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Estamos no dia 14 de fevereiro de 2005,
s�o 17h15m.
Estamos no pr�dio da Asociaci�n de Unidad Argentina, AUNAR
- com o senhor... - Roberto.
- Roberto? - Mader.
Um cineasta brasileiro,
que est� percorrendo pa�ses latino-americanos
para conhecer em primeira m�o a trag�dia que alguns viveram
e tiveram que suportar:
A subvers�o terrorista.
Um dos lemas da Asociaci�n de Unidad Argentina, a AUNAR,
� a defesa extrema de.... nossos princ�pios nacionais,
de nossa gloriosa hist�ria,
nosso passado e nossos pr�ceres,
de nossos s�mbolos...
Somos uma entidade sinceramente de gente honrada,
De gente honrada com um pensamento nacional.
NA-CIO-NAL!
Tenho um irm�o desaparecido,
tenho um irm�o que lutou do outro lado,
rapaz inteligente, o mais mo�o. Um dia aconteceu isso,
mudou. E falava muito comigo.
A mudan�a estava psicol�gica e fundamentalmente
orientada ao �dio ao pai.
Era romper com a hierarquia, romper com a autoridade,
romper contra o que est� estabelecido,
era fanatismo mais �dio.
E temos...
... a barriguilha aberta. - Isto, sexo.
- Pau livre. - Sexo livre.
Acho que n�o.
Pode ser uma caricatura muito de direita.
Acho que, de fato, �ramos um grupo jovens com muitos ideais.
Era t�o evidente esta crise social,
que se achava que, sem d�vida, defender uma sociedade melhor
n�o era nenhuma novidade.
Ao contr�rio, acho que os jovens
separam muito bem o preto do branco.
Sem d�vida, s�o muito manique�stas neste sentido,
os jovens em geral.
E sem d�vida entre optar pelo establishment
e uma postura revolucion�ria que existia,
havia Fidel em Cuba, movimentos revolucion�rios
praticamente em toda Am�rica Latina,
sem d�vida que a op��o entre o bem e o mal
seria para o bem.
Sa�da nosso povo,
junto ao Comandante-em-Chefe Fidel Castro,
sob aplauso emocionado
do povo reunido aqui na pra�a da revolu��o Jos� Marti.
Viva Cuba!
Aqui est�vamos na Guerra Fria,
e a subvers�o era uma express�o
de um dos bandos para entrar na seara do outro.
J� t�nhamos exemplos claros do que ia acontecer,
como aconteceu com Cuba,
como o que se tentou exportar para Angola, Congo, Eti�pia.
Ent�o, senhores,
est�vamos jogando contra outras ideias,
j� era um problema de ideias.
A Am�rica Latina nunca foi uma regi�o isolada,
onde as pessoas lutavam entre si por raz�es locais.
Estavam dentro do contexto da Guerra Fria,
Comunismo, Anti-comunismo,
idealismo, revolu��o, e etc.
Allende era a esperan�a da Am�rica Latina
Outros pa�ses estavam em situa��es diferentes,
o Brasil j� era uma ditadura,
mas foi um ponto de virada hist�rico,
em 1972 e 1973. Ainda era poss�vel
acreditar que mudan�as pol�ticas radicais seriam bem-sucedidas.
Allende experimentou o Socialismo com Democracia,
mas um forte controle estatal sobre a economia,
com o prop�sito de redistribuic�o de renda.
Allende determinou que esta mudan�a pol�tica radical
tinha de ser feita democraticamente.
N�o seria como Cuba,
nem como a Uni�o Sovi�tica.
Seria, como eles disseram na �poca,
"Uma revolu��o com empanadas e vinho tinto".
Um Governo Popular Democr�tico Nacional Revolucion�rio
que deve cumprir um programa
para abrir o mais amplo e rapidamente
o caminho ao Socialismo
e � transformac�o da nossa sociedade.
- Nacionalismo! - Presente!
As classes dominantes e neste caso,
seu aparato armado,
iriam agir contra Allende e assim o fizeram.
Conspiraram de mil formas contra o governo de Allende.
Foi assim que os senhores empres�rios,
a partir da 0 hora de ter�a,
paralisaram os servi�os em todo o Chile.
Os grupos de direita se organizaram
que come�aram a realizar atividades de sabotagem
contra o governo de Allende
e sem d�vida tamb�m come�aram a trabalhar as Forcas Armadas.
E este � um governo corrompido e degenerado.
Degenerado e corrompido, imundo!
Comunistas asquerosos, t�m que sair todos do Chile!
Os ricos nunca v�o nos dar nada
e tudo o que temos � por causa do governo atual.
A tens�o que havia no pa�s crescia.
A esquerda desde os anos 60 j� se agitava intensamente.
A inten��o era criar todo esse caos
para gerar uma revolu��o marxista.
Que os trabalhadores, com os soldados,
os marinheiros, os carabineiros
desobede�am �s ordens dos oficiais golpistas.
E, nesse caso...
ter�o o direito de construir seu pr�prio ex�rcito,
o ex�rcito do povo!
O MIR n�o acreditava na via pac�fica
que Allende preconizava nesta �poca.
N�s ach�vamos que de um momento para outro seria desencadeada
esta ofensiva militar, violenta,
e que t�nhamos que nos preparar.
Mas a nossa prepara��o n�o foi suficiente.
N�o darei um passo atr�s e que saibam disso!
Deixarei la Moneda
quando for cumprido o mandato que o povo me deu!
Desde �s 10h30m,
foi exigida a rendi��o de Salvador Allende.
O Pal�cio de la Moneda dever� ser evacuado antes das 11 horas.
Voz de Pinochet: �s 11 da manh�, temos que atacar la Moneda
Voz de Pinochet: ...porque esse cara n�o vai se entregar.
Trabalhadores da minha p�tria:
Pagarei com minha vida a lealdade do povo,
Os processos sociais n�o s�o detidos
Nem com o crime,
nem com a for�a.
A hist�ria � nossa.
Viva o Chile!
Viva o povo, vivam os trabalhadores!
Temos a certeza
de que a grande maioria do povo chileno
est� disposto a lutar contra o marxismo,
est� disposto a extirp�-lo at� as �ltimas consequ�ncias.
As C�maras ficar�o em recesso at� segunda ordem.
Isso � tudo.
Desde o primeiro dia,
a esquerda mundial encarregou-se de produzir
a imagem de um homem mau.
Papai ficou v�rios dias sem dormir
e quando assistiu �s primeira cerim�nia, usou
�culos escuros, como se usava na �poca.
Meu pai chegou com os olhos vermelhos de dor.
Da� esta foto correu o mundo!
"Aqui temos, senhores, o mau dos maus!"
