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Por favor, eu sou Carmela de Vasconcelos. Estão me chamando aí pelo
-falante? A senhora é parente de Francesca Ferreto Rossi? É, essa eu sou.
minha irmã. E essa aqui é minha filha, Isabela.
Aconteceu alguma coisa? Venham comigo.
Onde é que ela tá? Fala.
Vamos viajar com a sua tia. Oh, meu Deus do céu.
Droga.
O que aconteceu?
Eu sinto muito. Ninguém sabe direito o que aconteceu.
O médico disse que parece que eles foram envenenados.
Estão morrendo.
Tá melhor, mãe?
Então eu acho que a gente já pode ter aquela conversa, né?
Você não imagina como vai ser difícil ter essa conversa com você, meu filho.
Tenta. Você vai ver que a gente acaba se entendendo.
Ai, que saco. Ninguém assiste telefone nessa casa. Cadê a Alcina?
Esqueci a folga dela.
Deixa que eu atendo.
Alô?
É a filha dele que tá falando.
É o quê?
Onde é que ele tá?
O que foi?
A gente tá indo pra aí. Eu sei onde é.
O que foi?
Fala.
Papai, eu fui envenenada no aeroporto.
Ele está morrendo no hospital, mãe.
Marcelo, tô achando você tão preocupado.
Não é nada, é cisma sua. Não é não.
Tá com a cabeça sei lá onde.
A Andrea disse alguma coisa que te deixou assim.
É eu que telefonei pra ela, coisas de pagamento, uma coisa sem importância.
Mais de 20 anos juntos, você acha que eu não te conheço?
Eu juro, não é nada.
Sabe, eu sempre quis vir a Capri.
Quando eu era garoto, a tia Nina me contava muitas histórias dessa ilha.
Acho que ela esteve aqui com os pais dela, que eram napolitanos.
O Zuca também.
O Zuca adora essa ilha por causa das histórias que ela contava.
Ai, aliás, faz tempo que você não faz uma visitinha pra Nina, hein?
Ela anda reclamando.
A tia Nina me ajudou muito na vida.
Preciso aparecer.
Eu detesto decepcionar as pessoas que me ajudaram. Eu me sinto um canalha.
Também não é assim.
Ela sabe que você é uma muito... Escuta, Ana.
Eu devo muito a você, sabia?
Sabia. Mas eu adoro quando você fala.
Uma de olho.
Passou a noite aí.
Ia ver se a Karina chegava.
Tô preocupado, né?
Gozado, eu não tô.
Eu aposto que foi só a molecagem dela.
Não aconteceu nada de grave com ela, não.
A Karina é muito esperta.
Vivia falando que tava de saco, cheio de viver naquele colégio interno, só.
Por que você tá chorando?
Foi culpa minha, Sabrina.
Eu não te disse nada, mas foi culpa minha.
Eu peguei a Karina numa festa lá em Campinas, junto ao Nico.
E dei umas porradas nele.
Aí vem o pessoal e me segurou, os dois fugiram. Eu tentei ir atrás.
Mas sabe estacionamento de festa, que um carro fica bloqueando o outro?
Então, eu não consegui tirar meu carro de lá. Aí os dois sumiram.
Aí, come daí.
O Tunico fugiu com a Karina, você não tá vendo?
Se pelo menos eu tivesse conversado com ela, em vez de... Largando a mão naquele
bostinho.
Tá falando do Tunico.
Filho do Juca. Você conhece algum outro Tunico, senhor?
Se ela fugiu com o Tunico, ela deve estar por aqui. O Tunico tá ali, ó.
Ô, Júlio!
Júlio, Júlio, Júlio!
Segura esse cara aí!
Se ela é louca, saca a cabeça!
Cala a porra!
O que houve, Sandrinho?
Ah, o Júlio viu a Karina namorando com o vizinho.
Volta a ajudar em alguma coisa, cara?
Não, não. Não comete não, que acaba sobrando para você, viu?
Bom, eu estou indo lá para a faculdade, tá?
Eu tenho que ir para o salão.
Ai, meu Deus do céu. Quanto assalto, quanto crime.
Que mundo estamos vivendo, hein, Kleber?
