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A mulher... A mulher...
A mulher é a origem de todo mal!
Aliada do demônio! Semeadora de ilusões,
de traições, de discórdias!
Pecadora e mãe dos pecadores!
Legendas em Pt-Br por J Samp
Revisão e Ressincronização por @cultfilmfansub
O CINTURÃO DE CASTIDADE
Agora que a nossa Igreja Mãe chama às suas fileiras
todos os seus filhos, pela reconquista da Terra Santa,
empestada e contaminada pela presença de muçulmanos,
o que estão esperando aqui?
Marchem e se juntem à Cruzada!
Corram para lutar em nossa Guerra Santa!
Mas a única razão é que não querem abandonar
esta vida de dissipação e lascívia.
Vocês são incapazes de se libertar
das amarras dos sentidos e da luxúria!
Mas, é tudo culpa da mulher.
É sempre a mulher, que os impede de ir às Cruzadas!
Agora devo ir, mas tenho a certeza férrea
que se manterá fiel a mim.
Vou implorar seu retorno com jejum e oração.
E com castidade.
- Meu escudeiro! - O escudeiro do duque Pandolfo!
Lorenzo!
- Lorenzo! - Amo!
Às suas ordens, amo.
O imperador abençoa a Cruzada contra os mouros,
mas as armas cristãs são escassas.
Tenho que ir para poder investir os novos cavaleiros.
É um dever inescapável.
Ouça, Lorenzo.
Confio na minha esposa,
mas quero manter os velhos costumes da família.
O cinturão de castidade
é um grande conforto ao marido ausente.
Espero que minha viagem não seja longa, mas
vivemos tempos bastante difíceis:
a guerra é sangrenta e as estradas são inseguras.
A morte está sempre à nossa espera,
- ou a prisão. - Eu tentaria resgatá-lo.
Se eu não voltar, digamos, dentro de
sete anos, dê isso à minha esposa.
É a única chave para sua castidade.
Pode confiar em mim.
Aos cavalos!
E a chave?
Criatura maligna do Demônio,
será condenada ao fogo eterno!
Irmãos, não se deixem seduzir por seus encantos perversos!
Ei, lindo, você quer vir fazer penitência comigo?
- Vá para o inferno! - Mas como “para o inferno”?
Se foi de lá que fomos enviadas a você.
Acredito que a guerra seja a causa de tantos cornos.
Porque você, mesmo que não haja guerra, está tranquilo.
A mim não me engana, porque coloquei o cinturão nela.
Eu também.
- Uma caridade, por favor. - Uma caridade, por favor.
Uma caridade!
Misericórdia! Uma caridade
para esta pobrezinha, engravidada pelos bárbaros!
- Mendigar não é permitido. - E engravidar é? Veja.
É um bebê de quatorze meses.
Dê-me uma moeda. Uma moeda para este inocente,
que está envelhecendo e ainda está na minha barriga!
- Quatorze meses? - Sim.
- E ainda não quer sair? - Não, claro que não.
Para que? Para passarmos fome?
Deixe-me beijar sua mão.
Lembre-se: os únicos que passam fome são os vagabundos.
Só os vagabundos!
Tremam, mulheres, porque o fogo do inferno espera por todas vocês!
O fogo eterno punirá seus pecados!
Quem? Quem entre vocês não está contaminada?
Quem não cedeu à excitação de seus sentidos?
Quem? Vejam, vejam o que é uma mulher!
Um poço de pecado, uma lata de lixo,
um receptáculo impuro, a porta do Inferno!
O que há com você?
- Está vindo! Está vindo! - Aqui na rua, mulher?
Eu vou dar à luz! Ajude-me, Padre, e vocês duas.
Maldição!
Por favor, peço que me perdoe!
E você pede desculpas a uma mulher?
- A uma lata de lixo? - Sim, sim.
Agora a criatura pode até nascer deformada!
É certo. Há chances de ele nascer deformado.
E se não for um menino, é a pior coisa que pode acontecer!
Será deformada, mendiga e mulher, tudo junto!
Tem razão! Então é melhor que o enviemos
ao céu!
Ei, descarada!
Que bruxa você é!
Eu vou quebrar sua perna até estourar!
Senhor, perdoa-me!
Que bonitão.
Mas quem é você?
- Mas como é bonito! - Como ousa perturbar esta vigília?
Quem é ele? O Arcanjo São Gabriel?
Fora! O que está fazendo aqui? Saia!
Preparem-se para a cerimônia.
Ajoelhe-se! Vamos, ajoelhe-se!
E reze!
Guerrando da Montone, sua longa vigília de armas e oração
tornou-o digno desta investidura,
mesmo que você seja de origem humilde.
Ó, o declínio destes tempos e a urgência
de recrutar pessoas para a Cruzada
faz alguém que não nasceu nobre
poder hoje alcançar a nobreza.
Segundo as Sagradas Leis da Cavalaria,
eu, duque Pandolfo,
te nomeio cavaleiro.
Seja forte, ousado e leal.
Levanta-te, cavaleiro Guerrando.
Ele adormeceu.
- Guerrando! - Eh! Oh!
Me perdoe, estava rezando.
Don Guerrando!
Ó, obrigado! Obrigado, duque!
Obrigado. Agradeço novamente. Obrigado.
Obrigado.
E agora,
prepare-se para a bofetada.
Bofetada?
A única que um cavaleiro aceita em sua vida,
como um gesto de humildade, sem ter que retribuir.
Mas não tenha medo, é um tapa puramente simbólico.
Ah, uma bofetada simbólica!
Pobre Guerrando!
- O que houve? Feri você? - Por aqui, por aqui.
Feri?
Não, não, foi um ferimento puramente simbólico.
Vamos, ajoelhe-se.
- De novo? - De joelhos!
Como um incentivo para ser corajoso em combate,
você receberá um feudo concedido a...
Feudo? O que é isso? Outro tapa?
Inculto mas valente Guerrando!
Levante-se, me dê suas mãos.
Toda a terra que você pode cavalgar, de agora até o pôr do sol,
se tornará sua propriedade.
Obrigado, duque.
Você terá um castelo,
vassalos e súditos, que você terá que governar.
Obrigado, duque.
Governar é uma arte muito mais difícil do que a guerra.
Acredito. Deve me perdoar, mas o sol não vai esperar por mim
e cada frase sua me custa meio hectare.
Posso ir?
É claro. O que está esperando? Corra!
Eu vou!
- Merculfo! - Sim, amo?
- Suas mãos estão limpas? - Limpíssimas.
Suba-me.
Amo!
Você é um incompetente! Fora, fora!
Suba-me. Suba-me.
- O elmo? - O elmo.
- Onde eu tenho que ir? - Por ali, por ali.
Guerrando, aonde você vai?
Você falhou por causa deste cavalo desajeitado.
Mas até onde eu cheguei?
São quinze passos.
Então, eu vou ser o amo de um feudo de quinze passos?
Outro cavalo!
A primeira ação do governo
é a arte de dar e receber ao mesmo tempo.
Portanto, não desanime.
Você ainda pode andar um bom terreno,
de agora até o pôr do sol.