Ser� aplicada a lei marcial.
Qualquer pessoa pega com armas ou explosivos
ser� fuzilada imediatamente,
sem esperar por julgamento sum�rio.
Infelizmente n�o havia outra sa�da.
As for�as, se n�o fossem empregadas pelo nosso lado
seriam empregadas pelo outro.
A Am�rica Latina sofreu repress�es e teve ditadores.
Isso fez parte da hist�ria.
Mas algo diferente aconteceu nos anos 70.
Pela primeira vez, estes pa�ses
decidiram que a amea�a da esquerda era t�o forte
que eles tinham que eliminar fisicamente
todas as pessoas que tentavam promover essa vis�o da sociedade.
Ent�o, havia terror em todos os n�veis.
Pris�es em massa feitas secretamente,
desaparecimentos, pela 1� vez na A. Latina,
como pol�tica do Estado.
Este � o modelo que descrevo como o modelo central
dos Anos do Condor.
A solu��o, pela 1� vez na A. Latina,
foi o assassinato em massa.
N�o h� outro termo. Foi assassinato em massa.
Agora mesmo me deu uma coisa que entra aqui...
um sentimento de...
...de tristeza.
Porque aqui havia milhares de pessoas.
Dizem que havia 2 ou 3 mil... N�o! Havia 15 mil pessoas.
Ali nos torturavam, nos batiam,
nos acorrentavam.
Agruparam as mulheres.
N�o s� as torturavam, batiam nelas,
como tamb�m as violentavam.
Aqui nos batiam com cassetes de borracha,
botavam panos molhados nas costas e nos batiam.
Aqui morreu gente, muita gente no est�dio.
Batiam no port�o e vinham com listas:
Fulano e fulano. Eram levados e n�o voltavam nunca mais.
As marcas que eu tenho s�o nos p�s, veja.
Por aqui que me penduravam.
Fazia 31 anos que eu n�o vinha aqui.
Acho que ainda t�m muita gente que n�o quer vir,
Porque voc� se emociona e come�a a lembrar de coisas...
De coisas que te aconteceram,
como nos trataram...
...e voc� revive tudo isso de novo.
Mas tamb�m tivemos for�a ao sair da pris�o
e comecamos a lutar contra a ditadura.
A influ�ncia militar mais importante
nos pa�ses da A. Latina
foi o Ex�rcito dos EUA.
Havia dezenas de milhares de latino-americanos retidos
na Escola das Am�ricas no Panam� na �poca.
Falei com o treinador da Intelig�ncia,
que estava l� em 1976.
Seus planos inclu�am fazer esses pa�ses comprarem
equipamento militar dos EUA.
Certificar-se de que comprariam de n�s, n�o de outros.
Isso era um neg�cio dos grandes.
Acho que h� 2 tipos de contexto.
Um � o contexto subjacente
desde a d�cada de 60 na A. Latina,
com total influ�ncia da doutrina de seguran�a nacional
divulgada pelos EUA,
atrav�s da Confer�ncia de Ex�rcitos Americanos.
E vai se consolidando
at� converter os militares
na �nica trincheira poss�vel
para salvar o continente do Comunismo.
E � certamente ent�o o bra�o armado dos EUA.
e o momento em que confluem as diferentes ditaduras no Cone Sul.
Acho que em nenhum outro momento em tantos pa�ses da Am�rica Latina
tanto poder foi concentrado.
E isso faz com que se embriaguem
e queiram mais poder.
Veja isto, por exemplo...
s�o dos pa�ses centro-americanos.
Este � da P�rsia, estes s�o argentinos e uruguaios.
- Faz muito tempo que coleciona?
- Bom, n�o muito. Uns 30 anos.
- Faz tempo.
- E a�, quando cheguei a General.
- O que sente quando olha as fotos hoje?
Sinto pena do que est� acontecendo, sinto pena.
Mas o ponto � que simplesmente...
me mandaram, sendo Tenente Coronel,
que organizasse uma dire��o de intelig�ncia nacional,
porque n�o a t�nhamos. Apresentei em 12 de novembro de 73,
foi aprovada e me ordenaram organize a DINA.
Amparado na permiss�o, o fanatismo ideol�gico
� enfrentado pela s�lida am�lgama de valores,
esp�rito de sacrif�cio de um grupo de homens
que, com claros ideais,
tem a miss�o de neutralizar e destruir a base guerrilheira.
A partir de 72, havia terroristas no Chile.
Tinham mais de 10 mil cubanos, todos do ex�rcito cubano.
Tinham entrado 1.500 sovi�ticos, todos do ex�rcito sovi�tico.
Soubemos ent�o que organizava-se um ex�rcito guerrilheiro.
Foram presos por carabineiros
integrantes do foco guerrilheiro da zona.
Sem d�vida que nossa atitude neste minuto � de resist�ncia,
mas t�nhamos que nos esconder porque a repress�o era enorme.
Cerca de 500, 600 militantes foram aniquilados
praticamente nos primeiros anos do governo militar.
Ali fui preso.
Depois me levaram a um dos campos de concentra��o.
Bom, voc� tem as imagens.
�ramos prisioneiros de guerra
e t�nhamos que obedecer
a uma disciplina militar que n�o t�nhamos.
35 hinos militares.
Cada hino militar tinha um n�mero. Vamos cantar o 5.
Voc� tinha que saber que esse era o n�mero 5,
e quando voc� dizia que o 5 era o 23,
dava a maior pancadaria. Ou seja, era terr�vel.
Claro, nem todos marchavam igual.
Nem todos acertavam o passo,
e isso era motivo de pancada.
Porque para eles o soldado era a m�xima express�o
do melhor que a p�tria tinha.
Eram os soldados, s�o os melhores filhos.
Linha de frente, sentido!
Vivi 2 conselhos de guerra em Pisagua.
Na ocasi�o, 12 companheiros do partido comunista foram julgados
e 2 deles, condenados �s morte.
Eram acusados de quererem tomar individualmente
12 lugares estrat�gicos da cidade.
Um deles tinha que tomar o quartel,
outro tinha que envenenar a �gua,
outro tinha... Enfim, esse tipo de coisa.
Bem, estamos falando desta guerra?
Por isso digo que tudo isso, que havia uma guerra, � uma bobagem.
N�o existia capacidade militar de enfrentamento real,
concreto, que se possa dizer que h� dois bandos em combate,
h� uma guerra de guerrilha generalizada no pa�s.
Isso n�o existia.
Naquele tempo, o problema na Am�rica do Sul era grave,
todos os movimentos terroristas eram coordenados por Buenos Aires.
Como crist�o, digo que na verdade, houve aqui uma guerra subversiva.
N�s n�o a come�amos, nem a desej�vamos.
