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Ouvem -te bem.
Ouvem -te bem.
É contigo.
É contigo.
Vai! Vai logo, por favor!
Toga essa merda de uma vez!
Estou sabendo.
Estou sabendo.
Sim? Quem telefonou foi o doutor Camarinha.
Quem? O doutor Camarinha.
Seu assunto é urgentíssimo. Está vindo para cá.
Posso desmarcar com os corretores?
Pode.
Golpe errado ter vindo.
Dona Noemi, liga lá para casa para eu desmarcar com a Eudoxia.
Golpe errado ter vindo.
Vesta de casamento. Eu tenho que esperar o camarinha.
Opa, doutor Sabino.
Desliga.
Como é que vai esta figura?
Como é que está, hein?
Dona Noêmia, arranja um cafezinho pra gente.
Nada de cafezinho com esse calor.
Suspende o café.
E então, camarinha, que negócio é esse de assunto urgentíssimo?
Quando o médico da família fala urgente, dá até medo, hein?
É particular.
Sabeno, você tem uma filha bonita demais.
Não falo das outras, falo de Glorinha.
Glorinha é uma das meninas mais lindas que eu conheci em toda a minha vida.
Entre Glorinha e Ava Gardner, eu prefiro cem vezes a Glorinha.
Sabino, que ideia você faz do teu gênero?
Do Teófilo?
Teófilo que casa amanhã com Glorinha.
Teófilo.
Sujeito fino.
Excelente.
Pois ontem eu vi uma cena que você precisa saber.
No meu consultório.
Vi teu genro, Teófilo, beijando na boca o meu assistente, Zé Honório.
Eu vi, ninguém me contou.
Teu genro é um pererasta.
Você me diz isso há 24 horas do casamento.
Não há possibilidade de engano, de dúvida. Ora, Sabino, que dúvida?
Dois barbadões se beijam na boca é troco de nada.
Esfurcei os dois do consultório.
O meu assistente chorou. O teu gênero não.
Não chorou e me insultou.
Disse que eu era um louco e que me dava um tiro na cara.
Se ao menos ele caísse de joelhos e me pedisse perdão. Não, me insultou.
Não tem vida moral.
É isso. Não tem nada de precipitações. Mas quem é que está se precipitando?
não entendeu direito.
O rapaz nega. Disse que não ouve beijo, que não beijou. Você está insinuando o
quê? Que eu sou alguma criança, um débil mental?
Você acha que se eu tivesse alguma dúvida, eu viria aqui?
Você me acha com cara de palhaço? Não, camarinha, não é nada disso. Eu não quis
insinuar coisíssima nenhuma. Você não está entendendo nada, poxa.
Trata -se de uma coisa muito importante.
O casamento de Glorinha, minha filha.
E eu não sei quem é o ativo e quem é o passivo.
Mas isso é uma nuance cretina. Isso não existe.
Basta que um homem deseje o outro, não chega.
O que é que eu faço, camarim?
Pelo amor de Deus, me dê a sua opinião de médico.
Você é um homem sofrido.
O que é que eu faço?
Esse é seu nome, seu assistente.
O pai dele não teve um derrame?
Não ficou paralítico?
Que fim levou mesmo, hein?
Não interessa. O que interessa é o casamento de sua filha. Eu já cumpri meu
dever. Você é pai.
Muito bonito falar em dever.
Nós estamos na véspera do casamento.
Você sabe quanto eu já gastei?
Não é pelo dinheiro, não. Não que não ligo para isso.
Você sabe perfeitamente.
Mas compreenda.
Esse casamento é tudo para mim.
Tudo.
É a minha vida.
Sejamos práticos.
É um escândalo.
Vai todo mundo ao casamento.
Tem até ministros.
Já houve o desabamento ano passado, lembra -se? Todo mundo sabe que eu não
culpa nenhuma.
Fui um calculista.
Os desabamentos são águas passadas.
Olha, Sabino, eu te conheço há uns 20 anos.
E durante esse tempo todo, eu ouvi umas mil vezes você dizer que é um homem de
bem. Um homem de bem que sabe como age.
A decisão é sua.
Você não perguntou que fim levou o pai do Zé Honório?
Não se lembra?
Morreu há mais de um ano.
No mesmo dia em que morreu meu filho.
Ele morreu de dia.
Meu filho morreu de noite.
Tenho que desligar, Xavier. Estou cheia de serviços. Será que você não entende
isso?
Meu anjo, você nem sabe como eu te adoro.
Nem consigo trabalhar direito.
Você sabe que eu te amo, não sabe?
Hein?
E você gosta do seu boneco?
Olha, vamos ver na hora do almoço, meu amigo.
Eu passo aí para te apanhar.
Um beijo bem gostoso.
Glorinha.
Papai. Oh, minha filha.
Coisinha mais linda.
Oi, Noemi. Tudo bem?
Você vai ao meu casamento, não vai?
Senão eu fico zangada.
Vou ver.
Papai. Você tá lindo, hein?
Tô feio pra burro, minha filha.
Que houve? Tá chuteado?
Não, não.
É o Camarinha.
Camarinha diz coisas que ferem.
Gosta de ser desagradável.
Engraçado. Chego a pensar que é inveja.
