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PEQUENA M�SICA NOTURNA
O amor demora para chegar.
Tempo demais, mas � sublime.
Assustador, o amor est� cheio de areia movedi�a.
Revelador, o amor est� cheio de truques e...
demora mesmo para chegar.
O que realmente � um crime.
Curioso, o amor �...
atormentador.
Constrangedor, o amor �...
implac�vel.
O amor � um labirinto
que se ressente do tempo que demora,
agravando a confus�o que causa.
Confundem-se os fatos com as falsidades.
E o amor � uma li��o sobre como corrigir seus erros.
O que devo vestir?
Onde est� minha sombrinha?
- Posso comparar? - Se atrever�?
- Eu o perdi? - Ele percebeu?
O que dir�o?
- Devo preocupar-me? - Devo lembrar-me de novo?
Por que n�o podemos continuar?
- Alguma vez eu fui? - Alguma vez eu poderei?
Eu n�o tenho nenhuma pergunta.
O amor vem em primeiro lugar.
� o mais importante.
Sempre nos pega desprevenidos.
Determina as condi��es
e voc� descobre que est� tudo do avesso.
O tempo que o amor demora para chegar...
acorda o cora��o que se partiu.
E pensem nos novos amigos que ele faz.
Sim, o amor � uma li��o
sobre como corrigir seus erros.
O que devo vestir? Onde est� minha sombrinha?
- Posso comparar? - Se atrever�?
- Ser� que eu a perdi? - A perdi?
- Ele notou? - O que dir�o?
- Ele percebeu? - Alguma vez?
- Poderei alguma vez? - Ele percebeu?
Ele percebeu?
- Como poderei dormir? Por que fa�o isso?
N�o tenho nenhuma resposta.
N�o tenho mais tempo.
Se blefasse um pouco, conseguiria.
O solit�rio � a �nica coisa na vida que requer total honestidade.
Como mulher que teve reis como amantes suponho...
que pode-se acreditar na minha palavra.
Sobre o que eu estava falando?
- Disse que eu precisava olhar. - Olhar o qu�?
Pareceu-me improv�vel...
mas me disse que deveria olhar a noite sorrindo.
Tudo � improv�vel, mas isso n�o deve desanim�-la.
� claro que a noite de ver�o sorri.
Tr�s vezes.
Mas se sorri, como � que ela sorri?
Ter� uma sensa��o.
O jasmin cheira mais forte,
os sapos coaxam...
e todas as estrelas de Orion piscam.
N�o pressione seus seios contra a poltrona.
N�o ir�o crescer.
E ent�o o que ser� de voc�?
Mas por que ela sorri, vov�?
Pelas loucuras dos seres humanos, � claro.
O primeiro sorriso � para os jovens, que n�o sabem nada.
O segundo para os tolos que sabem muito pouco, como Desir�e.
A mam�e n�o � uma tola!
O terceiro para os velhos,
que sabem demais, como eu.
Kurt, est� na hora da minha sesta.
Pare de preocupar-se com a sua m�e, crian�a.
Agrade�a a Deus por estar nas m�os de algu�m mais respons�vel.
V� estudar piano.
E esta noite, como recompensa,
vou te contar algumas hist�rias sobre meu romance
com o bar�o de Signac,
que era, para dizer de uma forma amena,
peculiar.
"O mesmo velho caos de sempre."
"Sinto sua falta desesperadamente."
"N�o se desanime, querida."
"Um dia! M�e."
As m�es normais levam vidas normais.
Esfregam o ch�o e cortam a salsinha.
Remendam as roupas, cuidam dos seus filhos.
As m�es normais, como as esposas normais,
fazem as camas, assam os bolos
e colhem as uvas das parreiras.
A minha n�o!
Armand!
Eu sempre soube que voltaria para mim.
Armand!
Meu amor.
Descanse em paz, Margarita.
Deus te perdoar� porque teu cora��o era bondoso.
Morrer lentamente
cada noite era uma vida fascinante.
Aclamada por representar,
que vida mais fascinante.
As m�es normais nunca
recebem flores. E as m�es normais nunca
conhecem a alegria.
Mas as m�es normais n�o poderiam tossir
por horas mantendo a serenidade.
Eu sei, n�o podia ter matado a velha vaca t�o r�pido.
S� lanches,
mas come o que quer e quando quer.
�s vezes est� sozinha, mas conhece gal�s bonitos.
As m�es normais n�o ficam levando malas,
mas n�o v�o a lugares diferentes.
Porque as m�es normais
t�m que ser m�es o dia todo.
A minha atua numa pe�a
e � mais real que as outras.
Que importa que seu broche seja de cristal
e seus vestidos velhos.
Que importa que viaje na 2� classe
se ela tem a oportunidade de viajar.
E este ver�o,
daqui a muito pouco, ela vir� me ver.
Este ver�o,
talvez em junho, ela vir� me visitar.
As filhas normais talvez achem
que a vida � melhor quando suas m�es est�o perto delas.
Mas as filhas normais
n�o recebem cartas com cr�ticas teatrais.
Alegre e determinada, com aplausos.
Que vida fascinante.
Os textos s�o brilhantes se s�o de Shaw.
Que vida mais fascinante.
As m�es normais n�o recebem
comit�s nem as chaves da cidade.
N�o, as m�es normais limitam-se a ver seus filhos
o ano inteiro.
O que � maravilhoso, � o que dizem,
mas interfere
com o glamour.
Excelent�ssimo Burgomestre,
Hofrat Von Pflanzl,
conselheiros, damas e cavalheiros.
� uma prazer para mim
inaugurar esta �rvore,
ou seja, plant�-la,
em mem�ria do nosso querido dramaturgo austr�aco,
Sr. Arthur Schnitzler.
Eu sou a princesa guardada por drag�es,
que grunhem e rugem nos vag�es.
Ela est� em seu reino disfar�ando-se
e vivendo uma vida cheia de surpresas.
E em algum momento deste ver�o
ela vir� galopando pela grama.
Em algum momento deste ver�o
minha m�e, a rainha, vir� resgatar-me.
As m�es normais gostam de sua intimidade,
mas elas tamb�m conseguem sobreviver.
E as m�es normais sabem
que est�o im�veis
enchendo mamadeiras
enquanto perdem a emo��o
de uma vida fascinante.
Bom dia.
Boa tarde, advogado Egerman.
Boa tarde.
Teria dois bons lugares para a apresenta��o desta noite?
� claro, Sr. Egerman.
Uma surpresa para sua esposa, n�o �?
Sim.
- Pegue. - Sim, Sra. Egerman.
Erich!
Erich, querido.
N�o pode tocar algo menos melanc�lico?
N�o � melanc�lico. � profundo.
Pois est� me deixando profundamente melanc�lica.
Venha me entreter no meu quarto.
Assim est� melhor.
Ao falar das tenta��es,
Santo Agostinho diz:
"N�o pode evitar que os p�ssaros voem sobre sua cabe�a,
mas pode evitar que fa�am um ninho no seu cabelo."
Isso tamb�m � melanc�lico.
Para um homem que quer se alistar no Ex�rcito de Deus
h� poucas coisas divertidas neste mundo.
O padre Johan diz que devemos ser soldados atentos
cada segundo do dia, para... evitar as armadilhas do diabo.
Minha bola.
Pode p�-la aqui.
Meu colo n�o � uma armadilha do diabo.
Oh! A� est� teu pai.
Frederick!
Frederick! Olhe s� quem chegou!
Mais santo que nunca.
Ol�, filho, como foram os exames?
Na verdade...
Foi aprovado com honrarias, � claro.
- E o padre Johan disse... - �timo.
Quero um relat�rio completo. Mais tarde.
Querido marido, quer seu ch� agora?
Acho que agora n�o.
Tive um dia exaustivo na Corte, e como a noite ser� longa,
acho que vou tirar uma soneca.
Ingressos para o teatro.
� uma com�dia francesa.
� a pe�a "Mulher do Mundo" com Desir�e Armfeldt, n�o �?
Oh, Frederick, que del�cia!
O que devo vestir?
O azul com as penas? Aut�nticas penas de anjo.
