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The_Legender
Roménia, 1987
Está bem.
Obrigada.
Podes dar-me uma ajuda?
Eles eram assim quando o Marius tos ofereceu?
São outros peixes.
Esta fotografia é muito estranha!
Podes pedir à Daniela para lhes dar comida enquanto estivermos fora?
Eles aguentam dois dias sem comida.
Tens a pasta de dentes?
Sim. Também tirei o teu algodão. Depois compras mais, está bem?
- Tens algum sabonete? - Procura na gaveta.
- Não tem nenhum. - Eu estava de saída, vou comprar mais.
Compra Amo ou Lux.
Não compres Palmolive, faz-me caspa.
Podes ir pedir o meu secador de cabelo à Petronela?
Parece que vais acampar.
Tens dinheiro?
Procura no bolso de trás das minhas calças.
Adoro a forma como o guardas numa carteira!
Não sou como tu, que espalha o dinheiro por todo o lado.
Fecha a porta!
A Petronela está?
Ela estava a tomar banho.
- Ainda há água quente? - Sim.
Petronela?
- Otilia? - Sim.
O que foi?
A directora andou à tua procura.
- Porquê? - Não apareceste lá na quinta-feira.
Eu pedi-te para falares com ela!
Sim, mas ela disse que já tinhas tido o período há duas semanas.
- Da próxima vez, traz um atestado médico. - Está bem, vou arranjar um.
- Ela fuma? - Ao fim-de-semana.
Está aberta.
- Bom dia. Já começaste a estudar? - Tenho exames na quinta-feira.
"Thorn Birds". Vens vê-lo?
O "A Leste do Paraíso" é teu?
- Onde está a Gabita? - Está a depilar-se.
- Um maço de Assos e um de Kent's. - Não tenho Kent's.
Onde é que os vou arranjar? Preciso deles.
Não os vais encontrar.
- Tenho Marlboro. - Não quero Marlboro.
Dá-me um maço de Assos e um sabonete Lux.
- Salem Menthol? - Não, obrigado.
Wrigleys?
Não, dá-me um pacote de Tic Tac's de laranja.
- Os Tic Tac's são por minha conta. - Obrigada.
Tenta vir ver o filme logo à noite. A Ramona e o Virgil vão estar cá.
Não sei. Obrigada.
Gatinho!
São tão fofinhos! São teus?
Encontrei-os na sala da caldeira. Queres um?
Não posso, a Gabita é alérgica.
- O que lhes dás de comer? - Dou-lhes carne moída.
- Depois trago-te leite em pó. - Obrigada.
- Meninas! - O que foi?
Podem dizer à Gabi que o pai dela telefonou?
Ele diz que vem cá ter de carro por volta das 10:00.
- Está bem, eu digo-lhe. - Obrigado.
O teu pai telefonou, ele vem a caminho.
Merda!
- Disseste aos teus pais? - O quê?
Ele vem cá ter por volta das 10:00.
Não sei o que fazer em relação ao exame de segunda-feira.
Podes fazê-lo na segunda fase.
Achas que devo levar os meus apontamentos?
- Não vale a pena. - Não vale a pena?
Tinhas leite em pó.
Está no frasco de Nescafé.
- Quanto custa? - 80.
- Aqui está o leite em pó. - Tem um cheiro maravilhoso.
É fêmea?
- O Rexona? - 50.
- Tens cigarros Kent? - Não, tenta nos Árabes.
- Quanto custa? - 25.
- Progesterol, isto é Húngaro? - Alemão. Feito na Hungria.
Ela é especialista nisto!
A minha prima toma-as. Eu já sou suficientemente gorda!
- 90 leis pelas quatro coisas. - Preciso disto com frequência.
- Consegues vendê-las a esse preço? - No dormitório misto vendo-as bem.
Tenho de ir, a água está a ferver.
- Vou pintar o cabelo de vermelho. - Estás a brincar!
Não, é apenas um tratamento. Tenho queda de cabelo.
Podes pedir à Petronela para devolver o secador de cabelo?
Passo por lá mais tarde, ela tem exames.
- Boa sorte, meninas! - Obrigada.
- A que horas vais ver o Adi? - Às 11:00.
- Devo estar com febre. - Toma uma aspirina.
Dói-me o dente! Preciso de Algocalmine.
Vê se tem algum na malinha de viagem.
Era só o que me faltava!
- Hoje tinha uma consulta no dentista. - Aguentas até sábado.
- Posso perguntar-te uma coisa? - Claro.
Podes tratar dos assuntos relativos ao dinheiro?
- Nem os porteiros consigo subornar. - Não te preocupes. Eu trato disso.
Toma, conta-o.
- 2700? - Sim.
- Dói-me o estômago. - Come alguma coisa.
Não posso comer nada.
Não te preocupes, vai correr tudo bem.
Deixa-te disso. Adeus!
- Não voltes para trás. Isso dá azar. - Esqueci-me da morada
Não sejas supersticiosa, não és nenhuma camponesa.
- Quero levar os meus apontamentos. - Então leva-os.
Os bilhetes, por favor.
Os vossos bilhetes, por favor.
- Tem um bilhete a mais? - Não.
Posso ver os vossos bilhetes?
O seu bilhete, por favor.
O Adi já entrou?
- Uma última revisão? - Estava apenas a dar uma vista de olhos.
Já entrou alguém?
Começaram mais tarde, perderam a chave da sala.
Pára, os teus colegas vão ver.
- E depois? - É embaraçoso.
A Diana perguntou se queríamos trocar de viagem com ela.
- Ela ia para Izvor e nós para Costinesti. - Ao mesmo tempo?
Não. Ela iria do dia 7 ao dia 14, e nós iríamos do dia 15 ao dia 22.
O meu último exame é no dia 6.
Teria de passar uma semana em casa, e depois voltar.
Assim seria complicado.
Dá-me um cigarro.
- Tens o dinheiro? - Espera.
Para que é o envelope?
Para não ficar misturado com o dinheiro das flores.
Disseste 300, certo?
Depois pago-te quando receber a bolsa de estudo.
- Tens fome? Queres alguma coisa do café? - A minha mãe fez-me umas sandes.
Ela levantou-se cedo para te fazer umas sandes?
Não, para fazer o bolo dela! Depois das 8:00 o gás fica mais fraco.
Podes fazer-me um favor? Podes ir buscar as flores? Vou ficar aqui até tarde.
Acho que não vai dar. Não vou conseguir chegar a tempo.
- Chegar a tempo onde? - Não vai dar...
Espera, não vais ao aniversário da minha mãe?
- Por que estás zangado comigo? - Não deveria estar?
Ela vai fazer um bolo merengue para ti e tu não vais?
- Ela vai fazer um bolo merengue? - Sim.