É.
Se você soubesse como eu fico preocupado com a Patrícia... E eu.
Mas amarrar no pé da mesa, como dizia meu pai, não dá, né? Ela é nova, gosta
sair. Se a gente vai junto, ela não gosta.
Também se deixa ela sair sozinha, a gente fica mais preocupado.
Essa noite eu não dormi enquanto a Patrícia não chegou. Chegou às duas e
da manhã.
Ué, mas você estava acordado?
Por que você não falou comigo?
Ah, sei lá, achei que você estivesse dormindo.
O Jefferson não chegou.
Mas ele avisou que ia dormir na casa daquele amigo dele lá da faculdade.
Bom dia, bom dia, bom dia a todos.
Tchau, mãe. Não, não, vai tomar pelo menos um café, que esse negócio aí de
estamos vazios não dá certo. Ô, mamãe, não implica comigo. Os caras sabem que
não gosto de comer nada de manhã.
Oi, pai, bom dia. Bom dia.
Bessa.
A Rosângela já ligou? Já, já ligou e disse pra você passar no ponto do ônibus
pegar ela com o seu carro.
Ô, mãe, a Rosângela já ligou. Mãe, eu tô atrasado.
E o senhor, hein, pai?
Eu o quê?
Aposta que você acordou cedo e tá aí trabalhando faz um tempão, né?
Ah, você não conhece seu pai?
Desde cinco horas da manhã que tá grudado nessa mesa. Tô indo entregar
balancete daqui a pouco.
Que implicância de vocês dois comigo, hein?
Tá sem açúcar, mas não é implicância não, pai.
É que eu não gosto de ver você trabalhando tanto assim.
Por que você não acorda um pouco mais tarde?
Pega a mamãe, vai no parque da aclimação, vai fazer ginástica.
Ah, doce esperança, meu filho.
Não estou velho ainda não, Deus me livre.
Deixe do meu jeito, filho. Criei vocês fazendo contabilidade, que pra mim até é
uma distração.
Eu sei, pai. Você viu aquele empréstimo no banco que eu te pedi? Tô vendo.
Tô vendo. Essa denúncia vazia pegou a gente de calça curta. O juiz disse que a
gente tem seis meses pra mudar.
E apartamento aqui pra alugar em São Paulo é manga de culete.
Ah, eu tenho tanta pena de sair desse apartamento. Eu acho ele tão bom, tão
confortável. É, igual a esse a gente não vai achar isso. Se achar, eles vão
pedir um preço absurdo.
A gente podia...
Comprar um apartamento. Nem que fosse pra ficar pagando durante dez anos.
Seria um bom negócio.
Você já viu aí no jornal?
De repente tem um monte de lançamentos.
Acho que prédio de construção é mais barato, né, mãe? É mais barato, mas
né, Cid? É tanto.
Um pãozinho, meu filho. Ah, não, mãe. Não quero, não. Obrigado. Não, não, não
quero. Obrigado. Tchau, tô saindo.
Ah, eu queria falar um negócio pra vocês.
Mas só que eu não queria falar antes de ter certeza.
É uma coisinha. O que é, meu filho?
Bom. Eu vou ganhar uma comissão da venda de seguros que eu fiz. É uma boa
comissão. E se a gente juntar com o dinheiro que você tem na poupança, vai
pra dar entrada naquele apartamento que você quer, pai.
Não tô acreditando.
Eu acho.
Vamos torcer que dessa vez a gente vai se dar bem.
Adoro você.
Está acontecendo, é verdadeiro.
É melhor acertar, filó.
Minha filha está morrendo, Eliseu. Foi envenenada no aeroporto, eu nunca ouvi
uma história dessa.
Isso não pode acontecer, meu Deus.
Tadinha.
Ainda bem que quando ela começou a passar mal, fui atendida, ela ainda teve
ideia de mandar me chamar.
Eu achava que a gente ainda estava lá e a gente estava mesmo.
Pera.
Nós temos a...
A sua tia com aquele homem, você acha que uma coisa tem a ver com a outra? Não
sei, mamãe, não sei.
Os médicos estão fazendo exames para saber que tipo de veneno eles tomaram.
