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Original subtitles

Eu nasci de olhos fechados.

Todo mundo nasce de olhos fechados.

Mas os meus estavam cerrados, t�o apertados que chegavam a fazer rugas.

Permaneci assim, de olhos fechados, por mais de duas semanas.

Minha m�e, ao contr�rio do que era de esperar...

n�o se preocupou.

Dizia o tempo todo que, quando eu estivesse preparado...

e quisesse, eu abriria os olhos.

Foi assim de cara, nos primeiros dias de vida...

que aprendi o que era livre-arb�trio.

Francisco j� estava acostumado com aquele ritual...

mas naquele dia foi diferente.

Enquanto ele me encarava atrav�s do vidro grosso do ber��rio...

eu, sem mais nem menos...

abri os meus olhos e olhei direto nos olhos dele.

Voc� acha que ele sabe nadar.

- N�o! - Ah, te enganei.

- Eu vou jogar ele! - N�o!

Tira os chinelos.

Voc� n�o quer? Voc� n�o quer?

- Qual o nome dele? - Basta.

Que nome rid�culo para um cachorro. Ainda mais de pano.

- Foi a mam�e que escolheu. - Deve ter sido pra te zoar.

Ela disse que era um nome "apopriado".

� "apropriado" que se diz, Thom�s. Vem pegar, vem.

- Me d�! - N�o.

Os dois j� pro banho...

que o almo�o vai ser servido dentro de 15 minutos.

Rosa, tira o meu cachorro dele!

Ela n�o consegue, eu sou mais r�pido que ela.

- N�o �, n�o. - Sou, sim.

E voc� n�o vai conseguir pegar. Olha que cachorro feio.

- Devolve! - Vem pegar!

Pai, pega meu cachorro dele!

Voc�s dois est�o fazendo uma bagun�a!

Rosa, obrigada pelas empadas, viu?

Vou dizer: Depois de voc�s...

as empadinhas de queijo da Rosa s�o a coisa que eu mais amo neste mundo.

Jura?

O Alexandre falou que, quanto mais a gente gosta de caf�...

a gente gosta de sexo.

N�o sou eu exatamente que falo isso. � cient�fico.

- � mesmo, Alexandre? - �.

E como � que � isso, Alexandre?

- Thom�s, eu sou seu pai. - Eu sei, Alexandre.

Eu tenho que ir para a obra.

Fica s� mais um pouquinho, meu amor...

os meninos ainda n�o acabaram de comer.

Come mais uma empadinha!

Empadinha! Empadinha!

Olha l�, o Francisco como t� nadando bem...

Quando eu crescer, eu quero nadar igual a voc�.

Vou pensar no seu caso.

Como assim?

Vou pensar se eu vou deixar.

Fa�o tudo que meu irm�ozinho quiser...

S� que voc� tem que aprender uma coisa, Tom Tom.

- O qu�? - A respirar debaixo d'�gua.

- N�o! N�o! - Voc� consegue?

Meninos!

Voc�s est�o demorando muito nesse banho.

Fica fria, Rosa.

�, fica fria, Rosinha.

Quem � que fez essa bagun�a toda aqui?

- Eu n�o fui! - Eu n�o fui!

- E quem � que est� mentindo? - Eu.

Dois minutos para sair do banho!

- Toma, toma. - N�o passa isso.

J� gastou muito. Para com isso.

T� fazendo bagun�a.

T� jogando musse pra virar xampu de cabelo de Francisco.

Isso, t� pronto, pra dormir como um nen�m.

Eu n�o sou um nen�m.

Mas mesmo assim vai dormir, porque eu preciso fazer meus exerc�cios.

- Mas eu quero ver. - T�, fica bem quietinho, t�?

Toma isso!

Quem mandou voc� mexer na minha mochila, hein?

Nojento, monte de bosta.

"Nojento, monte de bosta"?

Voc� vai ver o que eu vou fazer com voc�.

Para de gritar. Para com isso.

- M�e! - Para de gritar!

- Sabe que eu vou fazer com voc�? - N�o!

Para de gritar!

O Antonio Carlos me ligou para me contar os detalhes...

de como foi a sa�da do Collor do pal�cio.

E como � que foi?

Ele disse que estava na sala...

quando o Collor pediu pro piloto do helic�ptero...

para dar uma �ltima volta por cima de Bras�lia...

...antes de lev�-lo pra Casa da Dinda. - E?

E que o piloto do helic�ptero disse que n�o, que tinha ordens...

para lev�-lo direto para a casa.

