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Eu pensei em come�ar do in�cio.
Mas n�o � assim que eu me lembro.
Tudo � uma s�rie de fragmentos.
Repeti��es.
Forma��o de padr�es.
Quando n�o h� palavras para a dor...
...deixe sua imagina��o transformar o que voc� sabe.
Conglomerado � o movimento da terra na liberdade da �gua.
Um anel em volta de uma pedra � sorte.
Lisa e pequena.
Arenito � calmante e claro. Ard�sia, naturalmente racional.
Arenito vermelho � o sangue da terra.
Voc� acredita no azul.
Desculpa.
Mem�rias...
...s�o hist�rias.
� melhor inventar uma com a qual voc� consiga viver.
I. PRENDER A RESPIRA��O
Um rosto sorridente.
Flor.
�rvore de Natal.
Para.
Claudia, sobe pro andar de cima. Vai!
Agora!
Me avisa quando voc� terminar.
A gente pode ficar aqui a noite toda.
Porra!
� t�o gostoso, Claudia. Eu realmente acho que isso vai
te fazer sentir melhor na hora.
Te fazer sentir melhor na hora.
Canta comigo, Belle.
Vamos, Lidia Belle. Canta comigo. Voc� sabe a letra toda.
Foi minha voz que sumiu.
�s vezes acho que ela saiu no papel.
-Eu escrevia... -...imagens e coisas verdadeiras...
-...mentiras alternadamente. -Isso me fazia sentir que...
-Me fazia sentir como outra pessoa. -Pelo amor de Deus!
-Eu escrevia palavras pra pertencer. -� sua filha!
N�o filha.
Pra nadadores.
Pra seguran�a.
Pra garotas. Voc� me d� arrepios e me d� dor de cabe�a.
M�e.
O cabelo dela.
As cicatrizes dela.
A hist�ria dela.
Eu ganhei um pr�mio por essa hist�ria, Belle.
E seu pai...
...ganhou um pr�mio de arte por esse desenho.
T�o ausente ela estava.
E minha irm�. Minha adora��o.
Minha irm�. Minha rever�ncia.
Voc� parece uma mendiga com essa camisa folgada e feia.
N�o te favorece em nada.
Olha pra mim.
Voc� t� tentando parecer um homem?
Minha irm�. Ela pega tudo.
Minha irm�. Ela pega tudo.
Na casa.
Sozinha no meu quarto.
Meus bra�os doem.
Minha irm� foi embora.
Minha m�e est�...
...ausente.
Meu pai desenha casas no quarto ao lado. Ele fuma.
Oi, querida.
Eu espero at� as cinco da manh�.
Eu pe�o pra
poder nadar.
Minha menininha.
Voc� t� crescendo t�o r�pido.
Adolescente.
No ensino m�dio. N�o acredito.
T�, fa�am fila. Garotas, hora da pesagem.
Voc�s sabem como funciona. Um tapa pra cada quilo acima.
Torres.
Boa menina.
Isso. � isso a�.
Reimer. 1,5 quilo.
Vamos, querida.
Yuknavitch.
Uma pra voc�, caloura. Vamos fazer direito.
Quantos quil�metros s�o necess�rios
pra nadar
at� um eu?
Quantos...
...malditos quil�metros?
Batemos o recorde! Caramba, batemos o recorde!
Nossas medalhistas de ouro do revezamento
medley do Florida Aquatic Swim Team
fizeram o melhor tempo do pa�s inteiro.
Parab�ns.
Os olheiros est�o de olho, terceiranistas.
Ent�o voc� quer mesmo isso, n�?
Voc� s� conseguiu tr�s quartos.
Se eles quisessem voc� de verdade, teriam dado tudo, n�o �?
"Temos o prazer de oferecer uma bolsa parcial."
Metade. Voc� � melhor que isso.
A �ltima.
Na minha cabe�a, eu nadava voltas.
Voc� nem conseguiu bolsa integral.
N�o me culpa.
Se eles n�o te querem, voc� n�o pertence l�.
Eu sentia o gosto de sangue.
A resposta � n�o.
Por qu�?
Porque ele podia.
O qu�?
E eu era dele.
Ei, olha pra mim.
Olha pra mim.
Eu s� quero o melhor pra voc�. Voc� sabe disso.
Eu sabia que ele conseguia sentir.
Aquele m�sculo rosa.
Que aperta
e aperta...
Voc�s deviam estar l� fora aquecendo.
...com toda for�a.
Lidia!