Ou o verde? Oh, j� sei, � claro, o meu vestido rosa.
Erich, voc� pode aboto�-lo nas costas.
Lamento, filho, devia ter me lembrado que voc�
vinha e devia ter comprado um terceiro ingresso.
Embora talvez a com�dia francesa n�o seja adequada para voc�.
Por que todos riem de mim?
� t�o rid�culo tentar fazer algo de bom neste mundo?
Eu receio que ser jovem j� � rid�culo.
Bom tem que ser t�o bom e ruim t�o ruim assim?
Esses superlativos!
Mas suponho que ser velho n�o � rid�culo.
N�o vamos come�ar com isso.
N�o me chamaram. Ningu�m quer ch�?
Est�o tirando uma soneca.
Est� cheirando a sabonete.
Estou lendo.
Por acaso os padres esfregam-no como se fosse um cavalo?
- Afaste-se de mim! - Que mulher t�o perversa.
Irei direto ao inferno.
- N�o ande assim! - Assim como?
Assim?
Cuidado! � a minha blusa nova.
Custou-me o sal�rio de uma semana, al�m da renda.
Oh, coitadinho do Erich.
N�o importa. Logo saber� como fazer isso.
Mais tarde.
Voc� foi um doce de pensar em me levar ao teatro.
- Eu tamb�m vou me divertir. - E quem n�o se divertiria?
Todos a chamam: "Desir�e Armfeldt, a �nica!"
Fico imaginando como a gente se sente sendo a �nica.
Anne Egerman, a �nica.
Pobre Frederick. Eu ainda te fa�o feliz?
Depois de onze meses?
Sei que sou uma tola de ter tanto medo.
E tem sido t�o paciente.
Logo. Eu te prometo.
Sei que acha que sou tola por me preocupar, mas me preocupo.
Oh, n�o! Ser� que h� uma espinha a caminho?
Agora fica preocupada com bobagens.
Frederick, tive um dia daqueles, um drama sem fim...
Agora h� duas possiblidades.
A: poderia seduzi-la. B: tirar uma boa soneca.
A vizinha rabugenta Sra. Nordstrom,
sua irm� veio visit�-la...
Digamos que eu a seduza e logo veremos as op��es.
Espero ser suficientemente autorit�ria com os criados,
eu tento ser.
A: mostrar-me encantador. B: usar a for�a f�sica.
Poderia excit�-la, mas e se eu trope�ar ao atravessar o quarto?
Oh, acho que a costureira vir� amanh�.
Seus cabelos emaranhados, meus nervos em frangalhos.
Frederick, gostaria de ter um cachorro para poder cuid�-lo.
Demoraria o dia inteiro para despi-la e ela ficaria irritada.
O que elimina a op��o B e nos deixa com a op��o A.
Sentiria ci�mes de mim? Como o Mouro de Veneza?
Como abord�-la de uma forma solene, mas que surta efeito?
Quer que aprenda italiano? Poderia ser divertido...
H� duas formas de abord�-la. A: a sugestiva. B: a direta.
Mas franc�s � mais chique. Todos dizem isso.
"Parlez-vous fran�ais?".
Digamos que escolha "B".
Um estado de �nimo encantador e luxurioso.
Eu sei que voc� gosta assim, mas e se eu fizesse um coque?
A: poderia p�r minha camisola e ficar desarmadamente nu.
Oh, Frederick...
Poderia ser. Meu corpo est� em forma,
mas n�o � essa a perspectiva. - Pobre Erich, � t�o engra�ado.
Sentirei frio, mas a camisola n�o � apropriada para a tarde.
Por que os virtuosos s�o t�o mesquinhos?
O que fa�o? Se ela ficar ansiosa, talvez eu possa ler.
Ele vai fazer 23 anos.
Sade � mordaz, Dickens muito furioso
e Stendhal frustraria meu plano de ataque.
N�o h� muito azul em: "O Vermelho e o Negro".
Eu gosto de chocolate...
Maupassant a desalentaria. Bronte n�o � muito alegre.
Seu gosto � muito mais harmonioso, lamento diz�-lo.
Mas suas m�os, Sr. Andersen, nunca v�o escapar.
O qual elimina a op��o "A".
"Voc� � muito linda", ele me disse.
Minha capacidade mental est� nublada e prestes a explodir.
Tenho certeza quanto ao bracelete, mas que brincos?
Agora h� outras possibilidades, mas � melhor que v� dormir.
Os rubis da minha m�e? Oh, os diamantes n�o.
Agora devo mudar meu plano original.
A Desir�e estar� usando um vestido lindo.
Conseguirei dormir t�o profundamente como sempre?
Querido e distinto Frederick.
Agora, que ainda te desejo e te amo,
agora, como sempre,
agora...
Anne.
Logo, eu prometo.
Logo n�o fugirei assustada,
querido.
Logo, eu quero.
Logo, aquilo que voc� disser.
Mesmo agora,
quando est� perto e nos tocamos,
e me beija a testa,
eu n�o me importo muito.
E voc� tem que admitir que sou encantadora
e que ajudo a tornar tudo mais intenso.
N�o sou dominadora.
Que import�ncia tem um pequeno defeito?
Pense em quanto eu te adoro.
Pense em quanto voc� me ama.
Se eu fosse perfeita, n�o se cansaria logo de mim?
Em muito pouco tempo?
Querido...
Erich.
Esse barulho. Teu pai est� dormindo.
Mais tarde.
Mais tarde.
Mais tarde.
Quando ser� isso?
O �nico que ouve �: "Mais tarde, Erich."
"Erich, mais tarde."
"Sim, n�s sabemos, Erich. Todos concordam."
"Erich, por favor, Erich."
Quando estou prestes a explodir por uma pessoa,
por uma descoberta, ou por um problema,
me dizem: "Para que tanta pressa, Erich? Calma!"
"Erich, qu�o efusivo voc� �. Calma, Erich."
E eu digo: "Eu s�, � s�... Pelo amor de Deus!"
Mais tarde, Erich.
- Logo. - Mais tarde.
- Eu prometo. - Quando ser�?
- Logo. - Mais tarde.
Eu n�o fugirei assustada.
� verdade, Erich. Leia, Erich. Daqui a pouco, Erich. Sorria, Erich.
- Logo. - Mais tarde.
Como um perfeito imbecil poderia trope�ar nas minhas cal�as.
Stendhal elimina a op��o "A".
Quando?
Talvez.
- Logo. -Mais tarde.
Quando est� perto e nos tocamos...
Quando beija minha testa.
- Quando acaricio teus cabelos. - Eu n�o me importo muito.
Vai � minha cama e tem que admitir
que ou�o teus tr�mulos gemidos.
Olhar pelas janelas cinzas da vida n�o �
muito alentador.
Que import�ncia tem um pequeno defeito?
Pense em quanto eu te adoro.
Agora.
Se eu fosse perfeita, n�o se cansaria logo de mim?
Venha logo para mim, se estou morto posso esperar.
- N�o importa como. - Agora, querida.
Eu ainda te desejo, e...
- Mais tarde. - eu te amo...
- Agora, como sempre. - Mais tarde.
Agora...
Desir�e.
Ela se parece com a foto?
Quem, querida?
Desir�e Armfeldt, � claro.
Como eu poderia saber?
Eu s� achei...
- Voc� s� achou o qu�? - Nada.
Falem-me algo sobre essa extraordin�ria condessa.
Dizem que tem tantos amantes quanto as p�rolas do seu colar.
E seu marido, madame, � uma das p�rolas mais lindas. N�o �?
Foi seu amante por tr�s meses, e depois o devolveu.
Sua falta de dec�ncia � totalmente imoral.
A condessa Celim�ne de Francen de la Tour de la Casa.
Minha cara madame de Merville,
que encantadora desgra�a encontr�-la aqui esta noite.
Por que ela olhou para n�s?
Oh, n�o acho que ela olhou especialmente para n�s.
Ela olhou.
Ela olhou para c� e sorriu.
...o segredo de seu sucesso com o sexo oposto.
Minha cara madame, o amor �...
- Ela � arrebatadoramente linda. - Maquiagem.
Como pode ter certeza?
Se nunca a viu?
