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Eu sou o homem de Neandertal
Catando
caramujo na beira do rio
Vai chorar agora.
Não vou chorar.
Chora! Não vou. Chora, rapaz! Chora!
Chora!
Chora!
Chora logo, Lê!
Não vai chorar, não?
Não vai chorar, não?
Para você aprender a ser homem.
Antônio, para.
É para deixar seu filho aí.
Para dentro, vocês.
Passa para dentro.
O que ele pega, Antônio?
Você não está vendo que eu estou olhando isso aqui?
Tomara que um caminhão atropelhe esse desgraçado.
Como é que é?
Nunca mais alguma coisa dessas, ouviu?
E agora, lá vem ela, a nossa rainha da mata.
Recebam com muitos aplausos, Eguira Padam, direto do auditório da rádio
para a sua casa.
Trazendo a bicharada pra com ela desfilar.
Traz um macaco, um elefante e um leão. Só a cobra que não pode desfilar neste
cordão. Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai. Lá vem ela passando, a rainha
da mata.
Trazendo a bicharada pra com ela desfilar.
Traz um macaco, um elefante e um leão. Só a cobra que não pode desfilar neste
cordão.
Eu não estou criando filho para ser artista.
Isso é coisa de puta e viado.
Pedreiro também pode ser viado.
Mas e?
Carrega. Nem homem.
Homem para trás.
Olha para mim.
Jamais vai ser atirado.
Você entendeu?
Vai.
1500 vezes até encher a caixa d 'água.
Vai.
Isso.
Volta.
Mas o senhor há de convir que eu servi a esse país uma guerra.
Ganhei duas medalhas pela campanha da Itália.
Então, subi de carro com o benefício que eu tenho direito.
Não, eu entendo, claro.
Desculpe.
Então, então, senhor.
Tiro a boca.
Obrigado. O que é que
está fazendo?
Está gastando água.
Se eu que encher a castanada todo dia, posso castar o quanto eu quiser.
Tá escutando ele, amigo? Não. Tá escutando o seu irmão? Não, rapaz.
Tá surdo?
O senhor também não pode falar nada, né?
Porque sou eu que trago o balde para o seu pé toda noite.
Eu saio, pai.
Eu vou sair daqui com um gosto.
Porque eu tô nojo de olhar pra tua cara.
Para, Antônio.
Ney.
Ney. O que aconteceu, Ney?
Ney.
Larga disso, Ney.
Ney. Seu pai tá falando da boca pra fora.
Não tá falando da boca pra fora, não. Larga.
Larga isso.
Me embora.
Não. Eu vou. Não. Eu vou, mãe.
Vou sim.
Eu vou... Eu não vou só por mim, não.
Eu vou por você também.
Pra ver se você tem pai nessa casa.
Eu não tenho nem pra onde ir, Ney.
Eu acho um lugar.
Você não vai achar, Ney? Não vai embora, Ney, por favor. Ney!
Vai, vai, vai. Vê se não volta pra pedir nada.
Não quero filho viado aqui nessa casa.
Eu não sou viado.
Agora, quando eu for, pai, aí o Brasil inteiro vai saber.
Ney!
Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Um, dois, três, quatro.
Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro.
Um,
dois,
três, quatro.
Mas ele me surpreendeu. Ele é disciplinado, chega cedo, cumpre com as
Com as palavras, se eu tivesse 100 homens como seu filho, meu pelotão seria
perfeito.
Eu vim aqui só pra ver o que você tava aprontando.
Agora eu vou ter que voltar pra Campo Grande e aguentar sua mãe jogar na minha
cara que eu tava errado.
Juro? Não, eu bati continência pra ele.
E a sobrancelha dele, cara, tremia.
Igual uma vara verde, assim.
Tremendo, assim.
Aí, ó, você conseguiu derrubar seu pai.
Mas ninguém manda ele vir aqui.
Não era o que você queria quando você alistou na aeronáutica?
Eu queria sair daquela casa.
Muita briga.
Queria provar pra mim que eu consigo sozinho.
Escolheu justo o território dele.
Você provocou, né?
Você cruzou a linha de combate.
Olha, o que eu ia fazer? Ou imediatava... Ou, sei lá, casava.
Pois é.
Podia ter casado.
Boa viagem, soldado.
Obrigado, senhor.
Até a próxima. Até.
Eu não acredito que você está indo embora.
Aproveitar esse avião da Fábio e vou embora pra casa.
E você?
Já sabe pra onde vai?
Não.
Uma coisa que eu sei é que eu não vou voltar pra casa.
Vem comigo, então.
Vamos pegar esse avião. Vamos junto pro Espírito Santo.
Aí a gente faz o que lá?
Boa sorte.
Tchau.
Tu não te lembras da casinha pequenina Onde
o nosso amor nasceu Tu não te lembras
da casinha pequenina Onde o nosso amor
nasceu Ok?
Agora, só as meninas, por favor.
Contra altos.
Ok?
Tem a voz rara como os castrati.
É, a minha voz é fina.
Eu sei.
Não. É mais que isso, rapaz.
Sua voz é muito especial.
Como é que te chama?
Ney.
De Souza Pereira.
Mais um que caiu aqui em Brasília.
Eu? Sim.
E o que você tá achando da capital da esperança?
Vazia.
Por enquanto, né?
Aqui tem trabalho, isso aqui vai encher de gente.
Seu amigo tem razão.
Tem muito espaço.
É de enlouquecer.
Você também é cantor?
Eu?
Não, eu trabalho no hospital.
Ah, a Moderte.
Esse ser aqui tem a voz mais linda do coral.
Eu quero mesmo é ser ator.
É isso que eu quero.
Você pode atuar e cantar.
Como nas óperas.
Você nunca pensou nisso?
Saudade do Palais Garnier.
Toda semana uma ópera diferente.
Onde?
E o gênio acabou de chegar de Paris.