Precisa de ajuda?
Sou treinador da Texas Tech.
Prazer em te conhecer. Vamos conversar.
Gostar�amos de ter voc� no nosso time.
Sim.
Eu quase a amava.
Vamos, Belle.
Eu te conhe�o, Lidia. Eu sei o que voc� faz.
E � nojento. T� me ouvindo?
� muito nojento, Lidia. Voc� devia ter vergonha!
Isso � controle.
Eu me controlo.
Voc� n�o sabe at� onde eu consigo ir.
Meu quarto comporta o �mido e escuro do meu corpo.
Cheira ao meu suor
e cloro.
Oi. N�o consegue dormir, n�?
�, eu tamb�m n�o.
Vem c�. Quero conversar com voc�.
Desculpa se tenho sido t�o dura com voc� ultimamente.
Acho que eu s�...
...estou t�o preocupada com voc� l� fora.
As coisas v�o ser diferentes quando voc� for pra faculdade.
Quero que voc� me escute.
Ele contava o que os garotos iam fazer comigo.
Como eles iam enfiar suas m�os sujas por baixo da minha saia e me comer.
Apalpar meus peitos.
Chupar eles.
O quanto os garotos podiam ser nojentos.
As m�os deles, os quadris deles querendo entrar e subir.
E os paus deles.
E o dele.
Eu sento ao lado dele,
sentindo o calor dele sem nem olhar.
O que voc� t� fazendo aqui fora?
Qual � o seu problema?
Quero que voc� saiba
que eu te amo.
Voc� � uma puta do caralho.
Tem alguma coisa pra me dizer?
Vai se foder, seu filho da puta.
O que voc� acabou de dizer?
Vai se foder... seu filho da puta.
Me deixa em paz, caralho!
Tudo em que eu pensava
era na minha buceta escancarada.
Escancarada como uma boca... gritando.
Seu filho da puta!
Seu filho da puta.
Eu n�o sabia que um corpo de garota podia fazer isso.
Ejacular.
Minha comida, meus pensamentos, meus amigos, meu lugar.
Minha bebida, meus dias, minhas noites.
-Meu sexo, minhas drogas. -Meu.
Algo t�o empurrado pra baixo num corpo
que tinha que explodir.
Eca!
Onde voc� pensa que vai?
Eu te conhe�o.
Voc� n�o vai a lugar nenhum.
T�o longe do meu pai.
T�o longe do meu pai...
Eu s� quero...
Eu amo suas m�os.
Eu amo sua voz.
S�o meu pai e meu irm�o que t�m as vozes de verdade.
Eu sempre ou�o elas na minha cabe�a.
� verdade?
O que elas dizem?
Elas s� cantam "Amazing Grace".
Vozes de Deus.
Me come.
Ah, mesmo?
Coitado do Philip.
Queria poder voltar e pedir desculpas.
V�o se foder, todos voc�s!
Me chupa!
Ele � s� um James Taylor comum
cantando com toda a alma aqui no Texas!
E �s vezes eu me pergunto
Se voc� ainda pensa em mim
Esse mundo talvez nunca mude
Do jeito que sempre foi
E eu sei que a paz vir�
Por que voc� sempre faz isso, Lidia?
� divertido, vai!
� divertido! Voc� sabe disso.
Voc� � um... medroso!
Vamos, aprende a aceitar...
...uma piada. Voc� � muito sens�vel.
Isso � uma das coisas mais pat�ticas que eu j� vi.
Isso � o que... Isso � do que eu t� falando.
� como falar com uma ma�aneta de porta.
Por que voc� n�o diz alguma coisa?
Por favor, diga qualquer coisa.
Eu sou uma vadia do caralho, ent�o por
que voc� n�o faz nada sobre isso?
Voc� n�o � uma vadia.
Vai se foder, Philip!
Voc� nem me conhece, porra.
Philip significa "amante de cavalos".
Puta que pariu.
Ou "irmandade".
Acorda, seu filho da puta!
Ei, Lids. Quer sair daqui?
Ela t� bem. Eu levo ela de volta.
Ei, fecha a porta a�.
S� fecha a porra da porta!
N�o te vi no treino.
�, fui expulsa.
De boa.
Eu ainda consigo sentir meu rosto.
O v�cio claramente existe em mim.
Mas quero te descrever outra coisa.
Algo menor.
� uma palavra menor.
M�e?
T�o pequena que consegue viajar pela corrente sangu�nea.
Sai daqui, Belle.
