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Original subtitles

Tânger, no norte de Marrocos, há muito tempo é terra de imigrantes.

A apenas quilômetros da Espanha, seu status de cidade internacional,

depois de protetorado espanhol, fez dela um caldeirão de línguas e culturas.

Fugindo de Franco, uma grande comunidade espanhola se estabeleceu lá nos anos 1930.

Alguns partiram, outros ficaram, profundamente ligados a uma terra à qual sentem pertencer...

Vou levar um pouco de canela.

Khadija, vou querer um pão.

- Quentinho e gostoso. - Claro.

Aqui está, querida.

Esse aqui é bom.

Que delícia.

Está bom assim?

Tchau!

Aproveite.

Bom dia.

Que maravilha esses pães!

São doces, muito saborosos...

Muito obrigada, senhora.

- Olá, Mohammed! - Olá...

Sabe, semana passada eu tive três com gema dupla.

Que sorte a sua.

- E a família, como vai? - Bem, estamos nos virando.

A vida...

- Quanto fica? - Dez dirrãs.

Ah sim, dez.

Meio quilo de tangerinas.

RUA MÁLAGA

- Olá, meninos! - Oi, Maria Ángeles!

Olá, minha filha.

- Eu cuido disso... - Deixe-me.

Deve estar cansada da viagem.

Não é como se eu tivesse vindo da China.

Viajar sempre cansa.

Aeroportos, as filas, as pessoas, as bagagens...

Pedi que você se livrasse de tudo isso, mãe.

Vou fazer isso,

mas ainda não tive tempo.

Vamos lá. Descanse um pouco e venha almoçar.

Deve estar faminta.

Sim?

Não, não tenho programa de fidelidade.

Não, não gosto disso.

Sim, é isso.

Tchau, querida.

Que chatice.

- Olá, Maria. - Olá.

Olá, Idder.

Olá, Maria Ángeles.

Bem-vinda de volta, Clara!

- Faz tanto tempo. - Tenho estado muito ocupada. Como você está?

Ótimo, graças a Deus!

Aqui. Terrível!

Só fofoca.

Bom para embrulhar.

Quer algumas amêndoas quentinhas?

Claro.

Mande subir água mais tarde, por favor.

Sim, claro.

Hassan, não esqueça a água. Ok?

Ok.

Sabe que frustrações podem dar diabetes?

Com a minha idade, isso não é bom.

Já basta ter a pressão alta.

Quando vai trazer as crianças?

Não é uma boa hora, mãe.

Ainda estou resolvendo as coisas com o Ignacio. Você sabe disso.

Fico feliz que ele tenha ficado com a Sonia e o Victor essa semana.

Sim, claro.

De qualquer forma, fico tão feliz que você esteja aqui.

Um ano sem você vir para casa é muito.

Você sabe que não tive tempo. Estou sobrecarregada no hospital.

Se você fosse enfermeira, entenderia.

Mal consigo ver meus próprios filhos.

E você poderia ter vindo nos visitar em Madri.

Você não tem nenhuma obrigação que te prenda aqui.

- Oi, Maria Angeles! - Oi, Larbi!

Como você está?

Bem, e você?

- Ótimo. - Olá, Larbi.

Que bom ver a pequena Clara de novo!

- Como você está? - Bem.

Você está ótima.

Obrigada.

Nem um tocino de cielo?

Não, obrigada.

Hamid, traga um tocino. Por favor, rápido.

Lembra? Quando era menina, você devorava eles!

Eu tinha que escondê-los para você parar.

Sim...

Coma, está?

- Até mais! - Tchau!

Posso fazer suas unhas mais tarde?

Não.

Não estou com vontade.

Mas obrigada.

Você precisa cuidar de si, Clara.

Não pode se descuidar.

Você é jovem, aproveite isso.

Está bem.

Vou cuidar de mim quando tiver tempo, ok?

Sabe o que?

Vou me dar esse prazer.

Morrer disso.

- Precisávamos vir hoje? - Ela vai ficar tão feliz!

- Você?! - Sua mãe está aí?

Sim!

Mãe!

Acabei de chegar.

Que ótimo!

Minha querida!

Que surpresa!

Você está linda. Jante conosco.

Outro dia.

- Tem muita comida, entre! - Acabei de chegar. Outro dia?

Fiz o ensopado de anchova que você gosta, entre!

- Você sabe como ela é. - Quando ela cozinha, tem que comer.

Sério?

Nunca pedi nada a você!

Desgraçado!

Nunca disse isso. Nunca!

Porque eles também são seus filhos!

Sempre facilitei as coisas para você!

