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Hoje à noite, na paróquia de Taperoá...
vai passar "A Paixão de Cristo"! - Um filme de aventura!
Que mostra um cabra sozinho desarmado...
enfrentando o Império Romano todim! - Não percam!
A história de um vivente que é Deus e homem ao mesmo tempo!
Um filme de mistérios, cheio de milagres e acontecimentos do outro mundo!
"A Paixão de Cristo", O filme mais arretado do mundo!
E se não for eu que cegue!
Ô padre João...
porque será que nesse filme Jesus nunca aparece assim de frente?
O vivente que olha para a face de Deus, morre.
Ave Maria! Já pensou se esse homem vira de repente pra cá?
Vira nada! Não existe ator digno de representar tal papel!
Por que é que o senhor mesmo não se candidata?
Conversa é essa?
O senhor num é representante de Deus?
Ia ganhar um dinheirão como artista de cinema.
O verdadeiro cristão se satisfaz com pouco.
Então eu sou um cristão meio que safado porque...
eu num fiquei muito satisfeito com a paga.
Passar esse filme, João Grilo, já é um trabalho santo.
Assim como os apóstolos, nós estamos divulgando a vida de Cristo...
você quer paga maior do que essa?
Se Jesus soubesse o mundanismo, a canalhice...
de uma certa qualidade de padre de hoje em dia...
era capaz de Ele sacudir essa cruz fora e...
subir direto pro Céu!
Olha a falta de respeito, rapaz!
Jesus morreu pelos pobres, Chicó!
A gente pode se permitir certas intimidades.
A gente não! Não me meto em confusão com o povo do céu...
já chega as que cê me mete aqui na terra.
Isso é que é ser mal agradecido!
Quem foi que lhe arrumou esse emprego de passar filme?
Valha-me Nosso Senhor Jesus Cristo!
Queimou, vai ter que apelar pra outro, Chicó.
Tô "bebido" João!
Que que a gente faz?
A gente não! Não me meta em suas confusões...
Quem mandou você arrumar esse emprego de passar filme?
- Vamos devolver esse dinheiro! - Devolver uma pinoia...
que eu perco minha porcentagem. - Então?
Oh, homi, o que tem? Eles já não viram o filme quase todo?
Mas faltou o final, homi!
Oxi, que que tem. O final dessa história todo mundo conhece.
É, mas pelo jeito, tão querendo ver de novo.
Calma minha gente...
que aperreio é esse? Não aconteceu nada.
Chicó parou o filme porque quis.
Não foi, Chicó?
E parou porque foi o padre João mesmo que pediu.
Não foi, padre João?
Então, e por que foi que padre João parou o filme...
no momento mais emocionante dele, que é a crucificação?
Exatamente!
Porque agora vocês vão assistir o resto da história...
aqui mesmo, na igreja!
E não é em tela de cinema, não.
Quem vai nos mostrar é o padre João, num é, padre João?
- É o seguinte... - Pois é...
todo mundo de joelho que o Padre João vai rezar a missa...
que representa o sacrifício de Jesus...
que morreu na cruz, coitado, para nos salvar.
Sim, meus irmãos...
essa missa foi encomendada por João Grilo...
que para isso vai fazer doação da paga que recebeu...
pelo trabalho de hoje à noite...
em benefício das obras da igreja.
Episódio de hoje: O Testamento da Cachorra
- Cadê? Caçou alguma coisa? - Quase.
Taí um bicho gostoso, esse "quase".
A gente quase assa, quase come, e quase morre de fome.
Quase pego pra mais de 15 paca junta.
Estou quase lhe pegando na mentira, Chicó.
Oxe, fulerage. Quando foi que já me viu mentindo?
- Nunca vi, só ouvi. - Pois devia tá lá pra ver.
- A mentira? - Não, homi.
As paca.
Nesse canto do riacho de Cosme Pinto onde as paca atravessa...
é tanta paca, mas tanta paca que cruza por lá...
que a trilha delas fica marcada na água.
O riacho vem reto e naquele canto dá uma afundada assim, ó.
Oxe...
Água é barro pra ficar com o caminho marcado pela passagem dos bicho?
Não sei, só sei que é assim.
Eu tava lá tocaiando, quando apareceu pra mais de 30 paca.
- Você tinha falado mais de 15. - Oxente homem!
30 não é mais que 15, não? - Tá certo.
Eu vou calar minha boca para não espantar suas pacas.
É melhor mesmo. Pois apontei minha papo amarelo, puxei o gatilho...
e de repente apareceu na minha frente a égua do major Antônio Moraes.
Eu pensei: eu vou matar a égua do Major e ele vai me matar.
Tenho que dar um jeito nisso. - Que jeito, se já tinha puxado o gatilho?
Tudo isso eu pensei foi ligeiro, mais ligeiro ainda...
eu tampei a boca da espingarda com a mão pro tiro não sair...
chega a bicha ficou assim ó.
