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Fa�o o papel de uma velhota,
roli�a e tagarela,
que conta a sua vida.
Contudo, s�o os outros que me interes- sam realmente e que gosto de filmar,
os outros que me intrigam, que me motivam,
me interpelam,
me desconcertam, me apaixonam...
Desta vez, para falar de mim, pensei:
Se abr�ssemos as pessoas, encontrar�amos paisagens.
Mas se me abrissem a mim, encontrariam praias.
Ponham a�.
Mesmo atr�s da marca. Mesmo depois...
De frente para o mar. N�o... De frente para o mar, assim.
Voltem-se ao contr�rio.
Paralelo ao mar... Chega-te para mim, C�line.
Levanta l� isso.
Isso mesmo.
Aguenta-se, n�o?
A nortada h�-de aguent�-lo.
Fa�o isto ao len�o de prop�sito, mas tem piada, n�o?
Tenho esperan�as que fique assim,
e que s� consigas apanhar-me assim...
Era assim que queria o retrato.
Era essa a minha ideia!
Quero ser filmada em velhos espelhos manchados,
velada por len�os.
Isto faz-me lembrar os m�veis que havia no quarto dos meus pais,
em Bruxelas.
A cama era mais ou menos disto, e o arm�rio da Mam� era assim.
Mas n�o fazem aquele ranger que eu adorava quando ela abria o arm�rio...
L� em casa havia um gira-discos que funcionava � manivela.
Aos domingos, o Pap� ouvia Tino Rossi e Rina Ketty.
�s vezes, durante a semana, a Mam� ouvia a "Sinfonia Inacabada"
de Schubert.
Em pequena, nunca ouvi outra m�sica cl�ssica sen�o aquela,
de cujo t�tulo gostava tanto.
AS PRAIAS DE AGN�S
Um filme escrito e realizado por
Aos meus filhos Rosalie e Mathieu
e aos meus netos Valentin, Augustin, Corentin e Constantin
que me protegem
Acrescento uma ficha t�cnica em directo
para agradecer aos jovens que transportaram os espelhos.
Emilien...
- Nicolas, v�s a c�mara? - Sim, vejo.
- Sarah, v�s a c�mara? - Muito bem.
- E tu, Marjolaine? - Sim, sim.
- E tu, C�line? - Estou a v�-la.
- J�r�me? - Sim, estou a v�-la.
� pena n�o haver fotografias do Alain que filmou,
do Didier, meu s�cio, do Didier Rouget, meu amigo...
� que houve v�rias pessoas que aceitaram entrar...
... numa reverie,
num imagin�rio do qual nada sabiam, ...nem exigiram saber.
Quero que se balance assim...
Perfeito!
Este Mar do Norte e a areia s�o o meu princ�pio...
O princ�pio daquilo que sei mais ou menos sobre mim.
S� conhecia estas praias belgas.
Nelas passei todas as f�rias da minha inf�ncia.
E quando ou�o dizer Knokke le Zoute, Blankenberg,
Ostende, Mariakerke, Middelkerke,
La Panne e Zeebrugge...
� m�sica deliciosa para os meus ouvidos!
Como fui concebida em Arles, chamaram-me Arlette.
Aos 18 anos, mudei o nome para Agn�s,
e registei-o oficialmente na Conservat�ria.
- Sentes saudades da tua inf�ncia? - Nenhumas!
Mas gosto de ver as fotografias...
�ramos cinco filhos,
mas lembro-me especialmente de ser a mais nova dos 3 primeiros.
E depois, fui a mais velha dos outros tr�s.
Sentia-me no meio, bem independente.
Diz-se que a inf�ncia � fundadora,
que nos estrutura e n�o sei qu�.
Eu n�o estou muito ligada � minha inf�ncia.
N�o me serve de refer�ncia aos pensamentos,
n�o � uma inspira��o...
Enfim, n�o sei.
Sonho com esta miudinha neste fato de banho �s riscas
que tamb�m usava este, com al�as.
Levo este. Quanto custa?
S�o tr�s m�os-cheias.
N�o sei.
N�o sei o que significa reconstituir...
uma cena assim...
Conseguir� ela remontar-nos ao momento?
Para mim, � o cinema, � um jogo.
Imaginavas-te, 70 anos depois, a fazer uma instala��o com flores e conchas?
Era mesmo preciso relembrar-me que idade tenho?
Quando exibiram a instala��o que fiz no t�mulo da Zgougou,
bem antes deste regresso � B�lgica,
percebi donde vinha aquilo.
Imaginarmo-nos em crian�a � como correr para tr�s.
Imaginarmo-nos muito velhos � divertido,
como uma piada porca.
Sempre gostei de usar velhos,
gente mesmo muito velha, da 3� ou mesmo 4� idade,
como em "7 quartos, cozinha, wc...", ou assim.
Depois viemos aqui, sobretudo por ser frente ao casino.
Convidei a Jane Birkin para croupi�re...
17, preto, �mpar e manque.
E eu era a jogadora.
32, vermelho, par e passe.
O Pai... e a falta.
Pode dar-se ao luxo de perder tanto?
Perdi o meu pai neste casino,
Eug�ne-Jean Varda.
Jogou... perdeu...
caiu... e morreu.
- � filha de Eug�ne Varda? - Sim, sou eu.
- I se� coritu Vienou Varda? - Sim.
Cena A, take 2.
- I se� coritu to Varda, to Vienou? - Sim.
� a filha...
�...
Corta!
O Eug�ne nunca falou da fam�lia. Esqueceu-se que era grego.
Vamos � �rvore geneal�gica.
- Jean, o m�dico... - O meu av�.
...teve o Lucien, o Georges e o Eug�ne, o teu pai.
O Pap� teve cinco filhos:
A H�l�ne, o Lucien, eu, o Jean e a Sylvie.
Tenho uma fotografia de toda a fam�lia.
Uma s�.
Foi tirada no p�tio da nossa casa de Bruxelas.
Quando era pequena, n�o sabia que o meu pai era de origem grega,
embora se tivesse naturalizado.
Nunca quis levar-nos � Gr�cia.
Fomos criados em Bruxelas como pequenos franceses.
H� uns tempos,
recebi uma carta...
...dum m�dico,
que me dizia assim (n�o sei como o descobriu):
"Vivo na casa da sua inf�ncia e vou vend�-la."
"Gostaria de a ver?"
Fui ent�o a Bruxelas, � Rue de l'Aurore,
com a minha pequena c�mara,
rumo � minha casa de inf�ncia.
Disse assim ao dono: "Comecemos pelo jardim".
Estava na mesma, mas mal cuidado,
com os seus muros de tijolo pintados de branco.
Lembro-me perfeitamente dos "lagos",
sobretudo daquele em forma de p�ra,
bem como da passadeirazinha de cimento.
O jardim estava l�, mas n�o me provocou qualquer emo��o.
N�o me evocou brincadeiras nem l�grimas.
Recordo alguns epis�dios,
mas foram-me contados pela minha m�e.
Ei-la no seu melhor vestido, junto � tal passadeira.
Ontem, no mercado em 2� m�o em Bruxelas,
comprei duas facas ferrugentas
iguaizinhas �quelas que ela nos mandava limpar no jardim.
Dizia-nos assim: "Limpem-nas de cima para baixo".
Pus a Yolande Moreau a diz�-lo numa cozinha imagin�ria...
� a vida...
Quando eu era pequena, na zona rural das Ardenas,
a minha m�e mandava-nos limpar as facas no jardim.
Espet�vamo-las na terra, assim,
e esfreg�vamo-las de cima para baixo.
L� na casa, de baixo para cima, redescobri pormenores que me falaram.
Lembro-me de ver a Mam� a chorar ao p� deste vitral
quando morreu a Rainha Astrid
de quem ela coleccionava fotografias.
Com o marido, o Rei Baldu�no... em vestido de noite,
vestida para visitar os pobres,
ou tendo nos bra�os uma crian�a colonizada do Congo Belga.
A Astrid era a Lady D dos anos 30.
Teve um fim tr�gico id�ntico:
Morreu num desastre de carro,
no auge da sua juventude e beleza.
Depois perguntei-lhe se podia ir ao meu quarto,
no 2� andar.
Tinham transformado em sala o quarto de n�s as tr�s e l� estava a varanda...
Filmei como uma louca!
Dali, via-se a Abadia de la Cambre, e via-se o nosso jardim, de cima.
Eu queria visualizar a minha cama e as das minhas duas irm�s.
Ele queria mostrar-me a sua colec��o de comboios em miniatura.
Eu s� comprava comboios su��os.
Sabe ver se s�o vag�es antigos ou se s�o modelos repintados?
Certamente! Tal como um especialista em carros
lhe pode dizer imediatamente se o carro que lhe vende tem a cor original.
Este foi o modelo mais caro:
Custou-me 15 mil francos belgas, no in�cio dos anos 1980.
� uma pe�a em lat�o.
Se agora o puser � venda na Su��a pode render-me 80 mil francos belgas.
S� se fabricaram 150 exemplares.
- E este? - � um vag�o do Expresso do Oriente.
Tr�s mil francos. Compr�mo-lo no pr�prio comboio.
Casaram-se recentemente? Quando?
Faz dois anos em Agosto.
N�o preferia que ele vendesse o vag�o e lhe comprasse um anel de diamantes?
Sim, mas ele j� tem vendido alguns...
� um investimento.
