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BASEADO NOS ROMANCES DE
Scarpetta.
Lamento acordá-la.
Homicídio em Daingerfield, na linha do comboio.
Raios. Está bem.
Está bem. Entendido.
Mandou-me ligar.
Pois mandei. É verdade.
Vou já.
Bom dia - Não te quis acordar. A reunião foi alterada. Até logo. Beijos
É bom tê-la de volta.
Nada foi feito como devia ser desde que saiu.
Por aqui.
Esta é a agente Fruge. Foi a primeira a chegar ao local.
Dra. Kay Scarpetta.
Eu sei quem a senhora é.
E estou feliz por estar de volta.
Não que alguém não esteja.
Mas sabe que há quem não esteja.
Abe, a honesta. Cuidado.
É desconhecida.
Despejada como lixo.
O meu marido diria que se esforçou muito
por a apresentar ao público.
E o que diria ele… por as mãos terem desaparecido?
Retardar a identificação do corpo?
Talvez.
Agressão sexual?
A encenação, sem roupa.
Há componentes sexuais, sem dúvida.
Podes aguardar aí?
Desculpe. O comandante diz que ninguém pode entrar sem autorização.
O Pete Marino, às 12 horas.
Raios.
- Não. Ainda nem assumi o cargo. - Doutora.
Não podes aparecer como se fosses da equipa.
- A Lucy quer que a leves a Wellwood. - Não! O quê?
A Lucy quer que a leves a Wellwood.
- É o aniversário dela. - Eu sei.
Vieste para me dizer isso?
Não podes fazer isso. Vai para casa.
Posso ter sabido de um cadáver
na linha do comboio. - Tens de parar.
Isto é mau.
Isto é péssimo.
- Queres que fique? - Quero que vás.
Vai. Agora!
28 ANOS ANTES
Scarpetta.
Fala o Pete Marino. Temos mais um.
Certo. Já vou.
5602, Berkeley, Berkeley Heights.
Está bem. Entendido.
- Depressa. - Sim, entendido.
Desculpa, querida.
Obrigada. Espero não te ter acordado.
Não durmo nada desde 65.
Nem sei se isso é uma idade ou um ano.
E tenho medo de perguntar.
Houve um quarto homicídio?
Sim.
- Trancas a porta quando sair? - Claro.
Não te preocupes. Nem os nazis conseguiram apanhar-me.
- Se a mãe ligar… - Não vai ligar.
Ela tem sorte em ter a tia Kay.
Obrigada.
Por aí…
… algures…
… há um homem.
Mas que raio?
Controla-te.
Desculpe?
Dra. Kay Scarpetta, médica-legista-chefe. E o senhor é…
- Agente August Ryan, doutora. Chefe. - Certo.
Deve usar luvas aqui.
Algum tipo de EPI. Não pode contaminar o local do crime.
Nunca fui o primeiro a chegar ao local de um…
… homicídio macabro e…
Na primeira vez num local assim,
vomitei num lugar privado.
Não conte a ninguém.
Da próxima vez, será melhor.
Simplesmente…
Doutora.
É o marido. Matt Petersen.
Sr. Petersen, a nossa médica-legista.
Detetive Marino.
Lamento muito a sua perda, Sr. Petersen.
A sua esposa era médica?
Especialista em cirurgia no Centro Médico da Virgínia.
Trabalhava nas urgências.
Normalmente, voltava às 00h30.
E o senhor não estava? Ou…
O Matt estava nos ensaios de uma peça. É ator.
Cheguei tarde, depois das duas da manhã.
Estava escuro, presumi que estivesse a dormir, mas…
… quando fui ao nosso quarto, havia um…
… cheiro.
- Que tipo de cheiro? - Não sei.
A xarope de ácer, mas…
… azedo.
Podre.
Horrível.
Amarrada, tal como as outras.
Ela estica a perna e a ligadura aperta como um laço.
Cabrão, fá-las asfixiarem-se.
Há água na banheira.
Deve ter sido onde a apanhou.