Vamos. O que está esperando?
Eu tenho que investir novos cavaleiros.
Imagine! Talvez tenhamos a honra de conhecer o imperador.
Era um arcanjo belíssimo, que estava orando.
- Suas típicas fantasias. - Por que não acredita em mim?
Sempre brincando, zombando do próximo como uma vagabunda!
Mas por que não poderia ser um arcanjo?
Porque não existem arcanjos na Terra.
Vamos, vá em frente, seu monte de pele!
Faça um pequeno esforço! Vamos!
Vamos, vamos!
Até este sinal aqui,
tudo o que é meu, é meu.
Senhor.
E você, quem é?
Me chamo Boccadoro (Boca de Ouro).
Sou filha de Bertuccio. Meu pai é o guardabosques.
Ah, Boccadoro.
Sim, e o senhor?
Eu sou o amo e senhor de todas essas terras,
homens e animais
até aqui.
Até aqui?
Ó, não!
O que está fazendo? Quem é esse?
É o arcanjo. Vá para dentro!
Que bonito.
Eu pertenço a você.
Eu pertenço a você por um... um milagre.
Eu sou sua, entendeu?
O que está vendo ali é a minha casa.
É, isso mesmo.
Estou dentro de seus limites, não é?
- Ah, claro. - E eu pertenço a você, certo?
- Certo. - E você é meu amo.
- Certo. - Meu arcanjo!
Don Guerrando, meu amo,
- são 90 hectares. - Ah, é?
E há também um castelo.
Marculfo, essa é minha primeira súdita.
Sou sua.
Vai me levar agora, ou volta mais tarde?
Mais tarde, mais tarde.
Alegrem-se, Guerrando é seu amo!
Aleluia!
Onde estão os súditos?
Por que esses gritos, se não se vê sequer um cachorro aqui?
Seja bem-vindo.
- Há pessoas lá. - Eu não te disse?
Alegrem-se! Aplaudam seu novo amo!
Obrigado! Obrigado, meus súditos!
Bem, já cumprimentaram o chefe.
Não vamos perder tempo. Todos ao trabalho!
Não vamos perder tempo, porque esse vento é precioso!
Ao trabalho! Ao trabalho!
Não desperdicem este vento! Vamos triturar! Vamos triturar!
- Que vento bom sopra, moleiro. - Sim, graças a Deus.
Já sabe que tem de pagar um imposto sobre o vento?
- Imposto? - Sim.
Pelo vento?
Mas o vento é de todos.
Claro, é de todos.
Mas quando sopra na minha terra, pertence a mim.
E se eu não pagar o imposto, como você vai parar o vento?
Bem dito. Venha, venha aqui.
Sabe o que eu lhe digo? Eu posso até parar o vento.
Ei, você! Viu o novo amo passar?
- Que amo? - Don Guerrando.
E quem é aquele?
Ele me prometeu me ter com ele, como sua propriedade.
- Ele é o amo de todos e de todas. - E de mim também?
- Sim, de você também. - Será meu amo a partir de hoje.
Até logo.
Então, amo,
vou pagar o imposto do vento.
Muito bem. É uma boa ideia.
E quando você pagar, removeremos a restrição, certo?
Obrigado.
E esse imposto sobre o vento vai me custar muito?
Vai custar-lhe tanto quanto o novo imposto sobre o jogo.
Muito gostoso este queijo. Muito bom.
Don Guerrando está aqui! Aleluia!
- É o senhor! É o senhor! - O amo, amo.
- Viva o senhor! - O amo.
Dom Guerrando vai nos trazer justiça e prosperidade. Aleluia!
Socorro! Socorro!
Assim você aprenderá que deve sempre passar por trás de mim!
Socorro!
O que há aqui?
Pare!
Que foi que ele fez?
Ele cortou a garganta da esposa e o Grande Conselho o condenou.
Era seu aniversário e ele queria poupá-la
de mais doze meses de fome e miséria.
Ah, é um filantropo. Enforquem-no!
Um momento. Espere, deixe que eu o veja.
Diga-me. Eu conheço você.
De onde você vem?
Da aldeia de Lo Sgombro, senhor.
Lo Sgombro?
Você é... você é um pescador?
Sim.
Abaixe-se. Sente-se aqui.
Um pescador, hein?
Por quê?
Anos atrás, um pobre menino
estava preso no meio das ondas,
tentando pegar um peixinho entre suas mãozinhas,
mas a corrente, que era muito forte, o levou.
Então o coitado, em vez de morrer de fome,
estava se afogando,
quando um pescador o vê,
ele pula na água, leva ele para seu barco
e o salva.
- Era eu aquele garotinho! - Que incrível!
E eu... eu era o pescador, certo?
Que alegria! Que alegria!
Você entende que eu lhe devo minha vida?
Dê-me um beijo.
Procuro há anos por você para agradecer.
- É um milagre! - E agora, eu lhe agradeço.
- Chegou a tempo. - Já agradeci. Enforquem-no!
Se não, ele seria capaz de atacar outra mulher.
Um pescador é sempre melhor na água.
- Temos mais alguém para enforcar? - É só uma questão de escolher.
Mas primeiro, vamos comer.
Exato. É melhor fazer isso de estômago cheio.
Ei, não! Atrás de mim!
Guerrando!
Guerrando!
Abram para mim! Guerrando me espera!
- Está aberto. - Onde?
Aqui.
Diga-me. Guerrando está em casa?
Sim, mas agora não pode,
porque está discutindo os novos impostos.
Vá dizer a ele que Boccadoro chegou e está esperando por ele.
Está bem.
Ei, quando desenrolha vinho novo,
quem deve ser o primeiro a beber?
- O dono da casa, claro. - Muito bem.
O mesmo deve acontecer com as esposas.
A primeira noite de núpcias deve ser passada com Dom Guerrando.
É um dos mais antigos costumes: jus primae noctis.
Lembrem-se: o amo deve ser sempre o primeiro.
- Também na cama. - E nós, maridos?
Voltem amanhã de manhã para buscá-las.
Como amanhã de manhã?
Bem, se quiserem,
podem esperar por elas aqui, como eles fazem.
Bem,
vamos torcer para que as coisas, pelo menos, passem rápido.
- Mas nós somos os primeiros. - As nossas acabaram de entrar.
E se, depois, o amo não as usar,
terão que pagar o imposto em moeda.
Ei, Gandulfo!
É pra já.
Vamos torcer para que ele fique entediado.
É certo que ter que pagar em dinheiro seria ruim.
Ei, você não é o amo!
Mas eu cuido dos seus interesses.
Também temos que pagar imposto por sermos cornos!
Bem, Don Guerrando, o que digo a eles?
Não sei. Invente alguma coisa
Mas eles estão esperando.
O que digo a eles?
Diga-lhes que os impostos são o mais importante.
Agora tenho coisas para fazer.
- Posso substituir o senhor? - Não.
Fora, fora, fora!
Divirta-se.
Não me deixa governar.
Agora ele está ocupado com assuntos de governo.
Guerrando! Abra para mim!
Vá para casa e espere sua vez.