Mas como é que pode?
A tia vai para o porto tomar veneno com um homem que a gente nunca viu antes na
vida. Não sei, mamãe, não sei.
A polícia vai descobrir.
Polícia?
Você está aos parentes da dona
Francesca e do doutor Elio? Só de dona Francesca. Nós não sabemos quem era esse
advogado que estava com ela.
Infelizmente, nenhum dos dois resistiu.
Tchau, tchau.
Vítima da sua
janela indiscreta.
Vamos resolver logo esse assunto? Vai, responde aí.
Vamos, tem que voltar pro mercado, tem que trabalhar.
Tô atrasado, eu não posso deixar teu tio tomando conta lá da banca sozinho. Fala
de uma vez, fala onde é que você escondeu a Karina.
É melhor você falar.
Mas quem?
Vocês são o quê? Vocês estão variando? Deu um tilt na cabeça? O que é? Vou
esconder a Karina em algum lugar, pai?
Eu tô preocupado com ela, né? Peraí, peraí.
Olha aqui, o Julio me disse o seguinte.
Me disse que você tá namorando a irmã dele, é verdade isso?
Olha, eu... É verdade ou não é verdade? Verdade, fala. Fala de uma vez, Tonico.
Calma, vou falar.
A gente tá aqui conversando. Fala logo.
Namorando, né?
Olha, namorando, namorando. Não, Júlio.
Eu não tô entendendo isso, hein?
Eu sou homem, ela é mulher. Ela gosta de mim, eu gosto dela. Por que que não
pode?
Porque ela tem 16 anos de idade. Ela é menor de idade.
Enfiou isso na tua cabeça? Sua cabeça tem cabeça de quê? De vento?
Menor de idade. Você é um cavalão perto dela. Muito mais velho que ela.
Muito mais velho, muito mais velho. Tem 21 anos na cara. Por que não pode?
Porque... Ela é menor de idade. Põe isso na tua cabeça, pô. Dá sua cinta nele,
Juca. Esse cara tá muito folgado. Pera.
Ah, minha irmã sumiu, pomba. A Karina chegou.
Chegou? A polícia trouxe ela. Tá lá na fecheirinha.
Graças a Deus.
Mas tu tem uma sorte. Mais uma sorte.
A sorte.
Te digo eu, hein?
Eu não quero mais voltar praquele colégio. Eu não sou bicho pra ficar
Quando o pai e a mãe chegarem aí, eles resolvem. Não tenta me trancar, não, que
eu fujo de novo, tá?
Você ia pra onde?
Ué? Pra Bahia.
Bahia?
Qual que você ia fazer lá, cara? Você conhece alguém lá?
Chega de briga, gente.
O que a gente vai fazer com você, Karina?
A mãe e o Babo estão viajando.
Eu preciso voltar pra faculdade. Eu também.
Ué, deixa que eu fico na casa da Juca.
Com o Tonico lá?
De jeito nenhum.
Você nunca mais vai olhar pro Tonico, entendeu? Nunca mais. Mas socorro, né,
Júlio? Você não é meu pai. Chega de briga.
Alguma solução a gente vai ter que arrumar.
Não é verdade, mãe.
Isso não aconteceu.
Foi mesmo que a gente veio buscar aqui em casa?
Há os documentos para o cemitério.
Onde será que seu pai guardava isso?
Meu pai está morto, mãe.
Eu não vou acreditar nisso.
Irene, por favor, me ajude a encontrar esses documentos, senão o corpo do seu
pai vai ficar lá naquele hospital.
Mãe, olha para mim.
O que foi?
Eu estou com um pressentimento.
Que pressentimento?
Ele morreu envenenado.
Não foi isso que o médico disse?
É, disseram que ele comeu alguma coisa estragada.
Eles ainda estão fazendo os exames, né?
Se fosse alguma coisa estragada, muito mais gente teria comido também na sala
VIP.
Por que esses dois morreram?
Eu não sei, Irene.
Eu não sei.
Irene, ninguém sabe.
Eles estão investigando.
Mãe, se fosse comida estragada, muito mais gente teria comido também.