Vestiu-lhe a camisa de noite
só para a cortar.
A persiana desapareceu.
Se calhar, entrou assim.
As outras vítimas eram solteiras.
O ADN do marido poderá ser útil.
O nosso suspeito não segrega, o que o descarta.
Doutora…
Isso é do marido?
Vou perguntar-lhe.
MÉDICO-LEGISTA
- Dra. Scarpetta! - Comandante!
Dra. Scarpetta!
Quando vai divulgar os relatórios da autópsia
das primeiras vítimas?
Porque só esperou uma semana entre as mortes?
Se não lhe disse ontem, Abby,
quando ameaçou a minha equipa com a Liberdade de Informação,
não lhe vou dizer agora.
Ligaste ao procurador?
Sim.
E ao meu chefe também.
Gosto de ter todos em cima de mim.
Esse sarcasmo dá-me muita esperança para o futuro.
Dra. Scarpetta.
Sr. Boltz.
- Passamos por aqui? - Sim.
A função dos funcionários públicos é dizer a verdade aos cidadãos.
Foi esta evasão que imaginou para o novo regime de Scarpetta?
Doutora!
Esta manhã,
uma mulher local foi brutalmente assassinada em casa.
A polícia não divulgou a identidade da vítima,
mas presume-se que seja o quarto homicídio num ano…
Juro solenemente.
Juro solenemente.
Que apoiarei a Constituição da Comunidade da Virgínia.
Que apoiarei a Constituição da Comunidade da Virgínia.
Com fidelidade e imparcialidade…
Com fidelidade e imparcialidade…
… desempenharei todas as funções que me incumbem…
… desempenharei todas as funções que me incumbem…
… como médica-legista-chefe…
… como médica-legista-chefe…
… do melhor modo possível.
… do melhor modo possível.
- Que Deus me ajude. - Que Deus me ajude.
Ótimo. À segunda, é de vez.
Boa sorte, Dra. Scarpetta.
ESTADO DA VIRGÍNIA
Perdemo-lo? Raios!
Parabéns, Dra. Scarpetta.
E seja bem-vinda de volta.
Não estava à espera de vos ver aqui, Dr. Reddy e Maggie.
Bem, é maravilhoso voltar a vê-la.
Parabéns, Dr. Reddy, por ter sido nomeado comissário da saúde.
Sinceramente, nem eu esperava.
Acho que ninguém esperava.
Estava tão entusiasmado com a reforma quando falámos.
Era a casa do lago? O barco a remos?
O nó king sling?
E aqui está.
Digamos que o governador me fez uma oferta e eu não pude recusar.
Trouxe-lhe algo.
Uma pessoa?
Gostaria de trabalhar para si.
O quê?
Para facilitar a transição.
Ninguém na comunidade conhece melhor o meu gabinete, que agora é seu,
do que a Maggie.
Será os seus olhos e ouvidos.
Apoio total e uma linha direta com o comissário de saúde.
Não posso roubá-la ao Dr. Reddy.
Quero dizer, não precisa dela?
Ele fica bem.
Está aqui há um mês?
Muita coisa mudou desde o seu último mandato.
Pense em mim como um de presente de boas-vindas.
Como antigamente.
Quer mesmo voltar a trabalhar para mim?
Dra. Scarpetta, dei a vida a este escritório
e ele deu-me vida.
Ótimo. Está bem.
Pronto. O Fabian ligou. A desconhecida está pronta para autópsia.
- Ligou-lhe a si? - Sim.
É o que faz para passar a palavra.
Olhos e ouvidos. Não lhe disse?
Ótimo. Olhos e ouvidos.
Porque não me fala da sua mulher, Matt?
Conhecemo-nos em Harvard.
Ela…
Tinha um jeito… Parecia ter muito em que pensar.
Conheceram-se numa aula ou nalgum clube extracurricular?
Também lhe perguntaste do batismo?
Devias tê-lo visto.
Foi uma mudança de atitude total, quase despreocupada.
Não o sensível fragilizado que viste.
Foi numa festa.