Ele tava morando lá.
É.
Aí você votou por quê?
Porque a verdadeira desgraça do homem é não saber amar.
Tira.
Tira.
Mas por quê?
Está apertada demais.
Eu sempre usei calça justa.
Você não vai comigo assim.
Tira.
Eugênio, essa é a única calça que eu tenho para ir para essa festa.
Bota essa minha.
Vai ficar lindo.
Não estou com fome.
Você não comeu nada na peste?
Bom, você pôde ter aquele garçom te oferecendo e você comendo.
Eugênio, o rapaz estava trabalhando ali.
É, eu vi.
Você viu, né?
É, você viu. Você vê. O problema é esse.
Tudo você imagina.
Isso aqui não está funcionando mais.
Por que não está funcionando? A gente não está funcionando.
Deixa de criança, vai.
Eu não sou criança.
Eu nunca fui, nem quando eu era.
Eu achei que quando fosse pra ser com um homem, ia ser diferente.
Quer dizer, ser bom.
Achei que com você ia ser diferente, mas não, é a mesma coisa.
É posse, ciúme, obsessão, a tua paranoia. Isso aqui tá um saco.
Isso aqui tá um saco.
Olha pra mim.
Olha pra mim. Não, eu quero olhar pra mim o que quiser, Eugênio.
Entendeu? Eu quero bichacar o que eu quiser.
Vou fazer o que eu quiser.
Tu não te lembras da casinha pequenina
Onde o nosso amor nasceu Tu
não te lembras da casinha pequenina
onde o nosso amor nasceu.
Obrigado.
Tá muito chique.
Se eu pego lá, não tem que pagar nada.
Isso aqui não.
Aqui é do ateliê de um amigo meu, que ele corta as coisas, o que sobra eu pego
pra mim.
É mágica, né?
Eu gostei disso.
Eu gostei. Ficou bom, né? Tá chique isso, né? Ficou bom.
Agora, a cereja do bolo.
E tá com a face, né?
Passei uma semana puxando fita. Tá com uma cara de que deu trabalho isso aí
mesmo.
Olha, linda.
Pode entrar.
Quem foi que quis?
Foi você? Fui eu.
Eu pedi para ir para a reserva.
Sabe, Nilo, não estou concordando muito com o que está acontecendo nesse país,
não.
É, faz estranho mesmo.
Eu acho que você fez muito bem.
É.
A gente fez muito amigo lá em Ilha Solteira e eu fiquei pensando.
Eu posso te arrumar um emprego para te ajudar a sair dessa.
De qual, pai?
Estou trabalhando aqui.
O meu artesanato.
Entrei no teatro.
Isso dá dinheiro, né?
Isso vai garantir a sua aposentadoria? Não vou passar a vida inteira pensando
me aposentar.
Claro que não.
Tchau.
A gente se vê no ensaio.
Maravilhoso.
Olha isso.
Você tem quase 30 anos já, meu filho.
Nunca pulando daqui pra lá, de lá pra cá.
Sem objetivo na vida.
E essa gente que frequenta aqui? Essa gente não.
São meus amigos.
E tem respeito, por favor.
Volta pra casa, Ney.
Sua mãe tá pedindo.
Você não entendeu ainda, né, pai?
Eu escolhi isso aqui.
Eu escolhi.
Eu não tenho dinheiro.
Eu realmente não tenho dinheiro. Eu não tenho casa própria.
Eu não tenho quase nada.
Mas eu sou feliz assim.
Você quer almoçar?
Não. Aqui tem um restaurante bom, pai. A gente pode comer lá. Não. Tem que ir.
Toma.
Pega?
Não quero.
Eu não quero mesmo.
O senhor manda um beijo para a mãe?
Vai lembrar?
Vou.
Tenta mais alto.
Tenta mais agudo.
É bom assim, né?
Que seja pra melhorar.
Agora é lindo.
Tanta vida pra viver.
Tanta vida se acabar.
Com tanto pra se fazer.
Com tanto pra se salvar.
O mundo tem que escutar a tua voz.
Já vi você de novo. Ney, lá vem eu de novo.
Ai, Lully, eu sou ator.
Eu sou ator, não sou cantor.
Ué, mas tudo é teatro.
Não sou eu que tô dizendo, Ney.
Não é pra todo mundo que sai a carta da morte três vezes, já falei.
Não, não é pra todo mundo.
Esse Ney aí que a gente conhece, esse Ney vai morrer.
Vai nascer um Ney novo.
Ninguém há de me calar
Se alguém
tem que morrer
Para melhorar.
Tanta vida para viver.
Tanta vida se acabar.
É essa a voz que estamos buscando?
Não é bom demais?
Eu não falei, João?
Que bom ouvir isso. Nem a pessoa acerta.
Olha esse agudo, nunca vi um agudo desse.
Deixa eu falar.
Eu falar? Não, eu quero que vocês falem.
Vocês falem um pouco sobre a banda.
Sim, para já somos só nós dois, eu e o Gerson.
E a ideia é musicar poemas de autores já publicados, tipo Manuel Bandeira,
Solano Trindade, sabe?
É uma maneira de dribular a censura.
Mas isso tem alguma coisa?
Repertório, alguma música pronta.
Por que você não tá com aquela do Vinícius?
Que ela é boa.
Não tá exatamente pronta ainda, né? Mas... Mais ou menos assim.
Pensem nas crianças mudas, telepáticas.
Pensem nas meninas cegas venezadas
Pensem nas
mulheres rotas alteradas
Pensem nas
feridas como rosa cálida
Esquitão da rosa, da rosa Da
rosa de Oshima, rosa
hereditária
A rosa da raiva
ativa, estúpida e saída
Quando eu peguei aquele livro que você deixou lá em casa, eu abri e me deparei
direto com esse poema, que é um poema muito forte, né? Aí eu pensei que fazia
sentido colocar essa melodia, porque tem um contraste aí, né?
