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Parque Nacional do Lago Clark, no Alasca.
Natureza vasta e próspera
onde vagueiam grandes animais.
Ursus arctos horribilis.
Acabados de acordar da hibernação,
o único objetivo deles é encontrar alimento.
Começa a caçada.
Os ursos aproveitam todas as oportunidades
para engordarem antes do inverno.
É uma corrida contra o tempo,
para se banquetearem com a abundância,
no Parque Nacional do Lago Clark.
O Parque Nacional do Lago Clark é uma joia escondida do Alasca.
Uma paisagem intocada,
quase inalterada durante milhares de anos.
Criado em 1980, o parque protege as nascentes principais
da maior migração de salmão-vermelho do planeta.
Deve o nome a um dos lagos dele,
o Lago Clark com 64 km de comprimento.
Mas há aqui mais de 20 lagos, todos repletos de vida.
A água é o fluido vital no parque.
Um casal de mergulhões-de-faces- - brancas em cortejamento.
Têm um local de nidificação perfeito:
uma margem pouco profunda do lago, rodeada de vegetação,
onde não deverão ser incomodados.
O macho enfrenta um desafio.
Ele quer uma família, mas antes tem de impressionar a fêmea
com as aptidões dele para construir ninhos.
Pode parecer que está a exibir-se, porque está.
Alguns últimos retoques antes da inspeção.
A fêmea é que dá a aprovação.
Ela gosta do que vê
e convida o macho para se juntar a ela.
É provável que um construtor de ninhos atento
dê um progenitor atento.
Agora, resta esperar para ver se o casal tem crias.
O progenitor ainda está a trabalhar.
A próxima função dele é alimentá-las.
Mas não é fácil digerir peixes com muitas espinhas.
Para sorte das crias, a progenitora mostra-lhes um truque bizarro.
Ela arranca uma das penas dela
e devora-a.
As penas funcionam como uma peneira
protegendo os intestinos de espinhas afiadas de peixe.
Mas o mais complicado
é que também tem de fazer com que as crias engulam uma pena.
Não vai ser fácil.
Quase.
Por fim, a cria conseguiu.
Uma solução engenhosa para um problema espinhoso.
No que toca a alimento, os animais deste parque têm sorte,
porque o solo do Lago Clark
é extremamente fértil.
Graças a 180 milhões de anos de atividade vulcânica.
Dois vulcões ainda estão ativos:
Monte Redoubt e Monte Iliamna.
Lançam cinzas ricas em minerais, o fertilizante da Natureza,
para todo o parque.
Os glaciares também desempenham um papel
esmagando o leito rochoso quando se deslocam,
criando farinha glaciar repleta de nutrientes.
A água do degelo leva a farinha até aos lagos.
Dá-lhes a cor turquesa característica.
Estes nutrientes espalham-se ao longo de 9655 km
de rios e de riachos que fluem pelo parque,
ajudando a criar um ecossistema próspero.
As águas do degelo também transportam pedras
que são espalhadas ao longo da costa.
São o espaço de descanso perfeito
para as focas-vulgares e as crias delas.
Estas rochas são um abrigo para elas, longe da costa
e de predadores terrestres como lobos, ursos e coiotes.
Daqui a menos de um mês,
as crias estarão prontas para viverem sozinhas.
Para cumprirem esse prazo, não saem de junto da progenitora.
O leite rico em gordura fará com que fiquem grandes e fortes, depressa.
Dentro ou fora de água, têm de acompanhar.
Quando querem descansar,
as rochas glaciares são um abrigo, longe do perigo.
Para lá da costa,
o Parque Nacional do Lago Clark oferece outro habitat rico.
O pântano de água salgada.
Um dos ecossistemas mais produtivos do planeta.
Floresce graças a enormes marés de água do mar rica em nutrientes
que se mistura com os sedimentos dos rios ricos em minerais,
para criarem um supermercado biológico.
Os prados são a fonte de alimento perfeita
para um dos maiores habitantes do parque
que acorda do sono de inverno.
Ursus arctos horribilis.
A abundância de alimento em todo o parque
permite-lhe sustentar uma das populações mais densas do mundo
onde eles conseguem viver até aos 25 anos.
Entre eles está uma fêmea recentemente saída da toca.
Não está sozinha.
Esta progenitora tem uma cria adorável,
desejosa de explorar o mundo à volta dela.
Mas a progenitora tem uma missão.
Quando os ursos acordam da hibernação,
normalmente, perderam cerca de 40 por cento do peso deles.
