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UMA VERDADEIRA VIDA DE INSETO 2
NARRADO POR AWKWAFINA
Ah, uma ilha tropical paradisíaca no Sudeste Asiático.
São as férias de sonho para os humanos.
Mas é o inferno na terra...
para os insetos.
Vejam este jovem caranguejo-eremita.
Ok, sim, eu sei que os caranguejos não são insetos.
Mas ouçam-me.
São crustáceos.
Os seus antepassados foram das primeiras criaturas
a sair do mar, a colonizar a terra
e a evoluir para insetos.
Por isso, vamos chamar a este caranguejo-eremita um inseto de praia.
Em todo o caso, para uma criatura do tamanho de uma bola de golfe,
a praia é um lugar difícil para viver.
Metade do dia é como um deserto,
e a outra metade
fica totalmente inundada de água salgada.
Mas a nossa pequena eremita tem uma solução inteligente.
Ela usa uma concha abandonada como casa móvel.
Para onde quer que vá,
ela protege-a dos extremos da vida na ilha.
Só há um problema.
Ela é maior do que a concha
e precisa desesperadamente de uma casa maior.
Por isso, nada a vai impedir
de fazer pela vida.
Ok, vamos tentar de novo.
E quem diria?
Aquela concha tem o tamanho perfeito.
Tem de apanhá-la antes de qualquer outro.
Oh, turistas!
São do piorio!
Só o mais determinado dos insetos de praia pode fazer aqui a sua casa,
neste mundo brutal, mas belo,
entre a terra e o mar.
A VIDA NA PRAIA
O nosso pequeno caranguejo-eremita está quase na idade adulta.
Mas se vai começar uma família,
ela precisa de encontrar uma concha com espaço suficiente para crescer
e ainda ter espaço para os ovos.
É mais fácil falar do que fazer.
As casas de sonho não aparecem com a maré.
Bem, na verdade, elas aparecem.
Um novo e doce anúncio no mercado imobiliário da praia.
Um pouco ambicioso para ela, talvez,
mas perfeito para este grandalhão.
Ele também está atrás de uma melhoria.
Que grande caranguejo!
E agora que a sua mudança está completa,
a sua velha concha está à espera de ser descoberta.
Os eremitas conseguem detetar uma troca de conchas
do outro lado da praia.
Como acontece no mercado imobiliário, cada vez que alguém se muda
uma concha mais pequena entra no mercado.
Mas é competitivo.
Há que ser rápido.
Abram caminho à força,
ou ficarão a perder.
Esperem, esperem!
Resta uma concha, do tamanho certo.
Mas esta é uma verdadeira obra de arte.
Parece que a procura de uma nova concha
está a tornar-se numa missão épica.
Ao meio-dia, a areia coze como se estivesse numa bandeja.
Está 30 graus mais quente do que o ar.
Só um inseto é suficientemente fresco para se instalar aqui.
O escaravelho-tigre.
Sim, um inseto real.
Quando se trata de lidar com o calor, ele tem o que é preciso.
As asas brilhantes e os pelos brancos
refletem os raios de sol.
As pernas compridas mantêm-no afastado da areia ardente.
E quando os problemas aparecem...
ele deixa o perigo para trás.
Os escaravelhos-tigre são os insetos mais rápidos em terra.
Movendo-se até 170 comprimentos de corpo por segundo,
são 20 vezes mais rápidos que o Usain!
Este pequeno relâmpago é tão rápido,
que nem os olhos dele conseguem acompanhar.
Por isso, quando está a caçar,
ele tem de parar...
para procurar o almoço.
Ora, olá.
Uma deliciosa mosca-da-fruta a morrer com o calor.
Mestre da caça na orla costeira,
ele sabe jantar e correr.
Mantendo-se fresco onde outros não aguentam o calor,
o pequeno tigre tem o domínio da praia.
Vai onde lhe apetece,
come o que lhe apetece.
Pulgas-do-mar.
Do tamanho de um petisco e em grande quantidade.
Mas um movimento em falso,
e elas saltam como pipocas.
Os turistas agem como se fossem donos deste lugar.
Para lá da praia,
à tarde, a maré baixa expôs um novo mundo.
O nosso eremita percorreu um longo caminho à procura de conchas.
Aqui está um pouco mais fresco,
mas ela está a ficar presa na lama.
Este lugar é para aqueles que ainda estão um pouco mais atrás
na viagem evolutiva
fora do mar.
Estes peixes de olhos esbugalhados são saltadores-do-lodo.
Peixes fora de água que só sobrevivem
onde se conseguem manter suficientemente húmidos
para respirar através da pele...
e encontrar restos de algas para petiscar.
Mas esta zona lamacenta entre as marés é limitada.
Por isso, têm de competir pelo seu espaço.
Saltar assim significa:
"Esta é a minha casa, amigo, sai daí!"
E se isso não funcionar,
acaba numa guerra de território com os saltadores-do-lodo.
Poucas conchas, demasiada lama.
Está na hora de mergulhar.
Além disso, um aroma sedutor atrai-a de novo para a praia.
As suas antenas detetaram um cheiro tão irresistível
que vale a pena enfrentar a areia ardente.
Os caranguejos-eremitas confundem o odor do plástico com o da comida.
Todos os anos, milhões de caranguejos-eremitas
ficam presos no nosso lixo.
Humanos!
Só fazem lixo.
Isto normalmente acaba numa de duas maneiras:
cozinhado até à morte ou morrer lentamente à fome.
Oh, espera, a maré está a mudar.
Terceira opção:
afogamento no oceano.
