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Quem é que não teve na vida um problema de amor,
uma desilusão?
Quem é que não guarda consigo uma
triste saudade no teu coração?
Quem é...
Que não foi pelo menos uma vez na vida um povo de alguém.
Não é?
É.
Sempre que o senhor quiser, só passa lá no bar.
Capaz que eu passe mesmo.
O senhor era pistoleiro, então?
No lugar de onde eu venho, a gente fala... capanga.
Faz tempo que o senhor parou?
Por aqui, estou vendo, né? É, sim, senhor.
Eu queria perguntar uma coisa para o senhor.
Oi, Nuno.
Eu conheço um rapaz aí.
Da cidade?
É, sim, senhor.
O que é que tem o rapaz?
Ele está me dando um pouco de trabalho.
Ah, é?
Está, sim, senhor.
Sei como é que é.
É fascinante, não é não senhor?
É.
Muito obrigado.
Se de repente acontecesse alguma coisa de ruim com esse rapaz... e depois dessa
coisa... o senhor recebesse um envelope...
quanto dinheiro iria ter lá dentro?
Foi esse rapaz que bateu no senhor.
Ele não me bateu, não.
Mateu, não?
Uma briga.
Foi por causa de mulher?
Bote nele também.
É?
É.
Sei como é que é.
Pois é.
Não é fácil, não.
Não, senhor.
É.
Já tomou café?
Como é que tá a perna?
Minha perna?
É. Tá normal, por quê?
Não tá quebrada?
Não. Achei que tivesse.
Não, tá normal.
É melhor dar uma olhada?
Não precisa.
Que bom.
É.
O que você queria falar comigo?
Sobre algumas ideias que eu tô tendo aí.
Tem umas coisas que eu tô pensando em fazer.
E?
Ainda não decidi se eu vou fazer.
Mas uma dessas coisas tem a ver com você.
Comigo.
Mas ainda não sei se eu vou fazer.
E antes de decidir se eu faço ou não uma dessas coisas,
eu achei melhor te dar uma dica.
Uma dica pra mim?
Achei melhor.
E que dica é essa?
Se alguém te falasse que hoje é o último dia da sua vida, você faria alguma
coisa diferente?
Porque, de repente, se você fizesse alguma coisa diferente, podia não ser o
último dia da sua vida.
Enfim, é só uma dica que estou te dando.
Eu gosto muito dela, sabia?
Eu não ligo.
Tanto quanto você.
Não ligo mesmo.
Você gosta de liberdade, mas não sabe libertar.
É por isso que ela te largou.
Ela vai te largar também?
Acho que não. Acho que vai sim.
Talvez sim, mas agora não.
Mas uma hora vai.
Mesmo que ela me largue, ela não vai voltar pra você.
Por que não?
Alguma já voltou?
A minha é sua.
A minha é minha, a veja é sua.
Cada um tem duas bolas.
Cada bola tem duas vidas. Certo.
Se você me mata, eu perco uma vida.
Se eu erro uma bola sua, eu perco outra vida.
Quem perder todas as vidas primeiro, perde o jogo.
Certo. Vamos lá.
Eu já mostrei meu muque pro senhor?
Ainda não.
Pega aqui pro senhor ver.
Não é duro?
Sempre que tinha um serviço mais pesado na falina, o pessoal me chamava.
Serviço de emboscada?
O pessoal lá me respeitava muito.
Hoje eu tô nessa ocupação de carroceiro.
É pra ir quebrando um galho.
E a esposa?
Tô sem no momento.
Já teve?
Tive não, senhor.
Namorado?
Também não.
É ruim ficar sozinho, né?
Eu tô sozinho tem um tempo já.
Eu sei como é que é.
Pois é.
Não é fácil?
É não, senhor.
Eu estava até pensando em arrumar uma mulherzinha, fazer
companhia, cuidar da casa, essas coisas.
O senhor precisa de mais alguma coisa?
Prazer, não, senhor.
Guardou o endereço?
Sai na carteira.
Pelo jeito, a gente não se vê de novo.
Pelo jeito, não.
Boa sorte amanhã, então.
Vou torcer pela votação.
Obrigado.
. . .
Oi, Luísa.
Não, nada demais.
Só pra saber como é que você tá.
Se você tá precisando de alguma coisa e se por acaso você mudou de ideia.
Só voltar pra cá.
Ah, eu sei, mas mesmo assim.
Como era isso? Era pra saber se você tinha mudado de ideia.
Cerra isso.
Por enquanto é só isso.
Boa noite, Sr. Totó.
Boa noite, Sr. Lula.
Eu pensei que o rapaz podia acabar vindo pra cá.
Eu vim na frente, para usar o senhor.
E aí
O senhor está chateado comigo?
Tampouco, sim, senhor.
Agora ele vai mandar alguém atrás da gente.
Será que vai?
Aposto que vai sim, Senhor.
Vou esperar aqui.
Boa noite.
Boa noite.
Por acaso o senhor não queria um cavalo sobrando para eu
emprestar para um amigo meu?
