All language subtitles for O.Auto.da.Compadecida.S01E04.1080p.WEB-DL.AAC2.0.H264-LAPUMiA

af Afrikaans
ak Akan
sq Albanian
am Amharic
ar Arabic
hy Armenian
az Azerbaijani
eu Basque
be Belarusian
bem Bemba
bn Bengali
bh Bihari
bs Bosnian
br Breton
bg Bulgarian
km Cambodian
ca Catalan
ceb Cebuano
chr Cherokee
ny Chichewa
zh-CN Chinese (Simplified)
zh-TW Chinese (Traditional)
co Corsican
hr Croatian
cs Czech
da Danish
nl Dutch
en English Download
eo Esperanto
et Estonian
ee Ewe
fo Faroese
tl Filipino
fi Finnish
fr French
fy Frisian
gaa Ga
gl Galician
ka Georgian
de German
el Greek
gn Guarani
gu Gujarati
ht Haitian Creole
ha Hausa
haw Hawaiian
iw Hebrew
hi Hindi
hmn Hmong
hu Hungarian
is Icelandic
ig Igbo
id Indonesian
ia Interlingua
ga Irish
it Italian
ja Japanese
jw Javanese
kn Kannada
kk Kazakh
rw Kinyarwanda
rn Kirundi
kg Kongo
ko Korean
kri Krio (Sierra Leone)
ku Kurdish
ckb Kurdish (Soranî)
ky Kyrgyz
lo Laothian
la Latin
lv Latvian
ln Lingala
lt Lithuanian
loz Lozi
lg Luganda
ach Luo
lb Luxembourgish
mk Macedonian
mg Malagasy
ms Malay
ml Malayalam
mt Maltese
mi Maori
mr Marathi
mfe Mauritian Creole
mo Moldavian
mn Mongolian
my Myanmar (Burmese)
sr-ME Montenegrin
ne Nepali
pcm Nigerian Pidgin
nso Northern Sotho
no Norwegian
nn Norwegian (Nynorsk)
oc Occitan
or Oriya
om Oromo
ps Pashto
fa Persian
pl Polish
pt-BR Portuguese (Brazil) Download
pt Portuguese (Portugal)
pa Punjabi
qu Quechua
ro Romanian
rm Romansh
nyn Runyakitara
ru Russian
sm Samoan
gd Scots Gaelic
sr Serbian
sh Serbo-Croatian
st Sesotho
tn Setswana
crs Seychellois Creole
sn Shona
sd Sindhi
si Sinhalese
sk Slovak
sl Slovenian
so Somali
es Spanish Download
es-419 Spanish (Latin American)
su Sundanese
sw Swahili
sv Swedish
tg Tajik
ta Tamil
tt Tatar
te Telugu
th Thai
ti Tigrinya
to Tonga
lua Tshiluba
tum Tumbuka
tr Turkish
tk Turkmen
tw Twi
ug Uighur
uk Ukrainian
ur Urdu
uz Uzbek
vi Vietnamese
cy Welsh
wo Wolof
xh Xhosa
yi Yiddish
yo Yoruba
zu Zulu

Original subtitles

Episódio de Hoje: O dia em que João Grilo se encontrou com um diabo.

Tava me desafiando, cabra safado?

- Eu? Desafiando? O senhor? - Responda! Em vez de ficar perguntando.

- Falou comigo ou não falou? - Foi engano, meu patrão.

Se fosse comigo, ia lhe deixar viver pela coragem.

Mas como foi engano, vai morrer com os outros!

- Com licença. - Pode entrar.

A casa é sua...

e a dona também! - Mostre a mão esquerda.

-Com muito gosto -É uma aliança, é?

É, eu sou casada com uma desgraça aí.

Mas tô tão arrependida, eu só gosto é de homens valentes.

E esse aí é uma vergonha.

Vergonha?

Vergonha é uma mulher casada na igreja...

se oferecer desse jeito.

Sabe o que é que eu faço com as que encontro com esse costume?

Não.

Ferro na tábua do queixo.

E a padaria? Dando muito dinheiro?

Nada, ganha-se muito pouco.

Eu mesmo não tenho mais nada aqui dentro, pode olhar.

Não precisa, eu acredito!

O que você tinha, deixou no cofre da padaria.

E eu tirei tudo, de passagem por lá

Um...

dois...

três...

quatro...

cinco.

- Quem é o primeiro? - Primeiro as damas.

Primeiro as damas, nada. Aqui só tem uma!