Sai daqui, Belle.
Fica longe.
Isso n�o � pra voc�.
Eu n�o vou falar sobre nada.
Eu n�o vou falar sobre nada.
Eu n�o vou falar sobre nada.
Dorothy?
Vem. Levanta.
Me desculpa!
Me desculpa.
Sim. Lidia...
Voc� pode falar com a gente.
Ajuda.
Confia em mim.
Eu n�o vou falar sobre nada.
Eu sempre quero dizer... Sim.
Encontre sentido no tr�nsito da vida
limpando barreiras espirituais.
Tenho orgulho de voc�.
Voc� sabe disso?
Sei.
Quer casar comigo?
E crian�as t�m seus sonhos
Pra se agarrar
E como eles voam
Nos levam pra lua
Sim, eles se afastam de voc�
Eles se afastam de voc�
E eles se afastam de voc�
E mulheres t�m a si mesmas Pra se agarrar
E como elas voam Me surpreendem
Elas se afastam de mim
Elas se afastam de mim
E elas se afastam de mim
Querida, voc� foi muito bem.
Voc� foi muito bem!
Fiz um ch� pra voc�.
N�o quero ch�. O que a gente vai fazer?
Lidia...
Eu te amo.
E o que quer que voc� queira fazer, eu vou te apoiar.
Foi s� isso?
Eu preciso de mais que nada
do homem mais passivo do planeta Terra!
Desculpa, estou meio doente.
Voc� n�o quer nada, e voc� me mata por n�o querer nada!
-No que voc� tava pensando? -N�o sei.
N�o sei. N�o sei. � imposs�vel pra caralho!
N�o aguento o quanto ele � bonzinho. Simplesmente n�o aguento!
N�o aguento a bondade dele.
Mas tamb�m n�o conseguia terminar.
Pensei que talvez exista um mundo onde eu...
...v� morar com voc�
em Eugene e fa�a algumas aulas que voc� d�.
N�o sei. Talvez a gente possa formar uma pequena...
...fam�lia.
Porque acho que minha vida com ele vai ser uma triste m�sica sertaneja.
-E essa � a �nica... -Lidia, eu disse sim.
Vem pra casa.
T� bom.
Legal.
Porque ela me deixou uma vez
pra salvar a pr�pria vida.
O que voc�s duas est�o fazendo a� atr�s? Brincando com voc�s mesmas?
U�? Eu trago elas pra paisagem mais linda do mundo
e elas s� ficam de besteira.
Olha pela janela maldita!
Claudia, pega o serrote debaixo do banco da sua m�e.
Vamos! Bora.
Aqui, querida.
Como alimento.
Como alimento.
N�o quer?
Vem, querida. S� um golinho pra te esquentar.
Gra�as a Deus!
Cad� a �rvore?
Ali.
� a imagem.
Bem-vinda em casa.
Entra. Eu pego isso.
-Porque estou gr�vida? -Sim.
Aqui.
Obrigada.
Caramba.
Obrigada, Claudia.
Lembra quando voc� costumava me fazer fazer coisas?
Tipo...
"Aqui. Morde essa ma��."
Empurra na minha boca.
-"Aqui. Cheira esse cinzeiro." -"S� assopra. Um, dois..."
Cinza na minha cara toda.
Eu faria qualquer coisa.
Voc� era incr�vel aos meus olhos.
Lembro quando eu descia depois que voc� se mudou pro por�o.
Eu n�o entendia o quanto era esperto na �poca, mas...
Eu costumava olhar todas as suas coisas e mexer nelas.
Uma vez achei uma gilete na sua bolsa.
Me cortei com ela.
Ardia quando eu fazia xixi.
Eu sei que isso � um... sacrif�cio.
N�o.
� s� que...
Voc� era t�o pequena.
Essa � uma forma de remendar a pr�pria vida.
Talvez eu estivesse esperando por isso.
Respira.
Eu sei.
Vamos. Vamos.
Voc�...
...consegue.
Cad� ela?
Posso segur�-la?
Claro.
S� um momento. Estamos s� limpando...
Os l�bios dela s�o rosas.
S�o rosas.
S� joga o mais longe que puder.
N�o tem gra�a.
Busca.
Desculpa.
Olha. Ela t� toda em voc�.
Voc� t� rindo, porra.
O que viveu e morreu entre n�s
ainda me assombra.
II. DEBAIXO DO AZUL
Meu Deus, garota! Voc� � algum tipo de sereia?
Sou.
Tem algo a dizer?