Tem sim senhor aí no quintal, mas eu não posso emprestar para o senhor não.
Pode deixar que eu dou um jeito. Muito agradecido.
Obrigado.
A gente terminando de almoçar aqui, já é só pra lá então, né, Domingo?
É assim, senhor.
Vocês trabalham sempre assim, duplo?
Sempre que pode.
É bom outra pessoa por perto, que é um ajudando o outro, né?
O senhor pode ficar tranquilo.
A gente é sério, trabalha direitinho, né, Domingo?
É assim, senhor, viu?
A respeito desse velhinho que emboscou o senhor.
O que você tem?
O senhor reparou nele?
Reparei muito, não, senhor.
Por quê?
O senhor sabe quem é?
Sei não, senhor.
Por isso que eu tô achando essa história meio esquisita.
Esquisita como?
É porque eu e o companheiro Domingo aqui conhecemos meio que todo mundo que
trabalha pra esse lado.
Vai ver que ele é de fora.
Vai ver, é isso.
Se for gente de muita experiência, acaba sendo mais trabalhoso pra gente.
O senhor tá querendo dizer que vai ser mais caro?
Não, senhor.
Não é nada disso, não. É mais por precaução mesmo.
Não estou entendendo.
Está com receio de alguma coisa?
Não, senhor.
O senhor não leva mal.
A gente é tudo destemido. Não tem medo de nada, não.
Então qual é o problema?
É só que a gente é meio... Como que fala quando a pessoa não gosta de dar sopa
por azar?
Superficioso? É.
Sou eu.
Eu, Luiza.
Você não conhece ele.
É alguém que ia muito lá no bar.
Não é meu amigo.
Não é ninguém importante.
Eu tava pensando em dar um pulo aí pra te ver.
Eu sei, mas eu achei que talvez você...
Podia ter mudado de ideia.
Eu sei.
Eu achei.
Luís?
Alô?
Alô?
Por que que o senhor não ama uma mulherzinha menos complicada, seu Totó?
Porque eu gosto dela.
Ah, tá.
E, além do mais, é difícil arrumar outra.
Mas até que o senhor não é dos mais feios como esse que a gente vê por aí,
O senhor já gostou de alguém assim desse jeito?
Assim desse jeito que o senhor fala?
É.
Assim desse jeito é capaz que não.
Mas já gostou de alguém?
Já sim.
Só de longe.
De longe?
É, sem a pessoa saber.
O celular do senhor tá pegando aqui?
Tá nada.
Tô vendo umas coisas antigas só.
Não encosta não, amigo. Essa distância tá boa.
Desculpa. O senhor quer o senhor Antônio?
Quem quer saber?
Meu amigo ali pediu pra vir falar com o senhor.
É amigo do senhor?
Ele tá preocupado achando que talvez o senhor queira... Que o senhor esteja
atrás dele.
É aquele ali escondido atrás do cavalo?
Ele disse caso o senhor tivesse vindo aqui atrás dele para pedir para o senhor
deixar a gente em paz.
Mas eu nem sei quem é esse amigo do senhor.
Acho que o senhor não deve estar lembrado, mas foi ele que se casou com a
do senhor.
Então esse é o novo marido da Gracinha?
É sim, senhor.
Até que é simpático o rapaz, Domingos.
O senhor não tá aqui atrás dele, então?
Claro que não, moço.
Fala pra ele que pode ir em paz.
O que eu quero mais é que a gracinha seja feliz.
O que o senhor quer fazer?
O que o senhor acha?
A esposa do senhor, né?
Coitada da Gracinha, viu?
Não dá sorte com o marido.
O que o senhor acha?
Está ficando meio longe.
Pois é.
Quer descer mais?
Não quero não, senhor.
Eu também não.
Quer largar a mão disso?
A esposa é do senhor.
E agora?
Pois é.
Falei para o senhor que estava meio longe.
Pois é, o senhor tinha razão.
Acha que ele vai sair de lá?
Vai sair quando estiver escuro.
E dá tempo de descer?
Antes de escurecer?
É. Dá nada.
Está parecendo com um meio para baixo.
Não é nada não.
Já pensou em arrumar outra?
Eu gostei dela.
Eu sei como é que é.
Sabe?
Sei sim, senhor.
Sabe não, senhor.
Acho que eu sei sim, senhor.
O senhor não quer dormir?
Amanhã a gente vai ter que recuperar esse atraso de olho.
Tô tentando, mas a cabeça não deixa.
Tá meio pra baixo ainda?
Parece que tá um pouco, sim, senhor.
O senhor quer conversar um pouco?
Pode ser.
E do que o senhor quer conversar?
Do que o senhor quiser.
O senhor escolhe.
Eu?
É o senhor que está sem sono?
É só um assunto.
Se o senhor pensar, me fala, então.
Posso acordar o senhor, se for o caso?
Se for o caso, sim.
Por que quando a gente voltar o senhor não procura a Gracinha?
Agora que ela tá solteira de novo.
