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Original subtitles

Legendas por @cultfilmfansub

- Sim? - Meu nome é Arlete.

Sou sua vizinha e antiga proprietária desta casa.

Entre, por favor.

Renato comprou essa casa pra que eu fique isolada

e descanse um pouco,

longe de grandes movimentos.

Sabe, na cidade eu estava sofrendo seguidas crises nervosas.

Vai se dar muito bem aqui.

Vendi a casa depois que viuvei; ficou muito grande pra mim.

Mas gosto do lugar.

Fiquei com a outra, que é bem menor.

Também, só permaneço aqui dois ou três meses por ano.

É bom saber que eu tenho companhia por perto,

pois Renato vai muito a São Paulo e eu fico muito tempo sozinha.

Ah, é mesmo!

Você foi tão gentil que eu esqueci o que vim fazer aqui.

Sim?

Quando ocupou a casa, por um acaso

não encontrou uma cadeira no salão lá em cima?

Ah, sim, a cadeira.

Ela é sua?

Se pudesse me devolver, seria um favor.

Ela representa muito pra mim.

Ah, mas claro que sim.

E, depois, ela não combina com os meus móveis.

Ela tá lá num canto da cozinha.

Um momento, eu vou buscá-la.

Podem fechar. O defeito não se repetirá.

E se aparecer algum outro problema, resolvam sozinhos.

Eu tenho muito o que fazer na diretoria.

Sim, senhor.

Ele sempre fala isso, mas quando surge um problema,

ele faz questão de estar aqui.

É, eu sei.

Você deve ter imaginado aquilo. O chuveiro está perfeito.

Você tá falando sério?

Eu quase morri e não se imagina um acidente daqueles.

Acabei de tomar meu banho e nada aconteceu.

Você sabe que, às vezes, aquelas imagens podem voltar.

O médico mesmo avisou, lembra?

Não foi imaginação.

Depois que eu saí do sanatório, nunca mais eu tive aquilo.

E tem o pescador, ele me socorreu.

Porque você gritou por socorro.

Deve ter se trancado no banheiro e ter tido uma crise de claustrofobia.

Felizmente, agora está tudo bem.

Tome um, vai lhe tranquilizar.

Não quero.

E, depois, você não precisa tomar tantos comprimidos.

A sua saúde é perfeita.

Porque me cuido.

Não.

Desculpe,

mas eu não consigo.

Perdeu o sono?

É, perdi.

Deve ser a noite, a tranquilidade desse lugar.

Ou quem sabe...

Nessa época ele fica mais íntimo, convidativo.

Você deve estar me julgando tola, não?

Talvez, percebendo em você outra mulher.

Tive a impressão que falava com o mar.

- E falo. - E ele responde, lhe satisfaz?

Sim, responde,

mas nem sempre me satisfaz.

Pelo menos me ilude quando me envolve e possui.

Sabe, quando entro no mar,

é como se... é como...

como se me entregasse, como se fosse possuída.

Gostei do que disse,

porque na minha profissão tudo é precisão e lógica.

Você vive em outro plano, em poesia.

Mas, encarando a realidade, que é bruta e presente,

se não fosse o mar...

Você não vem?

O mar não me convidou.

Mas eu estou convidando.

Renato.

Renato!

Aprenda uma coisa:

nunca se deve apontar uma arma pra alguém.

É perigoso. Revólver só se aponta pra usar.

Achei na mesa da sala.

- Fui eu quem o pôs lá. - Por quê?

É pra você e eu vou lhe explicar como se usa.

Diz que é pra mim?

Claro. Afinal, você passa muito tempo sozinha aqui em casa.

É sempre bom ter um meio de defesa.

Preste atenção. É uma arma simples, calibre .32.

Este é o tambor, aqui vão as balas.

Pronto, é só apontar e puxar o gatilho.

Está entendendo?

Ter uma arma nem sempre é um instinto de agressão.

Ela serve pra defesa também.

Graças a Deus, eu encontrei alguém com quem eu possa conversar.

Eu não sei se você entende bem minha situação.

Eu morro de ciúmes de Renato,

mas, ao mesmo tempo, me tortura a ideia

de que ele procure outras mulheres.

