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Um filme de
DÁ LICENÇA? Alberto Sordi
- Bem-vindo, dr. De Sica. - Obrigado, meu caro.
Bom dia, mestre.
Como correram as filmagens esta noite?
Estava um tal nevoeiro que nem sequer se via a câmara.
O nevoeiro de Milão...
Mestre, desculpe...
Se aparecesse um papel, uma coisa pequena, lembre-se de mim.
Chamo-me Alberto Sordi e estudo representação.
Eu sei... dizes-mo todos os dias desde que cheguei a Milão.
Tem razão. Queria saber se tenho a cara certa para fazer cinema.
A cara não diria... mas a tua voz é interessante. Trabalha nisso!
A voz? Obrigado, mestre.
Mas que tem a minha cara?
- Sordi! - Sim?
Já acabámos de incomodar os clientes?
Peço desculpa, estava só a homenagear o grande De Sica,
um mestre do nosso cinema. - Sei perfeitamente quem é.
E sei também que escolheu este hotel pela nossa grande discrição,
não para ser incomodado por um porteiro.
Peço desculpa. Garanto que não voltará a acontecer.
Claro que não. Considera-te despedido.
Obrigado... Despede-me por estar a falar com De Sica?
E não só. Também porque é frequente chegares atrasado.
Terá acontecido uma ou duas vezes, quando vou...
À Academia de Representação, sim... todos sabemos que queres ser actor.
Sabe então também que preciso deste emprego.
Por favor, director. É assim que pago a Academia.
Lamento, mas em Milão o trabalho é uma coisa séria.
Entrega a farda e felicidades para a tua carreira artística.
Vamos, Sordi!
Surgindo das nuvens escuras,
o caça austro-húngaro avançava ameaçador sobre trincheira italiana,
escavada na terra húmida do Piave... De repente, o Inferno!...
Todos os soldados se atiravam para o chão...
Entre as tropas dizimadas pairava o medo,
enquanto o horror da guerra...
- Basta, Sordi! - Que foi? Enganei-me?...
Enganar? Enganar já seria alguma coisa...
Mas como?... Ensaiei toda a noite este caça austro-húngaro.
Não deixei dormir ninguém. Giulio, diz-lho tu também...
- Confirmo. - Ele confirma...
Massacraste este texto, Sordi,
e ainda por cima continuas a gesticular como um actorzeco ambulante.
Gesticulo demais? Sendo assim, faço já aterrar o caça.
Assim parado, como a senhora gosta, com as mãos assim!
Silêncio! Há semanas que tento dar-te uma entoação decente.
E que fazes? Continuas a deturpar a correcta dicção da língua italiana,
com esta tua ridícula pronúncia romana...
Não... se me permite, Sra. Varani...
Eu chamo-me Varini!
Sim, sra. Varini. Se me permite, eu sou romano, e com muito orgulho.
Só que eu inspiro-me nas pessoas que vejo nas ruas, na gente vulgar,
para ser mais genuíno, espontâneo.
Senão, é artificial. Fica artificial, sra. Varini...
Insistes? Então, façamos assim, Sordi:
não tens lugar na minha academia.
Nunca serás um verdadeiro actor...
Nunca serei um verdadeiro actor?
Veremos, sra. Varani, Varini, como queira!
Mas sabe o que vou fazer entretanto?
Vou apanhar a única coisa bonita que têm em Milão... o comboio para Roma!
Silêncio!
Porque choras?
Porque choras?
- Não estou a chorar. - Estás, pois.
Não estou nada.
Meninas, não aborreçam o senhor.
Desculpe-as... São um pouco intrometidas.
Não se preocupe... É a cebola que me faz chorar.
Pus demais. Isto é, de modo excessivo, como diria a sra. Varani.
Meninas, vamos?
Até à vista.
Realização
Obrigado pela boleia!
Albè... voltaste ao redil?
- Como correu em Milão? - Bem, bem...
Conheceste gente importante?
Calcula! Fiquei amigo do grande Vittorio De Sica.
Estava a rodar um filme e disse-me que tenho a cara certa para o cinema.
Óptimo!
Aida, podes subir? A minha mãe está à tua espera.
- Viva, Iside! - Olá, Albè! Sê bem-vindo.
- Anda lá... - Já vou.
- Tenho de ir dar a injecção à velha. - Vai lá, boa sorte.
- Mexe-te! - Estou a ir.
Mario, despacha-te que vais chegar atrasado à escola.
Eu vou lá. Deve ser o correio.
Acho que sim...
- Vê lá não te incomodes... - Estou ao telefone, mamã.
Diz-me tudo...
- Olá, mamã... - Alberto!
O Alberto voltou...
Cá estou! A névoa do norte não me agarrou.
Que fazes tu aqui?
Que faço?... Toma, trouxe-as para ti.
Papá! O Alberto voltou!
O Alberto?...
Olá, Savi! Olá, Aure...
Mas desculpa, o curso na academia não acabava no mês que vem?
Sim, mas houve... um contratempo.
Como um contratempo, Albè? Que aconteceu?
Na prática... Ruiu o tecto da sala de exames.
Santo Deus... Podia ter sido um massacre.
Pois. Felizmente, não estava lá ninguém.
A Academia fechou e depois logo avisam.
Felizmente, correu tudo bem. Depois logo me contas,
quando voltar da escola. Adeus, Alberto.
- Não há muito para contar... - Adeus, Albè, sê bem-vindo.
Mas como aconteceu isso?
Talvez já estivesse danificado... Notaste alguma racha, algo assim?
Não... Não sou engenheiro como tu, Pi. Não reparei.
Vou andando... Já estou atrasado para a universidade.
Bem-vindo! Adeus, papá!
Seja como for, Albè, aparte o tecto...
Que te disseram na Academia? Serves para representar?
Sim, a professora disse que tenho alguns problemas de dicção,
mas diz que sou uma promessa...
Bravo! Mas agora não deves repousar sobre os louros...
Há que estudar sempre.
Claro, eu sei.
Tu há já cinquenta anos que estudas a tua tuba...
Temos de ser bons naquilo que fazemos, temos de nos especializar.
Se não praticasse, como estaria na orquestra do Teatro Costanzi?
A especialização é sempre uma necessidade.
Lembra-te disso.
Gostas das flores, mamã?
Então, fecharam a Academia...
Sim, e nem se sabe quando reabrirá.
Claro. Cai o tecto da sala de exames e eles fecham toda a Academia.
Sim, em Milão são muito rigorosos...
- Enlouqueceste?... - Não; mas também não sou estúpida.
Tu agora vais dizer-me a verdade.
Peço-te desculpa, mamã. Menti porque estava envergonhado.
Mas é mesmo como se aquele tecto me tivesse desabado em cima!
Mas porquê, que aconteceu em Milão?
A professora de representação
disse que tenho uma pronúncia romana ridícula,
e nunca serei um verdadeiro actor.
Mas eu juro-te... É a única coisa que quero realmente ser.
Juro-te.
Está bem... se é isso que queres realmente fazer, eu...
... não me oponho.
Mas tens de prometer-me que te vais aplicar,
e te tornarás o melhor de todos.
O melhor, não um qualquer!
Tens de tornar-te o Alberto Sordi!
Prometo-te.
Amanhã, vou à Cinecittà, procuram actores jovens para "Cipião, o Africano".
Esperemos que sim.
Agarrem as lanças...
A vocês deram-vos o papel dos pobretanas...
Ris de quê? Olha que pobres ou centuriões, recebemos todos o mesmo.
Sim? E o prestígio? Onde metes o prestígio?
- Onde o metes?... - Queres que diga? Tens a certeza?
- Não digas... - Silêncio!
Então agora todos calados e ouçam.
Quero todos os soldados romanos deste lado,
enquanto os do povo devem ir todos para ali!
Força! Rápido...
Vocês para ali... vemo-nos logo.
- Posso dar-te uma palavra? - Que queres?
Se me fizeres um favor, dou-te metade do que receber.
E seria?...
Tens de pedir ao realizador que me dê uma fala. Uma só.
Vais fazer boa figura, estive na Academia de Milão...
Meio salário?
Avé, César!
Alto!
Mas que tem César a ver? Ele é Cipião, o Africano. Percebeste?
Ele é Cipião, o Africano?...
Mas é um cônsul...
É como dizer "Saudações ao Duce" a um dignitário fascista.
Pena que Júlio César tenha nascido oitenta anos depois de Cipião.
- Entendeste? - Oitenta anos depois...
- Tens a certeza? - Armando!
Cá estou, dr. Gallone...
- Mas quem diabo é este?! - Alberto Sordi, estudei representação...