A Lori sempre foi solitária, mas com intensidade, um tipo de…
Propósito.
Que festa era?
Uma coisa informal.
Estava a sair quando ela chegou e…
A voz dela.
Simplesmente…
Fiquei boquiaberto.
Era uma voz grave.
Linda.
Reparou nisso?
O tom dela era perfeito.
E era costume da Lori ser simpática com estranhos?
Se alguém passasse lá em casa, como um estafeta, convidava-o a entrar?
Não.
Não, sabia os perigos de viver na cidade.
Trabalhava nas urgências.
Por isso, devia ter o cuidado de manter as janelas fechadas.
Talvez a julgasse fechada.
Deixou, sem querer, a janela destrancada no fim de semana,
quando veio trocar a tela.
Odiava quando eu saía.
Alguma coisa o fez querer ser ator, Matt?
Estudei teatro para me ligar às emoções,
necessidades e impulsos.
Os bons e os maus.
Teve de estudar teatro para isso?
"Tinham algo que precisava de ser mantido em segredo?"
"Sim."
"Incorruptível, sim."
"E a morte era o único sítio onde podia ficar guardado."
Cat on a Hot Tin Roof, de Tennessee Williams.
Não era maricas?
O tipo está fora de si.
Não se faz discursos de peças de teatro
com a mulher chacinada, a menos que se seja sociopata.
E pesquisei. O Tennessee Williams era maricas.
Não uses essa palavra à minha frente.
- Que mal tem? - A sério. Não tolero.
Obrigou-a a asfixiar-se vezes sem conta.
Como se liga um marido que mata a mulher
aos três homicídios?
Quem sabe?
Talvez ela fosse o objetivo.
E as outras? Foi só para nos despistar?
O Petersen dá-me arrepios, está bem?
Levei-o à esquadra. Tenho todo um…
Mas é alguém que se diverte a matar.
Não é um homem a tentar livrar-se da mulher.
Levo as impressões digitais ao gabinete da Nelly Cho.
Sim, faz isso.
A forma da morte é homicídio, o mecanismo é exsanguinação, ponto final.
A causa da morte é um ferimento no pescoço, ponto final.
O ferimento na cabeça, embora significativo, não foi a causa,
talvez para a incapacitar, ponto final.
A zona ferida e lacerada do couro cabeludo
tem um diâmetro de cerca de dez centímetros, ponto final.
A arma teria de ser dura e lisa,
plana, larga e arredondada, ponto final.
Dra. Scarpetta?
Sim.
É admirável como manteve a forma ao longo dos anos.
De que precisa?
O agente Ryan ligou.
Há uma situação que requer a sua ajuda.
É sobre a desconhecida na linha do comboio?
Deixei aqui a morada.
É sobre a desconhecida?
É terrível ser chamada "desconhecida".
Em todos os anos cá, sempre me pareceram as mais tristes.
Maggie, é sobre a desconhecida?
Sim.
Maravilhosa.
É estranho…
… falar aqui…
… onde não respondes.
- Isto foi ideia tua. Vai. - Nem pensar.
Pediu que a levasse.
Não que lhe desse a mão.
Mas estou a ouvir-te dizer…
É estranho ou é giro?
- Porque não? - Isto é privado.
É um cemitério, Kay.
Há pessoas de luto.
- Estão ali… - Dorothy, olha para mim.
Privado no sentido de alguém que percebe os limites sociais
e emocionais. - Sim, mas a Lucy não é assim.
- Tu. Tu não és assim. - Certo.
Porque a Lucy é tal qual eu, porque é minha filha, certo?
E chamavam-me criança rebelde…
- "Criança rebelde"? - Que foi?
- É "criança rebelde". - Não. A letra não é assim.
- É, sim. - "Corria a gritar 'Wildfire'".
É sobre um cavalo morto.
E chamavam-me criança…
- Não é assim. - Criança rebelde.
"Yellow Mountain, noite fria no Nebrasca
e um pónei chamado Wildfire." - Criança rebelde.
