual nunca ouviu falar".
Aí eu pensei: por que não?
Você vai por ali também?
Sim, vou.
Onde vai ficar?
Agora estamos num Air Bnb. É bem legal, maneiro,
mas vamos nos mudar para um lugar que achamos na internet.
-Você e quem? -Minha irmã e eu.
Mora com ela? Vocês devem ser íntimas.
É, nós somos. Tipo, somos irmãs.
A Zoe é muito legal. Ela só está...
numa fase de transição na vida dela.
Não aja estranho quando conhecermos a proprietária.
Ela está em casa?
-Zoe? -O quê?
Abre a mala.
-Não estou no clima. -Bem-vindas à vizinhança!
Ela está ali.
-Oi! Sou Alice. -Oi, Alice. Vocês se perderam?
Não, achamos o endereço direitinho.
-Que bom. -Muito obrigada por...
-Algumas informações. -Sim.
Esse bairro é seguro igual a colo de mãe,
mas, se forem por ali, depois do parque? Não, o sistema...
Está totalmente falido em Butcher's Block, então...
Certo. Isso fica no bairro?
É, te cortam como uma pizza e comem as fatias.
Tem uma tesoura?
Não, não tenho comigo agora.
E você? Tem uma tesoura?
Pra quê?
Tenho que tirar meus curativos.
-Que curativos? -Ei!
Pedi com educação pra você não ficar por aqui.
Espere... Você é a Louise?
Isso, sou a proprietária.
-Oi. -Peguem suas coisas e entrem.
Tudo bem.
Muito prazer, sou a Alice.
Imaginei. Olá, Alice.
E aquela ali é a Zoe. Zoe, vem.
Diane.
Cai fora.
Ela é totalmente inofensiva 99% do tempo.
Só não deem uma tesoura.
Eu estava tentando ajudar!
Obrigada.
Que aconchegante.
-Deixem tudo aqui. -Legal.
Levamos pra cima depois.
Eu te procurei na internet e vi que você foi repórter.
Acredite, costumava ser um emprego de verdade.
-Isso é muito irado. -Não. Não mexe nisso!
-Calma. -Não é seu.
Mas é uma graça.
Eu li essa matéria sobre o seu irmão.
Não sabia que estava online.
Está. Sinto muito por isso.
É.
Aqui é o seu escritório?
Sim, é pesquisa para um livro sobre história local. Com licença.
Não quis me meter. É que quero muito conhecer a história local...
Oi, bebezinho.
Esse é o Andre.
Bom menino. Come o seu papá.
Desculpem, mas tenho que me sentar. Meu ciático está me matando.
Como assistente social, vai ter que aprender muito sobre a história.
Vou ser defensora de família, na verdade.
Vou trabalhar com famílias de baixa renda que não têm condições.
Todas têm questões de saúde mental, casos de vício, essas coisas.
E você vai trabalhar com elas como, exatamente?
Vou ensinar como podem usar o sistema.
Usar o sistema?
Nossa. Quanto otimismo.
Por quê?
Eu aprendi com a experiência que, quando você resolve mudar o mundo,
é o mundo que muda você.
Bebê, vamos levar essas moças lá pra cima.
Se quiserem me acompanhar...
NÚMERO DESCONHECIDO
Alô?
Alice! Oi! Que saudade!
Estava tentando te ligar. Queria desejar feliz aniversário.
Foi na semana passada, mãe.
Como está a sua irmã? Está cuidando bem dela?
Sim, claro que estou.
Ótimo, é... Onde vocês estão?
Já falei, nós mudamos.
É, eu sei.
Pra onde?
Você não quer que eu saiba.
Alice.
Eu perdi o controle.
É, eu sei, mãe.
Eu sinto muito.
-Tenho que desligar. -Não, por favor, querida...
Preciso sair desse lugar.
Alice, eu perdi o controle.
Você não entende. Pode me deixar falar com a Zoe?
