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AMAZÔNIA COLOMBIANA 1º DIA
Quando eu cheguei à pista,
2minha mãe disse: "Lesly, vamos voar pra Bogotá."
#Nós íamos morar com meu padrasto.
Eu não queria ir.
!Eu morava com minha avó Fátima.
Eu ia à escola.
Eu era feliz com ela.
"Foi minha primeira vez num avião.
Quando o avião subiu,
#ele começou a fazer muito barulho.
E comecei a ficar com medo.
Aí, o avião começou a falhar.
$O piloto chamou a torre de controle,
pedindo socorro.
Ele perdeu o controle.
!Então, o avião começou a cair.
É tudo de que eu lembro.
!Às 8h30 eu recebi uma ligação.
"O que foi?"
A"O avião da Magdalena não chegou. Deve ter caído na floresta."
6"Com a minha irmã Magdalena e os quatro filhos dela."
Na hora me veio uma tristeza.
:As minhas filhas falavam comigo: "Mãe, não se preocupe."
Como eu não ia me preocupar?
)Quando um avião cai, ninguém sobrevive.
Nunca.
Eu sinto muita dor.
7Minha filha partiu com os filhos dela e não me avisou.
A Magdalena tinha me ligado:
#"Estou no avião com as crianças."
Mas eles nunca chegaram.
Eu fiquei sem palavras.
Eu só pensava na minha esposa.
MAGDALENA 33 ANOS
Meu único filho.
3Toda uma vida pela frente, e pensar em perdê-lo…
TIEN CINCO ANOS
E minha filhinha…
CRISTIN 11 MESES
Minhas duas enteadas…
SOLEINY NOVE ANOS
LESLY 13 ANOS
8Meu maior sonho era que elas ficassem comigo em Bogotá.
Será que estão vivos?
Será?
5Hoje, um avião de pequeno porte que ia de Araracuara
foi engolido pela selva.
?As equipes usaram helicópteros para fazerem buscas na região.
7O resgate é complicado por conta da densidade da mata.
5A possibilidade de sobreviventes não foi descartada.
PERDIDOS NA AMAZÔNIA
LESLY Quando acordei,
nós estávamos no chão.
E tinha muito sangue
no meu rosto, nas roupas…
Eu sentia muita dor.
Eu vi o Tien.
A Soleiny estava chorando.
Eu vi minha mãe.
A minha perna doía.
O assento havia se soltado
e meu sapato ficou preso.
Eu precisava salvar a Cristin.
'Ela estava presa embaixo da minha mãe.
E não conseguia respirar.
2Eu tirei o pé de dentro do sapato e o deixei lá.
0Com dificuldade, eu consegui tirar meus irmãos.
:Eu precisava estancar o sangue que saía da minha cabeça.
"Achei o kit de primeiros socorros.
2A Cristin só chorava. Ela estava com sede e fome.
Eu vasculhei as malas
e achei uma rede, um mosquiteiro
e a mamadeira da Cristin.
Juntei algumas folhas…
E nós nos deitamos.
A Cristin estava desesperada.
de tanta dor na perna e na cabeça.
>A Força Aérea Colombiana sobrevoou a região por cinco dias,
atrás do avião desaparecido.
Mas não achamos nada.
A cada dia que passava,
,as chances de achá-los com vida diminuíam.
O alto comando ligou
"e disse: "Pedro, ajude nas buscas.
Vamos procurar por terra."
6º DIA
&Foi minha primeira missão de resgate.
#\Não é sempre que salvamos vidas.
\"POPEYE" MONTOYA TENENTE
0Nas Forças Especiais, no geral, nós combatemos
as facções de guerrilha.
/Usando os últimos sinais emitidos pelo avião,
Cnós determinamos uma área de busca de 320 quilômetros quadrados.
O terreno é muito complexo.
+Uma selva virgem com árvores de 40 metros,
&animais predadores e cobras venenosas.
4Mas um dos maiores riscos era me perder na floresta.
A selva é um enorme tapete.
5\É, mais ou menos, como procurar agulha no palheiro.
$\MONTIEL CAPITÃO, FORÇAS ESPECIAIS
*Nós nos agilizamos para procurar o avião
+e confirmar se havia ou não sobreviventes.
Vamos entrar um pouco mais.
-Presta atenção em qualquer coisa diferente.
Vamos.
"Estávamos preparados para o pior.
de narcoguerrilhas como as FARC.
Essa guerra já dura 60 anos.
As FARC, durante um tempo,
%controlou muitas partes da Colômbia.
9Eles praticam atos violentos, narcotráfico e sequestros.
1E perdemos muitos de nossos homens nessa batalha.
DTentamos nos tornar invisíveis para o que o inimigo não nos visse.
1Atualmente, há 60 comandos das Forças Especiais
8\mantendo viva a esperança de achar algum sobrevivente.
5\Manuel Ranoque vive com a incerteza dessa tragédia.
8\Meus quatro filhos e minha esposa estão desaparecidos.
1Eu não podia esperar o Exército achar o avião.
Eu vou procurar minha família.
MANUEL MILLER PADRASTRO DE LESLY
E só volto quando achá-los.
.Eu preciso da ajuda dos meus amigos indígenas
da comunidade Araracuara.
/Nós somos especialistas em navegar pela selva.
JAIR EQUIPE DE BUSCA INDÍGENA
A selva faz parte de nós
porque crescemos aqui.
Eu ajudei, sem nenhum interesse.
>Porque quem estiver em perigo faz parte da família indígena.
"FAUSTINO EQUIPE DE BUSCA INDÍGENA
Foi uma viagem longa.
1Quase 12 horas de barco, da cidade mais próxima.
Não tem ninguém.
4Para nós, a floresta conecta o homem à natureza e,
!através da natureza, ao Criador.
!Mas a floresta é muito perigosa.
%Por causa das coisas que dá pra ver,
=mas sobretudo, por causa daquilo que não vemos com os olhos.
Assim que entramos na floresta,
o tempo mudou totalmente.