O senhor podia começar por ordem de idade.

- É, os mais velhos primeiro. - Primeiro os mais jovens.

Se preparem pra morrer!

- Severino de Aracaju acaba de chegar! - Oxente, e agora é de dois, é?

Eita, mas se ele é o senhor, o senhor quem é?

Eu sou eu, uai!

Mas se o senhor é o senhor, quem então que é ele?

Isso é o que a gente vai saber agora.

Quem é esse toco de amarrar jegue?

Qual?

Você mesmo que acabou de chegar dizendo que sou eu.

- Acabo de chegar e já vou dando meia-volta! - Meia-volta nada...

seu arremedo de gente!

- Como é isso, hein? - Isso é apenas uma visão...

Vocês estão vendo dois, mas na verdade só tem um...

Ele! Com licença!

- Um momento, amarelinho! - É que está ficando tarde...

e eu tenho o que fazer. Pra vocês, até logo e muito boa viagem pra todos.

Venha cá!

Quero falar com você!

Homem, não sei qual conversa que você quer ter comigo...

o dinheiro que eu ia ter não tenho...

porque a mulher do padeiro não me pagou o combinado pra eu convencer Chicó...

a se encontrar com ela. Pode cobrar aí de D. Dora.

Então você andava mesmo enfeitando a minha testa sem eu saber!

Se ainda fosse com gente de respeito, mas até Chicó!

Chicó o quê!

Eu que corria perigo de ficar falado...

andando com essa mulher pra cima e pra baixo!

Agora vamos sair, Chicó, que o calor aqui tá aumentando!

Nada disso!

Agora você fica e vai morrer com os outros.

Vamos começar com o excelentíssimo senhor padeiro dessa cidade.

É agora!

Que terá a subida honra de morrer ao lado de sua exma. mulher safada.

Tenham a bondade de sair pra fora...

que Severino de Aracaju não mata ninguém dentro da igreja.

Se tem uma coisa que eu não gosto é de matar mulher...

mas se é o jeito... - Pode deixar!

Tenho mais coragem do que muito homem safado.

Não lhe disse? Segure aqui que eu ajudo.

Seu padeiro não gosta de morrer, então embaralhou comigo que não gosto de matar...

mas a gente conta até 3 pra dar coragem, né?

- É assim que serão dois numa só carne. - Mangue não, João!

Mulher valente! Safada, mas valente!

E agora chegou a vez do...

Bispo!

- Não! Pode cuidar dele primeiro. - Nada disso, a vez é do senhor!

Pra não haver mais discussão vão os dois juntos!

Mas o primeiro tiro é pra ele!

Senhor Bispo, seja homem! Dê o exemplo aqui a seu secretário,

que está em tempo de se acabar de medo. Leva os dois!

Não gosto de matar padre não. Nem bispo, que dirá os dois de uma vez!

Você acabe com sua frouxura! E vocês dois sustentem as pernas!

Que vergonha! Chega a dar desgosto matar uns homem desses.

Muito bem, quais são os nomes de vossas senhorias?

O meu é Chicó, se for do seu agrado.

A minha senhoria não tem nome nenhum, porque não existe!

Pobre lá tem senhoria? Pobre só tem desgraça!

Diga então o nome de vossa desgracença.

É João Grilo.

Pois está muito bem.

Chegou a hora de sua desgracença João Grilo...

o amarelo mais amarelo que eu já tive a honra de matar!

Um momento! Antes de morrer eu queria lhe fazer um grande favor.

- Qual é? - Dar-lhe essa gaita de presente.

Uma gaita?

Pra quê que eu quero uma gaita?

É pra nunca mais morrer com os ferimentos que a polícia lhe fizer.

Que história é essa?

Já ouvi falar de chocalho bento que cura mordida de cobra...

mas de gaita que cura ferimento de rifle é a primeira vez.

Mas cura!

Essa gaita foi benzida por meu padinho Padim Ciço pouco antes dele morrer!

- Só acredito vendo. - Pois não.

Queira vossa excelência me ceder o seu punhal.

Olhe lá!

Não tenha cuidado,

Se eu tentar alguma coisa pro seu lado, queime.

Aponte o rifle pra esse amarelo que é desse povo que eu tenho medo.

E agora?

Agora vou dar uma punhalada na barriga de Chicó.

Oxe, na minha não!

Mas homem, deixe de moleza, Chicó!

Depois eu toco na gaita e você fica vive de novo.

- A bexiga! A bexiga! - Muito obrigado...