A colec��o foi avaliada recentemente em 2 milh�es de francos belgas.
Dois milh�es?! Isso � que � paix�o!
N�s vemo-nos como "Os Tarados",
mas a um entusiasta de comboios,
sejam eles em miniatura ou reais,
chama-se um "ferrovipata".
Ferrovipata?!
Foi um encontro divertido,
e como foi um caso algo raro,
senti-me inspirada por este casal e pela sua colec��o de comboios.
N�o me tocou particularmente rever a minha casa.
Ademais, a guerra separara-nos.
Ap�s a guerra, fui pouco aos lagos Ixelles,
no final da Rue de l'A urore.
Houve um tempo em que foi agrad�vel. Eu tinha 27 anos.
Era a estreia do meu primeiro filme numa sala enorme.
Foi tamb�m a minha "estreia" num hotel de 1� classe.
Devo esse tratamento principesco a Jacques Ledoux,
director da Cinemateca Real da B�lgica, que pagou as despesas.
O rosto dele � conhecido
porque Chris Marker o escolheu para o filme "La Jet�e"
onde faz de inventor depravado, de cientista louco.
Fic�mos amigos. Fal�vamos muito de filmes.
Frequent�vamos mercados em 2� m�o.
Ele procurava livros antigos, e eu buscava imagens velhas,
fotografias antigas de fam�lias an�nimas.
As nossas fotografias de fam�lia escaparam a tal destino,
porque a Mam� levou-as quando deix�- mos Bruxelas a 10 de Maio de 1940.
Afast�mo-nos velozmente ao som de bombas e ambul�ncias:
O Pap� ao volante, com a Mam� e os 5 filhos bem apertadinhos no carro,
pelas estradas do �xodo atrav�s da Fran�a,
lado a lado com gente de carro�a ou a p�.
Junto com os golfinhos Meus amigos de inf�ncia
Ao longo destas costas Onde a areia � bem fina
Na praia da La Corniche
O �xodo levou-nos a S�te.
S�te, com a sua colina em forma de baleia,
o seu porto de pesca, com os seus famosos justadores
e a sua vasta praia.
Regresso hoje a esta praia,
�s arrecuas, �s arrecuas, como em todo este filme.
E eu remo para tr�s,
at� ao cais em que habit�vamos.
N�o no cais, mas junto a ele,
numa barca�a que t�nhamos ancorada no porto.
A circula��o era controlada pelas pontes
e n�s est�vamos ligados � vila por um cano de �gua,
um cabo el�ctrico
e uma passadeira frente ao Palais Consulaire.
No liceu, havia duas obriga��es:
Usar bibes Vichy
e cantar para o velho Marechal P�tain.
Marechal
Aqui estamos
Diante de ti Salvador da Fran�a
N�s juramos
N�s, teus rapazes
"N�s, teus rapazes, te juramos..." Pois �, cant�vamos isso.
E jog�vamos � macaca.
E junto ao barco, jog�vamos � pesca do gobi�o.
Ent�o, meninas, isso morde?
Acham que v�o pescar um tubar�o?
Os gobi�es n�o s�o comest�veis, e a gente atirava-os de volta.
Lembro-me bem desse cais. Era o nosso p�tio e o nosso jardim.
Havia uma cena recorrente.
N�o lhe lig�vamos nenhuma
e a Mam�, mesmo � frente do Palais,
afadigada a lavar seis jogos de len��is,
nem sequer reparava.
Nunca deu por nada.
Quando cheg�vamos da escola...
... a casa, ou melhor, ao barco... havia que colocar as b�ias.
Us�vamo-las como espartilhos.
E a Mam� usava uma cinta que se chamava Scandale.
Vivia preocupada, longe do marido,
chorando um irm�o que lhe morrera na guerra.
A Europa estava a ferro e fogo.
Em S�te, uma zona ainda livre, pouco havia que comer.
Viv�amos � molhada, num barco ao qual ela se adaptara,
sem de barcos perceber.
N�o tinha alma de marinheira, n�o sabia nadar e preocupava-se.
Devo dizer que para n�s foi divertido passar a guerra naquele barco!
O grande receio da minha m�e era que ca�ssemos � �gua.
As b�ias tinham a sua utilidade. De 15 em 15 dias,
um de n�s ca�a � �gua.
Eu gostava de cantar num coro com um grupo de escuteiras.
Rouxinol dos bosques
Rouxinol selvagem
�amos ao bosque quando acamp�vamos.
Eram as �nicas viagens poss�veis na �poca.
�amos aos Alpes e recordo-me que, ocasionalmente,
o grupo se dividia em dois.
Vim a saber muito depois
que as guias conduziam as jovens raparigas judias a p�, at� � Su��a.
Eu nem sequer desconfiava que elas eram judias!
E 50 anos depois, fiz uma curta-metragem
sobre os horrores infringidos aos judeus,
e a todos aqueles conhecidos por "Justos"
por terem salvo milhares de crian�as.
Eram camponeses, pastores, padres, directoras de escola,
gente normal.
Expus as suas fotografias, bem como as de outros, no ch�o,
debaixo de v�rios ecr�s.
Reproduz-se a cena infame da pol�cia francesa a deter crian�as judias,
empurrando-as para campos de exterm�nio.
Diz�-lo e film�-lo, ainda que sob forma ficcionada, causa arrepios.
O tempo passou e passa, excepto nas praias que n�o t�m idade.
Nas praias da minha adolesc�ncia,
lembro-me menos dos banhos e mais das pescarias e das redes.
As que havia no porto
e as da Pointe Courte, por onde eu adorava andar.
Fotografava muito
e fui descobrindo este bairro...
Ouvia hist�rias de uns e outros,
sobretudo as dos mais velhos.
Queria us�-las para fazer algo, um filme.
Parecia estar a preparar um document�rio,
mas parte do filme era sobre um casal.
A Silvia Monfort e o Philippe Noiret, que se estreou neste filme,
participaram generosamente nesta experi�ncia cinematogr�fica.
Tinha pensado numa certa estrutura,
um projecto de dois filmes misturados por cap�tulos alternados,
como num romance de Faulkner que me impressionara, "Palmeiras Bravas".
Iria portanto alternar as sequ�ncias dos pescadores com as do casal...
Duas narrativas, cujo �nico ponto em comum era o local: Pointe Courte.
Ela descobriu onde ele nasceu;
ele mostrou-lhe as casas, as ruelas.
Pedira � Suzou e ao Pierre para fazerem de casal.
Experimentei film�-los com uma c�mara de 16mm, sob o olhar dos residentes.
Antes de terminar a montagem, o Pierrot, que tinha um cancro, morreu.
A Suzou criou os filhos de ambos,
Blaise
e Vincent.
Convidei-os para uma pequena home- nagem, com uma carro�a itinerante.
Foi uma forma de lhes mostrar os testes do filme que nunca tinham visto.
Haviam visto o pai em fotografias, mas nunca em movimento.
Embrenh�mo-nos noite dentro com o Pierrot.
Os mi�dos que apareceram no filme, s�o agora os velhos aqui do bairro.
Agora ouvimo-los falar.
Eu entrei naquela parte em que o barco chega...
e descarrega o marisco...
remado por um rapazinho...
Era o senhor, o rapazinho? O rapazinho cresceu!
Leva as uvas.
E o pequeno "D�d�-leva-as-uvas"
foi um dos adjuntos do Pres. da C�mara quando esta foi comunista.
Foi campe�o das Grandes Justas duas vezes, em '78 e '87, certo?
Exacto. Tens boa mem�ria e conheces os cl�ssicos!
Os cl�ssicos e os amigos!
C� est� o D�d�!
Isto foi filmado em 2007...
e isto... em 1954.
Em La Pointe Courte, esperava-me uma surpresa,
conduziram-me ao mundo dos actores das Justas.
E deram o meu nome
a uma travessa que liga o canal ao lago.
Deram-me ainda um escudo, � minha escala
e uma lan�a a condizer.
E toda esta encena��o
n�o � sen�o a minha forma de mostrar gratid�o
aos Pointus que me adoptaram.
Fui tamb�m adoptada por uma outra fam�lia: Os Schlegel.
Com eles, passei todos os meus ver�es.
O casal morava com tr�s filhas
numa casa cuja varanda dava sobre o nosso barco.
Atr�s daquelas tr�s persianas viviam as tr�s irm�s.
A Andr�e tornou-se artista e desposou Jean Vilar.
A segunda, Suzou,
foi minha guia e apresentou-me � m�sica.
Conheci a Linou, a 3� filha, no 8� ano,
e ao longo de 10 anos,
partilh�mos viagens, descobertas e muita loucura.
Era com ela que eu ia at� � praia ter com um pescador de arrasto.
Os rapazes da fam�lia Biascamano
quiseram montar a tenda onde o pai passava os Ver�es.
A irm�, Patricia, trouxe os acess�rios.
A panela da M�e para o caf�...
A Agn�s teve sorte, guard�mos tudo!
Temos at� o Petromax!
Foi o Charles, o pai deles, quem me ensinou a reparar redes.
Lembra-se do que era a pesca?
J� l� v�o tantos anos!
Lembro-me, sim...
Mas vagamente.
Sabe, � que tenho 82 anos.
A mem�ria vai-me falhando.
Bela maneira de o dizer.
Os filhos dela, o Aldo e o Fanfan, organizaram uma pescaria d'arrasto.