-Ela não está aqui. -Me dê o número dela.
A decisão não é sua.
Não é bom pra ela! Tenho que desligar.
Alice, por favor! Sinto sua falta. Muito. Me diga onde estão.
Me diga onde estão, querida.
Também sinto sua falta, mãe.
Alice. Filha, espera. Espera.
Como você está?
Estou quase acabando.
Você tem uma pele maravilhosa.
Vamos fazer uma coisa muito legal com você.
Vai ficar lá em cima, na casa principal também.
Vai ser legal, né?
O que você acha?
Quer beber de um riacho? Podemos botá-lo perto da pia.
Quer fazer isso? Ainda é o único guaxinim na casa.
Oi.
Sim?
Eu só queria falar com você rapidinho sobre a minha irmã.
-Claro. -Então, como falei por telefone...
Sabe, à primeira vista, ela me pareceu normal.
Ela é, quando está tomando os remédios.
Mas eu só queria que você soubesse
que ela está em recuperação, então nada de drogas ou álcool.
Se puder evitar oferecer bebida ou outra coisa, seria ótimo.
Costumo beber sozinha.
Pra ser sincera, aceitei o emprego por ela.
Nem importava onde era.
-Só queria recomeçar... -Olha.
Não sou sua mãe, tá?
Nem sou sua tia moderna. Sou só a proprietária.
Você me dá um cheque todo mês, eu desconto, é isso.
Não tenho filhos e foi por escolha.
Entendi. Obrigada.
Inquilinos, né?
Primeiro dia.
Você vai encontrar Tanya Marcus e a filha dela, Isabel, a Izzy.
O serviço social vem hoje pra retirá-la da casa.
E nós vamos estar lá?
Ninguém disse que o trabalho era legal.
E o bairro aonde vamos é Butcher's Block?
É onde estamos. Passamos da rua Chine.
"Carnes Peach". Vejo isso pra todo lado.
Construíram a cidade em volta de processadoras de carne.
Os trabalhadores viviam aqui.
O chefe deles era um tal de Joseph Peach.
Um dia ele desapareceu, e todas as empresas faliram.
Conhece o termo "zona de sacrifício"?
-Não. -É...
É uma área de risco ambiental, como uma mina desativada.
Não tem planejamento pedagógico,
financiamento para saúde mental nem empregos públicos.
É uma zona socioeconômica morta.
COMA OS RICOS
Mas a arte de rua é maneira.
É, tem isso.
Ei.
Nunca venha pra cá sozinha.
Nem à noite.
Deixa que eu falo, tá?
Está bem.
Senhora Marcus?
Alice?
Oi.
Senhora Marcus, podemos entrar, por favor?
Obrigado.
Não tire os sapatos.
Isso é absurdo. Eu nunca mordi minha filha.
-Izzy? -Posso puxar uma cadeira?
Quando o serviço social vier, não resista.
Vamos ajudá-la a ter sua filha de volta.
Pode nos ligar a qualquer hora.
Vou te dar o número da Tanya...
Se puder gravar no celular, é o número do telefone fixo.
Izzy!
-Oi, Izzy. -Oi.
Conte como você foi mordida.
Brincando no parque.
É, falei pra você ficar longe de lá.
Mas crianças ficam de zoação e se machucam.
Obrigado, Izzy.
Olha, não queremos saber o que fez ou não, só tentamos...
Com o que eu fiz ou não?
Acabei de falar que ela foi mordida por um cachorro.
Ela inventou uma história, sei lá o que mordeu ela.
Eles agem como se tivesse sido eu.
Ninguém acredita em mim.
Vamos manter a calma.
Eu costumava cair de escadas.
Quando criança. Minha irmã ganhava toda a atenção.
Eu me jogava das escadas pra tentar chamar atenção.
Crianças ficam de zoação e se machucam.
Acredito em você.
Viu? Ela entende.
Tanya.