Quando destampei e soltei a bala as paca já tinha ganhado mato.
Vamos largar suas caçadas Chicó, vamos caçar trabalho.
Ouvi dizer que o padeiro tá precisando de ajudante.
Ah Chicó, descobri.
- Cê tem cara de ajudante. - Você acha?
Dos bons. Você ajuda o padeiro, e com o dinheiro que ele lhe pagar...
você vai e me ajuda. - Acha que tenho cara de besta?
Besta e ajudante é quase a mesma coisa.
- Ô de casa! - Ô de fora, quem é?
Sou eu.
É, sou só eu mesmo. Ouvi dizer que o senhor tá precisando de ajudante.
Por quê? Vocês querem ajudar, é?
Pois pode ajudar! Ajuda e dinheiro são 2 coisas que não se enjeitam.
- Quanto o senhor paga? - Eu estou fazendo o favor...
de deixar você me ajudar, você quer mais o quê?
Não disse que você tinha cara de besta!
Cê tá parado, é?
- Parado, esfomeado, aperreado - E doido para ajudar.
- Pois o emprego é seu. - Tudo bem, o emprego é seu.
E quanto é o salário?
- O salário é pouco... - Mas em compensação...
o serviço é muito.
Serviço muito tem que ter 2 ajudantes.
Só se for pelo preço de 1.
- E quanto é o preço de 1? - Quanto é?
- 5 tostões. - 5 tostões.
- 5 tostões tá bom pra tu, Chicó? - Pra mim tá.
Então vamos fazer essas contas!
Chicó trabalha por 2, ganha 5 tostões, que é o preço de 1.
E eu vou dar conta de tudo sozinho, é?
Claro que não Chicó, mas da metade cê dá conta, num dá?
É, da metade, vá lá.
Tá arranjado. Chicó trabalha por 2, ganha o preço de 1 e dá conta...
da metade do serviço, eu trabalho por mais 2, ganho o preço de outro...
e dou conta da outra metade!
Nada disso, eu falei 2 pelo preço de 1.
Mas o senhor está ganhando 4 pelo preço de 2...
o que vem a dar no mesmo, patrão.
- E é, é? - É, num sabe fazer conta?
Então tá fechado.
Tu tá doido é? Agora cada um de nós vai ter que trabalhar por 2.
Eu esqueci de dizer que 1 dos meus 2 é um cabra preguiçoso danado...
e só faz dormir o tempo todo. - E o outro?
Ah, o outro é muito trabalhador, mas não veio hoje.
Abre essa porta, Eurico.
Isso é hora de chegar numa casa de respeito?
Aqui você não entra nem com a mulestia de cachorro-doido...
vai dormir na rua, pra todo mundo conhecer...
a qualidade de mulher traidora que você é.
Ooxi, eu só fui dar uma voltinha pra refrescar.
Pra refrescar esse fogo que você tem aí dentro!
João Grilo! Chicó! - Senhor!
Vai chamar padre João, eu quero que ele testemunhe...
essa safadeza e condene essa adúltera ao quinto dos infernos!
Eu conheço padre pra tudo neste mundo...
menos pra passar atestado de corno...
Kikinho, vamos resolver esse assunto entre nós.
Abra, por favor...
Abrir? Só se for sua cabeça, infeliz!
Eu fui muito besta em me casar com você, viu.
Mulher bonita só serve pra botar chifre.
Se você não abrir, eu me atiro na cacimba.
E eu tenho essa sorte?
Você vai morrer de remorso de suas acusações falsas...
- Eu vou mais é soltar foguete! - e vai todo mundo pensar...
que você me matou por ciúme!
E tu é besta de morrer só por isso?
Adeus Eurico!
Meu único amor. Aah!
Dorinha, minha filha...
não faça uma coisa dessas que eu sou doido por ti!
Abre essa porta, Dora!
Isso é hora de chegar numa casa de respeito?
Aqui você não entra mas nem com mulesta de cachorro-doido
Vai dormir é na rua, que é pra todo mundo conhecer...
a qualidade de homem cachaceiro que você é!
Mas o que é isso?!
Era eu que tava lá dentro, padre João,
Mas aí ela se jogou na cacimba, terminou eu vindo parar aqui fora!
Hein, Dora?
Tá bebinho padre, não fala coisa com coisa!
Minha filha, perdoe, que ele não sabe o que diz.
Perdôo não, padre...
não aguento mais sentir bafo de cachaça.
- Mas padre... - Seu Eurico, dê-se o respeito!
O senhor é presidente da Irmandade das Almas!
- Mas padre João! - Peça desculpa à sua esposa,
meu filho, eu estou mandando!
- Desculpe... - "Dorinha"...
Desculpe, Dorinha.
E lembrem-se, o casamento é uma invenção de Deus!
Só que o diabo acrescentou o chifre!
Ô Grilo, com tanto pão desse jeito...
cê acha que eles vão dar pela falta só de dois?