Leva-o daqui, senão estrafego-o!
- Porquê?... - Anda... esquece, ainda insistes?
Diz-me como devo saudar e eu faço-o!
Tu não saúdas nada, desaparece. E tragam-me outro centurião!
Nunca consigo nada... não consigo.
Que vou eu dizer à minha mãe?
E tu, porque estás já aqui?
Porque estás aqui?
Porque ao fazer a saudação romana, pus um César a mais.
Lamento.
A quem o dizes...
É que de vez em quando gostaria de fazer mais, e fazer melhor!
Mas o que devia fazer era estar calado.
Mas és simpático...
Dizes isso porque te dou pena?
Não, porquê? Pelo contrário.
Iole... querem-te no local de filmagens. Despacha-te.
O Cipião descoseu a túnica.
E tu tira esse fato, preciso dele!
Sim, sim...
Vai-te matar, Cipião...
"Procuramos locutor de dobragem.
"Reputada produtora abre concurso para encontrar uma voz italiana,
à volta dos quarenta anos, para dobrar o cómico Oliver Hardy"...
Quarenta anos.
Bom dia, minhas senhoras.
Chegou o Rudolfo Valentino.
Vocês também?...
Olá, mamã.
Que cara é essa?
Uma noite terrível...
O teu pai não pregou olho com uma daquelas suas cólicas.
Outra vez?
- Como está agora? - Um pouco melhor.
Ouve, como correu na Cinecittà?
Improvisei uma... disse uma fala a mais, o realizador não gostou.
Toma, leva este chá de camomila ao teu pai.
- Alberto... - Sim...
Da próxima vez, faz só o que o realizador te disser.
Está bem.
Está bem...
Como estás, papá?
Como estou...
Estou que me desagrada descobrir que o meu filho é um mentiroso.
Foi a mamã que te disse?
Somos uma família unida e dizemos tudo uns aos outros. Nós...
Mas onde erraste?
É que em Milão não gostam da gente de Roma...
Portanto, na tua opinião, expulsaram-te da Academia
só porque és romano...
Não... também porque sou casmurro, orgulhoso, se calhar respondo...
É o carácter que me trama, que posso fazer?...
E portanto, já que és casmurro,
é inútil lembrar-te que tens também um diploma de contabilista.
Mas eu recordo-te: tens também um diploma de contabilista.
Papá, atrás de uma secretária, eu... não me vejo.
Depois, sempre gostei de cantar, representar, dançar, contar histórias...
Queres pôr-me atrás de uma secretária?
Albè, não quero desencorajar-te, mas escolheste uma profissão difícil.
Até músico é uma profissão difícil. E tu conseguiste.
Mas eu empenhei-me sempre.
E eu vou empenhar-me mais do que tu.
Vá, dá-me lá essa camomila antes que arrefeça...
Eis a sua camomila, excelência...
Como falas?...
Não... é uma personagem que inventei, uma figura cómica.
Não faças caso...
Nunca acreditarão...
Desculpa... Quem deveria acreditar em quê?
Os do concurso de dobragem.
Nunca acreditarão que tenho quarenta anos. Olha...
Enfim, quarenta talvez não.
Mas com um bigodinho, julgo que parecerias uns anos mais velho.
E como faço? É hoje à tarde...
E então?
Cresço um bigode de repente, mamã?
Mas eu não estou a falar de cresceres um bigode...
77!
"As pernas das mulheres"... Deve dar sorte.
Então, boa sorte.
Entre!
Com licença... fecho?
O bigode, não é?
Uma ligeira alopécia, desde rapaz.
Nome ou pseudónimo, cidade de origem, profissão e idade.
Sim. Alberto Sordi, nascido em Roma.
Actor, cantor, locutor de dobragem, quarenta anos.
Quarenta anos...
Talvez alguns menos, mas muito mais paixão.
Deixe-me fazer a audição, senhora. Peço esta oportunidade, por favor.
Sala três. Ao fundo do corredor.
É um encanto...
Olá, Oliio!
Olá, Stanlio! Onde estiveste?
Estive no barbeiro a fazer a barba.
Os barbeiros somos nós... estúpido.
Pois... Que fazes?
Lembras-te da viúva a que escrevemos?
Enquanto estavas fora, recebi uma carta dela. Olha bem...
Uau, que senhora!...
Mas é estranho... A mim nunca me respondeu.
E porquê estranho? Não fazes o tipo dela.
Vamos contratar este Sordi. É muito divertido.
Mas venceste mesmo o concurso de dobragem?
Sim, mamã. Serei a voz do grande Oliver Hardy.
Estou tão feliz...
Então, o bigode falso resultou?
Sim, de facto.
Estou muito orgulhosa de ti, meu filho...
Gosto muito de ti, mamã. Até logo.
Adeus!
Então, explica lá... Contrataram-te para dobrares esse Ollio?
Esse Ollio?... O grande Oliver Hardy... "esse Ollio"?!
Então, estamos garantidos. Paga ele o jantar.
O grande Oliver Hardy...
Ainda não me pagaram e já me queres cravar?
Já esse bigodinho...
Não é nada, colaram-no para fazer de Zorro.
Tolos! Não consigo arrancá-lo...
Alberto!
Iole...
Boa noite...
Que bela surpresa! Também trabalhas aqui?
Sim, de vez em quando ajudo o meu pai. É o dono.
Iole, despacha-te.
Sim, papá, sim...
Papá...
Logo, se quiseres, levo-te a casa. Assim falamos um pouco.
De bom grado, obrigada.
Agora dêem-me um instante para recolher os pedidos.
Com que então, Zorro...
Ouve, pergunta-lhe se tem uma amiga.
Perguntamos ao pai...
Ao Zorro!
Pronto?
Sim, mas faz um pouco mais devagar...
Sim, sim...
Respira...
Que coisa! Colaste-o com massa de vidraceiro?
Foi a minha mãe. Usou gelatina.
És um bocadinho menino da mamã...
Como assim?
Assim fazes-me sentir estúpido.
Achas que se dermos um beijo, ficamos colados?
Experimentemos...
Bem-vindo!
Mamã! Ainda estás acordada?
Onde estiveste até esta hora?
Estive a... comemorar.
Sim? E comemoraste com Baton?
Nota-se?...
Mas não te escapa nada?
Quem é essa rapariga?
Conheci-a na Cinecittà. Chama-se Iole.
É modista, mas gostaria de ser figurinista.
Temos um monte de coisas em comum, é querida.
Não te parece que vais depressa de mais?
Porquê?
Porque para seres um grande actor, tens de te empenhar muito.
Haverá tempo para formar família.
- Tens ciúmes?... - Tem juízo.
Anda cá... Sabes que não encontro ninguém como tu.
Como é aquela?...
Não esqueças as minhas palavras Miúda, tu não sabes o que é o amor
- Estão todos a dormir... - Deixa-os dormir.
É algo mais bonito do que o sol...
Um bocadinho chato...
Mas os fatos são lindos.
Eu gosto mais de ti.
Ainda bem que o filme queimou...
Como assim? Este filme foi distinguido com o prémio Mussolini em Veneza!
Então, vou já a correr buscar outra cópia...
Silêncio os dois!
E os senhores riem de quê?
Porquê, não se pode? Este filme é de um tédio mortal.
A única fala que me fez rir foi aquela do rapaz.
E quem é o senhor, para avaliar?
Eu sou actor, porquê? E o senhor quem é?
Eu sou um distinto crítico de cinema.
E, francamente, não me lembro de já o ter visto num ecrã.
E, com essa carantonha, acho que nunca o vou ver.
Que tem a cara?
- Repete isso, se tens coragem... - Albè, esquece... anda.
Só porque me dás pena...
Você é que dá pena. Parolo e ignorante!
Isso, critica, vá...
Ajuda! Socorro! Socorro!
Delinquente!
Parolo, eu?
Deve agradecer aos céus já ser velho...
Mas porque te irritas tanto? Ias andar à pancada por um filme?
Que tem isso a ver? É uma questão de princípio.
E depois o cinema para mim é tudo.
Espero que um dia seja a minha vida.
E eu?
O quê?...
Estarei na tua vida?
Gosto muito de ti, Albè.
E, às vezes, penso que talvez nos casemos e vivamos juntos...
E como? Eu com as dobragens mal ganho para mim.
Por agora, trabalhamos os dois; depois se verá.
O importante é haver amor, não? O resto vem por acréscimo.
Sempre desejei ter um monte de filhos!
O que é, já não te agrado?
Como não me agradas, Iole? É que...
É que?
É que agora não posso comprometer-me.
