All language subtitles for A Natureza das Coisas Invisíveis.2025.1080p.WEB-DL.x264.NACiONAL.5.1_untitled_track2_[por]

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Original subtitles

[ventania]

[música suave] ♪

[chilrear de pássaros continua]

♪

[água corrente]

♪ [música suave finaliza]

- [vozerio ao fundo] - [música animada ao fundo]

[porta fecha]

[música animada ao fundo continua]

[vozerio ao fundo continua]

[água corrente]

[grunhido de porco]

[porta fecha]

- [Glória] Mãe. - [Antônia] Oi?

- [Glória] Posso ir na frente? - [Antônia] Pode, ano que vem.

Difícil combinar alguma coisa com você, eu já tenho 10 anos.

Então vamos fazer assim: eu deixo você ir na frente só hoje

e aí você coopera e fica no trabalho comigo.

[alarme do carro]

[Antônia] Combinado?

[Glória] Mas não é justo!

- Já sei. Eu quero um cachorro. - [Antônia] Ah, é?

Põe o cinto.

E me diz uma coisa. Quem é que vai cuidar desse cachorro?

Você na escola, eu no trabalho? [questiona]

[Antônia suspira]

Negativo.

[suspira]

O que você está vendo aí?

Uma galáxia de 10 bilhões de anos.

[Antônia] Dez bilhões? Nossa, mas tá velha, hein?

Essa galáxia deve estar gagá.

[Glória] Mãe, mas para uma galáxia isso é normal.

[música de suspense] ♪

[Glória cantarola]

Vai, esfrega direitinho, vem.

[vozerio ao fundo]

[Margô] Meu milagre chegou. Meu beijo, meu anjo.

Cuidado com esse acesso aqui, dona Margô.

- Está doendo? - [Margô] Não.

[Antônia] Relaxa o braço.

[homem] Ô, Glorinha, você veio.

Que saudade! Eu estava troncho de saudade de você.

[Osvaldo] Oi, querida!

Ah, coisa boa que você veio!

Beijo, beijo, beijo.

- [ri] - [bipes de monitor cardíaco]

- Olha. - [Osvaldo] Hã?

- Meu boletim. - Hum, boletim? Muito bem.

"Biologia". Que número é esse aqui?

Oito e meio. Isso aqui é uma medalha?

- Onde você conseguiu? - Essa medalha?

Na escola é que não foi.

O que eu matava aula... O boletim cheio de nota baixa.

Eu era ruim, mas ruim demais!

Meu pai não gostava disso, não. Aqui, tá vendo essa cicatriz?

Surra que eu levei por causa de nota baixa.

Mas o senhor não disse que essa foi de quando você caiu de avião?

[Osvaldo ri] Menina inteligente!

São tantas as cicatrizes e tantas as histórias

que esse velho aqui não lembra de mais nada. [ri]

Seu Osvaldo enchendo a cabeça da menina de caraminhola, hein?

- [Osvaldo resmunga] - Vamos, filha?

[Glória] Não, mãe.

[Osvaldo] Mas agora que a gente tá tendo um papo bom aqui.

Hum, tá bom. O senhor olha ela pra mim?

- [Osvaldo] Claro. - [Antônia] E esse seu intestino aí,

a gente vai curar só com caminhada.

- O senhor larga de ser preguiçoso. - Tá bom. [ri]

[sirene de ambulância]

[porta abre e fecha]

[enfermeiro 1] Paciente vítima de queda da própria altura,

apresentando rebaixamento do nível de consciência.

- [médico] Quanto tempo? - [enfermeiro 1] Trinta minutos da queda.

A senhora me ouve?

- Paciente rebaixada, doutor. - [médico] Ok, vamos tomografar.

Glória, senta ali e me espera. Anda, vai.

- [Glória] Mãe, a gente não ia embora? - Me obedece, senta ali e espera agora.

[enfermeiro 1] Antônia, você pode atender ela?

[enfermeiro 2] Veio uma criança junto, foi ela quem acionou a ambulância.

Oi, você está bem?

Está doendo em algum lugar? Não, tem certeza?

Você foi muito corajosa, viu? Você ajudou a sua vó.

É bisa.

Eu posso ligar pra minha mãe?

[Antônia] A gente vai ligar pra ela. Não se preocupa, tá bom?

Ó, tá vendo aquela menininha ali?

Você me espera lá com ela? Pode ser?

Chama a assistente social.

É sangue?

Quer uma camiseta nova?

[suspira] Vem.

- É seu? - Não, mas não é de ninguém.

Você tá me dando uma coisa que não é sua?

Mas não é de ninguém.

Tem certeza?

É que não posso pegar coisa de gente morta.

Oxe. E quem disse que isso é coisa de gente morta?

Aqui é um hospital, lembra?

Mas isso é coisa de gente viva, ela só esqueceu aqui.

E depois foi embora.

[Sofia] É assim que falam pra uma criancinha que alguém morreu.

É tipo falar que o cachorro foi pra chácara.

Quer um?

Você não tem medo de usar coisa de gente que você não conhece?

Gente que pode ter morrido?

Depende, se for bonito... [ri]

Por que eu teria?

Bagulho de maldição.

[Glória] Não.

[Sofia] Minha bisa tira, mas é difícil.

[música suave] ♪

[Glória] Eu acho que isso não é verdade.

[Sofia] Pior que é.

♪

[Glória ri]

Eu não tô acreditando!

[Antônia] Você fica aqui até a sua mãe chegar, viu?

E não é pra sair do quarto.

[porta fecha]

[cricrilar de grilos]

[Glória] O que aconteceu com a sua bisa?

Ela estava andando e caiu.

Se não é doença, vai sarar logo.

[Sofia] O problema é que ela está mal faz tempo.