Tudo bem, tudo bem!

Você está bem?

Preciso de dinheiro, mãe.

Vou vender o apartamento.

Mas pensei que fosse de aluguel.

Estou falando deste apartamento.

Você está falando da minha casa?

Não posso viver com apenas 1.700 euros por mês.

Desde o divórcio, as coisas estão ruins.

Tudo está muito caro. Comida, roupas...

Encontrei uma ótima oportunidade nos arredores de Madri.

Posso conseguir uma transferência para um hospital próximo.

Vou comprar, parar de jogar fora meu dinheiro com aluguel.

Preciso botar a cabeça para fora d'água.

E preciso de dinheiro para a entrada.

Como você ousa vir aqui depois de todo esse tempo

e falar tanta bobagem?

Venha morar comigo em Madri.

Você poderá passar mais tempo com a Sonia e o Victor.

Aproveitar seus netos.

É o momento certo.

Você diz que não os vê o suficiente.

Porque você não se incomoda em trazê-los para visitar!

Pare com isso, mãe!

Você sabe o quão complicado tem sido nos últimos anos.

Você sabe disso!

Viajar custa dinheiro.

E ganhar dinheiro é difícil para mim.

Isso é difícil de entender, já que você nunca trabalhou na vida!

Eu sei! Na bilheteria do Cervantes, há 50 anos atrás!

Estou falando de um trabalho de verdade.

Se você for morar em Madri, tudo se resolverá.

Eu não vou sair de Tânger.

Eu nasci aqui.

E eu vou morrer aqui.

Eu sabia que você diria isso. Eu já esperava.

E você não vai vender a minha casa!

Sua casa? São apenas paredes, mãe.

Só paredes!

Seu pai comprou este lugar por uma ninharia.

Mas agora vale algum dinheiro.

Todo esse espaço e você sempre fica no seu canto!

Você nem mesmo tem dinheiro para mantê-lo!

Desculpe, mãe. Mas o apartamento está no meu nome.

Seu pai fez isso para facilitar caso houvesse algum problema um dia.

Foi uma decisão difícil,

mas já foi tomada.

Bom dia, mãe.

Você não vai tomar café da manhã comigo?

É ridículo não falar comigo.

Para onde você está indo tão cedo? Pelo menos me diga.

Espere por mim, eu vou com você.

Para Irmã Josefa, de Maria Angeles.

Não entendo como ela pode fazer isso.

Por quarenta anos, eu vivi naquela casa.

Você acredita?

E ela chega e me diz, assim, do nada...

Sem me consultar antes.

Essa visita de última hora

me pareceu estranha...

É verdade que José Manuel colocou a casa no nome dela.

Mas ele jamais imaginaria

que ela pudesse fazer uma coisa dessas.

Jamais!

Lembra como ela era quando criança?

Doce.

Sempre alegre.

Cheia de sorrisos.

É como se fosse outra pessoa.

Uma estranha...

Uma estranha amarga e ressequida.

Ela me encurrala.

Então, o que eu faço agora?

Não.

Não corra para me responder.

De qualquer forma,

tenho certeza de que você quebra seu voto de silêncio durante o sono.

Onde você esteve, mãe? Fiquei preocupada.

Você não disse que ficaria fora o dia todo.

Você precisa de um celular. Venho falando isso há anos.

Sente-se, por favor. Preciso conversar com você.

Um corretor imobiliário esteve aqui.

Ele diz que o prédio é antigo, mas bem conservado.

Ele acha que podemos vender o apartamento por um bom preço.

E com relativa rapidez.

Há demanda.

Mas ele precisa ser esvaziado o mais rápido possível.

Ele diz que os compradores ficam desanimados quando o lugar ainda está ocupado.

Preciso preparar tudo antes de voltar, mãe.

Eu sei que é rápido, mas não tenho escolha.

Vou te ajudar, vou organizar tudo.

Por favor, mãe.

Venha morar comigo em Madri.

Não.

Então tenho outra solução.

Uma vaga abriu

na Residência de Idosos Espanhóis em Tânger.

Quer dizer que alguém morreu?

Como moradora antiga de Tânger, é de graça para você.

E você tem prioridade sobre espanhóis de outras cidades.

Mas precisamos confirmar agora. Ou vamos perder a vaga.

De jeito nenhum.

Você tem outra solução?

Você tem como pagar o aluguel?

Porque eu não tenho.

A aposentadoria do pai nem sequer cobre um quarto hoje em dia.

O que está te prendendo aqui?

Metade dos seus amigos já morreram

e a outra metade foi para a Espanha, para ficar com os filhos.