E ele procura?

Se eu não consigo, se eu não posso.

Você entende?

Eu tenho feito de tudo,

eu tenho tentado, eu tenho me esforçado,

mas na hora

eu fracasso.

Venha, vamos pra cozinha.

Cada qual com sua cruz.

Se lhe contasse o que aconteceu comigo e Paulo, meu falecido marido...

Ele fracassou na direção da firma, chegou à beira da falência.

Dr. Renato, sua pílula das 16 horas.

Você percebe a maravilha dessas máquinas, Elza?

Para mim, são apenas máquinas.

Não, são muito mais.

São cérebros:

organizam, enfrentam problemas,

dão soluções.

Elza, você já imaginou se todos os computadores do mundo

parassem neste momento?

Seria o caos.

A humanidade correria grande perigo.

Eu sou mais a favor dos homens

e daquilo que eles possam fazer com sentimento.

Nas decisões humanas,

a margem de erro é sempre enorme,

exatamente por causa dos sentimentos.

Nos computadores existe apenas a neutralidade da ação.

Satã,

príncipe das trevas,

em tua homenagem, através destes humildes seguidores,

ofereço-te o defloramento desta virgem,

para que esta reunião se complete

e que todos os teus servos aqui presentes

continuem desfrutando dos teus benefícios aqui,

e para que todos juntos

possamos nos reunir no teu reino para a eternidade.

Ó mestre das profundezas e da escuridão,

senhor poderoso dos anjos negros,

convocamos a tua presença

para que nos assista nesse momento

que humildemente te homenageamos.

Sinto frustrar os seus planos,

mas essa jovem não cumpre as exigências desse ritual.

Ela não é mais virgem.

Eu a possuí há duas noites atrás.

Pode levá-la.

Ela lhe pertence.

Eu não sabia! Eu juro que não sabia!

A televisão está perfeita.

Mas aconteceu mesmo.

Parecia que ela tinha vida,

que ela me desafiava, que debochava de mim.

Ora, você está dizendo isso de um simples aparelho de televisão!

Você não tá acreditando em mim.

Ouça, meu bem,

eu acho que é melhor ir comigo pra São Paulo ver o Dr. César.

Não, nem sonho com isso!

Aquilo passou.

Eu já estou curada.

Estou louca,

perdidamente louca por você!

Eu te curo dessa loucura.

Não,

não quero.

Basta o tempo de lucidez que eu já sinto o Paulo.

Só que ele se suicidou.

Fracassou.

Felizmente, encontrei você.

É, e isso nos prendeu.

Não,

nos libertou.

Eu já terminei tudo.

A roupa eu tô levando pra lavar.

Está bem.

Então, até quinta.

Arlete!

Arlete, cheguei de mala e cuia!

Você deve ter ao menos o senso das conveniências, não é?

Não se chega assim, de repente, na casa dos outros pra ficar.

Ô, mas você ainda está nessa?

Hoje não tem mais disso não.

A gente pega a mochila e se manda.

E se eu não pudesse hospedá-la?

Ora, morando sozinha nessa casa e viúva?

Ainda está viúva, não está?

Estou.

Viúva, viúva no duro ou já tá sacando na base da viúva alegre?

Você é incapaz do menor respeito.

Na nossa família ninguém se vulgarizou.

Não confunda vulgaridade com independência, priminha.

Estou livre dessas babaquices.

Pretende ficar muito tempo?

Não sei, isso depende.

Como anda a temporada por aqui?

Aqui não existe temporada. Essa praia é particular.

Continua dando aquelas festinhas?

- Parei com tudo depois que o Paulo... - Se pendurou pelo gogó.

E homem, como é que você se arranja?

Não me diga que desistiu, porque a sua cara é de quem está em dia.

Homem nenhum. Aqui só tem o pescador e o vizinho da outra casa.

Então, está atacando de vizinha?

Não diga bobagem.

Certo, quer dizer que quando eu quiser me desapertar,

eu posso apelar pro vizinho?

Você não se importa?

O que foi agora?

Você precisa mesmo ficar tanto tempo em São Paulo?

