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OS AMORES DE PANDORA
De acordo com a lenda, o Holand�s Errante
foi condenado a vagar os mares eternamente,
a menos que ele pudesse encontrar
uma mulher que o amasse o suficiente
para morrer por ele...
O porto de Esperan�a na costa mediterr�nea espanhola,
h� vinte anos...
O que acha que temos aqui, uma baleia?
Uma manada de baleias.
Pere, vem me ajudar que pescamos uma baleia.
Ah, rapazes, se eu tivesse a idade de voc�s.
J� sabemos que em vez de pesca pescou uma garrafa de vinho.
Ontem bebi tanto que fechei minha mulher no quintal...
e levei a chave.
Geoffrey! Tio Geoffrey!
Sim, Janet.
O que foi, Janet?
Os pescadores. V� na praia, por favor.
Pegue o carro, Janet.
Stephen, querido, n�o olhe! Por favor, n�o olhe!
Mas o dedo implac�vel continua e continua escrevendo.
V� com ele, Janet.
Stephen!
Stephen!
O amor se mede segundo o que o outro esteja disposto a abandonar por ele.
Quem disse isso?
Tentar compreender a alma humana...
� como querer esvaziar o mar com uma x�cara.
Quando conheci Heinrich Van der Fick pensei que n�o era como os outros.
Ainda agora minha raz�o se nega a crer o que atribuem a ele.
Se pudesse encaixar os acontecimentos incidente ap�s incidente.
Passei minha vida juntando as pe�as de velhos mist�rios.
Quem sabe consegui que um novo mist�rio me revele seu segredo.
Tudo come�ou numa noite de primavera.
Caiu nas minhas m�os um estranho manuscrito holand�s do s�culo XVll.
Pretendia ser a confiss�o do holand�s errante.
Estava tendo certas dificuldades com sua tradu��o.
N�o era uma noite para estar trabalhando.
A lua cheia brilhava sobre o mar er�tica e perturbadora.
Ouvia uma cigana cantar na taberna das Duas Tartarugas.
Sabia que l� poderia encontrar Pandora com Regis de Marais...
que estava se embriagando como um desesperado...
por Pandora, conforme as pessoas diziam.
E Stephen Cameron que s� vivia por Pandora e por seu carro de corridas...
com o que esperava conseguir o recorde mundial de velocidade.
Eu era escravo dela como os outros.
- Ol�, Geoffrey. - Ol�.
Geoffrey. Ol�.
Ficou sabendo Geoffrey? Mas sem meu nome.
- Isso deve a mim, Reggie. - E n�o � s� isso que lhe devo.
Estamos celebrando que essa noite faz um ano que conheci Pandora.
Ter� escrito uns versos para a ocasi�o.
"Nasce morta uma ef�mera mariposa"
Estava cantando no clube Hannover de Londres...
e esta noite prometeu me dedicar a mesma can��o.
Na verdade � que sem microfone n�o sou muito boa, certo Jennie?
E com ele?
Venha ao piano, Reggie.
Nunca soube cantar. Tudo foi quest�o de publicidade.
Desculpa.
Cantou como se realmente sentisse.
� verdade.
- Mas, n�o por mim? - N�o, Reggie, n�o por voc�.
- Por Stephen, talvez? - N�o, n�o � Stephen.
- Ent�o quem �? - N�o sei.
Ainda n�o conheceu ele?
Quer se casar comigo?
- N�o, Reggie. - J� sabia.
Por favor, n�o beba mais esta noite.
Nem esta noite nem nenhuma outra.
A morte tem dez mil portas para que os homens saiam...
e se move de tal forma que se pode sair nos dois sentidos.
N�o ouvi o que estavam murmurando.
Voltou a desmaiar.
Est� morto.
Pandora!
Voltarei andando ao hotel.
N�o quer que lhe acompanhe?
N�o. Eu estou bem.
Um m�dico n�o servir� de nada, mas irei busc�- lo.
Pandora!
N�o acha que Reggie fez isso porque soube de n�s?
O que fez, n�o tem nada a ver com a gente.
Stephen!
Estou indo.
Pandora fez uma breve apari��o nos interrogat�rios...
Mas passaram v�rios dias antes de v�-la novamente.
Pensamos que precisava estar s� por algum tempo.
- Entre e asse uns malvaviscos. - Malvaviscos! Onde conseguiu?
Tenho um admirador em Indian�polis.
- Espera que assim fique melanc�lica. - S�rio?
Um pouco. Quando jovem fui exploradora.
Ass�vamos malvaviscos nas fogueiras do acampamento...
e cant�vamos "Juanita" em coro.
Como pode esquecer Reggie t�o facilmente?
N�o tem sentimentos?
Sim, tenho. Me sinto aliviada.
- Por que n�o desencorajou ele? - Era sua vida.
- Amava voc�. - O que � o amor?
Devia saber.
Mas n�o sei..
Todos sabiam tua hist�ria com Reggie quando sa�ram de Londres.
- Vai negar? - N�o nego nada.
Senti por Reggie. Gostava dele.
Quantas vezes acha que Pandora evitou que esse homem suicidasse?
N�o compreendo por que n�o se defende.
N�o tenho porque. Que fa�am os outros.
Reggy sempre estava pensando no suic�dio.
Consegu� evitar noite ap�s noite,
mas no fim voc� satura de suas amea�as de autodestrui��o.
Me enchia. Agora tudo acabou.
Afinal a vida n�o � importante.
Se � a vida de outro.
Quer me fazer acreditar que lhe importa que Reggy esteja vivo ou morto?
N�o � sincera.
Reggy n�o lhe preocupa. Ele se preocupa com voc�.
O que quer dizer?
Teme que agora que Reggy n�o est�, me interesse por Stephen.
Que bom se fosse assim.
E pode ser que seja.
Me leva para dar uma volta no seu carr�o, Stephen?
- Agora? - Sim, agora.
� o que mais me agrada.
- Me leva para casa, tio Geoffrey. - Vamos, Geoffrey.
Leva tua sobrinha para casa e me deixa com meus malvaviscos.
- Me agrada, querida. - Obrigada, Geoffrey.
Mas a vida � importante. Algum dia descobrir�.
Este carro n�o foi feito para duas pessoas.
N�o me importa, Angus.
Pense, senhorita. Nunca escalei montanhas.
N�o se preocupe, Angus. Subir� as colinas sem dificuldade.
V� em segunda ou acabar� no mar.
Lembre que s� tem freio de m�o.
Mulheres!
Foi maravilhoso, Stephen.
Tem um iate estranho na baia.
N�o precisa muito para sonhar.
Agora imaginar� que seu destino est� a bordo desse iate...
junto com Nelson ou o holand�s errante.
Quem � o holand�s errante, Stephen?
N�o tenho ideia. Geoffrey pode lhe explicar.
Muitas jovens pensam que...
um homem capaz de pilotar um carro de corridas...
tem que ser muito rom�ntico.
Janet, por exemplo.
Por que n�o casa com Janet?
� uma mo�a maravilhosa e lhe adora.
Porque adoro voc�.
Por que n�o quer se casar comigo?