Eu não estou conseguindo pensar em adicionar muita coisa, porque eu acho
beleza está nesse contraste que tu disseste, entre a força da poesia...
E a simplicidade e a tua voz nesse tomzinho bem simples. Pode ser bonito.
Pensem nas meninas cegas e desatas.
Ah, isso é lindo.
Pensem nas mulheres rotas alteradas.
Isso é bom.
E agora aqui.
Tem cor, tem perfume.
Tem aquele momento do... Pirotima.
Apurinário. Gerson.
Este é meu pai.
Poeta e editor de cultura do jornal A Última Hora.
Ele vai nos ajudar bastante com a divulgação.
Podemos conversar agora?
Claro.
Ações.
Foi ele que escreveu o amor e o primavera nos dê.
Ali.
10 de dezembro.
O que é isso?
Figurino.
João Barba e Boina. Não, velho.
O que é que tem?
Um filme da resistência.
Eu não tenho nada contra a revolução, mas deixa eu te levar a lá, né?
Se não tiverem uma ideia melhor, ficamos com as boinas.
Estou a pensar tirar daqui algumas mesas e levar estas coisas lá para trás.
Assim ficamos com mais espaço.
Tá.
O que é que eu posso ficar?
Aqui, ó.
Este metro quadrado é teu.
O que é que achas?
Acho bom.
Agora eu vou fazer o que eu quiser aqui dentro, tá?
Mas o que você pretende fazer?
Eu não sei, Lully. Eu só não quero virar um crônia da banda, sabe?
Outra coisa careta.
Careta, né?
Não tem como ser careta com aquelas letras.
Ah, mas é que todo mundo já fez... Letra cifrada, assim, sabe?
Eu queria fazer outra coisa.
Eu queria... Não sei, sabe?
Colocar energia pra...
Pra vibrar, pra girar, pra colocar o corpo.
Eu acho que você precisa de um novo nome.
Ah, isso eu concordo. Porque Ney Pereira não dá. Ney Pereira é careta. Qual é o
seu nome completo, Ney? Vou dizer.
Ó, eu nomeei de Souza Pereira.
E o do seu pai, qual é?
Antônio Mato Grosso Pereira.
O que você acha, Antônio?
Você não tem sapato, não?
Aí, se preocupa.
Está usando droga.
Antônio.
Olha, eu já usei droga sim, pai.
Você quer saber?
Eu controlei, sabia, né?
Qual lei?
A lei dos militares.
Também gosto de secos e molhados.
É um nome diferente.
Chama a atenção.
Eu acho bonito.
Agora eu vim avisar que é uma banda escandalosa, não é?
E é, não é? É.
É escandalosa.
Eu vim dizer pra vocês não tomarem susto.
É?
Capaz de você se assustar quando eu vir na plateia. Ah, é?
Eu não posso tabela.
O gato preto cruzou a estrada, passou por
debaixo da estrada. E lá no fundo azul, na noite da floresta,
a luz iluminou a festa.
Vira, vira, vira, vira, vira, vira, vira, homem, vira, vira. Vira, vira,
lobisomem, vira, vira, vira, vira, vira, vira, homem, vira, vira.
Bailam coruxas e pirilangus, sempre os pastis e as
patas. E lá no fundo do azul, na noite da floresta, a
lua iluminou toda a sabor da festa.
Vira, vira, vira, vira, vira, vira, vira, vira, vira, vira, vira,
vira.
A noite da floresta, a lua iluminou.
A dança rola, a festa vira, vira, vira. Vira, vira, vira, homem, vira, vira.
Vira, vira, lobisomem, vira, vira, vira. Vira, vira, vira, homem, vira, vira.
Quem é esse, Moracy?
A gente acha que o seu comportamento está se cedendo um pouco, Ney.
Estão dizendo que somos uma banda de homossexuais.
Não é.
Digam que vocês não são.
Não é tão simples, Ney.
A gente é um trio.
O problema sou eu, então. Não é você.
São as suas roupas, a sua maquiagem, os seus prejeitos.
Os prejeitos.
É, né? E tudo como é da mulher.
Eu não sinto uma mulher ali.
Não sinto um ser indefinido.
Tô experimentando, eu sou um bicho.
Sim, pessoalmente eu acho lindo, mas talvez um pouco ousado.
Não sei, tô falando como empresário, tá? Não tem nada de pessoal.
Também não precisa tirar a maquiagem.
É mais uma questão de suavizar.
Não. Eu não acho.
Eu acho que tem que pisar mais fundo ainda.
Eu não sou só eu, não.
Nós três.
Nós não queremos tomar mais atenção.
Já tivemos duas músicas cortadas pela censura.
Ai, você está rependo a censura agora, né, João?
Eu não estou de acordo.
Não sei o que é que o Jéssica não acha, mas eu...
Jurei mentiras e sigo sozinho.
Assumo os pecados.
Os ventos do norte não movem muito. Parou, parou, parou a música.
É proibido olhar pra câmera.
Ah, eu tô olhando pra quem tá em casa.
Mas não pode.
Não pode por quê?
Porque na TV é assim.
Bom, mais uma?
Sem olhar, tá bom?
Vai câmera do mesmo ponto, tá? A gente pega daí.
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minha alma cativa
Traí os mitos Quebrei a lança,
lancei no espaço Anota aí. Não pode aparecer desse jeito com o rabo de
cavalo e maquiado que nem mulher.
Por assim, me aponta na roupa, mulher, como a que já jogou a mim.
E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos. Quadril.
Esse quadril mexe muito.
É só deixar a câmera no meu cara.
Sangue latino.
E esse olhar?
Que olhar?
Que é o único que eu tenho.
Precisa ficar rebolando de saia?
Não é saia, Antônio.
É uma calça da Dalisca.
Está vendo?
Pessoal, cinco minutos, hein?