Desta vez, dum lado est� Blaise, que - j� sabemos - � filho da Suzou,
e do outro est� Christophe Vilar, o filho de Andr�e.
Vive em S�te e � pintor,
e St�phane Vilar � m�sico.
Sim, esta era a mesa dele.
Trabalhava aqui, frente ao mar.
N�o achas os teus filhos parecid�ssimos com o Vilar?
N�o.
Ela n�o parava de o dizer, at� h� uns tempos.
E que de h� uns tempos para c�, Andr�e tem vindo a perder a mem�ria.
Aquilo que ela melhor recorda � a poesia.
Gosto de a recitar, de saber poemas de cor.
Jean e Andr�e Vilar chamaram � vivenda deles "Meio-dia em Ponto",
em homenagem ao poema de Paul Val�ry, "Cemit�rio Marinho".
Esse tecto tranquilo Por onde andam as pombas
Por entre pinheiros palpita Por entre t�mulos
O meio-dia em ponto a� incendeia
O mar
Sempre recome�ado
Um homem que olhe o mar � um Ulisses, que nem sempre quer regressar a casa.
Todas as crian�as que amo
e todos os homens que olham o mar s�o para mim Ulisses.
Nos meus devaneios de adolescente, imaginava-me a partir com um circo.
A realidade dizia-me pouco e eu n�o sabia nada da vida.
N�o colocava quest�es.
Sabia que as mulheres davam � luz,
mas a Mam� n�o me tinha dito que as meninas tinham per�odo
nem o que faziam homens e mulheres quando estavam juntos e nus.
Com as redes n�o se brinca, s�o reservadas aos peixes.
Desta vez, � mesmo no porto de S�te
que observo, incans�vel, a faina dos pescadores
e os seus barcos latinos, de mastros inclinados
e velas arcaicas.
Gra�as aos ensinamentos do Sr. Mestre,
eu e a Linou naveg�vamos com vela latina
no lago salgado de Thau.
"No mar h� �gua a mais", dizia o pai dela.
Decidi percorrer S�te, sozinha, num barco de vela latina,
recorrendo ao motor ou � vela, consoante as pontes.
Passo a Ponte de la Savonnerie...
Atravesso a Cadre Royal, onde s�o travadas as Justas,
rumo � Ponte de Civette.
Passo a Ponte Vit�ria, que gira,
direita � Ponte Tivoli, que levanta...
E as duas pontes por onde passam comboios, perto da La Pointe Courte.
Foi este bairro que deu nome ao meu primeiro filme.
Este � o �ltimo plano.
- Quando chegamos a Paris? - Amanh� de manh�.
Dizemos "vamos subir at� Paris", como se a Fran�a fosse vertical.
Quando a fam�lia, incluindo o meu pai, se reagrupou em Paris,
ainda decorria a guerra.
Tal�es de racionamento, solas de madeira...
Paris estava cheia de alem�es. A chamada Ocupa��o...
As ruas estavas frias e eram escuras.
A ilumina��o p�blica estava desligada.
Nas casas,
tap�vamos as janelas com papel azul.
No liceu, quando havia ataques a�reos,
as aulas prosseguiam na cave.
Poemas de Mallarm� entre sacas de areia...
E receb�amos diariamente duas bolachas enriquecidas com vitaminas.
N�o subi � Torre Eiffel ou �s torres da Notre Dame,
mas fartei-me de andar pelos cais na senda dos batel�es.
Tinha saudades do porto de S�te e das respectivas gaivotas.
Em casa, raramente se mencionava a guerra.
A maioria das pessoas vivia o dia a dia.
Quando Paris foi libertada, est�vamos no campo e perdemos o momento.
Primeira festa de finalistas, tran�as e soquetes de algod�o branco.
No 2� ano de Filosofia,
entrei para a Ecole du Louvre.
Para l� chegar,
seguia pela Ponte das Artes, a minha ponte preferida.
Era um prazer!
Embora o 1� ano tenha sido intenso.
Philippe de Champaigne...
e a irm� no convento...
C�zanne...
e a sua modesta m�e...
Os livros de Hist�ria de Arte eram a preto e branco.
Eu requisitava-os na biblioteca do Louvre.
Lembro-me de ler nas margens do Sena, logo ali em baixo.
Anos mais tarde, escrevi um gui�o, "Nausicaa".
A hist�ria da filha dum grego
que estudava Arte Antiga no Louvre.
A France Dougnac fazia de Agn�s
e um jovem Depardieu fazia de beatnik.
Devolva-me os livros! Por que mos tirou?!
1 � resposta: N�o; 2� resposta: N�o os posso comprar.
- Isso n�o � raz�o para mos tirar. - Claro que �.
O motivo do roubo � a necessidade, tal como voc�,
preciso de livros de arte.
Roube-os! Mas n�o os meus, preciso deles!
Os jovens s�o incr�veis! Sim � revolu��o!
Se for cultural, ainda melhor; desde que afecte os velhos,
que perturbe os burgueses, que roube os decr�pitos,
mas n�o os sagrados jovens,
sejam eles burgueses ou n�o! - Terei de os pagar!
Se pode pagar, � porque tem dinheiro;
est� melhor que eu, que n�o o tenho, s� tenho livros.
Vou apresentar queixa!
Chame a ambul�ncia ou a pol�cia, mas n�o creio que se atreva.
Tem avers�o � pol�cia...
Enclausurar numa penitenci�ria um infeliz sedento de cultura,
sem livros de arte nem sol...
N�o creio que se atreva a tal.
Paz.
Eu conhecia poucos rapazes.
Era uma jovem tensa, reservada, complexada, tudo me intimidava,
e tinha um problema a resolver:
Como entrar no mundo dos homens
que me assustavam e intimidavam e de quem eu tinha m� impress�o?
Havia que perder o estatuto de virgem.
Havia que encontrar um homem que cumprisse esse prop�sito �nico.
Idealmente, um desconhecido atencioso.
Realisticamente, um adulto atencioso.
N�o havia melhor que os poetas e os pintores surrealistas,
um amor louco
acompanhado por Baudelaire, Rilke, Pr�vert e Brassens.
Tent�vamos o destino, faz�amos cadavres exquis...
Sinto-me segura na barriga desta baleia.
Ao abrigo de tudo, ao abrigo do mundo,
ao abrigo do vento da costa,
no meu abrigo costeiro,
Hoje criei imagens que me habitam h� muito tempo,
desde que frequentei as aulas de Bachelard, na Sorbonne.
Nem sempre compreendi o que ele disse,
mas quando ele se referiu � baleia que engoliu Jonas
ou a Jonas na barriga da baleia da qual n�o queria sair,
senti-me envolvida e feliz,
tal como me sinto hoje.
Era a �poca das perguntas:
N�o saber bem o que se quer,
mas saber o que n�o se quer.
- Prefiro uma ma�� no quarto! - Que hist�ria � essa?!
Acabei o 12�, sou maior. � certo que s� h� 3 dias, mas j� o sou.
Fugir, sem dizer para onde, parecia-me indispens�vel.
Preparei a evas�o em segredo,
vendi alguns objectos,
e comprei um bilhete de 3� classe para Marselha
e um bilhete de conv�s para o barco para a C�rsega.
Ah, a minha primeira noite de liberdade,
sob as estrelas,
enroscada no cordame do conv�s.
Chegada a Ajaccio, instalei-me no cais,
com uma velha rede rebentada,
e, como sabia repar�-la, atra� as aten��es
dum pescador que precisava de ajuda.
O meu primeiro trabalho:
Remar enquanto eles lan�avam ou recolhiam as redes.
Mas o barco era muito maior que este e eles eram tr�s.
Tr�s meses desta vida agreste e coabita��o for�ada
com homens quase mudos
tornaram-me forte e menos receosa.
Foi um bom come�o, n�o era um of�cio;
havia que voltar a Paris e aprender um.
Pronto, fot�grafa!
Fiz o curso nocturno no Departamento de Fotografia na Escola de Vaugirard,
onde, dois anos depois,
Jacques Demy viria a estudar no Departamento de Cinema.
Aprendizagem com os especialistas em Rodin.
N�o tinha acesso ao laborat�rio,
mas encarregaram-me de cortar as provas com a guilhotina,
bem como de as retocar com um pouco de cuspo e guache.
Deram-me v�rias c�pias que haviam apodrecido.
Achava-as belas assim, elas e o meu tecto,
cujo arranjo eu ia adiando.
O certificado de forma��o, 1 as c�maras, uma verdadeira c�mara, como se dizia,
e uma Rolleiflex, oferecida pela Mam�,
comprada em segunda m�o a um rep�rter da revista "Detective".
O primeiro trabalho pago nas Galerias Lafayette:
400 crian�as por dia,
e um trabalho para os caminhos-de-ferro.
As fotografias dos meus amigos, todos eles artes�os ou artistas,
quase todos eles de S�te.
J� fotografara os filhos de Andr�e e de Jean Vilar
na praia, em S�te, e no Parque Montsouris.
Um dia, ele convidou-me a ir ao Festival de Avignon,
para o ajudar e tirar algumas fotografias.
No ano anterior, '47, perdera a aventura,
estava na C�rsega, na pesca.
Daquela vez, sim, estava encantada e fui.
Descobri o Pal�cio Papal...
O p�tio onde Vilar construiu os palcos...
Isto foi o "Ricardo II".