Quem você tem aqui? A Josefa?

Por que ficar em Marrocos se você pode estar com a família?

Não entendo!

Por favor, mãe...

Por favor. Nunca te pedi nada.

Nem um centavo.

Esta é a primeira vez que peço ajuda desde que saí daqui, aos 17 anos.

Sempre me virei sozinha. Sempre.

Mas agora, não consigo!

Não está mal. Ficarei com o lustre.

Olá.

Olá.

Este é o Abslam, o antiquário de quem te falei.

Ele veio ver que móveis pode comprar.

A maior parte destes móveis não vale muito.

Ficarei com eles por um preço simbólico.

O toca-discos também.

Não o toca-discos!

Mãe, já conversamos sobre isso.

Posso ver o quarto?

Claro, venha por aqui.

Com licença.

Esse conjunto de quarto está bom.

Só precisa de um pouco de polimento e ficará ótimo.

Você pode entregar isso à Sonia por mim?

Isso pertencia à vovó, não é?

À minha avó.

Tudo bem. Ela vai adorar.

Aqui. Provavelmente tem muita coisa velha aí.

Pegue o que você precisa,

e doe o resto.

Tenho mais coisas para você lá em cima.

E você vai achar... a panela de paella!

Você sempre quis essa.

Agora você conseguiu, não é?

Tchau.

Posso te dar o dinheiro do mobiliário quando o apartamento for vendido?

A menos que você precise agora, claro.

Não me importo.

Muita coisa mudou desde que cheguei aqui há 2 anos.

Agora damos muita importância às refeições e atividades.

Isso é essencial.

- A senhora nasceu em Tânger, dona Muñoz? - Sim, nasci aqui.

E qual era sua profissão?

Cuidei do meu marido e da minha filha.

E vendi ingressos no Teatro Cervantes até ele fechar.

Que sorte a sua.

Tangier deve ter sido algo especial naquela época.

E quanto ao seu marido?

Ele trabalhava na gerência do Hotel Rif.

Interessante. Aqui você vai se sentir como em um hotel.

Cuidamos de tudo.

Das suas acomodações,

refeições, assistência médica.

Temos fisioterapia, um podologista.

E, claro, um cabeleireiro.

Porque você pode ficar bonita em qualquer idade, não é?

Como é a rotina dos dias?

Boa pergunta.

Nossa programação é muito bem pensada.

Às 7h30, café da manhã.

Às 11h,

temos a recitação do rosário na varanda.

Assim os moradores podem conversar e passar tempo juntos.

Interagir. Acreditamos que formar vínculos é crucial.

Meio-dia, almoço.

Às 16h30, lanche.

17h, outra reunião e recitação do rosário.

19h é o jantar,

e, no mais tardar às 9 da noite, vamos para a cama.

Assim estaremos em boa forma no dia seguinte.

Em certos dias,

fazemos um pouco de exercício para manter a forma.

Os moradores adoram isso.

Mas, é claro, você também pode ter tempo para si.

Para dar uma caminhada no jardim, para tomar um ar.

O que você quiser.

Certeza de que não precisa da minha ajuda para se acomodar?

Não precisa. Mbarek está te esperando.

Certo. Então vou indo.

O negociante vai buscar os móveis e meu voo é às 8 da noite.

Coloquei um chip no celular e salvei meu número.

Isso vai facilitar entrar em contato com você.

Certo, mãe...

Eu voltarei de Madri

para assinar os papéis assim que acharmos um comprador.

Cuide-se, certo?

Você também se cuide.

Mais alguma coisa?

Não, obrigado.

Bom apetite.

- Mais alguma coisa? - Sim. Pão.

- Sra. Muñoz? - Sim?

- Está tudo bem? - Sim.

- Você precisa de ajuda? - Não, obrigado.

Se você precisar de algo, estamos aqui.

E um, dois, três, quatro. É isso aí.

Você tem certeza do seu movimento?

Cara de sorte.

Eu posso pegar a sua peça aqui.

Então pegue, não me importo.

Olá! Como você está hoje?

Bem, obrigado.

Uma senhora tão bonita deve querer fazer o cabelo!

- Obrigado, mas não. - Deixe-me ver.

Sim. Parece bom.

Nezha, mostre a senhora no espelho.

Não precisa!

Permita-me.

Eu posso te dar um corte lindo, para realçar seu rosto.

Veja? Olhe.

Não, eu não quero cortá-lo.

Devo dizer, a qualidade do cabelo é ótima.

Então eu vou te dar um corte estiloso,

logo acima das orelhas.