Deixa pra l�.
Vem. Voc� merece isso.
N�o quer vir comigo?
Nem sou aluna. S� fico no departamento de ingl�s.
Acha que o Kesey liga pras regras da universidade?
-Voc� vai se arrepender se n�o for. -Eles nem querem me matricular.
Besteira! J� contei pra ele sobre voc�.
Essas...
Ele vai te adorar.
Voc� n�o quer escrever um romance com Ken Kesey?
Oi, pessoal. Oi, todo mundo.
Voc� � um idiota.
Oi. Essa � a Lidia.
-Diz oi. -Oi.
E a�.
O que temos aqui?
Uma rebelde com notas altas?
Eu sei o que aconteceu com voc�.
A morte � uma merda.
Porra.
Jeff, pode enrolar um? Odeio sentar numa sala cheia de escritores.
A cadeira aguenta.
Quero que todos voc�s...
Quero que todos voc�s sejam vencedores.
Quero que sejam guerreiros.
Guerreiros. Vou dar a voc�s o teste do guerreiro.
Merda boia. Creme sobe.
Merda boia. Jerry Rubin.
Creme sobe.
Ferlinghetti.
Lord Buckley.
Lenny Bruce.
Os grandes.
Quero que voc�s sejam grandes.
Porra, porque algu�m...
...tem que criar nossa cultura nos pr�ximos 50 anos
e quero que sejam voc�s. S� h� duas regras. Um:
N�o fale sobre o enredo do nosso romance
com ningu�m que n�o seja dessa turma.
Dois: Eu sou 50 por cento da turma,
ent�o s� escrevemos juntos,
porque vamos publicar ou afundar juntos.
Nelson Algren disse:
"O trabalho do escritor
� arrastar o juiz at� o cais,
pra fazer o Todo-Poderoso sentir como � estar l� embaixo."
Ele vai ficar bem.
Maconha nunca matou ningu�m.
Ent�o, manda ver.
De uma vez. Escrevam algumas frases bizarras.
Ei! Onde voc� est�?
N�o tome calmantes antes da aula.
Agora mergulha na sua imagina��o. Vamos!
Mergulha na sua imagina��o. Ningu�m est� na sala al�m de voc� e a caneta.
Melhor.
� isso. Isso � sensacional.
Eu escrevi "Demon Box" aqui.
Essa sala aqui � um espa�o criativo. � um lugar criativo.
Ei, Bennett. Voc� n�o trouxe calmantes, n�?
Esse tipo de droga fica no corpo, n�o na cabe�a.
Fica no LSD, psilocibina, San Pedro.
Algo que possa quebrar seu ego pra voc� ouvir sua voz interior.
E voc� escreve a partir dessa voz.
Voc� quer que sua voz saia.
Jesus...
N�o era pra isso acontecer.
Tenho joelhos de lutador.
T�.
Vamos sair antes do sol se p�r.
Quero que voc�s...
...conhe�am algu�m.
Vamos!
Vai se foder, Deus!
Deus errou nos mandamentos. Acho que h� um d�cimo primeiro.
E deveria ser o primeiro mandamento. Tenha piedade.
Senhor, tenha piedade!
Imagina se todos tivessem piedade uns dos outros, onde estar�amos hoje.
Voc� v� um cara na rua precisando de dinheiro. D� pra ele.
Tenha piedade. Ele precisa.
Ele n�o pediria se n�o precisasse.
Piedade.
Eles v�o ter que me contratar pra reescrever a B�blia.
O que voc� �, algum tipo de sereia?
Sou.
Sabe, quando Judd morreu, meu filho,
eu queria deixar de existir.
E todo mundo que falava comigo dizia alguma idiotice.
Ou nada.
Ningu�m mais entende a morte.
Costumava ser sagrada. T�o sagrada.
Porra. Ningu�m � grande o suficiente pra
carregar o que acontece com a gente.
Ningu�m � grande o suficiente pra carregar o que acontece com a gente.
Tem algo a dizer?
Est� nas suas m�os.
Tudo sobre meu pai estava nas m�os dele.
� tudo sobre coordena��o.
Uma dan�a perfeitamente equilibrada.
De sombra e luz.
Antes de meu pai ser meu pai
ele era artista.
Seu pai ganhou um pr�mio por esse desenho.
Antes de meu pai ser artista
ele era atleta.
Antes de meu pai ser meu pai...
...ele era bonito.
E ela tamb�m era.
Antes de meu pai ser meu pai
ele era um menino.