Papai passava apenas um ou dois dias por semana na empresa.

Agora é diferente.

No tempo do seu pai, a firma era pequena,

trabalhava apenas em folhas de pagamento.

Eu fiz a coisa crescer.

Hoje somos uma das maiores organizações de computadores

da América Latina.

Meu bem,

eu tripliquei sua fortuna.

Você não tem mesmo outra mulher em São Paulo?

Do jeito que trabalho,

toda vez que você telefona, aonde estou?

Compreendeu?

Foi por isso que não dei o sinal ontem à noite.

Essa minha prima é completamente aloucada.

Nunca sei o que ela vai fazer.

Então, o que que vamos fazer?

Vamos ser discretos, nos encontraremos na praia à noite.

Por ora, vamos fazer o seguinte...

Sim,

estou compreendendo.

Certo.

Se você acha que vai funcionar...

Bem, tá.

Tchau, um beijo.

O que está querendo fazer? Morrer, matar nós duas?

Estou caçando o homem, não sabia que era você.

Com essa loucura vai acabar se matando!

Dona Helena, já está tudo pronto.

Eu já vou indo, que a noite está chegando.

Até segunda, Joana.

A senhora quer que eu venha amanhã pra fazer o almoço do seu Renato?

Não, quando meu marido está, eu gosto de ficar sozinha com ele.

Então, até segunda.

Até segunda.

Helena.

- Oi, Renato. Entra. - Boa noite, Arlete.

A Helena está aqui?

Não sei o que houve com ela.

Chegou aqui em pânico, falou coisas um pouco sem nexo.

Eu lhe dei um calmante; ela está lá no quarto repousando.

As crises.

Lu, este é Renato, marido de Helena.

Lu é minha prima.

O nome é Ludmila, mas eu o detesto.

Por favor, me chame apenas de “Lu”.

É uma ordem.

Vou chamar sua esposa.

Comprar essa casa não foi uma boa ideia,

deve concordar comigo.

O melhor mesmo é voltar pra São Paulo.

Eu fico.

E eu não posso sair pro trabalho preocupado com você.

Pode deixar, esses problemas vão acabar.

- Vão mesmo? - Eu garanto.

A liberdade é assim,

a gente tem de tomar na garra ou nunca alcança.

É claro que sempre há o risco da gente se machucar,

mas ou se corre o perigo

ou se fica amarrado nesse mundo de conceitos e preconceitos

que só fazem a gente infeliz.

Devo entender que você é uma mulher feliz.

- Eu sou. - Fala como se fosse a única.

Eu também sou feliz.

É mesmo?

Às vezes, a felicidade pode esbarrar em coisas mais importantes, como

responsabilidade e consciência social.

O mais importante é ser.

E nós não somos?

Você sabe muito bem que apenas uns poucos conseguem ser de verdade.

A maioria aceita a canga e se submete.

E existem aqueles que não querem aceitar

nem têm forças para romper,

e fazem como o Paulo, que se enforcou aqui mesmo nessa sala.

Você sabia?

Você sabia a verdade?

Você sabia que o marido de Arlete se enforcou nessa casa?

Sabia.

- Mas como você pôde então... - O que há de especial?

Quantas pessoas morrem tragicamente em suas casas?

O que tem isso de extraordinário?

Elas devem ser abandonadas por isso?

Mas então o que eu vi era real.

O que foi que você viu?

Eu vi-o enforcado.

Entendeu agora porque não lhe contei?

Eu tinha certeza que iria incluir o morto em suas alucinações.

Não tenho alucinações!

Tenho certeza de que tudo é real.

Já pensou numa ajuda espiritual?

Médium? Apelar pro espiritismo?

Eu não saberia como falar com o Renato.

Ele só acredita em seus computadores.

Renato não precisa saber.

E eu tenho de fazer alguma coisa pelo espírito de Paulo.

Se ele está lhe causando esse transtorno, é porque sofre.

Mas eu não saberia como fazer.

Eu não conheço ninguém que possa me ajudar.

Eu conheço.

O Renato não deve saber de forma alguma.

Não vai saber, deixe de se preocupar.