Até parece que cê não conhece a pirangagem desse povo...
Eles contam pão por pão, bem contadinho...
e ainda anotam tudinho no caderno que eles têm.
A gente diz que foi rato que comeu.
E você já viu rato comer pão inteiro assim, logo de dois?
- A gente diz que foi 2 rato. - Pensa que eles são besta?
Vão dizer na cara da gente que os 2 ratos são nós 2.
Até que essa história de rato não é de todo ruim.
O danado do Chicó de vez em quando até que tem uma boa ideia.
- Ô João... - Que susto, Chicó!
Meu coração chega foi pros pé!
- Ôxe, por de quê? - Sei lá...
Pensei que fosse um rato!
Deixa a entrega pra depois, Chicó.
Tem pressa não.
- É que seu Eurico mandou ir correndo. - E você não sabe que mando nele?
- Isso aí todo mundo sabe. - E se ele manda em você...
e eu mando nele...
- eu mando em você, sabia? - Pode mandar, que tô acostumado.
Qualquer coisa?
Não sendo pra matar, pra roubar, nem pra ofender pai e mãe, nem...
jurar o santo nome de Deus em vão. - Você obedece todos os 10 mandamentos?
E se a senhora mandar, ainda obedeço outros 20
E se eu mandar desobedecer, você desobedece?
- Um mandamento? - Sim.
- E qual? - Não cobiçai a mulher do próximo.
Depende da brabeza do próximo e da belezura da mulher dele.
- A mulher tá aqui na sua frente. - Então, quero que o próximo se dane.
Fui logo dizendo "I love you" e ela se derreteu todinha.
- "I love you"? - É, quer dizer "morena" em francês.
Rapaz, se o padeiro descobre, você se lasca.
Descobre nada, hômi, corno é o último a saber.
Depende da raça do corno. Esse que você fala é o "corno distraído"...
Mas existe também o "corno telégrafo", o primeiro que recebe a notícia!
- Pra onde você vai? - E você?
De onde vem com essa sandália suja de terra melando a casa?
Eu perguntei pra onde você vai.
Eu volto logo.
Eu perguntei pra onde você vai, e não quando volta.
- Eu vou na igreja, pronto. - Fazer o quê, hein?
E tem mais uma coisa pra se fazer na igreja? Ô homem desconfiado!
Bênção, padre João.
Deus te abençoe, minha filha. A que devo a visita?
Eu vim aqui... pra me confessar.
Ora, há quanto tempo!
É que eu tava esperando acumular mais uns pecado né...
que é pra despejar tudo de uma vez. - Ah que ótimo!
Que você veio se arrepender, num é?
Espere aí na igreja, que o sacristão foi embora, me deixou...
e estou assim, como se diz, tendo que tocar o sino e rezar missa ao mesmo tempo.
Mas não me demoro.
Você pode confessar seus pecados, minha filha.
Eu continuo traindo meu marido, padre João.
- Um homem tão bom... - É bom pra levar chifre.
Aquilo é pior que lenha verde, eu tento tacar fogo e ele só faz fumaça!
Mas adultério é pecado, você deve se arrepender...
Eu me arrependo... mas eu tento parar e me arrependo mais ainda.
E onde é que você vai encontrar com seu amante?
Mas padre, eu tenho que confessar o que eu ainda vou fazer?
Você tem que me contar tudo, minha filha.
É que hoje eu tinha pensado em só acertar as contas pra trás.
Você conta logo, e eu lhe perdôo por antecipação.
Tá. Sendo assim, tá certo. Olhe, hoje mesmo eu...
A senhora tem certeza que é pra entrar aí?
- Por quê, tá com medo? - Oxente, tenho coragem de uma mãe-onça!
Pode entrar.
Tem perigo, não!
Mesmo que tivesse...
Eurico ja sabe que eu tô me encontrando com outro homem.
- Valha-me Deus! Que homem é esse? - Você, meu bem.
Vixe Maria, é mesmo? Que susto, perdi até a convicção!
- Chegue mais perto pra certeza voltar. - Prefiro ficar na dúvida!
- Não se preocupe com Eurico, não. - Por quê? Já tá conformado?
Que nada, a essa altura ele deve tá tentando lhe matar!
Valha-me, meu Padre Cícero!
Ô homem, deixe de aperreio. Eurico não sabe que você é meu amante, não.
Na última hora eu descobri uma armadilha dele...
e dei o endereço do nosso encontro errado!
Ele vai passar a noite esperando a gente por lá!
Ai Dona Dora, que tô perdido pela senhora...
Arre égua Chicó! Se assunte, que aqui é contra-mão, cruzento!
E vamos acordando! A festa já acabou!
João, aquilo foi o mesmo que tá no Céu.
O colchão parecia uma nuvem.
D. Dora dá uma fungada no pé do ouvido que arrepia toda a região do meio.
Cuidado não, visse?
Tem um ditado que diz: "Onde se ganha o pão não se come a carne".