Bem feito!

Nunca te ouvi falar assim, desse jeito.

- N�o? - N�o.

Agora t� vendo.

Que coisa mais sexy.

Voc� acha?

Voc� gosta de ver?

Voc� gosta de ver!

Voc� n�o t� esquecendo de nada, n�, Tom Tom?

Eu n�o.

Olha s�!

Olha, olha! Seus amiguinhos chegaram.

Por que ser� que eles n�o cantam?

Ser� que eles s�o mudos? Como eu era cego?

Alguns passarinhos n�o cantam mesmo. E voc� nunca foi cego...

S� n�o quis abrir os olhos quando nasceu.

Eu acho que eu t� lembrando.

Imposs�vel, ningu�m lembra quando tem um m�s de idade.

- Eu lembro. - Imposs�vel.

Eu lembro, e ponto final.

Hora da escola, meninos.

Tchau!

Rosa, voc� nunca vai deixar que prendam a gente numa gaiola, n�o �?

- Eu n�o vou deixar, n�o. - Eu tamb�m n�o.

Pensa r�pido.

Vamos, Julieta!

J� vou, meu amor. Vai ligando o carro.

Deixa eu dar um beijinho nos meus dois amores.

O Thom�s n�o quer ir na nata��o.

Nadar � o melhor exerc�cio para a sa�de.

Eu vou, sim, tava s� zoando com a Rosa.

Dizem que as pessoas mais felizes...

s�o aquelas que n�o precisam fazer hist�ria.

As que fazem enfatizam atrav�s dos seus feitos a luta pela vida...

o eterno embate.

Anos mais tarde eu entendi aquele dia.

Minha m�e e meu pai estavam felizes.

Francisco e eu tamb�m.

Al�?

Dra. Julieta, � para a senhora.

- � do col�gio dos seus filhos. - Obrigada.

Al�! Pois n�o.

Voc�s podem traz�-los aqui at� o hospital?

Obrigada, Elaine, eu te agrade�o, eu vou estar esperando.

Obrigada, Ana.

Fraturou a t�bia...

Mas parece bem discreta. T� vendo?

- �. Mas vamos ter que engessar. - Vai doer muito?

N�o, meu amor, eu vou dar um remedinho, a dor vai passar.

E para engessar n�o d�i.

Pode deixar que eu vou cuidar bem dele.

- Obrigada, Arthur. - De nada. Vou buscar a tala.

Voc� n�o disse uma vez que queria colocar gesso na perna?

Conseguiu.

Agora deixa eu olhar o Tom Tom aqui, esse queixinho.

- Oh, meu Deus... - T� sangrando muito?

N�o, s� um pouquinho, j� passou, j� t� quase bom.

Obrigada.

- Eu n�o gosto de sangue. - Eu sei, meu amor.

Mam�e vai fazer s� um curativo, bem r�pido, e voc� vai ficar bom.

Vai ficar a marca?

N�o, n�o vai.

- Promete? - Prometo.

Conta, Elaine, como � que foi?

Foi uma confus�o durante o recreio, com outros meninos...

- Briga? - Foi.

Muito obrigada, pela gentileza, viu?

Desculpe o inc�modo.

Eu vou ter que visitar outro paciente.

Eles ficam comigo, depois v�o pra casa.

Tchau, Julieta. Tchau, meninos.

Mam�e vai atender outro paciente aqui, e j� volta.

E voc�s ficam aqui quietinhos. Quem vai cuidar de voc�s � a Cl�udia...

aquela enfermeira que voc�s gostam tanto. T� bem?

- Pode deixar que eu cuido dele. - Acho bom mesmo!

Ju�zo, hein?

� da mam�e. Aqui, voc� consegue ouvir?

- Sim - � o cora��o.

T� ouvindo bem?

Deixa eu ouvir. P�e no meu cora��o.

Voc� me assustou!

Aqui, ouve.

- T� conseguindo ouvir? - T�.

� forte.

- � bem aqui, n�o �? - �.

Como vai o meu primog�nito?

Queria tirar o gesso logo. Co�a muito.

S� mais alguns dias. T� incomodando muito, t� chato?

Agora t�. Mas no come�o foi divertido.

�, a vida � assim, n�?

Na vida, as coisas tem dois lados.

Como assim?

Um lado bom e... o outro.

- � tudo assim? - Quase.

�s vezes voc� escolhe se presta mais aten��o a um ou a outro.

A gente pode fazer isso?

Pode, mas nem sempre consegue.

N�o entendi.