Eu disse não.

Vai ficar fabuloso!

- E mais fácil de gerenciar. - Eu disse que não quero cortar.

Confie em mim. Você vai ficar deslumbrante!

Se você está entediada, vai cortar o seu pelo.

Mas você não vai tocar no meu cabelo.

Sem problemas.

Parece que você está de mau humor hoje.

Voltaremos amanhã, quando você estiver melhor.

É verdade. Eu vou ficar melhor em Madri,

com minha filha e meus netos.

Embora minha estadia aqui tenha sido maravilhosa...

Mas preciso aproveitar meu tempo,

curtir eles o máximo que puder.

Cada minuto conta.

Entendo completamente.

Claro.

De qualquer forma, se você estiver em Tânger, por favor, venha me visitar.

Claro, com prazer.

Voltarei a Tânger de vez em quando.

Olá, Maria Angeles. Estou aqui fora.

Olá, Clara.

Não é Clara, sou Mbarek.

Estou aqui, fora da residência.

Sim, Mbarek está vindo me levar para o aeroporto.

Não! Não vou perder o voo.

Sim, estou com o Dr. Tovar.

Você pode me ouvir?

Espere, vou me mexer.

Ouço você perfeitamente, querida.

- Minha filha manda um abraço. - Retribua o carinho a ela.

Ele retribuiu o abraço.

Sim, ele é um homem adorável.

Estou aqui na porta.

Tudo bem.

Certo, tchau!

A gente se fala depois. Tchau.

Filhos! Sempre preocupados com os pais.

É natural.

Assim é a vida.

- Olá! - Olá, Mbarek!

Tudo bem?

- Deixe-me. - Tudo certo.

Para o aeroporto?

Você está me enganando? Você está me levando para casa.

Certo.

Idder!

Idder!

Idder!

Olá!

Ah, Maria Angeles!

Você pode me mandar pão, açúcar e leite?

Sim, já envio!

Ah, e café também!

Certo!

- Olá. - Olá, Hassan.

Aqui está o pagamento da conta de luz.

E peça o recibo!

E também para a água, senão eles vão cortar também.

- E um café para você. - Obrigada.

Aqui estão suas compras.

- E a conta do telefone? - Não tenho mais linha fixa!

Agora tenho só celular.

- Que bom. Tchau! - Tchau, Hassan!

Que droga.

Vim buscar meus móveis.

- Que móveis? - Do apartamento da Rua Málaga.

Paguei sua filha.

Vim recomprá-los.

Quanto custa tudo?

38 mil dirrãs.

É muito mais do que você pagou à minha filha.

Tudo bem.

Aqui estão 18 mil dirrãs.

Pelo meu quarto e meu toca-discos.

E vou comprando o resto aos poucos.

Pelo quarto, tudo bem.

Mas o toca-discos já foi vendido.

Você pode escolher outro.

Não! Quero meu toca-discos de volta.

Quem o comprou?

Não sei, senhora. Não conheço essa pessoa.

Preciso recuperá-lo custe o que custar!

Está me ouvindo? Você tem que achá-lo.

Não consigo viver sem meu toca-discos!

Esse é seu problema, senhora.

Não o meu.

Eu compro e vendo.

Isso aí, muito bem.

Tome cuidado nos cantos.

É um móvel delicado.

E significa muito para mim.

Sim, muito bem.

Ótimo.

Pronto.

Khalid.

Você estava certo!

Marcar no minuto 90! Eles têm que ganhar!

Eu pago o jantar hoje!

- Você acha que acredito nisso? - Queria!

Este é o apartamento. É espaçoso, iluminado...

Sim, muita luz solar.

Sempre que entro, me sinto bem.

Fica na rua, mas é silencioso.

É uma rua tranquila.

A pequena sala de estar.

Você poderia transformá-la.

Poderia ser uma sala de jantar.

A sala de estar maior.

- Bem espaçosa. - Encantadora.

Sim, e com pé-direito alto.

Como todos esses prédios antigos.

Tem um mercado na esquina.

O estilo é clássico.

Sim, eu gosto.

Olhe como é luminoso. E espaçoso.

Esses são os maçanetas originais.

Essa é madeira de cedro.

Não daquelas baratas que se encontra hoje em dia.

- Em prédios novos. - Sim.

Esses são bons materiais.

Francamente, é um ótimo negócio.

Esse tipo de imóvel se vende muito rápido.

Tudo funciona.

As torneiras, a encanação, a calefação central.

É isso.

Não me sobrou um tostão.

E aquele maldito marchand de antiguidades vai vender tudo logo.