PEQUENOS INSETOS
Presa, sozinha
e afastando-se cada vez mais da costa,
a nossa pequena eremita está em águas...
Ah, ah, profundas.
... está em águas profundas.
Mas, há apenas alguns meses, ela sentia-se em casa aqui.
Nasceu no mar
e passou as primeiras quatro semanas a alimentar-se de plâncton...
antes de estar pronta para procurar um lar em terra,
e deixar para trás as multidões da Cidade de Coral.
A competição pelo espaço vital é intensa no recife.
Mas este camarão mantis,
sim, ele também é um crustáceo,
tem uma solução prática.
Ele, simplesmente, constrói a sua própria casa.
Um pouco disto.
Oh, isto vai ficar fabuloso aqui.
Basta colocar... basta colocar isto aqui.
Dá-lhe um pouco de "zhuzh".
"Zhuzh" isto aqui em cima, sim.
Et voilà.
Um castelo de coral.
Agora que foi construído, precisa de ser defendido.
Os imóveis do recife são tão procurados
que ele faz patrulha para evitar invasores.
E é com os outros mantis que ele tem mesmo de ter cuidado.
Ei, amigo! Mexe-te!
Este camarão vai dar um grande golpe.
Um murro com a força de uma pistola de calibre 22.
Sim, bem me parecia. É isso mesmo, foge!
Vai ser preciso um mantis mais poderoso para reclamar o castelo dele.
A Cidade de Coral é tão concorrida e competitiva
que é normal que os caranguejos-eremitas tenham evoluído para viver em terra.
Mas a busca do nosso caranguejo por um novo lar
está a ir na direção errada.
Está à deriva no mar
e problemas maiores estão a vir na direção dela.
Não há nenhum lugar onde estar a salvo destes tipos?
Outra mudança de rumo.
Subir o riacho,
num emaranhado de raízes.
O nosso eremita deu à costa na misteriosa floresta de mangais.
Lar de um tipo muito diferente de caranguejo.
O fortemente armado caranguejo-violinista.
Estes tipos têm exoesqueletos protetores duros
e escavam tocas para viver.
Por isso, não precisam de encontrar conchas como os ermitas.
Mas têm de lutar pelas suas casas nos buracos de lama.
É aí que entra a garra de grandes dimensões.
Quando outros machos tentam entrar à força,
é altura de sacar as armas.
Este caranguejo defendeu a sua casa.
E em boa hora, também.
Uma fêmea está à procura do tipo com o melhor berço de caranguejo.
Talvez ele possa seduzi-la com o seu apêndice de grandes dimensões?
Não é só para lutar.
É para acenar.
O quê?
Todos os machos estão ávidos de atenção.
"Olá, senhora, olá querida, aqui."
Ok, calma, calma, não tão desesperado.
Ok, ela está a ir na tua direção.
Ou estava.
Até aparecerem estes macacos a estragar tudo.
Macacos-narigudos comem sobretudo folhas de mangue.
Mas, por vezes, procuram um inseto
para dar um pouco de tempero à sua dieta.
Os machos são particularmente curiosos.
Mas também se distraem facilmente.
Enquanto eles lutam, esta é a sua hipótese de escapar.
Pelo menos seria, se a borda não estivesse sufocada com lama.
A sua única opção:
deixar a sua preciosa concha.
Sem proteção para o seu corpo macio...
ela é vulnerável.
Melhor do que nada.
Mas ela não tem futuro num abrigo temporário.
E também não há futuro no manguezal.
A maré está a subir.
É melhor sair daqui ou em breve ela afogar-se-á.
Toda a floresta está inundada.
É hora dos violinistas entrarem nas suas tocas.
Mas este macho ainda está a tentar seduzir a fêmea.
Vamos, acena com mais força.
Dentro de alguns minutos, este lugar estará debaixo de água.
Sim, ela está interessada.
Quem poderia resistir ao seu buraco lamacento?
Tudo resolvido,
mesmo a tempo.
De volta ao recife,
parece que o nosso camarão mantis
também tem uma visita.
"Ei, eu disse nada de invasores! Desapareça, senhor!"
Espera aí.
É uma fêmea.
As fêmeas são bem-vindas.
Vem admirar os seus dotes de decoração de interiores.
Tenho quase a certeza que é isso que ela está a fazer.
Parece que toda a gente está a juntar-se e a fazer bebés.
E quando a noite cai,
até a Cidade de Coral está a desovar.
Um evento que acontece uma vez por ano e que rejuvenesce o recife...
e mantém este berçário subaquático vivo
para as próximas gerações de bebés insetos da praia.
Chegou a noite ao paraíso e o amor está no ar.
Mas o nosso pequeno caranguejo-eremita continua sem casa e sozinho.
Felizmente, sob o luar,
até os humanos estão mais carinhosos e generosos.
A casa perfeita está de volta ao mercado.
Mas já há outros interessados.
"Pois, não depois do dia que tive, querida."
Quando o mercado imobiliário é tão competitivo,
às vezes é preciso ser um pouco egoísta.
Finalmente, a casa de sonho é dela.
Oh, talvez os turistas não sejam assim tão maus,
desde que aprendam a respeitar os nativos.
Trocar de concha foi uma boa jogada.
Fica-lhe bem.
Este eremita macho certamente pensa assim.
Ele acha-a irresistível.
Brevemente, ela estará pronta para ir para a beira da água
e libertar os seus próprios ovos.
E uma nova geração de insetos da praia
também começará a fazer aqui a sua casa.
Mas isso é uma história para outro dia.
Legendas: Jorge Seabra Paupério
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