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Violador!
Vais apanhar!
Anda cá!
Violador! Filho da puta!
- Apanhamos-te no pátio! - Violador!
- Cabrão! - Violador!
Cuidado no duche. Vamos tratar de ti!
- Vou abrir-te o cu ao meio, maricas! - Não te voltas a sentar!
- Estás a ouvir? - Violador!
- Maldito mouro! - Volta para o teu país.
- Mouro! - Violador!
Filho da puta!
- Filho da puta! - Diabo!
É o que mereces por violar!
- Volta para o teu país! - Maldito mouro!
DIZ-ME O TEU NOME
Sou eu. Outra vez.
Sei que não queres falar comigo.
E eu percebo.
Sei que estás mal, mas temos de fazer alguma coisa,
porque o que te fez mal continua aí, em Fuensanta.
E não és a única vítima.
O Radi também é.
Se não nos unirmos, haverá mais.
Por favor, Sonia.
Ajudá-los é nossa responsabilidade. Sonia, por favor.
Responde-me...
Alá é grande.
Alá é grande.
Alá é grande.
Alá é grande.
Posso recitar-vos 30 versículos sobre perdão.
Lucas 6:37: "Não julgues, e não serás julgado.
Não condenes, e não serás condenado.
Perdoa, e serás perdoado."
Mateus 18:21:
"Pedro abordou Jesus e perguntou: 'Senhor,
quantas vezes devo perdoar o meu irmão que peca contra mim?
Até sete vezes?'
'Digo-te, não até sete, mas até 70 vezes sete',
respondeu Jesus."
Sei que o mais fácil
é ficar zangado e deitar cá para fora.
É por isso que me perguntam: "Padre, não vai dizer nada?"
É normal que lho perguntem.
Devemos recorrer ao "olho por olho"?
Se preferi, damos a outra face.
Quem te pediu para dar o que seja? Atacaram-me a mim.
Estás a irritar-te?
- Então. - Sacana!
Se não conseguimos estar de acordo em privado,
o que diremos a toda a gente lá fora?
- Já estão bem agitados. - E de quem é a culpa?
Não estamos a falar de culpa, Rober. Têm de perceber
que temos de encontrar uma solução ou vai ser pior.
E quem lidará com isso?
Teremos de impor a ordem,
se alguém mata um mouro, ou vários...
Ninguém vai matar ninguém. Já chega.
- "Chega"? - Sim, chega.
O que me aconteceu está na justiça. Investigarão e julgarão o que for preciso.
Não me vão usar como vítima para atacar ninguém.
- Isso não é justiça, é ódio. - Vá lá, alguém com cabeça.
Podes aceitar isso, Rober?
Quero lá saber, mas devíamos perguntar à população.
Comecemos contigo.
O que é isto? Uma missa privada?
Com a autoridade e tudo.
É só uma conversa.
Não parece. Aqui, escondidos...
Ninguém está escondido.
Conte-lhe,
receiam que se comece a matar mouros.
Rober, por favor.
É tão bom que a Carmen oiça tudo isto, não é?
És a louca da aldeia. Provocarias o caos...
Padre, devíamos parar. Não vamos a lado nenhum.
- Querem deixar-me de fora. É isso. - Não é.
Não faz sentido.
Claro que faz. Temos de arranjar forma de chegar a um consenso. Sonia!
Não vê que é impossível? Há que assumi-lo, e pronto!
Assumir o quê? Que temos culpa?
Sonia, por favor...
E isto era só uma conversa, padre?
Carmen, não é a altura certa.
Eu sei, nunca é a altura certa. Dizem sempre isso.
Na verdade, estão mortos de medo.
Cada vez mais, mortos de medo.
Conheces o Safir há anos.
- Sabes que nunca o faria. - Já não sei nada, Omar.
Nem tu nem, ninguém que esteja aqui.
Ele estava comigo nessa tarde.
Explicou-me o que se passa lá em baixo.
Lá em baixo?
- Nas catacumbas. - Que tem isso que ver?
O Radi não está bem.
Ficou intoxicado.
- Não, Sonia. - Não vás por aí.
- Porquê? - Porque é pior.
Se falarem de demónios, assustarão Río Blanco
e chamar-vos-ão fundamentalistas.
Sabem o que significa?
Mas é real, Sonia.
É real.
E só o Safir nos pode ajudar. E a ti.
É verdade.
Alá ouve quem O louva.
Alá é grande.
DESERTO DO SARA DEZ ANOS ANTES
Como te sentes?
Salvámos-te o joelho.
Podia ter sido pior.
De onde és?