Mas é claro que eu tenho que me preocupar.

Eu conheço muito bem como ele é.

Se ele descobrir, ele vai achar que eu estou piorando

e que eu devo me submeter novamente ao tratamento com o Dr. César.

Acalme-se, isso vai ser nosso segredo.

Não contei nem pra Lu.

É, ninguém deve saber.

Eu tenho medo de Renato.

- Ele a maltrata? - Não, não, não quis dizer isso.

É medo da maneira como ele vê as coisas.

Entendo. Renato é assim como cientista, não tem fé.

Ele acha que eu sou supersticiosa.

Um dia me disse que ainda não me livrei das crendices de criança.

Tenda Espírita Mãe das Águas

O importante é acreditar.

Você está preparada pra receber Mestre Bimba.

Quem poderia esperar que ela tivesse essas visões de Paulo enforcado?

O pior é que não sabia de nada.

Sua consciência está doendo?

Você sabe que não.

O problema é minha prima.

Ela sempre me aparece nas horas erradas.

E você ainda piora as coisas namorando com ela.

Eu estava apenas querendo ser gentil.

Estava mais era...

Agora tudo vai melhorar, você vai ver.

Surpreso?

Muito. Você está diferente.

Você não tá acostumado a me ver assim, feliz.

É, de fato.

É uma verdadeira surpresa pra mim.

Viu como eu tinha razão?

Mudei.

É.

Eu acho que tenho que mudar também.

Homem faz uma falta, hein?

Vamos nos arrancar pela noite afora?

Se arrancar pela noite afora? O que significa isso?

Ora, jogar com a casa da aventura, sair e topar o que vier.

Talvez a gente ache uns homens interessantes.

Isso pode ser bom pra você.

Pode até acabar com essa fossa que você vem curtindo há muito tempo.

O que acha?

Não. Cada pessoa tem sua maneira particular de aventura.

- A minha é diferente da sua. - Diferente em quê?

O fim de toda a aventura de uma mulher é parar na cama com um homem.

Bem...

Ah, me deixa dormir, Helena.

- Ela está bem? - Perfeita.

Então ela é forte,

porque aquele ventilador parecia um demônio.

Ah, foi um mero acidente.

A imaginação nervosa de Helena complica as coisas.

Imaginação? É porque você não viu o que eu vi.

O que Helena precisa é de distração.

Aluguei uma lancha pra darmos um longo passeio amanhã.

- Vamos? - Eu não vou.

- Por quê? - Porque eu não quero.

Se é o que deseja, eu vou assim mesmo.

Senhora dona, é pra senhora. Tá fresquinho.

A senhora está bem? A senhora está bem, dona?

Eu tô bem.

Eu tô bem!

Eu tô bem! Eu tô bem!

Bem! Eu tô bem!

Bem.

Eu tô bem.

Eu tô bem. Bem...

- Vamos voltar? - O que houve?

- Estou ficando tonta. - Isso passa.

Não, não vai passar. Ao contrário, vai piorar.

Tá bom, tá bom.

Pô, mas você é sempre a desmancha-prazer, hein!

Que coisa mais incrível! Não dá pra acreditar!

O que foi?

Eu sou engenheiro de computadores,

capaz até de construir um cérebro eletrônico,

e não consigo achar o defeito desses simples motores.

E agora?

Agora é ficar ancorado, esperando alguém pra nos rebocar.

Então, eu vou aproveitar pra tomar um banho de sol, tá?

Deve ter acontecido alguma coisa.

Estão demorando demais.

Eles não vão fazer mais nada.

Eles sabem que eu estou armada.

Eles?

Renato e Lu?

Está armada contra quem?

Os aparelhos.

Eu os assustei

com o revólver.

- Que é que você tem? - Nada.

É melhor dizer logo.

Por que ficou tanto tempo com Lu no barco?

Acabou a gasolina.

E ela?

Não está se comportando como uma adulta.

Deixe de tolices. Eu tenho que voltar agora.

Amanhã cedo vou para São Paulo.

Mas preciso de você.

Helena pode estar nos olhando agora.

Podemos esperar.