J� n�o h� espect�culos no Pomar de Urbano,
mas foi l� que encontrei um m�sico itinerante.
De onde vens?
Festival de Avignon, 2007, Capela de S�o Carlos.
O Vicente e a Hortense, directores do festival,
convidaram-me a expor aqui as fotografias dos 1� anos de Avignon.
Para quem n�o sabe, foi Jean Vilar quem criou o Festival de Avignon.
Era um grande homem de teatro e um actor espantoso.
Em 1948,
quando fiz esta imagem do Vilar,
que, tendo perdido a coroa,
abanava a m�o em abandono,
fiquei envergonhad�ssima por a m�o estar desfocada.
Sob a ideia da tirania da focagem, senti que estragara totalmente a foto.
Depois passei a apreciar imagens des- focadas, sobretudo em primeiro plano.
Aqui temos a Anne e o G�rard Philipe.
Quero filmar o Thierry a colar estes mosaicos ancestrais.
Atrai-me muito esta ideia da fragmenta��o,
Corresponde verdadeiramente a certos aspectos da mem�ria.
Ser� poss�vel reconstituir a personagem,
a pessoa que foi Jean Vilar, um homem t�o excepcional?
� uma fotografia de G�rard Philipe com 5 metros de altura.
Tem a sua piada, � este aspecto de puzzle que me agrada.
E h� ainda algo de "sonambulesco" nesta personagem.
Pedi ao G�rard Philipe que se vestisse de Pr�ncipe de Hamburgo, em pleno dia.
A minha ideia era que...
o sol de chapa...
...criasse um efeito de lua cheia.
J� sabemos qual o efeito dos flashes nas vernissages.
H� muita gente, ningu�m est� atento, h� muito barulho e discursos.
� sempre o mesmo: Cumprimentamos, agradecemos, esperamos.
A emo��o � algo de incontrol�vel.
Claro que tem piada que o Vilar ponha os seus �culos escuros
a fazer de bigode,
em vez de os usar normalmente.
Ele observa os seus actores,
mas eu...
Eu vejo sobretudo que est�o mortos.
E por isso trago-lhes rosas,
rosas e beg�nias.
A Casar�s, que j� n�o est� connosco, trago-lhe beg�nias.
Beg�nias para G�rard Philipe, que j� c� n�o est�; para Noiret que morreu,
para Denner, que est� morto,
para Germaine Montero, que est� morta.
Para Vilar, que eu tanto admirava...
Para este jovem vistoso...
todas as raparigas se apaixonavam por G�rard Philipe.
Mas pronto, est� morto.
Choro-os muito sinceramente!
E exponho-os... como uma artista
que se orgulha de mostrar a sua obra,
que se orgulha de ter sido convidada, e de ouvir:
"Que fotografias t�o belas!"
"Que bela capela!"
"Como eles eram jovens e belos!"
E claro que penso em Jacques,
n�o h� morte que n�o me lembre a dele.
N�o h� l�grimas... n�o h� flores,
n�o h� rosas, n�o h� beg�nias... que eu n�o deite por Jacques,
o mais querido dos mortos.
Conheci-o em 1958, no Festival de Tours.
Foi em 1959 que ele veio viver aqui comigo,
nesta casa,
neste p�tio ajardinado.
Foi aqui que cri�mos o Mathieu e a Rosalie.
A Rosalie fez-se criadora de guarda-roupa
e o Mathieu � hoje actor.
Este p�tio, agora t�o amoroso...
Nem Jacques nem os mi�dos conseguiram imaginar
em que estado o encontrei em 1951.
Decidi reconstru�-lo como se fosse um cen�rio.
Era uma vereda
entre uma velha mercearia e uma loja de molduras.
Agradou-me.
O meu pai veio v�-lo e disse-me: "Queres mesmo viver neste pardieiro?"
E eu respondi: "Sim, sim, vais ver como vai ficar!"
"Vai ficar muito giro."
Entretanto, o meu pai morreu,
e mudei-me para esta espelunca,
sem aquecimentos ou esgotos, nada de nada;
tinha apenas uma sanita � turca no p�tio.
Encontrei no p�tio vest�gios dos seus anteriores ocupantes.
Inclusivamente molduras.
Esta aqui...
...encontrei-a l�.
Achei-a muito bonita!
O Calder foi visitar-me e adorou-a!
Apreciava muito as suas visitas.
Fotografava-lhe aqueles mobiles fant�sticos.
Ele afirmava faz�-los num abrir e fechar de olhos.
Ofereceu-me um em troca das minhas fotografias.
Que homem!
Um fulano maravilhoso!
Que ligeireza a sua na praia de S�te!
Que alegria!
Pus um espelho na moldura e usei-a nos filmes.
Se queremos olhar para os espectadores,
temos de olhar para a c�mara.
Eu estou sempre a olhar para a c�mara,
mesmo quando falo das urg�ncias que fiz
para montar um laborat�rio e uma c�mara escura,
onde os negativos se transformam em imagens.
O meu in�cio como fot�grafa foi dif�cil,
eu fazia tudo sozinha.
� uma vida relativamente solit�ria, com impulsos passageiros,
as hist�rias, as paix�es, os amores...
Tive Invernos muito frios,
mandei vir uma salamandra e encomendava o carv�o.
E l� ia eu, todos os dias, com o meu balde de carv�o,
buscar carv�o para o aquecedor.
Tinha a roupa forrada a pele de coelho,
e passava o dia quase todo de gorro e luvas.
O meu p�tio gelado viria a servir de cen�rio
� Jane Birkin e � Laura Betti.
Pequena A: Paci�ncia.
Pequena B: Coragem.
� a lei do desempregado s�bio.
Meu amigo, como deves ter passado frio!
Mas vem!
O meu patr�o procura um empregado.
Falei-lhe de ti.
O nosso corajoso vizinho pasteleiro aceitou acolher o nosso pandem�nio.
As vossas hist�rias t�m gra�a!
Eu era padeiro e ela era costureira.
Ele era padeiro l� na minha terra.
Eu levava-lhe o p�o.
Estava sempre mortinha por o ver quando ele vinha �s quartas.
Gostava do of�cio dele, agradava-me vir a ser um dia padeira.
Al�m disso...
Ele era um rapaz bem-parecido.
Os meus vizinhos serviam-me ami�de de modelo,
o merceeiro tunisino,
e a Bienvenida, uma mulher formid�vel.
Tamb�m vivia no meu p�tio,
com o marido e o filho Ulysse a quem eu tanto amei.
Cheguei a expor l� no p�tio,
e recebi a visita dos vizinhos,
e de artistas como Hartung,
Prassinos,
Brassa�...
Este � um nu em forma de noz
e uma batata em forma de cora��o.
Em 1953 foi s� uma,
mas em 2003 foram centenas na insta- la��o Patatutopia, na Bienal de Veneza,
em que espalhei pelo ch�o 700 kg de batatas.
Para atrair visitantes,
eu passeava-me vestida de batata falante,
apresentando as variedades deste modesto tub�rculo.
Quando me vim embora, o meu fato ti- nha uma fotografia a fazer de cabe�a,
ou um gato,
um azulejo,
ou um mosaico,
o meu primeiro auto-retrato oficial.
Fosse em mosaicos ou frescos, eu adorava a arte antiga;
e as mulheres de Piero della Francesca
conduziram-me a Silvia Monfort,
contracenando com Philippe Noiret, que se parecia com Filipe, o Bom.
Quanto � imagem do casal, eu tinha visto obras de Braque.
Naquela altura, descobrira tamb�m Picasso, com entusiasmo.
Havia que escrever um di�logo para o casal.
E assim o fiz, aos Domingos, no meu p�tio.
Se queres vir sossegada, eu posso ir-me embora.
- S� gostas de falar de felicidade. - Pois �...
Para a montagem,
contei com Alain Resnais no painel de ben�volos volunt�rios.
Observo os seus tra�os cl�ssicos.
N�o deixam adivinhar a sua paix�o e curiosidade por arte, por cultura,
e todas as complexidades surrealistas.
Ele chegou a filmar um plano desaparecido.
Pois �, filmou-se no meu p�tio um raccord duma rua
em La Pointe Courte.
Vais voltar a dizer-me: "Isto n�o pode durar".
Talvez.
A assistente do Alain, Anne Sarraute,
apresentou-me � m�e, Nathalie Sarraute.
Tinha tra�os de Sioux e uma escrita acutilante.
Ela iluminou-me, inspirou o meu trabalho,
e deu-me a felicidade de conhecer a sua amizade.
Durante a montagem em 1955,
havia um tipo que ligava ami�de ao Resnais:
Chris Marker.
Quando ele apareceu, s� lhe vimos o casaco de cabedal,
as botas, as luvas e os �culos.
� t�o discreto, que se faz representar por
um gato chamado Guillaume no Egipto.
� autor de filmes espantosos e de coment�rios variados.
� ele quem me vai entrevistar.
� meu amigo e interlocutor, mas mudei-lhe a voz.
Por que passaste da fotografia � cinematografia?
Lembro-me de querer palavras.
Achei que juntando palavras a imagens obter�amos cinema.
Claro que rapidamente percebi que n�o era a mesma coisa.
Eras uma cin�fila?
N�o, n�o era.
At� aos 25 anos, s� tinha visto uns 9 ou 10 filmes.
N�o fui para a escola de cinema nem trabalhei como assistente.
Usei a imagina��o...
...e atrevi-me.