E é melhor você vir trabalhar, porque se Seu Eurico lhe pega dormindo...
a situação piora! - Mas hoje ele demora a chegar.
Ah disgramada, eu já te confessei, agora só falta dar a bença!
Mulher sabida, João, enganou o marido contando a verdade.
Enganou pela metade, porque pelo jeito que seu Eurico vem ali...
quero ver que mentira ela vai inventar agora.
Pode ir logo me dizendo onde foi que a senhora passou a noite!
Passei no nosso quarto, na nossa cama...
e se o senhor mesmo tivesse dormido em casa, ia saber disso.
Afia mulher! Você pensa que me enrola, mas eu sei de tudo.
Eu sei que você sabe. Não fui eu mesma que lhe contei?
Não! Quer dizer... foi você que contou!
Mas você não sabe que me contou. - Claro que sei,
e eu vou lhe dizer outra coisa, eu sabia muito bem que você...
estava no lugar do Padre João. - Quem foi que lhe contou?
Eu vi logo! Oh homem leso!
Então você não vê que eu inventei essa história toda...
de traição pra me vingar de você? - De mim? De quê?
De sua falta de confiança. Você acha pouco?
Se disfarçar de padre pra escutar minha confissão!
Isso é até sacrilégio, e se eu contar pro bispo, você vai ser excomungado!
Por Nossa Senhora, não faça uma coisa dessas!
E pode logo me dizer, onde é que o senhor passou a noite?
Já leram pra mim um folheto que reza mais de 60 qualidade de corno.
Danou-se! Tem mais corno que passarinho!
Tem corno pro alfabeto todo...
desde o apressado, que é corno antes mesmo de casar...
até o zeloso, que só gosta de ver a mulher bem vestida!
Vai, minha bichinha, come pra ficar forte, vai!
Desculpe perguntar, mas a senhora fala com cachorro, é?
Falo sim, por quê? Quer falar comigo?
- E ela escuta? - Escutar, ela escuta...
Mas não me dá ouvido.
Desde hoje que eu digo pra essa danada comer e ela nada.
Se ela não quiser, eu quero!
Tá com fastio que só vendo. A pobrezinha não comeu quase nada hoje.
Então tá melhor que nós, que não comemos nem o "quase"!
De manhã cedo, comeu só um cuscuzinho com leite...
- Ah, cuscuzinho com leite! - Um tantinho assim de macaxeira...
- Um tantinho assim de macaxeira... - E um tiquinho de galinha guisada.
Ah, uma galinha guisada...
Quando foi de 10h, comeu uma tigelinha de papa.
- Tigelinha de papa! - Coisa pouca, mas porque adulei muito.
Se a senhora me adular um pouquinho, eu juro que eu como!
Se não quiser adular também, não tem problema, a gente come do mesmo jeito.
Mas olhe só que cara lisa!
E vocês já não tem o comer de vocês?
A gente serve do bom e do melhor, e ainda vem uns mal-agradecido desses!
Bife passado na manteiga, Chicó!
Nem sei se como logo ou se fico olhando mais um bocadinho.
- João! - Senhor!
Diabo de uma gota serena...
Olhe para isso! Eu vou furar até o caroço do olho do desgraçado...
do rato que fez isso! - Ainda bem que o prejuízo foi pouco.
- Pouco? Você sabe quanto custa 2 pães? - Mas o senhor ainda pode cortar...
as pontinha e aproveitar o resto.
Tem razão. E você pode comer as pontas, que rato é bicho limpinho.
- Eu comigo não tenho luxo. - Pra não dizer que nunca lhe dei nada.
Acho patrão, que o senhor é um santo de me dar esse bico de pão,
ainda mais depois de levar um prejuízo desse!
Além de levar prejuízo no pão, ainda vou ter prejuízo no queijo!
O senhor vai botar pão com queijo pro rato?
Que queijo, o quê?!
Eu vou é botar um monte de ratoeira pra pegar esses pestes.
E você cuidado pra não comer esse pão todo e ficar doente, hein!
João, tá dando a pilora na cachorra!
Tá com a gota! Deve ter sido a comida!
Valha-me Deus! Será que nossa comida tava envenenada?
Demência! Pra quem só come filé, nossa gororoba é veneno!
Acho melhor tu ser ligeiro e dar a notícia pra patroa.
Dona Dora!
Aconteceu uma coisa desagradável com um ente muito querido seu.
Pois eu quero que Eurico se dane!
Não, estou falando é de sua cachorrinha.
Ave Maria! O que aconteceu com Bolinha?
Acode aqui que minha cachorrinha tá doente! Valei-me meu São, meu São...
Ai meu Deus, qual é o santo que protege os cachorro?
Eu tenho pra mim que é São Francisco, que é o santo que falava com os bicho.
Valei-me, meu São Francisco de...
Mas é de Pádua ou de Assis?
Aí eu já não sei. É melhor perguntar pro padre.