Se a gente pode escolher o lado bom, por que vai escolher o outro?

� verdade.

� complicado de entender. � dif�cil de explicar.

E �s vezes de identificar.

O seu irm�o tem cuidado bem de voc�?

Ele disse que, quando crescer, quer ser m�dico. Igual a voc�.

Tem alguma coisa que voc� queira me contar?

Que coisa?

N�o sei.

Alguma coisa que voc� n�o esteja entendendo.

Do col�gio?

N�o exatamente...

Alguma coisa sobre voc� e seu irm�o...

sobre as coisas da vida.

Se algum dia quiser conversar comigo...

se tiver alguma coisa que voc� n�o esteja entendendo direito...

n�o precisa ficar com vergonha.

T�?

Eu sei, m�e. Eu te amo muito, t�?

Eu te amo tamb�m.

- Que lindo! - � um presente meu.

- Pra mim? - Pro Pedro.

Voc� sempre gostou do Pedro.

Sempre.

Voc�s teriam sido felizes juntos.

Talvez. Mas voc�s tamb�m foram felizes.

� verdade. Fomos.

- E eu sou mais velha que ele. - Ah, mas n�o parece mesmo.

Eu tamb�m sou mais velha que o Alexandre.

Ah, mas n�o parece mesmo.

� diferente, voc� sabe, outros tempos. A hist�ria era outra.

Quando eu fui exilada e ele me seguiu...

talvez se eu tivesse voltado para o Brasil com ele...

Mas a� voc�s dois n�o teriam se conhecido e n�s duas tamb�m n�o.

Nessa hora, eu devia ter casado era com voc�.

Na verdade, n�s j� somos meio casadas...

Julieta, vamos embora, a gente t� muito atrasado...

o avi�o n�o vai esperar.

J� t� indo, amor! Vai ligando o carro!

Liga para o Fabinho e avisa a ele que estamos um pouquinho atrasados.

Agora s� falta a m�e de voc�s.

T� sempre atrasada.

Olha o Fabinho! Ai, que bom!

S� faltam as autoriza��es.

- Como vai, como vai? - N�o sei que seria de n�s sem voc�!

- Prazer, doutora. - Obrigada.

- Cad�? - Vamos l�?

- Quer sentar? - Sim.

- Por favor. - L� vamos n�s!

Vamos pra Buenos Aires!

Vamos!

Chegamos.

Lucrecia, as crian�as chegaram.

Esse � Thom�s, o mais pequeno.

Se parece a su pap�.

Ela disse que eu me pare�o com meu pai.

- Eu tamb�m. - Voc� � a cara da m�e.

Eu sou a cara do seu pai.

Vamos at� o meu escrit�rio.

- Voc� fala ingl�s? - � espanhol.

- Voc� fala? - Falo.

Que bom que estamos em casa. Vamos, vamos.

Que ser� o presente misterioso?

Voc� s� que sabe.

Olha!

Um livro.

Livro lindo, hein?

Um livro que a gente l� ao longo da vida.

Usa pra fazer pesquisa...

hist�ria do mundo...

Voc� tamb�m pode ler.

Poxa, vai demorar um temp�o pra voc� ler isso...

E cad� o presente do Tom Tom, pai?

Eu esqueci, desculpa.

N�o!

O que ser�?

O presente do Thom�s.

Francisco cuidava pra que eu estivesse sempre contente.

Na medida do poss�vel, claro.

Aquela era a primeira vez que �amos juntos a Buenos Aires.

Feliz Natal, pai.

Vamos entrar aqui.

Aqui no cemit�rio?

Eu sei, onde colocam a gente quando morre.

Eu n�o quero entrar.

Tamb�m n�o.

Voc�s est�o aqui para passar o Natal...

que � uma celebra��o da vida, do nascimento de Jesus.

Quando ele morreu colocaram ele a�?

N�o, ele ressuscitou.

Francisco, me explica isso?

Eu n�o sei te explicar isso, n�o.

Lucrecia, me explica?

Tamb�m n�o sei.

E a�, Tom Tom, j� escolheu?

Eu n�o sei ler ingl�s.

Eu escolho para voc�. Voc� quer um sorvete?

- De creme. - Chocolate.

- Creme. - Chocolate.

Creme!

Pra voc� de chocolate e pra mim � de creme.

Voc� conhece todo mundo?

Quase. T� vendo aquele ali?

� meu primo.

Estou com saudades.

Tamb�m.

O Thom�s est� igualzinho a voc�.

O Alexandre diz a mesma coisa. Mas eu acho que parece com ele.