Ele deve imaginar que é fácil ser rico, ter dinheiro.
Eu ganho bem, ganho.
Mas lutei muito.
E depois eu dou emprego a muita gente.
E o camarinha?
O camarinha também ganha muito bem, tem muito dinheiro.
Então por que esse olho grande em cima de mim? Por quê?
Ou será que ele está furioso assim porque o filho dele morreu?
E se o filho dele morreu, o culpado sou eu?
Esse rapaz era um playboy.
Devia estar empregado quando bateu com a cara no poste. Tomava porras homéricos.
Papai, eu tenho que ir.
Já, minha filha?
É, o Camarinha está me esperando.
Esperando? Ele quer falar comigo.
Doutor Camarinha quer falar com você?
É. Mas ele ligou lá para casa?
Foi. Mas assim, sem motivo nenhum, não perguntou nada?
Ele disse que é segredo. Mas como segredo? Segredo com você, comigo?
Eu disse para não falar nada, nem com o senhor, nem com a mamãe.
A mamãe sabe como é.
Eu não falo nada.
Sim, eu entendo. Acho bom não dizer nada à sua mãe.
Mas a mim você diz, não é? A mim você conta, não é, minha filha? Tchau.
Vem, Clarinha.
A mim você conta.
Conta. Quase tudo.
Ah, papai.
Sabe o que é?
Eu estou precisando de um dinheiro.
Você me arranja 500.
Tem, tem aqui.
Tchau.
E o negócio do cheque, papai?
Cheque? O cheque do Teófilo. Ah, do Teófilo, já está resolvido. É aquilo
Vinte, trinta, trinta milhões.
Papai, você é um amor.
Olha, de tarde nós vamos ver o apartamento, tá?
Tá, minha filha.
Ah, o retrato do Teófilo que ele mandou.
Tchau.
Tchau, hein? Tchau. Tchau.
Qual é o segredo, hein?
Que segredo? Não tem segredo nenhum.
Bombagem.
O senhor é de morte, hein?
Juro, não tem segredo nenhum.
O senhor está fazendo suspense.
Suspense de filme.
Te despediram do emprego, é?
Eu me despedi.
Por quê?
Chato, muito chato.
Quer dizer que você acha chato trabalhar?
Pensa que eu vou te sustentar?
Vai morrer de fome.
Não te dou um tostão.
Tu tem que me der.
O quê?
Tem que me der. Meu filho, pafte. Não!
O que é isso? O que é isso? Não bota nele?
Doutor Maria!
Não do meu filho, camaré! Não bota nele!
Passa aí!
Cafajeste! Cafajeste é você?
Se fizer isso de novo, eu te mato, viu? Te mato!
Meus filhos!
O senhor me chamou aqui pra quê?
A toa não foi.
Que se vê.
Você não vai casar amanhã? Que se vê.
Fala sério, doutor.
Muito de você.
Eu também.
Mas o senhor está me escondendo alguma coisa.
Você é feliz?
Todo mundo está me perguntando isso hoje. Por quê?
Sou feliz.
Ou não acredita?
Gosta muito do seu noivo?
Por quê?
Responde.
Gosto.
Muito.
Muito.
Era isso que eu queria ouvir.
Queria ouvir isso de você.
Eu queria um grande favor seu.
O senhor faz?
Que favor?
Eu queria que alguém, além do meu marido, visse que eu sou virgem.
Quer me examinar?
Mas minha filha, e para quê?
Não há necessidade?
Certos exames?
Há necessidade? Diz.
Eu quero, doutor.
Eu quero.
Deixe o menino vos falar.
Homem de bem.
Eu quero a sua opinião, monsenhor.
Eu sou um homem de bem ou não sou?
Sou ou não sou realmente um homem de bem?
Imagina o senhor.
Eu que durante toda a minha vida tive diante dos olhos a imagem de meu pai.
A imagem de um homem de bem.
Como meu pai nunca vinha igual.
Nem sorria como se o sorriso fosse um luxo.
Devo... Devo dizer tudo, padre.
Devo dizer tudo, realmente.
Tudo.
Diga tudo.
O que não se diz, apodrece em nós.
Assuma sua miséria, homem.
Vai, assuma sua lepra.
Assuma sua lepra!
Ao fato, minha vida, que nunca contei para ninguém.
Eu tenho que contar.
Conta, conta.
Quando meu pai morreu, eu passei a dormir na cama com minha mãe. Eu devia
uns oito anos.
Certa noite eu acordei com minha mãe chorando.
Eu não me mexi.
O choro ia ficando mais forte.
E eu fingindo que dormia.
E juro mais alto, cada vez mais alto.
E eu não sabia exatamente o que era aquilo, mas sabia que não devia acordar,
não devia me mexer.
Segura, Sabino.
Na igreja, não.
Aqui,
aí.
Enfia o dedo.
Enfia o dedo.
Sou virgem?
Você sabe.
Escuta, minha filha. Você sabia que não era virgem. Por que pediu para ser
examinada? Foi sem motivo?
Diz.
Foi sem motivo?
Eu tinha um motivo, doutor.
Qual?
Vamos, responda. Foi seu noivo?
Não, não foi meu noivo.
Foi seu filho.
Quer dizer, Antônio Carlos?