Apenas um menino
cuja m�e cortou sua l�ngua.
Antes de eu odi�-lo
eu o amava.
Olha pra cima. Se voc� n�o olha pra onde vai, voc� cai, entendeu?
No fim da descida voc� s� freia o suficiente pra fazer a curva. T�?
Vai. Olho na estrada!
Continua.
Cabe�a erguida!
Olho na estrada. Voc� precisa frear!
Mike!
-Pega uma lanterna! -Por qu�?
Acho que ela se machucou l� embaixo. T� sangrando.
-O que aconteceu? -S� fecha a porra da porta!
Terminou o cap�tulo?
Tudo que eu era era meu corpo sangrando
Ol�!
Sou escritora.
Obrigado.
Estamos reunidos aqui porque queremos ver o resultado.
Queremos testemunhar os resultados desse experimento,
um romance colaborativo
escrito por n�s.
Ent�o vamos dar as boas-vindas ao primeiro
dos palha�os n�o t�o alegres ao palco
pra apresentar "Cavernas".
Lidia, vem aqui.
Vai dar certo.
Minha coxa atr�s do joelho...
Voc� tamb�m? Minha bunda.
Atr�s dos meus joelhos, e eles est�o...
Pai da Lidia.
O que posso dizer? Sou um grande admirador.
Mike, certo?
Sim, isso mesmo.
Bom que voc� p�de vir.
Lidia e eu assistimos Um Estranho no Ninho
e �s Vezes D� uma Grande Loucura juntos,
e s�o brilhantes. Quer dizer, livros brilhantes.
Sabe, Mike...
Lidia aqui...
Ela consegue acertar em cheio.
Quer que eu autografe?
Obrigada por vir, pai.
Para... Mike?
Pode ser.
"Para Mike."
"Seja...
...corajoso."
Aqui est�, Mike.
-Aqui, cara. -Valeu.
Eu vi muitos escritores irem e virem.
Voc� tem o que � preciso.
Tenho uma coisa pra voc�.
Aqui.
Toma.
Vem da praia mais espiritual da Terra.
Segura.
Voc� pode segurar tudo.
Voc� vai segurar tudo, garota.
Ent�o...
O que vem a seguir?
-A seguir? -A seguir. O que vem a seguir?
A seguir.
Quero escrever "O Som e a F�ria".
Claro que quer, amiga.
Ai, Jesus...
-Joga e v� se eu pego. -Pronto?
Merda!
Tudo dependia de ela entrar.
N�o tem met�fora.
-T�. -Foda-se met�foras.
-T�. -� s� uma pedra que caiu.
-Vou buscar a pedra e ir mijar. -T�.
Isso a�! Voc� consegue.
Essa foi a �ltima vez que o vi.
Voc� sabe escrever, garota!
Na minha vers�o, ele se afogou.
III. O MOLHADO
Caddie quer foder. Ela � insaci�vel,
e como o vizinho tem um volume enorme na cal�a
e um som que sai dele em vez de linguagem,
ela vai at� ele e tira toda a roupa,
ent�o ele a come no final
e a esmaga.
Ele a come at� a morte, e ela adora!
Ela ri at� chorar e uma ambul�ncia precisa vir.
Mas � tarde demais.
Isso � "O Som e a F�ria".
Banal.
J� li "O Som e a F�ria".
Retrabalhar Faulkner � s� coisa de faculdade.
Talvez tente algo original.
Meu Deus, eu odeio eles.
O que diabos ele sabe?
� original. � uma maldita pastiche.
Ei, quer ir pra praia? Reservei um quarto pra gente.
Oi, Hannah.
Na verdade, vamos trabalhar nisso no fim de semana.
Vem. Sua braguilha t� aberta.
Lids...
O que � isso?
Faz se tiver coragem.
Vem.
Qualquer coisa.
A qualquer hora.
Em qualquer lugar.
Por favor, cuidado.
Qualquer coisa. A qualquer hora. Em qualquer lugar.
N�o sentir absolutamente nada.
-Vou buscar lenha. -N�o faz nada que eu n�o faria.
Isso � tipo uma...
...viagem pra trepar?
O qu�?
Eu nunca... Nunca gostei de buceta.
Eu queria ficar daquele jeito.
Al�m de todas as palavras.
Dentro do molhado sem nome.
Voc� t� bem?
Eu te amo, Lids.
Eu realmente te amo.
Te vejo depois.
Na �gua,
como nos livros,
voc� pode deixar sua vida.