Isso, vão chamar pe. João pra ele benzer minha cachorrinha!
- Benzer? - É!
- A cachorra? - É! Se minha cachorrinha morrer...
eu morro junto. Mas antes de morrer eu mato ocês 2, que invés de ir...
tão aí remanchando. Ai meu Deus, acuda...
que essa cachorrinha é a razão da minha existência!
- Calma minha filha, você ainda tem eu. - Que é mais uma desgraça na minha vida!
O bispo tá pra chegar, tenho certeza que Pe. João não vai querer benzer a cachorra.
Não vai benzer por quê, o que tem de mais? Eu mesmo já tive um cavalo bento.
Que isso, Chicó! Já tô ficando por aqui com suas histórias.
É sempre uma coisa toda esquisita. E quando pede explicação...
vem sempre com "não sei, só sei que foi assim".
Mas se eu tive mesmo o cavalo, meu filho, o que é que vou fazer?
Vou mentir, dizer que não tive?
Você vive com essas histórias, depois reclama porque o povo diz que...
você é sem confiança. - Eu sem confiança?!
Antônio Martinho tá aí pra dar as provas do que eu digo.
Antônio Martinho! Faz 3 anos que ele morreu!
- Mas era vivo quando tive o bicho. - Quando você teve o bicho?
E foi você que pariu o cavalo, Chicó? - Eu não...
mas do jeito que as coisas vão, não me admiro mais de nada.
Mês passado uma mulher teve um na Serra do Araripe lá pros lados do Ceará.
Isso é coisa de seca. Acaba nisso, essa fome: ninguém pode ter menino...
e haja cavalo no mundo. A comida é mais barata, é coisa que se pode vender.
Mas e o cavalo bento, como foi? - cavalo bom como aquele...
nunca tinha visto.
Uma vez corremos atrás de uma garrota, das 6 da manhã até as 6 da tarde...
sem parar nenhum momento. Fui derrubar o boi já de noitinha.
- O boi? Não era uma garrota? - Era uma garrota e um boi.
E você corria atrás dos dois juntos assim de uma vez?
- Corria, é proibido? - Não, mas eu me admiro deles...
correrem tanto tempo juntos, sem se apartarem. Como foi isso?
Não sei, só sei que foi assim. 17h montado e o cavalo ali comigo...
sem reclamar nada. - Eu me admirava era se ele reclamasse.
Comecei a correr da ribeira do Taperoá, na Paraíba, pois bem, quando dei fé...
já tava em Sergipe. - Sergipe! E o Rio São Francisco, Chicó?
Saco! Lá vem você com sua mania de pergunta!
É claro, tenho que saber! Como foi que você passou?
Não lhe disse que o cavalo era bento? Por isso que não me admiro mais de nada.
Cachorro bento, cavalo bento, tudo isso eu já vi.
É, mas não há de ser com essas lorota que nós vamos convencer o Pe. João.
- Uma cachorra? - Sim.
- Pra eu benzer? - Sim.
Que maluquice, que besteira!
Cansei de dizer a Chicó que o senhor não benzia...
benze porque benze, vim com ele.
Não benzo de jeito nenhum!
Mas padre, não vejo nada de mais em benzer o bicho.
No dia que chegou o motor novo do Major Antônio Moraes, o senhor não benzeu?
Motor é diferente, é coisa que todo mundo benze.
Mas cachorra eu nunca ouvi falar!
Acho cachorra uma coisa muito melhor do que motor.
É, mas quem vai ficar engraçado sou eu, benzendo cachorro.
Benzer motor é fácil, todo mundo faz isso. Mas benzer cachorro?!
É, Chicó, o padre tem razão. Quem vai ficar engraçado é ele.
Uma coisa é benzer o motor do Major Antônio Moraes.
Outra coisa é benzer a cachorra do Major Antônio Moraes.
Como?
Eu disse que uma coisa era o motor...
a outra era a cachorra do Major Antônio Moraes.
Menino! E o dono da cachorra de que vocês estão falando é Antônio Moraes?
É. Eu não queria vir, com medo que o senhor se zangasse.
O Major é rico, poderoso. Tô trabalhando na fazenda dele...
com medo de perder meu emprego, fui forçado a obedecer.
Mas eu disse a Chicó: "o padre vai se zangar"!
Zanga nada, João!
Quem é o ministro de Deus pra ter o direito de se zangar?
Quer dizer que benze, não é?
- Você, o que que acha? - Acho nada de mais.
Nem eu. Não vejo mal nenhum em se abençoar as criaturas de Deus!
Então fica tudo na paz do Senhor!
Com a cachorra benzida, e todo mundo satisfeito!
Diga ao Major que venha! Estou esperando!
Que invenção foi essa de dizer que a cachorra era do Major Antônio Moraes?!
Era o único jeito do padre prometer que benzia.
Tem medo da riqueza do Major, que se pela. Não viu a diferença?