Por que n�o p�e os p�s na terra, Pandora?
A felicidade est� nas coisas mais simples.
Amo voc�, Pandora.
De noite n�o durmo pensando como lhe demonstrar o quanto amo voc�.
O que faria por mim, Stephen? Que coisa incr�vel faria por mim?
Faria qualquer coisa.
Qualquer coisa.
Quanto tempo levou fabricando este carro, Stephen?
Dois anos. Por que?
Tem algo no mundo mais valioso para voc� que esse carro?
S� uma coisa.
Se lhe pedisse, Stephen, empurraria ele pelo penhasco?
Sim.
Ent�o empurre, Stephen.
Quando quer se casar comigo, Stephen?
Amanh�.
- Que dia � hoje, Stephen? - Nove de mar�o.
O nono dia do terceiro m�s.
� um dia maravilhoso. Lembrarei sempre.
Prometo me casar com voc� no terceiro dia do nono m�s...
se ainda me amar. Ou me odeia agora?
Eu quero voc�.
Temos um longo caminho at� em casa, querido.
Estava olhando pelo telesc�pio e n�o acreditei no que via meus olhos.
- Ficaram loucos? - Enlouquecidos.
Stephen destruiu seu carro por mim...
e eu aceitei casar com ele em 3 de setembro.
Estamos noivos. Pode me beijar, Geoffrey.
Os ricos teriam mais sentido comum se tivessem que trabalhar para viver.
Eu ganho a vida trabalhando. E Stephen tamb�m.
E de modo mais duro que os outros.
N�o queria um carro de corridas como rival.
E n�o lhe reprovo.
O amor se mede segundo o que algu�m est� disposto a abandonar por ele.
Maravilhoso.
Stephen abandonou seu carro por mim. � a medida de seu amor.
Quem disse isso, Geoffrey? Parece um prov�rbio.
Um grego disse. N�o lembro quem.
Quem sabe essas pedras saibam.
O que fez essa noite pode ser uma loucura...
mas tamb�m � bonito Stephen, parece uma lenda.
Uma lenda �pica.
Falando de lendas, Geoffrey. Quem � o holand�s errante?
� curioso que me pergunte.
Acaba de cair nas minhas m�os uma vers�o escura da hist�ria.
Stephen acha que pode estar nesse barco da baia.
Acusei ela de desejar que estivesse, mas agora retiro.
Segundo a lenda o holand�s errante pode reaparecer a cada sete anos...
em busca da mulher que possa redimi-lo.
- Redimi-lo do que? - De sua maldi��o.
Est� condenado a vagar pelos mares at� o dia do ju�zo...
como capit�o de um barco fantasma, a menos que...
encontre uma mulher que o ame ao ponto de morrer por ele.
Essa � uma prova de amor ainda mais forte que a sua, Stephen.
Mas eu tenho voc� e ele ainda continua procurando.
Stephen, vamos fazer uma visita na motora.
Bem-vindo a Esperan�a e todas essas formalidades.
N�o, j� cumpri por esta noite. E voc� tamb�m.
N�o subiremos sem ser convidados. Seria chocante.
Se � t�o rico como para ter esse barco...
deve ser gordo e calvo.
N�o gostarei nada.
Se se interessam pelas lendas, tenho algo para lhes mostrar.
Para come�ar foi a lenda que me trouxe a Esperan�a.
Um tesouro legend�rio no fundo do mar.
Encontrei todas estas est�tuas numa profundidade grande.
Este porto foi habitado em todas as �pocas.
Foi uma encruzilhada mundial durante mais de vinte s�culos.
Gregos, romanos, �rabes e at� os misteriosos celtas...
que subiram estas pedras at� o penhasco...
por onde caiu seu carro, Stephen.
Isto � fen�cio.
� milhares de anos mais antiga que as est�tuas.
Os antigos percorriam enormes dist�ncias.
Sempre se soube que os fen�cios estiveram nesta costa.
Mas este � um estranho achado pela inscri��o.
O texto dessa pedra corresponde a uma passagem da B�blia...
do livro de reis...
at� agora considerado como uma simples lenda.
Nunca despreze as lendas, Pandora.
Onde ela est�?
Pandora!
Foi essa hist�ria do holand�s errante e as velhas lendas.
Agora ir� nadando at� o iate.
Leve-me as docas, por favor.
�s vezes Pandora me deixa t�o nervoso que...
Ol�!
Tem algu�m?
Ol�!
Ol�!
Marinheiro no iate!
Onde est� voc�?
N�o tem ningu�m aqui?
Ol�!
O vesti�rio est� � direita. L� encontrar� toalhas.
Tem um robe na cabine.
N�o me ouviu chamando?
Onde est� sua tripula��o?
Acho que voc� deu folga para eles.
Ao menos podia ter deixado um marinheiro de guarda.
Acho que a lei manda assim.
Sou Pandora Reynolds.
Como vai?
E qual � o seu nome?
Me chamo Heinrich Van der Fick.
Ent�o � holand�s. � uma curiosa coincid�ncia.
Poderia ser eu quem posou para esse quadro...
falando de coincid�ncias.
O que � coincid�ncia?
Eu n�o acredito nas coincid�ncias.
N�o vai dizer que n�o � uma coincid�ncia fant�stica que...
tenha pintado uma mulher como eu sem nunca ter me visto?
� ainda mais incr�vel que pintei ela como Pandora...
a amada dos deuses...
dos quais recebeu uma caixa preciosa que proibiram abrir.
Sou Pandora Reynolds de Indian�polis e ponto.
N�o me interessa a mitologia. S� quero saber...
como chegou meu rosto e meu nome at� esse quadro.
Me permitir� que fa�a uns retoques agora que vejo o modelo vivo.
Ainda n�o me disse como sabe meu nome.
Conhecer o rosto sem saber o nome.
Detestaria ser a v�tima de uma coincid�ncia t�o imperfeita.
N�o me impressiona.
Estou certa que esse retrato tem uma explica��o natural.
N�o duvido.
� muito simples.
Me viu cantar em algum clube de Nova York ou de Londres.
� poss�vel.
Ou pode ter recortado minha foto de alguma revista.
- Se mexo por aqui, claro que... - Olhe para c�, por favor.
Obrigado.
Isso explicaria o nome e a semelhan�a.
Sim, n�o �?
Tudo foi planejado com a inten��o de me intrigar.
- Intriguei voc�? - Sim.
Ent�o tomei muitas precau��es inutilmente.
J� pode olhar, se quiser.
Fiz o que pude.
N�o parece nada comigo. Mas � assim que gostaria de ser.
Por que n�o sou assim?
Talvez porque n�o esteja satisfeita ou porque n�o encontrou o que quer.
Ou vai ver que nem sabe o que quer.
Vai ver n�o est� contente...
e acalma isso com f�ria e destrui��o.
F�ria e destrui��o. � a sua opini�o?
Talvez encontre aqui algo que possa destruir.
Sem d�vida encontrar�.
Este retrato meu.
Gostaria que destru�sse o retrato?
Se isso ajuda a acalmar sua alma...
Quanto demorou para pint�-lo?