Disse-lhe que gostavas desse bolo.
Não é que não queira ir, mas não posso.
Por que é que não podes? O que tens de fazer? Diz-me.
Eu depois digo-te. Agora não posso.
Não me podes dizer agora?
- Não confias em mim? É isso? - Claro que confio em ti.
Mas não percebo por que estamos com segredos.
Não estamos com segredos. Disse-te que depois te contava. Não é nada importante.
Se dizes que não é nada importante, o que posso eu fazer?
Se a situação se passasse comigo, já seria algo importante.
Não quero discutir contigo.
Quem é que começou? Tu é que estás a dizer-me que não vais.
Está bem, eu vou.
Não sei como, mas lá estarei.
- Parece que estás a fazer-me um favor! - Pára com isso. Queres eu que vá ou não?
O professor disse para fazerem menos barulho.
- Que flores queres que eu compre? - Não te preocupes com isso.
Vá lá! Cravos?
- Gladíolos. - Gladíolos?
Sim, porquê?
- Quantos? - 48.
Um número par não.
- Então quantos? - Não sei, 49.
- E gladíolos não. - Mas ela gosta deles.
E têm de ser 48, senão ela vai pensar que me enganei na idade dela.
- Quem é que vai contá-los? - Não conheces a minha mãe.
Então compra 47. Não importa. Eu compro o que quiseres.
É preciso levar roupa a rigor?
Não vai ser nada formal, vão apenas alguns amigos do meu pai.
Bebemos um pouco de champanhe e fugimos para o meu quarto.
Vou tentar.
"Vou tentar"? Está lá às 5:00, por favor!
Está bem.
Não te atrases.
Estás a começar a irritar-me. Eu nunca me atraso.
Só quando acontece algo inesperado. Tirando isso, nunca me atraso.
Tens o teu cartão de estudante? Não nos deixam entrar sem ele.
Vou indo.
- Que horas são? - Passaram 20 minutos. Precisas dele?
Não, deixa estar.
- Até logo. - Não me dás um beijo?
Não, irritaste-me.
- Não voltes a irritar-me. - Digo-te o mesmo.
- Adeus. - Adeus.
Onde é que posso comprar um maço de Kent's?
- Eu podia ter-te comprado um. - É para a Gabita.
- Os tipos no Unirea devem ter. - O quê?
Os tipos do mercado negro.
Adeus.
Olá.
Sim?
Tenho uma reserva com nome Dragut.
Tem um quarto reservado? Desde quando?
Desde hoje. Na verdade, desde a noite passada.
- Não, quando é que fez a reserva? - Na passada terça-feira.
Não está nada aqui registado.
Foi uma amiga minha que fez a reserva. Tenho a certeza que foi na terça-feira.
Sabe com quem é que ela falou?
Não, mas ela disse-me que deu o nome e a morada.
- Qual era o nome? - Dragut.
Não está aqui nenhum Dragut.
Ouça,
vá ali falar com o Nelu.
- Talvez o meu colega a reconheça. - Mas não fui eu que fiz a reserva.
A minha amiga ligou para cá e falou com um homem.
- Ela telefonou? - Sim.
- Então ela não veio cá? - Acho que ela telefonou.
Qualquer pessoa pode dizer isso, não pode?
A reserva foi confirmada? Ontem?
- Para que serve a confirmação? - Não fale assim comigo.
As reservas têm de ser confirmadas com 24 horas de antecedência.
- O homem não lhe disse isso. - Duvido disso.
Nelu...
Não, isso dói.
Ouve, tenho aqui uma pessoa a dizer que ontem lhe fizeste uma reserva.
- Não foi ontem. Foi na terça-feira. - Ou na terça-feira.
- Qual era o nome? - Dragut.
Dragut.
É o nome dela.
Sim, obrigada.
Podes ligar-me se eles enviarem o salário?
Está bem.
Se ela tivesse reservado, estaria aqui escrito.
- E agora? - "E agora"?
- Desculpe, está alguém na loja? - Sim, espere um pouco.
Precisamos mesmo de um quarto. Não podemos resolver isso?
Resolver o quê, menina?
Recebemos ontem uma delegação de Bucareste, o hotel está cheio. Percebe?
Ficamos com um quarto triplo.
Não percebe Romeno? Parece que não.
- Tem alguns Kent's? - 80 leis.
Amanhã vai chegar uma delegação.
Faz o que puderes.
Está bem, tenho de desligar. Ligo-te mais tarde.
Está bem, adeus.
Sim?
Talvez você me possa ajudar. Preciso mesmo de um quarto para esta noite.
- Para esta noite? - Sim, por favor.
- Estamos completamente lotados. - Pode ser um quarto triplo.
Podes chamar o Marcu, por favor?
- Para quantas noites? - Duas ou mais.
Para hoje não é possível.
Temos um quarto que vai ficar livre amanhã.
Precisamos mesmo para esta noite.
- Para quantas pessoas? - Duas.
- É uma cama de casal. - Não faz mal.
Sim?
Vai ao bar buscar dois cafés, e leva-os ali.
- Nechezol ou Nescafé? - Diz-lhe que são para mim. Ela sabe.
Então, pode ajudar-me?
Não sei mesmo. Eles ainda não confirmaram, mas...
Por favor, ficaria muito agradecida.
- Como disse, é uma cama de casal. - Não faz mal.
Tem o seu BI?
Residência temporária? Você é estudante?
Se você está num dormitório, para que precisa de um hotel?
Está a abarrotar de pessoas. É difícil de estudar para os exames.
- Duas pessoas? - Sim.
Também temos um quarto com quatro camas,
mas teria de colocar lá alguém com vocês.
- Não, não é preciso. - Seria mais barato.
- O outro quarto serve. - Como quiser.
- Mihartzescu? - Mihartescu. Com um T.
É melhor arranjar outro BI. Se a Polícia a apanha com este...
Esqueci-me dele nas minhas calças quando as lavei. Por isso é que ficou assim.
- Qual é o nome da outra pessoa? - Dragut.
É o nome dela, Dragut.
- Outra jovem? - Sim.
É assim que os nossos professores reagem quando ouvem o nome pela primeira vez.
Dragut Gabriela.
186 leis.
- Quanto? - 186.
- Desculpe, quanto é por noite? - Como diz ali: Quarto duplo, 62 leis.
- Podemos pagar só por uma noite? - Acabei de alterar uma reserva por si.
- Se quiser, óptimo. Se não quiser... - Está bem, está bem.
O check-out é às 12:00. Se saírem, deixem a chave na recepção, está bem?
Está bem.
Obrigada.
T14. Olá!
Não sei se ela está cá.
Vou ver. Pode esperar?
Gabita? Consegui arranjar o quarto.