Um beijo grande, querida. Feliz Natal para voc� e para o Alexandre.

- Para voc�s tamb�m. - Ok, beijinho.

- Oi, m�e. - Oi, meu amor. Voc�s est�o bem?

Estamos. Est� tendo festa a� tamb�m?

- Est� come�ando agora. - Aqui tamb�m.

Feliz Natal. Eu te amo, meu querido.

Tamb�m te amo, m�e.

Deixa eu falar com o seu irm�o.

Um beijo, m�e.

- Outro pra voc�. - Tchau.

Ela quer falar com voc�.

Yo estoy falando ingl�s mui bien.

Mira, que rico.

No, no. Rico es el pap� de Francisco.

Ele tem muito dinheiro.

Plata!

Si, plata.

Tom Tom, Feliz Natal. Te amo, filho.

Seu pai vai falar.

Beijo.

Quer dizer que o meu filho j� aprendeu a falar espanhol?

Si, pap�, como no? Y yo ganhei muchos regalos.

Tambi�n hay regalos para ustedes aqu�.

O pai disse que tem presente para gente l� tamb�m.

Feliz Natal filho. Te amo.

- Manda um beijo pro seu irm�o. - Un beso, pap�.

Faz mui pouco tiempo que est�n a c� e hablan mui fluidamente castejano.

Agora elas est�o falando em ingl�s mesmo, n�o �?

Agora est�o.

Sabe o que elas falaram?

Que voc� esta falando espanhol muito bem.

Eu tamb�m sei fazer contas. Querem ver?

Sim.

Dois beijos mais dois beijos...

� igual a quatro beijos.

Um.

- Bom. - Dois.

Tr�s, quatro.

Querem ver outra?

Um pinto mais um pinto...

� igual a um pintinho e um pint�o.

Voc� est� linda, como sempre.

- Bem-vindo. - Obrigado.

J� faz tanto tempo.

Dois anos desde a �ltima vez que nos vimos.

Essa � a vantagem de ter um ex-marido morando em outro pa�s.

No nosso caso, desvantagem.

- N�s sempre nos demos muito bem. - � verdade.

Foi s� um desses clich�s que se aplicam aos casais separados.

Mas, no nosso caso, o clich� n�o se aplica a n�s.

- Voc� n�o vai se sentar? - Claro.

Admirava a sua beleza.

O que voc� ia dizer?

Uma vez disse para mim mesmo...

que mudaria o mundo e que a teria para sempre.

Falhei nas duas coisas.

Querido...

Rosa!

Rosa, voc� n�o mudou nada.

Nem voc�. O mesmo galanteador de sempre.

Ele � argentino... porte�o.

Posso?

- Como vai, Pedro? - Estou feliz de estar aqui, com voc�s.

- O Natal foi bom? - �timo.

Ent�o...

Vamos brindar.

- � felicidade. - � felicidade.

Agora voc�s me d�o licen�a. Daqui a pouco eu volto.

Aos seus filhos.

Aos nossos filhos.

E como eles se comportaram em Buenos Aires?

Muito bem...

causaram uma �tima impress�o e encantaram a todos.

Eles s�o muito queridos.

Mas voc� j� percebeu, por falar neles...

que eles s�o muito pr�ximos?

Claro que percebi. Afinal eles moram comigo.

Eu quero dizer...

pr�ximos demais.

Pr�ximos demais? O que voc� est� querendo dizer exatamente?

Ora, Julieta...

Fale, Pedro.

�ntimos demais.

�ntimos demais?

Voc� n�o receia que eles acabem sexualizando essa rela��o?

Eu n�o sei exatamente o que est� acontecendo com eles.

Eles s�o muito garotos.

E essas coisas acontecem nessa idade.

Voc� n�o acha que dever�amos conversar com os meninos?

Eu n�o sei o que exatamente eles est�o fazendo...

ou o que ainda v�o fazer.

Mas n�o podemos dizer a eles que isso � ruim.

Voc� n�o acha?

Ent�o voc� n�o fica preocupada?

Fico.

Eu n�o disse que � pra voc� n�o mexer nas minhas tintas?

Quem mandou voc� mexer no meu material de trabalho?

Eu n�o fiz nada, pai.

Larga ele. Nunca mais faz isso com ele.

- Ele � meu filho. - E ele � meu irm�o.

- Ele mereceu. - N�o interessa.

Agora quem vai tomar conta dele sou eu.

E para sempre.

Vamos, Thom�s.

- Voc�? - Vi.