Olha para mim. Eu quero te olhar. Foi ele? Eu não sabia.
Ninguém soube de nada.
Vocês mal se conheciam.
Só vi seu filho duas vezes.
A primeira num almoço lá em casa.
No dia seguinte nos encontramos.
À noite ele morreu.
Você gostava do meu filho?
Antes não.
Depois que ele morreu comecei a gostar.
Você sabe por que eu te chamei?
Sei. Eu noivo o Teófilo.
Minha filha, você sabe o que eu ia te contar?
Sei.
E então?
E então o que, doutor?
Está querendo que eu desmanche o casamento?
um dia preservado.
Imobiliária Santa Teresinha, boa tarde.
Ah, doutor Sabino.
Telefonaram sim, doutor Sabino. Doutor Eudoxia.
Disse que liga depois.
A doutora Glorinha.
Pediu para o senhor não esquecer o encontro marcado com ela.
Eu quero que a senhora me faça um favor.
Eu queria que a senhora...
Que você viesse encontrar comigo.
Só nós dois.
Meu anjo, toma nota do interesse.
Do interesse.
Se o Xavier aparecer, ele vai aparecer.
Diz pra ele que eu tive que sair.
Diz. Novos amores?
Não sei.
Reza por mim.
Você vai todo dia para o emprego a essa hora?
Emprego? Ai, meu Deus, quem me dera.
Emprego.
Onde é a sua casa?
Casa? Quarto.
Na rua da Ana Romana.
Quero ser leal contigo.
Você é uma moça direita, eu quero que você saiba tudo.
Eu sou casado.
Você não diz nada?
O que é que eu digo o quê?
Sou casado, mas é como se não fosse.
Minha mulher não é mais mulher.
Deixou de ser mulher, entende?
Deixou de ser mulher?
Como?
Deixou de ser.
Ela sofre daquela doença.
Aquela.
Era morfética.
Mas que horror.
Todos os dias sou eu que dou banho na minha mulher, eu.
A mãe dela e as irmãs não querem nem saber se ela morreu.
Não quero mais, eu não quero mais. Sou eu que lavo as feridas.
Eu tenho que comer, meu amor. Senta lá na cama.
Sabe que ela é cega?
Ficou cega das duas vistas.
O que foi?
Vem cá.
O que é?
Será que você não desconfia que eu estou morrendo de fome? Que desde ontem eu
não comi nada?
Por que você não falou?
Desde noite eu não durmo. Eu tenho insônia de fome.
Além disso, eu estou devendo dois meses de quarto.
Senhoria, só falta me cuspir na cara.
Toma, faz uma boquinha.
Agora eu tenho que ir embora. Está na hora do curativo da patroa.
Vem comigo.
Vem.
Um ginecologista tem que ter dedos de um biologista.
Você é corajosa?
Depende.
Depende? Por quê?
Vamos, responde.
Eu não tenho medo de nada.
Nem de mim?
Muito menos de você, ora.
Então me responde uma pergunta.
Você já deitou com alguém?
Hã? Já?
Não é da sua conta.
Ah, você é virgem.
Então vou abrir logo o jogo contigo.
Sou da seguinte teoria.
Tudo menos donzela.
Mulher que começa com chiquei comigo é ó...
Suto logo para a corda.
É. Eu não quero nada contigo, olha.
Glória.
Glorinha.
Meu negócio é o seguinte.
Tem um programa fabuloso amanhã.
Você topa? Quer?
O quê?
Não topa amanhã? Eu não topo nada.
Eu, você e a Maria Inês.
Vocês não brigaram?
Obrigada.
Continua tarada por mim.
Glorinha, eu sei que você está afim desse cara, Glorinha. Eu sei que você
afim dele.
Mas olha, fica longe.
Fica longe porque esse cara não presta. Ele não presta.
O que
é isso?
O que é isso?
O que é
isso?
Glorinha, agora eu quero que esse cara morra.
Mas olha, Glorinha, fica longe dele, Glorinha.
Fica longe dele porque esse cara não presta. Ele não presta.
Não
tem
água, é? Não, não tem.
Que diabo, nunca tem água na porcaria desse prédio.
Dona Sara, leve esses meninos fora daqui.
Vamos, vamos embora.
Entra, vem.
Quente, não é?
Calor.
Este edifício é absolutamente residencial.
Só moram famílias.
A senhora viu crianças brincando lá embaixo no playground?
Crianças?
Entra lá.
Foi.
Estou chorando, não é?
Não, não é isso. Não, não é isso. Não, não é isso.
Não, não é isso.
Deixe -me ver.
Calma.
Pelo amor de Deus, não faça isso. Não faça isso.
Eu não aguento.
Eu não aguento.
Pelo amor de Deus, não grite. Não faça isso.
O sismo aqui é um chato.
Desculpe -se.
O negócio é o seguinte.
Cíntico aqui é uma fera, um complexado.
E depois tem crianças na casa, compreende?
Crianças.
Crianças.
Crianças.
Senhor Tabe.
Doutor Tadino.
Desde que eu entrei para o escritório que eu estou esperando por esse momento.
É, chato aqui é a falta d 'água.
O senhor sabe que eu adoro o senhor.
Eu adoro de verdade, doutor Sabino.