O que isso importa?
Algum motivo me impede para que tire meu rosto desse quadro se quiser?
Nenhum.
Ent�o, tiro?
Claro.
N�o est� zangado?
Me enfureci uma vez com uma garota.
Mas j� n�o posso mais voltar a me zangar.
Estou t�o envergonhada.
� uma sensa��o nova. N�o sei se gosto.
N�o danificou meu quadro. Ajudou.
Depois lhe explicarei por que.
Nenhuma obra de arte est� pronta at� que n�o intervenha o fator sorte.
O inesperado e o surpreendente s�o indispens�veis.
Pandora foi a primeira mulher...
a Eva da lenda grega...
cuja a curiosidade custou nosso para�so terrestre.
Me enganei ao pint�-la como uma mulher particular.
Por mais bonita que seja.
Pandora deveria ser a mulher em abstrato...
esposa e m�e.
O gen�rico e ovo original...
do que imaginamos que descende a ra�a humana.
Por pura casualidade coloquei o elemento indispens�vel...
que precisava meu quadro.
E agora realmente � Pandora.
O ovo original. E chama isso melhorar?
Pode ser Pandora, mas n�o sou eu.
Ao lhe conhecer melhor talvez seja capaz...
de restituir sua semelhan�a sem perder o simbolismo.
N�o que seja um bom artista...
mas tenha a vantagem de contar com um extraordin�rio modelo...
que pode inspirar-me parar pintar...
com o rosto e as formas de Pandora Reynolds...
a deusa secreta que todos os homens desejam.
Pandora!
Pandora!
- Pandora, tudo bem? - Claro que estou bem.
Este � Heinrich Van der Fick.
Meus amigos Stephen Cameron e Geoffrey Fielding.
- Como vai? - Como vai?
Geoffrey � arque�logo...
e Stephen tem o record mundial de velocidade em carros.
la tentar superar essa noite, mas abandonou essa ideia.
Espero que lembre que abandonei por uma ideia melhor.
Quer dizer que estamos noivos.
Em parte tinha raz�o, Stephen. O senhor Van der Fick � holand�s...
mas voc� n�o � holand�s errante, certo, senhor Van der Fick?
Em todo caso durante algum tempo n�o ir� a nenhuma parte.
Aceitou jantar com a gente amanh� � noite, certo?
Ser� um prazer.
No Hotel Isabella, �s 8 em ponto. Boa noite.
Boa noite.
Pandora parecia lamentar o sacrif�cio que tinha exigido de Stephen...
e concordou que resgatasse seu carro de corridas.
Tiraram do fundo do mar arranhado, mas intacto.
Stephen come�ou a trabalhar dia e noite...
para deix�-lo em ponto e tentar bater seu recorde.
- Almo�o! - Ah!
O que � que temos?
Presunto.
�timo!
Hurray!
Obrigado.
Boa mulher.
O novo amigo de Pandora, Heinrich Van der Fick...
se instalou num bangal� nos jardins do Hotel Isabella...
e era aceito sem distin��o no c�rculo que rodeava Pandora.
Era um homem muito culto...
com um conhecimento de antiguidade superior ao meu.
Sempre lhe consultava sobre uma moeda rara ou uma inscri��o duvidosa.
Algo na sua forma de escutar Pandora me chamou a aten��o.
Parecia estar em transe...
sentir-se em outro mundo.
Notei um �xtase quase desesperado em sua alegria.
Me senti comovido, sem saber muito bem por que.
Me invadiu um sentimento de fatalidade.
N�o fiz nenhuma pergunta sobre minha moeda.
Agora sei que estavam profundamente apaixonados.
Mas acho que nunca falaram sobre isso.
Minha apreens�o desaparecia gradualmente...
at� que aconteceu um incidente t�o surpreendente...
que n�o acreditaria se n�o tivesse presenciado com meus pr�prios olhos.
Alegro-me que tenha vindo. Tenho certas dificuldades...
com um manuscrito que encontrei nos arquivos locais.
- Acho que pode me ajudar. - Um manuscrito em espanhol?
Em holand�s, do s�culo XVll, eu diria.
Um manuscrito holand�s em Esperan�a?
N�o � de estranhar.
Os Pa�ses Baixos pertenceram a Espanha.
- Claro. - � surpreendente por outro motivo.
Parece ser a hist�ria do holand�s errante escrita pelo pr�prio homem amaldi�oado.
Leio fluentemente o holand�s...
mas �s vezes n�o entendo certas express�es arcaicas...
e j� que � sua l�ngua m�e poderia esclarecer alguns dados.
Evidentemente � uma hist�ria fict�cia, una obra liter�ria da �poca.
A lenda desse barco remonta aos eg�pcios.
Claro se for muito inc�modo, espero n�o o ter ofendido.
Mas como voc� � holand�s e se interessou pelo meu trabalho.
Est� me olhando de uma forma muito estranha.
Desculpe. Perdoe-me, n�o � nada.
Claro que me interessam as suas antiguidades...
e terei muito prazer em traduzir o manuscrito.
O idioma n�o me apresentar� nenhuma dificuldade, absolutamente.
O Holand�s Errante.
Sua pr�pria hist�ria contada com a esperan�a de que...
a gra�a divina e a piedosa absolvi��o...
predominem sobre f�ria blasf�mia e anulem seu castigo.
Era seu rosto.
Era seu rosto, ainda que estivesse branca e fria como o m�rmore.
J� n�o me sorriria de maneira t�o doce nunca mais...
mas continuava sendo seu rosto.
O rosto que tinha visto na minha mente...
que levei no meu cora��o durante dias, semanas, meses...
da minha longa viagem.
Agora tinha meu pr�prio barco e estava orgulhoso de duas coisas:
De ser o capit�o e de minha bela e jovem mulher...
cujo o rosto era t�o inocente como uma flor...
t�o transparente como o de uma crian�a.
Teria jurado por essa inoc�ncia como pela Santa M�e de Deus.
Era o rosto que tinha diante de mim quando me afastei de minha tripula��o.
Estava desejando ver esse rosto...
durante as intermin�veis horas da ronda noturna.
Era para ela que eu voltava no fim...
as m�os e os bolsos repletos de pingentes...
colares e pulseiras para seus delicados bra�os.
Lembran�as de terras estranhas para alegr�-la e enfeit�-la.
Como adorava v�-la feliz com meus presentes.
Mas descobri sua infidelidade.
Era incr�vel, mas n�o havia sombra de d�vidas.
Minha mente era como um vespeiro.
As ferroadas eram meus pensamentos desprovidos de remorsos.
Vis�es de sua a��o, imagens enlouquecidas, vergonhosas, bestiais.
N�o havia cura para isso, exceto o punhal.
De um s� golpe sangrento matei aquilo que mais adorava no mundo.
Capit�o! Abra a porta!
Mas, continuava vendo seu rosto.
Capit�o! Abra a porta!
Pura, como podia ser t�o pura?
N�o era um homem sen�o um vazio andante...
o que levaram aos tribunais e pris�es.