Quero que seja uma caçada memorável!
Mas, lembrem-se, o primeiro cervo corresponde a mim.
Em marcha!
Aqui, aqui, aqui.
Que lindo!
Você esta perdido? Venha comer.
O que está fazendo atirando essa flecha em mim?
Chega de jogos!
Mas, veja que lindo gamo!
Que belo tiro!
- Vou te grelhar. - Não se aproxime.
- Ou melhor cozinhar? - Não me toque!
- Fique assim! Fique assim! - Não, não! Solte-me!
Grelhada. Melhor grelhada, fica mais gostoso!
- Fica mais gostoso! - Marculfo!
Boa caça, hein?
- Você é... você é Bocca... - Boccadoro, senhor.
Ah, sim, Boccadoro.
Marculfo, vá perseguir o cervo.
E você, vai ficar aqui?
Você conhece a lei, jovem.
Primeiro eu e depois você.
- Você sempre se antecipa. - Eu disse pra sair daqui!
E lembre-se:
meu gado não é caçado.
O que significa isso:
primeiro você e depois ele?
Você é um animalzinho inteligente.
- Não. - O quê?
- Não. - Sim.
Não, não me toque.
Primeiro você e depois ele...
Você é uma pessoa experiente, mas
parece que não entende nada.
Vou te explicar com um exemplo, hein?
Veja esta árvore. É minha.
E tudo o que você vê ao redor, seja o que for,
é minha propriedade.
A grama em que você está pisando pertence a mim.
E esta flecha pertence a mim! E você também!
Você pertence a mim.
Eu não pertenço a nenhum homem
nesse sentido.
Nesse sentido, sou mais que um simples homem.
Sou seu amo.
Você fala como se eu fosse um animal.
- E o que você é? - Um animal?
Boccadoro, eu não te entendo.
Porque ontem você veio ao castelo para me dizer:
“Eu sou tua.” E então?
- Porque era livre. - Livre?
- Era eu quem decidia. - Ah, era?
Eu quero escolher por mim mesma.
Ontem eu podia. Hoje você não me deixa escolher.
Escolher? Quem está falando em escolher?
Isso não é coisa de mulher.
Se há algo para escolher, sou eu quem escolhe. Eu!
Então, meu senhor, o que o senhor precisa é de uma fera.
Uma fera!
Você quer ficar quieta?
“Fique quieta! Me dê um beijo!
Você vai ver o quanto vai se divertir!”
O que você acha que é? Um deus?
Eu sou um homem, o que, neste caso, é muito melhor.
- Não! - Um cervo!
Vamos continuar isso outra hora.
Posso te encontrar quando quiser,
mas se o veado me escapar, adeus.
Arcanjo mau!
Me dê isto.
Não tenho razão? Não?
E pensar que quando o vi pela primeira vez,
eu pensei que era um anjo.
- Um anjo... - Ah, vai começar de novo.
Não é nada. Só estou falando com Baltasar.
Espero que pelo menos ele te entenda.
Posso saber o que há com você?
Sem sair de casa,
trancada em sua toca como um animal espancado.
Você também com essa história de animal?
Qual é essa história de animal?
Papai, papai.
Diga-me a verdade.
Quem é mais bonito,
Baltasar ou eu?
Você, com essas histórias, vai acabar com a cabeça ruim.
Agora, vou saber de uma vez por todas o que é pior,
- nascer mulher ou cachorro? - Praticamente não há diferença.
Ambos devem obedecer ao seu amo.
E por que o homem tem que ser o amo?
- Só pode ser assim. - Mas por que?
Porque as mulheres são inferiores.
Inferiores.
Baltasar! Baltasar!
Olhe para mim.
Me dê um beijo.
Vamos, beije-me, eu te ordeno!
Me beije! Um beijinho!
Vê?
Pelo menos um cão pode escolher.
Marculfo.
- Sim, amo? - A verdade.
Da minha boca, o senhor sabe que só sai a verdade.
Como eu estou? Bonito?
Senhor, a beleza que emerge do seu rosto dá arrepios.
Eu também acho.
Diga-me: se você fosse uma mulher,
você acha que poderia resistir a mim?
Se eu fosse uma mulher?
Uma mulher bonita, com pernas esbeltas,
com seios macios
e olhos hipnotizantes.
Não se anime. Você é muito apaixonado.
Acalme-se. Era apenas uma hipótese, nada mais.
Ouça, Marculfo. Sabe de uma coisa?
Não ficarei tranquilo
até que possa ensinar uma lição àquela jovem.
Sim, uma lição.
Por que não me encarrega de cuidar deste assunto?
Vou pensar nisso.
Por uma vez, eu gostaria de ser o primeiro.
Marculfo, você acha que existe algum homem
que pode dizer que foi o primeiro
com uma mulher?
Então, por que o senhor quer ser sempre o primeiro?
O primeiro... primeiro que quem?
- Que você. - Que eu.
É sempre uma forma de priorizar.
Mas onde? Por que não está aqui?
E nem disse para onde vai?
Posso saber que tipo de animal o senhor trouxe a este mundo?
Um que pensa que tem o direito de me rejeitar!
Tenha pena dela, amo.
- Vinho! - Hã?
Ah, sim, imediatamente.
Digo, e eu, o que sou? O que me levou a isso?
Como se dá esses ares de acreditar que para mim é uma honra
compartilhar sua cama por um momento?
Ó, não, senhor, isso nunca foi dito!
A honra é dela, só dela.
Mas quando ela volta para casa?
Estará aqui, a qualquer minuto, com certeza.
Você que fez esse vinho?
Vá me pegar outro e não volte até que esteja bom!
Sim, muito bem, senhor. Até mais tarde.
Espere. Leve isto também.
Eu não quero burros! Não vim aqui para dormir com animais!
Claro, senhor, minha filha é suficiente para você.
Isso é o mais justo.
Quem é?
Socorro!
Marculfo.
- Não, já está bom, Serena. - Certo.
Boa noite.
- Boa noite. - Boa noite.
Marculfo, se você não encontrar aquela garota para mim,
você nem vai ser meu pajem.
Ah, não! Isso não!
- Entendido? Saia. - Sim, senhor.
Diga-me, vocês são todos sábios aqui?
Todos.
Mas entre todos vocês, quem é o mais sábio?
- O que está mais alto. - Obrigada.
Ouça, eu tenho que lhe fazer uma pergunta.
Fale, te escuto.
Tu, que és verdadeiramente sábio, explica-me isto:
se o homem, que é gerado por uma mulher,
se torna amo,
por que a mulher deveria ser um ser inferior?
Simplesmente porque a mulher não tem alma.
Então eu não tenho alma?
Então como é possível eu chorar?
Como é possível eu rir?
Então por que os homens sempre vão atrás de nós?
Porque a única função das mulheres é dar filhos aos homens.
Aqui está.
- Leve a caça para o cozinheiro! - É magnífica!
Eu nunca tinha visto uma corça assim.
Silêncio! Silêncio!
Peço-lhes que a observem bem.
Algum de vocês acha que isso é uma mulher?
- Eu diria que é uma mulher. - E eu também.