Caraças! Falas espanhol?
Sou o médico que te operou.
Sou de Cuba.
Sou o Dr. Luis Pacheco.
Isto são uns anti-inflamatórios fortes para as dores.
Toma-os de oito em oito horas, sempre com comida.
Mas para assim que puderes, para não prejudicarem os rins.
O que vão fazer comigo?
Não faço ideia.
Sou comandante do exército.
Podem trocar-me por prisioneiros.
É melhor que a prisão.
Não há prisões em Tindufe.
Posso dar-te um conselho?
Não deixes o coto mexer contigo.
E não penses demais.
E, assim que puderes, começa a andar.
ACAMPAMENTO 9 DE JUNHO
Uma mina?
Há três semanas.
Perto de Bir Lehlou.
Usava sempre esse caminho.
Aprenderam as suas rotinas.
Os Polisários são bons nisso.
Há quanto tempo estão aqui?
Dois anos? Três?
Eu, dez anos.
Dez anos?
Eu estou cá há oito.
Seis e meio.
Cinco anos.
Não houve trocas?
Marrocos esquece-nos, Comandante.
E não fazem nada?
Fazer o quê?
Não sei. Fugir?
Há uma guarita com um guarda. Não há muros.
Para onde fugiríamos?
Não há nada num raio de 100 km.
Só minas e vento.
Acham que durará muito mais tempo?
A guerra?
Aqui, não há notícias?
Só o que nos dizem.
Pode levar mais dez anos.
Ou 20. Ou 30.
Enquanto os Polisários acreditem que isto é deles.
Por mim, podem ficar com isto.
Maldito deserto!
É o nosso deserto.
Está com o moral alto, Comandante,
para quem acabou de perder um pé.
Vá, coma alguma coisa.
Acudam!
Acudam!
Acudam!
CONFUSÃO OU DELÍRIO
Acudam!
Acudam!
Acudam!
Acudam!
Acudam!
Acudam!
Quem é o homem que está preso?
Ouvi sons vindos de lá, ontem à noite.
Não é o que pensa.
E o que achas que penso?
Yusef,
ele é um oficial marroquino, não devia estar lá.
É para nossa proteção.
De quê?
Até ele ficar melhor.
Não seria melhor levá-lo ao médico?
Eles não podem fazer nada.
E o que farão quanto a isso?
Não reza muito, Comandante.
Não.
Não sou muito...
Jamal?
Jamal!
O que se passa?
Jamal!
O que se passa, Yusef?
Jamal!
Devia rezar connosco, Comandante.
Gostava de te dar um monte de penicilina,
mas temos pouca.
O tiomersal está a resultar.
Posso reduzir os anti-inflamatórios?
Acho que já me dói menos.
Tens a certeza?
Estou a ter...
... efeitos secundários.
Tonturas? Dores de estômago?
Visões.
Visões?
Que tipo de visões?
Estranhas.
Não quero ser considerado louco.
Não te preocupes com isso.
Isso é normal por aqui.
Safir, estou cá há ano e meio,
e, sempre que posso, vou à praia...
... dar um mergulho,
beber uma cerveja, para me desligar de tudo.
E nós, que não o podemos fazer?
- Podem cantar. - Como?
- Cantar? - Ajuda a limpar a mente.
E, como falas espanhol, dou-te um cancioneiro cubano.
Adoro a canção "Angelitos Negros".
É muito irónica, mas anima-me.
Pintor nascido na minha terra
Com um pincel estrangeiro
Mesmo que a Virgem seja branca
Pinta-me anjinhos negros
Também podes rezar. O Yusef é um grande imã.
Como sabes?
Nem sequer és muçulmano.
Ele tem uma visão clara das coisas. E tem uma mente forte.
Conheço poucos pacientes com cancro que aguentem tanta dor.
- Cancro? - Nos ossos.
Diz ser devido a estilhaços da guerra.
Foi diagnosticado há três anos, e olha para ele,
sempre a animar todos e a manter a sanidade do grupo.
Ainda que tranque pessoas numa cela?
O Yusef é bom homem, Safir.
Dá-lhe tempo.
E aprende a cantar.
Alá é grande.
Alá é grande.
Alá é grande.
Alá é grande.
Que a paz e a misericórdia de Alá estejam convosco.
Que a paz e a misericórdia de Alá estejam convosco.
O que procuram eles?
A faca que cortou a garganta do Hussein.
Achas que foi um de nós?
Não, não fomos nós.
Ontem à noite, quando tudo aconteceu,
vi umas formas.
Não é a primeira vez.
Achei que era dos medicamentos.