De verdade, doutor Sabino.
De verdade.
De verdade, doutor Sabino.
Tira a roupa.
A roupa? Tira tudo.
Tudo.
Vou tirar a sua tia também. Tia, não.
Porque eu não tenho... Por que que não?
Eu não tenho seios bonitos. Não chega aí.
Eu não tenho seios bonitos. Vai tirando tudo.
Não, não, não.
Gostosa.
Conta, doutor Sabino. Uma vez, quando eu era garoto, eu e um menininho fomos
tomar banho no rio Trabixeiro.
O menino era mais forte do que eu e ele me agarrou.
Continua, doutor Sabino, continua. Não, não.
Não vou dizer mais nada, não vou dizer nada, nada.
Ninguém sabe.
Agora você vai dizer uma coisa.
Sabe o que aconteceu entre mim e o garoto?
Sabe? Não, senhor.
Mentira.
Escuta que não há patrão nem empregada. Diz a verdade.
Sabe o que aconteceu?
Sim, senhor.
Pergunta se eu gostei.
O senhor gostou? Me chama de você.
Estou na cama. Você está na cama comigo? Mas eu respeito o senhor.
Me chama de você. Eu ordenei. Me chama de você.
Você.
Você gostou. Você.
Gostou.
Gostei.
Gostei. Você.
Você.
Você.
Você.
Agora diz.
Quem serviu de mulher?
Eu ou o menininho?
O menininho. Diz -me a verdade.
Foi o senhor. Me chama de você.
Me chama de você.
Foi você.
Foi você.
Foi você.
Você, você.
Foi você.
Estava na minha boca. Não me deixe gritar.
Você está desiludido.
Por obsequio, dona Noêmia.
Me chame de senhor.
Senhor.
Olha, eu quero que a senhora saiba o seguinte.
Aquele negócio que eu lhe contei há pouco sobre a minha infância.
Aquilo é mentira, ouviu?
Fui eu que inventei. É uma fantasia. Fantasia erótica.
O senhor está com medo que eu vá difamar o senhor?
Que bobagem, que tolice. Por que eu iria ter medo da senhora? Por quê?
Dona Noemi, eu acho melhor o seguinte.
A senhora acaba de se vestir rápido e vai embora.
Porque isso aqui tem hora marcada. E a dona aqui é muito chata, compreendeu?
A senhora faz o seguinte. Eu vou indo na frente. A senhora vai depois para o
escritório. Ouviu?
O seu banheiro.
Por obsequio, não complique as coisas.
Dona Noemi, eu faço o seguinte.
A senhora desce.
E vai na padaria ali em frente.
Viu? Porque o edifício não tem água.
Não tem água!
Muito obrigado pelo bolo.
Você não diz nada?
Me deixa esperando na rua assim, sem mais nem menos?
Olha, Xavier.
Você quer saber de uma coisa?
Entre nós está tudo errado. Tudo.
Está errado o quê?
Você larga essa mulher? Larga.
Responde, larga.
Meu anjo, eu já te expliquei.
E eu vivo de explicação.
Você acha que eu posso?
Posso abandonar minha mulher?
Que ainda por cima cega.
Não posso.
O que você quer que eu faça?
Você sabe que eu gosto de você, não sabe? Você é muito bonita, mas e eu,
E eu? Como é que fico?
Sou moça, ainda não morri, não.
Chato dormir sozinha.
Ir ao cinema sozinha. Fazer tudo sozinha. Só porque você tem hora para
casa?
Meu anjo. Não se chama de meu anjo.
Noelia.
Só tem um jeito, Xavier.
Qual?
Só tem um jeito.
Mas qual?
Internar tua mulher, Xavier.
Internar tua mulher, porra!
É melhor acabar, Xavier.
Acabar?
E a tua mulher?
Fica com a tua mulher.
Não pode assinar -me por causa da mulher.
Lava.
Estava a mulher a vir passar a mão em mim?
Mas o que foi que eu fiz?
Tem que trabalhar, Xavier.
Diz o que foi que eu fiz.
Me acusa, pelo menos, me acusa.
Tira a mão de mim, pode vir gente.
Quer dizer que está tudo acabado?
Vês -me esquece, Xavier.
Ah, Glorinha, chegaram umas camisolas lindas pra sua lua de mel.
Você não quer dar uma olhada?
Você se casa amanhã, né? É despedida, né?
É despedida.
Casa amanhã.
Florinha, pelo amor de Deus, me ajuda, por favor.
Esse cara é a maior fria.
Se você visse o arrependimento dele, é o cara mais infeliz do mundo.
Chorou a noite inteira.
Ele sabe que eu te contei tudo.
Ele quer conversar com você, explicar.
Eu sou tarada por esse cara.
Glorinha, eu gostaria de te explicar certas coisas.
A mim não precisa explicar nada.
A Marie Ney sabe a minha opinião.
Além disso, você vai perder seu tempo que eu não acredito em você.
Mas você nem sabe o que ele vai dizer.
Você foi dizer para essa boba que se mata.
Ora, marinês, que se mata coisa nenhuma. Esse cara é um cascateiro, um conversa.
Está se fingindo de maluco para justificar o que fez contigo.
Glorinha! Continua, continua, continua!