Ah, é?
Mas em vez disso, esse...
esse objeto não parece estar de acordo, não.
Considerem que é algo sagrado e sua carne nobre demais
para ser tocada pela mão de um homem, sim.
E sua boca tem o direito de dizer não.
Amigos, formem um círculo.
Nos deixe tocá-la.
Não muito perto. Para trás.
Façam um círculo.
Amigos, é meu dever como seu senhor e amo
refrescar um pouco suas ideias.
E será sua a própria cabeça que indicará qual de vocês
deverá explicar para que serve uma mulher.
Ótima ideia!
Girem!
Parem, parem!
Ah, não! Isso é demais!
Sempre tão afortunado, Guerrando!
Eu não vou tocá-la nem com uma lança dos torneios!
Quem a pegar deve ficar com ela! A caça está iniciada!
Por aqui! Por aqui! Rápido!
Eu vi primeiro!
- Ela se foi! - Para onde?
Você viu ela?
A vingança é um pouco amarga, hein?
É que eu não entendo nada
desde o momento em que a encontrei lá.
Por acaso, você não está apaixonado?
Apaixonado?
É só que me incomoda
se agora cair nas mãos de outro.
- É minha! É minha! - Não, não!
- Há um remédio possível. - Que remédio?
Claro, casar-se.
- Me casar com quem? - Com Boccadoro.
- Quer que eu case com Boccadoro? - Sim.
Ela é uma súdita minha, uma serva, uma qualquer.
Sou um senhor e possuo um feudo.
As pessoas vão pensar que me tornei um banana.
Marculfo, que ideias você tem! Vamos, vamos.
Você se casa com ela e assim que parar de desejá-la,
mande-a queimar na fogueira como bruxa.
Como bruxa?
Mas onde ela se escondeu?
Onde?
Desapareceu!
Boccadoro!
Boccadoro!
Ei, você! Viu aonde ela foi?
Não.
- Encontrou ela? - Não.
Para onde ela poderia ter fugido?
Boccadoro!
- Sabe onde ela foi? - Não.
Para dentro do poço.
Está aqui embaixo, aqui embaixo.
- Ela está aqui! - Ela está aqui!
É ela!
Detenham ela!
Lá vou eu!
- Alto! - Socorro!
Boccadoro!
Ouça.
Você quer ser minha esposa?
Exatamente o que sempre sonhei:
um pedido de casamento no meio de um chiqueiro!
Tudo bem. Como quiser.
Eu deixo você escolher:
ou você divide minha cama ou fica no chiqueiro.
Há alguma diferença?
Oreste,
engorde meus porcos e principalmente esta!
Obrigado.
O que você vai fazer?
Pronto, senhor.
- Mas não pode. - Claro que não posso.
Mas ele, sim. Diabolô.
Desta vez quero que faça um corte bem elegante.
Com licença.
Assim, com a linha no meio.
Ah, à oriental, que está na moda.
Mas por que? Que mal ele fez?
A caça tem sido escassa e a colheita muito pobre,
e o tempo está ruim.
Por tudo isso, acuso seu pai de feitiçaria.
Não é verdade. Ele é um homem muito bom.
Ah, é? Eu vi como ele ia nu, montado em uma vassoura...
Papai?
...e ele estava fumegando pelos ouvidos.
- Misericórdia. - Não.
Misericórdia, senhor!
A menos que você não encontre alguém disposto a orar por você.
Por exemplo, um parente tão próximo,
que seja capaz de comover-me.
Boccadoro, comova-o.
Não.
Prefiro a morte!
Eu é que vou morrer e não quero.
- Está pronto, Diabolô? - Sempre pronto.
Então,
um!
O que pretende?
Que você diga sim.
Pois deixe-o morrer!
- Dois! - Boccadoro!
Papai, por favor, você não tem dignidade.
Mas como vou tê-la agora?
Dois e meio!
- Três! - Espere!
Alto, alto!
Se todos falarem ao mesmo tempo, meu trabalho dá errado.
- Viva os noivos! - Vida longa!
Você se saiu bem, papai.
É melhor perder uma filha do que perder a cabeça, não é?
Sim.
Uma cerimônia muito bonita, só um pouco longa.
Eu entendo a impaciência do noivo.
Meus amigos, aqui não faltam vinhos,
iguarias e mulheres para todos os gostos!
Minha esposa e eu
deixamos vocês com seus prazeres e vamos aos nossos.
- Boa noite. - Um momento, senhor.
Como seu conselheiro espiritual, é meu dever lembrá-lo
das noites de Tobias. De Tobias.
O que você prefere:
respeitar o costume ou pagar por sua isenção?
- Pagar, pagar por nossa isenção. - Muito bem.
- Boa noite. - Boa noite.
- Boa noite. - Espere, um momento!
O que é isso de “noites de Tobias”?
As noites de Tobias não são nada, apenas uma formalidade.
- Uma formalidade. - Mas do que se trata?
Bem, a lenda diz que Tobias e sua esposa,
quando acabaram de celebrar seu casamento,
passaram três noites orando e sendo castos,
antes de sua união carnal.
Por muito tempo, foi um costume para os recém-casados
seguir o exemplo de Tobias.
Isso mesmo.
Mas é um costume antigo, que agora está fora de moda.
Claro, claro. Hoje, quando se trata de um jovem casal
particularmente impaciente,
tudo é arranjado pagando uma quantia modesta...
Não, não, não, não. Não somos impacientes.
Vamos esperar as três noites.
Estou casado com ela há uma hora e ela já está me dando ordens!
Tudo isso é meu!
Você é minha! Ele é meu!
Isso é meu! Tudo aqui é meu!
E sou eu quem tem que decidir
se temos que passar três noites de joelhos orando!
Eu, eu!
Eu!
Eu!
Que camisola bonita.
Que pena que você não fica muito bem com ela.
Não poderia tirá-la um momento?
- Reze. - Bem, vamos rezar, vamos rezar.
Mas isso não é um leitão, é uma galinha diabólica!
Este não é um alimento proibido.
De qualquer forma, estou sempre disposto
a desembolsar uma pequena quantia.
Que pena, Marculfo. As noites de Tobias
são noites de pureza e castidade para todos.
- Mas eu ainda sou solteiro. - Leve este prato pecaminoso.
Que frio.
No fundo...
no fundo, que mal estamos fazendo
se rezarmos um pouco mais perto, hein?
O que você disse?
- E Tobias? - Sabe-se que Tobias não tinha frio.
Assim é melhor.
Faça suas orações.
Eu já rezei. Agora só espero ser ouvido.
Rienzi! Rienzi!
Rienzi! Rienzi!
Rienzi, enquanto eu rezava,
ele me beliscou aqui e me beijou ali.
E?
Não, ele me beijou aqui e me beliscou ali.
- Ah, não. - Sim.
Bom, vou ter que ficar aqui para ajudá-los nessa prova.
Não, eu não gostaria de cair em tentação.
- Que tentação? - Nada, nada.
- Por que você toca na minha bunda? - Me perdoe.
Vocês são todos iguais.
Eu tive que atravessar a montanha a cavalo para chegar até você.