Peguei! Peguei.
-Lembro de uma inf�ncia feliz. -Vem, vem!
-Mergulhamos, nadamos, competimos. -Voc� foi r�pida dessa vez.
Rimos como outras crian�as.
Lembro de nomes completos como Evie Kosenkranius
e Lynn Colella-Bell.
Lynn Colella-Bell. Lynn Colella-Bell. Lynn Colella-Bell.
Fazendo loops de m�sica na minha cabe�a.
Mononucleose?
N�o � a doen�a do beijo?
N�o. N�o seja bobo.
Tudo vai ficar bem, Belle. Vai ver. Voc� vai melhorar.
E seu pai vai cuidar bem de voc�.
-N�? -A gente se vira.
Mam�e vai vender umas casas.
Oi, querida.
Minha menininha.
Em poucos dias vai passar.
-A linguagem me permite expressar... -Isso a�.
...como quatro semanas podem ser anos.
� a superf�cie male�vel de uma p�gina branca.
Voc� mostrou isso pra algu�m?
N�o.
Pele, cicatrizes...
As pessoas sempre me perguntam por que meu trabalho � t�o sombrio.
O que voc� sabe sobre dor, Lidia?
Eu sei
que isso importa pra mim.
Vou cuidar de voc�.
Entende?
Me pede o que voc� quer agora.
N�o � verdade, anjo.
Eu...
...quero que voc�...
Bata isso pra fora de mim.
...me chicoteie.
Onde voc� quer ser chicoteada, anjo?
Em todo lugar.
Leve isso pra algum lugar.
Leve a dor pra algum lugar.
M�e.
Tenho orgulho de voc�.
N�o estou tentando te deixar desconfort�vel.
Estou tentando ser precisa.
IV. RESSUSCITA��ES
"A� mam�e choramingou, papai cheirou minha buceta.
Meu melhor momento foi atingido, ele declarou.
Eu tinha certeza do que ele queria dizer. � o momento da verdade.
Eu vou, vou, vou, me masturbo.
Minhas m�os v�o se partir. Nem reconhe�o meu corpo.
N�o importa. Sei que voc� � minha. Eu te fiz, eu te fa�o.
Jurei viver pelo prazer. Minha l�ngua � enorme. Vai at� a cintura.
Voc� v� seu verdadeiro pai em seu momento de verdade.
Deus Todo-Poderoso, nada importa. Voc� � meu Deus, minha filha.
Eu te adoro. Faz com que eu possa te satisfazer. Olha pra ela.
Ela � grande na minha m�o retorcida. Beija.
Meu pai declarou de novo, eu sou Deus porra e criei Deus. Puta merda!
S� olha pra Deus e ele est� feliz porque eu o fiz gozar.
Deus est� no c�u. Eu estou no c�u e eu morri.
Eu gozo toda na sua cara. Eu lambi a porra dele.
-Isso me enoja.
ALEGORIAS DA VIOL�NCIA
Quem diabos voc� pensa que �?
A filha do meu pai.
Sou uma mulher que fala consigo mesma em mentiras.
Puta que pariu.
Ano um.
Vodka!
Eu bebo vodka, quase o tempo todo.
-Uma dose direto, direto. -E n�o sentia nada sobre mim mesma.
Bebemos, rimos, fodemos. Fazemos sombras de corpos fodendo em tinta.
Fazemos performance. Performamos a n�s mesmos.
Vai se foder, Deus!
Abre a porta!
Gravamos nossos nomes nos bra�os uma do outro.
Eu fiz isso por voc�!
Fodemos infectados.
Estava bem na minha frente, Devin. Vi exatamente o que aconteceu.
-Voc� nem entende. -O qu�?!
Que vou casar com voc�.
Por Mike e Dorothy!
Fico t�o feliz que eles foderam.
Pra pular pro ano seis quando hist�rias
submersas come�am a arranhar
e gritos come�am um ritmo onde a bebida fica mais alta...
Vai beijar mulheres que eu conhe�o e n�o conhe�o!
O que � um casal ao longo do tempo sen�o uma repeti��o?
Vou te dar uma repeti��o. Sua conversa
fiada t� tomando conta da casa!
Estava tomando conta da casa.
N�o quero foder.
Quero ler.
Vai se foder.
Eu n�o queria beber.
Eu queria escrever.
O que � um casal ao longo do tempo?
Ano sete. Terminei minha tese.
Ano oito tirei um doutorado.
Ano dez.
Fingimos.