Antes era "que maluquice, que besteira!"
Agora "não vejo mal nenhum em se abençoar as criaturas de Deus".
- Agora é só levar a bichinha lá. - E se ele descobrir?
Como? E cachorro é boi pra ter a marca do dono?
Qualquer dia desses ainda se mete numa embrulhada.
Eu acho é bom. Sou louco por uma embrulhada.
Não vai dar certo, João, cê ainda vem suas coisas.
E se Antônio Moraes aparece aqui pela cidade?
Meu filho, no dia que o Major sair daquela fazenda, galinha cria dente.
Então acho que as bichinha tão roendo osso...
porque o homem vem mesmo ali.
Eurico engole cobra, cabra frouxo, anda roubando muito a freguesia?
Major Antonio Moraes! Há quanto tempo não aparece em nossa cidade?
Isso aqui tá pior que merda de gato. Só venho por obrigação.
- E a quê devemos a honra? - Se alembra da minha filha Rosinha?
Oxi, claro! Cabelo liso, olhos pretos, ombros fortes, seios fartos, cinturinha...
- Desce mais não que você se lasca! - Com todo o respeito Major...
Com todo respeito, que quando ela saiu daqui era uma menina.
Pois então, Rosinha anda meio adoentada...
e tá chegando do Recife pra descansar na fazenda.
Mas como tudo que é mulher, tem verdadeira mania por igreja.
Me pediu que eu vá conversar com o padre pra lhe dar a benção quando ela chegar.
- Ave Maria, que a gente faz, Chicó? - Não sei, tenho nada a ver com isso.
Por Nossa Senhora, vamos lá impedir o homem de se encontrar com o padre.
Você que inventou essa história, que gosta de embrulhada, que resolva.
Você também foi comigo lá encomendar a benção da cachorra. Agora vamos lá!
- Vou nada! - Vem mesmo, Chicó!
Você tá acostumado com essas coisas. Já teve até cavalo bento!
É, mas acontece que Antônio Moraes pode ter alguma coisa de cavalo...
de bento é que ele não tem é nada!
Ora viva, seu Major Antônio Moraes, como vai vossa senhoria?
- Do jeito que ocê tá vendo. - Bem demais. Veio procurar o padre?
- Tá perguntando muito! - Se a vosssa senhoria quer...
eu posso chamá-lo! - Se eu quisesse já tinha mandado.
É que eu queria avisar vossa senhoria...
pra não se espantar, o padre está meio doido.
- O padre? Doido? - É!
O padre está dum jeito que não respeita mais ninguém.
Tá com mania de benzer tudo.
Eu vim dar a ele um recado mandado pelo meu patrão...
e ele me recebeu muito mal, apesar de meu patrão ser quem ele é.
- E quem é teu patrão? - O padeiro!
Mas ele chamou o patrão de cachorro e disse que apesar disso ia benzê-lo.
- Mas que loucura é essa? - Eu não sei, é mania dele agora.
- Benze tudo, e chama a gente de cachorro. - Isso foi porque era com teu patrão.
Comigo é diferente. - Vossa senhoria me desculpe...
mas eu penso que não. - Você pensa que não?
Eu penso. Digo isso porque eu ouvi o padre dizer...
"aquele cachorro só porque é amigo de Antônio Moraes pensa que é alguma coisa."
Que história é essa?
Tem certeza? - Certeza plena! Tá doidinho o pobre padre.
Vamos esclarecer essa história. Alguém vai pagar por isso!
- Uma esmolinha por caridade. - Vá arrumar serviço pra fazer!
Posso trabalhar não, meu patrão. Só tenho um olho.
Pois fure o outro e vá cantar na feira!
Ora, quanta honra! Uma pessoa como Antônio Moraes na igreja!
Há quanto tempo esses pés não cruzam os umbrais da casa de Deus!
É melhor o senhor dizer que há muito tempo eu não venho à missa.
Claro que eu sei de suas ocupações, de sua saúde...
Ocupações? O senhor sabe muito bem que não trabalho e minha saúde é perfeita.
É... Mas o que foi que o trouxe aqui? Não diga, eu já sei, a bichinha está doente.
É! Já sabia?
Já, aqui as coisa se espalham num instante, não sabe?
- Já está fedendo? - Fedendo? Quem?!
- A bichinha... - Não! Mas que é que o senhor quer dizer?
Nada, me desculpe, é só apenas um modo de falar.
Pois o senhor anda com um modo de falar muito esquisito!
Desculpe um pobre padre sem instrução.
- Qual é a doença, Major? Rabugem? - Rabugem?
Sim, já vi uma morrer disso em poucas horas.
Começou pelo rabo, e espalhou-se pelo corpo inteiro.
- Pelo rabo?! - Desculpe, eu devia ter dito pela cauda.
Deve-se respeito aos enfermos, mesmo que sejam da mais baixa qualidade.
Baixa qualidade?!
Padre! Veja bem com quem está falando!