Cinco minutos.
Cinco minutos. Tudo lotado, tudo esgotado. Todas as pancadas, cadeiras,
poltronas, tudo, tudo.
Tantas pessoas ficavam aí aqui.
São mais 20 mil.
Agora dizem que tem fora mais 20 mil.
Nem Mato Grosso?
O líder do grupo diz que eles desistem atrás das máscaras.
Já vai!
Sr. Ney?
É da Secos e Molhados Produções. Pediram pra voltar com a sua assinatura.
Eu guardo um minuto, por favor? Claro.
Serviço. Funcionário.
Faz o favor
pra mim.
Você volta lá e entrega pra eles.
E diz que eu mandei limpar o cu com esse papel.
Não é só rebolar, né?
Ah,
João. Tá bom, então. Não, mas eu tô entendendo o que a gente tá fazendo. Eu
entendendo pra você. Parece que é só... Pode continuar me elogiando mesmo. Eu
acho que você não consegue entender de como... Não, você quer se separar,
Você quer se separar.
Você quer se separar. Você quer se separar e você vai conseguir.
Você vai conseguir, João.
É isso.
Você conseguiu. Sou eu que estou a se separar, não é, né?
João, você sabe o que seu pai tá fazendo, né?
Você... Você viu o contrato. Você leu.
Mas alguém precisa de pôr ordem nas coisas.
Ordem? Ah.
Teu pai tirou o Moracy e entrou no lugar dele.
Não é assim.
O Moracy não prestava contas direito.
Ele estava a desviar dinheiro.
Não.
O Moracy pode ser desorganizado, mas ele não é desonesto.
Não é.
O meu pai só está a tentar proteger. Proteger quem?
A você?
A ele mesmo?
Eu não sei como é que você consegue ser conivente com isso.
Isso tá errado, João.
Esse negócio não tá certo, não.
É muita pressão.
A gente ficou muito grande, muito rápido, cara. É muito assolador.
É assustador mesmo, Ju.
Assustador.
A gente perdeu o foco.
Deixou de fazer música.
Virou o quê? Virou uma máquina de fazer dinheiro com todo mundo querendo tirar
um pedaço da gente?
Que merda!
Eu não quero isso pra mim.
Eu não preciso disso.
Não.
Nunca precisei.
Não, não espera.
Vamos pensar juntos.
Vamos viajar só nós dois.
Que isso, João?
O que tu quer? Uma lua de mel tardia?
Tô fora.
Boa noite a todos. Muito obrigado pela presença de cada um de vocês.
As balas do teu 38 são como açúcar quente
no meu sangue. As suas balas circulam
velozes na minha veia, no meu sangue.
Eu percebi que você votou mais radical neste seu primeiro trabalho solo.
Você acha, Tati?
Você não acha?
O jornal Última Hora diz que você tem atitudes nojentas no palco e que você
mancha a classe artística que tanto lutou para ser aceita pelas famílias
brasileiras. Eu não tenho muito o que comentar.
Eu não leio esse jornal.
Pode continuar, Fátima.
Mas, Ney, por que você acha que as pessoas te agridem tanto?
Porque elas se identificam.
Elas veem coisas que existem nelas, mas elas não sabem lidar.
É por isso que elas me agridem.
Você não acha que é você que voltou agressivo? Parece um bicho no cio.
Eu sei.
Você cantaria os sucessos dos Secos e Molhados nesse seu show? Gente, é outra
fase.
Agora eu quero falar sobre o começo de outra coisa, sabe?
Eu posso cantar o que eu quero, do jeito que eu quero, sem interferência de
nada. Mas o que a gente viu no palco hoje é a negação do Ney e do Secos e
Molhados. Parece que não é você.
Você acha que isso é chocante pro teu público?
Eu espero que meu público consiga ver diferente de você.
Eu vou dizer uma última coisa.
O meu trabalho não se restringe ao seco e molhado.
Tá?
que eu já falei aqui, gente. É isso que dá. Trazei qualquer um pra cá.
Onde é que já se viu? Dormi com um cigarro aceso num caixão de água.
Não sei o que você tá falando, não, Luizinho. Cheguei sozinha ontem. Essa é
coisa da Sandra, hein?
Nossa.
Pra onde veio isso? Não convido.
Sandra, não me disse a campanha.
Já acordou estressado hoje.
Você?
Olha aí.
É o canalha da cobrança.
Ah.
Canalha! Entra.
Pode sentar.
Senta.
Você pode escolher, pode levar o que você quiser, porque meu dinheiro acabou.
Vou pegar um café.
E quanto que falta pra quitar a dívida? Eu não sei.
Eu não sei.
Eu só sei que o dinheiro que eu tenho tá servindo pra...
Cobri o prejuízo do show.
Eu sabia que ia dar merda com o empresário.
Não deu certo com algum?
Você tá sempre rompendo com alguém.
Sabe o que eu acho?
Acho que você tá muito tenso desde que você saiu dos ex -amorados.
Parece que você está querendo provar que você é capaz de fazer tudo, de existir
sozinho.
Mas aí você está dizendo isso porque?
Você acha que eu não sou capaz?
Claro que você é capaz.
Não é isso.
É que você está tão preocupado com a crítica que você esqueceu do público.
As pessoas te querem no palco.
Te querem vivo.
Quente.
Também quero isso.
Então deixei de ser bicho.
Vira gente.
Bandido, bandido, coração Não me deixe te
amar Bandido, bandido, coração Não
posso controlar Quero te pedir minhas desculpas Isso
sempre acontece Tenho um coração que é desvairado
E nunca me obedece Eu já sou um cara meio estranho
Alguém me disse isso uma vez Meu coração é
de cigano Mas o que salva é a minha insensatez
Eu que sempre fui chegado ao romance e aventura.
Eu talvez esteja condenado a viver perto da
loucura.
Por isso quero te pedir minhas desculpas.