A mãe trouxe ela pra morar aqui com a gente e ela ficou pior.

[Glória] Mas por quê?

Ela não gosta da cidade, coitada. Deixou tudo que era dela no sítio.

[Glória] Vocês não podem voltar pra buscar?

Não, né?

A minha mãe não ia deixar.

Ela diz que a bisa não pode morar sozinha porque ela é velha.

Mas quem não quer ficar sozinha é ela.

Sua mãe?

- Posso te contar um negócio? - [Glória] Hum?

Eu não vou voltar pra escola, eu vou fugir e morar com a bisa.

[Glória] E pode não voltar pra escola?

Tô nem aí.

[Glória] Licença, com licença.

Licença, com licença.

[Glória e Sofia riem]

[bipes de monitor cardíaco]

- [Sofia sussurra] Você mora aqui? - [Glória sussurra] Aqui no hospital?

- [Sofia consente] - [Glória] Não, claro que não.

É que minha mãe trabalha muito e eu fico aqui com ela.

Mas eu tenho casa.

- [música suave] - [bipes de monitor cardíaco]

[Glória] Aquilo que você falou sobre usar coisa de gente que já morreu, é verdade?

[Sofia] É melhor confirmar com a bisa quando ela acordar.

- [Glória] Eu tive que pegar uma coisa. - [Sofia] O quê?

É um machucado?

[Glória] É uma cirurgia que eu fiz.

É que meu coração estava ruim, parou de funcionar.

E os médicos colocaram outro em mim, senão eu morria.

[Sofia] E de quem era o coração?

Não sei.

Se era o coração de alguém, a pessoa ficou sem o coração dela?

- [vozerio] - [bipes de monitor cardíaco]

[Sofia] Doido.

- Eu ficaria cagada de medo. - [Glória] Para.

[Sofia] Desculpa, não era pra te assustar.

[batimento cardíaco]

[Sofia] Você não lembra de nada não?

[Glória] Não.

- [música de suspense] - [batimento cardíaco]

[vozerio ao fundo]

[grunhido de porco]

♪ [música de suspense finaliza]

[água corrente]

[batidas na porta]

[Antônia] Filha?

[batidas na porta]

Você sabe que não pode trancar a porta, né, Glória?

[descarga ao fundo]

Está com vergonha da sua mãe, filha?

Abre, deixa eu entrar.

[Glória grita] Mãe, para.

[Antônia suspira]

[suspira]

[música animada] ♪

[Antônia] Ó. Se rir, perdeu, hein?

Hein? Hein?

♪ Eu quero ser como a locomotiva ♪

♪ Para atropelar ♪

♪ Você... ♪

- [Antônia] Vai, toma, perdeu. Vai. - [Glória ri]

[Antônia] Vai, garota. Tá achando?

Vai deixar difícil pra mim, não.

♪ Por todos os campos Em todos os cantos... ♪

Cadê?

Cadê?

Cadê a gatinha manhosa da mamãe?

[imita miado de gato]

- [ri] - [música animada finaliza]

- Preciso tirar a blusa? - Não precisa.

Mas blusa pesa.

Você que sabe, filha. Anda.

Vem.

Aqui, fica paradinha.

[Antônia suspira]

[vozerio ao fundo]

[Antônia] Pode descer.

Aumentou?

[Antônia] Só um pouco, mas você tá crescendo, né?

[Glória] Eu vou ter que tomar mais remédio?

A gente vai ajustar a dose do remédio e vai ficar tudo certo.

Tá bom?

Aqui, ó.

Toma.

[ambiência urbana ao fundo]

[Antônia] "Bora", filha. Calça o tênis.

Posso ficar com a Sofia?

[Antônia] Você volta amanhã.

- "Bora". - Ah, não, mãe.

[Antônia] Veste a blusa, calça o tênis. Tenho muita coisa pra fazer. "Bora".

Você quer saber? Eu vou adiantar minha vida, tá?

Você para de enrolar e quando você sair, tranca a porta.

- Sabe como é que faz? - [Glória] Tá.

[Antônia] Tem que acionar a trava por dentro.

- Você sabe, né? - Tchau, mãe.

[música de suspense] ♪

[cliques de mouse]

♪

♪ [música de suspense finaliza]

[médico] Bom, essa aqui é a assinatura patológica bastante avançada

e com todos os sintomas que vocês me passaram,

o declínio cognitivo, as falhas de memória, alteração da fala.

Olha, vocês precisam se preparar

caso ela não consiga mais reconhecer a família.

Provavelmente ela nem vai se dar conta disso,

dessas mudanças todas de comportamento.

Ficou alguma dúvida?

[Renata] Oi, Sofia, tudo bem?

Meu nome é Renata, sou assistente social daqui.

A gente pode ir ali conversar rapidão?

- Pode, não pode, Simone? - [Simone] Sim, claro.

Sua mãe deixa, vamos lá.

[vozerio ao fundo]

E agora, o que eu faço?

Agora você espera um pouco aqui,

ela também vai te chamar pra conversar, tá?

Tá.

O que você acha? Você acha que vão criar caso?

Vão tentar tirar minha filha de mim?

Olha, é uma conversa, é protocolar.

Você também não devia deixar a menina sozinha em casa.

Foi um acidente.

As duas estão acostumadas a ficar juntas, sozinhas. Acontece.

É que a condição de saúde da idosa é bem complicada...

Mas eu vou deixar elas com quem, gente?

[vozerio]

[Simone] Desculpa, eu...

fiquei nervosa com essa situação toda.

Tá tudo bem. Tudo certo.

Vou ficar aqui com você, esperar aqui, tá?

Fica calma.

- [Glória] Mãe. - É que você não tá entendendo,

a minha filha realmente precisa ficar comigo.