Meu Deus, não acredito que vamos discutir por qualquer coisa.
- Uma música da infância? - Sim.
- Porque discutir é o idioma… - Quero dizer, tu…
… a língua dos irmãos.
Podíamos tentar não nos sentir ameaçadas.
Não me sinto ameaçada por ti.
- Não me sinto ameaçada por ti. - Esquece.
Não, não aguentaria o teu dia. Nem um dia.
Nem um dia.
Não. Tu ganhas.
Só de pensar em estar perto de um cadáver…
Destruir-me-ia o cérebro com o…
Se não tivesse visto a morte em tão tenra idade,
teria tido outro rumo profissional.
Talvez.
Ele também era meu pai, Kay.
Vai-te lixar.
Adoras ser estranha.
- Não sou estranha. - És.
Não, não sou. E tu não és normal.
- Sou normal. - Ter dinheiro não nos torna normais.
Na verdade, antes de mais, torna, sim.
- E, segundo, incomoda-te muito… - Que…
… eu ter dinheiro.
- Incomoda-te. Ficas ressentida. - Não fico.
- Ficas! - Mas que raio?
- Ficas! É sempre… - Não.
Calem-se!
Calem-se, sim?
Vê o que fizeste. A culpa foi tua.
Dá-lhe um momento. Afasta-te.
Vai-te lixar.
Entra no carro.
Desculpe. É…
É a Dra. Scarpetta?
Sim. Dra. Kay Scarpetta.
Agente Ben Wesley. Muito gosto.
- Sim. Agente Benson Wesley. - Benton.
- Benton Wesley. - Benton Wesley. Sim.
Do FBI.
O detetive não disse que eu vinha?
Disse. Sim, é o agente Wesley. Olá.
Encontramo-nos no meu gabinete. É ali em baixo.
Vou enfiar-me numa lavagem de carros ou assim.
Provavelmente.
Vou ver se encontro o Pete.
- Certo. Vemo-nos lá. - Sim.
Sim. Está bem.
Adeus.
O marido dela é inquieto. Em breve, há de ir ao polígrafo.
As pessoas estão assustadas.
O tempo é essencial, sim, senhor.
Mais algum chavão?
O procurador Boltz não está satisfeito com os progressos?
Nunca confie em homens bonitos.
É igual com o Petersen e o Boltz.
Como disse, o homicida não é negro.
Concordo. A mistura interétnica é invulgar.
- Não acontece. - Só se o homicida
estiver a descompensar.
- Seja lá o que isso for. - Está a perder a cabeça.
Discutem sempre assim?
- Não. - Sim.
O VICAP junta um analista do FBI a um detetive de homicídios.
Para podermos aprender sobre assassinos e tretas psicopatas
e eles ficarem mais durões, engraçados e giros.
Como é que a Lori Petersen afeta o seu perfil?
Este tipo é alguém para quem não se olha duas vezes.
É funcional.
Deve ter um trabalho braçal, como construtor civil.
Como qualquer cidadão dos EUA.
Algo ligado ao trabalho.
- Inteligência acima da média. - Chocante.
Não, a melhor parte para ele é uma fase anterior.
A fantasia, o plano. Logo depois de dar conta da sua…
Quando é alimentado pela obsessão.
Sim, acho que é sádico.
Não se partem dedos de cirurgião sem querer.
Ou de violinista.
Tinha fantasias sexuais violentas
muito antes de as realizar.
Começou a olhar por janelas.
A ver e observar mulheres.
Queria vê-las sofrer.
Depois, viola. Cada violação é mais violenta.
Talvez precisasse de mais violência para se satisfazer.
Ou o motivo já não é a violação, mas o homicídio.
E quando o homicídio já não satisfaz…
- Torna-se mais sádico. - Ganha gosto pela tortura.
- Como as encontra? - Porquê elas?
Não é por acaso que o Matt Petersen,
demasiado brilhante para ser o assassino,
não segregava.
Sim, não há tipo de sangue no sémen.
É o marido da vítima mais recente?