Por que só os dois?
Não faz sentido, mãe.
Não faz.
Ah, eu sabia, eu...
Tinha alguma coisa aqui dentro do meu coração que estava me avisando.
Que a Jessica não devia viajar.
Ah, santo Deus.
Que desgraça.
E o... Eliseu, ele foi cuidar do entendo?
Foi.
Foi levar a certidão de nascimento no cemitério.
Você avisou a romana em Florença?
Eu telefonei pra lá, né?
Coitada, lá.
Levou um susto tão grande. Ela gostava tanto da tia. Não
vai poder vir pro interior.
Falando como ela gostava da irmã?
A romana é uma falsa. A família lá quer distanciar. Só quer o dinheiro.
Pelo amor de Deus, para com isso. Não tem negócio lá na Itália.
Olha cá.
Pedi para a dona Dilma fazer um chá de erva cidreira.
Pode deixar, Alfredo. Eu mesmo acervo.
Aconteceu uma coisa muito séria lá no aeroporto que eu ainda não comentei com
você. O que foi?
Você... Aquele moço, aquele homem que morreu ao lado de Atisca.
Você conhecia ele de algum lugar?
Não.
Os médicos disseram que se tratava de um conceituado advogado.
Mas Atisca o conhecia.
E muito bem.
Você se risa, perna. Daqui a pouco sua mãe e sua tia sobem aqui pra ver o que
acontecendo. Isso não podia ter acontecido.
Não podia.
Eu disse que você tava se arriscando muito.
Você tem certeza que quando você ligou pra cá pra falar com a minha tia, o
Alfredo não reconheceu sua voz?
Certeza absoluta que nem ele nem sua tia reconheceram. Eu disfarcei super bem.
Eu acho bom, viu?
Eu acho bom mesmo.
Porque se alguém aqui em casa desconfiar que foi você que ligou pra cá pra dizer
onde o Marcelo estava hospedado em Sorrento, você tá frita.
Foi você que pediu que eu ligasse, Isabela.
Quem, eu?
Eu não.
Eu não tenho nada a ver com isso.
Quem ligou pra cá e fez a minha tia marcar a viagem pra Itália foi você.
Eu tô fora. Eu não tenho nada a ver com isso.
E o Marcelo não pode nem de longe desconfiar que eu tenho alguma coisa a
isso.
Nem de longe.
Ai, mas que papeio, Marcelo. Meu Deus, eu adorei.
Gente.
Espero que não seja nada com as crianças.
O que foi?
Fazer. Ah.
Tá bom.
O Marcelo foi lá pro cemitério e eu vim pra casa.
Eu não podia ir no enterro dessa mulher, né? Depois de tudo que a gente brigou.
Não, ia ser uma situação.
A família toda lá?
Nossa, tu fez muito bem, hein?
Olha, seu Deus, o Zacuda.
Eu tô num jeito, minha amiga.
Eu não sei se eu fico alegre, se eu fico triste.
Se fosse comigo, eu tava soltando rojão.
Acabou de os problemas, velho.
Você está certa, mas também coitada.
Morrer assim, de infarto, dentro do aeroporto.
Quem disse que ela morreu de infarto?
A gente deduziu, né? Porque no fato dizia que ela teve morte súbita.
Mas não morreu de infarto, não.
Ela morreu envenenada.
Olha que eu sei, menina. Todo mundo sabe.
Deu em tudo quanto foi noticiário.
Meu Deus, envenenada.
Alguém matou ela, então?
Isso a gente ainda não sabe.
E duvido que a polícia descubra. Mas estão investigando.
Isso aí, minha filha. Isso aí vai dar muito para o Pramanga ainda.
Mãe! Quer alguma coisa, mãe?
Como vai, Dona Ivete? A sala está boa?
Está.
Eu vou levar ela para o quarto.
Daqui a pouco a gente continua o papo. Vamos?
Boa tarde, Dona Helena.
Senhor, desculpe. Eu estava deitada inteira do meu marido. Foi hoje cedo.
com um pouco de dor de cabeça.
Eu é que peço desculpas.
Eu tenho que fazer algumas perguntas para a senhora.
Por favor, sente -se.