Temos uns formulários que você precisa preencher.
Tá. Que seja.
Tenho umas coisas para você assinar.
Precisamos de umas informações suas.
Oi.
Eu sou a Alice.
"Espertinho"?
É seu apelido?
-Não? -Eu achei no parque.
Você achou no parque?
-Onde? -No parquinho.
No parquinho.
Às vezes, quando fico com medo, me escondo no parque.
Quando eu era pequena,
me escondia quando sentia medo também.
Minha mãe nem sempre era legal. Onde fica o seu esconderijo?
Perto da Senhora Árvore.
O que é Senhora Árvore?
É uma árvore, lá do parque.
Não vai deixar acontecer nada comigo e com minha mãe?
Não, de jeito nenhum.
Nathan?
Nathan?
Acho que tem alguma coisa dentro da parede.
O quê?
Tem alguma coisa dentro da parede.
Deve ser um guaxinim.
Izzy?
Izzy?
-Izzy? -O que é isso?
-Está trancada? -O que está acontecendo?
-Izzy! -Vamos.
Abre...
Ai, meu Deus.
-Senhora Marcus? -Izzy?
Nathan, arromba a porta.
Arromba a porta!
Arromba!
Izzy?
Polícia! Abre a porta!
Boa tarde.
É Zoe, né?
Se importa se eu fumar?
Não.
Me deixa dar um tapa?
Sua irmã disse que não usava nada.
Não gosto de estressá-la.
Tudo bem. Toma.
Obrigada.
Isso não dispara a sua...
Deixa pra lá. Não é da minha conta.
Claro, ela te contou.
É engraçado porque, a maior parte da minha vida,
meu cérebro era como uma maçã vermelha perfeita.
Eu diria que era bem inteligente, mas...
Quando eu fiz 26 anos...
Era tipo...
Era tipo uma coisa.
Ela estava hibernando.
Aí acordou e começou a...
Abrir caminho lentamente até a superfície.
Eles chamam de "início insidioso".
Quer dizer...
É o começo do seu fim.
Não acreditam na gente.
Não achamos que estão mentindo,
só achamos que têm pouca experiência.
Alguém levou elas!
Uma hora antes do serviço social levar a criança? Pense.
Você não ouviu ela gritar.
Está bem.
Ela era a única gritando?
Seu nome é Vanczyk? Igual...
Sim. Ele é meu pai.
Olha, eu não queria mandar a real,
mas, quando as mães sabem que o serviço social vai vier,
às vezes elas somem.
É tudo o que tem a dizer?
O que aconteceu com proteger e servir a comunidade?
Comunidade? Está mais pra infecção persistente.
Avisamos se elas aparecerem. O que acham?
Vocês têm compromisso?
Ele tem que dar ração pro cachorro.
É sério. Ele é surdo.
Tem que pisar firme pra ele sentir a vibração.
É verdade.
É muito triste.
Se cuidem, tá? Tenham um bom dia.
Vamos no Tony's. Quero uma quesadilla.
É. Bom, eu não.
Bem, eu quero.
Eu dirijo. Se livre disso, por favor.
Ei.
Onde você está?
Desculpe.
Não paro de pensar em hoje.
Talvez a polícia tenha razão.
É, mas você não ouviu aquela mulher gritar.
Alguma coisa aconteceu com elas, e ninguém se importa.
Você sim.
As pessoas só gritam assim se algo horrível acontecer.
O que fez elas gritarem?
Elas não. Foi só a mãe.
Que foi, Alice?
A menina. Ela disse que se esconde quando sente medo.
E se ainda estiver lá?
Parece que não tem ninguém.
Oi, bem-vindas à vizinhança!
Oi! Eu achei uma tesoura.
Cortei meus curativos.
Ai, meu Deus...
Por que te amarraram assim?
Eu posso... Posso soltar você.
Eu posso. Eu vou.
Não! Não!
-Espere! -Me solta!