Eu me descontrolei.

Acho que n�o estou sabendo lidar com essa situa��o...

Eu sei, meu amor...

� para sempre mesmo?

Para sempre.

Ei.

Olha pra mim.

Para de berrar! Para de berrar!

- Faz c�cegas? - Sim, muita.

N�o pode fazer xixi.

Meses depois, com a morte do Pedro...

eu me dei conta que as coisas n�o eram pra sempre...

do jeito como Francisco havia me dito.

Quinze anos depois, quando mam�e morreu...

eu tive a certeza que a perman�ncia das coisas...

n�o depende da nossa vontade.

Existe um sentido maior, misterioso, inalcan��vel.

Que determina o calend�rio do nosso tempo.

A falta que eu sentia da minha m�e naquela hora...

era um sentimento que eu n�o conhecia.

Que eu n�o sabia que existia.

Um segredo desvendado sobre o destino.

Assim sendo, deixava de ter interesse...

questionar por que ela tinha desaparecido t�o cedo.

De alguma forma este conhecimento...

nos tocou com surpreendente sentido libertador.

Ficou o amor e a saudade.

Eu te amo.

E por que voc� me ama?

Eu te amo porque voc� � meu.

Eu te amo porque voc� precisa de amor.

Eu te amo porque, quando voc� me olha, eu me sinto um her�i...

e sempre foi assim.

Eu te amo porque, quando eu te toco, eu me sinto mais homem...

que qualquer um.

Eu tamb�m te amo.

E por que voc� tamb�m me ama?

Eu te amo porque, quando eu te toco...

eu te fa�o sentir mais homem que qualquer outro.

Eu te amo porque nunca poder�o nos acusar de amor.

Eu te amo porque, para entender o nosso amor...

seria preciso colocar o mundo de cabe�a para baixo.

Eu te amo porque eu sei que voc� poderia amar outra pessoa...

mas mesmo assim voc� me ama.

Apenas eu.

Apenas voc�.

Apenas voc�.

Muda a m�sica, Thom�s.

- O qu�? - A m�sica.

- N�o t� escutando. - Muda a m�sica!

Viu o que voc� fez?

Calma, calma.

Calma, n�o vai nem precisar dar ponto.

Muda a m�sica.

T� melhor?

Vai. Muda.

T� bom, vai.

Apropriada.

Ei.

Ivan estava tentando me convencer a voltar a nadar.

Claro, voc� sempre nadou t�o bem.

S�rio. Voc� pode voltar a competir...

� s� voltar a treinar.

Meu maior f�.

Eu sou seu maior f�.

- Vamos? - Vamos.

Se cansou?

N�s sempre v�nhamos aqui com o Alexandre nas tardes de s�bado.

Quando �ramos crian�as.

E aos domingos � tarde �amos ao bal� com a mam�e.

Se lembra?

O Alexandre n�o gosta de bal�...

e a mam�e n�o gostava de corrida de cavalos.

Fora isso, se davam muito bem.

E voc�s tamb�m se d�o muito bem, n�o �?

�!

�s vezes fico at� com um pouco de ci�mes.

Eu sei como � que �.

- Como � que � o qu�? - Sentir ci�me.

Como assim?

Ci-�-mes.

� plural ou singular?

- O qu�? - � ci�me ou ci�mes?

Os dois, tanto faz.

Tanto faz. E voc� sentiu ci�me de quem?

De voc�, claro.

E quando foi que eu te dei motivo para sentir ci�me?

Para come�ar, a gente n�o precisa de motivo para sentir ci�me.

Mas teve uma vez, quando eu tinha uns 11, 12 anos...

e voc� uns 5, 6...

que eu senti de verdade.

Precoce, hein?

Voc� n�o vai contar aquela hist�ria da Maria de F�tima de novo, vai?

- Vou. - Ah, n�o vai, n�o.

- Essa eu perdi. - Foi minha primeira professora.

- Eu desmaiei na escola... - Por causa dela.

- Fui parar no m�dico... - Que te entupiu de rem�dio.

Eu gosto de rem�dio. E de m�dico.

Na �poca, voc� me convenceu que era apaixonado pela professora.

Pode at� ser...

sabe como � que �. Eu era muito jovem...

acho que estava um pouco confuso.

Tamb�m nessa idade, quem n�o fica sexualmente confuso?

Olha o Ivan.

Acho que estamos exagerando um pouco nas nossas intimidades.

- Voc� ficou constrangido, Ivan? - Claro que n�o.

- Mas eu queria fazer uma pergunta. - Fa�a.