O senhor aceita um café?
Aceito, obrigada.
Um café, o senhor, por favor.
Sim, senhora.
Eu não sei se a senhora está a par da hipótese que foi levantada sobre o
envenenamento do seu marido.
É, os médicos disseram que ele comeu alguma coisa estragada.
Exatamente. As nossas suspeitas são de que o seu marido tenha sido envenenado
por uma bactéria que se desenvolve nas conservas deterioradas.
O fato dele ter passado mal, ter expelido o vômito e ter morrido em tão
tempo leva a crer que essa versão é definitiva.
Mas tudo isso ainda é uma hipótese, não é? Os exames de laboratório continuam
até que nós tenhamos certeza.
Ah, e esse mesmo médico disse que o seu marido e aquela outra senhora
Ingeriram essa bactéria através de um canapé que foi oferecido na sala VIP.
Estava esperando para embarcar na sala VIP?
Essa é a Irene, minha filha.
O investigador... Lopes.
Euripides Lopes.
Como vai? O senhor estava falando que meu pai ingeriu uma bactéria mortal em
canapé. Isso é apenas uma hipótese.
Eu sei, mas é comum que uma coisa assim aconteça?
Não, não é comum. Muito pelo contrário.
E a polícia está achando que foi um acidente.
Nós da polícia não achamos nada. A nossa obrigação é investigar. Por isso eu
estou aqui.
Alguém tinha interesse em matar o seu marido?
Matar o meu marido?
Não. O que você está dizendo? Não sei. Acho que não.
Mãe, agora a mamãe.
Mãe, dorme agora.
Dorme quietinha. Eu estou boba com essa história que você acabou de me contar.
Ainda deu no SPTV hoje, ainda deu, que parece que os dois comeram comida
estragada antes de embarcar no avião.
Ai, essa coisa de comida em lata.
Mas que dois?
A Francesca e o advogado que iam viajar com ela.
Mas que advogado?
Não sei, é o seguinte, parece que ela e o advogado.
Iam viajar. E os dois comeram a comida estragada antes de embarcar, credo. Pelo
menos é isso aí que tá dando no jornal. Mas pra onde é que eles iam viajar? Você
sabe se ela ia pra Itália?
Ah, isso eu não sei. Eles não falam.
Mas que história mais esquisita.
Esquisita, não esquisita, minha filha? Que cedano é o mundo?
Que eu não me chamo Raimundo.
Bom.
A mulher morreu, né? Meu Deus, que tédia. Bom.
Marcelo tá aí, viu?
Vai casar com você e vai ficar tudo tchutchu beleta.
Tério, para, meu Deus.
Mas eu só acho chato que pra eu ser feliz, a coitada teve que morrer. É.
Mas Deus sabe o que faz, né?
Me diga uma coisa, como é que tá a Karina?
Eu não sei.
Eu vim direto pra casa, ainda não liguei pro colégio pra saber deles. Por quê,
hein? Ah, meu Deus.
O senhor...
Não sabe?
Mas não sabe o quê? O que aconteceu com a Karina? Me explica o que foi.
Meu Deus, a Karina. A Karina tá lá na casa do Mira, lá na Rua Figueira.
Foi expulsa do colégio.
A Karina expulsa?
Meu Deus!
Você não tá ficando brigando comigo, não?
Socorro, né, mãe?
Olha só o jeito que fala comigo, hein? Eu acabo perdendo a minha paciência.
Eu achei muito bom ter me expulsado daquele colégio, sabia?
Eu não aguentava mais ficar...
Fugiu do colégio por quê? Eu não fiz nada, eu já falei.
Não falou.
Não quer falar? Não.
Eu vou ao colégio e me explico de tudo.
Agora, não pense você que eu vou esconder do seu pai, não. Eu vou contar
por tintim o que a princesinha dele andou fazendo.
Não conta pra ele, mãe. Eu vou morrer de vergonha. Ah, é?
Vai morrer de vergonha por quê?
Mãe, não conta pra ele. Você também é mulher. Você vai me entender melhor que
ele. Mas eu também sou mulher.
Eu vou te entender.
Karina, o que foi que você...