Não são os medicamentos.
Também as viste?
O que são?
Não importa o que são,
só importa que querem habitar em ti.
Primeiro, é como um jogo.
Dizem coisas engraçadas, que queremos ouvir.
Conseguem falar?
Falam contigo?
Falam dentro da tua cabeça.
Quando ouves essa voz,
ela nunca mais desaparece.
Trá-lo.
- O que se passa? - Vem comigo.
Larguem-me.
O Yusef não fez nada.
- Está doente. - Sentem-se!
Voltem a sentar-se!
- Yusef. - Sentem-se.
Yusef!
Não se preocupem.
O Yusef é o nosso imã e intercessor.
Ele é o nosso protetor.
Quem atacou o Hussein
quer destruir-nos.
E sabemos que ele está entre nós.
Mas já não é um de nós.
O homem está fraco,
e quer infetar-nos com a sua fraqueza.
Para nos arrastar para o inferno em que vive.
Daí termos de ser fortes.
Mais fortes que ele.
Alá, perdoa-lhe.
Perdoa-lhe, Senhor.
Perdoa-lhe, Senhor. Honra-o, ajuda-o no seu caminho
e purifica-o com água, gelo e granizo.
Que Alá lhe conceda uma existência melhor,
que ele encontre uma família melhor
e uma esposa melhor.
E protege-o dos tormentos do Inferno.
És Aquele que Perdoa, o Misericordioso.
Al-Hussein era um dos Teus dignos servos,
permite-lhe entrar no Paraíso.
Alá, acolhe-o ao Teu lado, tem misericórdia dele
e protege-o do Inferno.
Rezem pelo vosso irmão Hussein.
Normalmente, interrogá-lo-ão durante uma ou duas semanas
e trá-lo-ão de volta.
Que raio se passa aqui, Pacheco?
Tudo começou... há dois anos.
De repente, algumas... coisas surgiram das dunas.
Coisas que te afetam aqui.
- Também as viste? - Não.
Sou filho de Oxóssi. Tenho a proteção da religião yorubá.
Tem de haver uma explicação.
Há algumas semanas,
o Yusef pediu-me para lhe trazer rosas de Argel.
Perguntei para quê
e ele disse que era para expulsar os jinns.
Os jinns?
- Ouve... - Estás a falar de um mito.
- Os jinns... - Aparecem no Corão.
Já o leste sequer?
Os demónios não são só de uma,
mas de todas as religiões. Gostemos ou não.
A mente faz as pessoas acreditarem em coisas. É a histeria, e é contagiosa.
Há uma forma de o provar.
Com uma balança.
Quanto achas que pesa a loucura?
Veste-a.
Dá-ma de volta.
Diz: "Ele é Alá, o Único, o Eterno.
Ele não gerou nem nasceu. Não há ninguém como Ele."
Podes ir.
Veste-a.
Dá-ma de volta.
Diz: "Ele é Alá, o Único, o Eterno.
Ele não gerou nem nasceu. Não há ninguém como Ele."
Em nome de Alá.
Vamos, Jamal.
Veste-a.
Dá-ma de volta, Jamal.
Diz: "Ele é Alá, o Único, o Eterno.
Ele não gerou nem nasceu. Não há ninguém como Ele."
Em nome de Alá.
Manipulaste isso.
Tenho de te recitar a sura Al-Nas.
Não és o Yusef.
Tenho de a recitar.
- Nem sabes como se faz! - Tenho de o fazer.
Não me vais fazer nada!
Jamal! Segurem-no!
- Que a paz esteja contigo. - Igualmente.
Como estás, Safir?
O Jamal vai voltar.
Tem de comer e beber.
Mas temos de estar prontos.
Louvado seja Alá.
Há muitos tipos de jinn.
Alguns só querem brincar.
Outros procuram vivenciar experiências.
Experienciar ter um corpo.
Outros, confundir e enlouquecer.
Daí ser importante falar com eles
e convencê-los a ir-se embora.
E se a conversa não resultar?
Então, expulso-os.
Com água de rosas?
Inundamos o seu corpo.
As rosas e os versículos do Corão purificam a água.
Já fizeste isto?
Na minha cidade natal, Fezzou.
Há mais de 20 anos.
Porquê aqui, ou na tua cidade natal? O que os atrai?
A dor.
O mal é feito disso.
É feito de dor.
A dor enfraquece-te.
Controla-te.
Vigiaremos a noite toda, por turnos.
Queremos apanhá-lo vivo.
Mas como? Ele é mais forte que nós.
Pedi ajuda aos sarauís.