Mas não é no Unirea, é no Tineretului.
Disseram que não havia reserva nenhuma.
Eu disse-lhes, mas...
Bem, foi o que se arranjou. Ele vai compreender.
Ouve, o quarto custa 186 leis.
Um duplo, foi o único que consegui arranjar.
Por que não trataste tu disso? Estás a começar a irritar-me!
Ouve, encontra por aí alguém que te empreste outros 200 leis.
Já és crescidinha, consegues desenrascar-te.
Vê o que consegues fazer.
Deixo a chave na recepção, está bem?
Como é que vou reconhecer o tipo?
Como é que ele me vai reconhecer?
Estás maluca, Gabita?
Como é que ele me vai reconhecer, se deste a tua descrição?
Saíste-me uma rica peça!
Vou ver o que consigo fazer.
Não te esqueças de trazer o teu BI.
Até logo. Adeus.
Desculpe, onde é o número 24?
- Quem é que você procura? - Vou encontrar-me com uma pessoa.
Ele deu-me esta morada. Decebal 24.
- Você viu alguém por aqui à espera? - Não.
Trabalha aqui algum Sr. Bebe?
- Bebe quê? - Não sei. Só sei que é o Sr. Bebe.
Pergunte aos jovens da oficina. Não conheço nenhum Sr. Bebe.
- Desculpe. Sr. Bebe? - Menina Gabi?
A Gabi não conseguiu vir, estava a sentir-se mal. Sou a Otilia.
Combinámos pelo telefone que era ela que vinha.
É por isso que eu estava com medo que não nos reconhecêssemos.
- Perguntei ali na estação de serviço. - Perguntou o quê?
Se esteve aqui alguém à espera.
Como estou 5 minutos atrasada, receava que já tivesse ido embora.
- Vamos no seu carro? - Onde é que ela está?
Está à espera no hotel.
Com mais força, não está bem fechada.
- Você trabalha aqui? - Isso interessa?
Só estava a perguntar.
Posso fumar?
Escute-me, menina. Não tenho nada a esconder.
Vim no meu próprio carro. Pode anotar a matrícula se quiser.
Talvez seja tarde demais para recomeçar, mas digo-lhe uma coisa:
A confiança é essencial.
Encontro-me sempre com a pessoa primeiro, para ver se nos entendemos.
Pode confiar em nós.
Ela sentiu-se mal e não conseguiu vir.
Tentámos contactá-lo através da Ramona mas ela foi para casa.
Não temos o seu número.
Não interessa. Estava apenas a explicar as coisas. Agora já é tarde demais.
- Em que hotel é que vocês estão? - No Tineretului.
Quando falei com a Gabi, pedi-lhe uma coisa:
"Arranja um quarto no Unirea ou no Moldova."
Ela disse-me, mas estavam lotados.
Já foi complicado arranjar um quarto no Tineretului.
- A sua irmã já fez isto alguma vez? - A minha irmã? Não.
- Que idade é que ela tem? - 22. Faz 23 em Março.
- Espero que tenha uma vida longa. - Obrigada.
- Vivem juntas? - Sim.
- Mas não são de cá, pois não? - Não.
- De onde são? - Campulung.
Campulung?
- Nunca lá estive. - Não perdeu grande coisa.
- Estão numa casa alugada? - Não, ficamos num dormitório.
Como é o dormitório?
Como seria de esperar. É complicado estudar lá com o barulho.
- Onde é que estudam? - No politécnico.
Não é mau. Assim não precisam de ir para o campo.
É verdade.
Tenho de fazer uma paragem primeiro.
Espere aqui.
O que estás a fazer cá fora?
Quantas vezes tenho de dizer para não vires cá para fora?
Por que saíste de casa?
A Sra. Iancu disse-me que há açúcar na loja.
Açúcar? Para que é que precisas de açúcar?
- Não é para mim, querido. - Eu não preciso de açúcar.
Preciso que não saias de casa. Dás-me cabo do juízo!
É a terceira vez este mês que ficas trancada cá fora.
- O vento fechou a porta. - Deixa-te disso!
Toma. Vê lá se o perdes. Não tenho mais.
Não te preocupes, querido. Não o vou perder.
Pois. O que estás a fazer cá fora? Estás a ver se apanhas uma constipação?
- A Sra. Iancu estava na fila da loja... - Por que saíste de casa?
- Ela estava com medo que roubasses algo? - Não, a pobre mulher...
Eu depois falo com a Sra. Iancu.
- O que foi agora? Vai lá para dentro. - Ela está a guardar o meu lugar na fila.
- Não quero saber. Vai lá para dentro. - Está bem, eu vou.
Agora! Quero ver-te a entrar.
- Andas a comer bem? - Vai lá para dentro e pára com isso.
Viorel, alguém telefonou para ti.
Alguém telefonou para mim?
Quantas vezes te disse para não atenderes o telefone quando eu não estiver?
- Aonde pensam que vão? - Quarto 206. Já o paguei.
Não lhes disseram para deixar a chave na recepção quando saíssem do hotel?
Está alguém no quarto à nossa espera.
- Qual é o número? - 206.
Dragut Gabriela?
Sim, ela está lá em cima. A outra é minha.
- E o cavalheiro? - É um amigo.
As visitas têm de ser comunicadas. Não podem vir sem mais nem menos.
Só depois das 10:00. Foi o que a sua colega disse.
Percebeu mal.
Se alguém ficar até depois das 10:00, tem de pagar um quarto.
Todas as visitas têm de ser comunicadas.
- O seu BI? - Posso guardar o meu?
Devolvemo-lo quando vier para baixo.
206.
Gabita?
- És tu? - Sim. Estou com o Sr. Bebe.
Espera.
- Olá. Gabriela. - Olá.
Entre, por favor.
Esqueci-me do lençol de plástico.
- Arranjaste o dinheiro? - Quando?
- Quer um café? - Não, obrigado.
- Um biscoito? - Não.
São caseiros.
Sente-se, por favor.
Ainda bem que se encontraram.
Estávamos com medo de que não se reconhecessem um ao outro.
Começámos com o pé esquerdo, menina.
Pedi-lhe duas coisas pelo telefone.
Primeiro, para arranjar um quarto no Unirea ou no Moldova.
Segundo, para vir ter comigo pessoalmente.
- Acha que pedi isso apenas por pedir? - Não.
Eu percebi o que disse, mas não conseguimos arranjar mais nada.
Foi isso que a sua irmã disse.
Devíamos ter esperado até conseguir arranjar.
Agora, o meu BI está na recepção.
Lamento.
Você lamenta, mas é o meu BI que está na recepção.
Achei que não deveria adiar mais. Já adiei tempo suficiente.
- Em que mês está? - No terceiro.
Ao telefone disse que estava no segundo.
