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OITO ANOS ANTES
Meu Sargento-Chefe?
Sim, escuto.
Participaram-nos um assalto no stand de automóveis.
Quer que eu vá lá?
Não. Deixa, Laurène. Já cá estou.
Estás bem?
Ele está aí.
Quem é que está aí?
Ele está aí.
Para!
Para!
Para!
Não sou eu!
Para! Não te mexas!
Pare!
Não fiz nada!
Pare!
Espero que os dois dias de interrogatório da inspeção-geral vos sirvam de lição.
Um cadáver em plena esquadra, até aqui é complicado.
Por enquanto, as conclusões deles não vos afetam muito.
Segundo eles, ou alguém entrou para agredir
o Jonas na cela, o que é fisicamente impossível,
ou, num acesso de pânico, que terão a delicadeza de me explicar,
o pobre homem esmagou o seu próprio crânio.
Não sei que versão prefiro.
Espero que a presença discutível deste homem na cela
não suscite maus reflexos da sua parte, Major.
Sargento Ferrandis, quer acrescentar algo?
Não, mais nada.
Já viu? Está a olhar para nós.
A lua está a olhar para si?
E também fala consigo?
Quando está assim, redonda e clara, chama-se lua do caçador.
E todos os anos, não se sabe porquê, as pessoas passam-se.
O instinto vem ao de cima.
É melhor prepararmo-nos.
Custa-me a crer que possa ser pior do que de costume.
Obrigada por me proteger.
O Jonas morreu e a culpa é nossa.
Nunca pensei que isto acabasse assim.
Mas começamos a ter provas.
Estás a ouvir-te, Laurène? Provas de quê?
De um deus cornudo que passeia na floresta?
Tens de descer à Terra.
É da guarda, pode dizer.
Não, ele não pode atender.
Tem de voltar a ligar.
Sim.
Agora, fazes o que quiseres, mas desenrascas-te sozinha.
Ligaram para ti.
Uma Aurore Dumont. Uma história de assédio.
Diz-te alguma coisa?
Sim.
Ela volta a ligar.
Começou com chamadas durante a noite.
Ninguém falava.
E os vidros da janela partidos, a...
...a porta foi quando saí.
Quando é que começou?
Há dois meses.
Assim que ele saiu da prisão.
Lionel Fauveau.
Apanhou oito anos por matar o sócio,
que percebeu que roubava a caixa do stand.
A Aurore, que estava a trabalhar, viu tudo e...
...testemunhou contra ele?
Ele quer vingar-se.
Há oito anos que... eu tento esquecer isto.
Apesar dos pesadelos, das crises de angústia...
E agora recomeça tudo.
Numa noite de lua cheia, como aquela.
Vai ficar tudo bem.
Vamos tratar do assunto.
Eu acredito nela. Mas o vidro partido e as chamadas... pode ser qualquer pessoa.
Vê-se bem que não conheces a prenda. O Fauveau não é um menino do coro.
Devias ter visto como deixou o sócio.
Mas passou dez anos na prisão, não é para se meter logo...
Digo-te que ele é perigoso.
- Ouves o que te digo? - Não te rales, Hermann.
Digas o que disseres, ela só faz o que quer.
Há oito anos que ela está ali fechada, a reparar bonecas.
Recuperou o stand. Custa verificar?
Vamos lá.
- Isso mesmo. - Mas tu não.
Não sei se ele ia gostar de te rever.
Sim?
- Senhor Fauveau? - Sim.
Que querem?
Vimos de casa da Aurore Dumont. Andam a assustá-la.
Não será a consciência que lhe pesa?
Acusa um inocente?
Perdão, não sabia que se tratava de um erro judiciário.
Perdi tudo por causa dela.
A minha mulher, os filhos, o trabalho.
Agora, deixem-me em paz!
Deve manter a distância.
Manter a distância?
Está a ver isto?
Oito horas de liberdade por dia.
A pulseira regista os meus movimentos.
Para a próxima, liguem aos vossos colegas antes de me chatearem.
Que é que achas disto?
Não sei. A chefe és tu, não?
Muito bem.
Verifica a pulseira, mas não vai dar nada.
Não queres falar do assunto?
O Jonas e a inspeção, não pensei que fosse tão longe.
Lamento.
Não sei.
Serve?
Caramba...
Hermann?
Hermann?
Sim, Hermann, escuto.
Estou?
Estou?
- Sim, é da guarda. - É o Nounours.
Nounours.
Tentaram ligar-me pelo walkie-talkie?
Não... não fomos nós, não.
Está bem.
Ouve, estivemos com o Fauveau e tem pulseira eletrónica.