Que me deram isto.
Ninguém quer jinns em Tindufe.
- Vamos matar o Jamal? - Não o vamos matar.
Dou-lhe um tiro nas pernas.
É a única forma de o salvar.
Percebido?
Percebido.
É engraçado.
Lutamos contra os Polisários há 14 anos
e só precisámos dum jinn para chegar a um acordo.
Pintor nascido na minha terra
Com um pincel estrangeiro
Pintor que segue o caminho
De tantos pintores antigos
Isso mesmo. Perfeito. Vamos.
Vamos andar.
Em breve, é dançar música cubana.
Devagar.
Isso mesmo.
Muito bem. Assim. Isso mesmo.
- Alá é grande. - Alá é grande.
- Alá é grande. - Alá é grande.
- Alá é grande. - Alá é grande.
Alá é grande.
Alá é grande.
Não vais dizer nada?
Não importa o que diga.
Importa.
Não quero que intervenhas por mim.
Nem sequer que retires a acusação.
O que queres, então?
Quero que salves o Radi.
De quê?
Do demónio das catacumbas?
Já não está nas catacumbas.
O que aconteceu lá em baixo... saiu.
E é muita dor.
É uma dor cegante e animalesca,
e pode levar-nos a todos.
Digo isso à polícia?
Recusas acreditar,
mas o medo está presente.
Nos teus olhos.
Não é de mim que tens medo.
É de quê, então?
Do que não entendes, do que não podes controlar.
Se não entendo nem posso controlar,
como esperas que o salve?
Primeiro, aceita que é real.
- Não posso. - Claro que podes.
És uma mulher racional.
Procura as respostas. E, se não existirem...
Substituo-as pela fé?
Não. Tens de pedir ajuda.
Façam um torniquete!
Quem estava de guarda?
Preparara o Ali para me substituir como imã.
Líamos o Corão juntos,
memorizámos as suras.
Falámos do Profeta
e de como permanecermos unidos pela fé.
Tudo isso se perdeu agora.
Sem um guia espiritual, ninguém vos pode proteger deles.
Mas temos-te a ti.
Sim, Safir.
Estou a ficar sem tempo.
Não.
O Pacheco faz tudo o que pode.
Dá-me medicação.
Mas...
- Estou a piorar. - Não. Não sabes isso.
Claro que sei.
Claro que sei.
Tens autoridade.
Eu?
Nem sequer rezo.
E o meu apelido é Bennani.
O meu avô era judeu.
Não importa.
Os judeus também são do Livro Sagrado.
A única coisa que te tens de perguntar é se és um homem de fé.
És?
Sinceramente,
não sei.
Gostarias de descobrir?
Em Alá, busco refúgio do maldito Satã.
Em nome de Deus, o Bom.
Louvado seja Deus, Senhor dos Mundos,
o Bom, o Rei do Dia do Juízo Final.
Adoramos-Te e a Ti recorremos.
Guia-nos no caminho certo daqueles que auxiliaste.
Acima deles, há mais que os que estão zangados ou perdidos.
- Que cheiro é este? - Mar.
Diz: "Ele é Alá, o Único, o Eterno.
Ele não criou nem nasceu. Não há ninguém como Ele."
O teu nome, jinn.
Diz-me o teu nome.
Diz-me o teu nome!
Está a esvair-se em sangue!
Diz-me o teu nome!
Diz-me!
Diz!
Yusef?
Yusef?
Safir.
Safir.
Abre a boca!
Abre a boca!
Safir!
Para. Espera.
Merda! Temos de o ressuscitar.
Sopra quando eu disser.
Sopra.
Vai.
Sopra.
Isso!
- Está tudo bem. - Calma.
Está tudo bem.
Esperem.
Expulsámo-lo.
Expulsámos o jinn.
Pintor nascido na minha terra
Com um pincel estrangeiro
Pintor que segue o caminho
De tantos pintores antigos
Mesmo que a Virgem seja branca
Pinta-me anjinhos negros
Não!
Mesmo que a Virgem seja branca...
Ainda bem que estás bem.
Sentes-te melhor?
O Jamal perdeu muito sangue.
Mas vai recuperar.
O que aconteceu?
Não te lembras?
Ele passou para ti.
Para dentro de ti.
O jinn deve ter-te considerado um refúgio
quando o expulsei do Jamal.
Voltei a ter duas pernas boas.
Foi o engodo que te lançou.
Podias ter ficado lá preso,
mas enfrentaste-o.
Sabes porquê?
Porque tens fé.
Legendas: Vânia Cristina
Supervisão Criativa Mariana Vieir
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