Já acabei.
Vamos, pode ser tudo, diz tudo, anda!
Está dito.
Não quero muito papo contigo, não.
Glorinha já deu a opinião dela.
Agora vocês vão descer aqui.
Eu não quero uma mulher nenhuma comigo nesse carro, não.
Vamos, desce!
Desce, porra!
Você também, Marines.
Desce, anda, desce!
Não salta, Glorinha, não salta. Fica, não desce.
Meu amor, vamos passear. Saltar pra quê?
Solta. Desce, anda. Desce as duas.
Então você duvida de mim, não duvida?
Quer dizer então que eu não me mato, que eu sou um cascateiro, uma conversa
viada?
Pois eu vou mostrar pra vocês.
Ninguém me conhece.
Agora vocês vão soltar e olhar.
Tá vendo aquele poste lá? Aquele, lá longe.
Depois eu vou meter esse carro a toda contra aquele poste. A 130 km por hora.
Ouviu bem?
Glorinha, glorinha.
E aí eu quero ver você dizer que eu sou um vigarista.
Mas só... Só que antes de eu me matar, eu quero te dizer uns troços.
Ouviu bem, sua cagona?
Olha aqui.
Sua cagona.
Viu como eu te chamei de cagona?
Você não vai nem piar.
Porque se você abrir a boca para dizer qualquer coisa, eu te quebro a cara.
Porque comigo não tem esse negócio de mulher, não.
Apanha homem, apanha mulher, apanha todo mundo.
E agora desce antes que eu te quebre os cornos. Vamos, desce. Eu quero morrer
com você.
Eu não quero ninguém morrendo comigo. Me solta.
Vamos, desce.
Glorinha, você é má, Glorinha.
E agora você acredita disso?
Acredito.
Acredito em você.
Eu juro que não estava brincando.
Eu ia realmente me estourar contra aquele poste.
Falava de honra.
Ontem Maria Inês me salvou.
Hoje você me salvou.
Todos os dias alguém me salva, entende?
Todos os dias alguém me salva.
Você entende?
Você tá vendo?
Tá vendo?
Tem momentos que eu preciso bater em alguém, gritar, derrubar um poste,
as paredes. Você entende? Você não entende? Você não vai entender nunca.
grita, Antônio Carlos!
Quem é que tá gritando? Quem é que tá gritando?
Esse não enche o saco, você também, pô.
Um dia eu tava no colégio e vi uma menina ter um ataque.
Uma epilética.
Ela deu um grito como eu nunca tinha ouvido antes na minha vida.
Caiu dura no chão.
O olho da menina mudou de cor.
O preto ficou verde.
Azul, azul ou verde, sei lá.
Muda de assunto, Antônio Carlos.
Não enerva ele.
Agora, um dia, eu vou ter um ataque assim.
Eu vou cair duro no chão.
Com o olho azul.
Um azul como ninguém nunca viu.
Um azul cor do mar.
Você entende? Cor do mar.
Eu tenho até medo de falar.
Às vezes.
Eu sinto uma febre aqui pelos cabelos.
Começa a me penetrar.
Eu digo pra mim.
É agora, Antônio Carlos.
É agora. Você vai cair.
É agora.
É agora. É uma loucura.
Você já foi ao
subúrbio?
Eu já.
Na Tijuca.
Tijuca. Tijuca não é subúrbio, porra.
Subúrbio é Jacarezinho.
Caxias. É Barreira do Vasco.
São João de Miriti.
É o povo. O povo.
O povo.
O povo.
Sabe onde é que a gente vai?
Se tu soubesse.
Na casa de uma bicha.
Uma bicha suburbana.
Enfermeiro. É o enfermeiro do meu velho. Ele mora com o pai, que é paralítico.
Oi. Tudo bem?
Vocês conhecem o Romário?
Tudo bem.
O que houve, rapaz?
Está triste?
Não sei.
Estou meio desesperado.
Ah.
Desesperado.
Desesperado?
Então bebe. Não.
Não. Bebe.
Bebe. Bebe.
Me deixe em paz.
Então.
Eu sou o bode.
Passou, Buddy?
Passou? Me deixe em paz.
Está pensando que eu sou algum otário?
Está pensando que eu sou algum otário?
Convida para a festa. Diz que tem coisas incríveis. Coisas incríveis.
Eu não estou com coragem. Eu não estou com coragem. Coragem?
Te dou coragem.
Te dou coragem. Chega, Antônio Carlos.
Me solta.
Sabe de onde eu vim?
Sabe de onde eu vim?
Me mandei da zona sul.
Da zona sul!
É sua mãe?
Minha mãe?
Não fala dela.
Ela morreu. Ela morreu faz muito tempo.
Conta logo, seu Nória.
Tem que contar.
Tá bom.
Tá bom.
Eu... Eu conto.
Atenção, atenção.
Vamos ouvir agora a história da triste bichona.
Ela morreu.
Mamãe... Eu só me lembro dela lá fora da casa.
O tempo todo.
Mamãe lavando a casa e eu sozinho.
Ela tirou o útero numa operação.
Sem útero.
E lavando o bebê.
Eu ficava olhando.
Papai.
Papai chegava na hora do jantar e... E não falava comigo.