Este é o suplício de Tântalo.
As noites de Tobias são suas, não minhas.
- Sim, muito bem. Boa noite. - Boa noite.
- Descanse bem e tenha bons sonhos. - Espere, ajude-me!
- Rienzi, espere! - É problema seu.
Espere!
Não!
Você se lembra daquele dia na floresta
durante a caçada?
Sim.
Sim, mas agora a caçadora sou eu.
Eu.
Boccadoro, cuidado. Eu não sou nenhum cervo.
Cuidado com esta lança, você pode se machucar.
Bo... Bo... Boccadoro,
não havíamos combinado que deveríamos rezar esta noite?
Cabe a você... a você rezar
e implorar de joelhos o meu perdão.
Sim, por ter me torturado,
e humilhado a ponto de...
a ponto de não te amar mais. Eu não te amo.
Eu não te amo mais!
E antes de entrar na sua cama suja, eu...
eu... eu sou capaz...
sou capaz de...
Boccadoro, o que você quer?
Agora não é hora.
Rapazes! Rapazes!
Deixe-me fazer e você verá quem é Guerrando.
A bênção do Senhor
A bênção do Senhor
A maldição do Senhor
A maldição do Senhor
- Elvira. - Sim, senhor?
Por favor, não saia mostrando tudo. Cubra-se.
Cubra-se, Elvira. Vá, vá.
- Marculfo! - Sim, amo?
- O sol já se pôs? - Ah, sim, senhor.
Então está na hora. Coragem!
Outra noitezinha de oração.
Tenho a sensação de que
poderia me tornar um monge.
- Senhor. - O lobo chegou.
As noites de Tobias não são válidas
quando os cônjuges não as passam juntos.
Eu sei. Você já me disse.
- Sua esposa já se recolheu. - E agora eu também vou.
Que estranho.
Não tenho notícias desde esta manhã.
Eu posso entendê-lo. Mas ela também se foi.
Não é só que eles vão embora,
mas o que cada um faz por conta própria.
- Você pensa como um homem. - Por quê?
Você não vê que o senhor do feudo
tinha mil maneiras de fazer que o obedecesse?
Ele poderia ter recorrido à força ou à crueldade.
Poderia tê-la acorrentado à cama, compreende?
Ou até mesmo a açoitar e possuí-la violentamente.
E, por outro lado, ele não fez nada disso.
Não.
Ele te ama.
Ele...
ele me ama?
Tem certeza?
Certeza?
Se não tivesse certeza sobre algo assim,
algo tão simples, eu teria vivido tantos anos para nada.
Guerrando!
Guerrando!
Amo!
Don Guerrando, isso vai contra as regras.
Durante o tempo de Tobias,
os esposos não devem sair da casa conjugal
- nem mesmo durante o dia. - Mais uma palavra
e enfio sua língua dentro do nariz.
Deve estar cansado, amo, cavalgou o dia todo.
Não posso cavalgar à noite.
Tome. Isso te fará dormir.
- Boa noite. - Bons sonhos, amo.
O cavalo! Não leve para a cama.
- Ah, sem sustos! - O senhor se lembra do que me disse?
Que pagando uma pequena quantia...
Peço para ser isenta de passar as noites de Tobias. Obrigada.
Guerrando.
Guerrando.
Guerrando.
Mais cinco minutos, mãe.
Sou eu! Eu!
E agora o que você quer? Eu estava rezando.
Por que você não reza também, hein?
Boa noite.
Não se mexa. Não se mexa. Não se mexa.
- Não, não. - O que foi? O que foi?
Olha o que você está fazendo. Está vendo?
Deixe-a.
Mas como eu consegui colocar a mão aí?
Você não consegue se separar de mim.
Olha o que essa mãozinha faz. Está vendo?
É você quem colocou minha mão aí.
Com licença, com licença.
Boccadoro, boa noite.
Rezemos.
Bruto! Bruto, me violente!
Mas como eu acabei em cima?
Não, não, não, não!
Prometa que não vai fazer...
- Sim, sim, eu prometo. - ...isso de novo.
- Nunca mais. - Prometo.
Prometo.
Poderia tudo ter sido tão simples para nós,
quando nos encontramos
pela primeira vez.
Fui eu mesma
quem implorou para que você me amasse.
Por que, então, você teve que me levar à força,
quando eu estava disposta
a me entregar a você
apenas por amor?
Sabe por quê?
Eu te amo.
Eu te amo.
- Bruto castrado! - O que houve? Começou de novo?
- Guerrando! - Se acalme.
Não tenha medo. Eu não vou me aproximar.
- Me toque! - Você quer me deixar louco?
Não, não é verdade!
- Você vai me deixar louco! - Guerrando!
Eu toco nela e ela não quer; eu não toco nela e ela quer!
Vou fazer uma lei que proíbe o casamento com mulheres!
Não!
Ó, céus!
O que você veio fazer aqui?
Qualquer coisa que meu senhor queira.
Depois de ter me mantido em suspense por três noites!
A culpa foi sua. Se não tivesse adormecido,
seriam apenas duas.
O que você disse?
Ontem à noite o imposto foi pago pela nossa isenção.
Quem pagou?
- Você? - Uhum.
E por quê?
Porque eu amo o homem que se casou comigo.
Mas...
- mas sou eu. - Sim!
- Sim, é você! Sim! - Boccadoro.
Don Guerrando?
Fora, fora.
Don Guerrando.
Fora, fora!
Tenho coisas a fazer. Saia!
- Você pagou? - Sim.
- Para o Don Guerrando. - Sim...
Fora! Saia!
Eu sempre te amei. Sim.
- Eu também te amo. - Sim.
- Guerrando! - Não!
Não!
Guerrando da Montone!
Quem é que está berrando..?
Ah, duque!
Estou aqui em nome do imperador Luís II.
Me ordenou libertar a Itália.
O que é a “Itália”?
Devemos expulsar os sarracenos de Bari.
Essas terras devem se tornar cristãs novamente.
Guerrando.
Não podemos admitir que, enquanto libertemos a Terra Santa,
os mouros invadam nossas terras.
Venha para a batalha! Haverá glória para você também!
Claro, estou impaciente! Espere só cinco minutos.
- Guerrando! - Sim, duque?
Desça imediatamente ou você será privado de seu título,
do castelo e tratado como traidor.
- Até o castelo? - Sim.
- E você viverá novamente como antes. - Estou indo.
Não, Guerrando! Você não pode sair agora.
- Não! - Boccadoro,
não tenho tempo. Devo ir.
- Não, ainda não. - O que vou fazer?
Se eu não for, vão tirar tudo de mim.
Vou perder tudo, até o castelo.
- Não, Guerrando, não! Não! - Sim, sou um soldado.
Você não ouviu que devemos lutar?
Guerrando, se você não vier, terei que subir!
- Não conseguiremos convencê-lo. - Eu te amo.
Atacando-os pelos flancos,
seremos capazes de vencer a resistência deles.
Avançaremos em direção a Cuneo, Lungo e Morbide Pendi.
Entraremos na selva.
À nossa frente, estará a meta desejada.