E quando pronunciaram minha senten�a...
e o magistrado me perguntou se tinha algo a declarar...
encontrei as palavras mais v�s...
t�o extravagantes, t�o loucas...
palavras t�o premonit�rias.
O mal est� feito e n�o pode ser desfeito.
Voltaria a cometer este crime dez mil vezes...
antes de que me enforquem amanh�.
N�o me mandem um padre para que me reconforte.
N�o suplico piedade, nem reclamo justi�a.
Que o castigo eterno seja meu consolo.
Que os loucos mortais vivam num mundo perverso!
A f� � uma mentira e e o pr�prio Deus um caos!
Sil�ncio!
A f� � uma mentira e o c�u � uma decep��o.
Sil�ncio, eu disse! Sil�ncio!
Um homem pode ter uma vida imortal...
e vagar durante v�rias gera��es pelos oceanos do mundo.
Deixem ele navegar at� o dia do ju�zo final...
e n�o conseguir� encontrar uma mulher boa e fiel.
Se fica demonstrado que � uma insensatez...
que a divindade que renego fa�a o que desejar...
com minha alma imortal.
Tremo por essa alma que amanh� abandonar� o seu corpo.
O Deus contra o qual blasfemou julgar� tuas palavras...
tal como eu julguei o seu delito.
Tirou uma vida a perda da sua � a puni��o.
Amanh� morrer�.
Mas a parte de voc� que n�o morre, a parte imortal...
o que ser� dela?
Aquele que conhece nossos pensamentos, n�o ouvir� nossas palavras?
Tenho piedade de voc�, n�o pela minha maldi��o,...
mas pelo castigo de Deus.
Acordei durante � noite de um sonho muito pesado.
Um sonho que parecia demasiado irreal para acreditar.
A porta da minha cela estava aberta.
Os meus guardas estavam dormindo, como se estivessem enfeiti�ados.
Pensei que algum amigo meu compadecendo-se do meu infort�nio...
tinha drogado eles...
para que pudesse fugir da morte que o sol da manh� me traria.
Meu barco continuava ancorado na baia.
Minha leal tripula��o me recebeu.
Um vento suave nos levou silenciosamente...
para a seguran�a do alto mar.
Nos �ltimos instantes antes do amanhecer, quando dormia em minha cabine...
tive um sonho.
Uma voz me falou com palavras que penetraram como chamas nos meus ouvidos torturados...
e se apoderavam de meu ardente c�rebro.
Sabia sem d�vida alguma, que o que a voz dizia era verdade...
uma terr�vel verdade.
Minha mulher n�o havia sido infiel.
O que achei ser uma desonra n�o foi mais que uma gentileza.
O calor, a amizade e a alegria...
com a que sua alma gentil tratava a todas as criaturas.
Tinha matado a doce inoc�ncia e com ela todas minhas esperan�as na terra.
Eu queria morrer...
enfiar o punhal no meu cora��o como tinha enfiado no seu.
Mas uma for�a superior segurou meu bra�o.
A voz voltou a falar.
Na minha loucura havia ditado minha pr�pria senten�a no tribunal.
Teria uma vida imortal.
E durante muitas gera��es dos homens vagaria por todos os mares do mundo.
Poderia estar vagando at� o dia do ju�zo final.
Eu desejaria morrer, mas a morte me seria negada.
Para me redimir, ap�s sete anos e nunca mais...
depois de sete anos, poderia viver como um homem mortal entre mortais.
Durante meio ano poderia procurar uma mulher fiel e sincera...
que me devolveria o perd�o divino...
e o dom da paz.
Mas ela deve estar disposta a morrer por mim.
Estas palavras soaram como um eco em minha mente.
Disposta a morrer, a resposta chegou.
Para que eu soubesse o significado do amor.
A voz se afastou.
Este foi meu sonho.
Foi um sonho?
Podia ouvir o ru�do do mar e o ranger do madeirame do barco.
Era um sonho. Um sonho horr�vel...
e nada mais.
Mas se um homem tivesse um sonho...
e durante o sonho pegasse um punhal para matar-se...
e o punhal cai de suas m�os...
e, se ao acordar, v� esse punhal onde caiu...
Ent�o que houve?
Mas isto era absurdo.
O punhal pode ter ca�do de outra forma.
N�o num sonho.
Ou, talvez como os son�mbulos, tivesse me levantado...
e pegando o punhal deixei ele cair.
Minha imagina��o estava dominada pelos acontecimentos dos �ltimos dias.
Descansaria e o sonho estaria esquecido pela manh�...
como as estrelas, com o sol nascente.
Mas ao amanhecer a lembran�a do meu sonho...
era terrivelmente intensa.
N�o se via ningu�m.
Nenhum vigia no tombadilho...
nem timoneiro ao leme.
Ningu�m no alto do velame.
A��i, gente!
Nenhum marinheiro para responder minhas chamadas.
Era estranho. Tinha visto eles h� algumas horas.
Teriam abandonado o barco enquanto eu dormia?
Mas o barco solit�rio estava em seguran�a.
Tinha visto minha tripula��o na noite anterior.
Era minha tripula��o ou eram dem�nios enviados para me iludir?
Isto n�o era um sonho.
Estava s�, inexplicavelmente s�.
Estava s�?
O leme girava...
e o barco seguia sua rota.
Olhei para cima numa muda voz de comando...
de que lev�vamos muitas velas.
Umas m�os invis�veis obedeceram minhas ordens.
Eu era o capit�o de uma tripula��o fantasma.
Ent�o era verdadeira a maldi��o de que havia sonhado.
As palavras da minha vis�o soaram na minha mente como um sino f�nebre.
Navegaria sozinho at� o ju�zo final desejando a morte que me fora negada.
Sobre o mastro maior vi uma gaivota branca voando em c�rculos...
com as asas manchadas de sangue.
Naveguei sete anos e sete vezes sete anos...
o meu barco sem �ncora e meu cora��o sem esperan�a.
As montanhas de gelo que guardam o polo sul...
se afastam para me dar passagem com um ru�do de trov�o.
Naveguei entre desfiladeiros de gelo cujas paredes se elevam mais e mais...
at� se perderem na bruma.
Inc�lume navego entre campos de gelo onde penhascos gelados se despenham...
amontoando-se e flutuando como almas no fogo do inferno.
Para l� do gelo navego nas calmas tropicais...
onde os mastros do barco...
convertem-se em �rvores enraizadas no fundo do mar.
O sol alimenta os vermes como se as �guas os trouxessem...
e as larvas tudo submergem dispersando-se num horrendo movimento.
Desejo a morte, mas me foi negada.
Certa vez numa tormenta caiu sobre mim...
um peda�o de viga incendiado por um raio.
Naquele instante mortal, no momento de morrer, invadiu-me uma grande alegria...
por fim, ia libertar-me da carga da minha maldi��o...
mas a vida voltou ao meu atormentado c�rebro.
Depois de sete anos e depois de outros sete anos...
ancorava numa baia...
vendo as vidas dos que envelhecem e morrem...
dos que sofrem e morrem, dos que morrem.
Dia e noite, rezo. No alto, de estrela em estrela minhas f�teis preces s� alcan�am...
a longinqua e gelada escurid�o...
embaixo, na inf�mia realidade...
onde as negras �guas cobrem o abismo do mar.