Eu sempre achei que a Ana ia cansar de esperar que o Marcelo se separasse da
Francesca e ia raspar uma água pro teu lado.
Mas para de falar besteira, tio.
Escuta aqui, a Ana não fica comigo é porque ela não quer, não é por causa do
Marcelo. Mas que isso!
Tá na cara que é o Marcelo que não deixa ela ver o que é legal que eu quero.
Bom, e agora que ele ficou viúva, a coisa foi assim.
Aí também é coisa que sopa no mel, né?
Para mim é o seguinte, ele nunca largou da francesca por causa de grana. Ele
adora uma bufunfa.
Agora que ela morreu, eu estou com a grana.
Eu não sei se vai ser bom para a Ana, não. Por quê?
Isso é coisa minha, Tietchan.
Estou pensando com meus brutões.
Vamos deixar.
Pega aqui, Tietchan. Isso aqui é seu?
Aqui direitinho. O que é? Não confia? Já contei. O que é?
Ele vai gastar por aí, hein?
Não faz isso com a gente não, pelo amor
de Deus.
Tem visita.
Ana.
Escuta aqui, seu Juca. Que história é essa do gabiru do seu filho tá dando em
cima da Karina, hein?
A minha filha é menor de idade, tá ouvindo?
Eu boto esse seu filho na cadeia.
Ô, tia, obrigado, hein?
Nada. Ana, toma seu café aí, tá calma. Mas eu não quero café, eu não quero
Obrigada, dona Nina, desculpa, tá?
Nada.
A minha roupa tá no fogo, eu me vou lá pra dentro. Se precisar de alguma coisa,
chama. Tá, tá certo, tia.
Ah, e o que é?
O que é o quê?
Calma, Ana, eu já falei com o Tonico.
Você quer o quê, Ana? O que eu vou fazer numa situação como essa?
Trancar o menino, proibir de sair?
Você sabe que não adianta, não adianta fazer isso com essa molecada, você sabe
muito bem, meu Deus do céu. Olha aí, Juca, o que você vai fazer, eu não sei,
me interessa.
Agora, o seu filho se aproveitando da minha Karina, eu não quero, eu tô
Se aproveitando? Como se aproveitando? O que é isso? Que eu tô sabendo, os dois
estão namorando. Como namorando? Mas como namorando? O que é? Você tá surdo?
surdo? Não te falei que a minha filha é uma criança?
É uma fedelinha?
Não tem idade pra namorar um galalau de vinte e tantos anos, Juca?
É vinte e tantos, você fala de um jeito, ela tem vinte e um só. Mas que vinte e
um? É um homem feito, a Karina é uma criança, será que... Você não percebe
não, é?
Mas ela gosta dele.
Como que gosta? Escuta aqui, Juca.
Eu não quero, tá ouvindo? Não quero. Não, não, vamos conversar. Você viu o
aconteceu, Juca? Você viu que ela fugiu do colégio pra se encontrar com ele?
Estavam namorando esse tempo todo, fazendo a gente de idiota, de bobo. Esse
tempo todo era idiota, não.
Foram ficando assim, escondido, por quê? Pra evitar justamente esse assunto aí,
todo mundo contra.
Olha aqui, Juca.
Me diz uma coisa.
Você tá achando certo esse namoro?
Você tá achando certo?
Um cavalão do seu filho namorando com a minha criança, que é a Karina. Me diz
uma coisa, você tá achando certo, tá? Pera aí, vem cá. Eu não tô dizendo que
achando certo.
Ana, vê bem.
Não é dizendo que tá certo. Eu tô dizendo que é complicado ainda mais se
proibir de namorar, não sei.
Pensa um pouco.
Se você chegar agora pra Karina e falar assim, não vai namorar o Tonico, aí é
que ela vai querer namorar. Tá valendo o quanto? Olha aqui, Juca.
Cuida do teu gado, que eu cuido do meu, tá ouvindo?
Agora eu só tô te avisando que se eu pego os dois juntos, eu chamo a polícia
eu boto o teu filho na cadeia, tá ouvindo? A minha filha é menor de idade.
de idade, tá me entendendo? É menor de idade.