Vamos espalhar a rede e abrir uma brecha. Molfetta será nossa.
O caminho para Bari estará aberto e o resto será um jogo. Gostou?
- É o meu plano de batalha. - Eu estava fazendo um quase igual.
Vista-se. A guerra não espera.
Guerrando.
Diga a verdade. Você não gostou do meu plano.
Não. É que eu estava me preparando para outro tipo de ataque,
- meu bom duque. - Vamos, me chame de Pandolfo.
- Obrigado por essa honra, Pandolfo. - Sabe, entre combatentes...
Sim, o fato é que acontece que
deixar uma mulher na melhor hora...
- De quem é a mulher? - Minha. Acabei de me casar.
Não se preocupe. Para alegrar nossas noites,
além das armas, levaremos três carros
com mulheres cuidadosamente escolhidas.
Quanto... quanto a sua esposa, suponho que já tenha agido.
O quê?
Tomou medidas?
Perdoe-me, Pandolfo. Tomar medidas em que sentido?
Eu suplico.
Faça qualquer coisa.
Impeça-o de sair.
Isso não está ao meu alcance, filha.
Mas eu amo ele!
Invente alguma desculpa.
Diga-lhe que a Santa Igreja é contra a guerra.
Mas se foi a Igreja que ordenou esta guerra.
Que simples, não é?
É o mesmo modelo
que encomendei para minha esposa.
Perdoe-me, Pandolfo, mas ela não protestou?
Não, meu amigo. A melhor das esposas sempre será uma mulher.
E como todas as mulheres, se não protestar, o que ela fará?
- Você tem razão. - E uma vez trancado,
irá proteger não só as suas noites, mas também a sua testa.
Feche bem e você vai me agradecer.
A Segunda Cruzada durou quatro anos
e foram poucos os que voltaram.
- A Terceira durou... - Mais tarde.
Meu senhor.
Eu vou esperar por você, amor,
mesmo que seja por toda a minha vida.
Quanto tempo você acha que esta Cruzada vai durar?
Em uma guerra,
não se pergunta quando, mas se retornará.
“Se”, entende?
Meu pensamento sempre vai acompanhá-lo
onde quer que você vá.
- Boccadoro. - Meu amor.
- Não posso te deixar sem antes... - Sim?
- Ouça. - Diga.
Se trata de uma coisa indispensável.
Ah, é?
- É... - O quê, querido?
...um presente.
Guerrando.
Não, não, não!
Não!
Por quê?
Coragem, Guerrando!
Que cortem minha garganta se, em sete anos,
não estivermos aqui novamente.
Por quê?
Por quê?
Eu me vingarei! Me solte!
Deixe-me!
Eu vou encontrar a chave! Deixe-me!
Eu vou partir o coração dele!
Alto!
Para onde está correndo, cavaleiro?
Para onde corre?
Por que deixou o lado cristão?
Vamos, responda-me.
Se tem medo de lutar, ordeno que deponha suas armas!
O que está fazendo, covarde?
Você desiste?
Você não aceita meu desafio?
Mas o que você é? Um homem ou uma prostituta?
Está bom para você?
Por favor, mate-me.
Não vou sobreviver à vergonha de ser desarmado
por uma mulher.
Será um prazer, se quiser assim.
Ah, não. Não posso.
Vamos, levante-se.
Não coloquei a armadura para matar alguém que não conheço.
- Como você se chama? - Meu nome é Dragone.
Você me derrotou e, portanto, estou pronto para segui-la
em qualquer empresa.
O que eu quero fazer devo fazer sozinha.
Não.
Agora devo segui-la aonde quer que seja.
É a regra da Cavalaria.
O que é aquilo ali?
Outra igreja, destruída pelos sarracenos.
Por onde passam
deixam para trás apenas destruição e ruínas.
Mas eles deixaram este anjo intacto.
Talvez porque é muito bonito.
Mas certamente eles não respeitariam você,
que é mais bonita que um anjo.
Obrigada.
De onde você vem, Dragone?
Do Norte, para juntar-me ao lado cristão.
Um grande número de cavaleiros se reuniram lá
e discussões entre eles não são incomuns.
- E qual seu nome? - Me chamo Boccadoro.
Boca de ouro. Cabelos de ouro.
Você fala de mim?
E ainda espero mais maravilhas
sob a armadura.
Posso imaginar a sua surpresa.
Tenho alguma esperança?
Agradeço seus elogios, Dragone,
mas o homem que amo é alguém que sempre some,
de repente, sem dizer uma palavra.
Se é o que quer...
Mas o que você entendeu, Dragone?
Eu não quis dizer você.
Estava falando de outra pessoa.
Este lugar está infestado de sarracenos.
Você corre um sério risco se encontrar essa chave.
Mas eu vou encontrá-la.
Eu não suporto me sentir trancada nesta prisão,
que me ofende.
Mas como ele pôde fazer isso?
Como pode um homem, verdadeiramente apaixonado,
humilhar sua esposa a tal ponto?
É que muitos homens se comportam assim.
Se o encontrarmos, ele pagará.
Acho que amanhã mesmo
chegaremos ao acampamento dos cruzados.
Mas o que estão fazendo?
Os cavaleiros não foram lutar contra os mouros?
E esses não são todos cristãos?
Certamente.
Mas eles estão lutando entre si.
Por quê?
Porque são cristãos
e podem encontrar um sarraceno em qualquer mato.
Aquele é Guerrando. Vão matá-lo!
Bem, não é isso que você quer?
Mas eu quero salvá-lo, porque o amo.
Don Guerrando, o Cavaleiro Dourado!
Tenham cuidado!
Boccadoro, Boccadoro!
Não, não posso cuidar de você agora.
Agora tenho muitas coisas a fazer.
Guerrando, tenho que te matar.
- Não, não! - Reze por sua alma, cavaleiro!
Parem! Trégua! Embainhem suas espadas!
Logo será noite e não podemos lutar no escuro.
Correm o risco de se ferirem.
Você pode agradecer ao céu.
Hoje, pelo menos, sua pele foi salva.
Incrível!
Marculfo!
Eles te machucaram.
O suficiente para me tirar do caminho.
- Eu o servi até a morte, amo. - Claro. Eu sei, Marculfo.
Estou disposto a conceder-lhe
aquilo que você sempre sonhou.
Por uma vez, você será o primeiro.
Sim. O primeiro a ir!
Não há nenhuma virgem entre as mulheres?
Virgem ao menos de coração, para meu servo Marculfo.
Creio que não.
Há alguma virgem para o escudeiro de Guerrando?
Não, não. É tarde demais.
Não me sinto muito bem e, no fundo,
ser o primeiro não é importante.
Vamos deixar para a próxima.
Obrigado, amo.
Ele se foi.
Está escrito:
“O homem que tem fé, ainda que morra, viverá.”
“O homem que viveu pelo espírito, não pode morrer.”
E ele?
Ele? Ele morreu.
Pedra!
Papel!
Tesoura!
Onde você estava?
Com você nos meus pensamentos.
Não pôde me ouvir? Estava sussurrando
palavras que eu nunca disse a outra mulher.