Tenho de concentrar-me no trabalho, na carreira.
Então para ti o teu trabalho é mais importante?
Para já, sim.
Para mim, são importantes os sentimentos, Alberto.
E se pensas assim, talvez seja melhor não voltarmos a ver-nos.
Lamento, Iole... Temos visões diferentes.
Então, boa sorte, Alberto.
Boa sorte para ti...
Bom dia! Desculpe, o dr. Pugliese, para uma audição...
- Está no Estúdio Um. - Uma simpatia...
Chega... muito bem!
Desculpe... mas quem é o senhor?
Alberto Sordi, vim para a audição.
Sou a voz de Oliver Hardy, o cómico americano.
Acaba de sair um filme em que fiz dobragem.
Percebi. Mas a audição já foi ganha por um colega seu, lamento.
Sim?
Perfeito! Ainda bem para ele.
Vou deixar um cartão de visita... Ei-lo.
Qualquer coisa, não hesite em ligar-me.
Canto, danço, represento, imito... Tudo o que quiser.
Bem, obrigado. Não nos esqueceremos de si.
Isso, não se esqueçam. Obrigado. Bom trabalho!
- Fecho? - Feche, feche...
Bela seca, este Sordi...
Mas a voz não era má.
Bom dia, minha senhora!
Jovem... aonde vai?
Tenho um presente para o dr. De Sica.
Eu fico com ele.
É muito gentil, mas preferiria entregá-lo pessoalmente, se puder.
E quem é o senhor? É do espectáculo?
Reconheceu-me?... É verdade, sou a voz de Oliver Hardy.
De quem?
Stanlio e Ollio. Está a ver? "Não se arme em estúpida..."
Não?... Está bem, pouco importa. Posso?
- Terceiro andar. - Obrigado!
Mestre, bom dia!
- Bom dia. - Recorda-se? Alberto Sordi.
Claro...
Agora trabalha no bar?...
Na verdade, depois de Milão, entrei no mundo do espectáculo.
Portanto, não foi o bar aqui em baixo que te mandou?
Vim presenteá-lo com ciambellone feito em casa pela minha mãe.
Sei que lhe agradam as coisas genuínas e assim permiti-me...
Agradeço-te, mas não posso.
Para já, estou de dieta e, segundo, estou a trabalhar com argumentistas.
Portanto, não pode receber-me...
Infelizmente, não. Saudações.
Nem um minuto? Teria uma bela ideia para lhe propor.
Sordi, estás a bloquear um fluxo criativo.
- Achas bem? - Não...
Se é um fluxo criativo...
Óptimo...
Então, adeus.
Um fluxo criativo...
Peço desculpa...
- Quem era? - Ninguém.
Um que quer ser actor. Então, onde tínhamos ficado?
És tu a jogar.
Talvez as meninas queiram uma fatia de ciambellone feito em casa...
- Não, obrigada... - De nada.
Também estão de dieta...
O teu retrato, Inês. Gostas?
Que coisa! Sou assim tão feia? Desaparece...
Jovem!
- Que te sirvo? - Um copo de leite.
Chegou fresquíssimo esta manhã.
Ciambellone feito em casa. Era para o pároco, mas não estava.
- Quanto me dás?... - Posso dar-te... dez liras.
Só?
Amor, não te estiques. No máximo, posso oferecer-te um copo de leite.
Está bem... melhor do que nada.
A Ines tem cá um génio...
- E não só. - Tens razão.
Desculpa, mas tu não estavas no Cinema Farnese,
quando se queimou o filme de Abuna Messias?
- Também lá estavas? - Não te lembras? Posso?
Mandaste uma boca àquele velho e depois piraste-te.
Eu comecei a rir e ele chateou-se comigo.
- A sério? - Por pouco, pegávamo-nos.
E depois, como se não chegasse, também discuti com a miúda.
Acabámos.
Se ela gostou daquele filme, fizeste bem em deixá-la.
Não, gostava do guarda-roupa. Ela é modista, para o cinema.
Conhecemo-nos assim.
- Porquê, que fazes tu? - Locutor de dobragem. Por agora.
Mas queria muito ser actor.
Eu também gostaria de trabalhar no cinema.
Mas, para já, faço isto.
- Que fazes, és caricaturista? - Sim.
No "Marc'Aurelio", o jornal satírico.
- És bom. Tens uma bela mão. - Obrigado.
Prazer. Alberto Sordi.
Federico Fellini.
Ouve, por acaso tens um cigarrinho?
E não tens saudades da tua Rimini?
Claro. O mar, a praia...
As cabinas, o nevoeiro...
- Até do nevoeiro tens saudades? - De algum modo, sim.
O nevoeiro tem um poder mágico.
Torna belo mesmo aquilo que é feio.
Acredito... não se vê nada.
Tu gostas de sonhar?
Às vezes, sonho em tornar-me um grande actor.
E se assim não for?
Se não acontecer, mato-me, Federì. Queres que eu morra?
Não, por favor...
É que, para mim, a vida é menos real do que os sonhos.
- Depende... - De quê?
Vês aquilo? A Ponte Quebrada.
Se sonhares que te atiras de lá, não acontece nada.
Se te atirares mesmo, magoas-te...
Como estou atrasado...
Tenho um encontro importante. Adivinha com quem.
- Com quem? - O mestre Aldo Fabrizi.
Dá-lhe cumprimentos meus.
Fico aqui a apreciar a Ponte Quebrada. Adeus!
Ouve, vemo-nos no bar. Eu estou sempre lá a desenhar.
Está bem. Ciao, Federì.
Percebeu, mestre? Eu não estou zangado com o cinema,
mas na sua opinião onde está o meu erro?
- Que me falta? - Sal.
Sal?
Deves pôr mais um bocadinho de sal.
Sim... pronto. Está bem assim?
Bravo. No cinema, deves saber quando corre bem.
Deves saber escutar, medir... É um equilíbrio difícil.
Também o teatro é difícil.
Sim, mas o cinema tem o grande plano. A cara fica muito evidente.
Só arquear a sobrancelha, já é um terramoto... entendes?
Sim.
Em suma, tens de mudar de registo expressivo.
E também deves juntar pecorino...
Pecorino?...
Está bem assim?
Tu talento tens; só tens de esperar o momento certo.
Percebi, sr. Aldo, mas quando chega esse momento certo?
Agora.
Pronto. Senão a massa coze demais...
Carbonara com massa muito cozida...
Desculpe dizê-lo, sr. Aldo, mas tenho a leve sensação... leve...
... que não está a ouvir-me.
Jovem, a carbonara é uma coisa séria. Ao contrário do cinema.
Podes usar essa expressão num filme, quando um amor te deixa.
Agora, faz uma cara feliz... Sorri mais um pouco.
Lembra-te que estás em grande plano.
- E despacha-te com os ovos. - Os ovos...
Volta a fazer a cara. Agora está pronto.
Estou pronto, para o cinema?
Talvez gostasses de um pouco mais de lume,
mas para a minha carbonara, está pronto de certeza. Vamos comer!
Vamos comer...
Combatentes de terra, mar e ar...
Camisas negras da revolução e das legiões...
Homens e mulheres de Itália, do império e do reino da Albânia!
Uma hora marcada pelo destino...
- A mamã? - Foi à missa.
Trouxe-lhe sal.
- Que aconteceu? - O Duce declarou guerra.
Apaga isso...
Declarou guerra? Então, terei de ir...
Se tens medo que te mandem para a frente, entendo-te.
Não tenho medo. Faço o meu dever,
mas só que se conseguisse fazer o serviço militar em Roma,
poderia continuar com as dobragens.
Poderia pedi ao Genio. Talvez me metam num escritório cá.
Tu estudaste... E eu, para onde vou?
Talvez pudesse dar-te uma ajuda para ficares em Roma.
- Teria de falar com o Castrucci. - Quem é o Castrucci?
O director da banda do exército. O problema é que não tocas nada...
- A sorte do Alberto, que fica cá... - Aquele safa-se sempre.
- Bom dia, Itália! - Olá, Albè...
Don Elì... Por aqui?
O teu pai queria confessar-se.
E não podia ir à igreja?
Alberto, não está em condições.
Como assim? Porquê?
Que se passa?
- Papá... - Albè...
- Mas que tens tu? - É a cólica do costume.
Não te preocupes.
Deixem-me sozinho com os rapazes. Tenho de falar com eles.
Sentem-se...
Albè... Continuas a fim de ser actor?
Claro, papá.
Mas tens de ser realista.
Realista?
Eu, por exempl, queria tocar violino. Mas havia demasiada concorrência.