Fomos levados a ela,
nos envolveram nela,
e t�nhamos que pacificar este pa�s.
Os combates urbanos com os guerrilheiros s�o assim.
N�o � assunto para parlamentar bandeira branca, n�o.
Aqui, ou morre ele, ou morro eu. N�o tinha sa�da.
Parece muito estranho
que algu�m com as minhas caracter�sticas
tenha decidido participar de um grupo pol�tico
que tamb�m tinha como op��o a luta armada.
A luta ser� com o ex�rcito, com os que t�m as armas em seu poder
e portanto, assumirmos do nosso lado
o uso de armas e da mil�cia era inevit�vel.
Havia uma atitude igual, em todos os pa�ses.
Todos agiam da mesma forma.
Da� vimos que a junta coordenadora estava funcionando.
Foi esta junta revolucion�ria
que coordenou, durante muitos anos,
todos os movimentos terroristas da Am�rica do Sul,
tanto os brasileiros,
os tupamaros do Uruguai,
da Bol�via, o MIR, o partido comunista do Chile,
o ERP argentino, os montoneros argentinos,
eram coordenados por esta junta.
Se olharmos as evid�ncias do que houve �quelas organiza��es,
a maioria foi gravemente avariada,
se n�o eliminada pela a��o militar.
N�o havia uma amea�a forte, real.
Ent�o, foi usada como desculpa
a ideia de que os grupos estavam agindo internacionalmente.
Veja o que falava o sistema de intelig�ncia.
Aqui est�o a Espanha,
Uruguai,
Equador,
e esta foi feita na Argentina em 77.
Logo, n�o tem nada a ver com opera��es.
- Mas se chamava Condor? - N�o, n�o.
Nunca se chamou Condor.
Terceira Confer�ncia Regional de Intelig�ncia Nacional.
Esse era o titulo.
Nunca se chamou Opera��o Condor do ponto de vista
como falam os marxistas. A� que est� o problema.
O mesmo que h� hoje, que sempre houve
o sistema de troca de informa��es entre diferentes pa�ses.
Fizemos reuni�es
entre os servi�os de intelig�ncia nacional
dos pa�ses que se juntaram a isso.
A primeira reuni�o foi no Chile, em 75
e me lembro que ent�o o delegado uruguaio disse:
"Em homenagem aos pa�ses que est�o ao lado da Cordilheira dos Andes,
vamos chamar de Condor, sistema de intelig�ncia Condor".
N�o opera��o.
� muito diferente chamar um sistema de opera��o.
Opera��o � agir, sistema � um sistema de informa��es.
Quando Contreras disse que Op. Condor era apenas troca de informa��es,
estava se referindo ao come�o,
quando se operava atrav�s dos adidos militares.
Na reuni�o de novembro de 75, que foi avalizada por Pinochet,
que foi uma reuni�o de estado,
onde foram convidados os governos militares da Argentina,
do Brasil, do Uruguai, do Paraguai e da Bol�via,
a coordena��o adquire um n�vel diferente.
Agora, se tratava n�o s� de informa��o
mas tamb�m da possibilidade de prender
os opositores dos distintos regimes militares da �poca,
onde quer que estivessem, e a troca de prisioneiros.
Washington urgente, ag�ncia Reuters.
O ex-Chanceler e ex-Ministro da Defesa Chilena, Orlando Letelier,
morreu, v�tima de um atentado contra o seu carro.
Orlando sempre foi partid�rio de Allende
e foi Ministro de Defesa durante o golpe militar.
Orlando foi levado �s pris�o como prisioneiro de guerra
e finalmente foi, depois de um ano,
foi exilado como castigo.
Voltou aos EUA porque se deu conta que era mais �til
contra a ditadura nos EUA.
Isso fez com que o conselho de ministros de Pinochet,
assinado por todos,
tirasse a nacionalidade de Orlando.
Depois o mataram.
O assassinato de Don Orlando Letelier
pela Central de Intelig�ncia Americana, leia-se CIA.
H� muita evid�ncia hoje em dia
que a Op. Condor foi mais do que uma reuni�o de intelig�ncia.
Envolveu o assassinato, a morte de oponentes pol�ticos.
H� um grande n�mero de l�deres democratas
opostos ao regime militar que s�o mortos brutalmente.
GAL. PRATS: COMANDANTE MILITAR NO GOVERNO DE ALLENDE, ESTAVA EXILADO EM BUENOS AIRES QUANDO FOI ASSASSINADO
Diria que depois de 30 anos do assassinato,
j� estamos tranq�ilas
pois sabemos perfeitamente o que aconteceu.
Temos a declara��o do autor material dos fatos,
Michael Townley,
que declara que ele e sua esposa colocaram a bomba.
Assim fica muito claro,
porque estas pessoas pertencem diretamente � DINA
e a seu servi�o exterior.
Towley era um agente da CIA infiltrado no Chile.
A m�dia o converteu em agente da DINA,
mas ele nunca foi.
- Mas tinha contato com a CIA?
Era fornecedor da DINA, de aparelhos eletr�nicos.
Acho que houve agentes duplos, que trabalharam para a DINA
reconhecidamente tamb�m para a CIA.
S�o evid�ncias da penetra��o norte-americana no Chile,
mas n�o se pode dizer que os crimes cometidos na Op. Condor
sejam todos atribu�veis � CIA. Acho que isso tamb�m
joga a favor de Contreras como uma desculpa absolvit�ria
para dizer que tudo foi feito pelos norte-americanos.
JULGAMENTO POR CRIME DE PRATS REVELA SECREDOS DA DINA
Os chilenos cometeram um grande erro
pensando que os EUA aceitariam
um ato de terrorismo na capital dos EUA.
A investiga��o come�ou imediatamente e foi vigorosa.
H� pilhas de documentos
com todos os detalhes do que o Chile fez, e como o fez.
Contreras � um cara muito inteligente.
Ele sabia que a esquerda da Am�rica Latina
cairia direitinho nessa armadilha.
E caiu.
Muitas pessoas da esquerda na A. Latina
responsabilizaram a CIA pela Op. Condor.
Responsabilizaram a CIA pela morte de Carlos Prats.
Responsabilizaram a CIA...
...pelo assassinato de Letelier.
N�o h� provas de que a CIA criou alvos
ou pediu a algu�m que matasse outro.
Mas sem d�vida, a CIA sabia o que a Op. Condor fazia,
e que lucraria com a intelig�ncia obtida pela opera��o.
Quando foram abertos os documentos secretos da CIA,
foi revelado que h� informa��es
do centro de opera��es da CIA em Santiago
que informam aos EUA a cria��o da Op. Condor e que sua miss�o
� seq�estrar e prender opositores dos regimes militares.