Vamos ter todo o tempo que quisermos.

- Se queimou toda. - Todinha.

- Aonde? - Ora, “aonde”? No barco.

E ficou toda nua?

É claro que eu fiquei toda nua.

Hã...

Que quer dizer com esse “hã”?

Nada.

Se está pensando em Renato,

a resposta é sim.

Tomei banho de sol nua e ele estava no barco.

- O problema é seu. - Foi dele.

- Como assim? - Adivinha?

Sei. Fez de propósito para provocá-lo.

Não, não fiz.

Eu apenas quis aproveitar e me queimar um pouco.

Eu estou aqui há vários dias e tem pintado pouco sol.

Aconteceu?

Nesse isolamento você está ficando retrógada,

desajeitada e velha.

Você não é mais aquela cara legal que eu conhecia.

O que desejava?

Um homem e uma mulher sozinhos num barco, em pleno mar e sol.

Ah, o sol!

Não é preciso mais nada.

Eu perguntei se aconteceu.

E quando é que essas coisas não acontecem?

Bom dia, dona Helena.

Bom dia.

O seu Renato comeu antes de viajar?

E como!

Deve ser o dia, eu também estou com bom apetite hoje.

Pois aproveite e coma o mais que puder, hã.

- Joana. - Hã?

Meu Deus, aconteceu alguma coisa?

Por favor, não ligue mais nenhum desses aparelhos.

Você está dramatizando o caso.

Foi apenas uma aventura de momento e acabou.

Aventura errada na hora errada.

Escute, Arlete,

você está se preocupando à toa.

Conheço muito bem Lu. Sei até onde ela é capaz de ir.

Tenho de me defender.

Você não corre nenhum perigo.

Nós dois corremos, lembre-se disso.

Nós dois.

Que perigo? Seu marido se suicidou.

É, mas há suicídios e suicídios.

E Lu sempre desconfiou de mim.

Ora, isso é absurdo!

Nunca ninguém ousaria acusá-la da morte de Paulo!

Renato, você em nenhum momento tem drama de consciência?

Meu único drama é ser eficiente

e fazer as coisas necessárias nas horas certas.

E, além do mais, estou nisso com você.

É verdade, estamos nisso nós dois.

Só nós dois.

Por que pensa que aceitei tudo?

Porque lhe interessa tanto quanto a mim.

Porque te amo.

Mas ela é doida de tudo!

Eu estava só brincando.

Você foi culpada.

Sabe que Helena é doente e poderia ter morrido.

A responsabilidade seria apenas sua.

Coitado do Renato.

Coitado por quê?

Ter que viver com uma mulher biruta.

Não é tanto assim.

Ela vai acabar mal.

Mas nós não estaremos aqui pra ver.

- Como assim? - Vamos voltar pra São Paulo.

Assim evitaremos maiores problemas.

Se você precisa, vai. Eu fico.

Mas tenho que fechar a casa.

Nesse caso, eu peço pro Renato me hospedar.

Ai!

Podem removê-la.

Helena.

Helena.

Helena.

Eu estava assistindo tudo daqui.

Eu devia esperar por isso.

Isso o quê?

Que você acabaria cometendo um ato desses.

Cometendo o quê, Renato?

Eu não tô entendendo.

Ah, você não entende?

Sabe o que estão fazendo lá na praia?

É a polícia, não é?

Renato, o que foi que eles encontraram no mar?

Não sabe mesmo?

Não dá pra ver daqui.

Acharam o corpo de sua vítima.

Corpo de quem?

O corpo de Lu. Está claro agora?

Não, Renato, não está nada claro.

Certo.

O melhor é dizer as coisas como são.

Talvez você não se lembre de nada.

Meu bem, num desses momentos de delírio, você matou Lu.

Eu?

- Mas como? - Acalme-se.

Eu já tomei todas as providências para protegê-la.

Ninguém saberá.

Arlete compreende e concorda em ajudá-la.

Espera aí, Renato.

Isso é um absurdo.

Infelizmente, não é.

Se eu encontrar qualquer coisa que a faça lembrar...

Os tiros, por exemplo.