Sim, na altura estava no segundo, agora estou no terceiro.
- Qual é o seu grupo sanguíneo? - Grupo O.
Sofre de hipotensão?
Não sei... Não.
É alérgica a alguma coisa?
Não. Bem, sou alérgica a pêlo de gato,
mas não é grave. Fico apenas com borbulhas no pescoço.
- Vai dar-lhe um anestésico? - Menina...
Estou a perguntar porque não sei como é que estas coisas funcionam.
Uma amiga minha que...
... interrompeu a gravidez, disse-me que foi anestesiada.
E você, já fez algum aborto?
Vamos esclarecer as coisas. Isto não é uma curetagem, está bem?
Nunca falámos sobre isso, e não há necessidade de o fazer.
Se aceitar, vou inserir uma sonda que vai causar o aborto, percebe?
Sim, vai doer e vai sangrar um pouco, mas não será preciso anestesia.
A dor não será assim tão grande.
Seja como for, não há condições para isso.
Não se pode aplicar a anestesia em qualquer sítio.
O mais importante, é você ficar completamente imóvel
quando a sonda estiver dentro de si.
Para ela não se partir nem sair.
Não posso inseri-la duas vezes. Só posso fazê-lo uma vez. Percebeu?
O que estava à espera?
Pensava que estava decidida a fazê-lo quando me telefonou.
- Estou decidida a fazê-lo, mas... - Mas o quê?
Isto não é uma brincadeira, menina. Podemos ser presos por causa disto.
Vamos os dois presos, e eu apanho uma pena maior.
Não estamos a brincar, está bem?
Assim que começarmos, não há volta a dar.
Se tudo correr bem, depois de colocar a sonda,
você vai sangrar e o feto vai sair.
O que você fizer a seguir é muito importante.
É preciso alguém para ajudá-la. A hemorragia pode ser forte.
Se você sujar o quarto de sangue, estamos metidos em sarilhos.
É para isso que serve o lençol de plástico.
- Deixei-o no dormitório. - Deixou-o no dormitório?
Então arranjem um saco de plástico ou algo do género.
Mais uma vez, é muito importante...
... não deixar entrar ninguém.
Nem empregados do hotel. Ninguém! Mantenham a porta trancada.
Quanto tempo é que vai demorar depois de colocar a sonda?
Alugámos o quarto por três dias.
Depende. Pode demorar duas horas, ou pode demorar dois ou três dias.
Depende da reacção do corpo.
- E se eu precisar de ir à casa-de-banho? - A sua irmã pode ajudá-la.
Não se pode mexer em nenhuma circunstância.
Se a sonda sair, o que fazemos? Não o faço duas vezes.
É por isso que é tão importante ter uma amiga para ajudá-la.
Depois de sentir as contracções e depois de começar a sangrar, tudo bem.
Mas antes disso, não se pode mexer.
E tem de ter cuidado com as infecções.
Quando coloco a sonda, esterilizo-a em álcool e tudo isso.
Mas depois disso, existe risco de infecção.
Quando há sangue, existe sempre risco.
Vou dar-lhe penicilina semi-sintética para prevenir.
- Já a tomou alguma vez? - Sim.
Existe algum risco de...
Quero dizer, há alguma hipótese do feto não sair?
Tudo pode acontecer, mas não há razão para pensar assim.
Desculpe estar a perguntar isso, mas temos de considerar a pior das hipóteses.
Se ela desmaiar, ficar com febre,
ou começar a perder muito sangue, o que faço?
Chamo uma ambulância? Telefono para si?
Se chamar uma ambulância,
é meio caminho andado para irmos todos para a prisão.
Não se esqueçam disso.
Se tiverem mesmo de chamar a ambulância, não diga que não está grávida.
Ele vão perceber logo.
Diga apenas que não sabe,
que começou a sentir algo a sair mas que não percebeu o que era.
Eles não vão acreditar, mas, pelo menos, ficam com uma desculpa.
Mas o melhor é evitar chamar a ambulância.
Como é que costuma ser o seu período? Perde muito sangue?
Um pouco.
Deite-se para eu poder examiná-la.
Desaperte o fecho.
Não precisa de tirar a saia.
De quantos meses é que disse que estava grávida?
Três.
Vou perguntar outra vez. Preste atenção. Quando é que veio o seu último período?
Em Dezembro. Devia ter vindo por volta do dia 20.
- Devia ter vindo, mas não veio? - Não.
- Então o último foi em Novembro. - Acho que sim.
Vamos contar.
Novembro, Dezembro, Janeiro, Fevereiro.
Quantos meses são?
Mas eu não tenho o período desde Dezembro.
Vamos contar a partir do momento em que os seus períodos pararam, ou antes?
Talvez um pouco mais de três meses.
Nada de "talvez". Está com mais de três meses.
Mais uma vez lhe peço para se concentrar.
Em que mês é que está?
O procedimento é diferente, dependendo do mês em que está.
Talvez no quarto.
No quarto?
Ou será no quinto?
- Menina, esses detalhes são importantes. - Não pode ser o quinto.
Talvez seja o quarto, os meus períodos são muito irregulares.
Você está a brincar com os meses.
Pode ser o quarto, pode ser o quinto...
Depois do quarto mês, é um crime diferente.
Não nos condenam por fazermos um aborto.
Condenam-nos por homicídio. Cinco a dez anos de cadeia.
Sabia disso?
É bom que se lembre disso a partir de agora.
Os meus períodos não são muito regulares.
Às vezes vêm com dois meses de intervalo. Por isso é que não me preocupei.
Por favor, menina.
- Então não acredite em mim. - Eu não acredito em si.
Se são tão irregulares, vá falar com um médico.
É assim que as pessoas são.
Estão sempre a adiar, e depois vão a correr pedir ajuda.
Por que razão é que outra pessoa tem de pagar pelas suas acções?
Não fui eu que andei a fazer asneiras.
Não sei, menina.
É muito perigoso.
Acha que qualquer pessoa é capaz de fazer isto
no quarto, quinto, ou qualquer que seja o mês?
Por favor.
"Por favor" é agradável.
Mas tudo neste mundo tem o seu preço.
Nós pagamos.
A sério?
Quanto dinheiro é que têm?
Nós tivemos de alugar o quarto por três dias. Foi a única alternativa.
E depois?
No início tínhamos 3000 leis,
mas tirando o dinheiro do quarto, ficámos apenas com 2850.
Isso é um problema?
Menina, eu falei em dinheiro?
Eu falei em dinheiro pelo telefone?
Por isso mesmo. Não falou.
Perguntámos à Ramona e a outras pessoas quanto é que custava.
E foi isso que toda a gente disse. 3000 leis, no máximo.
A Ramona disse que custava 3000?