Chega a haver uma rea��o de Kissinger,
que se preocupa e se incomoda com os excessos cometidos
por estas ditaduras militares. E h� uma recomenda��o de Kissinger
para que se moderem as a��es.
Recomenda��o subvertida por Pinochet
quando ocorre o assassinato de Orlando Letelier em Washington.
Kissinger fez um tour de v�rios pa�ses em 1976.
Fez reuni�es antes da reuni�o oficial
com o Ministro do Exterior Chileno,
quando deveria ter autorizado e dito:
"Tenho que fazer o discurso sobre Direitos Humanos,
mas, voc� sabe... Voc� pode fazer o que quiser."
Pessoas como Kissinger pareciam ter aceito
Como um passo necess�rio na elimina��o
do que eles viam como amea�a comunista,
guerrilheiros de esquerda, etc.
Em geral, as pessoas pensam que...
...moralidade pode ser aplicada
t�o diretamente � conduta de Estados entre si
quanto �s rela��es humanas.
Este n�o � sempre o caso.
Pois �s vezes, l�deres de Estado t�m que optar entre males.
- Tirou esta? � brasileira. - De quando?
- Esta � de 76.
Chegou um dia com um dos emiss�rios.
- Seu amigo de Bras�lia. - Quem?
- Figueiredo.
Aqui foram torturados e desapareceram 119 chilenos.
Basta!
Em 1975
o Governo disse que estes 119 mataram uns aos outros.
Opera��o Colombo � o seguinte:
Durante v�rios meses, chegam despachos da Argentina que dizem
que grupos guerrilheiros est�o se organizando na fronteira
para tentar invadir Santiago.
Durante meses, come�a a surgir no Chile una esp�cie de psicose,
porque um ex�rcito de guerrilheiros,
com chilenos, argentinos e uruguaios,
vai invadir a qualquer momento
At� que de repente, aparece a revista LEA
em Buenos Aires e o jornal O DIA de Curitiba.
Os dois jornais dizem que grupos extremistas chilenos
entram em disputa entre si e est�o se matando.
A manchete principal � "Se Matam como Ratos."
Estas 119 pessoas,
h� testemunhas, provas de que foram presas e exterminadas no Chile.
Anos depois, eu descobri
que os jornalistas que fizeram as mat�rias eram pagos pela DINA.
Esta � a Opera��o Condor.
Corpos desfigurados, torturados at� a morte,
escondidos, dinamitados,
restos de ossos enterrados em plena cordilheira.
Depois do golpe de estado no Chile, em 73,
todo o Cone Sul est� sob ditaduras
e a Argentina � o �nico pa�s
que abre suas portas a refugiado pol�ticos.
Buenos Aires, Argentina
Argentina sa�a de uma ditadura
e portanto, vivia um per�odo de grande euforia.
Deixo minha casa, fam�lia, deixo meu entorno imediato
e vou para a Argentina.
A chegada dos uruguaios nesse per�odo a Buenos Aires,
era de uruguaios que eram perseguidos aqui.
O que havia em Buenos Aires era um grande n�mero
de refugiados latino-americanos de v�rios pa�ses
que acabaram ali.
O golpe foi em 1976.
E de repente, estavam presos pelo golpe, n�o podiam sair.
Muitos n�o-argentinos foram levados pela repress�o.
Porque o servi�o de intelig�ncia de diferentes pa�ses
mantinha grandes grupos de pessoas capturadas.
Podiam escolher quem quisessem.
Eram 23h30, quando ouvimos batidas na porta.
Nesse momento, os vidros foram quebrados
e ficamos paralisadas no momento em que vimos
essa entrada de homens �s paisana com armas grandes.
Cerca de 15 pessoas.
O bercinho de Simon tinha ficado na cama de casa,
onde me atiram e me batem exigindo informa��es.
Tento pegar Simon. Me dizem que n�o posso lev�-lo comigo,
que v�o nos levar a um lugar onde ele n�o pode ir,
que n�o me preocupasse, que nada iria lhe acontecer.
E diz uma frase que nunca vou esquecer:
"Esta guerra n�o � contra as crian�as".
Ent�o, nos preparam para sair
com as m�os e as pernas amarradas,
os olhos vendados,
at� chegarmos a um lugar onde vamos ficar por 10 dias.
Na chegada, recebemos uma grande surra.
Os gritos ser�o escutados de forma permanente.
Torturavam principalmente � noite.
A pessoa que estava dirigindo esta opera��o
em certo momento me perguntou se a conhecia.
Digo que n�o e ele me diz que � o Major Ni�o Gavazo,
oficial do ex�rcito uruguaio que operava de forma muito not�ria,
e acho que inconscientemente,
tive certeza absoluta,
que n�o sair�amos vivos disso,
pois nenhum oficial de um ex�rcito que est� operando em outro pa�s
diria seu nome �s suas v�timas.
Oficina Orletti era o centro
onde os prisioneiros da Condor ficavam na Argentina.
O n�mero de pessoas que sobreviveu a este campo de tortura
pode-se contar em uma m�o.
E h� um grupo de uruguaios
que foram libertados para o Uruguai,
Porque o governo uruguaio pediu isso � Op. Condor,
e aquelas pessoas sobreviveram.
Acho que o mundo, nesta �poca, come�ou a saber
o que realmente acontecia nos pa�ses do Cone Sul,
o que havia sido toda essa Opera��o Condor,
toda essa pr�tica de desaparecimentos for�ados
e em especial, os sequestros de crian�as.
Esta pr�tica t�o aberrante realizada na Argentina
n�o tinha precedentes no mundo.
As pessoas nem acreditavam que crian�as estavam sumindo.
Levou muito tempo...
O mecanismo do desaparecimento
custou a ser acreditado pelas pessoas.
O golpe se deu na Argentina ap�s anos de caos pol�tico.
Quando pessoas da direita e da esquerda eram assassinadas.
� claro que ap�s o golpe,
os argentinos at� receberam-no de bra�os abertos,
pois seria o restabelecimento da ordem.
Muitos pensaram que o golpe era algo bom,
o governo militar era algo bom,
e novamente, n�o acreditavam nas hist�rias de desapari��es.
Se algu�m desapareceu, � porque fez algo errado.
Estava envolvido em algo. Era culpado de algo.
Sen�o, n�o desapareceria.
Os argentinos seguiam o princ�pio
que suas opera��es tinham de ser t�o secretas,
que as pessoas n�o podiam saber o que faziam,
e n�o poderia haver sobreviventes.
No caso do Chile,
provavelmente n�o mais do que 5 ou 10%
dos capturados eram mortos.
E esta � uma observa��o muito importante.
Porque, na Argentina,
h� exatamente o oposto:
Menos pessoas s�o capturadas no total.