Em v�o, minhas palavras procuram o ouvido de Deus.
Voc� que tem o dom da vida, o dom do amor...
tenha piedade do castigo do holand�s errante.
E pe�a a Deus que lhe conceda a maior de suas gra�as...
a gra�a de uma morte misericordiosa.
Perdoa nossos pecados...
assim como n�s perdoamos a nosso devedores...
e livre-nos do mal...
porque seu � o reino, o poder e a gl�ria.
N�o tem sentido. N�o entendo.
O que significa?
Por que fui escolhido para lhe lembrar essas palavras?
Ol�! Geoffrey!
N�o � s� o manuscrito o que voltou as minhas m�os.
Geoffrey! Est� a�?
Pandora, sobe! O que quer?
- Heinrich est� com voc�? - Sim, estamos lhe esperando.
Se refere a Pandora? Acha que � ela?
N�o sei. Ela tem que estar disposta a morrer.
Que fazem esses dois fil�sofos, de p�, a� na escurid�o?
A conversa de voc�s � t�o brilhante que n�o precisa de luz?
Vai me levar para jantar, Heinrich.
Stephen enviou um aviso dizendo que se reunir� mais tarde com a gente.
Deixarei que Geoffrey me conte hist�rias estranhas enquanto se troca.
Quando vai casar com Stephen?
3 de setembro � a data que combinamos.
Ent�o perderei o casamento. Vou zarpar em 3 de setembro.
N�o pode adiar?
Receio que n�o.
O que aconteceu entre voc� e Heinrich? Parece contrariado, est� diferente.
N�o aconteceu nada. � sua imagina��o f�rtil.
Que manuscrito antigo interessante! Em que idioma est� escrito?
Holand�s. Em holand�s do s�culo XVll.
- Pode ler? - N�o fluentemente.
Ningu�m pode ler holand�s...
a menos que seja holand�s, como Heinrich.
Por que esperar, Pandora? Por que n�o se casa j� com Stephen?
� em setembro. S� falta um m�s.
Al�m disso, Stephen continua muito ocupado com seu carro.
Podem acontecer muitas coisas aqui at� 3 de setembro.
Toda Esperan�a rejubilava de alegria.
Seu her�i tinha voltado: Juan Montalvo.
O toureiro mais famoso da Espanha, nascido em Esperan�a...
e cuja m�e cigana ainda vivia l�.
Se comentava que ia tourear na arena local.
Vicente d� algo as crian�as.
Agora lembro que fazem alguns anos haviam falado de Montalvo...
e uma garota americana.
Juanito!
Senhorita!
O senhor Heinrich Van der Fick. Juan Montalvo.
Senhor.
- Acho que conhecia G. Fielding. - Bem-vindo a casa, senhor.
Ent�o, n�o me esqueceu?
Cada ano quando vou a Valencia, a Sevilha, a S�o Sebasti�o, a Granada...
n�o � para matar touros, sen�o para lembrar.
Um ano acompanhei Montalvo em toda sua turn�...
mas n�o me lembre, ou voltaria a me apaixonar por voc�.
E isso n�o ficaria bem porque vou me casar.
N�o � comigo, senhor. Com outro mais sortudo.
Esta noite n�o est� aqui. Est� com seu carro de corridas.
Se chama Stephen Cameron. Claro que j� ouviu falar dele.
Quer tentar bater o recorde de velocidade antes que nos casemos.
- Apresentarei a voc�, se quiser. - N�o, n�o quero.
� um homem valente, igual a voc�.
Para que veio Montalvo a Esperan�a?
Ele veio visitar sua m�e.
Esperan�a est� muito orgulhosa de ser o ber�o do melhor toureiro espanhol...
depois de Belmonte.
Depois de Belmonte?
Cronologicamente, claro.
Minha m�e � cigana, senhor. Uma grande mulher.
N�o quer ir para Madrid, onde poderia viver como um rainha.
Odeia as touradas.
Portanto, venho v�-la.
� assim que deve ser. Ela � a m�e de Montalvo.
Quer conhecer a minha m�e, senhorita?
Acha que mere�o essa honra?
N�o estou certo.
Vicente!
Quero que v� na arena e me solte um touro.
- Agora? - Agora, imediatamente!
- Voc� est� louco, mestre? - N�o responda.
- Arranje como puder. - Mas, como?
N�o est�o l� os touros para a tourada de amanh�?
Ent�o compra o maioral. Anda! Vai.
N�o sei, senhorita, se merece que lhe apresente a minha m�e...
porque j� esqueceu o que � um homem valente...
mas Montalvo vai lhe mostrar.
A m�e de Montalvo tinha abandonado sua fam�lia cigana...
para se casar com o pai de Juan.
N�o aprovava a profiss�o de seu filho...
e tinha maus press�gios sobre o seu destino.
N�o gostou do que viu nas cartas referente a seu filho...
e dos seus amigos estrangeiros.
Mas n�o quis revelar o que viu nelas.
O que diz essa carta? O que l� nela?
Responde m�e, pe�o-lhe!
Que maus press�gios v� nelas?
Sim, j� suponho. Eu j� sei.
Muita obsess�o pelo que morreu...
desprezo pela profiss�o de seu filho.
Queria que Montalvo voltasse imediatamente a Madrid...
para n�o ter nada a ver com esses estrangeiros...
que estavam destinados a trazer-lhe uma terr�vel desgra�a.
Mas o amor de Juan por Pandora voltou a renascer.
Ele n�o ia ser dissuadido.
Me responde agora?
N�o � necess�rio ser famoso. Basta ser homem.
A profiss�o de toureiro � t�o digna como a que teve meu pai.
Sim, mas voc� n�o � como ele.
Basta! Basta de compara��es.
N�o serei como ele, mas converteu em um Deus...
a quem n�o era mais que um pobre homem.
N�o fale assim. N�o renegue sua ra�a.
Amaldi�oo!
Um profundo e inconsciente ci�me de seu falecido pai...
tinha criado uma permanente e incur�vel perturba��o...
no car�ter violento de Juan Montalvo.
Perdoe-me, m�e.
Como n�o hei de lhe perdoar, meu filho?
Montalvo tinha a ideia, para n�o dizer a esperan�a...
de que o grande dia de Stephen pudesse ser tamb�m o �ltimo.
Sempre havia a possibilidade de uma falha mec�nica...
ou de um acidente fatal.
Se algo acontecesse com Stephen...
mais do que uma vida mudaria.
Os juizes do Autom�vel Clube Internacional...
tinham autorizado a corrida e aprovado a organiza��o.
Ele deveria percorrer 5 milhas...
antes de cruzar a linha cronometrada...
correspondente a uma milha.
Tinha direito a 30 minutos para reparos antes de voltar a correr.
A m�dia do tempo das duas voltas...
determinariam o recorde oficial.
Para bater o recorde...
teria que fazer uma media de mais de 214 milhas/hora.
Cruzou a linha cronometrada a 250 milhas/hora...
e ganhava velocidade a cada segundo.