Este casal só tem cinco meses para engordar,
antes do próximo inverno duro do Alasca.
A progenitora e a cria só pensam numa coisa:
alimentar-se.
Dá muito trabalho.
A progenitora alimenta-se durante 12 horas por dia para manter o peso.
A vegetação pode não dar muita energia,
mas é a entrada perfeita para pôr os estômagos deles a funcionar
depois da hibernação.
Alimentarem-se tanto pode ser cansativo.
É o início sem preocupações e a cria está descontraída.
Até um urso solitário se dirigir a ela.
O urso não vem atrás da cria, tem outro alvo.
Avaliam-se um ao outro,
lutando por superioridade.
A cria tem de manter a distância.
A progenitora assegura-se de que ela fica atrás dela.
Parece sério.
Mas, desta vez, a luta não será mortífera.
São irmãos a treinar para um desafio a sério.
Acabou o espetáculo, voltam a alimentar-se.
Os prados são uma entrada saborosa,
mas terão de mergulhar mais na ementa do Lago Clark,
para ganharem peso suficiente para o inverno.
Enquanto os ursos se mantêm no parque o ano inteiro,
outros animais só vêm de visita.
A orla costeira e as enseadas do parque
são o local perfeito para descansar.
Mais de 120 mil aves costeiras dirigem-se para aqui todos os anos.
Este bando de tarambolas para a caminho das áreas de reprodução.
Os fundos de vasa estão cheios de minhocas e de animais comestíveis
que dão às aves uma oportunidade de reabastecerem.
Depois, ao fim de seis semanas, refrescadas e reenergizadas,
partem em grupo.
Para as pessoas, não é tão fácil ir e vir.
Menos de 20 mil por ano vêm a este território sem estradas.
É uma oportunidade rara de mergulharem
num milhão e 600 mil hectares de natureza no estado mais puro.
Um décimo do Parque Nacional do Lago Clark está coberto por taiga
composta essencialmente por abetos e por vidoeiros,
o que é um habitat ideal para uma jovem família.
Debaixo destas raízes de árvore está uma toca...
... de raposas-vermelhas.
A ninhada tem cinco crias.
Com energia ilimitada, estão ansiosas por aventura.
Exploram por todo o lado.
A progenitora não tem patas a medir com tantas bocas para alimentar.
Felizmente, as florestas estão repletas de alimento saboroso.
Mas com o aumento do apetite das crias dela,
passa mais tempo a caçar.
Deixando as crias sozinhas.
As lutas a brincar começam a tornar-se sérias
quando aprendem a desenrascar-se,
a perseguirem, a atacarem,
a melhorarem aptidões essenciais para a sobrevivência delas.
Talvez precisem dessas aptidões mais cedo do que julgam.
Os ursos-negros-americanos são omnívoros que se alimentam de tudo.
Crê-se que têm o melhor olfato de todos os mamíferos terrestres
e ele deteta as crias.
As raposas veem o urso a aproximar-se
e fogem para a toca.
O urso tem o focinho enfiado dentro de uma das entradas principais.
Só pode estar a poucos metros.
Se se mantiverem na toca, devem estar em segurança.
Por fim, ele desiste e vai-se embora.
As crias estão em segurança.
As reações rápidas e o instinto de se esconderem
faz com que esta família possa brincar mais um dia.
Na costa, os Ursus arctos horribilis
estão prontos para o próximo prato da ementa do Lago Clark.
Esta praia vazia pode não parecer a paragem óbvia para alimento rápido,
mas é, se se souber onde procurar.
A paciência é essencial.
O Parque Nacional do Lago Clark
tem uma das maiores amplitudes da maré do mundo.
E o próximo prato só se revela
graças à maré extremamente baixa do parque.
Espalhados por toda a praia, estão animais com um aspecto bizarro:
navalhas.
Estes crustáceos bizarros ficam vulneráveis quando a maré vaza.
Então enterram-se depressa na areia, para longe do perigo.
Só se vê um entalhe.
Não há como saber que estão ali.
É um truque inteligente.
Mas os ursos já o conhecem.
Para localizarem com exatidão onde estão as navalhas,
os ursos usam o olfato extraordinário deles.
As navalhas escavam fundo o suficiente
para evitarem a maioria dos predadores,
mas não estão à altura das garras de 10 cm de um urso.
As praias do Lago Clark são um terreno de caça abundante.
Esta refeição repleta de proteínas
é três vezes mais nutritiva do que vegetação.