Mas uma propor��o alt�ssima dessas pessoas,
chegando talvez a at� 50 a 80% dos que foram interrogados
foram mortos.
Nunca pensamos que, neste lugar sinistro, f�ssemos dizer:
"Assassinos filhos da puta!
Os enforcaram, quiseram enterr�-los e n�o conseguiram,
os atiraram vivos ao mar e n�o conseguiram,
os queimaram com borracha e n�o conseguiram,
os enterraram sob as estradas e n�o conseguiram".
No dia em que me disseram que
meu filho mais velho tinha desaparecido,
- no meu bairro sempre me chamavam Kika -
me converti em Hebe Bonafini.
Bonafini � uma m�e que viveu uma trag�dia
e decidiu converter a dor em luta
e talvez o mundo me conhe�a por isso.
Me dei conta que, desde o dia que os levaram, tive que inventar,
primeiro porque n�o havia ningu�m que fizesse um habeas corpus.
Depois, porque meu filho me disse: "Fa�a em qualquer papel".
Compramos p�o doce, cortamos um peda�o de papel
e escrevemos o 1� habeas corpus.
Sem saber, pois n�o havia advogado que escrevesse uma linha,
nem que soubesse o que fazer.
Al�m disso, ningu�m via nada
voc� n�o tem mais parentes, amigos, nada.
Porque voc� � m�e de terroristas.
Assassinos! Onde est�o os desaparecidos?
Com vida, lhes queremos, com vida, foram levados!
Os ju�zes diziam que meu filho fugira com outra mulher.
Os pol�ticos, que as m�es eram mentirosas.
Malvin disse: "N�o h� desaparecidos, h� mortos".
Mas enquanto est�o desaparecidos n�o pode ter nenhum tratamento especial...
� uma inc�gnita, � um desaparecido,
n�o tem identidade, n�o est� morto nem vivo, est� desaparecido.
A ideia de criar o Clamor,
ela surgiu da conversa com argentinos,
Ao ouvirmos as suas terr�veis hist�rias.
Come�amos a publicar boletins em tr�s l�nguas:
Ingl�s, portugu�s e espanhol.
E distribuindo onde pud�ssemos.
FAM�LIA URUGUAIA SEQUESTRADA
Participei exatamente...
de uma opera��o que se chamava "sapatos velhos".
Consistiu na deten��o de
integrantes do PVP de Montevid�u
e em seguida de acordo com a pol�cia brasileira.
Foram at� Porto Alegre, no Brasil,
prender pessoas que, por declara��es dos presos,
tamb�m pertenciam ao PVP e estavam naquela cidade.
Lilian era membro de um partido pol�tico uruguaio,
Partido por la Victoria del Pueblo,
um partido de esquerda.
Ela trabalhava com solidariedade
e por isso estava em Porto Alegre, perto do Uruguai.
Distribu�am propaganda e falavam com as pessoas,
explicar que era preciso se organizarem
e denunciarem os crimes da ditadura.
Havia uns furg�es com muitas pessoas armadas
e da� nos transferiram.
Me colocaram numa van com meus filhos e nos fizeram deitar.
Para mim o que estava passando
era muito pior que a morte
porque a� estavam meus filhos,
deitados numa caminhonete, cercados de metralhadoras.
Francamente lhes disse: "Tenho que salvar meus filhos."
E ent�o disse-lhes que vai haver uma reuni�o na minha casa, na sexta,
e que vai gente importante da minha organiza��o.
Fizeram as consultas e finalmente me disseram:
"Bom, sim, voltamos a Porto Alegre".
Este foi o epis�dio mais terr�vel para mim,
separar-me dos meus filhos.
Depois que chegamos a Montevid�u,
as crian�as foram transferidas para um apartamento
que a empresa tinha no centro de Montevid�u, pela rua Rio Negro,
e ficaram ali at� serem entregues depois aos av�s.
N�s vamos para minha casa porque eles instalaram uma ratoeira.
Baixam todas as cortinas e a� ficamos na minha casa.
Havia muitas evid�ncias de que algo irregular estava acontecendo
porque n�o ligavam nem apareciam.
Minha primeira id�ia foi colocar algumas testemunhas
que tivessem uma certa impunidade, que pudessem agir ali,
com certa imunidade.
Ent�o liguei para Luis Claudio Cunha,
que na �poca era chefe de reda��o da revista Veja em Porto Alegre.
Voltamos outra vez �s delegacia de pol�cia,
mas passam horas e finalmente voltamos ao Uruguai.
A�, de imediato,
toda imprensa brasileira portou-se admiravelmente bem.
Formou-se um clube do sequestro,
onde havia 25, 30 jornalistas e fot�grafos
Que se reuniam em grupos,
trocavam opini�es e informa��es,
e mantiveram a den�ncia enquanto Lilian esteve presa
em boa parte dos jornais do Brasil.
N�s n�o imagin�vamos que isto foi parte de um plano maior
onde havia um acordo feito entre os ex�rcitos.
E que teria como base os dois governos centrais.
Em novembro de 1978,
a Grande Campanha de Solidariedade realizada no Brasil,
e no mundo inteiro,
impediu que Lilian Celiberti e Universindo Rodrigues
passassem a constar na lista de desaparecidos.
Aqui, o encontro com minha filha Francesca
quando fez anivers�rio ao sair da pris�o.
Durante alguns anos, tive que enfrentar
o reencontro com um filho adolescente
a quem praticamente n�o conhecia,
al�m dele n�o me conhecer.
Reencontrei-o ao sair da pris�o.
Havia coisas que eu havia perdido,
que nunca mais poderia recuperar, como a inf�ncia dos meus filhos.
Sinto, como parte desta sociedade,
que tenho uma d�vida em particular com meus filhos.
Porque, em �ltima inst�ncia,
eles tiveram que passar cinco anos sem uma m�e.
E os militares que fizeram isso n�o passaram um dia sequer
dentro de uma cela.
Santiago, Chile
"Come�aram a rasgar a minha blusa.
Introduziram eletrodos na minha vagina
e come�aram a me dar choques com outro eletrodo m�vel."
Este � o testemunho prestado pela dra. Sheila Cassidy
na Comiss�o de Direitos Humanos da ONU em Genebra.
Este � o lugar onde funcionou
um dos centros mais sinistros da ditadura militar,
conhecido como Quartel Terranova,
onde a maioria dos ... prisioneiros
que passaram por este recinto desapareceu.
Este era um lugar de morte. Come�o por a�.
Tanto que n�o sab�amos que existia.
Isto significa que quando est�vamos aqui,
as autoridades desconheciam que est�vamos presos.
Quando um amigo nos dizia que estava
em "Villa Grimaldi", sab�amos que estava desaparecido.