Ele passou por um pouco de areia solta.
Ele estava bastante acima do seu recorde...
mas na pr�xima volta teria o vento contra ele.
N�o havia tempo para reparar o vazamento do radiador.
N�o deveria tentar a segunda volta.
Quando passou diante do controle eletr�nico que media a velocidade...
quase n�o pudemos v�-lo entre a fuma�a e as chamas.
Tinha conseguido uma m�dia de 247 milhas/hora...
um novo recorde mundial.
Esse triunfo merecia uma celebra��o.
Que tomou a forma de uma festa nos jardins do bangal� de Stephen...
no Hotel Isabella.
Eu n�o podia escapar �...
sensa��o de excita��o e pressentimento.
� voc�, Janet!
Mas o que faz?
Vai me ouvir, queira ou n�o!
Por que n�o se esquece de Stephen? N�o o ama.
Nunca o amou. Nunca foi mais que um divertimento para voc�.
N�o h� um s� sentimento sincero em voc�.
S� te interessam as sensa��es, n�o os sentimentos.
Por que voc� n�o para? Quando vai deixar ele em paz?
Na verdade, ele n�o te ama. � s� uma quest�o de vaidade.
� um tolo doce, cego e confiado.
Voc� n�o � a mulher que precisa e um dia, ele descobrir�.
- J� chega, Janet! - � um tolo, tolo cego.
Demasiado tolo, Demasiado honesto.
N�o entende? Com ela ser� um infeliz.
N�o � mulher para voc�. N�o � sincera.
Ela n�o � fiel. Ela vai decepcionar!
Mas, que bicho mordeu ela?
Por favor, seja am�vel. Vai com ela, Stephen.
Tomou muito champanhe.
� uma mulher maravilhosa, Pandora...
absolutamente... maravilhosa. Oh! Desculpe.
Como o her�i da festa,...
como � habitual, dific�lmente foi lembrado, ...
todos deixaram os seus lugares e correram para a praia.
O que v� ali? O passado ou o futuro?
Ou um lugar que n�o figura nos mapas?
Esta noite me interessa o presente.
O aqui e o agora.
Noutra �poca, o mar de f� estava muito cheio.
Nesse mundo que parece estender-se diante de n�s...
como um para�so sonhado...
na verdade, n�o tem alegria nem amor...
nem luz nem certeza, nem paz...
nem al�vio para os sofrimentos.
Mas aqui estamos n�s, imersos na escurid�o...
assustados diante de alarmes confusos de lutas e duelos...
onde ex�rcitos ignorantes combatem na escurid�o.
Conhe�o esse poema.
- � um poema ingl�s. - Sim.
� curioso que um holand�s saiba de mem�ria uma poesia inglesa...
mas j� faz tempo que deixei de me surpreender.
� um poema sobre o mar e eu sei muito sobre o mar.
Gosta do mar?
Se eu gosto do mar?
Se soubesse quanto desejei que chegasse este momento.
Mas te via t�o distante, t�o longe de mim.
Como se entre n�s existisse um oceano.
Mas tem algo que aflora...
uma esp�cie de sentimento m�stico que tenho por voc�
me d� a sensa��o de que te amei sempre.
N�o s� nesta vida...
mas em outras das quais n�o me lembro.
� como se tudo isso tivesse acontecido antes de te conhecer.
N�o aconteceu comigo, mas com outra pessoa.
Em certo sentido � verdade.
Mudei muito desde que te conheci.
N�o sou t�o cruel e odiosa como antes...
prejudicando as pessoas porque era infeliz.
Agora sei de onde procede a destrui��o.
� uma falta de amor.
� simples assim.
Venha sentar comigo.
�s vezes me olha de uma forma estranha...
como me interrogando com os olhos.
Se me pergunta sobre meu amor, j� sabe a resposta.
Para mim n�o existe ningu�m, nem nunca existir�.
Est� t�o calado.
N�o � f�cil expressar com palavras as grandes emo��es...
embora eu acho que posso expressar.
Contive durante tanto tempo minhas emo��es que falo ou explodo.
Este momento � como uma liberta��o para mim.
Geoffrey disse uma vez que a forma de medir o amor �...
saber se algu�m est� disposto a renunciar.
Foi quando Stephen empurrou seu carro por mim.
Um gesto maravilhoso.
Stephen n�o percebeu, mas quando resgatou seu carro...
tive a sensa��o de ter me libertado dele.
E voc�, o que abandonaria?
J� me fiz essa pergunta.
Tua vida, por exemplo? Daria tua vida?
Sim, eu daria.
Morreria por voc� sem sombra de d�vida.
Sei que parecer� extravagante...
mas pensei e falo s�rio.
Daria minha vida por voc�. Essa � a medida de meu amor.
E voc�, o que abandonaria?
Minha salva��o.
Isso � muito mais que a vida, mas diz de uma forma t�o diferente.
De repente, levantou uma barreira entre n�s.
Se afastou de mim de alguma maneira.
Acho que n�o me entendeu bem.
E sei o que fiz mal...
respondendo a tua surpreendente confiss�o.
Nossa amizade foi muito bonita...
mas n�o me lembro de ter te animado a transform�-la em algo mais profundo.
Agora a transformou em algo imposs�vel.
Fico muito incomodado.
Parece esquecer que vai se casar com Stephen Cameron.
O que te faz pensar que eu seria capaz de tra�-lo?
Est� fazendo jogo.
Mas sou imune a essa doen�a.
Disse que j� n�o era destrutiva...
mas me convida para destruirmos ele juntos.
Me parece uma ideia detest�vel e te desprezo por ter sugerido.
Em 3 de setembro estar� casada.
Tamb�m � a data de minha partida. Prefiro n�o voltar a ver-te.
Voc� poderia...
Pandora me confessou seus sentimentos.
Percebi o enorme sacrif�cio do holand�s.
Mas fiquei contente.
Queria que Pandora se casasse com Stephen.
Abra a porta, Maria.
Se importa em atender, Stephen?
Al�?
Ok, tudo bem.
� da recep��o. Juan Montalvo anuncia sua chegada.
Montalvo?
- O que quer? - N�o tenho nem ideia.
N�o � frequente nele anunciar sua chegada.
N�o confio nesse acrobata.
Serve-me uma bebida, Stephen?
Ah! Entre? Pandora vir� em poucos minutos.
Quer tomar uma bebida enquanto espera?
Perfeito.
Se incomoda, livre-se dele.
A senhorita sabe que estou aqui?
N�o demorar�.
Est� provando seu vestido de noiva.
Nos casamos dentro de uma semana.
Voc� acha?
N�o tenho a menor d�vida.
H� d�vida.
O que quer dizer exatamente?
Uma semana.
Quem sabe o que pode acontecer numa semana?
Voc� � um homem com muito tato.
Mudemos de assunto.
Estamos desejando te ver tourear. Ser� dentro de uns dias, n�o?
Assombrarei o p�blico.
Voc� acha?
Juanito!
Gostaria de falar com voc� em particular.
Talvez o senhor tenha a bondade.
Deve ser algo muito importante.
Ah.
Te verei no jantar.