...trabalho e sexo.
Com que facilidade podemos fazer malabarismos com estas bolas.
E com que facilidade uma delas pode cair.
Um cora��o que cai, madame,
...e tudo esfria.
O qual vai contra os melhores exerc�cios no dormit�rio.
Deixe cair a palavra
e n�o ser�o nada mais do que duas bestas se acasalando.
Quero ir para casa.
- Anne! - Vou para casa!
Deixe cair o sexo, madame,
e seu amante ir� voando aos bra�os de sua rival mais pr�xima.
N�s pecamos e foi um fracasso total!
Oh, estes bot�es, malditos bot�es!
Deixe comigo, querido.
N�o se preocupe, Erich. Descanse um pouco.
Que pe�a mais curta.
A Sra. Egerman passou mal. Tive que traz�-la de volta.
N�o, querido, eu j� te disse. Descanse um pouco.
Ficar� surpreso de ver qu�o animado estar� de manh�.
Frederick?
Sim, querida.
Voc� teve muitas mulheres entre sua primeira esposa e eu?
�s vezes, quando penso em que lembran�as voc� deve ter,
me sinto uma nulidade por dentro.
Antes de te conhecer eu era um homem bem diferente.
Muitas coisas eram diferentes.
Melhores. Piores.
Diferentes, por assim dizer.
Voc� se lembra quando eu era uma crian�a?
Voc� ia jantar na casa do meu pai e me contava contos de fadas.
Voc� se lembra?
Sim, eu me lembro.
Naquela �poca voc� era o tio Frederick,
e agora � o meu marido. N�o � engra�ado?
Voc� estava t�o solit�rio e triste naquele ver�o.
Eu tinha muita pena de voc�.
Ent�o, eu disse para mim, coitadinho...
eu vou me casar com ele.
Voc� vai se deitar?
Ainda n�o.
Acho que vou sair para tomar um pouco de ar fresco.
Quantos anos ser� que a Armfeldt tem?
Pelo menos 50, n�o acha?
Eu n�o diria que tem tudo isso.
Boa noite.
Boa noite.
No teatro me disseram onde podia encontr�-la.
- Frederick. - Ol�, Desir�e.
Ent�o era voc� mesmo.
Eu olhei, olhei, e me perguntei: "� ele?"
Ser� que �? � poss�vel?
E ent�o, quando voc� saiu depois de 5 minutos,
eu tive certeza.
14 anos!
14 anos.
- Sem rancor? - Rancor?
Um pouco por algum tempo.
Mas agora?
N�o.
Nenhum rancor.
Nem mesmo um vest�gio.
Quer um sandu�che?
Vejo que continua tendo fome depois de uma apresenta��o.
Oh, pior.
Sou um lobo.
Schnapps, n�o �?
Nunca recusou um.
Gostaria de explicar por que sa� do teatro esta noite.
A garota do vestido rosa, eu imagino.
Continua n�o perdendo nenhum detalhe, n�o �?
Tua esposa.
H� 11 meses.
Estava muito ansiosa para ver a pe�a. Ela s� tem 18 anos.
Ainda � quase uma crian�a.
Ent�o a levou para casa e a p�s no ber�o
com seu pinguim de pel�cia.
Metaforicamente falando.
E ent�o veio me ver.
Sim.
- Qu�o familiar � tudo isto. - Oh, sim.
A mesma velha e inevit�vel rotina.
Mas ainda tem suas compensa��es?
Sim.
N�o.
N�o.
Sim.
� uma resposta bastante amb�gua.
Mas �s vezes deve sentir-se solit�ria.
Querido Frederick,
se est� indagando sobre minha vida amorosa,
tenha certeza que � bem satisfat�ria.
Entendo.
E, se me permite, neste momento?
Um drag�o.
Um drag�o muito bonito e muito casado,
com a vaidade de um pav�o real,
o c�rebro de uma ervilha, mas com o corpo de...
N�o precisa dar detalhes sobre esse vegetal.
Eu me desanimo facilmente.
Oh, Desir�e.
Frederick.
Desir�e, eu...
Sim?
Bem...
Ou seja, eu...
Talvez um pouco mais de Schnapps.
Fique � vontade.
Quem �?
Essa?
- � minha filha. - N�o fazia a m�nima ideia.
Ela... aconteceu.
- Ela � encantadora. - Sim.
Ela viaja com voc�?
N�o. Ela mora com a minha m�e no campo.
Ela costumava viajar comigo.
E ent�o um dia minha m�e a levou embora
para salv�-la de mim.
Voc� n�o conheceu minha m�e.
Ela sempre ganha as batalhas entre n�s.
Acho que vou tomar um Schnapps tamb�m.
Sim, � claro.
Ent�o?
Ent�o.
Bem, acho que chegou a hora de falar sobre o meu novo...
status, n�o �?
Para se gabar ou para se queixar?
Ambos, eu espero.
Ela ilumina minha tristeza.
Ela ilumina meus dias.
Desorganiza com sua loucura meus costumes bem ordenados.
Meu erro mais feliz, a dor da minha vida.
Tem que conhecer minha esposa.
Ela borbulha de prazer, brilha com surpresa,
desorganiza meu �cio e amarrota minhas gravatas.
Nem agora eu sei como come�ou.
Tem que conhecer minha esposa,
minha Anne.
Mil caprichos eu lhe permito,
uma vez que sua mais �nfima l�grima me comove.
Nunca sonhei que eu poderia viver
de uma forma t�o enlouquecedora, t�o alegre.
T�o resplandescente, t�o cativante,
t�o diferente de uma esposa normal.
Acho que come�o a mostrar sinais de vida.
N�o me pergunte como na minha idade ainda posso crescer.
Se conhecesse minha esposa,
voc� iria saber.
Querido Frederick, tenho vontade de conhec�-la.
Algum dia.
- Ela brilha. - Que agrad�vel.
- Ela cintila. - Que bonito.
- Sua juventude � um presente. - Seja qual for o pre�o.
� mais incandescente que...
- A luz? - Que a minha vida.
Voc� tem que conhecer minha esposa.
Sim, eu tenho. Tenho mesmo. Agora...
- Ela esvoa�a. - Que encantadora.
- Ela gorgoleja. - Minha nossa!
- Ela flutua. - N�o � alarmante?
Ela � um p�ssaro?
- Ela me faz sentir um o qu�? - Um homem muito velho.
- Sim, n�o! - N�o.
Eu tenho que conhecer a sua Gertrude.
- Minha Anne. - Desculpe, Anne.
Ela adora minha voz, meu andar, meu bigode,
at� o charuto que eu fumo.
Ela fica me contemplando at� que a cinza caia
e ent�o ela guarda a bituca.
Que excentricidade! Est� brincando?
- Ela idolatra... - Sua covinha.
- Meu ronco. - Que am�vel.
O ponto principal � que ela � muito simples.
Sim, isso parece evidente.
- Ela me d� apelidos engra�ados. - Tais como?
- T�o seco quanto o p�. - Bem apropriado.
Voc� tem que conhecer minha esposa.
Se eu tenho? Sim, eu tenho.
Um mar de caprichos nos quais eu mergulho,
embora seja t�o ador�vel em seus arrependimentos.
Infelizmente continua sendo virgem,
mas n�o se pode for�ar uma flor...
N�o prossiga. Ela � abomin�vel!
- Ela est� assustada. - � insens�vel.
Pouco instru�da.
Ela a surpreender� por ser inculta.
N�o, eu a supreenderei primeiro.
- Sua discri��o, sua apreens�o... - Seu atrevimento!
- N�o, n�o! - Sim, Frederick.
Voc� tem que conhecer minha esposa.
Deixe-me pegar meu chap�u e minha faca.
O que foi isso?
Eu tenho que conhecer tua esposa.
Sim, voc� precisa.
Uma virgem?
Uma virgem.
Onze meses?
Onze meses.
N�o � para menos que pensou em mim.
Desir�e, eu...
Sim?
Pareceria indelicado se eu te pedisse que...?
N�o consigo diz�-lo.
Diga, querido.
Voc� faria?
� claro.
Para que servem os velhos amigos?
A esmeralda Yussupov.