Chuva, chuva…
Nossos ancestrais creem
8que quando um espírito, um ser encantado, se enraivece,
ele causa uma tempestade.
Eu fiquei pra trás na trilha.
5Quando comecei a chamá-los, já não havia ninguém.
!Eu refiz meu caminho três vezes.
!Seria algum espírito zombeteiro?
E fiquei com medo.
Não dá para negar.
Eu rezei:
*"Não se zangue. Eu sou filho da floresta.
Eu também sou indígena.
Não vim pra atacar a floresta,
#mas só pra buscar o que é nosso."
E meus colegas apareceram.
Ficamos preocupados.
5Com aquele aguaceiro, como nós acharíamos o avião?
15º DIA
1Não estamos vendo rastros de absolutamente nada.
E assim passaram-se os dias.
-Tínhamos pouca esperança de achar o avião.
Nós procuramos, todos os dias,
no meio das árvores,
dos arbustos e cipós.
Para todo lado, só floresta.
#MIRANDA SARGENTO, FORÇAS ESPECIAIS
%Aí, eu vi algo que chamou atenção.
Um objeto rosa.
,Uma mamadeirinha no meio dessa selva imensa!
>Quais as chances de achar uma mamadeira tão pequena na selva?
:Nós ficamos eufóricos e começamos a traçar hipóteses.
.Será que a mamadeira caiu pra fora do avião?
"ÚLTIMO PONTO DE CONTATO MAMADEIRA
:Estávamos mentalmente prontos pra achar a família morta.
!Então, onde os urubus estivessem
,seria onde acharíamos o avião e os corpos.
Vimos um urubu-rei.
E nós o seguimos.
!NÉSTOR EQUIPE DE BUSCA INDÍGENA
Então, vimos o urubu
em cima de uma coisa branca.
Eu senti um nó na garganta.
2A Sra. Magdalena estava caída em cima do assento.
Foi horrível.
Como o Manuel iria reagir?
6Foi muito difícil acreditar que ela tinha ido embora.
5A Magdalena era uma mulher muito dedicada aos filhos.
E à nossa casa.
Estávamos planejando o futuro.
5Haja o que houvesse, ela sempre me aceitava de volta.
Apesar dos meus erros.
Minha filhinha, Magdalena…
Tenho nove filhas.
FÁTIMA AVÓ DA LESLY
Mas ela era a mais atenciosa.
9Se o Manuel não tivesse chamado minha filha pra Bogotá,
ela ainda estaria viva.
Eu chorei de raiva,
de angústia.
Queimei tudo dela.
A minha filha não ia voltar.
Ela morreu com rancor de mim.
$Porque eu não queria que ela fosse.
!O Manuel perguntou das crianças.
/Eu disse: "Não sei. Não tem nada confirmado."
O comando informou
:que a equipe de busca indígena havia localizado o avião.
.E recebo a ordem para verificar imediatamente.
Nós achamos os adultos.
EMas não havia ossos pequenos que indicassem a morte de uma criança.
*Por que elas não estavam perto do avião?
Chega até a arrepiar.
Quatro crianças.
/Tinham 13, nove e cinco anos e uma de 11 meses,
que acabaram de perder a mãe,
e estão sozinhas na floresta.
0Elas eram, praticamente, comida para os animais.
$Ficamos alguns dias perto do avião.
Mas ninguém veio nos resgatar.
(Eu enchi duas bolsas com algumas coisas.
#Eu chorava de tanta dor que sentia.
Eu me arrastava e engatinhava.
Eu queria sair da floresta.
2Tinha também muitas antas, que vinham em manadas.
Elas tentaram nos atacar.
Nós só ficamos parados e…
Quando vimos uma jaguatirica,
eu congelei de medo.
E o Tien queria ir atrás dela.
!TIEN Quando os animais apareciam,
a Lesly nos protegia.
E eu a protegia também.
&Eles fugiam porque ficavam assustados.
Eu falei pra ele parar.
5A minha avó nos ensinou que, se estiver na floresta,
$é melhor não mexer com os animais.
Eles são perigosos.
O Tien ficou bravo com isso.
#Ele perguntava: "A mamãe não vem?
Por que a gente deixou ela lá?"
8Eu expliquei pra ele que a nossa mãe tinha morrido e…
Ele disse: "Não!" E chorou.
Lesly!
Lesly!
Lesly!
FPensamos que se havia sobreviventes, não podíamos ficar invisíveis.
4Tínhamos que começar a chamá-los e fazer barulho.
Lesly!
(Valia o esforço se fosse pra achá-los.
4\Quais as chances de achar essas crianças com vida?
#Se o impacto não tiver sido forte,
E\é possível que as crianças no fundo do avião tenham sobrevivido.
8\Esperamos que tenham saído em busca de ajuda e comida.
)Nessa época, há uma escassez de frutas,
dificultando pra achar comida.
B\Eles devem estar procurando um rio pra segui-lo até um vilarejo.
*Mais de cem soldados das Forças Especiais
estão dentro da floresta.
>A chuva dificulta as buscas porque ela leva embora os rastros.
Deixando todo um país aflito
\e orando por notícias.
Achamos um refúgio.
Outro sinal de vida.
"Uma caminha de folhas de palmeira.
Cortadas com uma tesourinha.
1Parece que três ou quatro pessoas dormiram aqui.
AMinha sobrinha e eu brincávamos de fazer cabaninha na infância.
Sempre fui próxima da Lesly.
7\Nós éramos meninas e tínhamos muita coisa em comum.
\DAMARIS TIA DA LESLY
&Nós gostamos das danças tradicionais
e de jogar futebol.
Minha sobrinha, a Lesly,
0\é muito parecida com a mãe dela, minha irmã.
\EZEQUIEL TIO DA LESLY
Ela gosta de trabalhar.
Mas elas têm uma diferença.
EA mãe dela não gostava de estudar, mas a Lesly é uma ótima aluna.
A Lesly é quietinha, calada.
Mas a Soleiny adora dar risada.
8A Lesly sempre se dedicou à irmãzinha dela, a Soleiny.