Tem de estar em casa entre as 19h00 e as 9h00. Todos os dias.
Fizemos figura de parvos.
Não! Isso são tretas, Nounours.
Isso aqui só funciona metade das vezes.
Pelo que sabemos, não é ele que ronda a Aurore Dumont.
E eu digo-te que é ele!
Sim?
Incomodo? Está imerso no trabalho?
Sim. Perdão, estava... concentrado.
Ainda essa pen?
Começo a achar que estes ficheiros não têm nada.
A Marion pode ter morrido em vão.
É esta a vida de um procurador?
Caramba, isto é um sonho.
Não me queixo.
As camas são boas.
Enfim, quero dizer, para dormir.
Onde é que arranjou isto?
Nunca deve nevar em San Diego.
Prefiro que não mexa. Pode pousá-lo?
Desculpe.
"Pesagem dos resíduos à entrada do local de armazenagem.
9450 quilos, 9215 quilos,
9835..." Caramba, percebo que isto o excite.
Presente de Gérald Steiner a Villefranche...
Como disse?
"Pesagem dos resíduos à entrada do local."
O terceiro!
O terceiro... 9835 quilos.
Não podem ter mais de 9500 quilos.
É uma questão de segurança.
São verificados antes de irem para a estrada.
Há outros que chegam pesados demais!
Um na semana anterior, e outro... logo a seguir.
Não tinha visto?
Eu não sou... eu sou mais literário.
Bom, talvez seja um erro.
Ou então quer dizer que há cargas que chegam à pedreira sem ser declaradas.
Como os bidões que a pequena Weiss encontrou.
Não fazíamos uma buscazita?
Tem mesmo de arranjar uma distração...
Disseram-me que as investigações se fazem muitas vezes a vasculhar no lixo.
Mas caixotes do lixo de 12 hectares...
O Napoleão dizia:
"Ganho as batalhas com os sonhos dos meus soldados", senhora Garnier.
Então, sonhe um pouco, por favor!
Sonhe um pouco!
Muito bem!
Muito bem, Senhor Procurador.
Olha um fantasma!
Tudo bem?
Lamento a coisa com o juiz.
Não é grave, não te preocupes.
É passado.
Mas ainda não acabou.
Que é que se passa?
Quem manda nos Enfants d'Arduinna?
Cora, eles acabaram.
Começamos a respirar e já procuras chatices?
Passam-se coisas graves e ninguém quer saber.
Até o Roman desapareceu. Aconteceu-lhe algo.
Rudy, preciso de ti.
E porque te devo ajudar?
Só existo quando precisas
ou tens tempo, entre cenas com os Steiner.
Trabalho na pedreira, devias saber.
Espera.
Trabalhas com eles depois de tudo?
Sou mesmo burra.
Não tinhas uma amiga?
É trabalho, não vejo o problema.
Se te levar à campa da Marion, vês melhor?
Já chega, deixa-me em paz!
Todos tentam seguir em frente, tu bloqueaste, chega!
Ainda não acabou, Rudy.
Leva este.
E o outro também.
Primeiro andar, sala do fundo.
Espere.
Leve isto também, obrigada.
Vês? Tens ajuda, finalmente.
Tanto os chateei, que eles lá se descoseram.
Não faço a noite como já fiz!
Estamos prontos para a lua.
Tome.
Vens ver a Aurore?
A boneca estava encharcada em vitríolo. Horrível.
Está no segundo andar. Cuidado, está com calmantes.
Certo. Até logo.
Que faço? Está tudo fora de prazo.
Não sei. Ponha no frigorífico da cozinha.
Céline!
As bolsas de perfusão!
Devíamos ter impedido isto. Sinto muito por si.
Foi ele.
Tenho a certeza.
O Fauveau não saiu de casa, nós verificámos.
Ele anda na linha desde que saiu.
Eu vi-o matar o sócio.
Não lhe chega?
Nessa noite, houve um corte de eletricidade.
Como é que o reconheceu?
Era lua cheia.
Já lhe tinha dito.
Ele estava no stand.
Era ele de certeza.
Vi a silhueta dele, não estou louca!
No momento do homicídio, viu-o?
Disse-lhe que não tinha a certeza.
Mas ele insistiu tanto!
Tinha de me lembrar de tudo sem me enganar...
Depois, já não podia voltar atrás.
Mas quem insistiu? Está a falar de quem?
O guarda que prendeu o Fauveau.
O Hermann.
Hermann?
Sim, estou?
Estou?
Escuto.
Caramba, que chatos! Merda.
Merda!
Não quero saber, continuem a procurar.
Quero ver todos lá no fundo. Não está lá ninguém.