A Igreja é coisa séria como garantia da sociedade. Mas tudo tem um limite!
- Mas o que foi que eu disse? - "Baixa qualidade"...
Fique sabendo que meu nome todo é Antônio Noronha de Britto Moraes...
E esse "Noronha de Britto" veio do Conde dos Arcos, ouviu?
gente que veio nas caravelas, ouviu?!
Sem dúvida! Na certa os antepassados da bichinha também vieram nas galeras, né?
Claro! Se os meus antepassados vieram, os dela vieram também!
O que é que o senhor tá querendo insinuar? Que por acaso, a mãe dela...?
- Uma cachorra... - O quê?!
- Uma cachorra... - Repita!
Eu não vejo mal nenhum em repetir, mas ela não é mesmo uma cachorra?
Padre, eu só não lhe mato porque o senhor é padre e está louco!
Eu vou me queixar ao bispo!
Você tinha razão. Apareça nos Angicos que não se arrependerá.
Alguém me diga pelo amor de Deus, o que foi que eu fiz?
Nada, nada padre. Esse homem só pode estar doido com mania de ser grande.
Até ao cachorro ele quer dar carta de nobreza...
Eu faço tudo para agradá-lo e ele vai se queixar ao bispo.
- Será que o bispo vai me suspender? - Que nada! Antes disso...
eu vou aos Angicos e arranjo tudo. - Vai mesmo, João? Como?
Deixe comigo. Antônio Moraes começou a ser meu amigo de repente.
Não viu como me convidou a ir aos Angicos?
Agora é assim, João Grilo pra lá, Antônio Moraes pra cá...
Está completamente perturbado.
Pois arranje as coisas João, que você não se arrepende.
Chama-se está arranjado. Agora eu queria um favorzinho do senhor padre.
- Eu já estava esperando por uma dessas. - O que eu vou pedir...
é coisa muito mais fácil do que cumprir os mandamentos.
Diga então, o que é?
A cachorra da mulher do padeiro está muito mal.
Eu queria que o senhor benzesse a bichinha.
De novo? Mas é possível?
É mais do que possível. O senhor não ia benzer a do Major Antônio Moraes?
- E a cachorra do padeiro agora está doente? - Está.
Também, ô terra pra ter cachorro doente, só essa.
E a mania agora é benzer. Benzer tudo quanto é de bicho.
- Como é, o senhor benze ou não benze? - Pensando bem...
acho melhor não benzer. Vá se embora, vá. - E o que é que eu digo pra D. Dora?
Diga a ela que o bispo está aí, e eu só benzo se ele der licença.
- Uma esmola pelo amor de Deus. - Eu vou rezar pela sua alma.
Dava pro senhor juntar com essa reza uma cuia de farinha?
A Igreja só se preocupa com o alimento espiritual, meu filho.
Ai, que minha cachorrinha tá morrendo, que é a filha que não conheço neste mundo.
- Cadê o padre pra benzer ela, João Grilo? - Não pode vir.
Disse que o bispo está aí e que só benzia se fosse a cachorra de Antônio Moraes...
gente mais importante. Porque senão, o bispo pode reclamar.
Que história é essa?
Então pode benzer a cachorra do Major Antônio Moraes, e a minha não?!
- Que é isso, que é isso... - Eu é que pergunto, que é isso?
Afinal de contas, eu sou presidente da Irmandade das Almas.
E isso é alguma coisa!
É padre, o homem aí é coisa muita, presidente da Irmandade das Almas.
Pra mim isso é um caso claro de cachorro bento.
Benza logo esse cachorro e tudo fica em paz.
Não benzo, não benzo e acabou-se!
Não estou preparado para fazer essas coisas assim de repente. Sem pensar, não.
Quer dizer que quando era pra benzer a cachorra do major, já tava tudo pensado...
para benzer a minha é essa complicação!
Olhe que meu marido é presidente e sócio benfeitor da Irmandade das Almas!
Eu vou pedir a demissão dele! - Vai pedir minha demissão!
De hoje em diante não me sai lá de casa nem um pão para a Irmandade!
Nem um pão!
E olhe que os pães que vêm para aqui são de graça!
São de graça!
E olhe que as obras da igreja é ele quem está custeando!
Sou eu que estou custeando!
- Que é isso, que é isso! - O que é isso? O que é isso?
É a voz da verdade, padre João. Agora o senhor vai ver quem é a mulher do padeiro!
E a senhora, o que é do padeiro?
- A vaca! - A vaca?!
A vaca que eu mandei para cá, para fornecer leite ao vigário...
- tem que ser devolvida hoje mesmo! - Hoje mesmo!
- Até a vaca?! - A vaca também é demais!
Ô cabra desmandado. Eu não mandei ocê ficar lá cuidando de Bolinha?
- Não mandou? - Mandou.
- E como é que ela tá? - Tá lá, com 4 patas, 1 rabo, 1 focinho...