)\As duas estavam sempre brincando juntas.
\YERITZA TIA DA LESLY
'A Lesly cuidava muito dos irmãos dela.
Da Cristin, do Tien…
E o Tien dá muito trabalho.
Ela era como uma mãe pra eles.
Mas eu pensava:
@"Como a Lesly está mantendo a bebê viva na selva, sem comida?"
17º DIA
Havia muitos macacos.
SOLEINY Eles riam.
E mexiam com a gente.
Eles saltavam de galho em galho.
)Eles derrubaram as frutas e nós pegamos.
Tínhamos tanta fome…
E comemos essa frutinha.
$Eu dei as mais molinhas pra Cristin.
A Cristin chorava de sede.
*Eu pedi pra Soleiny me passar a mamadeira.
+Ela procurava e procurava, mas não achava.
+SOLEINY É que a gente dormiu um pouco e…
)A mamadeira deve ter caído e eu a perdi.
"Como assim, perdeu?"
O que eu ia fazer?
Peguei uma tampinha
0pra dar a Cristin um pouquinho de água por vez.
Perguntamos ao Manuel:
3"Seus filhos têm força pra caminhar na floresta?"
Ele disse: "Não.
O Tien se cansa logo.
3Ele e a Gondi (Soleiny) não conseguem andar muito.
Eles não estão longe daqui."
Tien!
Lesly!
Aí, ouvimos uma resposta.
3Ficamos tão felizes, tipo: "Achamos as crianças!"
Só que…
3Era um time das Forças Especiais, o Destruidor Um.
=Sabíamos que a equipe de busca indígena estava na floresta,
)mas não sabíamos a localização exata.
/Havia um pouco de tensão entre os dois grupos.
-Era complicado. Como iríamos falar com eles?
Durante muitos anos,
(houve muitos conflitos, por assim dizer,
/entre as comunidades indígenas e os militares,
no combate ao narcotráfico.
2Nossas comunidades indígenas são muito carentes.
Não existem ruas.
Muitas casas não têm luz.
$Totalmente abandonadas pelo governo.
6Assim, as narcoguerrilhas que controlam o território.
+Eles têm armas, e nós temos que obedecer.
=\Os indígenas acabam colaborando com os grupos de guerrilha.
Eles plantam coca,
transportam drogas…
Os militares não permitem isso.
$Por isso combatemos as guerrilhas…
:E as comunidades indígenas que as guerrilhas infiltraram.
7Nessa noite, eles se assentaram um pouco longe de nós.
!E adotamos medidas de segurança.
!Pusemos armadilhas, sentinelas…
/Estávamos cientes de qualquer movimento deles.
!Não podemos largar nossas armas.
)E se tiver algum guerrilheiro entre eles?
,Então, nós decidimos que, no dia seguinte,
cada grupo iria pra um lado.
19º DIA
%Aos poucos, eu tentava mexer a perna.
3Consegui dar alguns passos com a ajuda de um galho.
Já quase não doía.
#Dei graças a Deus por poder andar.
Lesly, é a sua avó, Fátima!
Fique parada.
O Exército está te procurando.
Meu amor, fique onde está.
"Eu ouvi uma voz, mas estava longe.
Parecia a minha avó falando.
Lesly, é a sua avó, Fátima!
Eu não te abandonei.
!Se estiver ouvindo, fique parada.
Eles estão te procurando.
#Era mentira ou verdade que era ela?
!Nós gravamos a avó dela falando
'em espanhol e no idioma delas, huitoto,
para tranquilizar as crianças.
9Não saiam do lugar. O Exército está procurando vocês!
Eles estavam nos procurando?
Eu achava que não.
"Então, eu quis continuar andando.
4Tínhamos certeza de que as crianças tinham ouvido.
6Mas por que elas não saíam? Por que não respondiam?
,Então, adotamos uma tática mais agressiva.
Soltamos dez mil folhetos
com a mensagem da avó dela.
Soltamos kits de comida.
5E instalamos 11 quilômetros de fita de construção.
5E penduramos apitos nela, pras crianças sinalizarem.
+Pusemos música alta, como num show grande.
"E, claro, com tanta perturbação,
o tempo fechou.
0Tem um espírito aqui que não gosta de barulho.
+A tecnologia e as técnicas do homem branco
não serviram pra nada.
Tínhamos que fazer outra coisa.
Procurar com outros olhos.
&Então, chamamos o reforço indígena.
20º DIA
+A equipe que achou o avião estava exausta.
Era a nossa vez de ir
e resgatar meus sobrinhos.
0Os indígenas acharam o avião. Não fomos nós.
4\Então, acreditamos que eles achariam as crianças.
'\GUSTAVO URREGO PRESIDENTE DA COLÔMBIA
Força! Força!
Quando?
Sempre e pra sempre!
*Eu precisei movimentar 85 povos indígenas
de outras partes da Colômbia.
2E integrar os socorristas indígenas aos comandos.
"Confiando, porém sempre checando.
Eu pedi que checassem todo mundo
5pra evitar qualquer infiltração de alguma facção.
.\Trabalharemos juntos, em células combinadas.
Saudação, companheiros!
AAs buscas usarão o conhecimento dos indígenas sobre a floresta.
Força! Força!
A selva é misteriosa.
%E os militares não sabem solucionar.
\FIDENCIO TIO-AVÔ DA LESLY
%Nossos amigos e a família nos disse:
"Precisa chamar um ancião!"
E chamamos o Don Rubio.
Ele veio como um xamã.
MIGUEL EQUIPE DE BUSCA INDÍGENA
Ele é um líder,
muito respeitado
3por seus conhecimentos das tradições espirituais.
(E o Don Rubio fala: "Tranquilo, rapazes.
6Em quatro ou cinco dias a gente acha essas crianças."
22º DIA
'Primeiro, me levem aonde o avião caiu.
$\JOSÉ RUBIO XAMÃ, EQUIPE INDÍGENA
.A uns 20 metros de onde o avião tinha caído,
meu amigo Faustino fala:
"Amigo, se prepara.