Não pode reter informação, Pete. Não é justo.
Não era canalizador, não quis insistir.
O Ted Bundy estudou Direito.
Quem diz que o assassino não é estudante ou, atrevo-me a dizer, um ator instruído?
Credo! Se isso não é oximorónico, não sei o que é.
Há de compreendê-lo.
Bem, às vezes, torna-se cansativo compreender os homens.
Sim. Quero dizer, se fizermos asneira,
pode morrer outra mulher
e ele não pode tirar conclusões precipitadas.
O Matt Petersen preocupa-me, sinceramente, Dra. Scarpetta.
Está bem.
Chama-me Kay.
Está bem.
Está bem, Kay.
Está bem.
Será que quero saber para que serve?
Não.
Não, não queiras.
O Joe encontrou impressões que coincidem com as do Petersen.
Tem o mesmo brilho que o resto das vítimas.
Parece que o nosso Ted Bundy vai ao teste do polígrafo.
Ela nunca saiu do computador.
Gritou muito.
- Tu… - Se escondi o jornal? Sim.
Quem me dera não ter este ar. Meu Deus!
Bem, tem cuidado e sê esperta, como és sempre.
É a grande vantagem da idade, não é?
Não nos preocupamos tanto.
- Boa noite, Dra. Kay. - Boa noite.
Yaya, obrigada.
De nada.
Boa noite, Lucy.
- Porque me espias? - Não estou a espiar.
Consigo ver-te, sabes?
É por seres muito inteligente.
Lamento termos de cancelar Monticello.
Tudo bem. Gosto mais de estar no computador.
Quando dizes essas coisas, é para me magoar?
Não gosto mais do que tu. Mas tinha muito que fazer.
O quê? No computador?
Sim. A tua base de dados precisava de uma limpeza.
Não o fazes há mais de um ano.
Não? Que quer isso dizer?
Não te preocupes. Arranjei tudo.
Arranjaste? Lucy, que porra fizeste… Desculpa.
Fi-lo como devia ser. Qualquer imbecil o faria.
- Não digas "imbecil". - Dizes "porra".
Lucy, foi como quando formataste as disquetes da tua mãe
e ela perdeu um livro?
Não te preocupes, tia Kay. Tirei os dados primeiro.
- Exportaste-os? Onde? - Sim!
- Para onde? - Para um disco.
Estes?
Lucy, que fizeste ao compu…
JOVEM CIRURGIÃ ASSASSINADA
É A QUARTA VÍTIMA
A mulher que morreu era médica, como tu.
Querida…
Não quero que morras, tia Kay.
Sim, eu…
Eu sei. Não vou morrer.
O meu pai morreu.
Vem cá.
Não podes morrer, tia Kay. Não podes.
Eu sei.
Não vou a lado nenhum.
Nada me vai acontecer.
Prometo.
Está cá alguém?
Olá! Aqui!
Não é giro?
És uma festa, não és?
Está em todas as notícias. "A Nossa Senhora dos Carris."
É o que lhe chamam. Foi lá que foste?
Onde está a Lucy?
Estás assim vestida para a festa de anos
ou estás a ter um episódio mental nada subtil?
Não. Na verdade, com a minha idade,
visto-me a rigor e maquilho-me. - Que bom.
Está tudo na comunicação,
em ser aberta e dizer ao mundo: "Olá. Sou eu, a Dottie."
Olha para essas botas.
Não são giras?
Então, teres sido extrovertida a vida toda
foi só uma fachada? Para a tua timidez interior.
Sim, eu sei.
Olá.
- Que foi? - Cheiras mal.
E não é o cheiro da morgue.
- O que é? Deixa-me cheirar. - Para.
Para.
Cigarros. Marota.
Queres vinho?
Não, não quero vinho.
Já foste ver da Lucy?
Ela não tem cinco anos.
É o aniversário dela. Teve o pior ano possível.
Não sejas tão dramática, Kay.
Dramática? Ela perdeu a esposa.
- Eu sei, é triste. - Já a viste?