Papai nunca falava comigo.
E mamãe lavando tudo.
Essa casa era um brinco.
Ela dizia para as amigas dela, minha casa é um brinco.
Agora não.
Tentei a de aranha, mas era um brinco.
Aquele vestido era dela.
Que é tudo nessa casa.
Essa casa tinha tudo.
Que escura é essa?
Que viadagem é essa?
Vambora.
Vambora sim.
Vambora o cacete. Vai ficar todo mundo.
Um dia o papai chegou em casa mais cedo.
Passou no meu quarto.
Eu tinha uns 12 anos.
Ele entra e me vê com outro garoto. Um pouco maior que eu.
Um Fernandinho.
Um Fernandinho.
Papai correu com o garoto a sapatadas.
Mamãe?
Estava no quintal, barrendo tudo.
Barrendo tudo.
Então papai apanhou um chicote e começou a me bater.
Eu não podia chorar.
Ele batia e falava... Engole o choro!
Engole o choro!
Ele me bateu todo dia durante o mês.
E sempre dizia... Engole o choro!
Engole o choro!
Eu aprendi a apanhar sem dar um suspiro.
No fim de um mês, ele me disse... Se fizer isso outra vez, eu te mato.
Papai não me largava mais.
Uma vez, na mesa, ele me esbofeteou.
Falou a feita o homem.
Mas eu não queria ser homem.
Eu não queria.
Mas...
Mas hoje... hoje é o meu dia.
Não tem ninguém em casa.
Mandei a cozinheira ver... My Fair Lady.
Vocês... querem conhecer... o papai?
Vem, Romário.
Eu não quero ir.
Eu não quero ir. Por isso.
Não. Vamos ver o papai.
Vamos ver o papai.
Por isso. Eu não quero ir.
Vai.
Você também anda?
Eu sei que você me ouve e me vê.
Esperei 15 anos por esse dia.
Sabe o que eu vou fazer aqui?
Agora?
Na tua frente?
Com um chofer de ônibus que é meu noivo?
Sabe?
Ele está chorando.
Ele está chorando! Ele está chorando. Ele está chorando. Não deixa, Antônio
Carlos. Não deixa.
Se você for homem, quebra a cara dele.
Se você não quebrar, porque você é igual a ele.
Deus desgraçado.
Desgraçado.
Não deixa.
Não deixa.
Fala comigo!
Fala!
Olha, eu vou me mandar, viu?
Eu pego no 4, 5, 5 às 6 horas.
Não quero bronca comigo, não, tá?
Tchau, até logo.
Papai morreu!
Papai morreu! Papai morreu!
Por favor, não me deixe!
Papai morreu! Papai morreu! Não me deixe! Não me deixe! Eu não quero ficar
sozinho! Por favor, não me deixe! Não me deixe! Eu não quero ficar sozinho com
ele!
Papai já chegou?
Florinha, onde você esteve?
Fui ao cinema com o Marinês.
Que tal o filme?
Água com açúcar.
Alô, de onde fala?
Florinha?
Ela mesma.
Sabe que há muito tempo que eu não me sinto tão bem?
Eu não estou mais com medo de ter o ataque.
Eu mudei, você não faz ideia, hoje.
Sabe que depois que eu cheguei em casa eu tive uma briga terrível com o papai?
Ele me bateu, bateu tanto que eu cheguei a cair no chão.
Mas depois nós nos abraçamos chorando.
Por que você não procura um psiquiatra?
É, um psiquiatra.
Glorinha.
Olha, eu acho que eu estou ficando amarrado em você.
Eu estou com um palpite que eu estou me ligando em você.
Você não é como as outras, Glorinha.
Eu sei que eu sou melhor que muitos.
Glorinha.
Glorinha. Antônio Carlos.
Você quer me fazer um favor?
Vê se não me telefona mais, ouviu?
Eu não quero mais nada com você.
Nada!
É só isso que você tem para me dizer?
Eu vou ficar noiva, Antônio Carlos.
Noiva.
Vê se me esquece.
Valinha, não se esqueça de uma coisa.
Você pode estar grávida de mim, ouviu?
Nesse momento, você pode estar grávida de mim.
Ele morreu hoje de madrugada.
Antônio Carlos. Quem?
Antônio Carlos morreu. Não pode. Ele falou comigo ontem à noite.
Morreu. Ele bateu com a cara no poste e morreu. Não.
Ele falou comigo ontem à noite. Bateu. Ele falou comigo ontem à noite. Não
Eu dei na cara do meu filho, pouco antes de morrer.
Era um touro.
Se quisesse, me matava com um soco.
E apanhou na cara, sem reagir.
E morreu setembrino.
Eu não sou setembrino, eu sou Onéas.
Onéas, o setembrino da Anamésua.
Olha, quer me fazer um favor?
Diz a todo mundo aí que eu sou um merda. Calma, camarinha. Tem senhoras aí. Tem
senhora. São umas vacas.
Eu sou merda.
Dei na cara do meu filho.
Eu sou merda.
Meus pêsames.
Um merda às suas ordens.
Eu? Não. Não é o senhor, não. Eu é que sou merda.
O merda da pior espécie!
Não feche o caixão! Não!
Não! Não leve meu filho!