S�o Petersburgo em dezembro.
Pal�cios de inverno refletidos no Neva congelado.
E quando passei do seu lado patinando,
o Arquiduque come�ou a rir e gritou: "Pegue-a!"
Naquela �poca havia estilo e gra�a.
E para uma mulher
mais empreendedora que as outras,
as oportunidades eram infinitas.
Vov�!
Acha que esta noite ela vai sorrir?
Sorria, por favor, sorria.
- Espere. - Sim, senhor.
� quase como antes, n�o �?
Est� bom para mim.
Oh, quem pode ser?
N�o pode ser.
- Meu Deus, o drag�o? - Imposs�vel. Ele...
est� fazendo manobras militares a 30 milhas daqui.
Desir�e!
� ele!
Desir�e!
Tem que deix�-lo entrar. J� sabe que estou aqui.
A zeladora.
Desir�e!
Voc� tem... algo?
Ali.
Voc� viaja com seu robe?
Desir�e!
Desir�e!
- Ele � ciumento? - Terrivelmente.
Isto n�o deveria ser engra�ado.
- O que vou lhe dizer? - N�o se preocupe.
N�o � por nada que voc� � um atriz e eu sou um advogado.
Desir�e.
Carl-Magnus!
Que surpresa agrad�vel. Entre.
Vai ficar por muito tempo?
Tenho uma licen�a de 20 horas.
3 horas para chegar aqui, 9 horas com voc�,
5 horas com minha esposa e 3 horas para voltar.
20 horas.
Voc� se importa que eu tire meu uniforme...
e vista meu robe?
Bem... neste momento est� ocupado.
Estou vendo.
Conde Mittelheim, o Sr. Egerman.
Senhor.
Senhor.
Sinto que lhe devo uma explica��o para
aquilo que pode parecer uma situa��o ins�lita.
H� anos sou o advogado e amigo da m�e da Srta. Armfeldt.
Amanh� haver� o julgamento de uma pequena a��o judicial
e no �ltimo momento percebi que havia alguns documentos legais
que precisavam ser assinados pela filha.
Como fui informado que a companhia da Srta. Armfeldt
estava se apresentando na vizinhan�a,
obtive seu endere�o
apesar de ser muito tarde, e que ela j� havia se deitado...
Eu o deixei entrar, � claro.
Sim.
E depois?
Oh,
o robe!
Bem, veja...
Infelizmente, senhor,
estava indo ao banheiro que fica no quarto da Srta. Armfeldt,
estava tudo escuro e eu tropecei e ca� na banheira.
A Srta. Armfeldt, generosamente, me emprestou este robe
enquanto eu espero que minha roupa esteja seca.
No dormit�rio.
Neste caso, Srta. Armfeldt, sugiro que volte ao seu quarto
e verifique se a roupa deste cavalheiro j� est� seca.
� claro.
O senhor gosta de duelos, senhor?
Eu n�o sei. Nunca participei de um duelo.
Eu j� duelei sete vezes.
Pistola, espada,
sabre.
Fiquei ferido cinco vezes,
mas a sorte foi gentil comigo.
Estou impressionado.
- V� esta faca? - Sim.
O alvo ser� aquele quadro. A idosa, seu rosto.
Seu olho direito.
- Bravo. - Est� sendo insolente, senhor?
� claro, senhor.
N�o est� muito seca.
Meu Deus, n�o...
com certeza ainda n�o, n�o �?
Talvez poderia emprestar a este cavalheiro uma das minhas camisolas.
Obrigado, obrigado, mas eu...
acho que prefiro usar minhas pr�prias... roupas.
Infelizmente, senhor, n�o ter� tempo para isso!
A camisola.
Oh, n�o, tenho certeza que serei capaz de encontr�-la sozinho.
Seu robe, senhor.
Bem...
Boa noite, Srta. Armfeldt.
Obrigado por sua coopera��o.
Boa noite.
Oh, por favor, mande lembran�as � minha m�e.
A mam�e gosta tanto dele.
Bem, deve estar faminto. Vou te preparar algo...
N�o estou com fome.
� claro que est�. Volto em um minuto.
Boa noite, senhor.
Como estava a Srta. Desir�e Armfeldt?
Gozando de boa sa�de, eu espero.
Charlotte, minha querida, eu s� tenho 5 horas.
Cinco horas esta semana? Semana passada foram quatro.
Estou ganhando terreno.
Ela tinha uma visita.
Um advogado de camisola.
Muito interessante.
- O que voc� fez? - Eu o pus para fora.
- De camisola? - Na minha camisola.
Que tipo de advogado?
Criminalista? Mar�timo? Corporativo?
Testamenteiro?
A amiga da sua irm�, Anne Weber, n�o se casou
com um tal de Frederick Egerman?
Sim, casou-se.
Frederick Egerman.
O que vai fazer hoje?
- Depois das cinco horas? - N�o, agora.
Preciso dormir um pouco.
Entendo.
Neste caso, mudarei meus planos.
Bem, o que eu farei hoje?
J� sei. Nada.
Por que n�o vai visitar a amiga de escola da Martha?
Provavelmente n�o sabe o que seu marido estava fazendo.
Eu poderia inform�-la.
Pobre Carl-Magnus. Est� morrendo de ci�mes?
Um homem civilizado pode tolerar as infidelidades de sua esposa,
mas quando se trata da sua amante,
o homem vira um tigre.
Ao contr�rio de um bode no cio.
Bem, se eu voltar daqui a 2 horas, ainda restar�o 3 horas, n�o �?
Voc� � uma boa esposa, Charlotte.
A melhor.
Cada dia morro um pouco,
na sala de estar, na cama,
nas cortinas, na prata, nos bot�es, no p�o.
Cada dia uma picadinha
no cora��o e na cabe�a.
Cada movimento cada respira��o,
e voc� n�o sente quase nada,
� uma morte perfeita.
D� uma ordem � cadelinha
e ela vir� se arrastando at� ele.
Pela pouca compreens�o
que recebe em troca.
Veja como suplica para ter sua recompensa.
Seu amo est� se entediando?
O amor � algo desprez�vel.
Preste aten��o na rua.
Ela espera pacientemente durante dias por ele nos sal�es.
Com a lembran�a dos seus m�ritos ditos no ouvido dela.
S� para ouvi-lo dizer
que o caf� est� esfriando.
� algo repugnante.
Oh, j� chegamos.
Ah, bem...
Minha querida, como est� indo seu casamento?
Estou feliz, tenho todos os vestidos do mundo,
uma criada para cuidar de mim,
e esta casa encantadora e um marido que me mima.
Presumo que essa lista est�...
em ordem decrescente de import�ncia, n�o �?
Charlotte, voc� sempre disse coisas muito divertidas.
Ainda digo.
Eu durmo rindo, contemplando meu pr�prio futuro.
Bem, querida, sobre o seu marido...
como o descreveria... como homem?
Eu n�o entendo o que quer dizer.
Vou te dar um exemplo.
Como homem, meu esposo poderia ser considerado...
um piolho, um cr�pula, um egoman�aco vaidoso,
orgulhoso e ad�ltero que me obriga constantemente a fazer as coisas
mais degradantes e humilhantes, como...
Como?
Por que eu o suporto?
Por que permito
que me trate como se eu fosse um cabo intimidado do seu regimento?
Por qu�? Por qu�? Por qu�?
Eu te direi por qu�.
Eu o odeio. Eu o desprezo.
Eu o amo.
Aquela maldita mulher!
Que ela apodre�a em algum camarim infernal com um batom de fogo
e que cada cartaz anuncie Desir�e Armfeldt em, em, em...
"O pato selvagem".
Desir�e Armfeldt?
- Mas o que ela fez para voc�? - O que foi que ela n�o fez!
Ela escravizou o meu marido, escravizou o seu.
Frederick?
Ele esteve l� na noite passada, no dormit�rio dela,
de camisola.
Meu marido o p�s para fora. Ele � insanamente ciumento.
Ele me ordenou que eu viesse at� aqui e te contasse,
e eu estou te contando.
Oh, eu me tornei um monstro.
Charlotte, isso � verdade?
O Frederick estava l� de camisola?