At� logo, querido.
Uma garrafa � uma arma muito poderosa...
se bater num cr�nio muito duro.
Senhor!
Vai se surpreender, senhorita. Ser� algo extraordin�rio.
Em Madrid ser� um acontecimento, um grande acontecimento. Ser�, entende?
Muitas mulheres espanholas ter�o uma grande decep��o.
Por que ter�o uma decep��o?
Logo estar� com elas, n�o?
Mas n�o voltarei s�.
Eu tenho a honra, senhorita...
de pedir a sua m�o.
Minha m�o?
Ser� a senhora Montalvo. Voltar� a Madrid com Juan Montalvo.
Nos casaremos na catedral. Estar�o presentes o rei e a rainha.
� uma honra pouco frequente.
Me concede sua m�o?
Mas acaba de ver Stephen Cameron.
N�o sabe que me caso com ele na pr�xima semana?
Deseja faz�-lo?
N�o pensar� que fa�o contra minha vontade?
N�o acredito.
Sei que � um grande homem, Juanito.
Acredite, eu entendo o que faz. Obrigada.
� algo que me comove, mas n�o � poss�vel
tal como tua prof�tica m�e viu nas cartas.
Voc� n�o mudou, Juanito.
Continua pensando que pode resolver tudo na base de viol�ncia.
Por que � t�o tolo?
Esqueceu o que aconteceu em Granada...
quando jogou uma faca num homem por ci�mes?
Deixa teu valor para os touros.
Al�m do mais, existem leis contra os assassinatos.
E acho que rasgar as revistas dos outros tamb�m � um delito.
N�o h� leis para Juan Montalvo.
Creio que a pol�cia n�o estar� de acordo com voc�.
Al�m disso, n�o te serviria de nada matar Stephen Cameron.
H� outro homem?
Sinto dentro de mim que h� outro homem.
N�o sei do que est� falando.
Vestido de noiva. Para que um vestido de noiva?
Quando chegar a hora n�o ir� para a igreja.
N�o se casar� com esse Stephen.
A viol�ncia n�o � necess�ria.
A viol�ncia � necess�ria, mas n�o contra ele.
Queria estar certo, e agora estou certo.
Do que est� certo?
Do outro.
Ele � para voc�.
Mas, desculpe, voc� n�o � para ele.
Adeus, senhorita.
Montalvo!
Era a v�spera da tourada de Montalvo.
Van der Fick voltava depois da meia noite...
ao seu quarto no Hotel Isabella.
O golpe de miseric�rdia, Montalvo.
A estocada final.
Perd�o, porque pequei, perd�o.
Se pudesse morrer.
Se devo continuar vivendo, te pe�o miseric�rdia, Senhor.
� t�o jovem e t�o bela.
N�o permita que ela morra para salvar-me.
Esta era a senten�a, eu sei.
Perdoe-a. N�o deixe que me ame...
que me ame com esse amor t�o profundo como um abismo no mar.
Se pudesse morrer.
Que sonho estranho teve para se apresentar aqui a estas horas?
Um sonho terr�vel.
Algu�m devia te matar por minha culpa e o matava.
Eu n�o entendo. Cheguei muito tarde...
e descobri que algu�m esteve aqui.
Mataram meu cachorro.
O terrier que voc� me deu.
Mas, por que fizeram isso?
Os assassinos t�m raz�es muito estranhas, �s vezes...
ou n�o t�m.
Eu ia chamar a recep��o para que o levassem.
Estou muito aborrecido. Amava muito esse cachorro.
Tudo isto � muito estranho.
N�o foi o cachorro. N�o pode ser o cachorro.
O cachorro est� morto. Eu mesmo vi.
Boa sorte.
Boa sorte, Montalvo.
Montalvo estava nervoso.
Sua m�e havia previsto um desastre.
Para proteg�-lo havia preparado uma poderosa po��o...
que o tornaria invulner�vel durante 24 horas quem bebesse.
Para a senhorita.
Montalvo bebeu uma boa quantidade...
e estava um pouco tonto.
Observou com satisfa��o a cadeira vazia junto a Pandora.
Se perguntou se j� haviam descoberto o cad�ver.
Logo n�o se falaria de outra coisa. Estava certo.
Por�m ningu�m o envolveria com o acontecido...
ningu�m, exceto Pandora.
Pandora n�o deixava de olhar a cadeira vazia reservada para Van der Fick.
Brindo a Pandora a morte desse touro.
Quero te fazer uma oferta t�o grande como meu carinho...
e t�o bonita como seu rosto.
Ao saber que teus olhos me olham, quero tourear como ningu�m.
Vai para Pandora!
Vai por voc�s!
Est� vivo! Sim, est� aqui!
Eu o matei e est� vivo!
Deixe-me!
Eu o matei, sim! Eu o matei!
Deixe-me! Est� vivo! Est� aqui.
Deixe-me! Deixe-me!
Juanito.
� o castigo de Deus.
Mas, por que?
Eu o matei.
Ontem � noite.
Foi por voc�. E hoje eu o vi.
N�o o vejo, entende? Mas me parece v�-lo.
Estou muito surpreso.
Minha m�e me disse que aconteceria.
Deus me castigou.
Deus � bom.
Me d� tempo para confessar.
O padre... acho que... eu estou...
mas n�o importa.
J� confessei.
Estou limpo.
� uma pena. Sinto muito.
J� n�o ser� a senhora Montalvo.
Mas, voc� matou o cachorro?
O cachorro, sim.
O cachorro tamb�m.
Fazia muito barulho.
Foi necess�rio.
Adeus, querida.
Adeus.
Est� bem, Jenny. Des�o em um minuto.
Geoffrey est� ai?
Sim, est� se vestindo para a despedida de solteiro de Stephen.
- Posso v�-lo um momento? - Sim, claro, venha.
Pandora est� aqui. Quer falar com voc�.
Est� tudo sob controle?
Perfeitamente.
Boa garota.
J� vou, Pandora. Estou me arrumando.
Irei com Jenny na festa.
Geoffrey pode te levar, terminem de conversar.
- N�o se importa? - N�o, de forma nenhuma.
Fui rancorosa contigo Pandora. Por favor, perdoe-me.
N�o h� nada que mais queira que ser amiga sua e de Stephen.
Janet.
Adeus, tio Geoffrey.
Quando chegar no Sweet Adeline ou�a a melodia.
Deixe que o coro cante.
Faz anos que n�o colocava isso. Espero n�o destoar.
Acontece algo fora do nervosismo normal numa noiva?
� Heinrich, Geoffrey.
Heinrich?
O que sabe dele? Na verdade, quem �?
Sabe tanto dele quanto eu.
- N�o est� me escondendo nada? - Claro que n�o.
Faz tempo que tenho a impress�o que esconde algo.
Desde o dia que encontrei voc�s lendo aquele manuscrito.
Lembro daquela noite, mas n�o aconteceu nada.
Est� inquieta sem motivo.
Tem tantas coisas que n�o posso entender.
Estou sempre com a cabe�a virando.
Esse � um bom m�todo para enlouquecer.