Aqui atr�s, vemos a chamada torre.
L�, se fazia o "pau de arara" na parte debaixo,
onde prendiam as pessoas numa esp�cie de jaula,
coberta por uma tampa de madeira.
"Est�vamos como animais.
S� pod�amos ficar agachados.
S� nos tiravam de l� uma vez por dia, geralmente �s noite.
Para que fiz�ssemos nossas necessidades.
Os que n�o aguentavam, defecavam ali mesmo,
e ficavam presos junto com a merda.
Estar dentro destas caixas � um verdadeiro pesadelo".
O objetivo era arrasar com voc�.
O objetivo era deteriorar a sua convic��o.
O objetivo era transformar voc� num colaborador.
Fazer com que voc� trocasse de lado.
Ou ao menos transformar voc� numa coisa.
Meu pai chegou na madrugada de 12 de maio de 1976
a este lugar, e depois,
recebemos a visita em nossa casa
de agentes da DINA
que foram l� nos amea�ar.
Disseram para n�o continuarmos procurando-o,
pois j� hav�amos incomodado bastante,
e se insist�ssemos, o mesmo aconteceria a n�s.
Na hora em que os agentes sa�ram da casa,
disseram-nos que jamais o encontrar�amos.
Essas palavras me marcaram muito,
e me acompanham at� hoje, porque elas se concretizaram
exatamente como eles disseram.
O resultado, se n�o tiv�ssemos parado de procur�-lo
jamais saberemos.
Pela vida e pela paz! Digam-nos onde est�o!
Pela vida e pela paz! Digam-nos onde est�o!
Infelizes, assassinos, que batem no povo!
Manuel Contreras estava no comando
da Dire��o de Intelig�ncia Nacional, a DINA
um aparelho repressor,
que funcionou por tantos anos em nosso pa�s.
Por isso, se um dia tivesse a chance de perguntar a Contreras,
perguntaria se teria coragem de me dizer
para onde foi meu pai.
N�o fa�o ideia, n�o sei.
Ela foi treinada por muitos anos.
L�gico que o que era mentira
ela aprendeu como sendo realidade e verdade.
E por acreditar ser verdade, convenceu a todos disso.
Ele sabe qual foi o destino dele,
e alguma hora ter� de assumir
n�o s� a morte de meu pai,
mas tamb�m de muitos outros compatriotas.
A matan�a em massa n�o era apenas corpos por todo lado.
Era o medo de que voc� iria... desaparecer.
A pol�tica do desaparecimento
� particularmente adequada
como um ato de terrorismo.
Porque terrorismo n�o � apenas viol�ncia,
� viol�ncia com inten��o de criar medo, temor, pavor
nas vidas e mentes das pessoas que sobrevivem.
A era Geisel n�o foi t�o terr�vel e repreensiva quanto as outras.
Ent�o, os refugiados da Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile
e durante uma fase, da Bol�via,
encontraram no Brasil um ref�gio, um porto seguro.
S�O PAULO, BRASIL
S�o Paulo teve um grande papel
ao receber exilados e refugiados
de todos os pa�ses do Cone Sul
que estavam sob ditadura militar.
O fato de que Dom Paulo Evaristo Arns era o Arcebispo de SP,
e dele ter aberto as portas da C�ria para todas essas pessoas,
fazia com que as pessoas fossem a S�o Paulo
pois sabiam que encontrariam ajuda aqui, conselho, aux�lio, etc.
E era como um contraponto
ao que a Igreja Cat�lica fazia na Argentina.
Onde a maioria da hierarquia da Igreja, n�o toda,
mas a grande maioria,
apoiava o regime militar.
A C�ria tornou-se uma organiza��o em guarda-chuva
Grupos de Organiza��es dos Direitos Humanos
que encontraram espa�o f�sico na pr�pria C�ria Metropolitana.
Faz 3 anos que procuro por eles, � tudo o que me resta.
N�o sei nada deles. Espero que todos me ajudem a encontr�-los.
VALPARAISO - CHILE
Havia o "minhoc�o",
tinha um carrossel mais pra l� tamb�m.
No ver�o, s�o colocados por l� tamb�m,
mas s�o menores. Na �poca, eram muito maiores.
Era um parque de divers�es.
Tenho flashes que ficaram daquela �poca.
Meus pais jogados no ch�o, um milico apontando...
...uma arma de fogo, que vimos quando est�vamos no ch�o com mam�e.
Minha irm�zinha no colo dela, eu de m�os dadas.
Ela tinha um ano e meio. Eu tinha quase quatro.
Disseram que nunca nos soltamos, que ficamos de m�os dada.
Ele cuidava de mim.
Ele fala de um carro muito elegante que chegou aqui,
com umas pessoas que nos deixaram aqui.
Est�vamos muito bem vestidos.
N�o era como filhos abandonados de indigentes ou coisa assim.
Nos deixaram de manh� aqui. A tarde passou,
e quando estava anoitecendo como agora,
o dono do parque se preocupou.
E quando estava anoitecendo como agora,
nos viu e chamou a pol�cia.
No hospital onde trabalhava meu marido,
havia uma assistente social.
Levou o caso das crian�as,
dos dois irm�os que estavam em um abrigo de menores,
que n�o tinham pais.
Ent�o falamos com Anatole, e lhe perguntamos
se o vinham buscar
ou se ele queria ficar e ele disse que sim.
Ela era muito pequena, e por isso n�o...
- e era gordinha. - Eu destru�a as chupetas.
Quando �amos sair, ent�o ele n�o quis ficar,
n�o quis ficar. "Mam�e, papai, n�o, vamos."
E abra�ou meu esposo.
Me deram roupas, uma mamadeira, algo assim,
e partimos, partimos com eles.
Quando chegaram na nossa casa, n�o tinham sotaque.
Ach�vamos que eram chilenos.
Chilenos que tiveram que ir embora do pa�s.
Mas nunca nos disseram a nacionalidade. Nunca.
S� se pode presumir o que aconteceu,
mas um dos problemas � que Anatole j� tinha 4 anos.
Ele sabia quem era, sabia seu nome.
Sabia o nome de sua irm� e de seus pais.
Ele viu seus pais serem mortos, ou ao menos feridos.
Esta � uma das raz�es por eles decidirem
lev�-los para al�m dos Andes,
para um pa�s diferente, o Chile.
Ningu�m ia associ�-los � situa��o da Argentina e do Uruguai.
Ningu�m suspeitaria que fossem filhos de desaparecidos.
E a� nos contaram tudo, sem rodeios.
Narraram tudo o que tinha acontecido,
quem eram, de onde eram, o que tinha acontecido...
N�o imagin�vamos uma coisa assim.