Voc�s nunca se separaram, n�o �?

Poucas vezes.

S� quando eu estava competindo ou voc� trabalhando.

�. Por qu�?

� que o Thom�s recebeu um convite para treinar para as Olimp�adas.

Ele t� mentindo. Olha a cara dele.

Isso � maravilhoso.

- Ele t� brincando. - Por que esse seu ar de preocupa��o?

Na R�ssia.

Como assim, na R�ssia?

Treinar na R�ssia.

Eu n�o vou.

Eu n�o vou.

Pera a�, pera a�.

Acho que eu entendi o que que o Ivan disse...

mas fiquei meio nervoso e acabei criando esse clima.

Eu entendi, mas eu n�o quero ir.

- Vamos conversar com calma. - Eu imaginava essa situa��o...

Mas eu n�o podia deixar de te contar. Afinal, o convite foi para voc�.

E por quanto tempo?

Bom, a ideia seria de que ele treinasse l� at� as Olimp�adas.

Tr�s anos.

Pera a�, gente, pera a�. Eu n�o preciso ir treinar na R�ssia.

Eu j� tenho o melhor treinador aqui mesmo.

Mas n�o � s� o treinador. S�o as condi��es de treinamento.

Eu sei, mas...

Thom�s, agora n�o � a hora certa para continuarmos essa conversa.

Voc� t� certo.

Parab�ns.

O que que voc� quer?

Eu n�o quero ir.

Thom�s, t� decidido ent�o.

N�o � t�o simples assim.

Eu sei.

Me desculpe.

O Francisco acha que eu n�o posso deixar de ir.

Conversamos sobre isso a noite inteira.

Que que voc� acha?

Filho, eu fico muito orgulhoso.

Acho que seria �timo para voc� profissionalmente...

mas, sinceramente, eu n�o sei o que dizer.

E ent�o, o que que eu fa�o?

Acho que esse � um assunto que voc�s dois v�o ter que resolver sozinhos.

Eu vou apoiar qualquer decis�o.

Viu?

Por que voc� se mudou?

Porque j� estava mais do que na hora de voc�s morarem sozinhos.

Eu sei, mas o que eu perguntei foi por que voc� saiu da casa?

Voc� tivesse continuado morando l� e que a gente sa�sse.

N�o faria sentido...

eu continuar morando l� sem a sua m�e.

Al�m do mais, a casa est� muito bem habitada por voc�s.

Obrigado, pai.

"Perdoa-me, Cord�lia,

mas, a n�o ser tu, minha irm� e t�o bela,

n�o tive um n�tido e premente desejo por mulher alguma.

Mas sempre gosto de ser chupado.

Ent�o �s vezes seduzo algumas de bei�olinha revirada.

Mas o falo na rosa,

nas mulheres, s� 'in extremis'.

H� em todas as mulheres um langor, um largar-se que me desestimula.

Gosto de corpos duros, esguios,

de n�degas iguais �queles gomos ainda verdes,

grudados tenazmente � sua envoltura.

Gosto de cu de homem, cus viris,

uns pelos negros ou aloirados � sua volta,

um contrair-se, um fechar-se cheio de opini�o...

Bunda de mulher deve dar bons bifes,

no caso de desastre na neve.

Leste sobre os tais que comeram os amiguinhos e amiguinhas congelados?

Voltando �s n�degas. As tuas.

Douradas e frescas. Tu foste �nica.

Tuas n�degas tamb�m.

Firmes, altas, perfeitas como as de um rapaz.

N�o fa�as essa cara e n�o rias. "

N�o faz c�cegas!

N�o se mexa, eu j� volto.

- T�? - T�.

Sa�de.

Qual � a comemora��o?

Estende a m�o direita.

Voc� n�o acha que eu ia deixar voc� viajar sem uma alian�a, n�o �?

Voc� n�o acha que errou de m�o?

Vamos cumprir o ritual. Primeiro nessa m�o, depois a gente muda para a outra.

E cad� a que eu vou colocar em voc�?

Ou voc� acha que eu vou embora e deixar voc� assim?

T� aqui.

Estende a m�o direita.

Mais uma coisa.

- O que � isso? - Abre.

E ent�o, gostou?

- Gostei. - Bom, n�?

- Lindos, n�o? - Quem?

Quem? Os argentinos.

A mi me gusta.

N�o vejo a gra�a.

- Como n�o? � leg�tima. - Pra quem?

- Voc� ficou com ci�me? - N�o foi ci�me.

S� n�o achei o coment�rio apropriado.