- Mãe. - Tem toda uma questão...

- Mãe... - Não é simples, entendeu?

[Glória] Mãe, a gente não ia embora?

Você tá acabando com as minhas férias.

[Antônia suspira]

[música de suspense] ♪

[Osvaldo] Tinha um amigo meu que era encarregado

de encher as colunas de cimento.

Aí, um dia, ele muito curioso, foi olhar se tinha enchido, se não tinha.

Foi olhando, embicando, embicando e... [som com a boca]

Caiu dentro da coluna, no cimento.

Eu não quero que aconteça isso, mas se um dia destruir essa Brasília aqui,

vão encontrar uma porção de cadáveres nessas paredes todas aí.

Tem uma porção de gente que veio trabalhar de peão aqui

e depois não voltava pra casa e falavam: "Porque arranjou mulher lá".

Não era nada disso, não. É que estava enterrado nas paredes aí.

Ó, tem alguém aí?

[Antônia hesita] Sr. Osvaldo, só sabe contar história,

- e comer que é bom nada. - [Osvaldo resmunga]

[Antônia] Vem, Glorinha, vamos.

[Osvaldo] E se encontrar uma alma penada, jovem, com cara de peão,

fala que o Osvaldo mandou um abraço pra ele,

e que a obra já acabou, hein?

[vozerio ao fundo]

[Glória canta] ♪ E se eu amassar essa frutinha ♪

♪ E colocar um pouquinho disso... ♪

[Sofia] Tem uma pedrinha de riscar aí? Aqui.

- [música de suspense] - [bipes de monitor cardíaco]

- [Sofia] O que é borda infinita? - [Glória] Sei lá.

[Sofia] "A belíssima piscina de borda infinita na varanda

tem ligação com a churrasqueira."

Se é infinita, como é que tem borda?

[Glória] É uma macarronada ao molho de acerola,

- com lindas almôndegas. - [Sofia] Tá parecendo nachos.

[Glória] Olha, eu tenho algumas sementes, se você quiser.

[Sofia] Elas tem uma camadinha em volta, né?

♪ [música de suspense finaliza]

[música suave] ♪

- [Glória] Você é louca, por que fez isso? - Sou muito louca.

[Glória] Me deixa.

Quem é esse menino?

Meu primo.

- [ruído eletrônico da maca] - [bipes de monitor cardíaco]

[ronca]

- [Glória] Não é pra subir só a cabeça? - [Sofia ri]

Abaixa.

[Glória] Eu já vi gente parecida uma com a outra,

mas tão parecida igual esse menino com você, eu nunca vi.

Por que ele se chama "Bento 23/06/2016"?

[Sofia] Bisa? Bisa...

- [repetidamente] Acorda... - [Glória] Acorda, por favor.

- Acorda! - [enfermeiro] Ei, parou.

Parou, gente, deixa a vó descansar.

Vamos, pra fora vocês duas.

[bipes de monitor cardíaco]

[ruído eletrônico da maca]

[Glória] O que você está procurando?

Nada, tô só olhando.

Engraçado, essa não tem nome.

[ruído metálico]

[música melancólica] ♪

[vozerio ao fundo]

♪

[médica] Deixa eu ver aqui.

- Acho que esse prontuário... - Pra onde levaram o vô Osvaldo?

[Antônia] Ele foi embora, filha.

Pra onde?

[Antônia] Filha...

[suspira]

Se lembra que a gente conversou? [questiona]

Que as pessoas não ficam aqui pra sempre.

Chegou a hora dele, entende?

♪ [música melancólica finaliza]

Você quer ir no velório?

Se despedir?

Pode ser bom.

[bipes de monitor cardíaco]

Já escovou o dente?

Que horas gente vai levar a bisa pra casa?

Não sei.

Também não aguento mais hospital. Tô doida pra deitar na minha cama.

Eu tô falando do sítio.

[Francisca ronca]

Você quer conversar disso agora, Sofia?

Vamos cuidar da bisa aqui, muito melhor.

Melhor pra quem?

Minha filha, a bisa

não sabe nem onde ela tá,

não faz a menor diferença.

Eu sei que é um saco, mas ela tem que ficar aqui,

ela está no melhor hospital.

[debocha] Esse não é o melhor hospital.

E a gente faz o quê, Sofia?

A gente leva ela pra casa e aí arrisca dela piorar da saúde,

a gente ficar lá sem saber o que fazer, ou a gente fica aqui,

espera que ela melhore pelo menos um pouco,

e daí a gente decide o que faz?

Você é muito escrota.

Caralho.

Precisa ser má assim comigo?

Vou te falar, viu? Nada fácil ser tua mãe, também.

Puta que pariu.

[porta abre]

[porta fecha]

[música de suspense] ♪

[clique de interruptor]

[porta range e fecha]

♪

[música de suspense diminui]

♪ [música de suspense finaliza]

Você vai voltar para o hospital?

[Osvaldo] Vou não, querida.

O vô agora vai pra outro lugar.

[Glória] Pra onde?

Pra um lugar onde essa menininha já foi, mas não era dia dela ficar.

[ri]

[Glória] Onde?

Ó...

Essa medalha aqui é uma medalha de bravura,

então não é para o "vôzão", é pra essa menina,

que é uma menina corajosa,

a menina mais corajosa que eu conheço.

[música suave] ♪

[chilrear de pássaros]

♪ [música suave finaliza]

[chilrear de pássaros continua]

[Glória] Ô, mãe, tem como a gente saber como a gente vai morrer?

Uai, filha,

sinceramente,

você não tem que ficar pensando nessas coisas, né?

Você é criança.

Você tem que pensar em brincar, se divertir,

você tem a vida inteira pela frente.

Agora eu vou achar estranho isso aí que você falou.