Voc� disse
que me amaria at� eu morrer.
Voc� disse que morrer�amos juntos de amor.
Voc� me disse isso.
Cad� voc�?
Cad� o homem?
Quem amaria uma mulher como eu?
Nem pense.
A data da sua leitura � 15 de junho de 1998.
"A data da sua leitura."
O qu�?
Recebam...
...lendo um trecho de sua primeira
cole��o de contos "Suas Outras Bocas".
Lidia Yuknavitch.
Lidia, por favor.
"O dia em que minha filha nasceu.
Depois que segurei o futuro.
Natimorta.
E rosa.
E l�bios de rosa.
E l�bios de rosa nos meus bra�os tremendo.
Pequenas trag�dias s�o dif�ceis de organizar.
Cronologia nos convence de que estamos indo a um lugar real.
'Nadadores, em suas marcas.'
Um tiro de pistola.
Um tiro de pistola soltou nossa carne tensa.
Pais eram frequentemente insustent�veis enquanto
as pequenas mulheres nadavam por suas vidas.
'Nada.
Nada!
R�pido!
Vamos, querida.
Mais forte.
Mais forte!
Mais r�pido!'
Uma cacofonia de homens inchando
e pressionando contra o movimento molhado.
Quantas vezes deslizei para as profundezas cloradas
e secretamente esperei trocar essa pele sem valor
e produzir algo...
...anf�bio
e sem g�nero?
A quest�o �
que essa coisa de deixar tudo entrar
e esperar pra ver o que sai
� assustador
e idiota.
E est� come�ando a me deixar puta
eu ter que pensar nisso tudo.
O que estou dizendo �...
H� uma mulher num quarto que est� cansada de olhar pra baixo
e sangrar
e aguentar, desejar e ansiar
e est� cansada de estar aberta
sem esperan�a de se costurar.
N�o � que eu queira que isso desapare�a.
� s� que
eu quero...
Querer...
...vir de outro lugar.
H� momentos com anos entre eles que aparecem com grande for�a."
-Me lembra por que estamos aqui.
-Pensei que foi ideia sua. -Vim com voc�.
Del�rio.
Mulheres adultas s�o idiotas.
N�o sei.
Ela implorou.
Eu mudei meu nome.
Lidia! Lidia!
-Vira ele.
-Me ajuda!
"Matar.
Ou sugar o matar de volta.
E bombear pra dentro
da hist�ria de outra pessoa.
Meu pai perdeu a mem�ria por falta de oxig�nio naquele dia.
Eu n�o o matei.
Eu n�o o salvei.
Estou aprendendo a viver em terra."
Obrigada por...
Seus pais leram a hist�ria? O que eles acharam?
Aproveite Nova York. Arranje um agente.
Lidia, prazer em conhec�-la. Obrigada por estar aqui.
Com licen�a.
Voc� tem algo...
...um pouco mais forte?
Obrigada.
Carol Houck Smith, Norton Publishing.
Foi muito impressionante o que voc� fez l�.
Obrigada.
N�o, s�rio. N�o pareceu f�cil.
Tem mais de onde isso veio?
Talvez algo mais longo?
Voc� deveria me mandar algo.
� s� que
algo em mim tinha nascido...
...natimorto.
V. O OUTRO LADO DE SE AFOGAR
� uma pequena pedra que carrego.
A vergonha de querer algo bom.
Minha vida!
Lixo do caralho.
Ei, o que voc� t� fazendo? Continua trabalhando.
Oi.
O bloco de cortes. Avalia��o de pares.
Quem quer come�ar?
� muito �til. Voc� n�o pode viver a vida errada.
� a hist�ria que te contaram. A sua � igualmente importante. � sua.
Deve doer, mas fico feliz por voc�.
T� nem a�!
Algo pequeno e espec�fico chamou minha aten��o,
um detalhe importante,
um hematoma no osso do nariz dela
que me fez perceber que seus olhos eram azuis, como os meus.
Quanto?
Pago 100 d�lares pro cafet�o dela. Pe�o pra ela entrar.
Pe�o pra ela sentar.
Na hist�ria eu digo:
"� assim que � ser eu.
Uma mulher que ensina ingl�s,
olhando pra uma mulher que chupa paus
que passa o dia todo no meu sof�
fumando.
Quando olho pra ela, acho que ela parece com Maria.
Quando vejo uma imagem de Cristo
imagino Maria t�o consumida, magra e cansada
e t�o furiosa � beira da exaust�o que
mal consegue carregar o pr�prio rosto.