Com a camisola do meu marido.
Eu sabia!
Limonada, madame?
Limonada, Charlotte?
Limonada? Eu me engasgaria.
Cada dia eu morro um pouco,
nos l�bios e nos olhos,
nos murm�rios, nas pausas, nos gestos, nos suspiros.
Cada dia uma picadinha,
nas olhadas e nas mentiras.
Cada movimento, cada respira��o,
e voc� n�o sente quase nada, � uma morte perfeita.
Ele sorri docemente, acaricia meus cabelos,
diz que sente minha falta.
Eu o mataria l� mesmo, mas antes eu morreria.
Ele fala suavemente sobre suas guerras,
seus cavalos e suas rameiras.
Eu acho que o amor � algo sujo.
Eu tamb�m.
Eu me ajoelho na frente dele
e ele me beija.
Ele sup�e que perderei a cabe�a,
e eu perco.
Os homens s�o est�pidos, os homens s�o vaidosos.
O amor � repugnante, o amor � insano.
Uma coisa humilhante.
Oh, � verdade.
Ah, bom.
Cada dia eu morro um pouco.
Cada dia eu morro um pouco,
na sala de visitas, na cama.
Nos l�bios e nos olhos,
nas cortinas, na prata, nos bot�es, no p�o.
Nos gestos, nos suspiros.
Cada dia uma picadinha.
Cada dia eu morro um pouco.
- No cora��o e na cabe�a. - Nos olhares e nas mentiras.
Cada movimento, cada respira��o.
E voc� n�o sente quase nada.
� uma morte perfeita.
�LTIMA APRESENTA��O
Sa�de! Pela interrup��o da pe�a.
Sa�de!
Vou mergulhar na cama e dormir durante duas semanas.
Com quem, querida?
Com quem quer que seja.
Estou adorando estas f�rias, mas o que est� acontecendo?
N�o pode nos enganar. Voc� est� tramando algo.
Talvez sim, talvez n�o.
- N�o seja desmancha-prazeres! - O que �, conte!
Simplesmente pensei que se eu n�o tentar que algo aconte�a agora,
talvez eu continue interpretando a Camille o resto da minha vida.
Perder um amante ou um marido ou dois na vida
pode ser embara�oso.
Mas perder os dentes � uma cat�strofe.
Lembre-se disso enquanto morde essa bolacha de gengibre.
Sim, vov�.
- M�e! - Querida!
Querida, voc� cresceu muito e est� mais bonita do que nunca.
Ol�, m�e.
A que devo a honra desta visita?
Eu s� queria v�-las.
� t�o surpreendente assim?
Sim.
Oh, vejo que est� com aquele humor corrosivo.
Se veio para levar Frederika de volta,
a resposta � n�o.
N�o me oponho � tua vida imoral, s� ao teu desleixo.
Uma vez que tenho uma mans�o espl�ndida, e v�rios criados,
� l�gico que minha neta desfrute dessas vantagens.
- N�o � assim, querida? - Eu n�o sei, vov�.
Sim, voc� sabe, querida.
Desir�e, voc� quer alguma coisa ou n�o teria vindo.
Est� bem, m�e.
A turn� foi suspensa por um tempo e eu pensei
se voc� convidaria umas pessoas na semana que vem.
Se s�o atores, ter�o que dormir nos est�bulos.
N�o s�o atores, m�e.
S� um advogado e sua fam�lia. Frederick Egerman.
Na minha �poca
�amos aos escrit�rios dos advogados ocasionalmente,
mas nunca nos consult�vamos com suas fam�lias.
Bem, ent�o ser� uma mudan�a agrad�vel para voc�, n�o �?
- Suspeito, mas tudo bem. - Aqui est� o endere�o.
N�o precisa dizer que terei que ser cort�s com teus convidados.
Entretanto, n�o lhes servirei meu melhor champanhe.
Estou guardando isso para o meu funeral.
Olhe. Um convite entregue pessoalmente.
Um papel muito elegante.
Que emocionante. Justo quando eu precisava.
Que letra mais chique, mal d� para l�-la.
De quem ser�? N�o, eu vou l�-lo.
"Agradeceria sua presen�a na mans�o..."
"Etc.. etc... Madame Leonore Arm...
"Oh, n�o!
Um fim de semana no campo.
- Estamos convidados. - Que compl� horr�vel!
Um fim de semana no campo.
- Estou empolgada. - N�o, voc� n�o est�!
Um fim de semana no campo, imagine s�.
� uma deprava��o total.
Um fim de semana no campo.
- � ultrajante. - Est� impresso.
- Essa mulher, essa Armfeldt. - A atriz.
Usar� seus encantos, mas est� louca se acha que passaremos
um fim de semana no campo.
Que empolgante.
E eu n�o tenho nada para vestir.
Um fim de semana no campo.
�... a �ltima coisa que eu faria.
Oh, m�e, obrigada!
Querida, o que acharia de termos nossa pr�pria casa
e que eu s� representasse quando eu quisesse,
e um homem que seria um pai espetacular?
Oh, entendo.
O advogado, o Sr. Egerman.
Querida, voc� � fora de s�rie.
Adivinhe, um convite.
Adivinhe que nome come�a com "A" de Armfeldt.
Ter� algo a ver com a decr�pita Desir�e?
Assim do nada. N�o � estranho?
Bem, � verdade, precisamos de uma mudan�a de ares.
Um fim de semana no campo
seria encantador e teremos ar fresco.
Um fim de semana com aquela mulher?
- No campo. - Em carne e osso.
Um fim de semana cheirando jasmins.
Muitas coisas acontecer�o.
Um fim de semana no campo
N�o!
Querida, simplesmente diremos que n�o.
M�e, sei que n�o � da minha conta,
mas e aquele drag�o com bigode que voc� me escreveu?
Oh, ele.
Quando eu o vi fiquei pasma.
� um soldadinho de chumbo. Bra�os, pernas, c�rebro.
Um verdadeiro soldadinho de chumbo.
- Um fim de semana. - Muito divertido.
- Um fim de semana. - Mas inapropriado.
Um fim de semana. � claro que o recusaremos.
- Ao contr�rio, deve aceit�-lo. - Oh, n�o!
- Um fim de semana no campo. - Estou com medo.
N�o, voc� n�o entende.
Um fim de semana ser� agrad�vel, se voc� planej�-lo.
Ponha flores no cabelo, n�o se maquie muito.
Ela ficar� em frangalhos no s�bado � noite.
V� ao fim de semana no campo.
- Vou aceitar. - Eu sabia que aceitaria.
Um fim de semana no campo.
Sim!
- Aceitarei por educa��o. - �timo.
O conde Mittelheim � muito ciumento, n�o �?
Acha que ele vir� montado num corcel negro
brandindo uma espada?
Meu Deus, n�o havia pensado nisso!
N�o, n�o vai acontecer nada. � o anivers�rio de sua esposa.
E para ele � algo sagrado. Estaremos a salvo.
Ela se ocupar� disso.
E a�?
Tenho uma intrigante not�cia de um evento social.
- Da fam�lia Armfeldt. - Bem, e qual �?
S� um fim de semana.
Vai gostar de saber quem foi convidada
e desta vez com o seu marido.
- N�o est� se referindo a...? - Sabia que ia adivinhar.
- Ela n�o se atreveria. - Viu-se for�ada a faz�-lo.
- N�o pode ser. - Pois fez.
- Egerman. - Correto.
Um fim de semana no campo. Dever�amos ir.
Gostaria que tiv�ssemos sido convidados.
Um fim de semana no campo. Paz e tranquilidade.
Iremos disfar�ados.
Um fim de semana no campo.
N�o fomos convidados. V�o achar estranho.
Um fim de semana no campo. Estou encantado.
Oh, meu Deus!
Ser� agrad�vel ca�ar, se fizer bom tempo.
Feliz anivers�rio. Ser� seu presente.
Voc� sai muito pouco. Um fim de semana no campo.
- � uma pervers�o! - Levarei meu arco e as flechas.
Um fim de semana no campo.
- Sairemos �s 14:30h. - N�o podemos.
- N�s devemos. - N�s n�o devemos.
Vou pegar o carro e preparar tudo.