Desculpe, aquele desgraçado do marchand de antiguidades.

"Eu compro e vendo." Miserável.

Vendeu meu toca-discos. Aquele filho da...

Abutres!

Caras como ele...

É isso que eles são.

Esperando a gente morrer para poder nos espoliar.

Ela me comprou isso.

Mal me ligou em anos, e agora... todo dia!

Olá, Clara.

Tudo bem.

A comida é muito saudável. Hoje tivemos bacalhau.

Sim, como há dois dias.

Sim, tenho feito exercícios.

Não sei, mas me sinto esquisita de collant.

Eu sei, as outras não são beldades, mas...

Pois é.

- Olá, Idder. - Olá, Maria Angeles!

O que está quentinho?

Grão-de-bico.

Só um pouquinho.

Sim, claro.

Aqui.

Isso é também de ontem.

Perfeito.

- Maria! - Olá, Khalid.

Uma Rio, Idder, por favor.

Pode abrir minha conta de novo?

- A partir de amanhã? - Com prazer.

Eu também quero uma Rio.

Obrigado.

- E uma Rio para a senhora! - Obrigada.

- Saúde! - Saúde!

Me diga, Maria Angeles, você torce para o Barça ou o Real Madrid?

Nenhum dos dois!

De qualquer forma, o Barça vai ganhar.

Que torcedores chatos de futebol.

Especialmente ele.

Ele passa os dias sem fazer nada.

Esperando pela semifinal como se esperasse... o Messias.

Bem, o "Messi-as" já foi embora.

As semifinais da Copa del Rey estão chegando.

Sem o Messi.

Ah...

De qualquer forma... sempre tem alguma coisa.

Sem a Copa del Rey? Então é a Liga. Sem a Liga? Então é a Copa del Rey.

Não para nunca.

Que utilidade tem o futebol?

Só os jogadores enchem os bolsos, não eles.

E donos de cafés espertos como o Kacem lucram com isso.

Bem, até amanhã.

Até amanhã, Maria Angeles!

Khalid!

Onde você vai assistir ao jogo?

Provavelmente na casa do Kacem.

E se estiver muito cheio, vou na do Saïd.

Os dois bares têm o jogo.

- E o que tem para comer? - Nada.

Você tem que comprar comida no mercado.

E quanto custa uma cerveja?

Você está brincando? Bares não vendem cerveja.

- Obrigado, Khalid. - Não tem de quê.

Quer me ajudar a recuperar meus móveis?

Claro.

- Você vasculhou o bairro? - Sim!

- Até os bares? - Não! Nem pensar nos concorrentes!

Certo. Que bobagem minha.

Me passa as cebolas.

- Posta no Facebook? - O Facebook já está ultrapassado.

Postei no Insta e no TikTok.

Olha só.

Oi!

Quer assistir ao jogo? Venha na casa da Maria Angeles!

Temos tortillas,

e cerveja...

Quem vai ganhar esse jogo?

Atlético de Madrid?

Ou Réal Bétis?

Que legal!

Quero ver vocês todos aqui!

- Você gostou? - Adorei!

Khalid!

Pode subir um momento?

E por que não?

Você ganha dez dirrãs por cada pessoa que trouxer.

Não vejo problema.

E, claro, é de graça para você.

Não gosto muito disso.

Você vai ganhar dinheiro extra, isso sempre é bom.

Não gosto da ideia de ganhar dinheiro com você.

Negócios...

são negócios!

Olha...

Ótimo.

Vamos, volte ao trabalho!

- Na cozinha? - Não, na sala de jantar.

Conseguiu alguns clientes?

Estou tentando. Tenho que ser discreto.

Se os donos do café descobrirem, vai dar problema.

Não se preocupe.

- Conto com você! - Ok, tchau!

Até logo.

Aí vêm os últimos!

Essas caixas foram uma ótima ideia.

Sim! Está ficando ótimo.

É isso aí!

Olá, Khalid.

Entrem, pessoal!

- Oi, Maria Angeles... - Oi.

- É tudo que eu pude encontrar. - Sem problemas.

Cuidem deles!

Olá, Clara!

Sim, estou ótima.

O quê?

Não! Mal consigo ouvir você.

Está muito barulhento aqui.

Muito barulhento!

Claro.

Estão assistindo à La Liga. Esses idosos realmente se envolvem!

Bem, você sabe como Tânger fica quando se trata de futebol.

O quê? Mal consigo ouvir você.

Escuta... é melhor eu desligar.

Não quero ser antissocial.

Sim, conversamos depois!

Tchau!

Estou aqui para...