Onde está ela?
A falar com a falecida esposa.
Onde achas?
Vais beber. Pronto, saúde.
Parabéns, amor.
Obrigada.
Pediste um desejo?
Não.
Está bem.
Devias ir para a tua festa.
Pois. Bem, a Kay está atrasada
e não vou se só lá estiver a minha mãe.
Está bem.
É hora dos presentes.
Parabéns.
Adeus, amor.
Andas a espiar-me, tia?
Como está a Janet?
Não ajas como se fosse estranho.
Só estou a perguntar.
Desculpa pelo atraso.
Odeio o meu aniversário.
Sempre odiei e preferia ignorá-lo por completo.
Sim. Eu sei, Luce. Eu sei.
Estou bem.
Bem, comprei-te uma coisa.
É um osso de dinossauro e tem detritos de meteoritos.
Tem a forma de um símbolo do infinito,
porque sei do que gostas.
"O que somos perdura para sempre."
Acreditas nisso? Depois de tudo o que viste?
Sim.
A tua existência prova-o.
Vamos comer bolo.
Tens de ver a roupa da tua mãe.
- Não. - Sim.
O Merlin pode comer bolo.
- Sim? - Sim.
É de quê?
- Vem cá. - Sim.
Pronto, aqui está ela.
Olá.
Parabéns, Lulu.
- Obrigada. - Nunca pensei que te tirássemos
daquela cabana. - Tu não tiraste.
- Vamos fazer um brinde. - Sim, mas espera.
Aonde foram os nossos maridos?
Meu Deus!
Aí está ele.
O Benton veio mesmo a tempo.
Parabéns!
- Parabéns. - Pede um desejo.
- Isso mesmo. - Sim!
- Parabéns. - Parabéns.
- Obrigada. - Boa.
Isto é muito simpático. Obrigada.
Parabéns, Lulu. Vem cá.
- Tem bom aspeto. - Abraça a mãe.
- Obrigada. - Que tal o dia?
- Obrigada. - Saúde.
Cheiras bem.
Eu não.
A Dorothy é que disse.
Que tal a reunião?
Bem, foi uma espécie de surpresa: "Bem-vindo ao FBI,
bagel rançoso, salada de fruta".
Como foi?
Como esperado.
Lembraste-te de trazer a minha mala para baixo?
- Sim, pu-la ali. - Mas lembraste-te
de pôr o meu lip gloss lá dentro?
Não sei o que é isso.
É isto.
Está bem.
Pronto, querida.
Pronto.
Não gosta de afeto em público.
Meu Deus, mãe! Podes parar? Credo!
Parar com o quê?
Lucy, porque és tão puritana?
És homossexual.
Sou homossexual, malta.
Sabes? Se não tiveres cuidado,
vais acabar como um daqueles reclusos de Grey Gardens,
a viver com a tua tia nesta casa grande até ao fim dos tempos.
Tens mesmo de te orientar.
REJEITAR
Orientar-me como?
- Sair de casa, Lucy. - Céus!
- Sair daqui. - Dorothy…
- Que foi? - Vá lá!
Arranja casa própria.
Tinhas falado em abrir um negócio de detetives com o Peter.
- Sou eu. - Sim, falámos disso.
Pois. Ou podes sempre voltar para o FBI.
- Estão sempre a contratar. - Pronto.
Seria um gosto ter-te lá.
Obrigada, B. Não tem mal nenhum morar aqui.
- Não… - Já agora,
aos 13 anos, ganhei dinheiro suficiente para nunca mais trabalhar.
Se vivo aqui, é porque quero.
Não estou a dizer que tem mal.
Só acho que pode estar a servir de lembrete
daquilo que precisas de ultrapassar.
- Falas da Janet? A minha mulher? - Não.
- Do luto. - Pronto.
Bem, seria uma sorte eu ser a primeira a recuperar disso.
- Vens à cozinha, Dorothy? - O cinismo não nos leva longe.
- Vens cá? - Diria o mesmo da estupidez,
mas és claramente a prova viva de que não é o caso.