O médico falou que ela foi intoxicada por uma bactéria que possivelmente
num canapé que eles comeram naquela sala.
Mas isso foi só uma hipótese daquele médico, o Cacá.
Nada foi provado ainda.
E quando há um caso de morte, ele é investigado pela polícia para ver se
foi um acidente ou se foi um crime premeditado.
Crime premeditado?
Então me passou pela cabeça a possibilidade, a hipótese de a Tisca ter
assassinada. Mas ninguém está falando que ela foi assassinada. É que a polícia
precisa investigar. É a rotina dela.
É impossível que isso esteja acontecendo.
Impossível.
Existem coisas que o amor diz,
com aquela coisa mais de quem é feliz.
Joias caras produzidas no coração, tiara sem fim.
Timidez, mas vale voar pra fugir da sombra do não querer.
Ademais, quem é que quer sofrer?
Quer dar uma volta, Isabela?
Não é sair, a gente passeia um pouco de carro, quem sabe você se distrai. Não,
não quero não, não quero deixar minha mãe sozinha. Imagina, ela é delicada,
mundo aí.
Tô de Filomena, Marcelo.
Ela não vai ficar sozinha? Não, não quero. Vai, amor, não quero. Deixa eu
vai. Tudo bom, como você quiser.
Mas eu não imaginava que você gostasse tanto assim da sua tia Francesca.
Pra mim, você tinha até uma certa bronca dela.
Quem, eu?
Não. Ela que implicava comigo.
Vinha dizendo que eu tinha que trabalhar, que eu não fazia nada, mas eu
Aliás, que importância você tem agora, né?
Nossa, quando eu e minha mãe fomos levar ela no aeroporto,
Nunca imaginei que fosse acontecer uma coisa dessa.
E depois que ela encontrou com aquele homem na hora do embarque... Que homem?
Aquele advogado que também morreu?
Eles foram abraçados para a fila do passaporte.
Pareciam velhos conhecidos.
E vocês não sabiam quem ele era?
Não.
Nem eu, nem minha mãe.
Agora, a tia Francesca parecia conhecer ele muito bem.
Aliás, eles pareciam até namorados.
E o Marcelo sabe disso?
Marcelo?
Não.
Acho que não.
Então a senhora foi chamada pelo alto -falante do aeroporto. Ela ainda teve a
lembrança de mandar me chamar.
Achou que eu ainda deveria estar por ali, né?
E, por sorte, a minha filha, a Isabela, ela quis comprar uma revista, um livro,
e nós ficamos um pouco mais.
Sei. Mas a senhora não conversou diretamente com a sua irmã?
Não.
Eu acompanhei ela do aeroporto até o hospital. Fiquei segurando na mãozinha
dela.
Mas ela não falava mais nada.
Ela só gemia.
E o marido da dona Francesca estava viajando?
Estava. Na Itália. Ela ia se encontrar com ele lá.
Nós apuramos na companhia aérea e a passagem foi comprada no mesmo dia.
De fato, ele decidiu na última hora.
A Tesca, sabe? Ela era assim, era muito impulsiva.
Eu poderia falar com o Sr. Marcelo Rossi, o marido dela? Ele chegou muito
abalado. Tomou uns comprimidos e foi se deitar. Eu acho que vai ser difícil
acordá -lo.
Eu compreendo.
Se depois ele puder me procurar na delegacia, ou quem sabe me dar um
Pode deixar.
Eu entrego.
Eles viviam bem.
Rodrigo, o Sr. Marcelo e a Dona Francesca se davam bem no casamento?
Muito bem.
Tinha umas suas discussões, como todo mundo tem, mas... Uma última pergunta.
Pois não?
A Dona Francesca realmente não conhecia o Sr. Hélio. Conhecia?
Não, senhor.
Nem a minha irmã e nem ninguém nesta casa conhecia esse Hélio Ribeiro que foi
envenenado da sala do aeroporto.
Quem tá aí?
Você tá louca?
O que você quer aqui?
Eu disse pro Diego que eu tava com sono, que eu tava com dor de cabeça, que eu
queria dormir.
Sai daqui.