E, no fim, escolhi um instrumento menor, a tuba.
Nós sabemos. Furas-nos os tímpanos todos os dias.
Só eu e um colega de Milão é que a tocamos.
Há sempre trabalho para nós, entendes?
És bom na dobragem. Demonstraste-o com o Ollio.
Então, especializa-te como locutor de dobragem.
Tenho razão, Pino?
Vou pensar nisso, papá.
Fica sossegado.
Se me acontecesse alguma coisa,
têm de prometer-me que pensam vocês na família...
Claro, papá, não tens de te preocupar.
Mas que te vai acontecer?...
E depois como é, deixas o trabalho todo ao outro de Milão?
Ele vai aproveitar...
Albè, vai buscar-me água... Tenho sede.
Não te preocupes, mamã.
Estou cá eu.
Albè, chegou esta carta. Para o teu pai.
Para o papá?
É um convite para tocar na orquestra de Arturo Toscanini, numa tournée.
Imagina como teria ficado contente... Nunca viajou.
Lamento muito pelo Pietro. Era óptima pessoa.
Vou tentar ir trabalhar...
É dura a vida de um estudante.
Esta manhã, na escola, esperava passar despercebido,
não tendo conseguido estudar ontem, porque... rasguei o cestinho.
Estava demasiado cheio, tive de pô-lo a arranjar!
O professor, assim que entro na sala, diz-me: "Fabrizi, ao quadro!"
Professor, não é para me justificar, mas tive um problema intestinal.
Comi muitas castanhas assadas...
Mas ele: "Não tenhas medo, vou fazer-te uma pergunta muito fácil".
"É a Terra que gira à volta do Sol ou o Sol à volta da Terra?"
E eu digo... "Na verdade, nunca reparei!"
Albè, és o máximo!
Obrigado! São maravilhosos!
E agora... directamente de Montmartre,
depois de tantos êxitos em Frascati, Velletri e nos châteaux romains,
senhoras e senhores, as Divette!
Que panorama!
Pode-se?
Alberto, agora não tenho tempo. Tenho de ir para o palco.
Como para o palco?...
Mas que maravilha, Marisa minha...
Vamos dançar os dois...
Marì, somos nós agora.
Estavas escondido?...
Sim, vou já!
Vais com ele?
Mas não me escapas.
Não a cortes ao meio que é uma pena!
Cuidado que o mágico faz-te desaparecer...
Sr. Aldo! Que prazer vê-lo aqui...
- Bravo, gostei muito. - Obrigado.
- Dito por si, é um grande elogio. - Mas dou-te um conselho...
Quando me imitares, faz mais pausas.
Porque, nas pausas, eu represento com os olhos.
Está bem, assim farei.
Incomodo? Sordi? Também queria felicitá-lo, foi óptimo.
- Obrigado. - A grande Andreina Pagnani.
O mínimo é ofereceres o jantar.
- Obrigado. - Não tem de quê. Bom apetite.
Conheço praticamente de cor todos os filmes que a senhora dobrou.
Não consigo imaginar Bette Davis com uma voz diferente da sua.
- Que simpático... - Mérito seu...
Se quiserem que vos deixe sozinhos, não se acanhem...
Não, mestre, não queríamos incomodá-lo.
Estava tão absorvido pelo seu segundo prato de bucatini...
... terceiro.
Nada a fazer.
A amatriciana do Menghi ressuscitaria os mortos.
E os vivos pagam.
Menghi, contas separadas...
Permite-me?
Obrigada.
Posso fazer-lhe uma pergunta?
Sim, mas trata-me por tu. Somos colegas, não?
Vou tentar.
Como é que uma mulher tão bela e fascinante como tu, não é casada?
Na verdade, fui casada. Mas fiquei viúva.
Lá está, eu sabia. Fiz uma bela figura...
Não.
Desculpa... é que estar junto de ti, emociona-me.
És uma mulher de grande fascínio.
Tem cuidado... recordo-te que tenho muitos mais anos do que tu.
Somos perfeitos. Eu pareço mais velho.
E depois, como se costuma dizer, os actores...
... não têm idade.
- Quando é a estreia? - Daqui a uma semana.
- Vais emocionar-te? - Sempre emocionada, nunca passa.
- Obrigada por me teres acompanhado. - Que ideia... foi um prazer.
E quando posso voltar a ver-te?
Vai ao teatro, então.
Seria uma honra.
Boa noite.
Querida Andreina... de cada vez que a vejo, está mais bonita.
Que cavalheiro, Di Cori...
Boa noite...
Quem é, um apaixonado?
- Tenho de desafiá-lo para um duelo? - Não!...
É um professor de Física, mora no andar acima do meu.
Coitado, não são tempos fáceis. Perdeu até o emprego.
- Lamento. E porquê? - É judeu.
É um facto que estas leis raciais são uma coisa absurda.
E não vão melhorar.
Espero-te no teatro, então.
Está bem. Faço como o professor... Boa noite, Andreina.
Boa noite, Alberto. Obrigada.
Sou eu que agradeço.
Mario... apaixonei-me pela tua irmã.
Mario, apaixonei-me pela tua irmã!
Mario, sabes a tua irmã?... Apaixonei-me.
Esquece, que logo casas com a irmã...
- Que bela surpresa! - Que fazes vestido de ave rara?
Tenho um papel em "Os Rapazes da Aviação".
Outro filme de propaganda do tio?
Sim, mas pelo menos sou um dos protagonistas.
- Fico contente! - E tu, que fazes aqui?
Estou a colaborar no guião de um filme.
- Boa! Estás contente? - Caramba, não me pagam!
Não, mas estou satisfeito, estou a fazer aquilo que queria.
Ouve lá, quando estamos um tempo juntos?
- Esta noite? - Está bem.
Apetece-te ir a um lugar um pouco estranho?
Como estranho?
Então, Santina, que dizes?
- Vês alguma coisa? - Sim.
Vejo uma imagem.
É um homem calvo, musculoso e brilhante. Aliás, vejo cinco.
Todos iguais e musculosos.
Esperemos que não te arreiem...
- Silêncio! Não interrompas. - Desculpe.
Seja como for, podes estar descansado. O teu futuro é radioso.
E o futuro do meu amigo... Que nos dizes?
Eu preferia mulheres...
De preferência, nem calvas nem musculosas.
Corta.
E vejamos...
Mulheres, terás muitas.
Mas o teu destino é ficares sozinho.
Sim? E o trabalho?
É curioso, o teu amigo...
Um familiar?
Não. Um que se metia na vida dos outros.
Vejamos, então... o trabalho.
Vejo muitas desilusões.
Podes mergulhar na derrota...
... ou então, reerguer-te e vencer.
Só depende de ti.
Seja como for, são vinte liras.
Para ti, nada.
Albertino, que tens tu? A vidente comeu-te a língua?
Preferia ter gasto vinte liras num belo jantar.
Já assim estou em jejum e com a previsão de um futuro incerto.
Pelo menos o teu será radioso, disse ela.
Já era altura...
Mas acreditas mesmo nela? A mim parece-me uma charlatã.
O facto é que a verdade é pouco fascinante.
Já a mentira é mais variável, mais misteriosa...
Anda, anda... rápido!
- Que se passa? Procuram-te? - Não, sou objector de consciência.
Se me apanham, estou feito.
Sim?
Italianos! A pátria vive horas fatais...
Condeno este vil argumentista a escrever filmes de regime
para todo o resto da sua miserável existência!
Fala baixo, que nos prendem!
Medo... Gostaste da imitação do cabeçudo?
Espera lá... podes repetir?
Quem, o Duce? Disseste que nos prendem...
- Não, o salto, é divertido... - O salto?
Serve para dar o tom, percebeste?... E continuamos...
- Eu cá acho que te vai dar sorte. - Esperemos que sim.
Que dizes, Federì? Vamos mesmo ter êxito com este trabalho?
Albertino, se eu soubesse...
Mas podes sempre perguntar à vidente.
E tu a dares-lhe com a vidente!
Vamos dormir, anda. Já é uma hora.
- Sorte a tua, que podes. - Porquê, tens insónias?
Não, é que a esta hora na minha tia já fecharam o portão
e não há forma de entrar. - Como fazes?
Ora... enfio-me no primeiro portão aberto que encontro.
- No chão? - Já não é a primeira vez.
Espera um pouco...
No teu futuro, vejo... um divã.
O de minha casa. Achas que te deixo dormir no chão, Federì?
Não mo digas duas vezes!...
Anda...
Não quero arranjar-te problemas com a tua família.
Ora! Basta que não faças barulho, porque a mãe tem o sono leve.
Fica aqui.