Ela disse que era isso que ela achava.
Como a Ramona está tão bem informada, deixem-na fazer o serviço.
Menina, o que é que eu lhe disse pelo telefone?
Disse que percebia a sua situação, e que podia ajudá-la.
Certo?
Eu falei em dinheiro?
- Disse que depois resolvíamos isso. - Exactamente.
Foi por isso que lhe pedi para ir pessoalmente.
Para podermos resolver isso.
Não a julgo por aquilo que aconteceu.
Todos cometemos erros durante a nossa vida.
Não lhe perguntei nada. O seu nome, ou o nome do pai do bebé. Não interessa.
Disse que a ajudava, e como vê, não tenho nada a esconder.
Vim no meu carro e deixei o meu BI na recepção.
Se a Polícia aparecer, sou o primeiro que eles levam preso.
Estou a pôr em risco a minha liberdade.
Também tenho uma família, um filho.
Se estou a ser simpático consigo e lhe ofereço a minha ajuda,
também tem de ser simpática comigo, certo?
É assim que eu vejo as coisas.
Espere um pouco, não tenho a certeza se percebi.
Eu posso esperar. A urgência é vossa.
Que parte é que não percebeu? Não gosto de me repetir.
O que é que pensavam? Que eu arriscaria 10 anos de prisão por 3000 leis?
Era isso que pensavam?
Acham que eu sou o quê, um mendigo?
Você viu-me a pedir esmola?
Vamos fazer o seguinte.
Vou à casa-de-banho. Quando eu sair, você dá-me a sua resposta.
Se for sim, tratamos de tudo. Se for não, vou-me embora.
Foi você que veio ter comigo a pedir ajuda.
Sinto-me mal. Não acredito que isto está a acontecer.
Por que disseste que estavas no segundo mês?
A Ramona disse para eu fazer isso. Ele podia recusar.
Mas ele aceitou.
Por que esperaste tanto tempo?
O que hei-de fazer agora? Já pagaste o quarto.
É com o quarto que estás preocupada? Porra, Gabita. Às vezes deixas-me maluca!
Disse-te várias vezes para teres cuidado, mas tinhas sempre a mania que sabias tudo.
O que hei-de fazer agora?
Tem calma. Não precisas de te envolver.
Uma coisa é vir comigo até cá, outra é ajudar-me a fazer aquilo. É diferente.
Dá-me o dinheiro.
Diga-nos quanto custa. 4000 chega?
- 4000, 5000? Quanto? - Vocês têm tanto dinheiro?
Então por que estamos a falar disso?
- Nós conseguimos arranjar o dinheiro. - Conseguem?
Queixam-se por o quarto custar mais 100 leis,
mas conseguem arranjar 2000 ou 3000 assim de repente?
Por favor, menina.
- Como é que o vão arranjar? - Pedimos emprestado.
- E como é que depois devolvem o dinheiro? - Isso é problema nosso.
Agora arma-se em orgulhosa.
- Estava apenas a explicar. - E arranjam o dinheiro em quanto tempo?
Até ao próximo sábado, no máximo. Conseguimos o dinheiro todo.
- Todo o dinheiro até sábado? - Sim.
Está bem, menina. Se é assim que quer fazer as coisas...
Ligue-me quanto tiverem o dinheiro, e depois falamos, está bem?
Espere, não vá embora. Podemos fazê-lo hoje, por favor?
- O quarto já está pago e... - "Podemos"? Você vai fazer alguma coisa?
Desculpe. Queria dizer você.
Então como é que vamos fazer?
Você fica com os 2800 leis, e eu prometo que até terça-feira lhe arranjo mais 2000.
Pode ser assim? Pode confiar em nós...
Por que devo confiar em vocês? Nós somos amigos?
Eu conheço-vos?
Amanhã, vocês podem apanhar um comboio e desaparecer.
- Ficaria de mãos a abanar. - Nós não faríamos uma coisa dessas.
- Eu dou-lhe o meu BI. - E o que é que eu faço com ele?
Vou persegui-la por todo o país?
Nós estudamos aqui, para onde é que haveríamos de ir?
Eu ligo para casa e arranjo o dinheiro até segunda-feira.
- Está a gozar com a minha cara? - Não estou a gozar com a sua cara!
- Eu apenas... - Apenas o quê?
Já expliquei que não gosto de me repetir.
Se tivéssemos o dinheiro, já lho teríamos dado. Mas não temos.
- Juro que o consigo até sábado. - Cabra de merda!
Acham que tenho cara de idiota?
Como gajas como vocês ao pequeno-almoço!
Outras pessoas já me tentaram enganar e não conseguiram. Acham que conseguem?
Duas espertas contra um estúpido? Que se lixe esta treta!
Espere. Ajude-me, por favor. O problema é meu, não é dela.
Ajude-me a resolvê-lo da forma como disse.
Da forma que eu disse?
Sim, os culpados devem pagar. Eu é que fiz asneiras.
- Ela não precisa de pagar por isso. - Não foi isso que eu disse.
Eu sei, eu percebi. Mas ela não é minha irmã.
Desculpe ter-lhe mentido, mas esta é a verdade.
Ela é minha colega de quarto.
Eu perguntei de quem é que ela é irmã? Já deixei isso bem claro.
Sim. Tudo o que posso fazer é assumir as minhas responsabilidades.
A minha amiga não tem obrigação nenhuma de participar nisto.
É por isso que estava a sugerir...
Aqui, você não sugere nada. No máximo, pode perguntar algo.
Já disse que a ajudava e expliquei as minhas condições.
Se não compreender, tudo bem. Ninguém a vai obrigar a nada.
O que foi que disse?
- Repita. Não consegui ouvir. - Ela disse que está com o período.
- Vou-me embora, estou farto disto. - Por favor, não vá embora!
Está bem! Meta-lhe o raio da sonda e...
E o quê?
Como é que lhe vou meter a sonda? Acha que eu nasci ontem?
Desculpe. Tem um cigarro?
Obrigada.
Deite-se.
- Está a preparar uma injecção? - Não.
- O que é isso? - Água.
Se não acontecer nada até amanhã, fazemos isto outra vez.
Dê-me a sonda.
Não fique tensa.
Avise-me quando sentir uma picada.
- Sentiu? - Sim.
Quando sentir que está a sair, vai sentar-se na sanita, está bem?
Ele sai facilmente.
Dê-me o penso.
Segure aqui.
Algo muito importante: Não corte o cordão antes da placenta sair.
Se ela ficar lá dentro, é mau.
Fique quieta até sair, está bem? Não se mexa.
- Posso cobrir-me? - Sim.
Esqueci-me de uma coisa muito importante.
Não deitem o feto na sanita para não a entupir.
Nem inteiro, nem cortado aos pedaços.