[Glória exaltada] Você me leva para o hospital todo dia!

- Todo dia eu tô com gente doente! - [Antônia] O que é isso?

Você sabe o que tem naquele andar restrito?

- Cadáver de gente morta. - [Antônia] Glória!

E eu que sou a estranha que faço uma pergunta completamente razoável?

[Antônia] A mãe queria poder salvar todo mundo.

Mas tem coisa que não depende só de mim.

[Glória] Foi assim com o vô Osvaldo?

Foi.

[Glória] E vai ser com a bisa também?

Em algum momento.

A vida é assim, filha.

O que mais que você quer saber que eu não te contei? Hum?

Pode perguntar.

O que tem de errado comigo?

[Antônia] Nada, filha.

Você é maravilhosa. O amor da minha vida, meu bebê.

A coisa mais linda que eu já fiz nessa vida é você.

Você tá fazendo de novo.

[Antônia] Uai, filha.

Todo mundo se sente diferente, às vezes, é normal.

Eu também me sinto diferente.

Você vai querer ser igual a todo mundo agora, é?

Viu?

Então eu sou realmente diferente.

- [ventania] - [chilrear de pássaros]

[bipes de monitor cardíaco]

[arfa]

[Antônia] Boa tarde, dona Francisca. Preparada para o nosso banhozinho?

Nosso banhozinho de gato?

[Francisca cantarola]

[grunhe]

[Antônia ri] Eita, tá animada? Que bom! Já volto com a sua água.

[Sofia] Bisa, quero que você conheça a minha amiga aqui do hospital.

Hospital?

Você tá doente, minha filha?

O que você tem?

Vem cá, deixa eu dar uma olhadinha. O que é que tu tem?

[pensativa] Parece que tu tem alguma coisa, sim.

Ué? A tua mão tá parecendo picolé.

Mas não se preocupe, não. Venha cá, venha cá...

Isso a gente vai dar um jeito, viu?

Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém.

Anjo Guardião, livrai-nos dos males, das dores,

dos medos, dos quebrantes.

Tirai tudo que é de ruim dessa menina. Só deixai luz.

As almas chamam a gente, né?

Não chama tu também?

As almas do purgatório.

As almas penadas. As almas que morreram de acidente.

As almas que não tiveram enterro.

Mas aí a gente vai pra frente da casa,

mas tem que estar tudo fechado pra "mode" ninguém espiar.

♪ Sagrada morte e paixão ♪

♪ Do meu Senhor Jesus Cristo... ♪

[voz ecoada] Eu tiro, aí elas respondem.

♪ Do meu Senhor Jesus Cristo... ♪

[ofegante]

[música melancólica] ♪

- [Francisca grita] - [enfermeira] Francisca, Tá tudo bem.

O que foi, vovó? Estava tudo bem, passeando bem com a família.

- Não. - [enfermeira] Vamos respirar fundo.

Fica calma pra senhora poder voltar para o quarto.

- Não. - Estava tudo bem.

- A senhora saiu bem do quarto. - [Francisca] Não.

[enfermeira] Vamos respirar pra continuar o passeio.

[Francisca grita] Não!

[enfermeira] Calma, tenha calma. A senhora precisa se acalmar.

[Francisca] Não.

- [Simone] Vem pra cá. - [Francisca grunhe]

[Antônia geme de esforço]

[Simone] Obrigada, viu?

[Simone funga]

♪ [música melancólica finaliza]

[Simone] Vamos pra casa.

Ela tá bem. A gente pode dormir em casa hoje, vamos?

[vozerio ao fundo]

[Antônia suspira]

[Simone funga e chora]

- [Simone ri] - E ai, como é que você tá?

Você viu? Me odeia, né?

Uma adolescente dentro de casa e agora uma avó doente

que não lembra de mais nada, depende de tudo,

mas vai eu reclamar, né?

Não me julga, por favor.

Tô... [suspira]

[funga]

Agora sabe o que é mais louco?

As duas já vivem como se eu não existisse mesmo.

É difícil, cara, a vó nunca foi fácil, não.

Sempre foi birrenta, sempre fez as coisas do jeito que quer,

do jeito que dá na telha.

Ela escolheu o nome da minha filha, não me consultou.

Mas Sofia é um nome lindo.

É lindo, é o nome da minha mãe.

Ah, é? Que legal!

[Simone consente]

Eu queria ter participado da escolha do nome da minha filha, entendeu?

E eu não sei se eu queria que fosse o nome da minha mãe.

[Antônia] Uhum.

Minha mãe morreu, eu era nova.

Sofia nem conheceu ela, foi a vó que me criou.

Mas elas são muito parecidas.

Muito.

Tanto que eu acho que, na verdade, quando a vó olha pra Sofia,

ela tá vendo a filha, não é a bisneta, sabe?

[chilrear de pássaros]

[Simone suspira]

- Pode fumar aqui? - Não.

[Simone ri]

Tudo por um cigarrinho essa hora.

Você acha que se eu arrancar a vó daqui, a polícia vem atrás de mim?

[riem]

Olha, vou falar uma coisa bem de verdade,

não tem nada que a gente faça aqui no hospital

que você não possa fazer na sua casa. Nada.

Ai, meu Deus, eu estava brincando, Antônia.

Não, mas eu tô falando sério.

Ai...

De verdade, assim, aqui a gente não tá tratando

nem curando mais nada, entende?

Mas ela ainda tá viva.

Ela pode escolher ir pra casa dela ou você pode escolher isso por ela.

Se eu tirar a vó daqui, eu vou ter que levar ela para o sítio,

senão a Sofia vai me matar enquanto eu durmo.

[suspira] Mas eu morro de medo, acontece alguma coisa,

eu sou a pessoa que tirou a avó do hospital.