Me solta! Não!
Mãe? Mãe?
Izzy?
Zoe?
Já volto. Tenho que dar uma olhada numa coisa lá fora.
Alice?
Izzy?
Izzy?
Izzy?
Izzy?
Izzy?
Izzy?
Ei! Izzy?
PARQUE MEDALLION
Izzy?
Oi. Izzy?
PARQUE MEDALLION
Você está perdida?
Quem é você?
Joseph.
-Qual é o seu nome? -O que está fazendo aqui?
Dando uma caminhada.
No meio da noite, no Parque Medallion?
Morei aqui por muito tempo.
Éramos donos do parque.
Gosto de ouvir os pássaros antes do sol nascer.
O parque era seu?
Era da minha família.
Eu viajo pelo mundo,
e essa é a cidade que chamo de lar.
Quando ando por aqui, estou em dois mundos ao mesmo tempo.
O que você vê e o que eu me lembro.
Não se preocupe. É uma coruja.
Ela mora perto de onde era minha casa.
É um parquinho agora.
Onde você mora?
Perto.
Izzy...
Meu Deus! Não!
Graças a Deus! Zoe!
Oi.
Você está bem? O que foi?
Vem, vamos. Vamos embora.
Zoe, o que aconteceu lá?
Eu vi uma coisa. Nem sei...
-Zoe. -Eu nem sei se está dentro
ou fora da minha cabeça...
Não sei. Talvez as duas coisas.
Tenho que sair daqui.
Quando voltou a usar?
Os remédios pararam de funcionar. Mas é diferente.
Temos que ir pra bem longe daqui.
Longe.
Ir pra onde? Pra casa?
-Sim, pra casa. -Acha mesmo que é a solução?
-Do que tem tanto medo? -Não vou voltar.
Zoe, não vou morar naquela casa! Eu não...
Eu entendo.
Eu entendo. Você tem a mesma idade que eu tinha.
A mesma idade que mamãe tinha.
Não é isso que me preocupa.
Seu maior medo é acabar igual a mim, não é?
Não é verdade.
Adivinha só, Alice:
não tem nada que você possa fazer.
Ou é uma parte de você, ou não é.
Se você não conseguir se conformar com isso,
vai te destruir.
Você não pode me deixar, Zoe. Você precisa de mim.
Talvez você precise de mim.
Não vai acontecer comigo.
Não é só genético, é ambiental. E não faço as coisas que você faz.
Vou pegar o ônibus.
Entre.
Oi. Desculpa se fizemos barulho.
Ela vai voltar.
Contanto que alguém pague o aluguel.
O que é isso, afinal?
É o meu livro.
Sobre o que acontece em Butcher's Block.
-O que acontece em Butcher's Block? -As pessoas desaparecem.
É o seu irmão? Sobre quem você escreveu?
É, eu sempre achei
que tinha morrido numa casa abandonada,
por isso não achamos o corpo.
Mas descobri que havia vários como ele.
Que não fariam falta.
Droga.
Você acha que tem alguém fazendo isso?
Sim.
Mas não um alguém.
Pode ser uma família.
Aqui seria a cidade perfeita pra isso. Com as Carnes Peach.
Exatamente.
Olhe à sua direita.
Esses são os Peaches.
Em 1952, todos desapareceram.
Só que eu acho que alguns deles ainda estão por aí.
Estão por aí fazendo o quê?
Matando.
Eu começaria com o fundador.
Ele era um maluco recluso,
fundamentalista, super-religioso.
Eu cantava no coro dessa igreja, quando era bem jovem.
Depois minha voz mudou. Os desgraçados me expulsaram.
Quem é esse?
É ele. Joseph Peach.
Ele teria quase 130 anos hoje, se ainda estivesse vivo.
Sabe aonde o ônibus vai nos levar?
Até a estação central.
O meu nome é Joey, a propósito.
Zoe.
Muito prazer.
Zoe.
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