É bom sinal, não? Vermelho.
Está a confundir com a sua taxa de glicemia.
Para ficar contente, devia estar azul.
E porque não está azul?
Porque não há vestígios de chumbo nem de mercúrio.
Nenhuma substância ultrapassa as normas.
Podia cuspir nos tubos, já ficava mais azul.
É ridículo!
O Steiner esconde resíduos tóxicos em toda a pedreira!
Olhe para si. Que vai fazer, vai rebolar no chão?
Não tente encontrar uma diversão para a sua incompetência, Sra. Garnier.
Vamos, mexam-se!
Cavem!
Cavem, disse eu! Acordem, merda!
Por aqui, venham! Vamos cavar ali, a toda a largura!
Cavem! Toca a cavar!
Cavem!
Vamos, cavem!
Cavem!
Mexam-se!
Que anda o Hermann a fazer?
Não sei! Deve estar em patrulha.
Onde está o processo Fauveau?
Não sei.
Guarda, pode dizer.
Sim, Sra. Legendre. Sim, estão a caminho.
Bolas, ela mordeu-me.
Preciso desse processo, Nounours.
Não sei se viste, a noite começou. É o caos.
Só tenho duas mãos.
Está a ouvir-me?
Só quero que me ajudes, por favor.
Senhor?
Está aí alguém?
Os processos antes da morte da mulher estão em cima.
Estou a ouvir...
Não, mais para lá.
Aí, sim, é esse.
A Aurore não sabe se viu o Fauveau na noite do homicídio.
Diz que o Hermann a pressionou.
A detenção foi feita às 00h22.
Ele confessou duas horas depois.
O Hermann não nos disse que lutou com o Fauveau?
Olha aqui.
O relatório médico de detenção: nem um arranhão.
Olha a assinatura.
Caramba, o Hermann...
Podia pelo menos ter imitado a da Leila.
Vamos. É a lua, vamos fechar.
SALÃO DE BELEZA PARA CÃES
Agora andas a seguir-me?
Porque és lindo. Juro, não consigo evitar.
Mais agora que queres lavar o cão.
- Queres marcar hora? - Estás a gozar comigo?
Não percebeste o que te disse.
Sabes porquê? Não percebo idiotas.
- Idiotas? - Não.
- Queres que te explique? - Tenta.
- Achas que me metes medo? - Que vais fazer?
Não me toques! Não te aproximes!
Tem calma.
E fazes-me o quê? Vá! Faz!
Acalmem-se!
Que se passa? Cora?
Nada, está irritada e nervosa.
- Deve ser a lua. - Pois, é isso mesmo.
Acalma-te.
Talvez seja melhor irem para casa.
Pronto, tudo bem, já acabou.
Não quero confusões esta noite!
Podes explicar-me?
Não percebes?
Eles desistiram todos da Marion!
O juiz, o Rudy, estes todos, toda a gente!
O quê?
Eles tentam seguir em frente, à maneira deles.
Podem não ter esquecido.
Fazes algo esta noite?
Até logo.
- Toma. - Obrigada.
Viste o relatório médico?
Já todos insistimos um bocado num caso.
Daí a dar uma sova num suspeito e fazer um falso... Não.
Não queria falar, não tive escolha!
É verdade, estive mal.
A Christiane estava doente, tínhamos trabalho...
Porque achas que te passei o caso?
Estas responsabilidades todas, é demais para mim.
Pedi ao Nounours que revisse todo o processo.
Para com isso...
Cometi um erro, mas não muda nada. O Fauveau estava lá, confessou!
Ele só tentou salvar a pele.
Tentaste perceber se mais alguém tinha algo contra a vítima?
Não vês que este tipo é perigoso?
A miúda está aterrorizada e nós fazemos o quê? Nada!
Quando tivermos um cadáver nos braços, tarde choramos.
Como a Camille!
Exatamente, sim!
Como a Camille.
A Camille fez as escolhas dela.
Não podíamos saber, nem tu, nem ninguém.
Certo, recomeçamos.
Sabes que mais? Prefiro ir para casa a ouvir disparates.
- Boa noite. - Até amanhã.
- Caramba... - Hermann...
Caramba, quando é que me deixam em paz?
Estou?
Estou?
Hermann...
Estou?
Já chega.
E assim?
Ouves-me?
Pronto.
Só me faltavas tu.
Estou a ficar cansada.
Sobretudo agora, depois da morte do Jonas.
Realmente, ele não merecia acabar assim.
Devias tê-lo visto.
Estava apavorado com o Cernuno.
Mas não devíamos ter medo dele.
Os cristãos equipararam-no ao diabo para nos converterem,
mas era um deus livre.