Eu canto mais uma vez.
Meu coração é desvaiado, eu sei.
Mas o que estraga é a sua... a timidez.
Foi bom o show. Foi maravilhoso. Eu adorei.
Tem um pessoal querendo falar com você.
Quem? Não tem cores.
Boa noite. Com licença.
A gente veio aqui fazer algumas observações sobre o show.
Pois não.
que tem alguns gestos seus que são tanto quanto libidinosos.
Né?
É, eu sei.
Mas é de propósito.
Isso aqui é um show de teatro de revista.
Né. Mas no Sul é uma coisa. Aqui pra cima não fica bem, não.
O público do Nordeste não tá preparado.
Principalmente por um momento que você... Quando você faz aquele...
-pélvico. Isso, isso.
Balança -pélvico.
Engraçado que eu...
Acabei de voltar de Teresina.
O senhor foi ótimo. Foi bom, né, Luiz?
Eu pensei que o Recife fosse um pouco mais avançado.
Quantas vezes o senhor faz esse vai e vem?
Como é?
Esse requebrado aí, quantas vezes?
Quantas vezes?
Luiz, acho que umas seis.
Eu acho que umas seis vezes, mais ou menos.
Pois faça metade, então.
Três vezes tá bom.
Pronto.
Perfeito. Tá bom.
Recado dado.
Tenha uma boa noite, viu?
Parabéns pelo show.
Três vezes.
Eu falava que, sei lá, vinte.
Hoje,
hoje, hoje, deu mais de mil pessoas. Passe. Deu um monte aqui no hall.
Olá, gente.
Tudo bem?
Calma. Vamos só organizar uma fila aqui bem direitinho que ele vai atender todas
vocês, tá bom?
Olha. Só um pouquinho.
Vamos um pouquinho mais pra trás aqui. Ele vai atender um pouquinho.
Opa, pode tirar foto, sim.
E aí, vamos só. Como é que você tá?
Gostou do show?
Maravilhoso.
O Cabo Dias, lembra? Eu lembro.
Imagina o Cabo Dias assistindo o seu show hoje.
Ia bagunçar a cabecinha dele.
Bagunçou a tua?
Você é corajoso, né?
Por que você está dizendo isso?
Eu... Eu casei e tive filho.
Cumpri o protocolo todo.
Você está feliz, Cato?
Eu amo meus filhos.
Que bom.
É, que bom.
Pra mim, você continua o mesmo, Cato.
É? É, o mesmo Cato.
Vivo.
Alegre, bonito.
Eu preciso ir embora.
Já amanheceu.
É isso.
A gente aqui de novo, cara.
Se despedindo.
Foi bom que você veio.
Foi bom que você me viu.
Manda um beijo nos seus filhos.
Tá? Meu amor, sem cor, velho postal, amor
banal, sem nenhum, sem nenhum valor.
Nessa noite, meu pobre amor de papel,
esqueça a cor do anúncio lá do céu.
Na casa principal, secreto mal,
numa noite de neve...
De papel crepom Na arcada
principal Recreto mal Numa noite
de leão De papel crepom
Com gosto Do licor que
ficou Da tua boca Do
suor que ficou Na minha boca
Vai deixando minha parda voz Parda
voz, parda voz Parda voz, parda voz De louco
Tão louco, tão bom.
Bom dia, Ney.
Ei, vamos acordar?
Vamos passar o dia inteiro nessa cama?
Ó, aqui.
Não quer?
Quantos corpos ali?
Ué, eu nunca sei quantas pessoas eu vou encontrar aqui, Ney. Que horas são?
São quase meio -dia.
Ah, tá cedo.
Pelo amor de Deus, cedo, Ney.
Cedo, sério.
Tu não faz ideia da quantidade de coisa que já aconteceu aqui nessa casa.
Logo de manhãzinho, o presidente do Flamengo te ligou.
Está convidando você para assistir a um jogo de futebol lá no Maracanã. Teve
também uma moça que não quis se identificar, mas ela ligou a respeito de
de licor de morango que vocês combinaram de tomar, Ney. Bom, não foi só o
telefone, não. Tem algumas pessoas que vieram bater aqui na porta de sua casa.
Teve uma fã doida. Ela disse que queria te entregar, adivinha?
Uma mobilete, Ney.
Acontece que ela chegou na mesma hora que eu estava enxotando um barbudo,
fedendo a álcool, gritando o teu nome, dizendo que queria falar contigo
Só depois vai lhe dar pra ver me falar que você tratava do Raul.
Peixas. Raul Peixas, Ney. Eu botei ele pra correr. Depois você dá uma ligada
ele, inventa alguma desculpa, sei lá. Deixa eu descansar.
Calma, mas eu nem te contei a melhor notícia do dia.
Olha pra cá.
Olha pra cá, Ney.
Saiu.
Ó, peguei hoje cedo lá na mesbla.
Tava embalado naquele plástico da vergonha.
Essa censura é um absurdo, né? Uma foto tão linda dela.
Ah, eu acho que você pode divulgar ainda mais o trabalho.
Sim, vai ser sucesso, eu tô sentindo.
Vender todas as cópias. Tomara.
Sabe por quê?
Porque eu vou pegar esse dinheiro, vou procurar um lugar que eu tenha um pouco
mais de privacidade.
Sabe como é?
Sente pecado do lado de baixo do ecoador.
Vamos fazer um pecado rasgado, suado a todo vapor.
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho, riacho de amor.
Quando é lição de fular, olha aí, sai de baixo, eu sou professor.
O que você viu ontem?
Não posso revelar, não. Que misteriosa. Mas eu estou presa nesta noite.
Sei. Vai descartar.
Sim. O que foi?
Ó, tu não brinca não, hein?
O cara é herdeiro da São Livre, filho do todo poder.
Ah.
Aquele bebezinho.
Ah, bebezinho, amor.
Vai, né?