E não o enterrem num sítio onde os cães o possam encontrar.
Embrulhem-no, apanhem um autocarro, saiam em frente a um prédio alto,
vão até ao décimo andar e atirem-no pela rampa do lixo.
- Percebeu? - Sim.
Tire-lhe a temperatura de manhã e à noite.
Se estiver abaixo dos 38º, deixe-a estar.
Se subir acima dos 39º, dê-lhe uma aspirina ou algo do género.
Se quiser, posso vir cá amanhã às 2:00, ou logo à noite depois das 8:00.
Não é preciso.
- Não custa nada. - Não.
Como quiser.
Se ficar doente ou se precisar de mim, ligue-me e eu passo por cá.
Não se mexa, está bem?
Alguma pergunta?
Está bem, então vou indo.
Boa sorte.
Obrigada.
Diz-me...
Estou curiosa.
Por que é que a Ramona recomendou este Bebe?
Ele fez o aborto da Luciana.
- Não foi a Ramona que o fez. - Não.
Então por que é que o recomendou? E se ele for um sacana?
Ela pensava que te estava a fazer um favor?
Ela disse que ele o faria mesmo que eu estivesse grávida há mais de três meses.
Então por que disseste ao idiota que estavas de dois meses?
Pensava que seria melhor assim.
A sério? É melhor deixares de pensar.
E quiseres mentir, avisa-me.
Por que lhe disseste que eu era tua irmã?
Qual era a tua ideia?
Ele disse que eu devia ir pessoalmente, o que é que eu haveria de ter dito?
Por que não foste tu?
Eu pedi-te para ires, certo?
Gabita, estás a ouvir-me? Por que não foste tu?
Porque eu estava hesitante.
Por isso, mentiste.
Eu não te menti.
Não interessa a quem mentiste.
Esqueci-me de te dizer isso, mas não te menti.
Agora não interessa.
Só estou zangada por as coisas terem acabado assim por causa das tuas asneiras.
Podíamos ter ido falar com a Sra. Jeni, aquela de quem a Dorina falou.
As coisas talvez tivessem corrido melhor.
Agora é fácil de dizer isso.
Mas lembra-te que concordaste.
Não te importaste que fosse um tipo, desde que levasse menos dinheiro?
Eu disse isso?
Claro que disse que deveríamos ir aonde fosse mais barato,
mas não disse que era indiferente ser um homem ou uma mulher.
Nunca pensei assim.
Achas que eu pensei assim?
Raios partam!
Se aquela cabra tivesse feito a reserva, nada disto teria acontecido.
Por que fizeste a reserva pelo telefone?
Disse-lhe que eu era de outra cidade.
Disseste?
Está bem.
- Sobraram cigarros? - Não.
Este quadro é muito estranho.
Estás bem?
Sim.
- Isso dói? - Sinto umas picadelas.
Doeu quando ele a meteu.
Tenho de ir ter com o Adi.
É o aniversário da mãe dele. Prometi-lhe que ia.
Queres que ligue o candeeiro?
Não, deixa estar assim.
Podes dar-me um copo de água, por favor?
Volto daqui a uma hora.
- Queres comer alguma coisa? - Não tenho fome.
- Mais logo terás fome. - Tenho os biscoitos.
- Vou trazer-te uma salada. - Não tragas, não a vou comer.
Depois vemos isso.
Vou deixar aqui o número.
Liga se acontecer alguma coisa.
Não deixes o número, não vou telefonar para lá.
Eu ligo-te de lá, mas de qualquer forma, ficas aqui com o número.
Vou indo. Fica bem, está bem?
Não deixes entrar ninguém.
Vais embora ou não?
E a chave?
Vou trancar-te aqui dentro e vou levá-la comigo.
Não te preocupes. Vais ficar bem. Eu volto rápido.
Adeus.
Menina.
Menina.
O senhor que estava consigo esqueceu-se do seu BI.
Não me digas que além de teres chegado atrasada, te esqueceste das flores.
Se vais falar assim comigo, vou-me embora.
Por que estás tão irritada?
- Boa noite. - Boa noite.
- Sou a mãe do Adi. - Sou a Otilia. Muitos parabéns!
Obrigada. Deixa-me dar-te um beijo.
Obrigada por teres vindo.
Gina! Onde estão esses pickles?
Entra, eu vou já. Vou só buscar os pickles.
Entra!
Preciso de fazer uma chamada.
Boa noite. Quarto 206, por favor.
- Otilia, apresento-te o meu pai. - Pai? É assim que me apresentas?
- Otilia. Muitos parabéns! - Obrigado. Vamos para dentro.
Não precisas de tirar os sapatos.
Adi, dá-lhe os teus chinelos.
Calça-os para não ficares constipada. Fica com os meus.
- Não é preciso. -Calça-os.
Entra, não tenhas vergonha! Entra!
Boa noite.
- Esta jovem é a namorada do Adi. - Otilia.
Estes são os Rusus. São os padrinhos do Adi.
Dr. e Sra. Aldea, o Dr. Racoviceanu que é cardiologista e a sua mulher.
Oferece uma cadeira à menina, estás a deixá-la confusa.
Então tu és cardiologista, enquanto eu sou um simples doutor?
Quando vieres ter comigo por causa da tua próstata, veremos quem é mais importante.
E eu? Sou sempre a mulher do doutor, em vez de ser farmacêutica.
Onde é a casa-de-banho?
Com licença.
- Onde é a casa de banho? - Ao fundo do corredor. Adi, liga a luz.
- Queres sopa? - Não posso ficar muito tempo.
Não digas isso. Acabaste de chegar.
Lavaste as mãos?
Disseste para eu passar por cá, não era para jantar com a tua família.
É só até eles abrirem o champanhe. Depois vamos para o meu quarto.
Está tudo bem?
Pára, estou toda transpirada.
Aqui vai a sopa. Entra.
Podes ir.
Enquanto o Dima não se reformar, o departamento ficará sempre na mesma.
Queres parar de falar no Instituto? Nunca te calas com isso.
- Gostas de uísque? - Bebo sumo se tiver.
Adi, dá-lhe um pouco de sumo.
- Ela não bebe. - Eu bebo, mas agora não me apetece.
Ainda bem, uma menina não deve beber.
- Queres um pouco de peru? - Nem bebes um vermute?
- Vinho velho. - Agora não me apetece.
- Talvez esteja em jejum. - Não estou em jejum.
- Ouvi dizer que és do Condado de Galati. - Sim, da cidade de Galati.
Conheces o Dr. Ivanov, o cirurgião? É um grande especialista.
Não. Quando acabei a secundária, sai de lá e vim cá para a universidade.
- Era um antigo aluno meu. - Graduou-se com 10 a tudo?