Mas eu não quero não, João.

Eu já não disse que depois eu toco a gaita?

Então vamos fazer o seguinte, cê leva a punhalada e eu toco a gaita!

Homem, quer saber do que mais? Vamos deixar de conversa.

Tome logo!

A bexiga!

Morre desgraçado!

- Está vendo o sangue? - Estou.

Que você dê a facada, disso nunca duvidei

- Agora quero ver é você curar o homem. - É já!

Minha Nossa Senhora!

Só tendo sido abençoada por meu padrinho padre Cícero!

- Você não tá sentindo nada? - Nadinha.

- E antes? - Antes como?

- Antes de João tocar a gaita. - Ah, tava morto.

- Morto? - Completamente morto.

Vi Nossa Senhora e padre Cícero no Céu.

Mas em tão pouco tempo? Como é que foi isso?

Não sei, só sei que foi assim.

E o que foi que padre Cícero lhe disse?

Disse assim ó...

"Essa gaitinha que eu abençoei antes de morrer"

"entregue ela a Severino, que necessita muito mais dela que você."

Meu Deus!

Só pode ter sido mesmo meu padrinho padre Cícero.

Com uma gaita de desmata, até eu vou gostar de matar esse povo!

João, me dê essa gaita.

Então me solte e solte Chicó.

Não pode ser, João.

Eu matei o padeiro, a mulher, o bispo e o padre...

e eles morreram esperando por você.

Se eu não o matar,

eles vêm de noite me perseguir, porque será uma injustiça com eles.

Eu lhe uma oportunidade de conhecer meu padrinho Padim Ciço,

e você me paga deste modo?

De conhecer meu padinho? Nunca tive essa sorte.

Mas pode conhecê-lo agora.

- Como? - Seu cabra lhe dá um tiro de rifle...

você vai visitá-lo. Eu toco na gaita e o senhor volta.

- E se você não tocar? - Não vê que eu não faço uma miséria dessa?

- Garanto que toco. - Sua ideia é boa, mas por segurança...

entregue logo a gaita a meu cabra.

- Agora eu levo um tiro e vejo meu padinho? - Vê.

- Não vê, Chicó? - Vê demais.

Está lá, vestido de azul, com uma porção de anjinhos em redor.

Disse assim ó: "Diga a Severino que eu quero vê-lo".

Ah, eu vou!

- Atire! - Capitão...

Atire, cabra frouxo, eu não tô mandando?

Capitão, vamos embora que a Volante já deve ter sido avisada.

Atire!

Homem, atire de uma vez, pelo amor de Deus!

Não gosto de matar chefe não, mas tenho que matar.

Espera!

- Não se esqueça de tocar na gaita! - Tenha cuidado não, capitão...

Então atire!

Eita, os macacos tão chegando.

Capitão?

Deixe o capitão falar mais um cadinho com Padim Ciço.

Vamos, capitão!

Capitão, capitão!

Ah, Grilo amaldiçoado, cê matou o capitão, não é?

É pra matar, não é?

Tome chumbo, macacada!

- Bora João! - Nada disso, daqui só saio com o dinheiro!

Corre, homem!

Filho duma égua, pela primeira vez na minha vida, vou matar alguém com gosto!

João!

João! João! Será que cê vai morrer, João?

Acho que vou, Chicó.

Tô ficando com a vista escura.

Ai meu Deus, pobre do João Grilo vai morrer!

Deixe de latomia Chicó.

Parece que nunca viu homem morrer.

Disso tudo eu só lamento perder o dinheiro...

da porca que você vai ganhar quando casar com Rosinha.

João...

João!

João!

João!

João!

Ai meu Deus!

Morreu o pobre de João Grilo!

Um amarelo tão safado morrer assim!

O que eu faço agora sem João?

O que eu faço agora sem João?

João! João!

Não tem mais jeito.

João Grilo morreu.

Acabou-se o grilo mais inteligente do mundo.

Cumpriu sua sentença...

encontrou-se com o único mal irremediável...

aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra...

aquele fato sem explicação...

que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados...

porque tudo o que é vivo...

morre.

Ave, Maria

Ave, Ave...

Ave, Maria

Fazei penitência

de tanto pecar

Lhes diz a Senhora

Pra guerra acabar.

João! Seu cabra safado!

Mas será o impossível?

Será que nem aqui o senhor me dá sossego, Capitão?

Já rodei, rodei, rodei e nem sombra de meu Padrinho!