É claro que para ti é um pouco curto, mas não posso alongar o divã...
Está óptimo, imagina... Muito bem.
Dava-te a minha cama,
mas se o meu irmão acorda com um estranho ao lado, dá cabo dele.
É engenheiro, tem pouca fantasia.
Se tiveres sede, a cozinha é ali à esquerda.
- Vou buscar-te uma manta. - Albertino...
- Queres ir à casa de banho? - Não...
Queria agradecer-te. És um amigo.
Não é nada mau...
Toma, Federì...
Olha, desmaiou.
Boa noite, meu amigo.
Bravo! Bravo!
Com licença...
Peço desculpa, com licença...
Mas que maneiras...
Boa noite.
Entre!
Pode-se?
Alberto! Anda, entra.
Estiveste maravilhosa!
Obrigada!
Uma pequena homenagem ao teu talento.
Obrigada, são lindas.
Não fui muito original. Vejo que tens imensos admiradores.
Ainda bem...
Vê lá que tédio... Devia mudar de profissão.
Por favor... é tão bonito ver-te chorar no palco e rir no camarim.
Ajudas-me, por favor? Podes desapertar?
- Posso? - Deves.
És tímido?
Não, não...
Assim, não chegamos tarde ao jantar com o teu amigo e a noiva.
Já está.
Obrigada...
Como se chamam?
Federico e Giulietta.
Despacho-me num instante.
Dá-me só uns momentos para a maquilhagem e a peruca.
Espero aqui.
- Tens um sítio melhor? - Não, não...
Mais uma gota para a Dama das Camélias...
Aqui está, meus senhores...
Uma chicória assim só se come no Menghi.
- Até sonho com ela... - Maravilha... e bom apetite!
Como é que vocês os dois se conheceram?
Na rádio. O Federico colabora nos textos de Cico e Pallina.
Eu sou a Pallina!
Se posso dizê-lo, enfeitiçaste este rapaz.
Nunca o vi com este olhar lânguido, de enamorado...
É que a Giulietta é mágica... Sim...
Que faço, digo-lhe?
Vamos casar-nos.
- E dizes isso assim... - E como devo dizer?
Bem, é uma grande notícia, um golpe de teatro...
Isto é que a tua vidente não tinha previsto...
Que tem isso a ver? As videntes também não vêem tudo.
- Mas que vidente? - Tem a mania das videntes.
Então, um brinde aos noivos!
- Já agora, também às videntes! - Ao meu padrinho.
- Quem é? - És tu, Albertino. Se quiseres...
Nem paralisado deixava de ir... Felicidades!
Ouviste na rádio?
Depois da rendição de Badoglio, há poucos motivos para estar sossegado.
Na verdade, estou preocupada contigo.
Tenho uma má notícia, Giulietta.
A cartomante disse que vamos envelhecer juntos. Lamento muito...
- Obrigado, minha querida. - Faça favor, sr. Sordi.
Alberto, quero apresentar-te uma amiga minha, Tina Lattanzi.
Toda Hollywood fala com a voz dela.
Parabéns! Muito prazer. Aliás, muito "prazorrr".
Que bem! É muito divertido a voz que dá a Oliver Hardy.
- Obrigado. - Terá êxito na dobragem.
Ainda que um dia espere ver a minha cara no ecrã.
Pensa então ter a figura certa para fazer cinema?
Diria que perfeita. Uma cara larga, um nariz grande, olhos lânguidos.
Melhor do que isso...
Minha senhora, peço desculpa. Perguntam por si à entrada.
Claro. Volto já.
Sordi? Não te deixes seduzir.
Já fui seduzido pelos canapés, fica sossegada...
- Sem ofensa. - Não, não... estão óptimos.
Professor...
Andreina, peço desculpa se a incomodo neste momento,
mas queria agradecer-lhe por me ter apresentado aquele tipógrafo
que me ajudará a fazer os documentos.
Fico felicíssima por ter podido ser-lhe útil.
- As coisas estão cada vez piores. - Eu sei, Di Cori, eu sei.
Espero partir o mais breve possível.
E eu desejo-lhe toda a sorte do mundo, meu amigo.
Até à vista.
Minha senhora, se não precisa de mais nada, ia andando...
Claro, obrigada Elvira, até depois.
Muito querida, a Elvira.
Muito, sim.
Obrigado por este dia magnífico. Também me vou embora.
- Posso? - Faz favor.
Que bom apresentar-te os meus amigos...
Para ser franco, estava um pouco emocionado.
Sim?
Sim. Tudo gente importante, culta...
Sabes que a Tina gostou imenso de ti?
Sim?
Experimenta.
Nunca tocar com os lábios na mão.
- Não? - Não; é deselegante.
Que faço, beijo a minha?
Terei muito a aprender contigo.
Será um prazer.
Ciao, Alberto.
Obrigado de novo.
Quem é?
Quem é?
Sou o professor Di Cori...
Gostas de brincar...
Mas contigo gostaria que fosse a sério.
- Obrigada, monsieur. - Muito, madame.
- Também vamos ter aulas de francês. - Está bem.
Porquê eu? Que te agrada em mim?
O teu robe...
Ofereces-mo?
Gosto de tudo em ti, Andreina.
Aliás, acho que estou meio apaixonado...
É demasiado cedo para dizer isso.
Será demasiado cedo, mas nunca me senti assim.
E em mim, que te agrada?
A tua energia.
Só? Esperava que dissesses que era lindo...
Posso esperar que me acompanhes ao casamento do Federico?
Mas como não posso ir?...
Vou ser padrinho, já tinha avisado.
E que queres que te diga, Sordi? Vai, vai, não te preocupes.
Hei-de arranjar alguém para substituir o teu número.
Obrigado.
Antes de ires, esvazia-me o camarim. - Esvazio o camarim...
- E amanhã não voltes. - E amanhã não volto...
Em suma, é melhor este meu amigo arranjar talvez outro padrinho...
Isso, óptimo. Vejo que percebeste.
- Vai lá preparar-te. - Vou, sim.
Sim, senhoras e senhores. Sou um pobre touro emigrado, desempregado.
Isto arranquei-o a um toureiro famoso.
Agora só o uso para afastar as moscas da garupa.
Porque em Roma não se encontra um toureiro.
São calões, só querem comer.
Rabo de boi alla vaccinara. Eu também tenho rabo.
Alguém tem coragem de vir cá buscá-lo?
Força! Aquele senhor, por exemplo. Tem cara de toureiro...
Apetece-lhe subir ao palco?
Um grande aplauso de encorajamento a este senhor!
Já toureou alguma vez?
Na verdade, não...
Mas vejo que é um homem de crença, é casado.
Sim, há quinze anos.
Quinze anos... Então já sabe o que são cornos.
Agora, quando eu passar por baixo, o senhor emite um belo "Olé!", sim?
Por favor, maestro...
Esperem um momento. Luzes de sala, por favor...
Desculpem, não queríamos interromper o espectáculo.
Pedimos desculpa...
Meus senhores, peço desculpa por este pequeno extra-programa,
mas vieram saudar-nos dois artistas, dois amigos, que acabam de casar.
Um grande aplauso para Federico Fellini e Giulietta Masina!
Federì, é um pouco cedo para os cornos... Vou continuar com ele.
Por favor. Quando passar por baixo, um belo "Olé!"
Por favor, maestro!
Não soubeste mais nada daquele senhor Di Cori?
Não, infelizmente não.
- Viva, Marcè! - Viva, Albè...
Pobre professor... Que lhe terá acontecido?
Espero que os documentos falsos o tenham ajudado a fugir.
Espera...
O que é?
Algo que está mal?
Estás maravilhosa, sabes...
Sou eu que não estou à altura. Anda!
Italia, bom dia!
Que aconteceu? Ficaram mudos?
- Pino, não te armes em tímido. - Que ideia...
Não queria perturbar o almoço.
O Pino estuda Engenharia... É o cabeçudo da família.
Elas também são estudiosas. A Savina é professora, como a mamã.
E a Aurelia em breve o será.
Em suma, o único burro aqui sou eu.
Mas foste sempre fantástico a representar.
Sempre foi a paixão dele, desde miúdo.
Até no altar, quando era acólito. Conta-lhes, mamã...
Para nós, o palco é uma espécie de altar. Portanto...
Não, minha senhora. Não confundamos o sagrado e o profano.
Desculpe, mas esta é uma casa devota.
Peço desculpa, não queria...
Lamento.
O caldo está óptimo!
Está muito bom. E actualmente é difícil arranjar uma galinha.
Na verdade, comprei-a no mercado negro.
Já era velhota, mas...