Finalmente, Ang�lica, a av�, foi levada ao Chile.
Para poder encontr�-los.
Mas � claro, tr�s anos j� haviam se passado.
Minha av� infelizmente n�o tinha a menor no��o de psicologia.
Quando chegou,
a primeira coisa que fez foi me p�r de lado
e me dizer "Sou sua av� verdadeira
e seus pais s�o estes," - me mostra a foto -
"e voc� morava no Uruguai". Me conta uma hist�ria em uma praia.
Acho que � o l�gico, apesar da dor causada aos pais adotivos.
Veremos como vamos harmonizar
para que eles tamb�m n�o nos percam totalmente.
A av� veio como diss�ramos,
dizendo: "Bem, estou indo e vou lev�-los".
"E vou lev�-los".
Mas n�o era assim,
porque n�s j� est�vamos apegados.
Minha av� veio buscar-nos com todo o direito.
�ramos o que restava do seu filho desaparecido. E de sua nora.
Ent�o os psic�logos disseram que seria uma perda dupla.
Isto poderia destruir as crian�as de novo.
Ao menos Anatole, pois eu n�o me lembro.
Ent�o, foi tomada a decis�o entre as duas fam�lias
de manter rela��es.
Viajar uma vez por ano pra l� ou eles vinham para o Chile.
Foi uma situac�o muito dif�cil essa primeira visita de Anatole
aqui, em Montevid�u, no Uruguai, encontrar sua fam�lia
acompanhados, na �poca, dos novos pais.
- Que idade tinha o meu irm�o? - Uns 7, 8 anos.
Lembro dos almo�os ou jantares
com seu pai tentando se integrar � fam�lia,
respeitando o fato de que tinha que ficar atr�s.
Um passo atr�s.
Anatole se reencontrava com sua fam�lia
e ele estava ali se precisasse.
Mostrando-nos, de alguma forma,
e se fazendo conhecer pela fam�lia daqui.
Nunca mais vou me esquecer, porque foi um prazer.
Um cavalheiro.
Nesse momento, justamente, viram a possibilidade de perd�-los.
Ent�o se abriram totalmente conosco,
dizendo que n�o imaginavam a vida sem eles,
o que n�o deixou margem a d�vidas.
Esse era o lugar onde estavam e estariam melhor.
E acho que n�o nos enganamos. A prova, voc� v�, est� aqui.
O sequestro de crian�as
...foi aplicado mais sistematicamente na Argentina.
E tamb�m faz parte deste aspecto,
no sentido que os subversivos,
as pessoas que enfrentam o terrorismo de estado,
personalizam uma doutrina sat�nica,
que precisa ser objeto de uma lavagem cerebral.
E elas precisam ser reeducadas nos valores da civiliza��o
supostamente ocidental e crist�,
e, portanto, h� legitimidade
em roubar estas crian�as, apropriar-se delas
para educ�-las em outras coordenadas ideol�gicas e morais.
Essa foto foi a que correu o mundo de certa forma.
Era �nico dado que t�nhamos para procurar Simon.
N�o tinha outra caracter�stica sen�o a cor do cabelo e da pele.
Esta foto foi salva porque havia enviado-a para a minha fam�lia
por isso, eles tinham esta foto.
Depois, foi com ela que se fez toda a den�ncia
sobre o desaparecimento, sobre o sequestro de Simon.
SARA M�NDEZ ENCONTRA SIMON
Foram 25 anos.
N�o � f�cil encontrar um filho, que por mais que seja seu filho,
� um homem de 26 anos,
que foi a idade que tinha quando nos encontramos.
Lembro-me de suas primeiras palavras:
"Tenho sido at� agora um rapaz feliz.
Quero que se junte � minha felicidade".
O que nos contam �:
"Aqui h� duas v�timas uma sou eu
e a outra � esta mulher, que est� h� anos procurando".
Por seu lado, Simon estava vivenciando
o conhecimento de toda sua nova hist�ria de vida.
Estava muito abatido e dolorido pelo engano, pela mentira.
Eu sentia que como se ele tivesse perdido uma fam�lia,
e que ele ainda n�o tinha a n�s.
N�o nos conhecia, n�o podia se vincular a n�s.
Tamb�m est�vamos em lugares muito diferentes.
Eles eram uma fam�lia de policiais,
de gente que agira no mesmo regime ditatorial.
N�s �ramos as v�timas.
Estas fotos s�o de um muro na cidade de Montevid�u,
que foi feito de forma espont�nea
quando se soube que Simon havia aparecido.
Sentir que se tem dois nomes, duas hist�rias,
duas datas de nascimento, duas vidas.
Porque Simon me disse desde o primeiro momento:
"Me chamem de Simon, isso n�o me afeta.
Eu sei que para voc�s esse nome tem sentido".
Desde o 1� momento, ele pediu que n�o revelassem sua identidade.
Acho que quando chegar a hora em que estiver preparado
para enfrentar a revela��o p�blica,
vou me dar conta de antem�o.
Se chegar essa hora, porque nem sempre chega.
Eu queria reconstruir quem havia sido meu pai.
N�o s� a busca do que havia acontecido com ele,
mas o quanto me parecia com ele,
quem era ele para mim, o que eu queria fazer,
ou seja, havia procuras muito diferentes.
Para mim era muito importante, em algum momento,
descobrir o que havia acontecido com ele.
Comecei a trabalhar na pesquisa do meu document�rio sobre filhos
e senti que era importante poder refletir num filme
o processo da nossa procura.
Dar conta de nossas pr�prias trajet�rias.
De como cada um de n�s pode dar forma �s figuras de nossos pais,
o que implicou a milit�ncia,
como um peso muito... como algo muito presente em nossas vidas.
Como de vez em quando me fazem contar a hist�ria de novo,
sempre a reelaboro, a reinvento.
Por outro lado, sempre esque�o de coisas.
No princ�pio, foi:
"Que horror, que horror que lhe fizeram".
Talvez: "Que lhes fizeram".
A fantasia de n�o saber gera muitos fantasmas,
ou seja, talvez tenham violentado a minha m�e,
quanto tempo meu pai levou para morrer,
coisas assim, d�-se voltas. N�o saber � pior que saber.
Depois, passei pela etapa de dizer:
"Como estas pessoas se atreveram a fazer isto tendo filhos?"
Passei momentos de raiva tamb�m contra eles.
Que futuro teriam se continuavam daquele jeito
e ainda por cima eram pais?
Depois passei por uma etapa em que disse:
"Estas pessoas s�o admir�veis porque
perseguiram seus ideais at� a morte.
Eram pais e tudo e tiveram coragem e foram valentes".
Quando disserem que n�o sou um prisioneiro, n�o acredite.