Há em mim como em você, uma grande
e imensa necessidade de amor.
- Não... - Espere.
Deixe-me ser o único a adivinhar seus pensamentos.
Mas como?
Boccadoro.
Feche seus olhos.
Abra.
Seu marido dormia como um tronco.
- Ó, Deus, você não machucou... - Não, eu não machuquei ele.
Substituí a chave que ele estava usando no pescoço por outra.
Ele não notou nada.
Veja como devolvo sua liberdade.
Eu nunca conheci um homem como você, sabia?
Que fala comigo como você.
Acho que nunca mais vai acontecer.
Vá em frente. O que espera para se libertar?
- Não. - Você não confia em mim?
Eu não confio em mim.
Eu vim para me vingar
e agora percebo que o segui por amor.
Eu quero que ele seja o único a me libertar.
Só ele.
Que pena.
Devagar!
Não façam barulho! Os cristãos dormem.
Temos que surpreendê-los dormindo!
O imperador deve estar entre eles.
- Mas como podemos distingui-lo? - Terá a armadura mais bonita.
Boccadoro.
Guerrando.
Guerrando.
Ele está sempre dormindo.
Guerrando!
É incrível.
Tem o seu cabelo.
E seus olhos.
Seu mesmo nariz e seu mesmo rosto.
Isto é mágico.
Boccadoro, se for você, acene com a cabeça.
Ah, Boccadoro!
Boccadoro, meu amor,
eu me sinto tão sozinho, sabe?
Eu não faço nada além de pensar em você, acredite.
Porque te amo.
A distância me fez perceber isso.
Ouça, é a primeira...
a primeira vez que me apaixono.
É... é um jogo que nunca joguei antes.
Compreende?
Boccadoro.
Boccadoro.
Guerrando.
A solidão é difícil,
mas tente se controlar um pouco.
- Ei, ouça Pandolfo. - Não seja tão confiado.
- Mas não foi você quem disse... - Cale-se.
Me calo.
- Volte logo para o alojamento. - Sim.
- Cuidado, sentinelas! - Ele está com ciúmes.
Estejam sempre alerta!
Vamos!
Se virem alguém com armadura de ouro, pegue-o!
Vamos!
Eu já volto.
Guerrando? Guerrando. Guerrando!
Preparem-na para o sultão.
Você não está com medo?
De você? Não.
- Não, não estou com medo de você. - Que estranho.
Por quê?
As virgens devem ter um pouco de medo.
É possível. Mas eu me sinto muito segura.
- Segura? - Segura.
Não é comum encontrar tal guloseima dentro de uma armadura.
E isso, o que é?
Outra armadura.
Ah, mas veja!
Já tinham me falado desse costume bárbaro dos cristãos.
Receio que você me fez pintar e me vestir para nada.
Falemos um pouco sobre o seu resgate.
O que é essa chave que você usa no pescoço?
Nada. Que resgate pretende?
Eu não tenho uma única moeda.
- Você não quer minha pele? - A sua?
- Não - Não?
Ainda não está muito suave.
Vejo que não conhece nossos costumes.
Matar alguém que compartilhou nossa mesa
é como um pecado.
- É um costume magnífico! - Mas você não comeu nada.
Como a vida é curiosa. Sempre cheia de novidades, não é?
Ontem à noite você estava com seus companheiros de armas,
feliz, expansivo e ardente,
e esta noite você é meu prisioneiro.
Você não comeu nada
e de repente tem fome.
Diga-me uma coisa. Você ficaria muito surpreso
- se eu tivesse piedade de você? - Não, nem um pouco.
- Nem um pouco. - Muito bem.
Flores não contam.
Que nojo.
Tenho pena de você.
É um homem que não tem razão para viver.
Creio que está enganado. Eu sei que tenho um motivo.
Então talvez possamos fazer um bom negócio,
uma vez que você abraçou a verdadeira religião:
- a minha. - Mas por que me prende?
Renunciar a fé dos meus antepassados? Não.
Existem muitos tipos de fé, mas a vida é uma só.
- Nunca. - Se você teme pela vida,
deve se tornar muçulmano.
Eu prefiro a morte.
Gostei desta dança.
E também é muito boa para as costas.
Acho que encontrei o pescoço
de onde pende a chave
que abre esse mecanismo.
Ah, é?
Mas ele não lhe entregará. Nunca.
Eu sei disso.
Eu serei o único a tirar isso dele.
Terá que matá-lo primeiro.
Claro.
E para tirá-la, você terá que cortar a garganta dele.
Ó, não!
Não, não!
Por quê? Eu ainda não aprendi.
Mal havia começado. Um pouco de paciência.
- Alá é ótimo! Alá é grande! - Venha cá.
- Solte-me, solte-me! - Alá é grande!
Não, não!
Alá é grande!
Alá é grande!
- Boccadoro! - Mas você ficou louco?
- Levante-se. - De que você está vestido?
- O que ela está fazendo aqui? - Acalme-se.
Ela está sã e salva, pelo menos até agora.
A chave!
- Mas logo... - Não!
...não estará mais.
Não!
Não importa. Descobri que a chave da verdade é outra.
É uma chave que se chama Alá.
Alá! Alá é grande!
Alá é grande! Levem-no para fora.
Alá é grande! Alá é grande!
Alá é grande!
Mas qual o problema dele? O que você fez com ele?
Agora não sou mais nada para ele.
- Eu... - Eu o convenci que a vida é preciosa.
E neste momento, talvez ele esteja mais interessado na vida
do que numa chave.
- E agora, se me conceder a honra... - Não!
Mas essa não é a chave certa.
Ele não sabia.
Sou eu quem detém a chave verdadeira.
- Está aqui dentro. - O quê?
- Ah. - Meu Deus!
Alá, Alá, Alá!
Espere!
- Não! - Espere!
- Não! - Onde você está indo?
- Maçã dos meus olhos! - Não, não!
Estou com a chave.
Mais tarde, mais tarde. Agora temos que fugir.
- Espere! - Não temos tempo, corra!
Corra!
Quem é essa mulher?
E o homem que estava com ela, para onde foi?
- Ah, travessa! - Guerrando!
Eu vou te pegar!
- Para onde eles foram? - Não sei.
Por acaso não sabem que não deveriam vir aqui?
- Sabem da novidade? - Qual?
Aqueles cristãos infiéis levaram Molfetta.
Maldição!
Levantem-no.
Levantem-no!
Para onde vai aquele velho babaca?
Ele vai atrás da última donzela que chegou.
É hora de falarmos claro.
- Ó, olhem, um homem! - Devagar, devagar!
Um homem! Um homem de verdade!
Ponham ele aí, eu vou comer ele!
É meu, é meu! Eu vi primeiro!
- Isso não significa nada. - Que seja para todas!
- Como ele é forte! - Socorro, socorro!
Que bonito!
Socorro!
- Como se chama? - De onde você vem?
Não. Não posso dar a você.
- Dê-me a chave. - A chave, não. Não posso!
Os cristãos estão se aproximando da cidade!
Devemos avisar o sultão!
Já estão aqui!