Vivemos em paz com ele
até destruírem as florestas, na idade do ferro.
É uma história bonita.
Torna-se verdadeira quando acreditamos nela.
Esta vila foi construída sobre estes mitos.
- Conheces este livro? - Não.
Fala de um santuário do Cernuno numa floresta.
Ao que parece, um romano descobriu-o ao seguir um veado.
E terá partido do "lago das águas mortas".
Achas que pode ser aqui?
Há um mais pequeno, atrás do lago dos abetos azuis.
Dizem que ninguém nunca pescou lá nada.
Esta história de veado.
Não sei.
Está tudo. Posso ir-me embora?
Sim, vou fechar.
- Não me vais dizer que te vais já deitar. - Não.
É a noite ideal para ir conversar com a floresta.
Nounours para Laurène.
Sim, escuto.
Li o processo do homicídio.
Nem cheiro de uma pista além do Fauveau.
Viste o processo da Aurore Dumont?
Sim, também não há nada.
A única cena estranha
é que adiou duas vezes o depoimento por saúde.
Pensava que eram feridas superficiais.
Sim, eu sei, é estranho.
Pedi à Leila que se informasse. Vens ter comigo?
Sim.
Esta cena não existe...
Sam, é a Cora. Weiss.
Preciso que me faças um favor.
Vi um anúncio da loja de tosquias Meyer.
Suponho que foi impresso aí?
Sam, só te estou a pedir um favor.
Deves-me isso.
Só quero um nome.
Certo, diz lá.
Com um raio...
Esta agora...
Que cara de enterro é essa?
Não está contente por me ver?
Que é que queres?
O que toda a gente quer, Louis.
Uma Perrier com limão, a paz no mundo e uma boa pescaria nas Caraíbas.
Mas isso...
...já não é possível.
Porque estou morta.
Estás zangado comigo?
Mataste uma miúda, atiraste na Laurène, queres o quê?
Que aplauda?
Bolas, eu...
Como pudeste trabalhar para o sacana do Steiner, merda?
Essa é a pergunta que vale cem mil.
Ele pressionava-te?
Ele ameaçou-te, foi isso?
Diz-me.
Vira à direita, é mais rápido.
Como é que sabes onde vamos?
Louis,
posso estar morta,
mas ainda sei quando vais fazer uma grande asneira.
Quem é?
É o Hermann!
- Que se passa? - Venha comigo.
Já lhe explico, venha.
- Agora? - Feche.
Vou pô-la em segurança.
- Está bem? - Mas que se passa?
Estou a ficar com medo.
Não é de mim que deve ter medo.
Entre.
Desculpe a desarrumação.
Há muito tempo que não venho cá.
Pelo menos aqui ele não a encontra.
Está bem?
Instale-se aqui.
Fica bem?
Vou acender a lareira.
Como é pequena, aquece depressa.
Há três horas que aguardo que me tirem o gesso.
Sei que é lua cheia,
mas já começo a ficar irritado.
Gaspard, espera a tua vez, como toda a gente.
- Mas tenho comichão! - Tens comichão...
Pois, tens razão, desculpa.
Vou dar-te prioridade. Vai lá.
Então, desenrascas-te?
Pensar que mal começou...
- Tens alguma coisa para nós? - Sim.
Toma, está aí tudo.
A Aurore veio cá um mês depois do crime para uma IVG.
O processo não refere que ela estava grávida.
Bolas! Estamos como no ano passado.
Merda...
A data de início da gravidez é fiável?
Com dois ou três dias de margem.
Engravidou durante o crime ou depois.
Não a imagino a fazer sexo depois.
Eu, depois de uma autópsia, nunca consegui.
Bom, vou ao bloco.
Merda!
Coragem.
Toma.
Porque não disse que estava grávida?
Encontrou uma camisola.
Sim. Não o incomoda?
Não, de modo algum.
É engraçado, é o mesmo tamanho.
Era da sua mulher?
Não, era da Camille.
Era uma pequena que...
...trabalhava comigo na unidade e a quem emprestei a casa para estudar.
Não tem filhos?
Não.
Não pensámos nisso e depois...
Depois, era tarde demais.
Vou buscar lenha.
Eu ia passar no exame.
Tinha um bom professor.
Tinhas dado uma boa polícia.
Melhor do que eu.
Porque não disseste?
Não ligaste, não fizeste um gesto.
Podia ter-te ajudado.
Era crescida para assumir as minhas responsabilidades.
Não és meu pai.
É pena.
Tinha dado uma coça ao Steiner para te deixar em paz.
Estás a repetir-te, caro Louis.