Eles ter�o que admitir algum dia, acredite.
N�o acredite quando mostrarem-lhe uma foto do meu corpo.
N�o acredite.
N�o acredite quando disserem que a Lua � a Lua,
se disserem que a Lua � a Lua.
Que esta � minha voz gravada,
minha assinatura numa confiss�o.
Se disserem que uma �rvore � uma �rvore,
n�o acredite.
Finalmente,
quando chegar o dia
quando pedirem-lhe para reconhecer o corpo,
e voc� me v�, e a voz diz: "N�s o matamos,
o canalha morreu, est� morto".
Quando disserem que estou morto absoluta e completamente,
N�o acredite, n�o acredite.
Nossos filhos tamb�m cantavam e eram felizes
e tinham sonhos e esperan�as!
Mas guardavam um pouco de rebeldia para a luta!
Para mim, a coisa mais importante que este presidente fez
foi reivindicar nossos filhos como seus companheiros.
Disse: "Seus filhos s�o meus companheiros e voc�s, minhas m�es".
Para mim, a reivindica��o, a maior repara��o � esta.
N�o h� dinheiro que pague.
O Tenente General Jorge Rafael Videla,
condenado �s pena de pris�o perp�tua.
Evidentemente, a Argentina passou por momentos t�o ciclot�micos.
Por um lado, assim que volta � democracia, o julgamento da junta,
prendem os principais respons�veis.
Depois, progressivamente as diferentes leis de impunidade...
O Ponto Final e a Obedi�ncia Devida s�o leis que pol�ticos criam em perd�o pr�prio.
Perdoam os militares,
Perdoam os ju�zes, um pouco de cada um.
"Bom, agora est� tudo bem, pronto".
Acho que o fato desses pa�ses, como sociedades,
est�o investigando esses casos
e levando indiv�duos a julgamento.
Na maioria dos casos, ignoraram leis de anistia,
E est�o sistematicamente julgando todas essas pessoas.
Isto � a sociedade fazendo justi�a aos pr�prios cidad�os.
Ser� imperfeita. Ser� incompleta.
H� muitos que n�o ter�o seus casos completamente investigados.
Mas haver� muitos poucos militares importantes
que escapar�o desta onda de justi�a na A. Latina.
LONDON - OUTUBRO 1998 Pinochet � preso
J� se est� pedindo perd�o,
reestruturando esta hist�ria perdida,
falando-se do que aconteceu, se reconhecendo muito.
Algo que nunca pensamos que ia acontecer foi,
por exemplo, quando submeteram Pinochet a julgamento.
Isso era algo inimagin�vel, isto � um sonho.
Papai Noel, obrigado por vir.
Pin�quio est� preso e o povo est� feliz.
O mais importante no caso da Opera��o Condor
e em todos os casos de Pinochet do ponto de vista jur�dico
E a vig�ncia dos tratados internacionais,
o respeito �s conven��es internacionais sobre a tortura.
E concluo com esta afirma��o:
o culpado e o respons�vel pelo pr�prio indiciamento � Pinochet,
porque em 20 de setembro de 1973,
imp�s o decreto-lei n� 5, que justificava os conselhos de guerra,
e disse: "A partir de hoje, o estado de s�tio
� entendido como estado de guerra interno".
Ao dizer isso, incorporou as conven��es de Genebra,
que dizem no artigo 3�, comum �s 5 conven��es,
que nenhum delito cometido contra prisioneiros de guerra
jamais poder� ser anistiado.
Justamente a possibilidade de indiciar Pinochet,
30 anos ap�s o delito
- que de acordo com a lei comum, estaria prescrito -
se d� porque, gra�as �s conven��es de Genebra,
os crimes contra a Humanidade n�o prescrevem.
Os familiares dos mortos ou desaparecidos tinham duas op��es.
Ou escolhiam a via armada para tomar a vingan�a em suas m�os,
ou escolhiam o caminho da Justi�a.
Surda, muda, impenetr�vel:
Quando, de 7 mil recursos, s� foi aceito um,
quando diziam para as mulheres: "Seu marido fugiu com outra",
elas continuaram, dia a dia.
Qual � o resultado?
Um pa�s que tem uma paz social que n�o � legado de ningu�m.
� produto de uma op��o pela justi�a,
por n�o tomar a vingan�a nas pr�prias m�os.
� claro que houve um momento dif�cil.
Pouco me preocupa uma condena��o a mais ou a menos,
porque se eu fosse culpado, seria muito complicado.
Tenho 228 processos contra mim, nunca provaram nada.
Covarde! Covarde!
Faria o mesmo que fiz na �poca,
Porque cumprimos estritamente a lei.
Como depend�amos diretamente do Presidente da Rep�blica,
t�nhamos que nos ater estritamente ao decreto-lei
que ordenava o que t�nhamos que fazer.
Se um movimento militar, no futuro,
come�a a ficar tentado pela ditadura,
pelo autoritarismo de novo,
Poder�o olhar para tr�s e ver o que houve com Videla
o que houve com Contreras.
O que houve com Pinochet.
- J�? - J�.
Poder�o ver os fatos reais do que houve com essas pessoas.
Est�o em pris�es, em muitos casos, muitos pa�ses,
e ser�o perseguidos pela Justi�a at� suas mortes,
como foi com Pinochet.
E isso � uma li��o importante para um futuro megaloman�aco
que possa querer fazer o mesmo.
Escuta, irm�o, o que digo neste caso
sobre a merda dos que foram mortos
a gente desaparecida, onde est�?
Por favor, Pin�quio, voc� tem que responder
� justi�a dos tribunais
somos rappers e existimos
com o sangue derramado de todos os latinos.
E n�s, Argentina, e o resto dos pa�ses da A. Latina
Quando toda essa sujeira for tirada debaixo do tapete
e n�s, Argentina, e o resto dos pa�ses da A. Latina
comecem a poder conviver com o horror que foi.
Porque o horror � parte da nossa vida e da nossa hist�ria
e � algo com o que todos n�s vamos conviver.
� medida em que eu, voc�, e todos como sociedade
passarmos a conviver mais harmoniosamente com esse horror,
poderemos construir outra coisa.
E dizer, isto � o que somos, isto � o que nos aconteceu,
temos uma parte que � uma merda e uma parte que n�o.
Mas a merda � parte de n�s.
Muita gente me pergunta por que dou entrevistas,
por que me exponho.
A verdade � que isso tem a ver com...
...a minha intenc�o de fazer, saber que isso aconteceu,
porque no Chile, h� quem diga que esta opera��o nunca existiu.
� um conto.
Mas estou aqui, aconteceu ... comigo e com meu irm�o.
Isto aconteceu. E aconteceu conosco.
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