Lembra que descarregou o revólver em Lu?

Lembra?

- Sim, mais ou menos. Eu... - É isso.

Preste atenção.

Você lembra dos tiros porque não a matou.

Depois voltou a carga e quebrou-lhe o crânio.

Aí conseguiu, mas apagou o fato da memória.

Você matou Lu, meu bem.

Matou Lu.

Fique calma. Eu cuido de tudo.

Você não vai sofrer nada.

Essa moça era muito veneteira.

Ela vivia fazendo esquisitice,

se metia em tudo quanto era lugar.

É, sem olhar pro perigo.

É, e se ela caiu na minha rede de espera,

é que foi passear de noite na costeira.

Aquilo ali é cheio de pedra, é muito perigoso.

Deve ter escorregado e batido a cabeça.

- Ah, o senhor sabe. - Sei, sei.

Mas uma moça passear assim, de noite,

num lugar tão cheio de pedras...

Esquisito, não?

Pois então, uai.

Aí é que tá.

Aquela dona só fazia maluqueira.

Quando a gente pensava “é assim”,

tiro e queda, ela fazia assado.

Coitada da dona Arlete.

Primeiro o marido, Dr. Paulo, se suicidou,

e agora esse acidente com a prima.

Acidente foi o que foi.

Quem ia matar uma dona tão bonita?

E o casal que comprou a casa de baixo, você conhece?

Conheço, sim, senhor. São gente muito importante.

Este é o túmulo de Paulo.

Por que parou aqui?

Foi uma espécie de chamado, entende?

Eu senti que...

que eu estava sendo chamada pra esse lugar.

Está dizendo que ele a chamou?

Depois de muitas investigações

e levando em conta o temperamento,

as maneiras de sua prima,

eu cheguei à conclusão que se tratou mesmo de um acidente.

Assim sendo,

eu vou dar por encerradas as investigações

e vou remeter o inquérito ao juiz.

Agora, se a senhora tiver alguma dúvida sobre o que eu concluí

ou se porventura surgir um fato novo, não há problema:

a senhora me procure que eu reabro as investigações.

Estou perfeitamente de acordo.

Vamos dar por encerrado o inquérito.

O senhor gosta muito de eletrônica, não é?

Por quê? Parece muito evidente?

Porque todo o tempo que tem livre,

o senhor vem pra cá em vez de ficar no gabinete.

Dona Helena.

Dona Helena.

Dona Helena!

Ô, Dona Helena! Dona Helena!

Não! Não! Não!

Não!

Não! Não!

Ela está louca, completamente louca!

Nunca mais eu volto aqui!

Acabou.

Por enquanto, ela vai ficar no hospital da cidade.

Depois vou levá-la de volta pra São Paulo

e vou interná-la no sanatório do Dr. César.

Já podemos desligar aquelas máquinas.

Pronto. Cumpriu sua missão.

Compreendeu agora tudo que lhe dizia sobre o poder da eletrônica?

É o substituto dos velhos mágicos e feiticeiros.

A eletrônica hoje pode tudo:

o bem e o mal.

Você está mesmo feliz.

Se quiser dizer que eu sou vaidoso, pode.

Eu dominei a máquina tão bem que ela nos livrou de Paulo e Helena.

O que a máquina fez com Helena entendi direito,

mas programar o suicídio de Paulo...

Funcionou a lei das probabilidades.

Quando o computador inverteu os valores da financeira de seu marido,

ele só poderia ter duas saídas:

ou provar que o computador era mentiroso,

ou cometer um gesto desesperado.

Como uma máquina não mente,

porque não possui senso moral...

Eu quero ir pra casa.

- Renato. - Hum?

Foi mesmo Helena que assassinou Lu?

Renato, você não respondeu minha pergunta.

Esqueça.

Isso não tem mais importância.

De qualquer forma, foi bom.

Sua prima estava atrapalhando nossos planos.

Renato.

O que é agora?

Eu gostaria de saber como Helena pôde ver Paulo enforcado.

Vê se dorme. Eu tenho que levantar cedo amanhã.

Mas eu desliguei o computador!

Legendas por @cultfilmfansub

FIM

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