- Conversa dura. Vou já. - Preciso de falar contigo.
Tem cuidado.
- Agora! - Estou a ir.
Estou a ir! Credo! O que foi?
- Que é isto? - O quê?
Mas que raio estás… Desliga os brincos.
- Que foi? - Porque implicas com ela?
Porquê?
Se está feliz aqui,
porque queres tirar-lhe isso? - Parece-te feliz?
Quem perdeu a mulher no último ano vive um inferno.
Sim, mas quantos falam com os falecidos cônjuges o dia todo
como se estivessem vivos? - Tenho culpa? Vá lá…
- Culpas-me disso? - Sim!
- Não. - Sim!
Para com isso. Para.
- És tão permissiva com ela! És! - Não sou. Não, não sou.
Não lhe recusas nada.
Isso é mau?
- Sim! - Porquê?
- Falando sinceramente… - Sinceramente?
- O quê? - Sim. Acho que ela estava melhor…
O quê?
O quê?
Diz. O quê?
Acho que ela estava melhor antes de voltares.
- Como te atreves? - A quê?
Ralar-me com a minha filha?
- Tua filha? - Sim, é minha. Não é tua.
Não a criaste nem lhe deste atenção.
- Preocupavas-te quando calhava. - Estou aqui quando mais precisa.
Assim que não te apeteça estar cá, vais-te embora.
Vais-te embora. É por isso que estou cá. Para reparar tudo…
- Porque és santa. - … como sempre fiz…
- És uma santa! Uma heroína! - É o que tenho de fazer…
- Não vou fazer isto. - Sei que sacrificaste o teu trabalho
e a tua vida pela tua única sobrinha.
E tu és uma narcisista vaidosa, superficial e viciada em homens,
que nunca viu uma pila ou um espelho de que não gostasse.
Porra!
- Bem… - Porra!
- Prefiro ser eu, com pilas e tudo… - Porra, Kay!
… a ser uma cientista de merda…
- Pronto. Já… - … sem alegria e fria, como tu!
- Dou cabo de ti! - Parem.
- Tens mil notificações. - Anda lá.
Kay…
- Pronto. - Certo.
Pronto, está bem.
Pronto.
- Diz à Lucy que lamento. - Claro.
- Não lhe queria fazer isto hoje. - Sim.
- Tudo bem. - Eu…
Pronto. Que desastre.
- Toma. - Que desastre.
- É um autêntico desastre. - Cuidado.
- Eu levo-te. - Adeus.
Não vais ficar aqui com a tua querida esposa?
Vai chover, tens os pneus em mau estado e o teu carro é antigo.
- A Lucy faz anos. - Eu levo-te.
Fico eu aqui com a esposa dele?
Lamento muito.
Lamento muito.
Olha.
Olha.
Não, cala-te tu.
Muito bem. Condomínios Colonial Landing.
Sim, tu disseste-me.
Sou má para a Lucy?
- Não, é… - Diz lá, a sério.
Achas que sou má?
Acho que a Lucy é quem é graças a ti.
Isso não ajuda.
Achas que ela não devia morar comigo?
Acho que não importa onde vive
se falar com a Janet de IA o dia todo.
Se lhe disser que não, só quer fazê-lo mais.
É assim desde que nasceu.
Sim, mas nunca lhe conseguiste recusar nada.
- Vou ignorar. - Que queres?
- Que minta? - Pronto. Eu…
Estou tão lixada.
Hoje, o Reddy pôs a Maggie no meu escritório e é…
Como assim? Pôs a Maggie?
Porque faria…
Quererá sabotar-te?
Humilhaste-o diariamente durante dez anos.
Nunca teria voltado, depois de ele me ter obrigado a sair,
se soubesse que ele ia ser o meu patrão.
Bem, terias voltado, porque voltaste por ela, certo?
Voltaste para dar uma família à Lucy
e foi um bom impulso…
Talvez não tenha gostado de como tudo ficou.
Preciso de ti.
Bem, estou aqui.