Como é que é o nome dele?
Cazuza. Cazuza. E se tu falar três vezes, ele aparece.
Ah, é?
Cazuza, Cazuza, Cazuza.
Acabou o trecho. Vamos embora.
Tchau.
Eu fico aqui imaginando o tanto de coisa que você pega aí nessa maquininha.
Eu gosto de fotografar.
Quando eu tiro foto, eu enquadro o mistério e engolo tudo.
Eu sou faminto.
Carlos, olha o que você vai fazer com essas fotos.
Precisa ficar grilado.
Isso aqui é tudo pra mim.
Adorei a casa nova, né?
Olha, adorei, adorei, adorei. Você curtiu?
Mas olha, eu não quero mais ouvir falar de coisas velhas, sabe?
Chega de velhos. Chega de velhos.
Ih, troca comigo.
Troco, óbvio.
Assim, vocês dois.
Com drogas ou sem drogas? Com drogas.
Fica.
Posso te dar um beijo?
Não.
Toda a terra e o mar.
Acabou, tchau.
Minuto. E tímido.
Mas tá vivo.
Demais.
que uma vez um dia
mágico encontrei
e ao conversarmos lhe
falei sobre os reis
sobre as leis e a dor
Nada é melhor que dar amor
e receber de volta
Eu senti uma coisa... que fazia tempo que eu não sentia.
A gente casou com uma pessoa e eu me senti bem.
Parece que alguém tá apaixonado.
Eu tenho certeza.
Pai? Não.
Eu.
Eu não tenho vocação pra sofrer por amor.
Não tenho.
Sofre, cara. Quando você se apaixona, você sofre.
E sofre pra caralho. Você fica refém da pessoa e bate na merda. Vai até o fim.
Sofre. Sofre, mas tem que sentir prazer sofrendo.
Até descobri o refém de alguém sofrendo por amor. Eu não viro refém de ninguém,
não.
Pra mim, o amor é uma prisão que eu escolho pra inventar minha própria
liberdade. É muito mais simples.
O amor é uma utopia.
Uma utopia que nasce do corpo.
É físico, palpável.
Cazuza, palpável? Eu acho que o amor tá no cheiro, sabia?
O cheiro do corpo do outro. O pé no fim do dia.
A boca assim, de manhã cedo.
A gente é bicho, a gente é bicho. A gente tem que farejar pra sentir. É
Quem aqui quer farejar que nem bicho? Quem aqui quer farejar que nem bicho?
pô.
Yara.
Fio Cazuza.
Todo mundo perguntando se eu tô bem.
Não pareço, tá bem?
Hã? Pode, pô. Pra onde?
Pra onde? Não vou pra casa. Não vou pra casa, né? Vem comigo.
Sai daí.
Pegar junto.
Está vindo.
Quem é isso? Não, não, não.
Não, que coisa.
Vem. Não, quem é você? Não.
Uma última, vai.
Que hora é essa?
Em três dias.
Eu tô parecendo um traficante atiracolo.
Traficante não. Cheirando pó na minha mesa.
Ele é meu amigo.
Tá. Então vou pedir pra você e seu amigo se atirarem de casa, por favor.
Não tá feliz em me ver? Não, eu quero que você saia. Não precisa sair daqui
agora. Não, eu quero que você saia. A gente acabou de chegar.
E eu quero que você saia agora. E tá à noite.
Tá careta. Não.
Você tá careta. Tá fedendo. E você tá careta.
Cheio de moralismo. Sou o quê?
Moralismo. Não sabe nada de mim, garoto. Moralismo. Não sabe nada de mim,
garoto. Sei tudo de você. Não sabe nada de mim. Tu é bicho ou não é?
Hein?
Tu é bicho?
Sai. Sou bichinho.
Vem cá, vem. Sai, Caluza, sai.
Sai, garoto. Leva ele daqui.
Deixa ele aí. Leva, chega.
Fica aí. Chega, chega, chega.
Papo, isso é papo.
Não! Porra, velho!
Caramba! Porra!
Tira a mão dele!
Tira a mão dele!
Porra!
Sai! Sai daqui!
Para! Para de mim! Para!
Mais um logo, porra!
Vem cá!
O quê? Dá outro aqui, ó! Ó! Ó!
Sai!
Mostra! Sai, cara!
Você não tá bem, cara! Você não tá bem!
Meta!
Deixa preparado aí tudo, tá? Pra gravar.
Mas, olha lá.
Tô com a impressão de que não... Sei, cara. Eu não tô me sentindo assim muito
confortável.
Ney, Ney.
Essa música não... Eu não te ouço, Ney.
Vai lá no microfone.
Olha só, a música é ótima. A música é ótima.
Ela vai ser o hit do disco. Tô te falando isso.
É, mas sendo hit eu não, entendeu? Não tô preocupado com isso.
Olha só, vamos fazer o seguinte, vamos colocar a sua voz na base e a gente vê
como é que fica.
Mas você me conhece, quando eu não gosto, eu não funciono.
Não bateu em mim, sabe? Eu sei, meu amor, eu sei.
Mas é que nem sempre bate primeiro.
Dá uma chance pra música.
Vamos fazer assim, ó.
Grava.
Ouve.
Pensa.
Mostra pra alguém. O que você quiser.
Se não gostar, depois a gente conversa.
Tá, filho.
Se eu não gostar, não entra no disco.
Tá?
Tá bom.
Beleza. Vamos gravar. Vai, vamos gravar.
Tá muito massa, né?
Bota no disco.
Gonzaguinho, eu não sou do Nordeste.
É um forró. Eu nunca cantei forró.
Entendeu? Eu fico me sentindo, sei lá, um intruso.
Eu acho que você não precisa se preocupar com isso, não. Quem tá falando
o filho do rei do Baião.
Rapaz, sabe o que é? É que eu fico pensando que se você não gravar essa
quem é que vai gravar?