Se alguém te ver aqui no meu quarto... Ninguém vai me ver.
Hoje não.
Acabei de enterrar minha mulher.
E daí?
Ela também te traía.
O quê?
É isso mesmo.
Minha mãe e eu vimos.
Ela no aeroporto.
Uma abraçada com aquele advogado que morreu junto com ela.
Ele devia ter amado.
Inventar uma coisa dessas.
Apesar de tudo ter um pouco mais de respeito, sua tia acaba de morrer.
Por que você está me contando isso?
Porque é verdade.
Eu e minha mãe vimos.
Quando ela se encontrou com aquele advogado lá na sala de embarque.
Ele estava com a mão na cintura dela o tempo todo.
O que me deixa maluco?
Não.
Não, eu só quero que você pare de sofrer por alguém. Alguém que não te merece.
Que a gente resolva logo o nosso problema.
Isso é invenção, senhora.
É mentira.
É uma pena que você não possa ir lá embaixo e perguntar pra minha mãe, né?
Porque aí você vai ter que falar.
E foi eu que contei.
Que eu te vi aqui no seu quarto.
Sai daqui! Sai!
Sai!
Tá bom.
Mas cedo ou mais tarde, você vai saber que eu não estou mentindo.
Porque alguém vai te contar essa história.
Só quero que você não se esqueça que fui eu a primeira a te contar.
Estava fazendo no quarto do Marcelo Isabel.
Estava fazendo no quarto do Marcelo Isabel.
Estava fazendo no quarto do Marcelo Isabel. Estava fazendo no quarto do
Isabel. Estava fazendo no quarto do Marcelo Isabel.
Estava fazendo no quarto do Marcelo Isabel.
Estava fazendo no quarto do Marcelo Isabel.
Cláudio! Fala, Deus!
Daí!
Vai entrando, Cláudio.
Vou arrumar um canto pra você guardar tua coisa, ok?
Cara, por que tanta máquina fotográfica?
Sou um fotógrafo, cara.
Toma cuidado com isso aí, porque é a única coisa de valor que eu tenho.
Tremendo a fé, hein?
É o papai que tá pagando tudo isso, né? Ah, deixa o saco, né, Cláudio? Eu te
falei. Tô trabalhando no frigorífico.
Ah, então você deve estar de dono do frigorífico, né? Porque um salário e um
desse... Ah, tá bom. Meu amigo... Meu pai tá me dando uma força.
Logo vi.
É, meu pai não facilitava AP desse nem.
Mas facilita como? Coitado do teu pai, né?
Pô, o cara é funcionário de Estado de Ferro e Ribeirão Freio.
Ah, Cláudio, ó, pra gente facilitar alguma coisa, só se ele assaltasse o
pagador.
Lembra dessa história que a gente se divertia em assaltar o trem pagador?
Só lembro, cara, que loucura. A gente tirou essa ideia, nem sei se existe trem
pagador. Esse é o nome de um filme, o Assalto ao Trem Pagador.
A gente nem viu o filme, mas o nome ficou na cabeça, ficou.
Grande Diego.
Estou precisando de um favor do teu amigo.
Me meti numa encrenca, cara.
Estou precisando de uma cobertura tua.
Eu vou ter que ficar mucosado aqui uns tempos.
Para!
Para de me tratar como se eu fosse um idiota porque eu não sou.
O que você estava fazendo no quarto do Marcelo?
Mamãe, que coisa mais absurda você ficar falando comigo desse jeito.
Então responde, ora.
Mamãe, eu vou ficar ofendida, viu?
Não vem bancar a sonsa pra cima de mim porque eu não sou sua tia que acha que
você é um anjo. Mamãe, eu não tô entendendo o que você tá desconfiada, o
você tá querendo saber. Não tô entendendo. Eu quero saber o que você e
estavam fazendo sozinhos dentro daquele quarto.
Que tarefa é essa?
É a mamãe que tá brigando comigo.
Então fala pra ela, Isabela.
O que você estava fazendo, Dona Cláudia?
Despio noite e dia sua vida secreta, o frio de São Paulo me faz transcurar.
Sou vítima, vítima,
vítima da sua janela
indiscreta.
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