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PEQUENOS LÁBIOS
Após cinco anos de uma guerra que matou milhões de pessoas,
Voltei à vida burguesa.
Os médicos disseram que eu estava clinicamente curado.
Ao sair do hospital, eles trocaram minhas muletas por uma bengala.
Em casa, eu continuaria a minha convalescença,
ou melhor, a minha agonia.
Estou aqui, Joseph.
Bem-vindo, Sr. Paul.
Franz falou comigo, mas não consegui ouvir o que ele disse.
Meus olhos, meus ouvidos, os meus sentidos e sentimentos
estão concentrados apenas na natureza que me cerca.
Os vales, rios e florestas, fazem parte do jardim da minha infância.
Eu conheço todos eles. Cada canto, cada arbusto.
Voltei para o descanso para enterrar um homem,
e, se possível, ressuscitar um novo.
Um novo eu.
-Quando chegou a minha carta? -Esta manhã.
Mal tivemos tempo de arrumar o seu quarto. Estamos felizes, sr.
-Difícil acreditar que esteja aqui. -Pode creditar.
E eu pretendo ficar.
Não mudamos nada, tudo está como quando o Sr. partiu.
Agradeço a vocês dois.
Quem está aí?
Ele nem parece o mesmo. Não sorriu nenhuma vez.
Ele devia estar feliz. É jovem e se recupera rápido.
É a guerra.
Vamos. Pode entrar.
Bom dia, senhor.
Com licença.
Um pequeno lanche, senhor.
Coloque-o sobre a mesa.
Quase nem tocou no lanche. Quanto tempo vai ficar assim?
Hoje é o segundo domingo depois da Páscoa...
Ele já está aqui há uma, duas,
três, quatro... amanhã faz quatro semanas.
Ele não pode continuar assim. Eu me preocupo.
Não seria melhor chamar o médico?
Claro, mas ele vai nos matar.
Quem é você? Responda-me.
Fique onde está e diga quem é você.
Você tem medo de mim?
- Franz... - Sim, senhor?
- Eu vi uma menina esta manhã. - Eva. Uma sobrinha nossa.
- Gostaria de açúcar, senhor? - Ela mora aqui na fazenda?
Sim, senhor. Ela é filha do meu irmão.
Ele morreu na guerra. A mãe dela morreu logo depois.
O vagabundo fugiu logo que pôde.
Somos os únicos parentes. Não podíamos abandoná-la.
Aqui está o seu strudel, senhor.
Acabou de sair do forno.
Eu lhe disse para ficar longe de problemas.
Mas você é teimosa.
Em vez de invadir o quarto do Sr. Paul...
Sim, tia.
podia me ajudar na cozinha.
Espero também que você prometa
que vai se comportar corretamente.
Entendeu ou não?
Bom dia.
Ontem eu não quis te assustar. Perdoe-me se eu fiz isso!
Desculpe. Eu esperava que fôssemos amigos.
Você toca bem. Muito bem, meu filho.
Minhas mãos podem tocar bem, eu não.
Não bastam as mãos.
A música necessita de uma alma.
Eu não tenho mais alma dentro de mim.
Paul...
eu acho que você está muito mudado.
Isso acontece.
Eu vi você cavalgando.
Você parecia possuído.
Foi a guerra a causa dessa grande mudança?
Não. Eu sou o mesmo que sempre fui.
Isso não é verdade.
O que foi?
O que aconteceu?
Não quer me falar?
Eu não posso explicar isso agora. Eu tenho que ir.
Mas eu volto para tocar mais música.
Eu sabia que isso ía acontecer.
- Ele não é mais o mesmo homem. - Eu sei.
Que coisas terríveis ele deve ter visto nessa maldita guerra!
Preciso da minha medicação. Está sobre a mesa.
Duas gotas em um copo de água.
Aqui, senhor.
Deixe-me ajudá-lo.
Eva!
Eva!
Onde você vai?
Sim, Franz?
Bom dia, senhor.
- Vamos. Entre, meu amigo. - Sua camisa, senhor.
- Está um lindo dia, não acha? - Sim, senhor. Certamente.
Na cama do hospital, não poderia fazer planos para o meu futuro.
Nem mesmo saber como seria a minha reabilitação em casa.
Mas, de repente, como num conto de fadas...
aparece um anjo da guarda, uma Vênus campesina
capaz de despertar meus instintos, simplesmente com a sua presença.
E eu, que presentia seu encanto,
compreendi que poderia voltar ao prazer da imaginação.
Decidi compartilhar minha experiência com ela escrevendo. Dia após dia.
Acabei te descobrindo.
Venha, deixe-me olhar para você.
Venha aqui.
Vamos ver o que temos aqui... Pegue este.
É do seu tamanho e muito bonito.
Madame, a senhora primeiro. Vá em frente.
Assim. Muito bem.
Muito bom. Mais uma.