Porque presta atenção na letra.
Quando você interpreta, ela ganha um outro contexto.
Perfeito. Porque aí debocha.
Provoca, torce o significado. É muito bom.
Ney, imagina isso no palco.
Nunca vi ratro de cobra no couro de lobisomem, se correr o bicho pega -se,
cair o bicho fome, porque eu sou é homem, porque eu sou é homem, menina eu
homem, menina eu sou é homem, como sou.
Nunca vi ratro de cobra no couro de lobisomem, se correr o bicho pega -se,
cair o bicho fome, porque eu sou é homem, porque eu sou é homem, menina eu
homem, menina eu sou é homem.
De vez em quando eu via, eu via a mãe dizer, ai meu Deus
como eu queria, que esse cabra fosse homem, cabra macho pra
danar. Ah, mamãe aqui sou eu, mamãe aqui sou eu, com homem, com H e com o
T.
Aquelas pernas ali vão.
Eu sou
homem
com H.
De bom H sou muito homem.
Se você quer convidar, olhe bem pelo meu nome.
Já tô quase namorando, namorando pra casar. Ah, Maria se
cansou, Maria se cansou, tome com H e como sou.
Nunca vi raço de cobra, nem corujo de louco, tome se for ver o bicho, pega -se
com cara o bicho, come. O que eu sou é homem, o que eu sou é homem, menino eu
sou é homem, menino eu sou é homem, como sou.
Cobra, come.
Pegue a fome.
Acho que eu vou nessa.
Não.
Fica.
Fica.
Doutor Marco de Maria.
Era nisso que você estava pensando? Eu estava.
O que foi? Não combina?
Ah, acho que tem muito mar no teu nome.
Nunca tinha reparado nisso. Tem mar demais até.
Vamos dar uma mergulha?
Vamos, essa médica está mandando. Nunca.
Ah, você nunca viu em mim? Nunca vi no mar, Marco.
Você é uma pessoa completamente diferente de quem vê você no palco,
O que é que você pensou que ia achar?
Não sei, eu pensei que você fosse mais... Impulsivo?
Eu não sei se essa palavra, explosivo, talvez.
Ó... O palco é a minha fantasia.
É... Não sei, minha válvula de escape.
Acho que é um lugar que eu ponho uma máscara pra conseguir atravessar.
Sabe?
É um lugar onde você libera os seus demônios? Libero.
Libero todos eles.
E ali eu tento desreprimir as pessoas. E a mim também.
E o Ney da vida?
O Ney da vida? O Ney da vida sou eu. Eu sei, né?
O que ele quer?
Ah, eu não quero muita coisa, não.
Quero um pedaço de terra, água, bicho, mato.
Eu topo, sabia?
Ah, é?
Você topa?
Agora, vamos dar um mergulho.
Vem! Um mergulhinho, um mergulho por tudo, por amor, por tudo.
Será que eu vou?
Não. Ah, não sei.
Vai ficar olhando.
Vai lá, vai tomar.
Essas pernas, vem, Caizinho.
Não acredito.
Eu quero.
Olha o cheirinho dele, ó.
Vai lá, pode se servir.
Você não vai ficar com ciúmes? Eu com ciúme, Cazuza?
Nem de mim, nem de mim.
Você é a cruz que eu carrego nas costas. Então me carrega.
Chama ele. Marco!
Marco!
Será que ele me viu?
Ah, viu.
Olha, eu fiz o que deu, com o que tinha, tá? Que era nada.
Ei, eu tô falando sério.
Você tem que comer melhor.
Não pode ficar o dia inteiro na praia só com a gema de ovo na barriga.
Ó, pra lá em praia, o Cazuza vai te procurar, tá?
Quem?
Cazuza.
Eu vi você olhando pra ele.
Quer dizer, Marco, Cazuza.
Ah.
Seu ex?
Não, não é meu ex.
Ah, não? Não.
É o que, então? Não é meu, não é seu.
Ninguém é propriedade de ninguém.
O que ele quer comigo?
Quer transar.
Oi?
Oi, Marco.
E ele pede permissão pra você pra transar comigo. Não, ele não pediu
Ele veio me avisar.
É diferente.
Mas por mim não tem problema nenhum.
Vai lá, encontra o rapaz, entendeu?
Mas a gente precisa ficar falando sobre isso?
É, a gente pode não falar também, que é mais virtuoso fazer escondido, não é?
Não é isso que eu tô falando.
É pra eu ficar te contando os detalhes também?
Conta aquilo que você quiser contar.
É, quer tudo, né? Que você vai querer ouvir. Eu não quero, não, não quero
tudo. De jeito nenhum, quero ouvir só o que for bom.
Talvez eu conte.
Talvez eu não conte.
Acorda, Cruz!
Acorda pra ganhar dinheiro!
Acorda, podia não ser feliz.
Eu vou gravar essa música, Caju. Não vai, não. Eu vou sim. Não vai. Eu vou.
vai. Eu vou sim, Caju.
Não vai. Você não quer tocar na rádio? É música de trabalho da banda, né? Não
vai. Depois vai ser a minha também.
. . . . .
Obrigada.
Minha mãe.
Como é que está?
Está dormindo.
Não vai acordar, não.
Se deixar, ele dorme o tempo todo.
O remédio é forte.
Vem, mãe, deixa eu te ajudar.
Não, meu filho, eu já estou com você. Não, eu vou ajudar.
Pega outra tábua.
E ele, mãe?
Está dando muito trabalho?
Você conhece seu pai.
Só faz o que ele quer.
Aliás, vocês dois.
Tudo farinha do mesmo saco.
A gente é parecido, é, mãe?
Rígidos, cabreiros, difíceis de dobrar.
Só eu sei.
Sargento Mato Grosso.
Mãe, às vezes eu acho que a maior autoridade que eu já enfrentei foi meu
Parece que tudo que eu fiz, minhas escolhas todas, foi só pra contrariar a
vontade dele.