Você tem alguém pra te ajudar?

Não.

Não sei nem quem vive mais lá.

Eu posso te ajudar.

[arfa]

Eu não tenho dinheiro pra te pagar, é seu trabalho.

Eu não vou fazer isso com você.

Não, mas não é por isso, é...

Eu preciso tirar a Glória daqui também, sabe?

Esse hospital, a menina de férias, não é justo.

Ela vai amar o sítio, a Sofia pira.

- [Antônia] É? - Tu gosta de forró?

[Antônia debocha]

A cidade é pequena, mas tem um "rala coxa" que dá pra gastar bem.

Mulher, se eu te contar

que eu nem me lembro a última vez que eu dancei um forró na minha vida.

- Você não vai acreditar. Juro. - [Simone ri]

[Simone suspira]

Obrigada.

"Bora", "tamo" juntas.

- Obrigada! - [Antônia ri leve]

["Fazenda" toca] ♪

♪ Água de beber ♪

♪ Bica no quintal ♪

♪ Sede de viver tudo ♪

♪ E o esquecer ♪

♪ Era tão normal que o tempo parava ♪

♪ E a meninada respirava o vento ♪

♪ Até vir a noite e os velhos falavam ♪

♪ Coisas dessa vida ♪

♪ Eu era criança ♪

♪ Hoje é você ♪

♪ E no amanhã, nós ♪

♪ Eu era criança ♪

♪ Hoje é você ♪

♪ E no amanhã, nós ♪

♪ Água de beber ♪

♪ Bica no quintal ♪

♪ Sede de viver tudo ♪

♪ E o esquecer ♪

♪ Era tão normal que o tempo parava ♪

♪ Tinha sabiá ♪

♪ Tinha laranjeira ♪

♪ Tinha manga rosa Tinha o Sol da manhã... ♪

[Simone] Obrigada.

♪ ...E na despedida Tios na varanda... ♪

[Sofia] Vou te mostrar o galinheiro.

♪ ...Jipe na estrada E o coração lá... ♪

[Glória] Que nome a gente vai dar pra ele?

[Sofia] Que tal... Canela?

Canela é um nome que pode ser menino ou menina.

Canela, você gosta de banana? Porque eu amo banana com canela.

- [mulher 1] Olha as pirralhas. - [mulher 2] Olha o cafezinho.

- [Sofia] Não quero. - [Simone] Tava doida pra comer essa peta.

Já provou, Sofia, isso aqui?

[mulher 2] Peta?

É da boa essa aí.

[Antônia] Simone, pode vir aqui, por favor?

[Simone] Obrigada, viu?

- Como é que tá ai? - [Antônia] Vou te explicar aqui, ó.

A gente já posicionou ela de lado pra entender que a gente vai ter

que sempre mudar ela de posição, pra não dar inchaço, nem ferida, tá?

- [Simone] Uhum. - [Antônia] E aqui o dia a dia é isso.

É checar os sinais vitais dela todo dia, pulsação, oxigenação, medir a pressão.

[Simone] Mas depois a gente, eu vou arrumar...

[Antônia] Não, mas é simples.

O demandante é esse dia a dia, dar o banho.

Qualquer coisa também, se suas primas puderem ajudar,

a gente leva, dá o banho.

[Antônia] Checar horário de medicação...

[batidas de madeira]

[batidas de madeira continuam]

[cricrilar de grilos]

[chilrear de pássaros]

[estalo de fósforo]

[Simone] Ai, ai, espera aí.

[Antônia] O que você tá fazendo aí?

[Simone] Uma brincadeira que eu fazia quando era criança.

[riem]

Eu andava com caixinha de fósforo no bolso pra cima e pra baixo.

Queria acender tudo, se visse uma vela apagada, queria acender,

se visse uma vela acesa, queria apagar pra acender. [ri]

É uma honra...

era a vó deixar eu acender as velas que ela botava para as almas.

[meninas riem]

Adorava, nossa!

Via tudo.

[riem]

[Antônia] Como assim, via o quê?

Via, via... vejo né?

De vez em quando...

- Tudo. - [meninas riem]

Eu acho que quando a gente vê é porque a gente quer ver, sabe?

Não sei se é real.

Faz diferença?

[cricrilar de grilos]

- [zumbido de insetos] - [chilrear de pássaros]

[gritam e riem]

[zumbido de insetos continua]

[gritos continuam]

O que é isso?

[riem]

O que é isso? O que vocês querem?

[Sofia] A lista aqui.

[Leandra] Uhum.

[música MPB, no rádio] ♪

[Leandra] Vai ser dinheiro?

A minha mãe falou pra botar no nome dela.

- [Leandra] E quem é sua mãe? - Simone.

Menina, sabia não que Simone já tinha uma Sofia desse tamanho.

[Leandra] A Simone não tinha um "meninozinho"?

[mulher] Deve ser irmã, Leandra. Não se lembra, você conheceu ele.

Menino bonito, de nome diferente.

- [Leandra] Bento? - [mulher] Isso.

Deve estar um rapazão.

Ele morreu.

Tão novinho.

Foi tragédia, foi?

Ele só morreu.

♪ [música MPB, no rádio, finaliza]

[cacarejar de galinhas]

- [latidos] - [chilrear de pássaros]

[Francisca cantarola]

Ô, minhas lindinhas.

Vixe.

Tá tudo tão tristinha.

Ninguém cuidou de vocês não, foi?

Mas é nada. [resmunga]

Mataram as bichinhas, meu Deus!

Tudo triste, tudo sequinho.

Tudo sem cuidado.

Não se preocupem, não, minhas meninas,

eu cheguei, voltei, tô aqui.

Pra dar uma aguinha pra vocês, pra dar uma vidinha.