Voc� vai e eu ficarei na cidade.
- N�s vamos. - N�s vamos?
- N�s vamos? - Os vestidos brancos.
- N�o. - Charlotte.
- Estou pensando. - Charlotte.
- N�o precisa gritar. - Charlotte!
Est� bem, ent�o eu vou. N�s vamos passar um dia lindo.
Um fim de semana no campo.
Faremos muitos passeios.
Um fim de semana no campo com as salsaparrilhas.
E os mosquitos!
Um fim de semana no campo vendo os tetrazes.
Um fim de semana entretendo os outros convidados.
Vou receb�-los no sal�o e impression�-los com uma festa.
E depois irei ao meu quarto,
no qual ficarei pelo menos at� segunda-feira.
Um fim de semana no campo acordando cedo.
Um fim de semana no campo...
Um fim de semana no campo,
as abelhas nas suas colmeias.
As pessoas mundanas superficiais,
suas vidas fr�volas.
Os companheiros do diabo,
n�o sabem a quem servem.
Poder� ser instrutivo observar.
H�, por�m, um pequeno problema.
Um problema?
Sim, o advogado Egerman � casado.
Isso poderia ser considerado um problema.
N�o se preocupe, querida.
Vou superar todas as barreiras e eventualidades.
N�o � por nada que eu fui criada por sua av�.
Estamos indo. Vou dar partida no motor.
Estamos indo. Que dia mais lindo.
Olharemos a relva sem dizer nada.
Temos champanhe e caviar.
T�o inativos que teremos que descansar.
Com grandes gargalhadas sofremos em sil�ncio
o calor da cidade, que � um motivo para
um fim de semana no campo,
um refresco para o corpo e a mente.
Um fim de semana no campo,
deixando a press�o para tr�s.
Um fim de semana no campo,
deslizando-nos na grama.
Um fim de semana no campo,
disfar�ando os bocejos.
Com os fais�es no campo,
e os camponeses ceifando o trigo.
Faremos planos e jogaremos croqu�,
Um fim de semana no campo.
com sombrinhas para n�o nos queimarmos.
Um fim de semana no campo...
mais entediados do que na cidade,
Tem certeza que quer ir?
N�o fomos convidados.
Pessoas mundanas.
Charlotte,
n�s iremos.
- Feliz anivers�rio para mim. - O que disse?
Eu disse...
Oh, n�o importa.
Se esse maldito advogado acha que vai se safar...
� verdade, querido.
Vigie-o, Charlotte. Vigie-os como...
Um falc�o? Eu sei. Voc� � um tigre e eu sou um falc�o.
Somos um jardim zool�gico.
Anne, teu len�o.
- Obrigada. - Voc� deve t�-lo deixado cair.
- Sr. Erich, seu livro. - Obrigado.
Deve t�-lo deixado cair.
Permita-me.
Permitir o qu�?
Espere. Espere.
Bom dia, senhor.
N�o sabia que tinha sido convidado.
A Srta. Armfeldt tamb�m n�o sabe.
Oh, a� est�o voc�s.
Desastre, querida.
Conde Mittelheim.
Minha esposa e eu est�vamos na vizinhan�a visitando o primo dela.
Infelizmente descobrimos que a mans�o
estava em quarentena por causa da...
Peste.
Como devo voltar �s manobras militares ao amanhecer,
gostar�amos de passar a noite aqui.
Ah, � mesmo?
Por que n�o? Minha m�e ficar� honrada.
Surpresa, mas honrada.
Condessa Mittelheim, eu suponho.
Sup�e bem.
Sr. Egerman, gentileza sua ter vindo.
Minha m�e ficar� muito feliz.
Sua m�e � que foi muito gentil em convidar-nos.
Tenho que falar com voc� o mais r�pido poss�vel.
Permita-me apresentar minha esposa.
- Como vai? - Como vai?
E esta � minha filha.
Meu filho, Erich.
Suponho que estejam exaustos depois dessa longa viagem.
Os criados os acompanhar�o aos seus quartos.
Ent�o voc� veio tamb�m.
Temos que conversar o mais r�pido poss�vel.
Por que vim � casa dessa mulher horr�vel?
- Quero ir para casa. - N�o tenha medo,
a Srta. Armfeldt encontrou uma rival � altura.
Ela encontrou? Quem?
Eu. Quando eu contei ao meu marido sobre o teu convite ele virou um tigre.
Palavras dele, � claro.
E depois, ca�do do c�u, um plano veio � minha mente.
Quer ouvir meu plano, querida?
Eu deveria fazer amor com teu marido.
Voc� tamb�m?
Confiante nos meus encantos, me jogarei nos bra�os do teu marido.
Ele sucumbir�.
Por que n�o?
Carl-Magnus, atormentado pelos ci�mes,
implorar� o meu perd�o e jurar� fidelidade eterna.
E quanto � Srta. Desir�e Armfeldt,
ela ter� que oferecer sua d�bia mercadoria em outro lugar.
Pelo menos esse � o plano.
Que divertido.
� extremamente divertido.
Pobre Frederick. E ele merece isso.
N�o sei se apreciei teu coment�rio, querida.
Por favor, continue. Foi lindo.
Lindo? Foi cacof�nico.
Divaga��es desenfreadas de um desastrado.
Oh, se voc� soubesse. Oh, Senhorita...
- Senhorita? - Armfeldt, n�o sou leg�tima.
Entendo.
Oh, Srta. Armfeldt, toda a minha vida foi um fracasso.
Se soubesse que p�ssima opini�o eu tenho de mim.
Se soubesse quantas vezes quis ser o espermatozoide
que nunca chegou ao �tero!
Viu, eu fiz de novo!
Eu acompanhei minha m�e nas suas turn�s.
Sou muito compreensiva.
Voc� �?
Nesse caso, posso te fazer uma confiss�o?
� claro.
Detesto incomod�-la, mas dentro de mim
h� algo que est� me deixando louco!
Srta. Armfeldt, nos �ltimos 11 meses,
apesar de estar me preparando para o sacerd�cio, eu...
O qu�?
Estou loucamente apaixonado pela minha madrasta!
Sabe quantos pecados mortais isso envolve?
Eu nunca devia ter ido ao teatro.
E nunca devia ter vindo ao campo.
Se eu nunca tivesse vindo ao campo,
talvez tudo continuasse a ser como sempre.
Senhor.
Senhor.
Se ela n�o estivesse com boa apar�ncia,
se ela estivesse gorda,
se ela estivesse cansada,
e n�o parasse de falar.
Se ela estivesse muito feia,
teria sido maravilhoso.
Se...
Se...
Se estivesse nervosa ou muito fria,
se estivesse amargurada ou realmente velha,
se estivesse coberta com brilho ou com mofo,
teria sido maravilhoso.
Mas a mulher � perfeita,
para meu grande constrangimento.
Bem, n�o exatamente perfeita,
lamento diz�-lo.
Se a mulher fosse perfeita,
ela iria embora.
E isso seria maravilhoso.
Senhor.
Senhor.
Se ela parecesse perturbada,
ou admitisse o pior.
Se ela parecesse perturbada ou praguejasse.
Se n�o fosse t�o absolutamente perfeita,
teria sido maravilhoso.
Se...
Se...
Se tentasse ser esperta,
se come�asse a vacilar,
se chorasse ou fizesse o que mulher faz quando est� em apuros.
Se soubesse que nunca mais poderia confiar nela,
teria sido maravilhoso.
Mas a mulher � perfeita,
nenhuma a��o pode negar isso.
O tipo de perfei��o que eu n�o suporto.
Se a mulher fosse perfeita ela teria simplesmente mentido,
o que teria sido maravilhoso.
- Se ela fosse cruel. - Se ela estivesse ofendida.
- Ou deliciosa demais. - Ou mesmo um pouco confusa.
- Se estivesse de mau humor. - Ou encolerizada.
- Ou pesada. - Ou ferida.
Teria sido maravilhoso.
Se...
Se...
- Se fosse obstinada. - Se tivesse fugido.
- Ou um pouco menos h�bil. - Ou ofendida, insistente.
- Na cama. - Se ela fosse medrosa.