Com uma média de 9.9 ou 9.8.
Quando nós tirávamos um 7 a Anatomia, todo o dormitório festejava.
Agora, há sempre 10 alunos por turma a graduarem-se com média de 9.9.
Até com 10.5!
Um amigo do Adi que tirou 10 a tudo, teve um bónus da Associação de Estudantes.
- E também têm um bónus se forem casados. Sim, isso também.
Vê lá se te casas para ganhares o bónus.
- Até ficou corado. - Deixem o rapaz em paz.
Os teus pais também são professores?
Não. O meu pai é militar, e a minha mãe está reformada por doença.
Eles trabalharam juntos quando eram mais novos.
Às vezes, as pessoas mais simples são mais sensatas do que as mais instruídas.
Isso depende do meio ambiente em que estejam.
O Dima também veio da província.
Entrou no Partido graças às suas raízes trabalhadoras e agora está onde está.
Não vais falar no Dima outra vez. Vamos fazer um brinde.
Brindas com sumo?
Aumenta o volume. Vamos ouvir o que o sábio tem a dizer.
Isto é carne de porco?
É um pesadelo cozinhar para esta família.
Desde pequeno que o Adi não come carne de porco.
Quando viu um bocado de gordura no prato, nunca mais comeu.
E na sopa também. Se vir uma bolha de gordura, nem lhe toca.
Nem frango comia.
Se lhe metesse frango com pele na lancheira, ele dava-o aos amigos.
Isso deixava-me irritada. Naquele tempo não ganhávamos muito.
Eu ganhava 2280 por mês.
Eu passava 3 horas numa fila para conseguir um quilo de carne.
Mesmo assim, ele era selectivo.
As crianças têm de aprender que a vida é difícil. No futuro ninguém os vai mimar.
Quando era novo, mandavam-me tomar conta do gado.
Fazia os trabalhos de casa à luz de uma lamparina.
Éramos nove irmãos. A minha mãe metia a comida na mesa
e quem fosse mais rápido é que comia. - Nota-se que eras bastante rápido.
Eram todos exigentes. Quando casei com o Grigore,
se o puré não estivesse como o da mãe, ele não o comia.
- Velhos hábitos demoram a morrer. - Ainda não é como o da minha mãe.
- Mas é bom. - Está bem, é muito bom.
- Como é que ela o fazia? - Hoje em dia, as pessoas têm muito mimo.
- A minha mãe deitava-lhe leite. - Eu também deito.
Eu deito manteiga e água a ferver.
Cada um faz à sua maneira.
Nós não tínhamos manteiga, mas a minha mãe metia sempre batatas na polenta.
Quando éramos novos, era diferente.
Agora, recebem tudo de mão beijada.
Olha para eles. Dormitórios, bolsas de estudo, comida da mamã e do papá...
Não é assim tão fácil. Não te esqueças dos casos em que o Estado
os mete a trabalhar numa qualquer aldeia abandonada onde ficam enterrados.
Qual é o mal desse sistema?
Antes de eu vir para Roman, passei 8 anos em Cotnari e sobrevivi.
Serve-te. Não esperes que te sirva.
O que desejas?
E se as raparigas não casarem durante o tempo da faculdade,
acabam na província com o professor da terra ou com o padre.
Um padre que, normalmente, é o maior bêbedo da aldeia.
Não generalizes, querido. Os padres não são todos iguais.
Excepções.
A maior parte tem vídeos, televisões a cores, e estão sempre ocupados.
- E estão ocupados com o quê? - Estão ocupados com as confissões.
Não sei, já não costumo ir à igreja.
Nós só vamos na Páscoa. Podemos ser presos por isso.
- Presos por quem, querida? - Pelo padre!
Essa foi boa.
Os meus ovos da Páscoa eram os melhores de todos.
Não se riam. Sabem quem é que encontrei na igreja nesta Páscoa,
escondido atrás de uma coluna?
O Tones!
O Aurel perguntou-lhe: "Onde é que está o teu livro de graduação?"
Não, querida. Disse-lhe apenas: "Dá-me o teu livro. "
Fizeste bem.
Ele disse-me: "Não me fales assim, Aurel", e coisas do género.
A minha cunhada trouxe-nos da Alemanha a tinta para os ovos.
Também costuma trazer-nos maçapão pelo Natal. Delicioso.
No ano passado, todos os meus ovos se partiram a cozer. Só Deus sabe porquê.
- Os meus ficaram todos bem. - É preciso usar uma boa tinta.
- Eu uso óleo para os deixar a brilhar. - Eu uso manteiga.
Com essa tinta Alemã, não é preciso nada disso.
- Tínhamos tinta amarela, verde e laranja. - E azul.
Não, fiz a azul juntando a amarela e a verde.
Nós, quando acabamos as pinturas, damos o resto da tinta aos vizinhos.
- Este ano, demos à Sra. Albu. - É a nossa porção de boas acções.
Obrigada. Queres um cigarro?
- Só gosto de uma marca. - Tira um.
Obrigada.
- Onde é que estudas? - No politécnico.
Antes, os rapazes iam para o politécnico e as raparigas iam para medicina.
Já vais começar?
A vantagem do politécnico, é não nos mandarem para a província,
mas trabalhar toda a vida numa fábrica...
- Estás num dormitório? - Sim.
Os quartos levam quantas pessoas?
Normalmente, quatro. Mas mudei-me para um quarto onde estou só com uma amiga.
- Rapariga astuta. - Ainda bem para ela.
Não é bonito estar a fumar em frente aos pais do seu namorado.
- Emilian! - O que foi?
Tinha 43 anos quando o meu pai morreu, e ele nunca me viu a fumar.
- Muito saudável. - Como se ele não soubesse que fumavas!
- Adi, vai buscar o champanhe. - É uma questão de respeito.
Agora, as crianças desafiam-nos na nossa cara.
- O Valentin é igual. - Quem é que te desafia?
Está bem, pode não ser a melhor palavra, mas tu sabes o que quero dizer.
Eu não concordei quando o meu filho se esquivou do recenseamento militar.
Devia experimentar a vida de militar para aprender a ser homem.
- O meu filho fez a mesma coisa. - Não concordo com isso.
Achas que passar nove meses a levar porrada vai fazer dele um homem?
Eu não queria que ele sofresse. Para quê?
Deviam ver aqueles que ficam lá durante 16 meses. Coitados.
- Os guardas fronteiriços sofrem mais. - Sim, as punições são piores.
Não estamos a falar disso.
Não dispensámos o Adi porque o seu pai não quis.
Era uma questão de princípios. Assim ele podia ir estudar Química.
Não vamos falar disso agora.
Química é muito bom. Podia ser meu assistente. Ele ia gostar.
Ele depois repete o exame.