Ô, meu Deus.

Repara, nem botaram água nas minhas plantinhas.

As bichinhas ficaram tão tristes.

Não foi?

O que você tem, filha?

Menininha tá... assim.

Deixa eu ir aí falar contigo, viu? Só um minutinho.

[chora e funga]

[pigarreia]

[Francisca] O que a meninazinha tem que tá toda desenxabida?

Deixa eu sentar aqui contigo.

Vai, me conte, conta o que foi que aconteceu.

Hum? Por que você tá triste?

O que houve?

- Minha vó tava meio doentinha. - Ô, dó.

Mas deixa eu lhe perguntar uma coisa, você foi boa pra sua vozinha, hum?

- Eu tentei. - [riem]

Claro que você foi.

Você disse pra sua vozinha que você ama ela,

- quando ela estava viva? - [Simone] Uhum.

Então, minha filha, isso é o que importa.

[repetidamente] Chore não, chore não.

O que é isso?

Hum, filhinha...

Olha, a morte não é essas coisas ruins que o povo diz, não.

É, também não é uma coisa boa, né?

Mas é coisa da vida, acontece.

É assim mesmo.

O que importa...

o que importa é o amor,

o que a gente sente, de você ter sido boa pra ela.

Eu vou lhe dizer uma coisa, eu tô sentindo aqui dentro de mim,

que eu sei que a sua vozinha lhe ama, viu?

Olhe pra mim, ela lhe ama muito.

Muito, muito mesmo.

Uma menina tão linda como você, minha filha, parece um anjinho.

E é assim que as coisas são.

Vem cá, tu tem filho?

[ri] Tenho uma filha.

Oxe, eu também tenho uma menina. Que ótimo!

Então, sabe o que tu faz? Tu dá muito amor pra sua filha.

Brinque muito com ela.

Porque são essas coisas que valem a pena.

A gente não leva... De material, a gente não leva nada na vida.

Só o amor.

[mugido de vacas]

[música suave] ♪

[Sofia e Glória riem]

[Sofia] Hum, cheirinho de manga.

[Glória] Não entendi quem é esse Bento, ele é seu primo ou seu irmão?

Eu não tenho irmão.

[Glória] Mas então quem morreu?

- Deixa que eu pego. - Vai.

- [Sofia] Vai. - [Glória] Coloca no nosso monte.

Bento era o nome que minha mãe me deu quando eu nasci.

Então, seu nome não é Sofia?

Que saco, não tô conseguindo pegar.

[riem]

[Sofia] Meu nome é Sofia.

Eu mudei de nome porque eu sou uma menina trans.

O que isso quer dizer mesmo?

É que tipo...

- [Glória] Ai. - [riem]

[Sofia] Pega.

Registraram como se eu fosse menino, mas eu sou menina.

Misericórdia, por que fizeram isso?

- Como é que confundem uma coisa dessa? - Eu não sei.

♪

[Sofia ri] Está presa em nome da lei.

[Glória] Olha meu anel da Gucci, Louis Vuitton.

Eu sou gringa.

[Sofia ri]

[Glória ri]

♪ [música suave finaliza]

- [ventania] - [chilrear de pássaros]

[Francisca] Foste tu que trouxeste aquela broa azeda?

[mulher] Nossa, não acredito, lá vem tu reclamar de novo?

Fiz do jeito que tu me ensinou.

Mulher, meio quilo de erva doce em uma broa?

- Tu não mandou botar erva doce na broa? - Sim, eu mandei botar erva doce,

mas não meio quilo.

Nossa! Nunca você tá satisfeita com nada.

Agora, na hora de fazer um café

doce que parece que acabou o açúcar do mundo todo...

[Francisca] Ah, mas já vem tu reclamar de uma coisa que nem fui eu que fiz.

Eu não tõ fazendo nada atualmente.

- [mulher] ...tudo naquele café. - E eu faço café, menina...

- [mulher] ...fazer do jeito que tu fez. - Como lhe ensinei a broa, tu aprendeu?

- Aprendeu foi nada. - Nossa, tu reclama de tudo.

Pega aquela planta ali, bota no sol.

Mas não vou mesmo, tu não manda em mim.

Aquela planta ali, ela é de sombra.

- Depois tu não consegue fazer um chá... - Vê se tá bom.

Tá bom?

Ô, mulher, pra regime tá ótimo.

Agora, para o Benedito tá péssimo.

Tu sabe que precisa de um salzinho a mais para o Benedito.

[Simone] Ave Maria. Vou ver o que consigo resolver aqui.

- Tá bom. - Bisa, sabe o que é isso?

É o caderno de oração. Tu achou, minha filha?

Tu sabe que eu tô abaixo de Deus, né?

Mas com isso aqui, eu curo menino, curo adulto, curo homem, curo mulher.

Pode ficar pra mim?

[Simone] Sofia, o caderno é da bisa.

Tô falando depois que ela morrer, né?

- [Simone] Ô, garota! - [ri]

[Simone] Dá sossego pra sua bisa. Deixa ela quieta aí, pelo amor de Deus.

Tu vai ficar com ele mesmo, no derradeiro dia tu leva pra tu.

E tem mais, já era pra eu ter morrido, mas Deus não quis, né?

Acho que ele pensou assim:

"Ah, deixa ela aí um pouquinho pra ela se despedir do povo".

Mas no derradeiro dia, ore bastante, viu?

Porque pra cá a gente tá morto, mas pra Deus a gente tá vivo.

[mulher resmunga] E nesse dia, sabe o que vou fazer?

Tomar uma cachacinha em homenagem a você, e ainda jogar uma para o santo.

Tá, né? pinguço faz isso mesmo.

[cacarejar de galinhas]

Ô, coisa bonita.