O que houve?
O imperador Luís II avança em nossa direção.
Saia. Você se ofende se eu deixá-la?
Não é nada. Vou ver os cristãos e voltarei.
Sim, vá.
Ah, não. Isso não.
Eu vou e volto, antes que o sol se ponha.
- Os cristãos! - Os cristãos estão chegando!
- Você aqui? - Ouça, não é o momento...
Me diga porque deu a chave para ele. Por quê?
Não grite. A chave que o sultão tirou de mim era outra.
- Outra? Quem lhe contou? - Não era essa...
Como você sabe?
Não sei como explicar. Na noite passada...
Sim?
...aconteceu uma coisa muito estranha, como por magia.
Quando eu estava dormindo, você apareceu para mim no meu sonho.
Abri os olhos e vi que você tinha se tornado um cavalo.
Não.
Mas não era um cavalo de verdade, era você. E então eu te beijei.
Quer dizer, eu beijei o cavalo.
Depois de um tempo, Pandolfo chegou e me viu beijar o cavalo.
- Sim, já entendi. Mas e a chave? - Mas eu não pensei que fosse um cavalo.
Ah, a chave! Por magia foi transformada em outra.
Então é por isso que você deu a ele.
Exato. Foi por isso.
- Meu Deus! - O que você tem?
Agora o sultão tem a chave de verdade.
A verdadeira?
E como é que você estava com ela? Quem pode ter lhe dado?
Sim, porque quando eu vi você dar a sua pra ele, eu...
- Mas temos que pegá-la novamente. - Sim.
Um momento.
Como você conseguiu a chave verdadeira?
Um truque de mágica, que começou com a coisa do cavalo.
Depois eu te explico. Agora você tem que ter cuidado.
- O sultão disse que voltará logo. - Tudo bem.
Não vamos perder tempo. Este é o meu plano:
nós dois escaparemos juntos, mas primeiro vamos nos separar.
Você vai se esconder dentro dos estábulos
e eu vou te esperar no portão.
- Você concorda? - Sim, eu no portão.
- Não, não, não. - Não, você no portão, eu nos estábulos.
Não. Você tem que ir aos estábulos,
porque se você não for aos estábulos, quem cuidará do cavalo?
Você para os estábulos e eu para o portão.
Não, você cuida do cavalo e eu estarei no portão.
Não, eu vou... Deixe pra lá, vamos fugir!
Está bem, como quiser. Nós dois iremos para o portão.
Ouça, você deu a chave para o sultão, não foi?
Sim, mas depois eu explico. Depois eu explico. Vamos.
Precisamos pegá-la.
Procurem por ela, procurem por ela!
E não a deixem escapar!
Não, Guandalina. Agora estou ocupado com a guerra.
Dê-me a chave.
Como você se permite? Meu corpo é sagrado.
Sagrado, hein? Não faria mal lavar de vez em quando.
Nem todos os narizes podem captar perfume, sabe?
Eu quero a chave.
Você quer a chave? Aqui está.
Maldição!
Prendam o infiel! Que ele seja entregue ao carrasco e ela para o harém!
Guerrando!
Estou aqui, Guerrando!
Aqui!
- Corram, o infiel fugiu! - Por ali!
- Corra! - Aqui estou.
Veja, eu encontrei. Eu cuido da chave.
Ande, vamos!
Ali, ali! Eles estão fugindo!
Venha, venha.
E agora, o que fazemos?
- Levante as mãos. - Certo.
- Para a torre! - Para a torre!
E você, não vai descer?
Desça. Coragem!
Alto!
Será que a corda aguenta?
Vamos, vamos! Peguem ele, peguem ele!
Não!
Guerrando!
Guerrando!
- Boccadoro, onde você vai? - Não, não!
- Você está salvo! - Venha aqui.
- Ei, o que houve? - Não!
- Meu cordeirinho! - Vitória, cristãos!
- Vitória! - Viva, viva!
- Quem é esse? - Soldados!
- Não! - Alá, Alá!
Solte-me!
Seu infiel!
- Infiel, eu? - Infiel, você!
Aqui está o cavalo. Ao lado do portão.
Filho de Alá!
- Devolva-me isto! Cadê você? - Turco!
Chinês!
Está com ela?
- Não estava com você? - Não.
Então se não está com você,
então deve estar comigo, claro.
Me lembro agora. Está aqui.
Aqui.
Não se mova. Calma.
- Vê alguma coisa? - Não. Onde ela se enfiou?
Onde ela se enfiou?
Maldita seja! Deve estar no inferno.
- É tudo culpa sua! - Minha? Mas se estava com você.
- Vamos continuar procurando. - É o que estou fazendo.
- Está aqui! - Onde?
Aqui!
- Boccadoro! - Aqui está!
Boccadoro!
Essas dunas não estavam ali ontem.
Será alguma armadilha dos mouros?
Vá ver do que se trata.
Boccadoro...
Boccadoro, não abre.
Meu Deus, tem certeza?
Claro que tenho certeza. Estou dizendo que não abre.
- Mas por quê? - Porque não abre.
E se não abre, significa que a chave não é esta.
Por que não acredita em mim?
Porque a perde, a encontra, você a esconde,
- você a perde de novo. - Não, não é verdade.
- Você jura que esta é a chave? - Sim.
Não é verdade. Estou calmo,
estou calmíssimo, mas digo:
malditas sejam as fechaduras desse cinturão do diabo!
- Quem é? O que é isso? - O que está havendo?
Dragone, como chegou aqui?
- Mas quem é? - É Dragone.
Não sou Dragone, senhora,
sou Luís II, imperador do Sacro Império Romano.
Vim incógnito para saber o valor dos meus cavaleiros
e pude conhecer a virtude de uma mulher.
Se não estou enganado, vocês estão um pouco em apuros,
mas talvez eu possa ajudá-los.
Devolva-me essa chave, que certamente não pode ajudá-los,
porque é de outro cinturão.
Boccadoro, você se lembra daquela noite no acampamento?
Então, eu lhe dei uma chave por outra.
- Esta aqui é a sua chave. - Obrigada.
Pegue, Boccadoro.
Posso saber como Vossa Majestade está ciente disso?
Entendo sua surpresa, mas pode ficar tranquilo.
Eu tinha em minhas mãos a castidade de sua esposa,
mas a ti confiei a da imperatriz.
Ainda que seja melhor,
e eu lhes peço que minha Hidelgard não saiba.
E, como em breve passaremos das sangrentas batalhas
da guerra às do amor,
será bom para a paz conjugal de todos
que todos voltem para casa com a chave certa.
Explique-me como é possível que o imperador de todos
poderia ter minha chave?
A propósito, se eu a deixei no castelo,
como é possível que você esteja aqui?
Com licença, mas o que você quer agora é conversar?
Espero que não. Não.
Espere!
Espere, venha cá! Venha cá!
Não, não forniqueis! Não forniqueis!
Pare, irmão!
Não caia no abismo!
As mulheres são a causa de todo mal!
São as criaturas do diabo!
E lembre-se que as Cruzadas ainda não acabaram!
Não forniqueis!
FIM
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