Linda.
Atenção.
Bom.
Agora, minha pequena Eva,
finalmente a minha vida tinha uma razão de ser.
Assim, próximo a você.
Gostou?
É lindo. Antes era só um papel em branco.
Nunca tive um vestido tão bonito. Obrigada.
Estou feliz que você gostou.
Como sabia que hoje eu faço doze anos?
Fácil. Ontem eu olhei em seus olhos e então eu soube.
Como assim "sabia"?
Eu vi nos seus olhos que algo estava mudando.
Você está brincando, não é?
Tenho outra surpresa para você.
Qual?
Espere e verá.
Vamos. Em frente.
- Com licença, eu posso ajudá-lo? - Eu gostaria de um sorvete.
Sorvete para a jovem, e conhaque para mim, por favor.
Eva...
Sabe, Eva, uma senhorita nunca pede algo para si mesma.
O cavalheiro que a acompanha é que deve pedir o que ela quer.
Eva...
Eva!
- Sim? - Cansou da minha companhia?
- Oh, não. É que ele olhava para mim. - Muitas pessoas olham para você.
E eles terão um outro olhar. Isto é normal
- Por quê? - Porque você é uma menina bonita.
Todo mundo aqui está com ciúmes de mim.
Hoje você é a minha princesinha.
E eu não vou compartilhar você com ninguém.
Vamos. Tome o seu sorvete.
- Bem... aqui estamos nós. - Finalmente.
Oh, é lindo.
Eu não tinha idéia que seria tão grande.
Que bom que você gostou, senhorita Eva.
É maravilhoso. Gostaria muito de passear de barco. Posso?
Será uma honra acompanhá-la. Posso ir com você?
Eva...
Eva...
- Está ficando tarde. - Eu estava sonhando.
Eu também.
- Gostou do passeio? - Sim, foi um dia maravilhoso.
- Fico feliz que tenha gostado. - Eu adorei.
Gostaria de voltar outro dia.
Há um lugar que eu gostaria que você conhecese um dia.
- Onde? - Adivinhe.
Um dia eu vou levá-la a Paris. Você não sabe como lá é bonito.
É a cidade mais bonita, mais incrível que eu conheço.
Sim, Eva, Eva... Você será muito feliz.
Eu prometo a você.
Obrigado.
Sr. Paul...
Sr. Paul, ela chegou.
A égua está pronta?
Está no melhor momento para a montaria.
Bem, então vamos.
Leve-a para o estábulo, Joseph.
Hoje é o seu grande dia, hein?
- É um belo animal. - Sim, um dos melhores do país.
- Estou impressionado. - Obrigado, senhor.
- Por que está fechando? - Não é próprio para meninas.
Eu disse não.
Eva!
Nós vamos ser companheiros?
- Acho que sim. - Já não somos amigos?
Você não é mais meu amigo.
Ouça, Eva. Têm coisas que as crianças não devem ver ou fazer.
Você entende?
Eu não sou mais uma criança. Você é um homem e eu uma mulher.
Desculpe-me, senhorita. Permite-me que eu fume?
Não tenho como prever a natureza da ambigüidade dessa garota.
Eu sinto que estou num campo de batalha estranho.
O local da batalha entre o desejo e o amor puro.
Quando você vai para Viena?
Eu ainda não tenho certeza. Talvez em duas semanas.
- Você ficará muito tempo? - Não, só alguns dias.
Não se esqueça de mim, está bem?
Esquecer você?
Claro que não. Isso seria impossível.
Vamos, eu quero mostrar-lhe um segredo.
Tudo bem.
Onde você está me levando?
Vamos.
- Eva, está chovendo. - Vem comigo.
Vamos.
De repente você ficou tão sério.
Achei que gostaria de ficar sozinho em casa comigo.
Sim, claro.
Então sorria. Vamos, tente sorrir.
Você está completamente encharcada.
Anna ficará furiosa se descobrir.
Não se preocupe. Você vai ficar bem sequinha.
Está bem.
Sabe...
venho aqui sempre que eu estou um pouco triste.
E agora? Você está?
Não. Desde que você chegou, eu não me sinto triste.
Agora estou muito feliz também.
Eu penso em escrever uma história sobre o quanto estou feliz agora.
A história de um homem que foi salvo por uma mulher.
Uma mulher pequena e doce.
Ela resgatou o homem, que era sombrio e desesperado.
Um homem desesperadamente só que voltou da guerra.
- Essa é a sua história? - Não, é a nossa história.
- Será que eu realmente salvei? - Sim. É a mais pura verdade.
Quando eu tinha acabado de voltar da guerra...
eu achava que a vida não fazia sentido.
Achava... até que descobri como você é importante para mim...
minha pequena Eva.
Quer vir para a cidade? Eu compro algo de bom para você.
Sim.
Eva...espere por mim. Não levará mais que 5 minutos.