Juju, deixa de ser a esfomeada.

Penelope!

[ri]

E você, seu galo. Seu galo feio, vai lá.

[imita cacarejo de galinhas]

Ei, meninas.

[Simone] Olha pra riqueza de detalhes desse mapa.

Quem se perde com um negócio desse?

[Glória] Aqui tem lago, não tem?

Vamos, a gente vai lá nadar. Você sabe nadar?

- [Glória] Não. - [Antônia] Ainda não, né filha?

...que é para "mim" aprender a nadar.

Pois vai ser nosso projeto de férias, ensinar a Glória a nadar.

- Combinado? - [Glória] Olha só o que coloquei... uhum!

[Simone] Então toca aqui.

Tem uma trilhinha gostosa que a gente faz pra chegar no laguinho.

[mulher 1] Muito tempo atrás, meu cunhado ia para a fazenda,

tinha morrido uma moça lá perto da casa dele.

Aí quando ele chegava na porteira pra atravessar pra onde ele morava,

o cavalo relinchava... [imita relincho de cavalo]

...e subia as patas.

Aí ele ficava enfezado e falava:

"Pode sair da minha garupa!

Pode ir para o inferno quem está me amolando."

Ele falava com aquela alma, aí ela falava:

"Eu vou, mas lá eu te espero".

- Que é isso, gente? - [mulher 1 ri]

[mulher 1] Aí ele saía com medo, chegava em casa tremendo de medo.

[mulher 2] Não, mas hoje a gente vai ver só gente "vivona".

[música de forró] ♪

[vozerio ao fundo]

♪

[fala inaudível]

♪

♪

♪

♪ [música de forró finaliza]

[música de suspense] ♪

[Francisca ronca]

[música de suspense diminui]

[Francisca ronca]

[roncos continuam]

♪ [música de suspense finaliza]

[cricrilar de grilos]

[Sofia suspira]

[chilrear de pássaros]

[Antônia] Por que você escondeu isso de mim?

Olha isso aqui, minha filha. Olha isso como é que tá.

[exaltada] Claro que tá doendo!

[canto de galo]

[Antônia] Tô cansada.

[funga]

Pode arrumar suas coisas que a gente vai embora hoje.

[chilrear de pássaros]

Pois é, ficou desse jeito porque ela escondeu de mim.

Se tivesse me falado, a gente tinha tratado.

Mas criança é assim mesmo, elas inflamam.

A gente passa esse remédio caseiro e faz o benzimento,

ela fica curada, muita fé em Deus.

Ela vai ficar boa.

Já benzi muitos filhos meus, netos, vizinhos, todo mundo sarou.

Graças a Deus!

Agora você vai botar a mãozinha, vai segurar aqui e aqui.

- [Antônia suspira] - [mulher] Agora você pode sentar ali, tá?

Agora você senta aqui

que eu vou fazer uma oração pra você e um benzimento, tá?

Pode sentar.

Coloca a mão assim na perna, aqui.

- E como é seu nome? - Antônia.

Pensa em Deus, tá bom?

[sussurra reza]

[música melancólica] ♪

[mulher] Prosseguiu Eliú e disse: "Mais um pouco de paciência

e te mostrarei que ainda tenho segmentos a favor de Deus.

De longe trarei o meu conhecimento e meu criador.

Atribuirei a Justiça, porque na verdade as minhas palavras não são falsas."

[Leandra] Pede bênção pra ela, filha.

[menina balbucia]

Não?

♪

[mulher] Então a gente tá indo,

e daqui a uns dias a gente tá voltando de novo aqui pra lhe ver, viu?

Fica com Deus.

♪ [música melancólica finaliza]

- [vozerio ao fundo] - [chilrear de pássaros]

[Simone] Vixe, ela tava boazinha ontem, caminhou, estava falando.

Estava animada, parecia bem, né, tia?

[mulher 1] Bem, inclusive brigou ontem, estava bem.

E hoje, tá assim. Parecendo até que era uma despedida.

[mulher 2] Inclusive, Simone,

é bom você fazer a encomendação pra alma do Bento,

porque ele morreu criança, pode estar sofrendo, pode estar vagando,

e fazendo sofrimento pra família também.

Não, tia, mas isso aí não tem nada a ver.

Tem nada a ver.

[mulher 3] Ah, tem a ver, porque ele era criança.

E criança quando morre, tem que encomendar a alma,

- que ele não sabe que morreu. - [mulher 4] Isso não tem nada a ver.

- Mas fica aqui em sofrimento... - [mulher 4] Não tem nada a ver isso...

Não custa encomendar.

[mulher 4] Mas a encomendação não faz só quando a pessoa morreu?

O que aconteceu foi outra coisa, o Bento não morreu de verdade.

- [mulher 3] Não custa encomendar. - [Francisca ronca]

Você quer fazer a encomendação do Bento?

O que você acha?

[chilrear de pássaros]

Pode ser.

[canto de galo ao fundo]

[roncos continuam]

Vamos fazer, né?

[música de suspense] ♪

[cricrilar de grilos]

[Simone assopra]

[Francisca ronca]

♪

♪

[Simone suspira]

♪

[cricrilar de grilos]

[aceleração de veículos]

♪

[cricrilar de grilos continua]

♪ [música de suspense finaliza]

[música melancólica] ♪

[aceleração de motos]

[cricrilar de grilos]

♪

♪ [música melancólica finaliza]

[batidas de madeira]

[mulheres sussurram] Pai nosso que estais no céu...

[sussurros]

[Francisca ronca]

[sussurra] Bendita sois vós entre as mulheres

e bendito é o fruto do vosso ventre Jesus.

Santa Maria Mãe de Deus, rogai por nós pecadores,

agora e na hora de nossa morte. Amém.