Seja forte."
;Vi uma bolsa que era minha, que a minha irmã tinha levado.
AVi as coisas das crianças, as roupas da minha irmã, o sapato…
(E um abrigo feito de folhas de palmeira.
.Quando vi tudo isso, eu senti muitíssima dor.
0As crianças dormiram feito animais na floresta.
:Falei: "Meu Deus. Por que isso está acontecendo com eles?
$Por que eles estão sofrendo assim?"
3Por que minha irmã precisou morrer como um animal?
Então, nessa hora, em mim…
Lá dentro de mim, eu senti
3que era tudo culpa daquele filho da mãe do Manuel.
QUATRO ANOS ANTES
6\A Magdalena sempre falava que o Manuel insistiu muito
=\até que ela foi morar com ele, mesmo a mãe não aceitando.
\YOLIBETH AMIGA DA MAGDALENA
2E eles foram morar longe do vilarejo da mãe dela.
$Quando chegaram à minha comunidade,
o menino tinha um aninho.
Ela e eu viramos amigas.
(Mais do que amigas, nós éramos irmãs.
0Adorávamos ficar no quintal, colhendo mandioca.
!E também gostávamos das festas.
4Ela começava a dançar e todo mundo ia atrás dela.
"Vem, amiga!"
Abraçava o marido e…
1ela não ligava pra nada quando estava dançando.
:Nas festas comunitárias, ela dançava com quem estivesse.
7O Manuel gostava de dançar bem juntinho das parceiras.
E a Magdalena ficava enciumada.
E isso o deixava com raiva.
)As festas acabavam sempre do mesmo jeito.
Ele batia nela.
)Em algumas ocasiões, ele foi bem brutal.
8Por isso o Manuel se meteu em problemas com a guerrilha.
A guerrilha tem as regras dela
,para controlar a sociedade e as comunidades.
%Eles puseram uma arma na cabeça dele
&e disseram: "Se encostar nela de novo,
nós não vamos perdoar."
Ele foi avisado.
As pessoas erram.
Nós brigávamos, às vezes,
como muitos casais.
6E depois de uma bebedeira, as coisas saem do controle.
$Mas nunca foi violência doméstica.
Meu sangue ferveu!
7Eu estava pronto pra usar o meu facão contra o Manuel.
O Rubio chegou
*e disse: "Você precisa controlar a raiva.
!Vamos fazer isso pelas crianças.
Quando acharmos as crianças,
a verdade virá à tona."
-Naquela noite, fizemos uma sessão com mambe.
>Hoje, através das plantas sagradas, vamos limpar os caminhos.
%Eu tinha meio quilo de mambe e ambil.
O mambe é um pó feito da coca.
!E o ambil é uma pasta de tabaco.
8A gente usa essas duas coisas com uma pergunta em mente.
1E vem uma inspiração daquilo que você precisa.
Assim, eu posso ver
pra que lado as crianças foram.
23º DIA
)"Bem, xamã… Eu estou sob seu comando."
E mostrei o GPS a ele.
5\Ele disse: "Isto não vai nos levar a lugar nenhum."
\JAIR EQUIPE DE BUSCA INDÍGENA
\"Porque está em branco."
/"Agora, você é o GPS do GPS." Eu disse a ele.
)Enquanto meditava, eu senti as crianças.
Eu disse: "Vamos por aqui."
'Quando o Don Rubio começou a procurar,
5ele já avisou que não ia trabalhar com o Exército.
!Porém, o comandante nos instruiu
,para trabalharmos com eles e darmos suporte.
."Caramba! Trabalhar com a equipe indígena…"
2Ficamos preocupados. Como íamos trabalhar juntos?
7Eu precisava acompanhá-los a 400 metros de distância.
7Eu falei pro pessoal que não ia demorar pra achá-los.
6Só que os miliares não sabiam o que estavam fazendo.
Por aqui, rapazes.
Eu estava na frente
quando vi pegadas pequenas.
Eu segui o rastro.
!E, mais adiante, havia um abrigo.
Olha, cortaram com o dente.
6E achamos a blusinha da Cristin, uma blusinha amarela.
Algumas fraldas…
De pouco tempo atrás.
#As crianças devem estar por perto.
)Os dias iam passando e eu estava faminta.
A Soleiny também.
SOLEINY Nós comíamos milpés.
Só isso.
-A Soleiny falava das comidas que ela gostava.
Carne com molho.
Frango.
Arroz com banana.
/Eu pensava nas vezes em que desperdicei comida.
E chorava.
À noite,
+eu pensava na minha mãe e na morte dela…
A minha mãe sofreu muito.
-Eu pensava nas vezes em que ela me aconselhou
e eu não dava atenção.
Ela sempre me dizia:
:"Um dia, você será órfã e aí, vai se lembrar de mim."
E eu só chorava.
SOLEINY A Lesly achou...
que Deus estava castigando ela.
26º DIA
8Passamos dias procurando, mas não achamos as crianças.
Será que estão escondidos?
CDepois de três dias, o Rubio percebeu que estávamos atrás deles.
"Vocês, comigo? Não!"
Ele ficou muito incomodado.
!Ele disse: "Eu trabalho sozinho."
"Certo. Seu teimoso."
Eu não trabalho com militares.
&O meu avô tinha medo de gente armada.
4Por causa da violência durante o ciclo da borracha.
6Muitos de nossos avôs foram assassinados dessa forma.
No nosso território,
"entre os rios Putumayo e Caquetá,
havia o comércio da borracha.
8Nessa época, muitas pessoas começaram a chegar de fora
pra explorar nossos recursos.
,Eles precisavam da borracha em suas cidades,
para os automóveis.
AEles disseram: "Chamem os indígenas e vamos extrair a borracha."
Fomos escravizados.
Nós éramos castigados.
Fome.
*Eles mataram mais da metade do nosso povo.
4Nós ainda convivemos com o trauma desse genocídio.
-A relação com o Rubio estava de mal a pior,
:até ele se cortar com o facão e precisar de atendimento.