Pelo visto ele tá com muita gente para atender.

É mesmo. Tá lotado.

E chegando mais.

Olha ali mais quatro que o senhor já despachou.

Deve haver aqui um lugar reservado aos eclesiásticos

Por falar nisso, que é que você está fazendo aqui, que não está lá embaixo?

- Eu estou morto, que nem você! - Olha o respeito, sou lá homem de morrer?

O senhor não se lembra da história da gaita?

É mesmo...

E o que será que meu cabra tá fazendo...

que não toca logo a danada pra eu envivecer de novo?

Eita Severino velho besta.

Já viu gaita pra envivecer os outros? Lezera!

Olha como fala comigo, que eu te mato.

Me matar como, se eu já morri?

Mato só ele não! Mato qualquer um que ficar de ri-ri-ri pro meu lado!

A gente tá querendo lhe ofender não, Capitão!

E depois, o senhor não morreu sozinho não.

- Morremos todos nós. - Ou como dizia Chicó:

“Cumprimos nossa sentença e nos encontramos com o único mal irremediável”

- Sim... E cadê Chicó? - Chicó escapou.

Tá vivinho, o miserável! Eita cabra danado aquele Chicó!

- Foi o único! - Pois então, como dizia Chicó...

Já vi muito vivo citar morto, é a primeira vez que vejo um morto citar vivo.

Escuta aqui amarelo, você vai me pagar por essa história da gaita.

Amarelo é sua vó!

Já morri mesmo! não vou ficar ouvindo desaforo de seu ninguém.

Agora não tem pobre nem rico, valente nem frouxo.

É todo mundo igual diante de Deus...

ou do diabo!

Mas por quê essas caras de espanto?

A porta!

Por acaso, eu sou algum monstro?

Não! De jeito nenhum!

Nós estamos até impressionados com sua elegância, com sua finura.

- É, parece até um artista. - E você acha mesmo é?

- Eu acho! - Ah, então eu também acho.

Alguém já lhe disse que o senhor é muito mais simpático pessoalmente?

E olhe que é difícil eu gostar da cara de um sujeito assim de primeira.

Estão vendo? O diabo não é tão feio quanto parece!

Pode ser, mas esse cheirinho de enxofre...

Talvez o meu cheiro esteja incomodando vocês?

Não, não...

Ah, eu acho até bem bonzinho.

Pois eu já estou à beira de ter uma piloura com esse fedor!

Olhe! Respeito é bom e eu gosto!

Mas o que é isso, criatura?

- Ninguém tava lhe desrespeitando não! - Dessa vez passa.

Você devia dar graças a Deus que o diabo é um cabra bom.

- Eu no lugar dele... - Eu no lugar dele...

tomava era um banho com chá de amolece casca pra ver se diminui essa inhaca!

Vocês agora vão pagar tudo que fizeram!

Ai, que eu adoro um homem brabo!

Vou mandar todos para o quinto dos infernos!

Danou-se foi tudo.

Viu? Viu o que você fez?

Então, eu queria que ele mostrasse a cara dele de verdade!

Agora pelo menos a gente sabe com quem tá falando!

Vamos... Vamos todos para o fogo eterno...

para padecer comigo!

Oxente, pensa que é só dizer pra dentro e vai tudo?

É isso mesmo! E não tem por onde fugir!

Que diabo de tribunal é esse, que não tem apelação?

Eu sempre ouvi dizer que uma pessoa antes de ser condenada...

ela tem que ser ouvida!

Besteira! Maluquice!

Besteira ou maluquice...

Eu apelo pra quem pode mais!

Valei-me meu Nosso Senhor Jesus Cristo!

Quem é? Emanuel?

Sim, Emanuel, o Leão de Judá, Filho de Davi.

Venham todos, pois vão ser julgados.

Eu não quero faltar com respeito a uma pessoa tão importante...

Mas se não me engano, aquele sujeito acaba de chamar o Senhor de Emanuel.

Foi isso mesmo, João. Esse é um dos meus nomes.

Mas você também pode me chamar de Jesus, de Senhor, de Deus...

Mas espere... O senhor é que é Jesus?

Sou. Por quê?

Porque, não é lhe faltando com respeito não...

Mas eu pensava que o Senhor era muito menos queimado!

- Cale-se! - Cale-se você!

Você estava mais espantado do que ele e só escondeu essa admiração...

por prudência mundana.

- O tempo da mentira já passou. - Muito bem!

A cor pode não ser das melhores, mas o Senhor fala bem que faz gosto!