[cricrilar de grilos]

[Francisca ronca]

[grunhe]

[mulheres cantam] ♪ Das vezes que as "alma" foi ♪

♪ Sem medo e sem pavor ♪

♪ Na mão direita dela leva ♪

♪ A imagem do Senhor ♪

♪ Na mão direita dela leva ♪

♪ A imagem do Senhor ♪

♪ Das vezes que as "alma" foi ♪

♪ Sem medo e sem pavor ♪

♪ Na mão direita dela leva ♪

♪ A imagem do Senhor ♪

♪ Na mão direita dela leva ♪

♪ A imagem do Senhor... ♪

[batidas de madeira]

[mulheres cantam]

- [cricrilar de grilos] - [mulheres cantam ao fundo]

[porco grunhe]

[mulheres cantam ao fundo]

[cricrilar de grilos]

[Glória] Por que você voltou, hein?

Achei que você tinha ido embora.

Você não pode ficar comigo.

[batidas na porta]

Ô, menina, abre pra mim, vai.

- [Glória] Pra onde a senhora tá indo? - Eu tô indo embora.

Vai, eu tô com pressa. Você pode abrir, vai? Abre pra mim.

Tá, mas só se você levar ela junto.

[Francisca] Quem foi que deixou esse bicho entrar na casa?

[Glória] Eu que trouxe.

Ó, pra onde eu vou, bicho não entra, não, viu?

Não pode bicho lá pra onde eu vou.

Claro que pode. Eu tô vendo a alma dela.

Se ela não vai para o céu, pra onde que vai?

Tá bom, vamos fazer o seguinte, eu levo,

mas se ela não puder entrar, eu trago de volta

e você vai ter que ficar com ela.

- Combinado? - [Glória] Combinado.

Então, vai, minha filha, abre logo essa porta. Vem.

[Francisca] Vai.

Isso.

[Francisca faz som com a boca]

[porco grunhe]

[cantarola]

[zumbido de insetos]

[cantarola]

[chilrear de pássaros]

[cricrilar de grilos]

[chilrear de pássaros]

[chilrear de pássaros]

[latidos ao fundo]

[ruído de água]

[chilrear de pássaros]

[vozerio ao fundo]

[zumbido de insetos]

[estalo de fósforo]

[chilrear de pássaros]

[vozerio ao fundo]

[cricrilar de grilos]

[ventania]

[cricrilar de grilos continua]

- [Simone] Posso dormir com você? - [Sofia] Uhum.

[Simone suspira]

[cacarejar de galo]

[zumbido de insetos]

[chilrear de pássaros]

Ó.

Quem é o meu milagre, hein? Quem é o milagre?

Cadê a risada do milagre?

- [repetidamente] Cadê? [ri] - [Glória ri]

- E aqui? Sente cosquinha no pezinho? - Não.

Não, e aqui? Vem cá.

[riem]

Milagre.

[música suave] ♪

Você, hein?

[Sofia e Glória] "Com muito trabalho, o homem chegou logo..."

- [Sofia] Tô entendendo nada. - [Glória ri]

- [Sofia ri] - [Glória] "E logo..."

[Sofia] "Teme"?

"Ele teve que..."

- [Sofia balbucia] - [Sofia e Glória riem]

[Glória] Espera aí.

[Sofia e Glória imitam golpes]

- [Sofia] Vai! - [Glória] Ai, meu Deus!

- [Sofia] Aqui, pega. - [Glória] Que susto!

[Sofia] Ó!

♪

[Glória] Será que vai?

Minha vez.

[Sofia imita golpe]

[Glória] Meu Deus!

- [riem] - [fala ininteligível de Glória]

♪

[Glória] Meu chá é feito de hortelã.

- A senhora gostaria de uma xícara de chá? - [Sofia] Uhum.

[riem]

♪

[música suave diminui] ♪

♪

[chilrear de pássaros]

♪ [música suave finaliza]

[zumbido de insetos]

["Eu Queria Dizer Que Te Amo Numa Canção" toca]

♪ Esse amor que trago em mim Eu não sei se é certo ♪

♪ Encontrei o meu jardim Em pleno deserto ♪

♪ Toda vez que tento te falar Não contenho minha emoção ♪

♪ Eu queria dizer que te amo Numa canção ♪

♪ Já não posso controlar Este sentimento ♪

♪ Cada dia aumenta mais O meu sofrimento ♪

♪ Toda vez que tento te falar Não contenho minha emoção ♪

♪ Eu queria dizer que te amo Numa canção ♪

♪ Quero gritar o seu nome Abrir todo meu coração ♪

♪ Quero mostrar como é grande A minha paixão ♪

♪ Já não sei mais o que faço ♪

♪ Pra chamar a sua atenção ♪

♪ Eu queria dizer que te amo Numa canção ♪

♪ Teu amor não vai ser meu Mesmo assim te amo ♪

♪ Não sei como isso aconteceu Mas eu não reclamo ♪

♪ Toda vez que tento te falar Não contenho minha emoção ♪

♪ Eu queria dizer que te amo Numa canção ♪

♪

♪ Toda vez que tento te falar Não contenho minha emoção ♪

♪ Eu queria dizer que te amo Numa canção ♪

♪ Quero gritar o seu nome Abrir todo meu coração ♪

♪ Quero mostrar como é grande A minha paixão ♪

♪ Já não sei mais o que faço ♪

♪ Pra chamar a sua atenção ♪

♪ Eu queria dizer que te amo Numa canção ♪

♪ Eu queria dizer que te amo Numa canção... ♪

["Eu Queria Dizer Que Te Amo Numa Canção" finaliza]

[música suave] ♪

♪

♪

♪

♪

♪

♪

♪ [música suave finaliza]

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