A cria observa com atenção, para aprender como a progenitora faz.
Começa a ganhar-lhe o jeito.
Mas enfrenta um pequeno desafio.
Isto não estava no manual de treino da progenitora.
A cria acaba por descobrir como levar a melhor a este caranguejo.
Com a barriga cheia de alimento, está na hora de brincar.
Traduzindo: vamos irritar a progenitora.
Dão um beijinho e fazem as pazes com um abraço amoroso.
Com a maré a subir, os ursos vão para o interior,
onde os espera o prato principal.
Deixam as navalhas para quem consegue apanhá-las debaixo de água.
Um dos mais pequenos mamíferos marinhos do planeta,
a lontra-marinha.
Ótimas notícias para o parque.
Apesar de ainda em números muito reduzidos,
podem tornar-se visitantes mais frequentes a esta costa acidentada.
Também apreciam estas navalhas,
mergulhando até ao fundo do mar para apanhá-las.
Enquanto algumas mergulham por elas, outras mergulham por dois.
Esta cria tem duas semanas.
As águas aqui estão poucos graus acima de zero.
Então, a progenitora mantém-na suspensa acima da água,
enroscando-a para a manter quente.
As lontras precisam de consumir um quarto do peso corporal delas
em alimento, por dia, só para sobreviverem.
Então, como a mantém quente quando mergulha para ir buscar alimento?
Cuidando da pelagem.
Parece divertido e descontraído, mas tem um lado sério.
Prende bolhas de ar junto à pele, isolando-as do frio.
Há navalhas a 60 m de profundidade junto à costa do Lago Clark.
Mas, com uma cria tão pequena,
a progenitora faz mergulhos mais curtos em águas menos profundas.
Com tanto cuidado da pelagem, mantém-se quente.
A progenitora regressa depressa.
Em poucos minutos, voltará a mergulhar
para alimentar o apetite insaciável dela.
Mais no interior, os rios sinuosos do Parque Nacional do Lago Clark
começam a encher-se de vida.
Algo se dirige para o parque em grandes números
por que esperam animais esfomeados,
especialmente os Ursus arctos horribilis.
Não há animal mais importante para o Parque Nacional do Lago Clark
do que o salmão-vermelho.
Mais de 40 espécies de mamíferos e de aves
dependem da nutrição que o salmão proporciona.
Neste momento, mais de 370 mil salmões
chegam aos estuários do parque.
Os grandes números deles são alimentados
pelas águas quase intocadas do parque.
É uma das maiores migrações do planeta.
Os salmões dirigem-se para montante com um objetivo: reproduzir-se.
Esta migração anual dos salmões
é uma data simbólica no calendário do povo
que habita tradicionalmente o Parque Nacional do Lago Clark:
os dena'ina.
Vivem no Lago Clark há milhares de anos.
Os salmões são uma parte muito importante
de uma tradição mais vasta de viver com a terra e de cuidar da terra.
Ruth Miller foi criada no território dena'ina.
Esta é a terra do meu povo.
Chamamos-lhe Qizhjeh-Vena, o sítio onde as pessoas se juntam.
É onde estão enterrados os meus antepassados
e é onde me sinto mais feliz.
Crescer no meu território deu-me acesso à floresta,
às montanhas e à água.
Os nativos, ainda hoje, vivem da terra.
Confiamos no amadurecer das bagas e no congelar do gelo.
Dependemos da migração do salmão
para as nossas baías e para os nossos rios.
O meu povo mantém uma ligação muito espiritual a este sítio.
Ruth faz uma cerimónia do salmão,
fazendo uma oferenda de espinhas de salmão do ano passado,
para ajudar os peixes a reconhecerem o caminho para casa.
Viver sustentavelmente com a terra implica praticar a gratidão
e dar mais do que se tira.
O modo de vida dena'ina lembra-nos a todos de forma oportuna
que não somos independentes da Natureza,
mas que fazemos parte dela.
E a Natureza prospera por todo o parque.
Da maior escala
à mais pequena,
debaixo dos pés dos poucos visitantes aventureiros
do Parque Nacional do Lago Clark.
Escondidas por entre o musgo do chão da floresta,
pequenas minas terrestres.
Orvalhinhas.
Pequenas em tamanho, mas com uma grande atitude.
Esta planta carnívora astuta
tem uma forma inteligente de atrair as presas.
A primeira arma do arsenal dela
são glândulas de néctar.
Estas gotas brilhantes atraem presas que passam
com a promessa de água.
Mas, em vez disso, têm uma surpresa pegajosa.