Fui apoiada, � o termo, por t�cnicos generosos.
Eles n�o tiveram culpa que o filme n�o tenha rendido.
Continuei a trabalhar como fot�grafa para o Vilar.
A TNP passou do Pal�cio dos Papas para o Pal�cio Chaillot.
Eu subia quase todos os dias a colina do Trocadero.
Precisava dum carro.
Estacionava o meu primeiro "4 Cavalos" em casa.
O p�tio e a garagem eram t�o estreitos,
que a manobra era complicada.
Avan�ava-se um bocadinho,
recuava-se um pouco...
Tinha de fazer isto umas 14 vezes para me enfiar na min�scula garagem.
Quando estava inspirada, fazia-o em 13 manobras.
D� um grande passo em frente, vai at� � China!
Disse-lhes que eras sin�loga e uma excelente fot�grafa.
Levei o material todo: A Leica, a Rolleiflex...
la carregada que nem uma mula.
Trouxe de l� milhares de imagens.
Concentrei-me no trabalho
e no �lan colectivo desta revolu��o novinha em folha.
De vez em quando, parava, porque as paisagens eram lindas.
Na China, em 1957,
surpreendeu-me ouvir esta valsa por todo o lado.
Para minha grande surpresa,
as crian�as usavam roupa colorida e trajes,
enquanto que em Fran�a ainda se usava o rosa e o azul-beb�.
Trouxe toucazinhas que a Rosalie usou um ano mais tarde.
Antes de ela nascer, escrevia ao futuro pai por quem estava apaixonada.
Mas a nossa liga��o terminou mal engravidei.
Eu enfeitara os envelopes. Ele devolveu-os ao remetente.
Fiz um montinho com as dele, e nunca as reli.
Primeiro, criei a Rosalie sozinha, mais tarde com o Jacques.
�amos ami�de a Noirmoutier.
O Jacques queria mostrar-me a ilha onde acampara em adolescente.
Ele procurava uma casinha de pescador.
Encontr�mos um moinho abandonado.
Intrigou-me uma luva que vi l� pendurada.
A especialidade da ilha s�o batatas e ostras.
Que linda ostra!
Que lindo mexilh�o!
Que linda onda...
A Nouvelle Vague.
A ostra, o mexilh�o, a onda.
Chega.
Fala-nos ao inv�s do nascimento da Nouvelle Vague.
Truffaut, Godard, Resnais,
Chabrol, Rivette, Demy...
E tu, a Varda?
Com efeito, o Jean-Luc Godard procurou o Beauregard e disse:
"Vou fazer um filme que o vai relan�ar. Vai ser fenomenal."
Tinha raz�o. Fez "O Acossado".
O filme foi um enorme sucesso.
O p�blico adorou, bem como Georges de Beauregard, que perguntou ao Jean-Luc:
"N�o tem mais um amigo que fa�a filmes baratos que d�em dinheiro?"
O Jean-Luc apresentou-o ao Jacques Demy,
que fez o "Lola" com a Anouk Aim�e.
O Beauregard disse ao Jacques,
"Quero formar um grupo, n�o tem um colega que me fa�a um filme baratinho?"
Ele disse: "Conhe�o uma rapariga, a Agn�s Varda..."
O Beauregard disse-me assim:
"Fa�a como os seus amigos e d�-me um filmezinho baratucho a preto e branco".
Eu fiz-lhe o "Cleo de 5 � 7" com a Corinne Marchand.
Todas as portas abertas
Em plena corrente de ar
Tivemos de filmar depressa e concentr�mo-nos no conte�do.
A Cleo receia ter cancro.
Acompanho-a minuto a minuto, em tempo real,
numa situa��o real.
Queria precisamente combinar o tempo objectivo,
comprov�vel nos rel�gios omnipresentes,
e o tempo subjectivo,
conforme � vivido pela Cleo durante o filme.
Antes e durante as filmagens,
tinha os quadros do Baldung Grien na cabe�a.
A beleza voluptuosa e a morte �ssea.
A doce carne que n�o � eterna...
O seu medo do cancro e da morte. Cruza-se com um outro,
o de um soldado da guerra da Arg�lia.
A guerra da coloniza��o foi muito contestada.
Houve quem bombardeasse os locais de protesto.
Outros continuaram a travar essa guerra.
No filme, Antoine Bourseiller faz de soldado
que, na v�spera de partir para a Arg�lia,
trava intensa amizade com uma loura alta.
E o filme foi seleccionado para Cannes.
A Corinne sente-se rainha por um dia.
A mim, ningu�m conhece ou reconhece. Tudo me diverte.
Naquela altura, subia-se ao palco antes da exibi��o do filme.
Fui apresentada pelo famoso L�on Zitrone:
"Deixo-vos com Agn�s Varga".
Decerto pensava nas meninas do Casino de Paris, as Varga Girls.
Ap�s a exibi��o do filme,
pos�mos juntos no alto da escadaria do velho pal�cio...
Eu ia vestida com uma cria��o da guarda-roupa da TNP,
que, a pedido meu, me deu um ar de circo.
Imaginava l� eu que "Cl�o" fosse solicitada para toda a parte,
comigo ou sem mim,
e que eu viajaria por aqui e por ali, com ou sem o Jacques,
cujos filmes "Lola" e"A Grande Pecadora"
foram a muitos festivais,
antes da mega-digress�o de "Os Chap�us-de-Chuva de Cherburgo".
Em 1962, fomos a Cuba, em plena revolu��o.
Era o socialismo e o cha-cha-cha
com grandes esperan�as e energia, uma coisa linda de se ver.
Tirei fotografias para filmar mais tarde.
Tinha de fotografar o Fidel Castro.
Quando o fiz,
vi um ut�pico corpulento,
com asas de pedra.
Tinha tamb�m que fotografar a safra da cana d'a��car.
Altera��o radical de clima.
No pino do Inverno em Noirmoutier,
escolhi e preparei 4 mil fotografias de Cuba
para o meu filme animado.
Eu e o Jacques ador�vamos chegar � ilha mal a mar� libertava o caminho.
Ador�vamos aquela ilha!
Ali viver,
ali escrever...
Sinto-me bem junto ao mar.
Como o mar, com as suas cores sempre em muta��o...
Talvez eu seja tamb�m um pouco assim, cinzento e azul.
Gostaria de fazer filmes calmos.
Filmes sobre a felicidade.
Eu fiz um filme sobre uma felicidade em particular.
Filmei-o nas delicadas paisagens da lle-de-France
que tanto haviam marcado os pintores lmpressionistas.
� a hist�ria singela, embora n�o t�o simples,
de uma pequena fam�lia.
Com Jean-Claude Drouot,
a esposa e os filhos.
� bem conhecida a enternecida express�o que os pais t�m ao olhar os filhos.
Dizer enternecida, � dizer pouco.
Vem c� ver!
Anda c� ver, H�l�ne.
Esta fotografia foi tirada pelo Jacques.
Intimida-me filmar-vos.
Gostava de vos ver sempre juntos.
Os meus lindos filhos, os filhos de Jacques e de Antoine,
criados por Jacques, os meus lindos filhos...
- Pronto! - Estamos lan�ados.
Eis a Rosalie, no final de "Chap�us-de-Chuva...".
� a filha do amor.
Pagaram-me! Comprei um chapeuzinho de chuva e uma mercearia.
Ei-la em "Uma Canta, a Outra N�o".
- Pelo meu 18� anivers�rio. - N�o discutiste?
N�o tive alternativa! N�o tive alternativa...
E este aqui, Mathieu Demy...
Vi-o crescer no ecr�.
- Como te chamas? - Zorro!
Parece que a ascens�o do nazismo n�o foi um grande sucesso.
S� tinham 6 elementos.
Mas isto � fic��o, enquanto ele for vivo, pode servir-nos.
Ele surpreendeu-me numa brincadeira de "L'A ge d'Or"
em homenagem a Luis Bu�uel.
Aquele era o meu pequeno Mat?
Quando filmei "Daguerreotypes",
o Mathieu Demy era pequeno.
Tinha-o tido j� tarde e n�o queria deix�-lo.
Por isso, convinha-me filmar no bairro,
estava sempre perto de casa.
Os comerciantes do bairro aceitaram vir ao caf�
para assistir ao Mistag.
Deixaram-nos filmar nas suas lojas,
mas insisti em usar a minha electricidade.
Passava a extens�o pela fenda da caixa do correio,
e todas as manh�s puxava assim a extens�o
para ir at� ao caf�,
� padaria,
ao vendedor de acorde�es,
ao fulano que vende rel�gios...
E para o outro lado,
o alfaiate,
a loja de ferragens...
E mais abaixo, o talho,
a mercearia,
e este casal que eu adorava,
o Sr. e a Sra. Chardon Bleu, mais ao fundo.
Decidi n�o ir al�m dos 90 metros.
Era o limite.
� noite, pux�vamos a extens�o,
recolh�amos os projectores.
Deix�vamos a extens�o pendurada
e eu voltava para casa.
E desligava a electricidade.
Uma vez contei a hist�ria desta longa extens�o,
90 metros e tal,
e algu�m disse:
"N�o querias era cortar o cord�o umbilical".
Talvez tivessem raz�o.
A nossa fachada foi sendo transformada.
O Le�o Beldford tamb�m, no centro do bairro.
O Andr� Breton sugeriu que ele roesse um osso
e eu, que o substitu�ssemos pela minha gata Zgougou.