Então, ele precisou de nós.
O que está fazendo, Chamán?
Estamos fazendo arepas
'para dividir com o grupo de Araracuara.
Don Rubio, manda um "alô".
Estávamos ficando sem comida
e eles deram um pouco da deles.
)Eles se aproximaram, fizeram perguntas…
Nós estávamos sem camisa.
("Por que os mosquitos não picam vocês?
!Olha, estamos cheios de picadas!"
"Não. Nada pica a gente."
Naquela noite,
+o Don Rubio me chamou pra sessão de mambe.
(Obviamente, o meu fuzil estava bem preso
e tinha um soldado vigiando.
E o Don Rubio fala: "Popeye…
Vai provar o mambe?"
:Pessoalmente, eu não acho que o mambe seja um narcótico.
Para os indígenas,
0o mambe é um auxílio para as tarefas diárias.
,Eles encheram a boca até inchar a bochecha.
1E eu fiz o mesmo, sem saber o que estava fazendo.
Mas foi um divisor de águas.
-Estamos aqui, nesse território, Pai Criador.
O Senhor nos deu a vida.
;E eles contaram histórias dos ancestrais deles em huitoto.
5Nós cremos que os primeiros seres poderosos da Terra
+abusaram do poder que receberam do Criador.
Por isso eles viraram animais.
'Esses animais são regidos pelo Duende.
&O Duende é um espírito, um metamorfo
que pode virar uma anta.
Uma cobra.
Uma onça.
9O Duende consegue assumir a forma humana e te desvirtuar.
DE pro Don Rubio, era o que o Duende estava fazendo com as crianças.
Elas não estão perdidas.
Quem está com elas? O Duende.
3Ele apareceu pra elas como a avó delas, a Fátima.
6Ele disse: "Vocês são meus netos. Vou guiar vocês."
E levou as crianças embora.
-O Duende tinha as crianças sob o poder dele.
#Mas o que ele queria das crianças?
:Era muito esquisito explicar tudo aquilo aos meus colegas.
Não tinha nenhuma lógica.
9Por exemplo, eu informei: "Eles dizem que tem um Duende."
7E eu não sabia como meus comandantes iam receber isso.
9Porque nas Forças Especiais ninguém fala dessas coisas.
*Meus comandos disseram que eles precisavam
!de quatro garrafas de aguardente.
Eu disse: "Certo.
Vamos lá."
:É incomum que aeronaves militares transportem aguardente.
Mas a decisão foi respeitada.
."Ouça o que os povos indígenas têm a dizer.
:Não quero que ninguém diga que não achamos as crianças
porque nós os ignoramos."
Eu perguntei ao comandante:
"E pra que isso?"
"À meia-noite,
0\você precisa colocar essas garrafas em cruz…
\MONTIEL CAPITÃO
…na bifurcação de um rio.
#O Duende gosta muito de aguardente,
3então ele vai se embebedar e soltar as crianças."
.Eu achei espantoso receber esse tipo de ordem.
1Eu não estou num conto de fadas, nem nada disso.
1Mas olha… Tudo para que as crianças apareçam.
8Eu sabia que rio era porque já tínhamos procurado ali.
Nós procuramos mais…
E nada.
@Então, o cadarço de uma das botas do nosso sargento desamarrou
%e as botas se amarraram uma na outra.
Foram umas cinco vezes.
"De repente, o ponteiro da bússola
começou a girar bem rápido.
Não parava mais de girar.
/Ficamos perdidos por uma hora, uma hora e meia.
A cabeça estava explodindo.
O que está acontecendo?
%Vamos sair daqui antes da meia-noite.
-Nós achamos um rio, mas não a bifurcação.
3Então, colocamos as quatro garrafas de aguardente.
9E notamos que não estávamos no controle de nós mesmos.
Eu sou muito católico.
,Eu nunca acreditei em forças sobrenaturais.
Mas comecei a pensar
6que algum espírito nos impedia de achar as crianças.
Comecei a usar mambe com eles.
\"Chamán, anda logo, vem!"
2\Peguei uma boa colherada e quando fomos procurar,
-eu não fiquei cansado, nem com sede ou fome.
4Estamos fazendo uma entrevista para o noticiário…
#Como se chama a sua etnia? Huitoto?
Sim, sou "muy tonto".
- Murui. - Moori?
!- Não, ele é um Murui. - Murui.
Eles usavam mambe, meditavam…
Eles, sim, procuravam conosco.
Eu conto com vocês.
$- Se acontecer algo comigo. - Exato.
&Éramos, praticamente, do mesmo grupo,
só que com outras roupas.
Juntos, achamos evidências.
Fraldas.
Os tênis do menino.
Os tênis me impactaram demais.
#Meu Deus. O menino está descalço?
Eles estavam desprotegidos.
0Com essas pistas, nós pudemos notar um padrão.
9As imagens mostram que eles andaram mais de 3.600 metros.
4As crianças indígenas estão andando em círculos.
Lesly!
2Mas apesar das novas pistas, a cada dia que passa,
:\a esperança de achar as crianças com vida cai um pouco.
31º DIA
5Como as crianças sobreviveram depois de tantos dias?
Na floresta tem muita água.
Mas não tem muita comida.
9E, sem comida, eles não vão sobreviver por muito tempo.
Nossos comandos haviam coberto
quase 90% da área de buscas.
Tentamos absolutamente tudo.
)Não era procurar uma agulha no palheiro.
0Era procurar uma pulga, uma pulguinha minúscula
em um imenso tapete…
%\que não parava de pular e se mexer.
\SÁNCHEZ BRIGADEIRO-GERAL
6\E que nos deixava sem saber pra onde ela iria depois.
De quem eles fugiam?
0As crianças indígenas têm medo dos militares.
Algumas nem os conhecem.
Elas não têm medo da floresta.
Elas têm medo de gente.
Elas deviam pensar:
,"Se o Manuel nos achar, o que ele vai fazer?
Vamos nos esconder."
DOIS MESES ANTES
/A relação do Manuel e da Lesly era horrível.