Quando a gente chegar lá em cima, o senhor não repara muito nesse prêmio
É que ele tá sozinho aqui tem um tempo já.
Boa tarde.
A gente está fugindo de um pessoal lindo ou de ruim.
E se não for incomodar muito, a gente estava querendo
ficar escondido aqui na sua casa um tempo.
Quanto tempo?
Em dois e meio, no máximo.
Dois meses?
No máximo.
Dois meses?
No máximo.
Então...
Parece que está melhorando.
Pode ser que está.
Você acha que não?
Parece que muito não.
Um pouco.
Pouco capaz que sou.
Mas muito não.
Muito capaz que não.
Eu trabalhava com homem.
Ganhava pouco, mas na época valia.
Ele falava bonito.
Sabia até escrever e tal.
E ensinava pra alguns.
E tinha lá o escapando.
E aqui o povo fala pistoleiro, né?
Mas ela era capanga.
Eu ouvi os capangas falando em reduelo, as emboscadas que
eles faziam.
Passei por mais de 30 anos trabalhando na fazenda dele.
Até que um dia eu entrei na sede sem camisa.
Ainda pedi uma cigarra pra mulher dele.
Aí o patrão achou que eu tava muito folgado.
Mandou os capangas me dar uma surra.
Me botou pra correr de lá.
Para ver se pode.
A pessoa passa mais de 30 anos trabalhando para o homem e ele dispensa
de um cigarro.
Então o senhor não chegou a trabalhar como capanga?
Eu saí bem na época que eu ia ser promulgado.
E essa marca de gado na sua escola?
Isso foi brincadeira de pessoal lá.
Escapando? Sim, senhor.
O senhor gostava de trabalhar nesse lugar?
Gostava, né?
Porque era assim como família.
Era um cuidando do outro.
O senhor tá com saudade da sua patroa?
Tô um pouco, senhor.
É.
Eu também.
Sinto força da minha.
Não gelou, tá?
Ela morreu.
Tem uns dois anos.
Agora vem.
Era uma companheira boa demais.
A gente estava sempre junto.
Eu tocava sanfona, ela tocava violão.
Às vezes era ela que cantava, às vezes era eu.
Hoje, não tenho vontade de fazer mais nada.
Desde que ela morreu, o senhor está aqui?
Estou sim, senhor.
Nunca quis arrumar outra?
Até quis.
Mas dá muito trabalho.
Depois, quando a gente fica sem...
a gente fica sentindo
falta.
Mas... estou até
pensando...
Não sei não.
Ir na cidade.
Arrumar uma mulherzinha pra mim.
E trazer pra cá.
Pra me fazer companhia.
Acho que acabou a sua bebida.
Fui.
Esse aí era o tal do pistoleiro famoso?
Não sei qual era o nome dele.
O
senhor
sabe quem mandou a gente aqui, seu Totó?
Sr. Tautó, o senhor sabe quem mandou a gente aqui?
Sim, senhor.
Ele está bem chateado com o senhor.
Eu também estou com ele.
Tá, é?
Sim, senhor.
Ele roubou minha mulher.
Fez o quê? Ele roubou minha mulher.
Como é que alguém pode roubar uma mulher, seu Totó?
Não tem como roubar uma mulher.
Tem como, seu Domingos? Se o senhor descobrir um jeito, me conta, seu
Tá vendo, seu Totó?
Até o companheiro Domingos, que é bem mais novo que o senhor, já sabe disso.
Pois então.
Seu Duval pediu pra gente ler esse bilhete pro senhor.
Posso ler?
Totó, mandei meus homens lerem esse bilhete pra você antes de te matar.
Você quer liberdade, mas não gosta de libertar.
E se esquece que os outros também têm sentimentos.
Se você não fosse tão egoísta, nada disso precisava de acontecer.
Mas como você foi, aconteceu, senador Duval.
Só corrigindo.
A gente não é homem dele, não.
Ele contratou a gente pra fazer esse serviço só.
Faz o que vocês têm que fazer, então.
O senhor não leve a mão não, mas a gente vai ver.
De pé, seu Totó.
Esse é o torcinho.
Só de rastro.
Quem tirou essa bala que está na sua barriga?
Que bala?
Essa que está na sua barriga.
Tem bala na minha barriga, não, senhor.
Deixa eu ver.
Deixa, não, senhor.
Aquele lá era cheio de história demais.
É difícil ver a companheira morrer e ficar largada no meio do mato, sem
A companheira dele?
É.
O que ele morreu foi nada.
Também está viva.
Ele falou que ela morreu tem dois anos.
Morreu nada.
Ela estava vivendo do outro lado do rio, com um rapaz mais novo.
O cara largou dele.
Largou, se sentiu.
Coitado.
Mas cá entre nós...
Ele é meu primo e tudo.
Mas ela está melhor assim.
Obrigado.
Você joga na minha, eu jogo na sua.
Se eu te mato, você perde uma vida. Se eu erro uma bola sua, eu perco uma vida
também.
Como é que é?
Vai.
É feio, não é frio?
É, não é frio.
Amém.
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