O qu�?

Sobre a beleza dos argentinos.

Voc� n�o entendeu.

Voc� � argentino.

O meu argentino.

Voc� tem que concordar que os outros tamb�m s�o muito bonitos, n�?

Vamos dan�ar.

N�o, nem pensar.

Mas que esp�cie de argentino � voc�, que n�o dan�a?

- Da esp�cie fraude. - Vamos...

Dan�a comigo?

Bueno.

Ser capaz de se entregar inteiro e completamente a uma outra pessoa...

� a melhor coisa da vida.

O amor verdadeiro come�a a�...

nesta entrega incondicional.

A vida pessoal s� vale a pena...

quando se acredita na depend�ncia m�tua.

Comigo e Francisco era assim.

Bom dia, Tom Tom. Estava aqui ansioso para falar com voc�.

Podia ter me ligado.

Eu n�o queria te acordar.

Voc� sabe que eu gosto quando voc� me acorda.

Isso quando a gente est� dormindo juntos, n�o �?

Mesmo longe eu tamb�m gosto.

E, al�m do mais, eu n�o estava dormindo.

Eu sei, me confundi.

Desde que voc� foi pra a� eu me confundo o tempo todo...

Eu estou morrendo de saudade.

Eu tamb�m.

P�e logo uma c�mera nesse computador.

Pra eu poder pelo menos te ver na tela.

Eu estou te vendo agora.

E voc� est� mais lindo ainda.

Eu t� horroroso. Consumido pela saudade.

T� nada.

Coloca logo uma c�mera, vai, pelo menos a gente pode...

Eu n�o vou aguentar ficar fazendo sexo por telefone.

Mas � s� ouvir a sua voz que eu fico excitado.

E como � que voc� acha que eu estou?

Me mostra como � que voc� est�.

N�o faz isso comigo.

Me mostra.

Mostra o qu�?

- Muito frio? - Muito.

Queria estar com voc�.

Meninos, eu vi que voc�s estavam on-line, e n�o resisti.

Oi, pai, que saudade.

Eu tamb�m estou, meu filho.

- E de voc� tamb�m, Francisco. - Como assim?

Assim... desde que o Thom�s viajou que eu s� te vi uma vez.

T� brincando!

Voc� t� parecendo um pai velhinho.

Estou falando � porque eu estou com muita saudade dos dois.

Carente de filho. E, como voc� est� pertinho, n�o �, Francisco...

n�o custa me dar um pouquinho de aten��o.

� s� falta de tempo.

Fala s�rio, n�, Francisco.

O que que voc� anda fazendo que n�o tem tempo para visitar o pai?

Ah, eu t� caindo na farra.

Ei, ei, voc�s dois. N�o v�o levar a s�rio as cobran�as de um pai solit�rio.

N�o v�o discutir por minha causa.

N�o � por sua causa, Al�. O Thom�s deve estar com ci�me.

L� vem voc� com esse papo de ci�me de novo.

Daqui a pouco vou acreditar nesse sentimento.

Vou desligar. Porque essa conversa n�o � para tr�s.

N�o, fica a�, pai.

Mas tem algum motivo para eu estar com ci�mes?

Estou s� brincando.

Olha s�, vou ter que desligar, tenho que ir treinar.

Mas � domingo. Voc� treina no domingo tamb�m?

Claro. Pai, aqui � a R�ssia.

Foi pra isso que ele foi pra l�.

Foi. Foi pra isso que voc� me mandou para aqui.

Acho que te chateei, n�o �, Tom Tom?

Deixa pra l�. Eu estou exagerando.

Desculpa.

Acho que eu estou com muita saudade.

Vamos almo�ar amanh�, Francisco?

- Aqui ou a�? - A gente se encontra no Bistr�, �s 13h.

Tamb�m quero.

Te amo, meu filho. Saudades.

Tamb�m te amo, pai.

Boa noite.

Desculpa. Eu vou abaixar.

Desculpa. Boa noite.

Boa noite.

Os vizinhos de novo.

Mas voc� nem t� tocando alto.

Mas eles ficam amea�ando chamar a pol�cia.

Gente.

Vizinho � assim mesmo.

N�s temos um cachorro j� faz quatro anos...

e, mesmo morando em casa, tem vizinho que reclama at� hoje.

- A gente quem? - O qu�?

Voc� falou "a gente tem um cachorro". Voc� mora com quem?

Com o Thom�s.

E quem � Thom�s?

Meu irm�o.

S� voc�s dois?