,O Manuel não deixava a Lesly jogar futebol,
nem estar com as outras garotas.
-Ela não tinha liberdade pra ter vida social.
Um dia, a Magdalena me disse
,que o Manuel queria tirar a Lesly da escola.
E eles tiraram.
/Ele a fazia cumprir todas as tarefas da casa…
e cuidar dos irmãos.
0E tinha que obedecer, como se fosse uma escrava.
Senão,
o Manuel ficava bravo.
9Uma vez, a Lesly saiu correndo pra não apanhar do Manuel
#e se escondeu atrás do meu marido.
*E o Manuel veio com um pau pra bater nela.
A Lesly chorava.
1Então, ela vivia sempre ansiosa, sempre tímida.
)Uma tarde, quando eles vieram me visitar,
0eu perguntei a Lesly: "Quer ir à escola daqui?"
"Sim, vó."
,Então, eu disse: "Magda, me faça um favor.
2Deixe a menina comigo quando ela for pro 6º ano."
"Não!", disse o Manuel. "Não!"
"A Magdalena trabalha.
Quem vai cuidar da menina?"
KEu disse a ele: "Você trata a Lesly feito burro de carga, com esse bebê."
%Eu procurava um rio para pegar água.
Quando vi algo se mexer.
Uma tartaruga.
O Tien pegou um galho…
%E eu disse pra ele não fazer aquilo.
Não, Tien!
O Tien me perguntou:
9"Por que estamos aqui? Por que não saímos da floresta?"
4Eu continuava dizendo a ele que estávamos perdidos.
Mas ele não acreditava.
.Ele ficava com raiva e começava a espezinhar.
+Eu cuido do Tien desde que ele era pequeno.
6Desde que tinha quatro meses, eu fico em casa com ele,
faço a comida dele…
Estou cansada.
)A Soleiny e o Tien andavam muito devagar.
Eu fiquei desesperada.
*Eu não conseguia mais carregar a Cristin.
4Quis deixar meus irmãos pra trás e seguir sozinha.
33º DIA
BNão conseguimos achar as crianças e estávamos mais preocupados.
Não havia nem rastro delas.
/Porque, todo dia, o Duende as trocava de lugar.
4Apesar do meu conhecimento, ele estava me enganando.
8O Don Rubio e a equipe indígena estavam muito cansados.
Eles já estavam muito doentes.
Quase todos tiveram pneumonia.
*Se nós, adultos, que estamos comendo bem,
"já estamos sentindo o cansaço…
3É impossível que as crianças tenham sobrevivido.
Eu preferiria que fosse eu,
e não as crianças.
$O Manuel estava na rede, reclamando.
"O Duende me atacou em um pesadelo.
8Não foi fácil lutar contra um espírito tão poderoso.
Eu dizia: "Irmão, não reclame.
?Se pensasse direito, não teria errado tanto com a minha irmã.
Fique quieto."
\TRÊS SEMANAS ANTES DO ACIDENTE
Alguém nos ligou e disse
9que o Manuel estava trazendo outra mulher pra comunidade.
E ninguém avisou a Magdalena.
Quem é ela?
Isso vai ser um problema.
AA Magdalena foi até o porto e a outra mulher estava lá com ele.
3E o Manuel falou que eles três iriam morar juntos.
O Manuel estava louco
4de querer que fosse igual no tempo dos nossos avós.
*Pra provar que ele podia ter duas esposas,
que ele era o machão.
'E a Magdalena acabou com ele nesse dia.
$A Lesly foi embora com as crianças.
Quando o Manuel tirou um facão,
eles fugiram pra floresta.
E dormiram aquela noite lá.
@A Magdalena chegou à minha casa à 1h, com a bebê nos braços.
Ela me chamou e disse: "Yoli!"
Eu joguei uma luz nela.
4Eu disse: "O que aconteceu? Vocês brigaram de novo?
.Eu falei pra largar ele. O que está fazendo?"
Ela estava sangrando.
Sangrava bem aqui.
O facão a acertou aqui,
e estava cheio de sangue.
O Manuel fugiu de barco,
(porque havia testemunhas da briga deles.
DAntes da guerrilha saber o que ele fez com a minha irmã, ele fugiu.
Senão ele estaria morto.
35º DIA
0Nós convocamos esta reunião pra dizer a vocês
>que o grupo Destruidor Um recebeu ordens de nossos comandantes
#para retornar à base em San José.
6A minha equipe estava na floresta havia quase um mês.
Todos estavam exaustos.
Outra equipe ficará com vocês.
"Pra nós, vocês são da família.
Queremos continuar essa luta
enquanto o objetivo não for cumprido.
Quando disseram que iam embora,
eu perdi o foco.
#Eu disse: "Se não os encontrarmos,
eles estarão mortos."
BNós dissemos: "Rubio, irmão, você disse que levaria cinco dias.
Mas não aconteceu nada.
%A verdade é que a selva nos dominou.
*Eu só preciso dizer que é hora do yagé.
É o nosso último recurso!"
3Eles passaram os telefones de alguns dos indígenas
9e me pediram pra chamá-los para uma cerimônia de yagé.
0E que entregasse a eles quando estivesse pronto.
?Os anciãos da comunidade são os únicos que preparam o yagé.
O yagé é uma bebida ancestral.
É conhecido como ayahuasca.
5Eu pensei que pudesse induzir alucinações intensas.
O yagé não é brincadeira.
(Tomar yagé não é igual beber álcool.
Ele te faz voar…
mais alto do que as árvores.
%Enquanto esperávamos o yagé chegar,
nós erguemos uma choupana,
onde tomaríamos o yagé.
Nós íamos fazer direito.
Às vezes, eu ficava zonza.
E me apoiava nas árvores.
,Um dia, a Soleiny achou um pedaço de papel.
%Dizia que eles estavam nos procurando
e pra gente não sair do lugar.
!O Tien e a Soleiny quiseram ficar
2porque estavam cansados e não queriam mais andar.
)A Soleiny caía toda hora e se machucava.