Muito obrigado João, muito obrigado.

Mas você também é cheio de preconceitos de raça.

Eu vim hoje assim de propósito, porque eu sabia que isso ia despertar comentários.

E você, largue essa mania de copiar minha aparência!

Você sabe muito bem que não pode se igualar a Deus.

Grande coisa!

- Agora deixe de história e vire de frente. - Estou bem assim.

Como quiser. Faça o seu relatório...

começando pelo bispo.

Simonia. Negociou com o cargo, aprovando o enterro de um cachorro em latim,

porque o dono lhe deu seis contos.

- E é proibido, é? - Homem! Se é proibido eu não sei.

O que eu sei é que você achava que era,

e depois, de repente passou a achar que não era.

E mais!

Velhacaria. Arrogância com os pequenos.

Subserviência com os grandes.

E tudo o que se disser do bispo, pode se aplicar ao padre.

Mas eu não citei o Código Canônico em falso como ele.

Em compensação, acaba de incorrer em falta de coleguismo com o bispo.

Menino! O que eu fizer aqui ainda voga?

Não. Isso é confusão do Demônio.

- E o padeiro? - Ele e a mulher...

foram os piores patrões que a Taperoá já viu.

- É mentira! - É não. É verdade!

Três dias eu passei...

"Em cima de uma cama com febre e nem um copinho d’água lhe mandaram".

Eu já sei, João.

Todo mundo sabe dessa história de tanto ouvir você contar.

Mas eu posso? Me diga mesmo se eu posso?

Bife passado na manteiga pra cachorra e fome pra João grilo?

- É demais! - Avareza do marido.

Adultério da mulher. Bem medido e bem pesado, cada um era pior que o outro.

- Acuse Severino. - E precisa?

Matou mais de 30!

Esse diabo é uma mistura de tudo que eu nunca suportei:

Promotor, sacristão, cachorro e soldado de polícia.

Você tá muito engraçado agora.

Mas Manuel é justo, e a situação está favorável pra mim, e preta pra vocês.

É verdade. A situação está ruim pra vocês, porque as acusações são graves.

O que me diverte nisso tudo...

é ver esse amarelo tremendo de medo.

Não sou eu, é meu corpo. Se a tremedeira parasse, eu era capaz de me defender.

Pois pode parar.

Que alívio, eu já estava ficando cansado.

- O que é isso? - É besteira do demônio.

Esse sujeito é meio espírita e tem mania de fazer mágica.

Logo vi que só podia ser confusão desse catimbozeiro!

E agora, o que é que você diz em sua defesa?

Eu sei que você é astuto, mas não pode negar o fato de que foi acusado.

O Senhor vai me desculpar, mas eu não fui acusado de coisa nenhuma.

- Não? - Foi mesmo não!

Começou com uma confusão tão grande que eu me esqueci de acusá-lo.

Mas agora você me paga, amarelo.

Tramou o enterro da cachorra...

Incitação à simonia.

Vendeu um gato pra mulher do padeiro dizendo que ele botava dinheiro,

Estelionato.

Encorajou encontros de Chicó com uma mulher casada,

Incitação à concuspicência.

Arquitetou a morte de Severino,

Crime com premeditação.

É, João. Realmente, você passou da conta.

De modo que o caso dele é sem jeito.

E é o primeiro que eu vou levar.

Ah, você pensa que eu me entreguei?

Pode ser que eu vá, mas não é assim não.

- Eu vou apelar. - Pra quem, João?

Você mesmo ouviu Nosso Senhor dizer que a situação está difícil.

Espere.

A quem você vai se pegar, João?

Eu vou pedir pra alguém que está mais perto de nós.

Por gente que é gente mesmo.

É algum santo?

O senhor não repare não, mas de besta eu só tenho a cara.

Meu trunfo é maior que qualquer santo.

Quem é?

"Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré,

a vaca mansa dá leite, a braba dá quando quer,

a mansa dá sossegada, a braba levanta o pé.

Já fui barco, fui navio, agora sou escaler.

Já fui menino, fui homem, só me falta ser mulher.

Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!

Lá vem a Compadecida.

Mulher em tudo se mete!

Como você ficou bonito com essa cor, Meu Filho.

Mas um pouquinho magro.

Foi você que me chamou, não foi, João?

A Senhora se zangou com o versinho que eu recitei?

Não, João! Por que iria me zangar?

Tem umas graças, mas eu até acho bom.

Quem gosta de tristeza é o diabo.