- Ou casada. - Ou chorona.
Ou se estivesse morta.
Teria sido maravilhoso.
Mas a mulher � perfeita,
e as perspectivas s�o sinistras.
Uma perfei��o ador�vel que nada pode ofusc�-la.
Sim, a mulher � perfeita e eu estou aqui com ele.
Senhor.
Senhor.
Teria sido maravilhoso.
Com licen�a, minha m�e quer falar com o senhor no sal�o verde.
Menina...
Quer falar algo?
E ent�o?
Oh, meu Deus! Oh, n�o!
Oh, n�o! Nada. Com licen�a.
Frederick!
Queria ficar a s�s comigo. Aqui estou.
- Sim, mas a menina disse... - Foi um estratagema da Frederika.
Frederika?
Sua filha se chama Frederika?
Sim.
Oh, Frederick, que vaidoso.
Como se voc� fosse o �nico Frederick do mundo.
O que queria me dizer?
Que a minha esposa n�o sabe nada
sobre a noite do epis�dio da camisola.
- Ent�o devemos ser discretos. - Mas � claro!
Nunca daria �quela encantadora crian�a
um s� momento de ansiedade.
Ent�o reparou no seu encanto.
Como algu�m poderia n�o not�-lo?
Quando um sal�o fica em sil�ncio
eu me lembro de um caso de paternidade em Stockerau.
O juiz ia dar a senten�a ao meu cliente quando a m�e da crian�a...
- O que est� fazendo a�? - Por que n�o?
ele n�o � o pai da minha filha, Merit�ssimo, o senhor � o pai.
Imaginem a express�o do seu rosto.
Ent�o ganhou o caso, Sr. Egerman. Que espl�ndido.
Sim. Eu fiquei com muito orgulho de mim.
E tenho certeza que tamb�m ficou, Sra. Egerman.
O que disse?
Oh, sim, eu suponho, apesar de n�o me lembrar muito sobre esse caso.
Procuro n�o enfadar minha esposa com minhas vit�rias d�bias na Corte.
O senhor � muito sensato.
Eu me lembro quando tinha a idade dela,
qualquer coisa que n�o fosse um vestido novo,
um baile, ou alguma fofoca, me entediava muit�ssimo.
Cara Srta. Armfeldt,
deleite-nos com mais lembran�as fascinantes de sua remota juventude.
Charlotte, foi um coment�rio idiota.
A juventude de um homem talvez seja t�o remota
como um dinossauro, condessa,
mas para uma mulher linda
a juventude a acompanha indefinidamente.
Oh, Sr. Egerman, isso foi t�o encantador.
Onde encontrou um marido t�o ador�vel?
- Fico feliz que voc� o aprove. - Alugue-o para mim, querida.
De gra�a, ele � todo seu,
a n�o ser que nossa anfitri� tenha outros planos para ele.
Na verdade,
eu ia seduzi-lo para que aplainasse o campo de croqu� amanh�.
Mas com certeza achar� a condessa menos exaustiva.
Eu n�o teria tanta certeza disso.
Meu caro, Sr. Egerman,
amanh� empurraremos o cilindro compressor juntos.
Isso depender� da largura do cilindro.
Como estou me divertindo.
Car�ssima Srta. Armfeldt,
deixe-me beber � sua sa�de por ter tornado esta noite poss�vel.
Para a �nica e inigual�vel Desir�e Armfeldt,
amada por centenas, a despeito de suas obriga��es matrimoniais.
Charlotte! V� ao seu quarto imediatamente!
Pare! Parem todos voc�s!
Erich!
Est� me censurando?
Eu acho que no seu lugar eu me sentaria.
Sente-se, Erich. Levante-se, Erich.
Devo passar o resto da minha vida te obedecendo como um cachorro?
Tenho que respeitar o homem que permite que falem essas sujeiras
na frente da mais pura, da mais inocente, da mais maravilhosa...?
Eu desprezo todos voc�s!
Oh, Erich, voc� est� muito engra�ado.
Quebre esta tamb�m.
Quebre todas as ta�as da casa, se quiser.
E voc�, voc� � uma artista.
Interpreta obras de Schnitzler e Goethe.
Nenhuma das verdades desses grandes artistas n�o a afetam?
E voc� sabe melhor do que os outros.
Por que voc� apenas n�o ri de todos n�s, querido?
N�o seria uma solu��o?
Como posso rir se a vida me d� vontade de vomitar?
Coitadinho, algu�m deveria ir atr�s dele.
Anne!
Volte.
Senhoras e senhores,
esta noite lhes servirei um vinho de sobremesa muito especial.
Da adega do rei da B�lgica,
que durante um per�odo de intensa intimidade,
me deu de presente todas as garrafas que tinha.
O segredo de sua qualidade inigual�vel � desconhecido,
mas dizem que ele tem o poder de abrir os olhos,
at� daquele entre n�s que est� totalmente cego.
- � vida! - � vida!
E � �nica outra realidade... a morte!
Sr. Egerman, Sr. Egerman!
Com licen�a, meteu os p�s pelas m�os de novo?
Srta. Armfeldt, desta vez me superei,
agindo como um louco, quebrando ta�as caras
e me humilhando na frente de todos.
Oh, Sr. Egerman.
Todos riram de mim. Anne. Todos.
"Ria de tudo", foi o que tua m�e disse.
Se o �nico que posso fazer � rir do cinismo,
da frivolidade, da falta de cora��o,
ent�o prefiro estar morto.
- Com licen�a. - Oh, Sr. Egerman!
Sra. Egerman, estou t�o preocupada!
Coitadinha, do que se trata?
O jovem Sr. Egerman est� t�o contrariado.
Querida Frederika, voc� acabou de testemunhar
a �ltima crise dele com rela��o ao seu caso de amor com Deus.
N�o com Deus, Sra. Egerman, com a senhora.
- Comigo? - Sim, ele mesmo me disse.
Pobre rapaz, que rid�culo da parte dele,
mas que encantador.
Sra. Egerman, ele foi ao lago.
Para contemplar a �gua e sonhar comigo. Que tocante!
� um rapaz t�o bonito e seus c�lios s�o t�o compridos.
Erich?
Erich!
Erich!
Erich?
Erich!
Erich, que extraordin�rio!
Voc� est� t�o engra�ado.
Oh, n�o!
Voc� n�o fez isso!
Por mim?
Meu pobre e querido Erich.
Meu pobre rapaz.
Esses olhos que me fitam como um S�o Bernardo.
Eu te amo.
Eu disse.
Que tola eu fui de n�o ter percebido.
N�o era o Frederick.
N�o o pobre Frederick.
N�o era mesmo o Frederick.
Minha barra ficou presa na mesa de jantar e se descosturou,
enquanto discutiam.
Posso?
� claro, entre.
Sente-se.
Bem...
voltamos ao ponto onde est�vamos, quando fomos t�o
rudemente interrompidos na semana passada, n�o �?
N�o exatamente.
Se est� lembrada, demos um passo � frente.
� verdade.
Espero que nenhum de n�s esteja pensando numa repeti��o.
Pelo amor de Deus!
Com tua esposa nesta casa,
meu amante, a esposa dele, e minha filha?
E minha grande amiga, tua m�e.
N�o � horr�vel o meu drag�o?
Quando voc� me disse que ele tinha o c�rebro de uma ervilha...
acho que voc� foi generosa.
- Do que estamos rindo? - O qu�?
Teu filho tinha raz�o no jantar.
N�o podemos enganar aquele rapaz.
A �nica e inigual�vel Desir�e Armfeldt,
fazendo turn�s ao redor do pa�s,
tendo rela��es com o marido de outra.
E o grande advogado Egerman,
renovando sua irrenov�vel juventude.
Bravo.
�, provavelmente, uma descri��o acurada de n�s dois.
Devo te dizer por que eu os convidei a virem aqui?
Quando nos encontramos de novo e fizemos amor,
eu pensei...
que talvez fosse a �ltima chance de retroceder,
de achar uma exist�ncia coerente,
depois de tantos anos de confus�o.
� claro que tem tua esposa.
Mas eu achei que talvez,
s� talvez,
voc� tamb�m precisasse ser resgatado.