É como se costuma dizer: "Galinha velha faz boa canja"!
Nem sempre.
Tens de ter cuidado como falas. Aqui são todas professoras...
Já me sinto reprovada...
Vou buscar o guisado.
Vou dar uma ajuda à minha mãe... Com licença...
Mamã, que te deu? A Andreina ficou triste.
- É a ti que deve agradar, não a mim. - Porque não te agrada?
Se queres a minha aprovação, não posso dar-ta.
Mas se nem sequer a conheces...
É viúva! É actriz e tem quase mais quinze anos do que tu.
E, ainda por cima, confunde o altar com um palco.
Foi uma maneira de dizer...
Uma mulher séria não seduz um homem que poderia ser seu filho.
E se tivesse sido eu a seduzi-la, porque me apaixonei?
Não te iludas, não durará. Sai!
Que aconteceu, Alberto?
Não, é que... a mamã partiu um prato. Não aconteceu nada.
É a emoção de ter em casa uma grande diva.
Hoje, 4 de Junho de 1944,
as tropas aliadas comandadas pelo General Clark,
entraram em Roma acolhidas por uma multidão em delírio...
Olha como estão contentes...
Acredito... expulsaram o bigodudo.
Num dia como este, como consegues não estar optimista?
Tens razão... dá cá um abraço. Roma está livre!
Alguns de vocês já o conhecem como a voz de Ollio,
mas hoje vai apresentar-nos uma nova personagem.
Senhoras e senhores, Alberto Sordi!
Está, quem fala?
Está, é o Mario Pio?
Sim, aqui Mario Pio. Está, quem fala? Com quem falo?
Fala Corrado Mantoni. Ouça, Mario Pio...
Pode explicar-nos em que consiste a sua nova rubrica?
É para já. Mario Pio é o seu cordial inconfidente telefónico.
Célere e sem demora, dá-lhe um conselho,
usando palavras de conforto em todas as labutas.
Então, podem ligar-lhe todos os italianos
que precisarem do seu precioso conselho...
Certamente. Estou ao vosso incompleto dispor!...
Então, Corrà, gostaste do Mario Pio?
Foste fantástico! Mas olha que eu não tinha dúvidas...
Quando te vi no teatro, percebi logo o talento que tinhas.
Não exageres nos elogios... E tenho de te levar a almoçar fora.
Albè, olha que não é boa ideia, porque eu sou um bom garfo...
Sordi!
- Fez-me rir, sabe? - Dr. Pugliese, obrigado.
Escute, eu teria uma proposta...
Deixe-me tentar ter um programa só meu;
tenho tantas personagens muito divertidas...
Na verdade, poderíamos chamar-lhe "Fala-vos Alberto Sordi"!
Que pensa, sr. director?
Escute, Sordi. Nunca nenhum artista teve um programa sozinho na rádio.
Pelo que continuamos assim.
Está bem... obrigado na mesma.
Alberto, lamento. Tentámos.
Tudo bem, Corrà. Continuaremos a tentar.
Finalmente! Pensava que já não viesses.
- Bom dia! - Bom dia. Desculpa o atraso.
Que fazes?
O Riccardo Freda propôs-me o papel de Irmã Simplicia,
num filme inspirado n'"Os Miseráveis".
Fico contente.
Então, que dizes? Aceito?
Não sei, eu faço rádio. Que posso dizer-te?
Desculpa, porque me respondes assim?
Como te respondi eu, Andrei? Nunca li "Os Miseráveis",
não sei quem é a irmã, vi o Riccardo Freda uma vez em tua casa...
- Que conselho posso dar-te? - Alberto, muda de tom, por favor.
Posso até mudar de tom, mas a essência em nada muda.
A verdade é que és rica, famosa e fazes cinema.
Eu sou a voz do Ollio!
Já percebi, é essa a razão: tens ciúmes.
Não tenho ciúmes. É que tu não me aprecias como actor.
Não é verdade! Alberto, eu só disse que és um óptimo locutor de dobragem
e que poderias especializar-te...
Já estou mesmo cansada. Estás sempre nervoso, rancoroso.
Não tenho culpa se o cinema não te quer!
Claro, que te importa a ti? Basta que eu faça de bobo...
Agora és ofensivo... e infantil.
Talvez seja demasiado novo.
Claro; a velha sou eu.
Não disse isso.
Mas pensaste-o.
- Não pensei, Andreina... - Pensaste!
Anda cá...
Não queria ofender-te.
Devias ter pensado antes. Mas sei que é verdade.
És muito novo. Demasiado.
Andreina...
Faltava isto...
Bons olhos te vejam!...
- Sabes quem é a Irmã Simplicia? - Uma personagem d'"Os Miseráveis".
Vês? Tu sabes...
Um dia tramado?...
- Discuti com a Andreina. - Deixou-te?
Foi-se embora; diz que sou infantil.
Sabes o que é, Federì?...
Isto dela ser rica e famosa... Sinto que ando um pouco a reboque.
E porquê?
E depois, Albertino, na nossa profissão, ser infantil é uma vantagem.
- Dizes tu... - Acredita.
Tenta deixar que isso lhe passe, talvez.
Que hei-de fazer?
Mulher e diva... Eu teria uma abordagem clássica.
Clássica?... Ou seja?
- Bem-vinda, senhora. - Boa tarde, Elvira.
Fazes-me um chá de camomila, por favor?
- Com certeza. - Obrigada.
E estas? De onde vêm?
- Quem as trouxe? - Um admirador.
O estafeta deixou isto.
Que lindas...
"A criança que há em mim, pede-te perdão."
Prometo que não repito.
Amo-te, Andrei.
Di-lo de novo.
Amo-te, Andrei.
Para comprar aquelas rosas, tive de fazer cinco turnos de dobragem.
- O importante é o resultado, não? - O resultado?...
O resultado é que fiquei sem uma lira, Federì.
Ouve, e aquela audição? Aquela que fizeste na Cinecittà?
O realizador disse que estão na moda aquelas caras sofridas, emaciadas...
E eu, com estas bochechas, que hipótese tenho?
Eu sei. A guerra alterou a forma de fazer cinema.
Agora é o neo-realismo...
Histórias de redenção,
classes desfavorecidas que querem esquecer o passado...
E depois filmam no meio da rua.
A Cinecittà tornou-se dormitório dos refugiados.
Já percebi que a moda agora é o neo-realismo.
Mas a realidade não tem de ser contada forçosamente de modo triste.
Também se pode fazê-lo com um sorriso, não?
É preciso ser capaz. Tu, por exemplo, tens a comédia no sangue.
Tens os ritmos cómicos.
Sim, entretanto sou cómico na rádio.
Até pedi ao director que me desse um programa só meu.
Mas nada, não quer.
Convence-o. Lá teimoso és...
- Um belo cabeçudo!... - Diz o roto ao nu.
Apetece mesmo estas férias junto ao mar.
Quando chegarmos, tomamos um belo banho.
- O táxi não chegou. - Talvez não seja preciso.
Como não?...
Que fazemos? Vamos de lambreta para a estação?
Poderia ser uma ideia... Ou então, aquele não é lindo?
Lindo... É lindo, sim. Belo carro!
É o spider.
De quem será?
Porque não vês se estas o põem a funcionar?
Com essas?...
Parabéns!
Que dizes?
Parabéns!
És doida...
Uma doida maravilhosa!
- Lindo este lugar... - Sim, lindo.
Era preciso o teu aniversário para fazermos estas belas férias juntos.
Mas que bela ideia tiveste com este barquinho.
É romântico...
É romântico, mas para o ano oferece-me antes uma lancha rápida...
Não me vais querer a remar a vida toda.
Caíram-me aqui, não sei onde!
Dr. Pugliese, que bela coincidência...
Sordi, olhe, não é boa altura. Caíram-me agora os óculos ao mar.
Peppino, então? Atira-te!
- Dr., eu não sei nadar... - Um marinheiro que não sabe nadar!
- Não se preocupe, eu trato disso. - Sim, mas aqui é profundo.
É impulsivo mas é corajoso.
- Encontrou-os? - São estes?
Muito bem, Sordi. Ficam-lhe bem, sabe? Obrigado.
Dê-mos.
- Agora fico em dívida. - Dê-me o programa na rádio.
Aquele só meu. Garanto-lhe que será um sucesso.
Sordi, não se entusiasme, mas falamos logo ao jantar.
- Com certeza, obrigado. - Estou hospedado no Bellavista.
Até logo, então.
- Aqui tem. - Ainda bem que os encontrou.
Ouviste, amor? Temos um convite para jantar do director da Eiar.