Tudo bem, eu espero.
26 xelins, por favor.
- Aqui está. - Obrigado.
Uma carta registrada e urgente para Viena.
Quantos dias demora para chegar?
Uns 2 ou 3 dias, senhor.
Quanto?
20 xelins.
Obrigado.
Bom dia...
Olhe só!
Que fantástico!
Atenção, por favor, senhoras e senhores.
Tenho o prazer de anunciar um número especial.
Pela primeira vez esta cidade verá o número
que só cabeças coroadas tiveram o privilégio de ver.
cheguem mais perto, senhoras e senhores.
Não percam esta oportunidade única.
O Circo Finelli apresentará coisas que vocês nunca sonharam.
Cheguem mais perto, e surpreendam-se.
Apenas com sua força, Hércules se livrará das correntes.
Não tenham medo ou vergonha, senhoras e senhores.
Estas correntes são feitas de aço sólido.
ouviram bem: Aço!
Convido todos para uma investigação: são de aço sólido
Você pode examiná-las, senhor.
Veja como são fortes o suficiente.
Vamos lá, senhor.
Só com a força muscular, eu vou desamarrar estas poderosas correntes.
Muito bem, quem vai querer conferir?
Eva!
É melhor evitar contato com essas pessoas.
São ciganos... vagabundos!
Desde aquela noite que eu vi Eva nua se banhando numa tina,
eu comecei a viver uma experiência obsessiva.
Durante a qual minha mente aguardava a sua reaparição.
E ela...
pontualmente...
me mostrava o rosto de menina precoce.
Ela me desafiava com uma ambiguidade sedutora.
Com um brilho latente em seus olhos. Olhos de mulher adulta.
Ela me convidava para coisas que são proibidas.
Proibidas apenas por seu corpo infantil.
Mas esta alternativa imaginária,
por vezes, fora dos limites do sentido,
mas geralmente imaginativa,
me transportava,
à incrível sensação do homem
que se deixa levar pela corrente de um rio.
Como vivendo um sonho dentro de outro sonho.
Enquanto a Eva mulher, sem dó, brincava com a minha mente,
ela,
a menina,
me compreendia e me aceitava.
Me amando apenas com seus olhos e sua mente.
E eu, eu escolhi estar vivo.
Sra. Condessa da Normandia, nosso jovem talento.
Este é o professor Schumann, e sua fascinante filha.
Professor Schumann é um eminente crítico. Um dos mais competentes.
- Olá, como vai? - Eu disse à Baronesa que...
a relação entre amor e sofrimento é irresistível. Em prosa e poesia.
- Concordo com você, Eminência. - Boa noite.
- Um jovem muito talentoso. - Ele me passa alguma coisa...
Max tem sempre uma visão extravagante.
Eu li o seu livro e achei muito expressivo.
Há uma profunda amargura na história.
Em certos momentos é como se sentisse uma vertigem.
Muito gentil da sua parte. Obrigado. Boa noite.
- Um livro estranho, não acha? - De certa forma, ótimo.
Como eles podem?
Este livro não tem beleza, nem conteúdo ou forma.
Acabo de voltar de Paris.
A imprensa aqui está completamente errada.
- Os franceses têm a elegância - Não perdem a visão.
Peitos bordados e cabelo um pouco curto para este ano.
Sapatos na cor roxa.
Onde estávamos? Oh, sim. Queria lhe dizer algo.
Há uma moça, uma jornalista, nessa reunião que eu convidei.
Eu não pude evitá-la.
Eu sei, mas ela é muito influente e muito divertida.
Pode ser importante para promover o seu trabalho.
Ela está muito interessada.
Foi destacada numa interessante polêmica. É muito popular.
Ela é popular. Você vai concordar comigo mais tarde.
- Há alguém querendo lhe ver. - Muito bem.
Lupus in Tabula.
Está surpreso em me ver?
Achei que você ficaria por mais um tempo.
Sim, isso é verdade, mas...
não gosto da forma como as pessoas falam nesta cidade.
Basta olhar os salões de Viena
e me dá vontade de regressar à vida no campo.
Esperava ansiosamente por minha partida.
Estou passando por um momento delicado da minha vida, Herr Bauer.
Eu não estou mais interessado em assuntos mundanos.
Acredite ou não, eu entendo.
Mas, por favor, não perca sua inspiração.
É impossível perdê-la.
Então, ela aprendeu a amá-lo...
apenas com seus olhos e sua mente.
E eu, que nada podia lhe dar gozava da alegria de estar vivo.
E a natureza emocionada inclinou a cabeça e acarinhou seus instintos.
É um milagre ele ainda estar vivo.
Sim, mas não sei até que ponto vale a pena estar vivo.
Jamais será um homem outra vez.
Mas não existe nada capaz de acalmar os instintos da natureza.
Exclusivamente para versão de 01:15:34 (75 min 34 sec)
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