Para renovar minha irrenov�vel juventude?
Foi s� uma ideia.
Quando meus olhos est�o abertos e eu olho para voc�,
vejo uma mulher que eu amei por muito tempo
e que me fascinou de novo quando fui � sua casa.
E que me d� um prazer t�o aut�ntico que, apesar de mim,
vim aqui pelo puro prazer de estar com ela de novo.
A mulher que poderia me resgatar?
� claro.
Mas quando meus olhos n�o est�o abertos,
que � quase sempre,
o �nico que vejo � uma jovem com um vestido rosa,
brincando com um can�rio,
correndo pelo jardim,
esperando na porta de entrada para me abra�ar,
como se eu estivesse voltando de Tombuctu e n�o da Corte.
N�o � magn�fico?
Somos um casal?
Finalmente pus os p�s no ch�o
e voc� pairando no ar.
Que entrem os palha�os.
N�o � uma b�n��o?
Voc� n�o aprova?
Um fica correndo por a�.
E o outro n�o pode se mexer.
Onde est�o os palha�os?
Que entrem os palha�os.
Logo quando eu tinha parado
de abrir portas,
sabendo que a que eu queria
era a sua.
Fazendo minha apari��o novamente
com meu talento habitual,
segura do meu papel.
N�o h� ningu�m l�.
Voc� n�o gosta de uma farsa?
Minha culpa, eu suponho.
Achava que voc� queria o mesmo que eu.
Lamento, meu querido.
Mas onde est�o os palha�os?
R�pido, que entrem os palha�os.
N�o se preocupe, eles est�o aqui.
Desir�e, eu sinto muito. Eu n�o devia ter vindo.
N�o adianta resgatar algu�m que n�o quer ser salvo.
Tente me perdoar.
N�o � magn�fico?
N�o � estranho?
Perder o jeito a esta altura da minha
carreira?
E onde est�o os palha�os?
Devia haver palha�os.
Bem, talvez...
no ano que vem.
Menina, me diga, para que tudo isso?
Isso � tudo, n�o �?
Eu sei que � desalentador desejar muito alguma coisa,
como o sorriso da noite.
� infantil, porque o que a gente quer raramente acontece.
Surpreendente.
Quando eu tinha tua idade, queria tudo.
Havia um conde croata.
Foi o meu primeiro amante.
Ainda posso ver seu rosto. Que olhos!
Tinha um bigode de bandido.
- Ele me deu um anel de madeira. - Um anel de madeira?
Parece que estava na sua fam�lia h� s�culos.
Mas eu pensei: "Um anel de madeira?"
Que tipo de homem te d� um anel de madeira?
Ent�o eu o mandei embora ali mesmo.
E agora? Quem sabe?
Ele poderia ter sido o amor da minha vida.
Desculpe, condessa. Eu estava procurando a minha esposa.
Oh, Sr. Egerman,
como posso encar�-lo depois do show que dei no jantar?
Jogando-me em seus bra�os.
Pelo contr�rio, levantou muito minha moral.
Atualmente � raro que uma mulher t�o linda me d� essa honra.
Eu n�o fiz isso.
Como assim?
Eu n�o lhe dei essa honra.
Foi simplesmente uma jogada.
Uma jogada que falhou.
Na minha loucura pensei que podia deixar meu marido com ci�mes.
Ah, entendo.
Receio que o relacionamento de um casal nunca � f�cil, n�o �?
Sr. Egerman, para uma mulher � imposs�vel.
Tamb�m n�o � t�o poss�vel assim para os homens.
Homens!
Olhe para o senhor.
Um homem que tem uma idade na qual uma mulher se
sentiria feliz se um b�bado lhe beliscasse o traseiro.
E o senhor pegou a mais jovem, a mais bonita.
Oh, Sr. Egerman, detesto que seja feliz.
Detesto qualquer um que seja feliz.
Erich!
- Erich, querido! - Estou indo.
Depressa!
Santo Agostinho que v� para o diabo!
Que os p�ssaros fa�am o ninho no meu cabelo.
Seu tolo. Depressa!
A carruagem deve estar pronta no est�bulo.
Que estranho que a vida da gente tenha que acabar
sentado no banco de um jardim.
Meu Deus!
E pensar que eu disse que detestava que fosse feliz.
� como se eu carregasse uma maldi��o terr�vel.
Oh, Sr. Egerman.
- Carl-Magnus! - Senhor,
me acompanhe at� o pavilh�o!
Acho que a situa��o fala por si s�.
Carl-Magnus, n�o seja t�o impulsivo, querido.
O advogado e eu jogaremos � roleta russa.
Roleta russa?
E ent�o, senhor?
Est� pronto, senhor?
Como �? Pronto para qu�?
Roleta russa.
Oh, roleta russa.
� com uma pistola, n�o �? E voc� gira o...
Bem, por que n�o?
Com licen�a, madame.
Volte � casa e que ningu�m te incomode.
Sim, querido.
Bem, senhor.
Oh, sim, exato.
Desculpe, mas o que temos que fazer?
O rev�lver est� carregado com apenas uma bala.
O senhor fecha os olhos, gira o tambor,
e depois apoia a arma na t�mpora e aperta o gatilho.
Cada um de n�s repete esse procedimento duas vezes.
A probabilidade � de... 2 em 10.
� o equivalente a 1 em 5, eu suponho.
Vou girar a arma e a quem o cano apontar disparar� primeiro.
O senhor tamb�m.
Oh, me desculpe.
A todas as esposas fi�is.
Desculpe, mas eu n�o brindei.
O que est� acontecendo? Onde est� seu marido?
Fico alegre que seja a senhorita a me perguntar isso.
Meu marido e o Sr. Egerman est�o duelando no pavilh�o.
- Duelando? - Duelando.
E a senhora permitiu isso? Est� louca?
� profiss�o de advogado.
Sempre a respeitei muito.
Oh, meu Deus!
Sua assassina!
Seu lun�tico!
Voc� o matou!
Minha cara Srta. Armfeldt,
a bala apenas passou de rasp�o em sua orelha.
Espero que na Corte ele seja mais profissional.
Frederick!
Frederick!
Frederick!
Prepare as minhas coisas. Vou pegar o carro.
Sim, querido. Carl-Magnus!
Voc� virou um tigre...
por mim.
Extraordin�rio, n�o �?
Apoiar o cano na t�mpora e mesmo assim falhar.
Afinal, uma m�o tr�mula pode ter suas vantagens.
Est� doendo?
D�i...
espiritualmente.
Voc� soube do outro acontecimento desta noite?
N�o.
Erich e Anne fugiram juntos.
Oh, Frederick.
Bem,
acho que devo levantar-me e enfrentar o mundo. N�o acha?
N�o � magn�fico?
Somos um casal?
Finalmente voc� p�s os p�s no ch�o.
E voc� pairando no ar.
Est� com os joelhos tremendo?
N�o, acho que n�o.
Na verdade, � quase imposs�vel, mas...
Aquilo foi uma farsa?
Minha culpa, eu suponho.
Eu, como um carrossel.
Eu, como o Rei Lear.
Que inveross�mil � a vida!
Perder seu filho, sua esposa,
e praticamente sua vida em uma hora.
E ainda assim, sentir-se aliviado.
Aliviado e ainda por cima... mais jovem.
Oh, Desir�e.
- Pobre Frederick. - N�o.
Vamos banir a palavra "pobre" do nosso vocabul�rio,
e a substituiremos por... "coerente".
Coerente?
N�o se lembra da tua declara��o no quarto?
Uma exist�ncia coerente depois de tantos anos de confus�o.
Voc�, eu, e, � claro, Frederika.
Abram caminho para os palha�os.
Um aplauso para os palha�os.
Eles finalmente est�o
aqui.
O tempo que o amor demora para chegar
acorda o cora��o que se partiu.
E pensem nos novos amigos que ele faz.
E o amor � uma li��o sobre como corrigir seus erros.
PEQUENA M�SICA NOTURNA
Tradu��o: DANIEL SLON danielslon@uol.com.br
Cria��o e Sincroniza��o: LUCIA MORETZSOHN
luciamoretz@gmail.com
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