- Não me diga que ela piorou! - Digo nada.
- Ela piorou? Diga! - É pra dizer ou pra não dizer?
Não me diga que você deixou Bolinha morrer!
- Eu não deixei não! - Ai, graças a Deus!
Mas a senhora sabe como a bichinha é desobediente.
Ô Chicó! Tu não tinha nada que ter saído de junto da cachorra!
Mas se eu tivesse ficado lá com a defunta, quem ia vir avisar que ela morreu?
Ai meu Deus, minha cachorrinha morreu!
A cachorra cumpriu sua sentença.
Encontrou-se com o único mal irremediável...
aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra...
aquele fato sem explicação...
que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados...
porque tudo o que é vivo morre.
"Tudo o que é vivo morre". Bonito.
Onde foi que você ouviu isso? De sua cabeça é que não saiu, que eu sei.
Saiu mesmo não, João. Isso eu ouvi um padre dizer uma vez.
- Foi no dia em que meu pirarucu morreu. - Seu pirarucu?
Meu, é um modo de dizer...
porque, para falar a verdade, acho que eu é que era dele. Nunca lhe contei isso não?
Não, já ouvi falar de homem que tem peixe...
mas de peixe que tem homem, é a primeira vez.
Foi quando eu estive no Amazonas.
Amarrei a corda do arpão em redor do corpo,
de modo que estava com os braços sem movimento.
Quando ferrei o bicho, ele deu um puxavante maior e eu caí no rio.
- O bicho pescou você! - Exatamente, João, o bicho me pescou.
Para encurtar a história, o pirarucu me arrastou rio acima 3 dias e 3 noites.
3 dias e 3 noites? E você não sentia fome não?
Fome não, mas era uma vontade de fumar danada.
Quando ele morreu, aí que eu pude acenar, aí vieram me soltar.
E você não estava com os braços amarrados, Chicó?
Na hora do aperto, dá-se um jeito a tudo, né.
- Mas que jeito você deu? - Não sei, só sei que foi assim.
Ai, minha cachorrinha!
Todos devem se resignar.
Se o senhor tivesse benzido a bichinha, a essas horas ainda tava viva.
Qual, qual. Quem sou eu.
Mas tem uma coisa padre: Agora o senhor vai enterrar a cachorra!
- Enterrrar a cachorra? - Vai enterrar, e tem que ser em latim.
- De outro jeito não serve, não é? - É, em latim não serve.
- Em latim é que serve! - É, em latim é que serve!
Vocês estão loucos! Não enterro de jeito nenhum!
Está cortado o rendimento da Irmandade!
- Não enterro! - Está cortado o rendimento da Irmandade!
Não enterro!
Meu marido considera-se demitido da presidência!
- Não enterro! - Eu me considero demitido da presidência!
- Não enterro! - A vaquinha...
vai sair da igreja imediatamente!
- Ô mulher sem coração! - Sem coração?
Porque não quero ver minha cachorrinha ser comida pelos urubus?
- Enterra ou não enterra? - Se fosse só pela lei de Deus...
a gente dava um jeito. Mas com o bispo não tem conversa.
Pão pra casa do vigário só vem agora dormido e com o dinheiro na frente!
- Ô mulher cruel! - E pelo dobro do preço!
- Uma esmolinha pelo amor de Deus. - Tenho não.
Ajude um pobre mendigo que tem um olho furado...
E eu com isso? Fui eu que furei seu olho, por acaso?
- Foi não, senhor... - Pois se quiser eu te furo o outro olho
pra ter obrigação com você de te dar esmola!
A minha cachorra só sai daqui se for enterrada pelo padre.
Mas minha filha, ela já tá começando a cheirar mal.
Então saia você de casa, quem sabe a catinga aqui dentro melhora!
Se me desse carta branca, eu enterrava a cachorra.
- Tem a carta. - Posso gastar o que quiser?
- Pode! - Vai ser mais fácil que dar milho a bode!
- O que que cê vai arrumar agora, João? - Eu vou arrumar um jeito da cahorra...
ser enterrada. E vai ser em latim!
Quer morrer, cabra?
Vou, mas levo tudo comigo!
- Seu Severino? - E tu conhece outro com a minha cara?
Ainda bem que o mendigo era o senhor, sorte que eu não tive que matar ele.
- Acabe sua frouxura, cabra. - Não gosto de matar, não.
- Mato, mas não gosto. - Aonde estavam indo sem o meu comando?
O senhor tava demorando, eu fui lhe buscar.
Rodei a cidade toda vestido de esmoler e não encontrei nenhum polícia.
Mas também não teve nenhum cidadão pra me dar uma esmola!
É por isso que eu roubo.
Não gosto de roubar não, mas quando a pessoa pede e não lhe dão...
Mas foi até bom, que eu ganhei mais raiva desse povo.
Eita que desse jeito num vai escapar ninguém em Taperoá.
Vai ser mais fácil do que dar tapa em bêbado.
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