A Zgougou tamb�m � a mascote e o log�tipo da nossa produtora.
Cin�-Tamaris.
A Cecilia Rose? N�o desligue, vou passar.
� para uma exibi��o de "A Princesa Pele-de-Burro".
Est�? N�o desligue!
J� n�o h� ch�.
Tem um or�amento?
Ainda n�o, ainda n�o.
- As bobines do "Jacquot". - Obrigada.
Agn�s, vou passar.
Primeiro eu!
Tem de falar com a St�phanie.
� do Banco Neuflize OBC?
Precisamos dum empr�stimos sem juros,
para acabar o filme sem stress, por favor.
� dif�cil suportar os custos e a responsabilidade duma produ��o.
H� que atingir um delicado equil�brio
entre imaginar um filme, financi�-lo e pag�-lo todo.
Sim, h� que gastar, mas tamb�m � preciso recuperar o investimento.
Se n�o for em dinheiro, ent�o em trof�us.
Seja no guarda-lou�a ou na areia,
os meus pr�mios est�o sempre com os do Demy.
A Palma de Ouro de Cannes e o Le�o d'Ouro de Veneza.
Continua l�, v�!
Tivemos a praia por dois dias. Primeiro dia: Tempo impec�vel!
Segundo dia, m�s not�cias: Choveu, a areia ficou empapada.
Boa not�cia: Temos p�ssaros.
Regresso a casa, os gatos est�o c�.
Estes dois tamb�m.
Uma fam�lia imagin�ria, encontrei-os na rua,
como este rel�gio sem ponteiros e as duas cadeiras.
Mas para alguns encontrar significa comer.
Vivem dos nossos restos
e v�o "�s compras" quando o mercado fecha.
Tudo o que deitam fora...
H� quem remexa o lixo...
No passado, forrageava-se por necessidade;
mas hoje tamb�m.
Ver tanto desperd�cio,
enquanto ainda h� gente com fome...
� deplor�vel!
Se consegui aproximar-me deles, e por vezes film�-los sozinha,
foi gra�as a estas novas camarazinhas novas digitais.
Consegui com uma m�o filmar a outra,
e apanhar os cami�es durante as longas horas de viagem
das filmagens de "Respigadores" que nos levaram de Norte a Sul
e da orla costeira ao centro da Fran�a.
Ah, as divis�es administrativas que aprendi em pequena a localizar,
gra�as aos puzzles que j� s� encontramos
em lojas de velharias!
Coisas que j� l� v�o: "Corr�ze, sede de Tulle... Lot, sede de Cahors...
Gosto muito de mercados de 2� m�o.
Andar � pesca ou conversar, passear ou filmar...
... encontrar coisas.
Olha, um prato de Li�ge.
Vou oferec�-lo aos Irm�os Dardenne, meus irm�os do cinema.
Olha! Uma m�quina de costura como a do "L'Op�ra Mouffe"!
E fichas de cinema.
O meu filme preferido.
Dez c�ntimos pelo meu filme.
Jacques Demy...
Jean Cocteau...
Antes de sermos fichas de cinema com cabe�as em cart�o...
fomos seres de carne e osso,
amantes, como os de Magritte.
Sim, partilh�mos cama, mesa,
filhos, jogos e estadias em Noirmoutier,
mas no p�tio, t�nhamos dom�nios distintos.
Foi o que observou Mich�le Manceaux.
Dum lado, Jacques, aqui com o Michel Legrand...
Aqui faz-se cinema em todos os cantos.
Do outro lado do p�tio, trabalha Agn�s Varda.
Hoje termina com Michel Piccoli
as filmagens do seu �ltimo filme, "Les Cr�atures".
"Edgar?" E viras-te e imediatamente...
Mal te viras, h� que carregar...
Pronto? Ac��o!
Edgar?
Foi mais f�cil fazer um raccord em Paris
do que convencer Piccoli a voltar a Noirmoutier
onde o filme fora filmado.
N�s instal�mo-nos l�, �amos l� ami�de...
A ilha inspirava-me.
Via-se o Michel Piccoli a falar com um cavalo
e depois com a mulher, Catherine Deneuve,
que emudecera,
na sequ�ncia dum acidente.
Ela parece o Anjo das Boas Not�cias quando anuncia que v�o ter um filho.
Como Jacques se encontrava na ilha a preparar um filme com o Michel,
aparecia l� nas filmagens e tirava umas Polaro�ds.
Mas com os outros filmes cada um trabalhava por si.
Visit�vamo-nos muito pouco,
uma ou duas vezes, sem grande alarde.
N�o quero deixar de dizer que Godard, por amizade,
aceitara ser filmado sem �culos escuros.
Eu adorava os seus lindos olhos e o seu belo cinema.
Tirei umas fotografias.
Aqui, um retrato de toda a equipa de "Os Chap�us-de-Chuva de Cherburgo".
E a bela, bela Catherine, no cais da despedida...
Ao fundo, de imperme�vel amarelo, est� Jacques.
E eis Jacques Demy, emoldurado pela sua Palma d'Ouro de Cannes
e pelo sucesso do seu filme nos Estados Unidos,
alvo dum �ptimo contrato com a Columbia!
Acompanhei o Jacques porque o amava,
e porque lhe propunham uma formid�vel aventura � Hollywood.
N�o pensava demorar-me,
mas acontece que aquela cidade
me seduziu imediatamente,
me fascinou instantaneamente!
O movimento hippy agitava a cidade e as pessoas.
Liberdade por todo o lado, Peace and Love... Abaixo a Guerra do Vietname.
Vivam os Panteras Negras! A liberta��o das mulheres!
Havia enormes manifesta��es pac�ficas nos parques p�blicos.
Jacques, que procurava quem contracenasse com Anouk Aim�e,
pediu-me que fizesse o casting dum jovem actor, Harrison Ford.
Mas os est�dios recusaram-no, aconse- lhando-o a esquecer a representa��o.
Ele ainda hoje se ri desse conselho.
O chefe de est�dio disse-lhes...
Para me esquecerem, que eu n�o tinha futuro no cinema.
Entre 1967 e '68,
filmei "Lion's Love"...
Volt�mos dez anos depois
e fiz um document�rio "Mur Murs", mas...
...quando penso nisso, todas as �pocas se confundem.
Quando viv�amos em Beverly Hills
numa casa com uma palmeira e uma piscina em forma de rim,
a Rosalie descobriu a televis�o e os an�ncios.
Passados 10 anos,
o Mathieu enamorou-se duns flippers numa casa � beira-mar.
As recorda��es esvoa�am � minha volta como moscas desorientadas.
N�o sei, hesito em lembrar-me de tudo isso,
n�o o quero...
E regressar agora aos locais das minhas filmagens...
N�o sei se vou gostar...
A baleia azul lembrava-me "Pr�vert".
E as famosas piscinas da Calif�rnia,
o meu filme hippy � Hollywood "Lion's Love and Lies".
Quanto me amam?
Como doze gralhas cor d'amora.
Como um Romeo de '75.
Como spaghetti p'ro jantar d'hoje.
Os dois tipos eram Rado e Ragni,
autores e actores no c�lebre musical "Hair"
e a divina Viva era a musa de Andy Warhol,
que eu conhecera na Factory em Nova lorque.
Ei-los num trio conjugal
a ver a not�cia de um assassinato.
O Senador Robert Francis Kennedy
morreu hoje � 01h44...
... da manh�.
Imperava o slogan da �poca:
Sexo e pol�tica, pol�tica e sexo.
N�o jantamos a ver televis�o, jantamos a ver a paisagem.
Quanto ao escrit�rio de Emilie,
dava para a minha paisagem preferida: A praia.
�s vezes, apont�vamos a c�mara e aguard�vamos.
Os transeuntes faziam a sua pr�pria mise-en-sc�ne,
colocavam-se no espa�o.
O acaso foi o meu assistente nesse filme chamado "Documenteur".
Um dia, enquanto film�vamos,
o acaso trouxe-nos um casal uma cena de namorados.
A gritaria alertou-nos.
Desviei a c�mara.
Perguntei-lhes se a m�quina os incomodava.
Estavam-se nas tintas, portanto, mandei a Sabine passar por eles.
Como recordar Sabine Mamou?
O seu belo rosto grave e o seu riso que n�o mais ouviremos?
Era montadora e aceitou contracenar com Mathieu,
uma m�e e seu filho.
Emilie e Martin.
Olhando para tr�s,
vejo que ela foi outra "eu".
- O Martin est� bom? - Est�.
- E o Tom? - Separ�mo-nos.
N�o acredito! Voc�s n�o!
Entendiam-se t�o bem!
Ouve l�, mas tu est�s mesmo bem?
N�o.
Se eu n�o estiver feliz, o que fazemos?
E se ele n�o for feliz, o que fa�o?
Se eles n�o s�o felizes, o que fazem?
Eles ou elas, o que fazem eles?
Este pont�o, que invade o Oceano Pac�fico,
� o fim da linha da caminhada para o Oeste.
Para muitos imigrantes cheios de sonhos de sucesso
� o fim da esperan�a.
Mas � tamb�m o cantinho preferido dos marginais de Venice Beach.
Somos todos vizinhos, onde quer que estejamos!
Agarra-te ao real!
Um conselho tipicamente californiano, certo?
Pois �! Isto � Venice!
N�o h� s�tio como este!