O Tien não ficava mais em pé.
A bebê não estava bem.
Estava vivendo só de água.
$Achei que ela não fosse sobreviver.
"Então, resolvi parar em um lugar.
Eu montei um abrigo.
Espero que eles nos resgatem.
38º DIA
O yagé chegou.
Nosso último recurso.
Se o yagé não funcionar,
/não terá mais nada pra fazer e iremos embora.
"[Huitoto] Irmãos, estão prontos?
Sim, estamos prontos.
Estamos aqui, parceiros.
Uma pessoa vai nos guiar.
O nosso xamã.
$[Huitoto] Pedimos a Ti, Pai Criador,
que entregue o que procuramos.
Chegou a hora.
O Manuel precisa tomar o yagé
para ele entender
o motivo dessa tragédia.
Fui pego de surpresa.
Fiquei preocupado.
%Um pouco depois da 1h, o Manuel bebe.
9Com o yagé, você sai do corpo e vai pra outra dimensão
pra encontrar o Criador.
Com o yagé,
nada é impossível.
A resposta sempre aparece.
Mas você precisa ser puro.
Logo, o Manuel estava roncando.
Ele não estava grogue.
Ele estava dormindo.
"Vinte minutos depois, ele acordou.
O Rubio e eu nos olhamos.
O que aconteceu?
Ficamos todos em choque.
5Quando eu estava pra achar o paradeiro das crianças,
o Duende me atacou e eu não vi.
BQuando acontece uma tragédia, a gente precisa contar a história.
A história da nossa vida.
%Se mentir, há muitas consequências.
DUAS SEMANAS ANTES DO ACIDENTE
1Quando o Manuel acertou minha irmã com o facão,
(ela chegou à nossa casa toda machucada.
"Irmã, não se preocupe.
Você está conosco agora."
?Minha irmã Magdalena disse: "Certo. Vou seguir com minha vida.
(Vou morar aqui e pôr a Lesly na escola.
E vou trabalhar."
E onde estava o Manuel?
!Ela disse: "Ele foi pra Bogotá."
%Eu fui embora por causa da guerrilha.
-Mas sempre mantive o contato com a Magdalena.
Eu deixei uma carta pra ela.
O Manuel deixou uma mala.
-E a Magdalena achou uma carta dentro da mala.
Ela leu e releu.
E ela mudou totalmente.
Ela não comia, não dormia…
'Ela disse: "Yeri, acho que vou embora."
"Pra onde?"
"Pra cidade.
O Manuel tem uma casa linda.
Meus filhos irão à escola."
Magdalena, por favor!
É tudo mentira.
Não quero que você vá.
Eu liguei pro Manuel.
*"Fale a verdade. Você ama a minha irmã?"
"Não sei.
A Magdalena me ama demais.
Ela nunca vai me deixar. Nunca."
Dias depois, nós saímos.
E a Magdalena ficou em casa.
Quando voltamos,
não tinha ninguém.
Ninguém em casa.
Só uma bagunça.
Que homem maldito.
*Ela dizia que não podia ficar longe dele.
4Mas eu não podia falar porque meu caso é parecido.
&Quando meu marido bebe, ele me agride.
)E talvez muitas mulheres passem por isso.
9Se você ama a pessoa, também pode cair nessa armadilha.
#A Magdalena queria muito ir embora.
.A Lesly falou: "Eu não quero ir. Vá sozinha.
Eu fico aqui com a minha avó."
6A Magdalena a puxou pelo cabelo e disse: "Nós vamos!"
O que houve com a Magdalena?
6Eu não sei como, mas esse sujeito fez a cabeça dela.
Ele a enfeitiçou.
Às 6h, eles estavam embarcados.
De quem é a culpa?
É dele.
Por causa das mentiras dele.
%Os rapazes estavam tristes e calados.
Eu disse: "Não se preocupem.
%Ainda temos a última dose de yagé."
Às 3h, eu tomei.
À noite, a Soleiny teve medo
2quando os animais chegaram perto para nos cheirar.
Eu usei a lanterna.
*Quando eu jogava a luz, os animais fugiam.
E eu sonhei com Duendes.
Eles pareciam as pessoas.
Eles nos rodeavam.
'Mas eu não entendia o que eles diziam.
$Eu sentia que ninguém ia nos achar.
&Achei que ficaríamos aqui pra sempre.
40º DIA
Após tomar o yagé,
eu comecei a lutar com o Duende.
Ele me apertou assim.
Eu fui estrangulado.
4Ele me agarrou e me lançou pra cima de uma árvore.
E eu girava lá em cima dela.
-Depois, como uma iguana, eu voltei pro chão.
"Você precisa entregar as crianças.
Elas são inocentes.
A família as quer de volta."
/O Duende disse: "Estou protegendo as crianças.
Eu vou entregá-las.
Mas cuidem delas.
Senão, haverá consequências."
:Ele disse: "Suba num morro que tenha um pé de helicônia.
É aí que você vai achar."
Vamos por aqui.
"O Rubio disse: "Haja o que houver,
%hoje será a nossa última tentativa.
7Você vai por ali, você vai por aqui e você, por lá.
3\Quando for umas 15h, 16h, nos reencontramos aqui."
#\NICOLÁS EQUIPE DE BUSCA INDÍGENA
#Ele disse: "Vocês vão achá-los."
)Eu estava muito cansado e muito esgotado.
Ele foi embora e sumiu.
Não o vimos de novo.
Lesly!
Lesly!
$As horas se passaram e já eram 14h.
E nós estávamos longe.
-A uns nove quilômetros do nosso acampamento.
Lesly!
O meu grupo e eu
procuramos em tal lugar,
procuramos em outro lugar…
E nada!
Nada!
#"Estou doente demais pra continuar.
Não consigo mais.
Vou voltar pro acampamento."
9Mas o nosso grupo resolve continuar andando e procurando.
E começamos a subir um morro.
Venham! Aqui!
E fomos bem rápido.
Irmãos…
Um morrocoy!
Uma tartaruga.