E o cachorro, Basta.

- Basta o qu�? - Basta o cachorro.

Pera a�, t� perdida. O que voc�s est�o falando?

O nome do cachorro � Basta.

Nossa.

N�o tinha entendido.

Tenho que ir. Amanh� tenho que estar no consult�rio �s 9.

- Consult�rio de qu�? - Cl�nica geral.

Voc� � m�dico?

- Sou. - Adoro m�dico.

N�o fica assim, n�o.

Essa menina tem um fogo.

Como assim, F�bio?

Gente.

Beijo.

Beijo.

Eu te levo at� a porta.

- Ele � meu. - Por qu�?

Como assim, por qu�? Porque eu gostei dele.

Tive a impress�o que ele tem algu�m.

Ent�o esse algu�m tem um problema. Porque ele � meu.

Quanta confian�a!

Oi, Bianca, tudo bem?

Vamos deixar para o fim de semana?

T� saindo direto, t� cansado. Ainda tem plant�o no hospital.

Eu tamb�m gostei.

Vamos, sim.

Eu te ligo no s�bado.

Pode ser?

Certo. Beijo.

Fica a�.

Voc� parece cansado. Est� abatido e com olheiras.

T� saindo um pouco demais.

- Voc� quer falar sobre isso? - Agora n�o.

Mas t� tudo bem. Eu estou um pouco perdido.

Estou morrendo de saudades do Thom�s.

Eu imagino.

N�o precisa ficar preocupado, eu n�o estou fazendo nada de mais.

Quando voc� quiser falar, voc� sabe que pode contar comigo.

Voc� falou como a minha m�e agora.

�.

- Eu aprendi com ela. - O qu�?

As coisas da vida.

Ela tamb�m te faz muita falta, n�o �?

Muita.

- Ol�. Cheguei cedo? - N�o. Chegou na hora.

D� licen�a.

Nossa. Bela casa.

Sempre morei aqui.

- Desde que nasceu? - Praticamente.

Posso deixar aqui?

Claro.

Linda.

- Sua m�e? - �

- Muito bonita ela. - Obrigado.

Ela mora onde?

J� morreu. Faz pouco tempo.

- Sinto muito. - Tudo bem.

E seu pai?

� esse daqui.

Ele tamb�m � bonito.

Tamb�m j� morreu. Eu tinha doze anos.

E esse aqui, provavelmente � seu irm�o?

� o Thom�s.

Ficou mais feliz, assim falando dele.

Talvez seja porque ele est� vivo ainda.

Que horror.

E onde ele est�?

- T� morando fora. - Aonde?

- O qu�? - Fazendo o qu�?

Ele � nadador. T� treinando.

- M�ximo. - � o m�ximo.

O que voc� quer? Ouvir alguma coisa?

Voc� quer beber alguma coisa?

- Tem gim? - Tem.

Um dry martini. Voc� sabe preparar?

Claro. � o drinque preferido do Al�.

Quem � o Al�?

Meu padrasto. O segundo marido da minha m�e.

- Morreu tamb�m? - N�o. Ele...

Voc� quer ouvir alguma coisa?

Quero.

Alguma coisa rom�ntica.

Tipo?

Tipo tema de filme.

Ei, ei, calma.

Eu gosto forte, mas assim t� machucando.

Desculpe, n�o foi a inten��o...

Calma. N�o foi nada grave.

- T� tudo bem? - T�.

- O que foi? - Nada.

Acho que � falta de pr�tica.

- De beber? - �.

�. Na verdade, eu bebo pouco.

N�o tinha reparado.

� uma alian�a, n�?

Sim.

Eu n�o deveria.

�, n�o deveria...

Mas tamb�m a gente n�o precisa ficar assim.

Foi s� um beijo.

- Foi s� um beijo. - �.

Foi s� um beijo.

S�.

Muito bonito seu irm�o.

N�o sei quem � o mais bonito.

Voc� tamb�m � linda.

Obrigada. Eu sei.

Ent�o...

- Ent�o. - Tchau...

- Boa noite. - Boa noite.

Que eu n�o veja obst�culos na uni�o de cora��es sinceros

O amor n�o se turva em �guas turvas,

nem se curva ante a chuva

N�o. � uma luz constante

que a tempestade n�o altera

� a estrela de toda nau errante

de brilho claro, embora sem mat�ria

N�o � joguete do tempo,

embora a carne sofra o peso de sua foice

Se isso for falso e provado tamb�m

eu n�o escrevi, e nunca se amou ningu�m

Tava indo aonde?

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