� nesta praia que gosto de encontrar os meus amigos de todas as �pocas.
Entre eles, Tracy e Jimmy MacBride,
o realizador independente que conheci em 1968.
Maio de '68 em Fran�a...
Isso diz-te alguma coisa?
Eu n�o estava l�, simplesmente.
Mas em '68, os Panteras Negras organizaram-se
e eu filmei-os.
Eles manifestaram-se e eu filmei-os.
E marchei com os manifestantes contra a Guerra do Vietname.
Na Guerra do Vietname, os jovens protestavam
e ia tudo para a rua. Isso agora n�o acontece.
Referes-te � Guerra do Iraque?
Est�o-se nas tintas, porque ningu�m � recrutado.
N�o s�o recrutados, mas h� mortos na mesma
e prest�mos-lhes homenagem na praia.
Nesta galeria, os artistas criaram cartazes.
Foram j� distribu�dos 30 mil, um pouco por todo o lado,
mas nem os pr�prios artistas prev�em que efeito ter� esta pequena ac��o.
Encontrei o nosso amigo Gerry Ayres.
Foi ele quem trouxe o Jacques � Columbia
em 1967 e lhe deu "carta branca".
Acompanhou tamb�m as minhas aven- turas com os est�dios de Hollywood.
A Agn�s teve a oportunidade de fazer um filme p'ra Columbia Pictures,
mas bateu na m�o dum homem que lhe beliscou o rosto
e perdeu o financiamento.
Eu n�o era uma criancinha para me beliscarem a cara...
Sim, e tiraram-te o filme. Chamava-se "Peace and Love" e era maravilhoso.
Sim, mas eles n�o queriam confiar-me a montagem final.
Foi a raz�o principal. - Eu sei...
Esque�amos os est�dios.
Foi o dinheiro franc�s que me pagou o filme sobre murais chamado "Mur Murs".
Isto foi uma publicidade para uma loja de vestidos de noivas.
Este enorme fresco com 6km de comprimento
chama-se "O Para�so dos Porcos".
Decora a veda��o duma f�brica de salsichas
onde matam 6 mil porcos por dia.
Outros murais reflectem os problemas locais,
o �lcool, as mulheres maltratadas,
a pobreza, as drogas
e as reivindica��es de certas comunidades.
Mas este tipo aqui pintou a mulher em grande plano
para dar prazer aos surfistas.
C� estou eu novamente na praia com uns amigos.
Gostaria de fazer uma curta-metragem sobre cada um deles.
A Lisa,
a Gwen,
o Tom,
a Lynn
a Denise
e o Alain.
Foi o nosso amigo Alain Ronay quem nos apresentou o Jim Morrison.
�amos ver os concertos do Jim, e ele ia aparecendo l� por casa.
Pequeno par�ntesis em Fran�a:
Levei o Alain e o Jim a Chambord
para ver o Jacques que filmava um conto de fadas, "A Princesa Pele-de-Burro",
com a sua princesa preferida, a Catherine Deneuve.
E eles foram, por amor ao cinema e amizade.
Fechemos o par�ntesis.
Outro par�ntesis:
Na Calif�rnia, brunch para dois, numa partilha de c�mara,
o meu assistente Eug�ne e eu.
Isto � a minha cara! Sou a senhora das panquecas!
Esta � minha, e esta � tua.
Esqueci-me que estava a ser filmada
e fui apanhada a limpar-me duma forma nada compar�vel � delicadeza dos gatos.
Fim de par�ntesis.
Queria contar uma pequena hist�ria de amor e de praia,
a hist�ria da Patricia Knop e do Zalman King.
Chamo-me Patricia Knop.
Cresci nas praias do Lago Michigan.
Eu chamo-me Zalman King.
E cresci nas praias de New Jersey.
E conheci a Pat.
E estamos juntos h�...
...45 anos.
Homem do mar, mulher do lago.
E cas�mos na praia.
A umas ondazinhas daqui.
O nosso padre tinha uma meia amarela e uma meia castanha
E t�nhamos os ma�aricos-das-rochas por nossas �nicas testemunhas.
A Patricia sabia o nome dos p�ssaros e dos anjos.
Eles protegem-na, a ela e � fam�lia.
H� j� muito tempo que os vejo apai- xonados, vivendo em bela harmonia.
Uma onda de ternura por este casal.
Pequena pitada de inveja.
Alguma tristeza...
Regresso a Fran�a, a casa.
Regresso � �rvore do p�tio.
Tanto eu como Jacques nos entreg�mos a filmes
menos ligeiros do que os anteriores.
Sandrine Bonnaire era Mona,
"Sem Eira Nem Beira", bela e rebelde sem causa.
O filme retrata uma jovem enigm�tica
vista por aqueles que a conheceram.
S� a conhecemos atrav�s de vislumbres.
Os encontros s�o espa�ados por 13 travellings
todos da direita para a esquerda,
ao som de uma m�sica de Joanna Bruzdowicz,
especialmente composta para este aqui.
D�o-me boleia?
Vou buscar o meu saco.
A Mona � uma revoltada.
Seus idiotas!
A Mona quer ser livre...
Chateou-me ser secret�ria,
rejeitei todos os meus chefes, n�o preciso doutro.
N�o sei em que momento me apercebi
que n�o era apenas a quest�o de ser livre,
mas que - para acontecer - a luta das mulheres tinha de ser colectiva.
Das reivindica��es, a mais urgente era o direito de ter ou n�o filhos.
J� n�o � o pap�
O Papa ou o rei
O juiz, o m�dico
Ou o legislador
Que ditar�o o que fa�o
Procurei ser uma feminista alegre, mas sentia-me muito zangada.
A viola��o, as mulheres agredidas, as excis�es do cl�toris...
Os abortos em condi��es pavorosas.
Jovens que, indo para o hospital depois de fazer uma raspagem,
ouviam aos jovens internos: "Sem anestesia, para aprenderem!"
Por duas vezes,
emprest�mos esta linda e encantadora casa cor-de-rosa
para fazer abortos clandestinos.
Fui uma das signat�rias daquele manifesto
a que o jornal "Minute" chamou "O Manifesto das 343 Gald�rias",
porque declar�vamos: "N�s j� abort�mos, julguem-nos!"
Fosse ou n�o verdade,
a lista de signat�rias, mais ou menos famosas,
gerava celeuma sempre que se julgava uma mulher que tinha abortado.
A luta era sempre igual:
Direitos das mulheres, direitos dos trabalhadores.
Por seu turno, o Jacques Demy juntamente com Michel Colombier,
arranjou maneira de divulgar uma grande greve nos estaleiros de Nantes
num filme chamado "Une Chambre en Ville".
N�o queremos problemas!
Deixem-nos passar! A gente n�o arreda p�!
Deixem-nos passar! Deixem passar!
S� queremos defender Os nossos direitos!
Isto foi um filme,
mas eu e Delphine Seyrig manifest�mo-nos
mesmo no processo de Bobigny
em 1972, pelo direito ao aborto.
E eu estava super gr�vida!
Empurraram-nos contra as barreiras e n�s grit�mos e rimos!
Em jovem, a Delphine parecia uma inglesa,
e torn�mo-nos amigas.
Fotografara-a no meu p�tio bem como a outras actrizes.
E mais tarde, tamb�m no p�tio.
Adorei v�-la passar de feminista a fada.
As varinhas m�gicas nem sempre aparecem onde esperamos v�-las.
Uma outra varinha m�gica e...
... ei-la Joana d'A rc.
A Jane tamb�m quis experimentar o papel.
Com o meu sotaque n�o � poss�vel.
N�o posso dizer: "Vou expulsar os ingleses de Fran�a".
N�o � cred�vel!
Eu j� tenho dito:
As recorda��es s�o como uma nuvem de moscas.
Peda�os desordenados de mem�ria.
Achas que consegues?
S� film�mos bocadinhos.
� como quando fazemos um puzzle,
espalhamos as pe�azinhas, come�amos pela orla,
mas fica um buraco no meio.
Acontece nos melhores jantares,
de repente faz-se um sil�ncio e algu�m diz:
"Canta l� uma musiquinha!"
Uma musiquinha? Gainsbourg...
Se hesito t�o ami�de
Entre o Eu e o Mim...
Se oscilo entre o sentir
E o jogar
Um pouco de "Eu" e um pouco de "Mim".
Espalho tudo por a� e depois logo se v�.
Mesmo espalhando tudo, revelamos muito pouco.
A Torre Eiffel de dia, a Torre Eiffel de noite.
Inventei um monumento ef�mero � gl�ria do cinema.
Dziga Vertov.
Um olho, uma c�mara, um olhar.
Ac��o!
E eis aqui o Sr. Cinema, centen�rio e glorioso!
Tenho a idade d'ouro!
Um velho que perde a mem�ria.
Era o problema da Mam� e a sua liberdade.
Ela enganava-se, a mem�ria tra�a-a.
Baralhava os nomes dos filhos e dos seus irm�os e irm�s.
Quem a obrigava a corrigir-se?
Ela tinha o direito de divagar,
eu achava encantador, at� mesmo divertido.
Chamo-me David O'Selznick!
- No outro dia n�o era o Hitchcock? - Sou o Jean Renoir, o Nosferatu,
sou a Catherine Deneuve, e agora sou o David O'Selznick!
Criei tr�s ou quatro criaturas de sonho que s�o agora grandes estrelas.