Quando fui no seu barco pela primeira vez, n�o havia tripula��o a bordo.
Achei que estavam de folga.
O que h� de estranho nisso?
Nem havia um marinheiro vigiando.
Nunca vi seus homens. E voc�?
Daria no mesmo se visse. S�o estrangeiros. N�o os conhe�o.
N�o vi ningu�m exceto o holand�s.
O barco parecia preparado para zarpar.
Imaginei o que ele deveria estar pensando.
Se manteve firme em sua decis�o.
Ela estava a salvo. Nunca voltaria a v�-lo.
Tem outra coisa que nunca contei porque ningu�m acreditaria.
Nem mesmo eu estou certa de acreditar.
O que �?
Foi assassinado e reviveu.
O que est� dizendo?
Montalvo o matou na noite antes da tourada.
Apunhalou ele at� mat�-lo, em seu quarto no hotel.
Montalvo disse isso?
Quando estava morrendo.
Estaria delirando.
Nunca acreditou que me casaria com Stephen.
Estava com ci�mes de Heinrich.
Pensava que se matasse Heinrich, eu me casaria com ele.
Estava morrendo.
Nesse estado, uma pessoa n�o distingue o sonho da realidade.
Montalvo me disse antes de mat�-lo o que ia fazer.
Uma noite acordei convencida de que tinham assassinado Heinrich.
Estava assustada e teve um pesadelo.
Fui v�-lo. Seu quarto estava desarrumado.
Me disse que mataram o cachorro, o terrier que eu dei.
E assim foi, j� que Heinrich est� vivo.
No dia seguinte, quando Montalvo viu ele na tourada...
ficou t�o assustado que n�o pode se mover.
Se disse isso, estava delirando.
O que est� me escondendo, Geoffrey?
Ajude-me, Geoffrey. Por favor, me ajude.
Morrerei se n�o voltar a v�-lo.
Voc� viver�.
Talvez ele j� n�o se importe...
mas gostar� de saber o quanto te amava.
Me amava?
Isso voc� pode decidir.
� uma tradu��o desse antigo manuscrito holand�s.
Se voc� quiser ler. � a hist�ria dele e tamb�m a sua.
Acho que quer ficar s�. Pe�o desculpas aos outros por voc�.
Obrigada, Geoffrey.
Podia ver o barco do holand�s na ba�a, com as velas soltas.
Estava parado.
De repente, tive uma sensa��o de fatalidade.
Meus temores pareciam absurdos, fant�sticos.
Ol�!
Como j� sabe, o vesti�rio est� � direita.
Encontrar� um robe na cabine.
Parece que estava me esperando.
Pode ser que sim.
Escute isso:
Mas o dedo implac�vel continua e continua escrevendo.
N�o poder� seduzi-lo com tua piedade nem com tua imagina��o...
para mudar o texto...
nem com tuas l�grimas apagar nem uma v�rgula nem um acento.
Se sabia que tinha que acabar assim, por que tentou fugir de mim?
� o livro de Geoffrey, mas n�o sei como devolver.
Como soube de mim? Geoffrey lhe disse?
S� quando viu as velas. Pensou que j� estaria longe.
Deveria estar longe, mas o vento n�o quer soprar...
e pensei que poderia te ver de novo.
Eu tinha medo de que n�o fizesse.
Voltou a pintar o quadro?
Desta vez partindo do original.
Fiz mais de cem tentativas.
Maravilhoso.
Parece com voc�.
Sabe quem era?
Essa � a mulher de tua hist�ria?
Muito estranho.
Sim.
Assim meu rosto chegou nesse quadro.
Quando nos vimos pela primeira vez, j� nos conhec�amos.
�ramos marido e mulher...
separados durante s�culos e reunidos de novo.
Quando te vi, sabia que voltaria para mim.
Acho que eu tamb�m sabia. Meu cora��o sabia.
Tua presen�a, marcou meu destino.
Vi o fim do meu castigo: a paz.
Se te amasse o bastante para morrer por voc�.
Sim, mas depois vi que te amava muito para te ver morta.
Tentou fazer te odiar e quase conseguiu.
E essa noite voltou para mim, sabendo que morrer�.
Sim.
E apesar de tudo, � feliz?
Muito feliz.
N�o tem medo da morte?
N�o tenho medo.
Uma vez me disse que gostaria ouvir de meus l�bios.
Quis dizer desde o momento em que te vi.
Eu te amo.
Quanto tempo acha que levar� antes de...antes...?
Disse que n�o tinha medo.
Sou t�o feliz que n�o posso evitar querer que isto dure.
Se tiv�ssemos um ano, um m�s, uma semana.
Pandora.
Sim?
Quanto tempo acha que passou desde que voltou?
N�o sei. N�o muito.
Parece que o tempo n�o existe.
Sim, n�o existe.
Como se estiv�ssemos encantados.
Sim.
Durante estes s�culos de solid�o...
quando estava � beira do desespero..
desejava morrer.
Tudo isso n�o existiu.
Meu amor.
Num momento apagou as lembran�as de muitos anos...
anos cru�is.
Esta felicidade � t�o grande, quase esqueci o que aconteceu.
Sim, � verdade.
Quase nem lembro o que aconteceu ontem.
Porque ontem � todo o passado que foi imperfeito, irreal...
mas nosso amor � real e n�o tem no��o do tempo.
Querido, acho que entendo o que quer me dizer.
N�o preciso pedir uma semana, um m�s, um ano.
N�o precisa.
� como se estiv�ssemos enfeiti�ados, fora do tempo, no infinito.
No infinito.
Meu amor.
Foi uma dessas perigosas tempestades de ver�o...
frequentes nessa costa.
Ela me agradeceu por revelar a verdade.
Esperava que Stephen n�o lhe guardasse rancor.
Estava certo que o barco tinha afundado com o temporal.
Foi um choque, todos diziam.
E na v�spera de seu casamento...
Pobre Stephen.
Ningu�m imaginou que tivesse acontecido algo estranho.
E depois, ningu�m encontrar� rastro...
do que aconteceu no meu livro que emprestei para o holand�s...
e que agora tenho em meu poder.
Mas ainda me pergunto:
Se esse livro viesse do al�m...
com uma mensagem n�o de morte, mas de vida.
Ol� e adeus, holand�s!
Que desfrute com teu amor tanto como sofreu com teu castigo!
Valeu a pena.
Se digo que tenho dois textos da mesma escritura...
mas que foram escritas com uma diferen�a de tr�s s�culos...
todos pensar�o que o pobre Geoffrey perdeu o ju�zo...
de tanto investigar velhas lendas.
Porque vivemos numa �poca em que ningu�m acredita em lendas...
uma �poca em que j� n�o existe a f�.
Mas o dedo implac�vel continua e continua escrevendo.
Este � o �ltimo fragmento. Acabou.
Mas o dedo implac�vel continua e continua escrevendo.
N�o poder� seduzi-lo com tua piedade ou tua imagina��o...
para mudar o texto...
ou com tuas l�grimas apagar nem uma virgula, nem um acento.
Traduzido por Alexandre Neto Ajustes de legendas: DeGoes maio/2019
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