A armadilha está montada
e quando uma mosca fica presa na orvalhinha,
a planta usa a segunda arma.
Tentáculos enrolam-se devagar para dentro
envolvendo a vítima.
Estas gotas semelhantes a água contêm enzimas
que depressa decompõem o inseto, tornando-o mais fácil de digerir.
Mas a planta nem sempre consegue o que quer.
Esta formiga resoluta está a dar luta.
Presa por um único fio,
consegue libertar-se e escapar.
O mundo do solo do Parque Nacional do Lago Clark está cheio de dramas.
Nas elevações mais altas,
surge uma paisagem mais acidentada.
Esta é a tundra alpina,
uma zona sem árvores, a mais de 1200 metros de altitude,
coberta de neve durante a maior parte do ano.
Neste recanto remoto, só os mais robustos sobrevivem.
Até no verão as temperaturas são baixas
e a estação de crescimento é curta.
Mas proporciona o suficiente
para os Urocitellus parryii.
Têm o recorde da hibernação mais longa da América do Norte,
em oito meses.
Têm a mesma missão dos ursos:
ganhar peso suficiente para o inverno,
mas em ainda menos tempo, apenas quatro meses.
E, por isso, têm de estar sempre em movimento.
A vida é frenética.
Primeiro, têm de consumir o máximo possível.
E depois, recolher vegetação suficiente para levar para as tocas.
Assim, quando as temperaturas descem para -40 graus no inverno,
têm um ninho acolhedor para ajudar a mantê-los quentes.
Os salmões estão igualmente ocupados.
Dirigem-se para os locais de desova, a montante dos rios do parque,
com precisão laser.
Há apenas um mês, os salmões eram prateados.
Mas deu-se uma incrível mudança de cor.
Não se alimentam para poupar energia
e absorvem as escamas prateadas como nutrição,
revelando o pigmento vermelho deslumbrante da carne por baixo.
O sacrifício supremo tem os seus benefícios,
tornando o salmão mais visível para parceiros potenciais.
Mas também os torna mais visíveis
na reta final até à área de reprodução.
Para os salmões que chegam ao fim
o destino deles são os mesmos riachos, rios e lagos
do parque onde nasceram.
Têm uma última missão:
reproduzir-se.
Quando uma fêmea encontra um bom sítio, agita o leito do rio
criando um ninho de pedras soltas,
um esconderijo ideal para as crias em desenvolvimento.
Com o ninho pronto, o macho junta-se a ela.
Quando ela liberta os cinco mil ovos dela,
ele deixa uma nuvem de láctea no ninho.
Mas toda esta atividade não passa despercebida.
A chegada dos salmões atraiu alguns dos Ursus arctos horribilis
do Lago Clark, vindos da costa.
Esta concentração de peixes é o prato principal
de que os ursos têm estado à espera.
Trocam a salada disponível o dia todo e o lanche de navalhas
por um banquete de peixes que pode durar semanas.
Mas os salmões podem ser esquivos.
Cada urso pode consumir umas espantosas 100 mil calorias por dia.
Os salmões não perdem a vida em vão.
Mesmo depois de mortos, continuam a dar.
Os nutrientes nos corpos deles
são agora transferidos do mar para a terra,
fertilizando o solo e promovendo o crescimento de plantas.
Os salmões que escapam aos ursos
morrerão uma semana depois de desovarem,
enriquecendo os riachos, os lagos e os rios.
Esta progenitora e a cria também vêm para o banquete.
Ela esperou sensatamente pela desova
para ter uma refeição fácil de salmões mortos no leito do rio.
A progenitora tenta pegar num com as patas posteriores.
Cuidado. Alguns ursos odeiam a sério molhar as orelhas.
Perfeito.
A progenitora e a cria sobreviveram ao verão.
Assim, assegura o legado dela no Parque Nacional do Lago Clark
onde animais, plantas e pessoas coexistem em harmonia.
Um sítio, aparentemente, congelado no tempo.
Mas tudo isto pode mudar.
O clima no Alasca aquece mais depressa
do que em qualquer outro estado dos EUA,
derretendo os glaciares
e ameaçando perturbar o ritmo de vida aqui.
Recorda-nos que temos de proteger os parques nacionais dos EUA
para o futuro de todos nós.
Se tudo correr bem, daqui a uns anos,
será a vez da cria ter uma família
numa das últimas grandes paisagens selvagens americanas,
o Parque Nacional do Lago Clark.
Legendas: Filomena Antunes
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