Ainda bem que estávamos aqui.
Bela coincidência...
Sim... agora sou todo para ti.
Vou apanhar-te dois ouriços; há imensos.
Faz o que quiseres.
Bem-vindo a Milão, dr. De Sica.
- Tratas tu das bagagens? - Claro.
Menina Margherita, quer vir tomar banho comigo?
Na verdade, estou à espera do meu noivo.
Enquanto espera...
- Olá, Angelo. - Seja bem-vindo, mestre.
Sirvo-lhe o costume?
É fantástico, este Alberto Sordi, dr. De Sica...
Com efeito, devo dizer que não é nada mau.
E pensar que trabalhava aqui como porteiro.
Eu sei, eu sei...
Está a fazer uma bela carreira.
E acho mesmo que será famoso.
Sr. Sordi...
- És o melhor, Albè. - Obrigado!
Quando a mamã me disse que era o senhor ao telefone,
pensava que estivesse a brincar.
Em suma...
Daqui?...
Que foi, é uma carantonha?
Mestre, se tem de dizer-me alguma coisa que não me agrade, diga.
Se calhar, mato-me, mas pelo menos deixo de sofrer.
Não, adia o suicídio, Sordi.
- Queria dizer-te... - Sim...
... que me diverte muito o teu personagem radiofónico,
aquele um bocado parvo que atormenta a pobre Menina Margherita.
Como se chama?...
O imparável compagnuccio della parrochietta!
É isso! E como é que ele faz sempre?...
Mamma mia, que susto!
Esse poderia ser o título do filme!
Que filme, desculpe?
Aquele que eu e tu vamos produzir juntos.
Estás contente?
Sim... produzimo-lo juntos. Eu não tenho uma lira.
Bens imóveis?...
Algo para dar como garantia?
Tenho um spider, mas é um presente.
Tudo se resolverá... O dinheiro vai e vem.
Sobretudo, vai...
- Então, que dizes? - É a ocasião que sempre esperei.
- Quando começamos? - Temos de escrever o guião.
- Não te parece? - Claro.
Mas tens uma cara um bocado larga...
- Motor! - Câmara!
Acção!
Menina Margherita, sei tantas cançonetas destas...
Quer ouvir um ritmo sincopado, um ritmo americano? Sim?...
"Santo Deus, que fiasco!"
Que faço, leio-te a crítica?
Sintetiza, Federì...
O filme foi chumbado, mas tu passaste com suficiente.
E depois, talvez, corra melhor com o público...
E qual público? Os salões paroquiais boicotaram-no,
e a censura proibiu-o a menores!
Se eu e o De Sica não falirmos, é um milagre.
Até os botões de punho vou ter de vender!
Sim, mas tu lembra-te sempre do que te disse a vidente.
O teu futuro... Albertino, olha para mim. Só depende de ti.
Sim, no sentido que me posso matar directamente?
Se fosse a ti, esperaria.
Seria uma pena, porque para a semana vou estar com o meu produtor
e se conseguir convencê-lo, serás o protagonista do meu primeiro filme.
- Não é altura para brincar, Federì. - Chama-se "O Sheik Branco".
Sim, porque eu faço de árabe como ninguém...
O Sheik Branco não é um árabe, é uma estrela das fotonovelas.
E quem é? Como é ele?
É um rufia romano, bonitinho, vaidoso...
Que se arma um bocado para ocultar as suas origens modestas.
Que dizes? Aceitas?
Que te digo... dá-me o turbante e fazemos esse árabe.
Ettore! A conta...
Mas vê lá, não te entusiasmes tanto...
Gostava de te ver a ti, Federì...
Que dizes? Agrada-te?
É lindo, mas não será demasiado juvenil?
Porquê, és velha? Fica-te maravilhosamente.
E é um prazer dar-te uma prenda, mamã.
Tem mesmo um óptimo filho. Ouço-o sempre na rádio.
Como faz o Mario Pio?...
"Está, Mario Pio. Quem fala, com quem falo eu?"
Para criar o Mario Pio, inspirei-me em Maria Pia Moretti,
a primeira cronista da rádio.
Há que ter cuidado, Amalia, que este imita-nos a todos...
Mais do que imitar, observo, elaboro, reproponho.
Há imensas personagens interessantes. Já viste?...
- Meu Deus! - Que tens?
Mamã... traz-me água, por favor?
Vem para aqui... espera. Pronto.
Estás melhor?
- Queres que chame um médico? - Não, não é preciso...
Eis a água... um bocadinho de água.
Devagar... pronto.
Espera. Refrescar-te um pouco...
Já estou melhor. Foi só uma tontura, mais nada.
Comes pouco, mamã, comes pouco.
Antes de ir para a rádio, levo-te a comer qualquer coisa.
Anda. Vamos acabar este vestido. Pregaste-me um susto...
É o Alberto.
Chegaste?
Que aconteceu? Voltou a sentir-se mal?
Sim, estava a cozinhar e de repente desmaiou.
- Já chamaram um médico? - Sim, está lá dentro, na consulta.
Que diz ele?
Temos de esperar, Albè!
Temos de esperar.
- Mas quando é que se sentiu mal? - Ao jantar, eu disse-te.
- Estava a cozinhar e foi-se abaixo. - Foi-se abaixo... desmaiou?
Dr., que diz? Que tem a minha mãe?
Foi uma queda de tensão?
O coração está muito cansado. Está a ceder.
Como cansado e está a ceder?... Que ideia é essa?
- Lamento. - A mamã é forte!
Esteve sempre bem. Digam-lhe vocês, ele não a conhece...
- Sempre esteve bem! - Albè...
Entendo o que diz, mas infelizmente é esta a situação.
Não creio que sobreviva.
Não sobrevive?
Que ideia... Quem diz que não sobrevive?
Que diz este médico? Quem é que o chamou? Foste tu, Pino?
Pino, foste tu que o chamaste?
- Que diz este médico? - Alberto! Ouve-me...
Não deixes que a mamã te veja assim; digo-o por ela.
Entendes? Agora acalma-te e vai vê-la.
Vai falar-lhe...
Mamã...
Alberto...
Se querias assustar-me, conseguiste.
Mas já chega.
Eu estou de partida.
Que dizes? É um mal-estar passageiro.
Agora que já és famoso,
tens de prometer-me que cuidarás de toda a família.
Mas que dizes?
Eu vejo-vos lá de cima.
Prometo-te, mamã. Não estou preparado, não estamos preparados.
Mamã...
Morreu!...
O Alberto fechou-se no quarto com a mamã.
Vou lá eu.
Pino...
Alberto! Abre, já chegaram.
Manda-os embora. A mamã não está pronta!
Não é verdade?
Pelo menos, estamos mais um pouco juntos.
Alberto, abres-me por favor?
Alberto, meu amor, por favor.
Entro só eu, prometo-te.
Estou aqui eu contigo.
Anda, Alberto...
Passaram meses e ainda acordo a pensar que está viva.
Adeus, mamã.
Vamos.
Ouve lá, Federì... Tu além das videntes, acreditas em Deus?
Se existir, espero pelo menos que perdoe as mentiras,
senão vou direito ao inferno.
Então, era uma mentira aquilo do Sheik Branco...
Ele talvez sim, mas o filme faz-se.
Além disso, o produtor aceitou-te como protagonista.
Como protagonista... E dizes-me isso assim?
- Gostaste da surpresa? - Claro, é uma óptima surpresa.
- Federì, desta é que é! - Não digas isso, dá azar.
Mudo como uma tumba... Desculpe.
Isso... nunca se sabe.
Adeus, pequena... Vou levar-te a Nova Iorque.
O Sheik Branco...
Albertino, estás demasiado hirto.
Soltas a mão e depois, galantemente, saúda-la.
Não. Não, Federì.
Olha que me puseste aqui num balouço... faz tu isso!
Se caio daqui, fazemos o Sheik Engessado e vamos todos para casa.
Como estou a ir, Federì?
Se há algo que está mal, diz-me.
Só tu tens a visão exacta de como queres este filme.
Estás a ir bem, Albertino. Estás a fazê-lo como eu queria.
O problema é que já não me lembro como o queria.
Estamos bem...
O que é esta luz?
Chega, Alberto! Há dois dias que estás na cama.
Meu amor, tens de reagir...
Há pouco para reagir. O Federico tem razão.
A crítica e o público rejeitaram "O Sheik Branco",
porque os italianos são preguiçosos.
Querem sempre as mesmas caras, as mesmas histórias!...
Não penses tanto nisso; não vale de nada.
- Sabes o que vamos fazer? - O quê?