Tenho a cabe�a cheia de estrelas,
de rostos, de beldades!
Mas n�o, Marcello.
- O sonho... - � um sonho!
Era um sonho ter todos os meios e uma bela equipa
para filmar as impressionantes vedetas.
Mas por alguma raz�o, sabe-se l� porqu�,
ou talvez tenha sido por culpa minha...
... o filme fez "pluff"!
Quanto ao c�lebre Sr. Cinema,
era tamb�m um velhote, que passava as noites s�,
sempre � espera de visitas.
N�o deixa de ser melhor envelhecermos juntos.
J� era o nosso projecto e a ideia refor�ou-se no reencontro.
Foi doce e surpreendente.
Viaj�mos juntos, pos�mos para um quadro,
fomos a praias e a museus,
demo-nos com Bill Viola e com Rauschenberg.
�ramos chegados a Jacques Monory...
E vivemos com o gato do Prassinos.
Olh�mos juntos.
E bum!
O Jacques adoeceu, uma doen�a mortal.
Sentia-se doente. Passava imenso tempo em casa.
E agora...
...deixa-me escrever!
Escreveu as mem�rias de inf�ncia passada na garagem de Nantes,
onde vivera com a fam�lia.
� noite, dava-me as p�ginas a ler.
Um dia, disse-lhe: "Que inf�ncia interessante, daria um �ptimo filme!"
Ele respondeu: "Mas n�o tenho for�a para o fazer. F�-lo tu."
Eu respondi:
"Mas gostavas que eu fizesse um filme sobre a tua inf�ncia?"
E ele disse: "Sim, f�-lo".
Sab�amos que n�o lhe restava muito tempo.
Eu, a Rosalie e o Mathieu est�vamos sempre com ele.
A Rosalie revezava-me, sobretudo quando a produ��o acelerou.
Foi necess�rio que a Cin�-Tamaris angariasse dinheiro rapidamente
e reunisse uma equipa.
Recordo bem essa equipa, motivada pelo filme,
t�o generosa e sens�vel para comigo...
Sobretudo a Marie Jo, t�o chegada a mim e a Jacques.
Revi alguns recentemente,
e record�mos esses momentos dif�ceis com o Didier e a Mireille.
O Jacques estava a morrer, ele sabia-o.
Sabia que a SIDA era incur�vel,
sabia que a situa��o s� se podia agravar.
Sab�amo-lo todos.
Ningu�m falava disso.
Era uma esp�cie de sil�ncio afectuoso,
em respeito absoluto a Jacques
que n�o abordava o assunto.
Aceit�mos aquele sil�ncio, porque era o sil�ncio de Jacques.
Foi sua escolha manter o sil�ncio, portanto...
Naquela altura, em '89,
a SIDA era considerada uma doen�a vergonhosa.
Era um tabu.
A sua doen�a fazia parte do projecto.
Trabalh�vamos tanto por ele como por ti.
Para todos n�s, o Jacques Demy era um homem formid�vel.
Havia a ideia de...
... acompanhar o Jacques enquanto fosse poss�vel atrav�s das filmagens.
Desconhecia como iria ele encarar a reconstitui��o da inf�ncia dele;
a reinven��o daquilo que ele teria vivido ou dito.
�s vezes, ele aparecia, com o irm�o e a irm�.
A m�e tamb�m apareceu.
Vais atrair uma multid�o!
Eu sentia-me nervosa, pensava:
"Ele vai reagir, vai dizer: 'N�o fizemos isso, n�o foi isso que dissemos!" '
Aproximei-me dele.
"Que tal? Est� muito diferente? Reencontras-te aqui?
"Rev�s-te neste mi�do?"
E ele disse: "Era tal e qual assim, sou eu!"
Essas palavras encorajaram-me a continuar e a estruturar o filme.
Eram v�rios filmes,
um filme a preto e branco, em home- nagem aos filmes dos anos '30 e '40,
que contava a hist�ria do pequeno Jacquot entre os 9 e os 19 anos,
filmado com a maior simplicidade que nos foi poss�vel.
Seguia-se uma proposta.
"Se eu estivesse a fazer uma tese de mestrado seria assim:"
"Podemos encontrar na vida do Jacquot cenas que geraram as cenas de filmes,"
"e, nesse caso, a cena de 'Jacquot em Nantes'..."
� natural que se engasgue com o frio.
Obrigado.
"...teria originado uma cena num dos filmes do Jacques."
�s vezes, era ao contr�rio. Pegava numa cena dum filme dele
e inscrevia-o no argumento de modo a parecer natural.
Est� quase bem.
Havia ainda outro filme, que era: O Jacques ainda est� vivo
e com as dificuldades que tem, nesta estrada dif�cil que percorre,
o que me resta sen�o estar o mais pos- s�vel com ele, e o mais perto poss�vel?
N�o tinha outras solu��es como realizadora,
sen�o as de filmar de muito perto, a sua pele, o seu olho,
o cabelo como uma paisagem, as suas m�os, os seus sinais...
Precisei de registar estas imagens dele,
a sua pr�pria mat�ria.
Jacques a morrer, mas Jacques ainda vivo.
Acab�mos de filmar a 17 de Outubro
e ele morreu a 27 de Outubro de 1990.
Estas mulheres s�o todas as vi�vas de Noirmoutier.
Filmei-as e apresentei-as assim
para que cada um possa escolher quem quer ouvir,
de pessoa para pessoa, como que em confid�ncia.
Ainda sentimos a presen�a do Thierry.
O seu cheiro, as suas...
H� dois dias, comemos feij�o verde que ele tinha comprado na pra�a.
Ainda � t�o recente...
Era um homem �s direitas.
N�o dizia uma palavra!
Regressava do mar, bebia um copito,
deitava-se, adormecia... E pronto.
Eu fa�o parte do quadro e calo-me.
Expus na Funda��o Cartier, gra�as a Herv� Chandez.
Ele nem sabe a alegria que me deu o seu convite!
A velha realizadora transformada em jovem artista pl�stica!
Apresentando vi�vas, "O Inverno do Cora��o",
mas tamb�m as cores vivas dos pl�sticos do Ver�o.
Estava quase a fazer 80 anos,
80 Primaveras, 80 velinhas, 80 "vassouradas"...
E estava rodeada de t�cnicos e amigos muito mais novos que eu.
Isto � uma homenagem a Semp�.
"D�I-ME TUDO"
No trabalho, tenho a sorte de contar com Rosalie e Christophe Vallaux.
Ele � cen�grafo.
� conhecido pelo seu estilo de vestir e pelas suas caricaturas.
Fiz com ele a reperage das cabanas de Noirmoutier
para que ele as reconstru�sse na exposi��o.
A cabana dos retratos, entre outras.
Nela podem ver-se os rostos dos ilh�us,
mulheres que encontrei aqui e ali,
todas belas.
O mesmo fundo para cada mulher,
e um outro para os homens.
Eu deambulava com o dito fundo
e usava-o como cen�rio para quem aceitasse posar.
Usei-os tamb�m com a fam�lia,
a Rosalie,
os seus tr�s filhos, Valentin,
Augustin
e Corentin.
Com Mathieu,
com Jos�phine
e com o filho deles, o Constantin.
Juntos, s�o a soma da minha felicidade.
Mas n�o sei se os conhe�o, a cada um deles,
ou se os compreendo.
Limito-me a ir ao seu encontro...
Um dia, apareceu-me um vizinho.
O pai dele filmara o moinho que agora era nosso
com uma c�mara de 9,5mm.
Obrigada, vizinho Sati, por estas imagens t�o raras!
O moleiro chamava-se Adam Gervier e tivera 11 filhos.
Acertei na Mam�!
Paro de escrever muitas vezes.
O mundo est� em mau estado
e eu sinto-me esmagada.
Neste preciso momento, h� cat�strofes, guerras, sismos.
Sentada na minha seguran�a, imagino as situa��es:
As pessoas sem abrigo, fam�lias inteiras estrada fora...
N�o me mexo...
... e penso nos meus.
A fam�lia � um conceito algo compacto.
N�o paramos de os reagrupar mentalmente,
de os imaginar como uma ilhota de paz.
Esta cabana tem uma hist�ria.
Era uma vez dois actores bons e bonitos
que protagonizaram um filme que se revelou um fracasso.
Respigadora como sou, recuperei as c�pias abandonadas do filme
e pusemo-nos a desenrolar os rolos.
E os bons e belos actores reencon- traram-se em superf�cies e paredes,
atravessados pela luz.
O que � o cinema?
� luz que chega de algum lado e que � retida pelas imagens
mais ou menos escuras ou coloridas...
Quando estou aqui, sinto que vivo no cinema,
que ele � a minha casa.
Sinto que sempre nele habitei.
Ainda n�o acabou! �s vezes, o pano volta a subir!
- Est�o � tua procura. - Parab�ns, Agn�s!
Quando a festa acabou, voltei a ficar sozinha
e contei as vassouras.
Sim, foram precisamente 80,
incluindo estas quatro.
Recebi ainda uma outra, enviada por email,
mais uma ideia do Guillaume, o maroto!
Passou-se tudo ontem e j� faz parte do passado.
A sensa��o fundiu-se de imediato com a imagem que perdurar�.
Recordo enquanto viver.
Tradu��o: Sara David Lopes saradavidlopesclix.pt
Ripadas e sincronizadas por: PT-Subs Rips
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