*Os anciãos dizem que se você a ameaçar,
seu desejo será concedido.
0E eu disse: "Você vai me entregar as crianças.
Se não me entregá-las,
4eu vou comer o seu fígado porque é o meu favorito.
!O Nicolás vai beber seu sangue."
Garantimos o nosso jantar.
Aí, todo mundo parou.
.Eu ouvia algumas vozes e passos perto de nós.
Eu tentava, mas não via nada.
1Eu continuei andando, prestando atenção no som.
Eu ergo a cabeça…
/E, bendito seja Deus, as crianças estavam ali.
Achamos as crianças!
Graças a Deus!
Achamos as crianças!
4Deus nos abençoou por conta da fé que temos n'Ele.
Eu quase desmaiei de emoção.
#Finalmente, eu ia sair da floresta.
-Ficamos contentes porque os achamos com vida.
:Se demorássemos mais dois dias, eles morreriam um por um.
O menino falou: "Estou com fome.
Quero farinha com linguiça."
"Queremos comer tamale.
Queremos arroz doce."
Então, demos comida a eles.
Só um pouquinho.
Pra não causar inanição.
BAí, lembramos de soltar a tartaruga porque ela realizou o desejo.
Obrigado por nos ajudar.
Já pode ir.
$Irmão, vamos voltar. Vai anoitecer.
Eram quase três horas
pra voltar pro acampamento.
&E as crianças estavam quase morrendo.
Fiquei em choque.
\Caramba, nós os achamos!
\ACOSTA CABO
APerguntei a Lesly: "Você sabe há quanto tempo estão perdidos?"
"Ela disse: "Uns oito ou dez dias."
Mas fazia 40 dias.
3Ela não tinha muita noção do que estava dizendo.
8Precisávamos tirá-los de lá antes que eles morressem.
7Tem uma chamada que os pilotos de resgate sempre fazem.
'Se disserem "reação", não questione.
Corra.
!Quando ouvi a bebê, a Cristin…
Que alegria.
6O Tien olhava bem pra mim, mas totalmente sem energia.
&Eu disse "oi" pra Lesly e pra Soleiny.
Não…
Lesly, já estamos saindo daqui.
#Gondi… Nós já vamos sair daqui.
EQuando cheguei, a primeira coisa foi abraçar a maiorzinha de 13 anos
e depois a menor de nove anos.
=Depois, eu corri até o meu filho e minha filha e os abracei.
Quando nos aproximamos do local,
8estava tão escuro que a floresta virou um tapete preto.
As nuvens estavam tão espessas
>que a separação entre céu e terra era difícil de perceber.
Eles iam evacuar as crianças.
Eu disse: "Não sem mim."
+Eu disse ao Manuel: "Você não deveria ir.
%Por favor, não vá com as crianças.
Você vai traumatizá-las."
As crianças…
iam voltar comigo.
1Eu não queria voltar a morar com o meu padrasto.
Eu tinha medo.
\QUINTERO FORÇA AÉREA
A\Iniciamos a primeira extração com o Manuel e a bêbe, Cristin.
&Eles subiram assim, feito um pêndulo.
Pra lá e pra cá.
Eu fiquei desorientado.
;Uma sombra apareceu e começou a sugar minha energia vital.
$O espírito estava me estrangulando.
BEles foram na direção das árvores, girando cada vez mais forte.
E a tripulação gritava:
+"Pare de se mexer, senão nós vamos cair!"
"Deus, não me deixe bater."
.Amarrei a Soleiny e o Tien e subi com os dois.
/Mas havia uma energia que estava nos impedindo.
Eu sentia como se o helicóptero
estivesse sendo puxado.
3Precisei de mais potência para poder controlá-lo.
Aquilo não parecia certo.
Só faltava a Lesly.
A corda me puxou e eu tive medo.
Eu ia embarcar de novo naquilo?
5Crianças a bordo, pai a bordo e socorristas a bordo.
"Vamos sair logo daqui.
!Antes que a floresta nos engula."
UM ANO DEPOIS
(Pra você, qual foi o dia mais difícil?
\MÓNICA PSICÓLOGA
A Cristin só chorava e…
Eu pensava…
2"Quero deixar meus irmãos pra trás e ir sozinha.
Sem a Cristin."
Aí, eu respirei fundo.
>Porque eu pensei em deixar meus irmãos. Mas eu disse: "Não."
"Então, eu resolvi ficar com eles.
- Mas foi muito difícil. - Sim.
Eu caí num acidente assim.
E a minha mãe morreu.
E a Lesly nos protegeu.
Olha tudo que você fez
pra salvar seus irmãos.
Para sobreviver.
&"Você é um milagre", eu disse a ela.
"Por que, tia?", ela perguntou.
"Porque você caiu lá do céu
e sobreviveu por 40 dias.
Ninguém consegue isso."
Eu vou ganhar!
Espera… As minhas irmãs.
Vem, rápido!
#Eu disse a ela: "Agora está livre.
Não será escrava de ninguém.
Terá uma vida de verdade.
6Finja que é um filme e que esse é o final do filme."
=Nos dois dias após o resgate, Lesly, Soleiny, Tien e Cristin
Bficaram sob a guarda do Instituto Colombiano do Bem-Estar Familiar
He frequentam a escola. Em 2025, eles foram viver com a família materna.
CA Lesly torce para que, um dia, ela vire enfermeira ou futebolista.
5Dois meses após o resgate, Manuel Ranoque foi preso.
2Em 2025, Ranoque foi condenado por abuso infantil.
#Esse resgate na Floresta Amazônica
.precisa dar início a uma fase de entendimento
+entre o Estado e as comunidades indígenas,
2que foram imensamente excluídas durante séculos.
DSe você ou alguém que conhece está vivendo uma relação abusiva,
é possível pedir ajuda.
'O Serviço Nacional Contra a Violência
oferece suporte todos os dias.
0Basta chamar pelo número 1-800-799-SAFE (7233),
ou pelo chat em TheHotline.org
Legenda: Bruno Amancio
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