Não! Não leve! Não!
Fecha logo esse troço aí!
Fecha como adianta!
O que é que a senhora falou mesmo?
Perguntei se o senhor tinha gostado.
Quem lhe deu licença de falar desse tom comigo, hein?
A senhora o que é, hein?
Não estou entendendo.
Portou -se como uma profissional.
Não opôs a menor resistência. Não me humilhe, eu não sou uma profissional.
sou uma profissional.
Eu tinha um homem, um companheiro.
Eu traí esse homem pela primeira vez.
Traí aquela criatura.
Traiu com o primeiro desconhecido, foi?
Mas o senhor não é um desconhecido.
Será que o senhor não entende?
Eu fui porque eu gosto.
Desde que eu entrei aqui que eu gosto do senhor.
O senhor pode não acreditar, doutor Sabino.
Mas eu adoro o senhor.
Eu adoro o senhor.
Dona Noêmia.
A senhora.
Adoro o senhor. Está.
Despedida.
Despedida.
Eu sei porque o senhor está dizendo isso.
É por causa daquilo que o senhor me disse.
Aquilo o quê?
O senhor está com medo.
Medo que todo mundo venha saber.
Mas eu não vou lhe dizer nunca que o senhor chamou, gritou o nome de sua
Chamou Glorinha, Glorinha, Glorinha.
Miserável.
Eu vou te matar.
Eu vou te matar, ouviu?
Miserável. Não adianta fugir que eu vou te matar.
Miserável.
Miserável.
Miserável. Não foge. Vem cá.
Esconde aqui que eu vou te matar.
Zeta.
Diga agora.
Diga. O que foi que eu falei?
Imobiliária Santa Terezinha, boa tarde.
Ah, sim, Dona Glorinha.
Pois não.
Eu digo.
Tchau, hein?
Dona Glorinha, Doutor Sabino.
Ele está esperando o senhor na obra.
Me lembro. Para o seu apartamento.
É verdade.
Eu tinha marcado o encontro.
Eu vou.
Eu vou.
Mas eu volto. A senhora me espere aqui que eu volto.
Tu é a minha...
Quero ter uma conversa com o senhor como nunca tivemos.
Estou tão feliz agora.
Estou numa felicidade incrível, minha filha, incrível.
Me beija, papai.
Papai, deixa eu te fazer uma pergunta?
Deixa.
Uma pergunta que eu quero fazer desde os 10 anos.
Como é que o senhor pode gostar da mamãe?
O senhor gosta da mamãe?
Eu não acredito!
Gosta! É sua mãe, Glorinha.
Sua mãe.
E por que a minha mãe eu tenho que gostar?
Pois fique sabendo que eu não gosto da mamãe.
Não posso nem ver minha mãe!
Você nunca me falou dessa maneira, Glorinha.
Nunca.
Sabe por quê?
Porque nunca houve uma conversa séria entre nós. Nunca.
Mas nós sempre falamos tanto, minha filha. Tanto.
O senhor não entende, papai.
Não é isso.
Nas nossas conversas, o senhor não diz tudo.
Nunca diz tudo.
Merda!
Me respeite, Glorinha.
E você tem que respeitar a sua mãe também, ouviu?
Nós somos seus pais.
Por acaso escolhi minha mãe?
Eu não admito isso.
Eu não admito esse tom comigo, ouviu, Glória?
Não admito isso.
Deus.
Você nunca falou assim comigo, Glória. Nunca.
Papai, eu tenho que ter uma conversa séria hoje com você.
Vamos voltar daqui.
Não.
Nada disso.
Vamos continuar.
Vamos, papai.
Vamos.
Vamos para a praia, papai.
Para a praia.
Vem, papai.
Vem.
Vem. Minha filha, não faça isso com o seu pai.
O senhor gosta de
mim, papai.
Você é doida, Glorinha.
Responde. Adoro você.
Mais do que você pensa.
Entre mim e a mamãe.
Eu posso dizer tudo.
O senhor também vai dizer tudo.
Eu não minto.
Nunca menti, minha filha.
Se eu não me casasse amanhã.
Não casar amanhã?
Nem amanhã, nem nunca.
Mas o que é isso, minha filha?
Quem está dizendo isso? Por quê?
Estou dizendo tudo.
Diz que odeio minha mãe.
Também odeio minhas irmãs.
E não gosto do meu noivo, viu?
Eu não gosto do meu noivo.
Camarinha. Alô.
Alô.
Mas não é isso.
Sou eu, compreende?
Eu é que não gosto.
Gosto de outro.
Outro.
De outro.
De quem não podia gostar?
Não podia gostar.
Mas me diz.
Me diz quem é.
Não posso dizer.
Você tem que dizer.
A mim você tem que dizer. Você pode dizer tudo.
Por que eu vou dizer tudo se o senhor não diz nada?
O senhor tem medo.
Medo.
Gosta da mamãe.
Covarde.
Gosta da mamãe.
Gosta da mamãe.
Gosta.
Gosta.
Você só fala na sua mãe.
Você está doente, Glorinha.
Eu me recuso a responder, ouviu?
Eu me recuso a responder.
Eu não respondo, pronto.
Está certo.
Eu não gosto de sua mãe.
Não é isso que você queria saber?