Quero minha cadeira de balanço.

Foi o preço que paguei por ela.

Certo.

Aqui está.

Pela cadeira de balanço e o vaso.

E entregue tudo na minha casa.

Uma mistura de frutas secas,

água sem gás,

e refrigerantes.

Hassan, por favor, prepare uma mistura de frutas secas,

água e refrigerante.

- Batatas fritas? - Não, isso não.

E guardanapos de papel.

Certo.

- Mais alguma coisa? - Não, é só isso, obrigada.

Ele parece não gostar da concorrência.

Deixe-o ser mais criativo. A concorrência é saudável.

Não é culpa minha que ele sempre faz essa cara.

Isso afasta os clientes.

- Você tem razão. - Claro.

Envie tudo para a minha casa, ok?

Pode deixar! Até a próxima.

Olá, Ahmed.

Olá, Maria Angeles.

Não se incomode, eu faço isso.

Você consertou o túmulo de Maria Antonia?

Desculpe. Não tive tempo.

Mas vai fazer isso?

Sim, mas não tem pressa. Ninguém vai lá há 40 anos.

Mas eu vou.

Eu vou cuidar disso.

- Obrigado. - De nada.

Está bem.

Não, não deve prender.

Deve deslizar suavemente, entrando e saindo.

Muito gentil da sua parte, obrigado. Mas não se incomode.

Você poderia ter mandado alguém.

Não precisava ter vindo você mesmo.

Eu faço meu trabalho, só isso.

E gosto que as coisas fiquem bem feitas.

Vamos ver...

Sim, muito melhor.

- Tem certeza de que está vazio? - Estamos sozinhos.

Uma senhora espanhola morava aqui.

Uma velha senhora, coitada...

- Você ficou ótima nesse vestido. - Sério, você gostou?

E o que tem por baixo?

Senti sua falta.

Sentiu minha falta?

Uma semana sem te ver?

Não conte à minha filha que eu estou aqui,

e eu não conto que você fica com garotas no apartamento dela.

- Mas... - Mas nada.

Trair a confiança no seu cargo...

Isso com certeza custaria seu emprego.

Mas... fica a seu critério.

Certo.

Eu saio quando o apartamento for vendido.

Aliás, quero um dia de aviso antes das visitas.

E nada de visitas nos dias de jogo.

Liga e Copa.

E também nada de muito cedo pela manhã.

Gosto de ter meu tempo para o café da manhã.

Você devia ter visto! Ela estava...

Quando me viu...

E ele, com aquele bumbum cabeludo!

A garota saiu correndo. Ele não vai ficar com ela de novo.

Quase teve um ataque cardíaco.

Aposto que toda vez que ele vier, vai ver meu rosto!

Lembra? Quando éramos pequenos,

pegamos o professor de matemática

dando uns amassos com a professora de espanhol no banheiro. A mesma coisa!

O principal é que ele não vai ousar dizer uma palavra à Clara.

Eu tenho ele pelas bolas.

- Assim? - Um pouco mais à esquerda.

Acontece que... precisa ficar perfeitamente centralizado.

Eu trabalhava no Cervantes quando o Antonio Machin

veio cantar em Tânger, sabe?

Antonio Machin...

Você sabe quem é?

Antonio quem?

Está me tirando!

Tudo bem, está bom.

Venha, tenho um trabalho para você.

Esta poltrona de balanço tem buracos grandes.

Eles não estavam lá antes.

Não estou dizendo que é da sua loja, mas é meio que é.

Quarenta e cinco anos trabalhando neste emprego.

Minha família acha que sou louca.

Todo mundo diz para eu abrir uma cafeteria,

em vez de vender velharias.

Que dá mais dinheiro.

Eles deviam se meter com a vida deles.

Não tenho esposo, nem filhos.

O que eu faço é problema meu.

Consegui uma pista sobre o toca-discos.

- Sério? Que ótimo! - Sim.

Mas ainda preciso ter certeza.

Claro.

Posso trazer o resto das suas coisas, se quiser.

Você paga aos poucos, quando puder.

Obrigada, mas...

Não posso aceitar.

Pego quando tiver pago.

Quer ficar e assistir a uma partida? Hoje é um clássico.

Barça x Real.

Não.

Não gosto de futebol.

Gosta de petiscos?

Croquetes, por favor!

- De frango ou de peixe? - De frango!

- Frango aqui! - Certo!

- Uma tortilha aqui. - Já vai!

Já vai!

- O quê? - Uma cerveja sem álcool.

Cerveja zero.

- Petiscos? - Torrada de tomate.

E uma tortilha também?