Estás a perder o controlo...
Que estás aqui a fazer?
Sem ligar à Laurène.
Ela está em perigo, eu ajudo-a. Só isso.
O que é?
Não é nada.
É por causa da lua cheia.
- É normal que... - É assim todos os anos.
Pronto.
Volto já. Tenho um gerador.
Fica bem?
Hermann?
Era a minha canção preferida.
Quando tinha oito anos.
Desafio-a a encontrar melhor.
Ouça, sobre ainda há bocado...
Lamento, eu...
Não sei o que me deu.
Tive um ataque de raiva.
- Que quer beber? - Água.
Desculpe.
E você, que bebe?
Pode ser um russo branco. Sabe fazer?
É curioso que diga isso porque todos pensam que sou italiano,
mas os meus avós maternos eram brancos.
Enfim, eram russos!
Então...
Um russo branco
é algo que conheço bem.
Achas que ela estava grávida do patrão?
Não sei.
Na semana do crime, a Aurore fechou a contabilidade com ele.
- Talvez se tenha passado algo entre eles. - Podia ser uma história de ciúmes.
- Sim? - É o centro penitenciário.
O Fauveau não está em casa.
Como não está?
Desapareceu, usou um neutralizador.
É o centro, estão no Fauveau.
Enganou o sistema com um neutralizador.
Merda.
Bom, localizaram-no?
Está na Estrada dos Lagos.
- Tem a certeza? - Sim, absoluta.
Estrada dos Lagos.
Bolas, a cabana do Hermann.
Gustave! Não ias fazer um esforço?
Não fiz nada, Leila! Juro!
Só o vim acompanhar. Ele fez isso sozinho na bricolagem.
- Na bricolagem? - Sim!
Ainda bem! Leve-o.
- Céline! - Sim?
Pode preparar-me pensos?
Sim, está bem.
Nem sempre deve ser fácil para si viver aqui.
Entre as suas alergias e os Steiner...
É uma armadilha mortal.
Sou mais resistente do que pareço.
Mas diz-se que fez asneiras antes de vir.
A mim custa-me a acreditar.
Digamos que espero o fim da minha penitência.
- Não quero falar sobre isso. - Desculpe.
Hermann?
Nunca desejou voltar a ter uma vida normal?
Quer dizer, sentir o ar puro das cidades com perfume de gasóleo?
Precisamente.
É isso. O cinzento,
os prédios que escondem o céu e...
...os peões que nos empurram.
É verdade, sinto falta disso.
O cheiro do alcatrão fresco
que nos traz o coração à boca...
O ruído de uma moeda a cair
no parquímetro, de duas em duas horas.
E sozinho no carro...
Hermann?
Não me reconheces?
Larga-a!
Parem!
Hermann!
Parem!
Parem!
Parem!
Pare, vai matá-lo!
- Para, Louis! Não faças isso! - Desaparece! Sai-me da cabeça!
Hermann!
Tudo controlado, Laurène!
Não está nada. Não faças isso.
Hermann, para!
Vai pagá-las.
Hermann, eu menti.
Eu menti, Hermann.
Não foi ele.
Fui eu que matei o meu patrão.
Naquela noite, ele quis que eu ficasse até mais tarde.
Há semanas que ele insistia...
Tentou beijar-me.
Eu resisti.
Ele insistiu.
Atirou-se para cima de mim.
Despiu-me.
Violou-me.
Eu não queria,
não queria matá-lo.
Não queria...
Louis...
Tudo bem.
Tudo bem.
Vamos cuidar de si.
Como é que ela está?
Penso que deve estar aliviada.
Agora, tenho de ver com o Siriani.
E ele cumpriu oito anos por nada.
E o Hermann?
Não sei.
Vamos ver.
Não a podias proteger contra isto.
Sabes...
Sou perfeito para causas perdidas.
Espera.
Quando o Gérald veio pedir-me um favor,
nem pensei em recusar.
Foi graças a ele que a minha mãe teve casa e o meu irmão trabalho.
As coisas aqui são assim.
Depois...
...foi longe demais.
Ele pediu-me que vos vigiasse.
O resto já conheces.
Eu tinha vergonha.
Já não sabia o que fazer.
A culpa é toda minha.
Mas isso tu já sabes.
Estás zangado comigo?
A questão não é essa.
Acho que, se tivesse sido outra coisa,
era menos doloroso para mim
ver a tua secretária vazia.
Estou farto de...
...atender o telefone por ti.
Estou farto de perder todos os que amo.
Também tenho saudades tuas.
Bertrand?
Fala Gérald Steiner.
Queria verificar se está tudo bem.
Legendas: Laura Genevrois
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