Quando voltar, vamos de férias. Logo recuperas.
Mas tens mesmo de ir?
Tenho uma tournée, meu amor, tu sabes...
Não posso dizer que não. Aliás, tenho mesmo de me ir embora,
senão perco o comboio. - Dá-me mais um beijo.
Falamos pelo telefone.
Alberto! Tu vê lá...
Tenho de reagir.
Bravo! Bravo!
Obrigado...
Podemos esperar um momento aqui, por favor?
Quero fazer uma surpresa ao meu noivo. Deve estar quase a sair.
Claro, claro... Mas depois tem de dar-me o autógrafo.
Reconheci-a... Os meus parabéns, sra. Pagnani.
Ei-lo.
Aonde me levas, Alberto?
Aonde te levo? A um lugar muito bonito...
Sério?
Que faço, sra. Pagnani? Levo-a a casa?
Andreina, meu amor...
Pregaste-me um grande susto. Que fazes aqui?
Sozinha, no escuro.
Não voltavas amanhã?
Vim mais cedo, para te fazer uma surpresa.
Vieste mais cedo... Fizeste bem.
- Não estás contente? - É claro que estou contente.
Linda... estou contente, sim.
Estarias mais contente com a tua Bluebell?
Com quem?
Risinho, salto, palmada no rabo...
Não foi muito elegante, mas era adequado à rapariga...
Que tem a ver? Estávamos a brincar, sobre o espectáculo que fizemos.
Demos uma volta e levei-a ao táxi.
Não interessa; acabamos aqui.
- Acabamos aqui o quê, Andreina? - Não é para nós.
Foi uma coisa humorística, por piada...
Façamos assim: eu vou para o hotel e tu, amanhã, já cá não estás.
Aonde vais? Que dizes tu?...
Para um hotel, Andreina...
Anda cá, brincámos, fomos comer qualquer coisa.
Conversámos. Não aconteceu...
Pronto...
Bonito serviço, Albè...
Que hei-de fazer?
Errei, Federì!
Tem cuidado...
- Estraguei tudo. - Não estragaste nada.
Estraguei tudo porque sou um cretino...
- Dá-me uma chapada! - Não te dou nada uma chapada.
- Dá lá... - Não, Albertino!
Andreina!
Não grites, que chamam a polícia!
A Andreina não está aqui.
- Onde está? - No hotel.
Ligou-me e pediu-me que viesse cá. Agora, vamos para casa.
Para casa?... Já não tenho casa, já não tenho ninguém.
Tens-me a mim, Albertino. Vamos para minha casa.
Andreina! Andreina!
Fiz-te um café amargo.
Obrigado, Giuliè.
Como te sentes?
Como alguém que levou com um camião em cima.
Lamento que tenha acabado assim.
- Gostava da Andreina. - Eu também.
- Achas que vai perdoar-me? - Não creio. Conhece-la...
A minha Andreina já não existe. A única mulher com quem casaria...
Albertino... tu e eu dizemos um monte de tretas,
mas tenta pelo menos ser sincero desta vez.
Tu nunca terias casado com ela.
Dizes tu.
Não é verdade. É a única mulher que amei verdadeiramente.
E perdi-a por um par de pernas bonitas. Que imbecilidade!
A náusea...
Nunca o vi assim.
Passará.
Obrigado.
Albè, chega dessa cara triste. A rainha morreu, viva a rainha, não?!
Albertino... Vou poder realizar "Os Inúteis".
Um deles até o escrevi para ti, até se chama Alberto.
Não sei se consigo, estou péssimo.
Tenho de chamar outro?
Faz o que achares melhor.
Ainda bem... Tiraste-me um peso de cima, Albertino.
Aquela personagem não era a melhor para ti...
Que ideia é essa? Se lhe deste o meu nome...
E então? Chama-se Alberto, mas não serás tu a fazê-la.
- Qual é o problema? - Qual é o problema?
Deste-lhe o meu nome e davas o papel a outro?
Deixa-me ler...
Belo "inútil"... Ines, um copo de leite para mim também.
Cigarros, senhor?
Não, obrigado. Fumo dos seus...
Eu a estes denuncio-os.
Tirar o meu nome de todos os cartazes na noite da estreia.
Eu sei, Albertino. O problema é o teu ruído de desprezo.
Têm medo que ofenda os trabalhadores.
Podias cortá-lo, Federì...
E se o fizesse, renunciava a uma parte da verdade.
Eu percebi. Mas assim perdemos o meu nome.
Silêncio...
- O que é? - Vai ser agora...
- Agora? - Sim.
Trabalhadores...
Estão a rir-se...
Estou a fazê-los rir a todos, Federì.
Vês que fiz bem em não o cortar?...
Dá cá um abraço, casmurrão! És o maior, Federì.
Cá está.
Quanto é?
Para si, sr. Sordi, é oferta da fábrica.
Obrigado. És muito amável.
- Cá está... - Obrigada, Albè.
Que maravilha, Albè...
Já viste que agora todos te reconhecem?
Se a mamã e o papá me pudessem ver...
Vêem-te, Albè, vêem-te...
E depois agora a tua família somos nós, Albè.
E lindas que são... Casava com as duas.
Um beijo!
- Sordi? - Quem é?
- Chamo-me Stefano Vanzina. - Esperem um pouco...
- Quem é? - Steno, um realizador famoso.
Parabéns pelo grande êxito d'"Os Inúteis".
Obrigado. Dito por um realizador como o senhor, é um grande prazer.
Ouça, Sordi... Falta-me um episódio de um filme
sobre um grupo de personagens algo estranhos,
que depois acabam no tribunal.
Pensei se teria uma personagem divertida a propor-me.
Personagens estranhas tenho as que quiser, dr. Vanzini.
Interessante! Então, vamos trabalhar.
Tinham-me dito que estava quente... Estou capaz de os matar.
Americano, imita o Tarzan!
Damos-te um cigarro!
Apanha este punhal...
Luta com o crocodilo! Vá, mata-o!
E agora como é?!... Dou-te uma dentada na cabeça.
Albè, és o melhor!
Obrigado.
Um aperto de mão com Steno!
Americano! Faz de Tarzan!
Ouviste, Albè? A tua personagem não pode ficar por aqui.
Qual é a ideia?
Fazemos já um filme inteiro. Só falta o título.
"Um Americano em Roma". Agrada-te?
Não se mexam!
Está bem aqui.
- Obrigado. - Boa noite.
Federì, vim o mais depressa possível. Estive a filmar na Cinecittà.
Que aconteceu?
Chegou-me isto.
O que é, uma má notícia? Um litígio, o quê?
Lê.
Academia de Artes e Ciências Cinematográficas...
Não me digas que...
Fui nomeado para o Óscar com "A Estrada"!
Caíste nesta, cabeçudo!
Pois caí... dá cá um abraço.
Muito bem, fico contente! Parabéns.
Vês? A tua vidente tinha razão.
Como?
Um homem calvo, brilhante e musculoso.
Era a estatueta do Óscar!
E disse que terias cinco. Esperam-te cinco Óscares, Federì!
Que chatice...
Se forem de mais, eu também não me ofendo...
Mas já viste... A vidente também acertou contigo.
Estavas sempre rabugento, muito céptico,
agora com "Um Americano em Roma" arrasaste e fazes filmes sucessivos.
Lembras-te há dez anos?
Estávamos aqui sem uma lira com dúvidas se algum dia faríamos cinema.
E agora até os americanos percebem que és um grande realizador, Federì.
Que me interessam os americanos, quando o melhor deles está em Roma?
Uma nomeação para o Óscar é caso para celebrar.
Vamos jantar a um restaurante de luxo.
E aposto que tenho de pagar eu...
Lá isso é verdade, Federì. As honrarias têm encargos...
E que tal uma trattoria mais simples? Comemos macarrão...
Macarrão... É uma provocação?
Mas deixamo-nos provocar, não?
Vamos ao Menghi.
Um clássico... Tive uma nomeação para o Óscar!
Vão mas é dormir...
Aquele nem sabe o que é o Óscar...
Os americanos comem compota.
Macarrão!... Vou dar cabo de ti, macarrão.
Que olhas para mim, de rosto intrépido...
Pareces um verme, macarrão.
Isto é comida americana, vês?
Iogurte, compota, mostarda...
A mostarda! Maravilhosa mostarda...
Um pouco de leite...
É isto que os americanos comem, vês?
Comida sã, substancial...
Macarrão...
Mas que porcaria...
Os americanos... macarrão.
Provocaste-me e agora vou dar cabo de ti.
Vou-te comer!
Tradução e Legendagem LUÍS SILVA REIS
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