Preciso de ter em quem confiar.
Eu alinho, doutora.
Tem de ser oficial. Mão sobre o coração.
- O quê? - Precisas de um cargo real.
De um trabalho.
Pela primeira vez na vida, não preciso.
Sou sustentado, não sei se sabes.
Tem de ser oficial para te proteger.
Para não seres expulso dos locais de crime e da morgue.
Por isso, tem de ser legítimo.
Que tal "especialista em operações forenses"?
- "Especialista em operações forenses"? - Sim?
É de alguém instruído.
Repete o que eu disser.
Eu, Pete Marino…
Eu, Pete Marino…
… fui nomeado especialista em operações forenses.
… fui nomeado especialista em operações forenses.
E a Kay Scarpetta vai decidir o meu trabalho.
Vai decidir o meu trabalho. Que é isto?
E ela vai fazer que o meu salário seja o mais baixo possível.
- Aceitas? - Claro.
- Olá, doutora. - Olá.
Lamento ligar tanto. Doutora?
Acabei de o nomear oficialmente para as operações forenses.
É pago e tudo o mais.
- Fez isso no carro? - Sim.
As operações forenses chegaram.
- Quem vive aqui? - Gwen Hainey, 33 anos.
Engenheira biomédica na Thor Labs.
A empresa de tecnologia na I-95
que foi notícia por imprimir órgãos humanos em 3D.
O patrão ligou quando não apareceu no escritório.
Foi outra vez a primeira a chegar.
Pois foi.
Gosta de estar em todo o lado. Aprendeu comigo.
Não sabia que eram tão próximos. Nem que se conheciam.
Acho que lhe chamam relação entre mentor e pupilo.
Alguém tem as imagens daquelas câmaras?
- Vê. Estão a funcionar. - Sim.
Sim.
Porque acha que a Gwen Hainey é a desconhecida?
Encontrámos a arma do crime.
Tirámos impressões.
Onde estava?
Estava a manter a porta da sala aberta.
Tem o tamanho e a forma certa.
Não tem sangue. Mas foi apenas um golpe.
É do laboratório.
Agente Ryan.
O golpe foi forte?
Um osso perfurado, lesão cerebral traumática.
Achas que a matou?
Acabaria por a matar.
Mas levou-a para Daingerfield Island, cortou-lhe a garganta e ela esvaiu-se.
Pode ter causado a lesão cerebral.
Sim.
As impressões já têm nome.
- E… - De quem são?
Ryan? De quem são?
Matt Petersen.
O marido da Lori Peterson, que foi assassinada?
Não, não pode ser.
São dele.
Se assim for, há 20 anos…
Apanhámos o tipo errado.
NÃO PASSAR
Este caso…
Foi a base de toda a minha carreira,
da minha reputação, de tudo.
Não posso errar.
NESTA TEMPORADA
Temos um possível suspeito de homicídio que desapareceu.
Matt Petersen.
Com o equipamento certo, acha-se qualquer um.
Podia fazer o reconhecimento nas câmaras.
Na altura, pensei que fosse ele.
Mas provaste que eu estava errado. Certo?
Se ele está envolvido, sou a culpada da morte da Gwen.
Uma mácula na tua reputação, que, de resto, é impecável.
Olhar fulminante.
Qual é a tua obsessão com o caso?
Não és assim.
Não sabes, não é?
Não sejas enigmática.
Conheço a minha mulher.
Conheces as partes dela que ela quer que conheças.
A quarta vítima do assassino.
- Ferimentos como os da Gwen Hainey? - Doutora…
Procuramos um assassino em série. E só nós o procuramos.
Não confies em ninguém. Nem em quem julgas conhecer.
Não há segredos entre nós, nem um.
Quero saber o que disseste ao meu marido.
Interferiste no meu casamento, foste demasiado longe.
Desde os 11 anos que só penso na morte.
Não!
Depois de a vivenciarmos…
… nunca mais somos os mesmos.
Legendas: Diana Salgado
Supervisão Criativa Hernâni Azenha
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