Eu não gosto de sua mãe.
Não a amo, entende?
Continue.
Eu... Eu tenho uma certa pena dela.
Mas não é amor, minha filha.
Não é amor.
Quer saber quem é o homem?
O homem que eu não posso amar?
O senhor sabe, hein, papai? Quem é essa pessoa?
Não.
Não.
Quer saber?
Gosto de alguém.
De alguém.
Que devia ser sagrado pra mim.
Alguém... que... diz... uma pessoa
que... diz... Não!
Não! Filha! Me deixe em paz!
Não! Me deixe em paz! Você não compreendeu?
Não! Você não me entendeu?
Por favor, você quer me ouvir?
Xavier, por favor, me deixa falar. Estou te pedindo, não apareça mais aqui. Me
deixa falar, Noêmia.
Não é de deixar falar, não é de deixar falar.
O que foi que eu fiz? Me acuse. Você não fez nada. O que diz?
Eu tenho medo mesmo de perder o emprego. O doutor Sabino pode chegar a qualquer
hora. Eu sei, mas eu tenho uma coisa para dizer para você. Eu quero que você
embora, Xavier.
Quero que você vá embora, por favor. Não precisa me empurrar, meu bem. Me deixa
falar. Eu quero que você vá embora. Eu tenho um emprego, Xavier. Eu estou com
emprego. Será que você não entende isso?
Vá embora.
Mas que inferno. Vai cuidar da ferida da tua mulher.
Diz, me acusa. Pelo menos me acusa.
Nojento! Diz porque é que você está me tratando assim, não é?
Mamãe, papai quis me violentar.
Sua tia te deu uma bandeja linda.
Vai embora!
Vai embora!
Meu amor, eu...
Eu já transei por causa da condução.
Não precisa voltar.
Fica com a outra. Com a outra.
Há três anos eu não sou mulher para você, Xavier.
Desde que eu fiquei doente.
Que doença é a minha?
Que doença?
Que doença?
Que hermoso, é?
Fazer amor contigo agora, hein?
Feito antes.
Sou sua mulher, não sou?
Me dá um beijo.
Um beijo.
Um beijo só não, meu amor.
Muito mais. Tudo.
Nós vamos fazer amor.
Como antigamente.
Como antigamente.
Oh, meu amor.
Vem logo.
Meu anjo.
Eu quero que você saiba que você é a única mulher que eu amei.
Eu nunca te traí.
Nunca.
Que bom.
Por que você não vem?
Diz -me o amor.
É contigo, Sabina. É contigo.
Noemi me ama.
Me ama feito escravo.
Noemi.
. . . . .
Obrigada. O telefone está tocando. Quem segura essas flores aqui para mim?
Pô, essa casa hoje está uma parada. Corre, corre, telefone que não fora.
Alô? O quê?
Ai, meu Deus! Que coisa horrorosa!
Vocês sabem o que aconteceu?
Mataram a Noemi ontem no escritório.
Mataram a Noêmia, papai.
Noêmia! Eu sou secretária, papai. Quem é Noêmia? O senhor parece que não tem
sentimento. Morre a Noêmia e o senhor fica aí parado.
Noêmia?
Noêmia!
O importante é o casamento.
Doutor Sabino, boa tarde.
Sou o delegado Rangel Domínguez.
Queria falar com o senhor, tenha bondade.
Sabino, o show amaranhou.
Prazer.
O senhor era o patrão da vítima? Sim, era.
Em matéria de crime, doutor, nunca vi tanta perversidade.
Não foi roubo, não?
Sexo. Puro sexo.
Quinze anos de polícia e nunca vi isso.
Vinte e duas punhaladas.
A vítima era a sua secretária?
Sim, era.
Que tal?
Exemplar. Funcionária exemplar.
Eficientíssima.
Já existe algum suspeito, doutor? O amante.
O amante? Mas se matou ontem. Matou a mulher também.
Essa era a leprosa.
Leprosa.
Leprosa.
Prometei amar -vos com amor santo.
Maridos, amai vossas esposas como Cristo ama a sua igreja.
Mulheres, prometei amar vossos maridos como a igreja ama seu Salvador.
E não se esqueçam de que todos nós somos leprosos.
E não há exceção nenhuma.
Assumam a própria miséria.
Assumam a própria miséria.
O noivo e a noiva devem assumir a própria miséria.
Fieis assumam a própria lepra.
Só se salvam aqueles que assumem a própria lepra.
Eu vos declaro marido e mulher.
Casou? Já.
O importante é o casamento.
Rabino. Hã?
Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo.
Amém.
Sabino, tenha bondade. Por favor.
Desculpe, viu? É uma blitz.
Uma blitz?
Os senhores são da imprensa?
Então ouçam.
Eu, Sabino Uchoa Maranhão, matei ontem no meu
escritório a minha secretária, Noêmia.
Matei por ciúmes.
Ela era minha amante. Esteve comigo ontem à tarde, num apartamento na rua
Joaquim Silva.
Eu sou um assassino! E atirei um punhal no mar!
Eu sou um assassino!
Eu sou... um assassino!
O senhor tem algemas.
Algemas?
Doutor...
Eu sou o assassino.
Sou um assassino.
Sou um assassino.
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