- Por que não pode repetir agora? - Como é que ele vai conciliar tudo?
- Vamos abrir o champanhe? - Sim, vamos.
Grigore, podes chegar as taças?
Parabéns a você...
Aqui estão.
Muito parabéns, querida!
- Podes chegar-me o telefone? - Sim, espera.
A Adela está ao telefone.
Queres dizer-me o que se passa?
Estás de mau humor desde que chegaste.
- Não quero falar sobre isso. - Não me vais dizer?
- Queres mesmo saber? - Claro que quero.
Seja o que for, diz-me.
Estive a ajudar a Gabita a fazer um aborto.
- Era para isso que querias o dinheiro? - Achas que um aborto custa 300 leis?
Então, para que precisavas do dinheiro?
Eu pago-te na segunda-feira, não te preocupes.
O meu pai teve um colega que apanhou 3 anos por ajudar um paciente.
Se fosse eu que estivesse grávida, o que faríamos?
- Não comeces. - Pode acontecer.
Já pensaste nisso? O que farias?
Não desvies os olhos, responde.
- Já pensei em quê, exactamente? - O que farias se eu ficasse grávida.
- Não vais ficar grávida. - Como é que sabes que não estou?
Estás?
Nem sequer sabes quando é que eu estou à espera do período.
Claro que sei. É por estes dias.
Por que haverias de te preocupar? O problema não é teu.
Por que dizes isso?
Já engravidaste desde que estamos juntos?
Na segunda-feira, disse para não te vires dentro de mim e não quiseste saber.
Por que estás a falar nisso agora?
Tens vergonha de falar nisso, mas não tens vergonha de o fazer.
Não percebo por que estás a falar nisso se não estás grávida.
Quero saber aquilo que posso esperar de ti.
Não te preocupes. Se acontecer, eu trato disso.
Pois.
Por que estás assim?
Já te deixei mal quando precisaste de mim?
Sabes quantas vezes é que precisei de ajuda? Nem fazes ideia.
Não tenho culpa de tu não me dizeres.
Queres que eu adivinhe os teus problemas?
- Eu podia ter ajudado nisso da Gabi. - Podias ter ajudado?
Nem sequer consegues falar nisso, como é que ias ajudar?
- O mais importante é teres cuidado. - Não te preocupes. Não contarei contigo.
- Pelo menos, a Gabita ajudar-me-ia. - Estás a dizer que eu não te ajudaria?
Eu disse que sou contra o aborto, pelos perigos que isso envolve.
- Então, qual seria a tua solução? - Não sei. Casar contigo.
- Então, se eu ficar grávida... - Vamos parar com esta conversa.
Não faz mal, não vou passar a minha vida a cozinhar-te puré.
Otilia.
- Os amigos dos meus pais irritaram-te? - Sim, mas o problema não é esse.
Sei que também pensas que os meus pais são pessoas simples e sem instrução.
- Já me ouviste dizer isso? - Eu sei aquilo que pensas.
- E já o disseste. - Quando é que eu disse isso?
Posso entrar?
Trouxe leite-creme para vocês.
Mas guardem espaço para o bolo merengue.
Por que estão às escuras?
Podes ir buscar o telefone?
Ouve. Desculpa-me se fiz algo errado.
- Eu amo-te, quero ficar contigo. - Traz-me o telefone.
- Eu disse que estava arrependido. - Tu pediste desculpas.
Mas, pelo menos, sabes por que o fizeste?
Diz-me.
Pediste desculpas porquê?
Porque não quero que fiques zangada por minha causa.
Se fiz alguma asneira, foi sem intenção.
- Quero que nós nos entendamos bem. - Até quando?
Até o Estado me colocar sozinha num sítio qualquer?
Eu disse-te para não me tocares.
Vai correr tudo bem.
Vamos os dois para a residência. Não vamos discutir mais.
Traz-me o telefone.
Podes deixar-me sozinha a falar com a Gabita? Não demoro muito tempo.
Boa noite. Quarto 206, por favor.
Desculpe, alguém subiu ao quarto 206?
Mihartescu, estive aí esta manhã.
Não, não precisa de ir lá a cima. Obrigada.
Tenho de ir.
O que foi? A Gabi está bem?
Espera mais cinco minutos. Eles vão cortar o bolo merengue.
Gostava de ficar, mas não posso. Desculpa.
Pelo menos, vai despedir-te.
Faz isso por mim. Tenho mesmo de ir.
Já reparaste no quanto isso é embaraçoso para mim?
Desculpa. Adeus.
Por favor, não precisas de me acompanhar.
Vai para dentro. É embaraçoso estar à espera do elevador em silêncio.
- Boa noite. Quarto 206. - O seu BI?
A recepcionista já ficou com os meus dados esta manhã.
- Mihartescu... - O seu BI.
Acho que está lá em cima.
- Diga à sua amiga para o trazer cá. - Já liguei para lá, ela estava a dormir.
Eu depois trago-o, não a quero acordar.
- Por que não o tem consigo? - Só saí para comprar cigarros.
- Só saiu para comprar cigarros. - Daqui a pouco venho cá trazê-lo.
Gabita?
O que se passa?
Por que não atendeste o telefone?
Já me livrei dele. Está na casa-de-banho.
Atende. Diz-lhes que eu já vou.
Tens um saco?
Tens um saco ou algo do género?
- Isto serve? - É demasiado pequeno.
Vais enterrá-lo, não vais?
Prometes?
Não vou deitá-lo fora, simplesmente.
- Volta rápido. - Tem calma. Tranca a porta.
Se o recepcionista vier cá, diz-lhe que eu já fui para baixo.
Sabe a que horas passa o último autocarro?
Daqui a uma hora mais ou menos. Não sei.
- Posso encontrar algum táxi por aqui? - Não andam táxis por aqui, menina.
- Obrigada. - De nada.
Gabita?
Gabita!
Gabita!
O que aconteceu?
Houve uma discussão no Copo de Água.
A sua amiga está à sua espera no restaurante.
- Ela está no restaurante? - Sim, ela desceu há cinco minutos.
É do outro lado. Esta zona é para a festa.
Obrigada.
O que estás a fazer?
Não sabia onde é que estavas.
Estava esfomeada.
Acho que estou com febre.
- Tomaste uma aspirina? - Tomei a penicilina semi-sintética.
Enterraste-o?
Sabes o que vamos fazer?
Nunca mais vamos falar sobre isto, está bem?
- Servem comida até tão tarde? - Sim, está prestes a vir.
- O que é isso? - É o menu do Copo de Água.
Temos bife de vaca, bife de porco, fígado e mioleira com pão ralado.
Pode trazer outra garrafa de água, enquanto não decido?
Legendas traduzidas por: ...BrOnCkHoRsT...
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