Pênalti!

Pênalti? Está sonhando!

Você é cego? Precisa de óculos!

Vai se ferrar!

Calma, calma!

Por favor, se acalme.

Fique calmo!

Você está me ouvindo?

Na minha casa, sem briga!

Ficou claro?

Tudo bem, Maria.

Vocês estragaram tudo!

Vieram aqui para brigar ou para assistir?

- Tchau. Desculpe pela confusão. - Sem problemas.

- Até logo. - Boa noite.

- Obrigado, Maria Ángeles. - Adeus.

Obrigado, Maria Ángeles. Ótimo!

Boa noite.

Não, espere.

- Por hoje. - Não.

Eles são seus clientes agora. Você vai me pagar pelos novos.

- Certo? - Tudo bem.

- Obrigado. - Boa noite!

Posso ajudar?

Não precisa, obrigado.

Tem certeza?

Bem, se insiste...

Preciso ir. Minha mãe está esperando.

- Tudo bem. - Boa noite.

- Obrigado, querida. - Obrigado.

Vou lavar a louça.

Acontece que...

Ele não é nenhum bastardo.

Talvez eu o tenha julgado rápido demais.

Além disso,

ele também não é ruim.

É verdade que eu nunca gostei de homens calvo s.

Mas nele,

não sei...

Fica bem nele.

Faz com que ele pareça...

viril.

E ele é muito alto.

Por aqui, por favor.

Aqui.

Certo.

Encoste-se à parede.

Tudo bem.

Obrigado. O resto na sala de estar...

Quer um pouco?

Maria Angeles, a polícia está aqui.

Quer um pouco?

Mas são apenas amigos do bairro.

Não posso convidá-los para assistir ao jogo?

Mas seus amigos te pagam.

Apenas uma pequena contribuição.

E você vende álcool!

Isso é ilegal.

E a senhora sabe disso.

É só uma cerveja. Também tenho sem álcool.

Maria Angeles, por favor.

Não queremos lhe causar problemas. Em memória do Sr. Muñoz.

A senhora sabe o quanto eu o apreciava.

E era mútuo, a senhora sabe disso.

Tudo o que pedimos

é que a senhora pare e nunca mais faça isso.

Impossível.

É jogo da Liga.

Barça x Atlético.

Não posso parar.

Tudo bem dessa vez. Mas esse é o último jogo!

Certo.

Já que é o último,

entre aqui por um momento.

Já está quase acabando.

Deixe-me oferecer uma cerveja.

Sem álcool.

Aproveite!

Mais alguma coisa?

Algumas croquetes, tapeando?

Gol de novo!

Tudo bem, vou embora.

- Achei seu toca-discos. - Sério?

Mas ele não está em Tânger.

Está em Assilah.

Você já andou em um conversível?

Não.

Tudo bem então...

Boa noite.

Boa noite.

Por aqui.

Qual é o seu menor preço?

Nada menos que 3 mil.

Não, não. Isso é demais.

Tire 500 dirrãs.

De jeito nenhum. Esse é um bom preço.

Um bom preço? Eu entendo de preços. Isso é abusivo.

Só para você...

sabe o que?

Vou tirar 100 dirrãs.

Nem um dirrã a mais.

Você tira 500 dirrãs,

ou esquece.

Desculpe, não posso.

Pronto, diga a ele que vamos levar.

Não, confie em mim.

Não queremos mais.

Fica a seu critério.

Por que sua filha não está mais vendendo o apartamento?

O apartamento ainda está à venda.

Ela só não sabe que eu voltei a morar aqui.

E o que você vai fazer depois que ele for vendido?

Não sei.

Verei o que faço.

Sobre o toca-discos, você tem certeza do seu plano?

Sim.

Senhor!

Não olhe para ele, continue andando.

Senhor!

Senhor!

- Ainda quer o toca-discos? - Não consigo ouvir.

- Meu aparelho auditivo quebrou. - O toca-discos...

Vamos resolver isso.

Bem-vindo.

Senti tanta falta disso.

Procurando algo?

Não.

Só um disco que eu gostava de ouvir.

Mas não importa.

Provavelmente foi deixado para trás.

O importante é que você encontrou o toca-discos.

Obrigado, Abslam.

Descanse bem.

Você também, Maria Angeles.

Você voltou para Asilah a essa hora?

Vinte e dois anos...

Você acredita?

A última vez foi há vinte e dois anos.

É simples.

José-Manuel, que descanse em paz,

morreu há quase 20 anos.

E não fazíamos nada

há eras antes disso.

José Manuel...

Ele era um bom homem, você sabe.