E você contrariou bastante, sim.
Mas ele aprendeu com você também, meu filho.
Você acha?
Eu lembro a primeira vez que a gente se viu no palco.
Quando a gente chegou em casa, ele foi procurar teu disco.
Ficou vendo lá na sala, bem alto.
Eu perguntei se ele tinha gostado do teu show.
Aí chegou e disse... O Ney
é um grande artista.
Ainda é pé do amor.
Mal começaste a conhecer a vida Já
anuncias a hora de partida Sem
saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás decidida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida Em pouco tempo
não serás mais quem tu és Volta -me
bem, amor Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó.
Presta atenção, querida, de cada amor tu herdarás
só o cinismo.
Quando notares, estás à beira do abismo.
Abismo que cavaste com...
Eu fui muito duro com você, Ney.
Eu me arrependo.
Não precisa, pai.
Não vamos ficar remoendo coisa.
É passado.
A gente tá aqui agora.
Você tá aqui.
Neymar do Cruz.
Meu filho.
Presta atenção, querida.
De cada amor, tu herdarás só o cinismo.
Quando notares... Estás à beira do abismo,
abismo que cavaste
com teus pés.
A doença misteriosa, totalmente desconhecida há cinco anos, transformou
epidemia mais violenta do século. A síndrome é fatal.
Até agora, não há cura. O vírus da AIDS não está no ar nem no meio da rua, mas
já tomou conta da vida da população das grandes cidades.
De 3 a 10 milhões de pessoas no mundo inteiro estão contaminadas pelo vírus,
segundo a Organização Mundial de Saúde.
O Brasil registrou 2 .300 resultados divulgados até agora.
Alô?
É ele?
Quando foi isso?
Quem foi dessa vez?
Nem.
Nosso amor a gente inventa.
Todo amor que houver nessa vida.
Vida louca.
Vida fácil.
Eu preciso dizer que te amo. Diga.
Te amo.
É exagerado. Faz parte do meu show.
Eu gosto desse repertório.
Eu gosto mesmo.
Acho que essas músicas, elas dizem o que você pensa do mundo, da vida.
Tô feliz que você topou dirigir esse show.
Pode ser que seja o último.
Não precisa disso, não.
Tô fraco, Ney.
É, mas tuas ideias tão fortes.
Tem uma música nova que eu fiz.
Mas eu não sei se vai caber nesse show.
Canta pra mim.
Disparo contra o sol.
Sou forte, sou por acaso.
Minha metralhadora.
Cheia de mágoas.
Eu sou um cara.
Cansado de correr na direção contrária.
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada.
Eu sou mais um cara.
Dias sim, dias não.
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão.
da caridade de quem me detesta.
Essa música tem que encerrar o show.
Se chamam de ladrão, de bicha, maconheiro.
Transformam o país inteiro num tuteiro Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos
Pois ideias não correspondem aos fatos O tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades O tempo não para
Não para
Eu não consigo entender.
Não fiz nada diferente de ninguém.
Não importa, Ney.
Você está livre.
Você é uma livre.
Pra quê?
O que é livre, Marco?
É livre pra mim, Ney.
Sabe muito bem que eu podia ter te...
Às vezes eu sinto que meu corpo é uma arma.
Tá vendo?
Não.
Sabe o que querem que a gente sinta, Marco?
É o jeito que querem que a gente pense, não é?
Você não vai querer ficar comigo?
Eu não quero.
Pode ser que você não aguente, Ney.
Eu vou ficar puro osso.
Muita mancha na pele.
Serida.
Meu cabelo vai cair.
Tem gente que desmaia de tanto vomitar. Tem cefaleia crônica, tosse com sangue.
Arônia. Desarreia, fora de controle.
Chega.
Mas, Ney.
É o que vai acontecer.
É o que acontece.
Não tem médico que salve, sabe? Esse vírus veio pra matar a gente. Não.
Não.
Ele veio pra mostrar que a gente vive.
Que a gente é humano.
Viu? Que a gente ama.
Eu te amo, Marco.
Também.
Eu amo.
Tô aqui.
Tô aqui.
Viu?
Não, não, não. Sou você.
E se eu passar por esse vento?
Eu não vou aguentar. Se você ficar assim... Não, eu vou ficar bem.
Porra.
E nele um rio virei,
pedra de rio,
pedra de ca...
a morte encurvada cantada
de tanto tempo viver
Amém.
Eu faço nessa estrada sempre, sabe?
Sempre quis conhecer esse terreno.
Isso aqui faz tempo que tá vendo?
Há muito.
O antigo dono tentou fazer uma estrada aqui.
Mas na primeira chuva que deu, caiu pedra, tronco de árvore. Ah, é?
Aí amassou uma conta de novo.
É.
A natureza fala.
Esse rio vai até lá embaixo.
Ele cruza toda a propriedade.
Como é que é o nome do rio?
É o Rio Mato Grosso.
Há quem diga que eu dormi de toca, que eu perdi a
boca, que eu fugi da briga, que eu caí do galho e que não vi
saída, que eu morri de medo quando o pau quebrou.
Há quem diga que eu não sei de nada.
Que eu não sou de nada e não peço desculpa.
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei um topeira.
E que Dorango Kid quase me pegou.
O que eu quero é botar
meu bloco na rua.
Brincar, botar pra gemer.
Eu quero é botar meu bloco na rua,
xingar pra dar e vender.
Eu por mim queria isso e aquilo, um quilo mais
daquilo, um grilo menos disso.
É disso que eu preciso, não é nada disso.
Eu quero é todo mundo nesse carnaval.
Dizem que sou louco por pensar
assim.
Se eu sou muito louco por
eu ser feliz. Mas louco é quem me diz e
não é feliz.
Tchau, tchau.
Eu já estou no ar, mas logo...
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