Na hist�ria eu digo:
"O que devo fazer?
Ensin�-la?"
Isso � o que eu, uma viciada em recupera��o,
penso quando me d�o algo t�o infinitamente
pequeno quanto palavras pra acreditar.
Olho pra ela.
Ofere�o palavras.
As pessoas sempre me dizem:
"Aquelas coisas nas suas hist�rias aconteceram de verdade?"
N�o � essa a pergunta
quando se trata da vida?
Isso realmente aconteceu comigo?
Andy.
N�o sei.
Coisas que acontecem com a gente s�o verdadeiras.
Mas escrever � outra hist�ria.
Esperava que a gente pudesse discutir meu manuscrito.
Claro. Com certeza.
Tamb�m quero te emprestar meu carro.
Vi voc� pegando �nibus
e acontece que tenho dois carros.
Voc� entende muito sobre uma pessoa quando a v� na �gua.
Obrigada.
-Por qu�? -Por me deixar nadar com voc�.
Li algumas das suas hist�rias. Sei que nata��o � importante.
Sempre deixo meus alunos escolherem o lugar.
Queria dizer que j� te vi algumas vezes antes.
Li que Ken Kesey dava aula na universidade,
quando eu estava no exterior. Me inscrevi pro curso,
mas j� estava cheio.
-Caramba. Que engra�ado! -Pois �, eu sei.
Eu te vi andando pelo departamento de escrita criativa.
Eu estava na leitura que voc� fez no Gerlinger.
� estranho. Estranho.
Estranho.
Foi um dia estranho pra mim.
Por qu�?
Meu pai...
...foi meu...
Meu pai...
Seu pai?
...abusou de mim.
Seu pai.
Como?
Sexualmente.
Que merda.
Espero que ele tenha levado um karma pesado.
Na verdade, levou.
Que bom.
Faz muito tempo. Eu era uma pessoa completamente diferente ent�o.
Ent�o, quem voc� � agora?
Eu sou sua professora.
E a�, professora, vai aceitar meu carro?
N�o sei direito como contar como �
ver a pequena mulher nadando pela pr�pria vida.
Quer dizer...
Voc� t� completamente maluco?
N�o.
Voc� acha que sou outra pessoa.
Consigo ver a m�e em voc�.
H� mais na sua hist�ria do que voc� imagina.
-� lindo. -� sim.
Lindo.
A gente s� vai por aqui, pra esquerda.
E o quarto?
Disseram que vai ficar pronto amanh�, com certeza.
Deve ter sido uma viagem estranha.
Obrigada.
Voc� nunca precisa me agradecer.
-Estou bem. -Tem certeza?
Tenho.
Oi, pai.
-Marilou? -N�o, sou eu. Sou a Lidia.
Eu sei, querida.
Eu li esse livro.
-�? -Sim.
Sabe quem escreveu?
Voc�.
Isso mesmo.
Voc� leu todas as hist�rias?
Tinha uma sobre nata��o.
Eu gostei dessa.
Obrigada.
Mas n�o muito lisonjeira pra mim.
Ganhei um pr�mio por essa hist�ria.
Fui pra Nova York.
�, nada mal.
� bonito aqui.
� uma casa de verdade que voc� tem aqui.
Muito bem.
Muito bem feito.
As mem�rias mais seguras est�o trancadas
no c�rebro de pessoas que n�o lembram.
Pega ela, Mike!
Voc� sabe que eu n�o nado. - Claudia, busca sua irm�!
Debaixo d'�gua pra sempre.
Isso a�, amigo.
Olha, eu t� nadando!
O que foi?
A �gua vai entrar no meu nariz, nos meus ouvidos e no meu c�rebro.
Miles...
Quantas vezes voc� viu a mam�e nadar?
Muitas vezes, n�?
Voc� j� pensou
que eu nunca tive �gua no c�rebro?
A �gua nunca entrou no meu c�rebro.
Quer ver? Olha isso.
Me diz quanta �gua entra no meu c�rebro. T�?
Viu?
T�, vai.
Tenho uma brincadeira muito importante.
Vou colocar minha cabe�a inteira debaixo d'�gua.
E a gente vai olhar um pro outro debaixo d'�gua.
-Que brincadeira � essa? -Eu inventei.
O segredo �
inventar coisas.
N�o � besteira o que eu t� dizendo.
Entra.
A �gua vai te segurar.
Legendas e sincroniza��o: vdmnk
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