Um bom marido.

Mas o que senti agora,

me deixa arrepiada!

Não deveria dizer isso em voz alta.

Mas...

foi mágico.

Quando senti a mão dele

na minha pele.

Os carinhos dele...

E então...

os lábios dele.

A boca dele.

E o corpo dele.

A língua dele.

Ele fez coisas incríveis comigo.

Coisas que não posso te contar...

Não posso.

Coisas com a língua dele...

Lá embaixo.

Eu não achava possível sentir sensações assim.

Foi tão doce,

tão delicioso.

Eu sei.

Não precisa me contar. É vergonhoso.

Mas foi tão bom assim.

E eu tive um orgasmo.

Assim, na hora.

Com a cabeça dele lá embaixo!

Depois,

ele ficou em cima de mim.

E, meu Deus, o pênis dele...

quando ele me penetrou!

Quase...

me sinto como se fosse chorar.

Aqui, senhora.

- Obrigada! - Tchau.

Aqui estou eu.

Certo.

Quando a Clara era pequena,

eu ia àquela loja comprar churros para o café da manhã dela.

Eu a acordava quando chegava para que comesse os churros quentes.

Ela adorava isso.

Eu também costumava comprá-los lá.

Talvez tenhamos nos cruzado diversas vezes.

Por que ela é tão dura com você?

Tenho certeza de que você foi uma boa mãe.

Sabe,

às vezes, quando os filhos crescem,

a gente não entende mais nada.

Você está linda.

Você também não está nada mal.

Você sabe como se chamam essas pequenas manchas?

Não.

"Flores de cemitério".

Eu gosto de flores.

Eu simplesmente amo isso!

Oi.

Merengue.

Minha especialidade.

Delicioso, não?

Muito doce.

Preciso tomar cuidado com a minha forma.

Então você não vai me trocar por uma criança.

Jamais vou te trocar por uma criança.

Você está me mordendo!

- Adoro te morder. - E eu adoro te beijar.

Já volto.

Sua vez.

Nenhuma visita hoje, estou ocupada.

Recebemos uma oferta. Sua filha aceitou.

O apartamento está sendo vendido.

Certeza?

Sim, o comprador assinou o contrato.

Você precisa desocupar como combinado, ok?

Obrigada.

Quem era?

A vizinha. Ela volta mais tarde.

Está ótimo!

Você se saiu muito bem, meu amor!

Ficou maravilhoso!

A partir de agora, você quem cozinha.

Tudo bem para você?

Sabe, você me deixa muito feliz.

Muito feliz.

Vê aquela casinha vermelha, ali?

É onde eu nasci.

Então, você é filha da Casbá.

Bent el Kasbah.

Você me acostumou

A todas essas coisas

E me ensinou

Quão maravilhosas elas são

Você torce para o Real ou para o Osasuna?

- Como? - Real ou Osasuna?

Tudo bem se você não for do Madrid.

Campeões, campeões!

Vamos lá por mais uma, vamos!

Uma terceira!

Já volto.

Certo.

Agora entendo tudo.

Na verdade, você é louca.

Você não precisa de uma casa de repouso, precisa é de um asilo.

Quando o contrato estiver pronto, eu assino.

Eu posso ser louca,

mas não vou deixar minha casa enquanto eu viver.

E se vocês quiserem que eu saia, dessa vez,

vão ter que me tirar à força.

Então vá dizer aos novos proprietários

que tem uma velha louca de Tânger morando aqui.

E que se eles quiserem que ela saia,

vão ter que chamar a polícia.

Da Maria Angeles para a Irmã Josefa.

Bom, Josefa...

Não esperava que você fosse me pregar essa peça tão baixa.

Não vi isso vindo.

Bom...

Vou te dizer o que vim falar.

Afinal de contas,

estou acostumada com você não ser muito falante.

É isso aí. Ela voltou para fechar a venda.

Ela acha que eu vou me mudar

para Madri se eu não tiver escolha. Mas não... Jamais!

Não vou para Madri. Nem volto para o asilo de velhos.

Josefa...

Vou sentir muito sua falta.

Sinto muito sobre a Josefa.

Mãe, eu...

Pensei que a senhora tinha concordado em vender o apartamento.

Pois mudei de ideia.

Vou ver o tabelião amanhã cedo.

Só queria que você soubesse.

Tudo bem.

Você não tem mais nada a dizer?

Não há mais nada a dizer.

O que eu faço agora?

- Mas, mãe... - Não diga nada, Clara.

Para minha avó, Juana.

RUA MÁLAGA

Legendas: kephasmnc

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