- Protesto! - Eu já sei que você protesta,

mas eu não tenho o que fazer, meu velho. Discordar da Minha Mãe é que Eu não vou.

Grande coisa esse chamego que Ela faz pra salvar todo mundo

Termina desmoralizando tudo.

- Você fala assim porque nunca teve mãe! - É mesmo!

Um sujeito ruim desse, só sendo filho de chocadeira!

Pra que você me chamou, João?

É que esse filho de chocadeira quer levar a gente pro inferno.

Eu só podia me pegar com a Senhora mesmo.

Vou ver o que eu posso fazer.

Intercedo por esses pobres, Meu Filho,

que não têm ninguém por eles

Não os condene.

- Eu apelo pra Justiça! - E eu pra Misericórdia.

É preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem.

Os homens começam com medo, coitados.

e terminam por fazer o que não presta, quase sem querer.

- É medo. - Medo... Medo de quê?

Medo de muitas coisas

Do sofrimento,

da solidão,

e no fundo de tudo... Medo da morte.

E é a Mim que você vem dizer isso?

A Mim, que morri abandonado...

até por Meu Pai.

Mas não se esqueça da noite no jardim,

do medo por que Você teve que passar.

Pobre Homem!

Feito de carne e de sangue como qualquer outro.

E como qualquer outro, também abandonado na hora da morte e do sofrimento.

Medo da morte todo mundo tem e nem por isso as pessoas se tornam virtuosas.

Em que é que esse medo fez o padeiro e sua mulher...

por exemplo, se tornarem melhores?

Medo da morte por si só, não redime os pecados.

Mas na hora da morte, às vezes sim!

Na oração da Ave Maria, os homens me pedem para eu rogar para eles na hora da morte.

E eu rogo e olho para eles nessa hora.

E vejo que muitas vezes, é na hora de morrer...

que eles finalmente encontram o que procuraram a vida toda.

Foi o que aconteceu com Eurico e Dora...

quando iam ser fuzilados pelo cangaceiro.

Acho que por aqui tá bom, vou andando até a igreja e de lá eu atiro, visse?

É o tempo de uma Ave Maria.

Vocês vão rezando de lá e eu vou rezando de cá...

que é pra não ter perigo da Santa não escutar, não é?

A gente sempre pensa que vai poder esticar a vida mais um bocadinho.

Por mais que eu goste de viver...

eu sempre me perguntei se eu queria que a minha vida se espichasse além da sua...

Agora eu sei.

Eu não ia aguentar ver você morrer...

- Eu quero morrer primeiro, Eurico! - Oh Dora..

Por quê que você me traiu esse tempo todo?

Acho que foi por isso mesmo...

Trair você era lhe matar pouquinho dentro do meu coração.

Eu tinha tanto medo de lhe perder de vez,

que eu ia tentando lhe perder aos pouquinhos.

Tenha cuidado não. Agora a gente vai ficar junto pra sempre!

Ô seu moço! Eu tenho um último pedido pra fazer pro senhor...

- É pra gente morrer junto. - É bom que economizo uma bala...

Quando eu fizer as conta, vou achar que matei menos um.

Alego em favor dos dois...

o perdão que o marido deu à mulher na hora da morte,

abraçando-se com ela para morrerem juntos.

O mais ofendido pelos atos que ela praticava era ele,

e no entanto, ele rezou por ela.

Está recebida a alegação. E quanto ao padre e ao bispo?

Na hora da morte, eles também tiveram sua revelação.

Diz que matar padre dá um azar danado!

- Sobretudo para o padre! - Eu queria que antes de atirar,

os senhores me perdoassem meus pecados, visse?

Mas pra perdoar, antes você tem que se arrepender...

e desistir de nos matar!

- Eu me arrependo depois... - Então vá se arrepender no inferno!

Então não tem jeito não.

Nem que seja no inferno, tenho que obedecer as ordens do capitão!

Não podemos negar-lhe a absolvição, senhor Bispo.

E nós não podemos é abençoar um assassino...

ainda por cima o nosso!

Somos sacerdotes, Eminência.

Nossa missão é salvar as almas, mesmo que a gente não consiga salvar as nossas.

Lembre-se senhor Bispo, da oração que Jesus fez pelos seus carrascos!

Pai, perdoai-lhes!

Eles não sabem o que fazem!

Meu Deus...

Por quê nos abandonastes?

Eles seguiram seu exemplo, meu Filho,

- perdoando seus assassinos. - É sempre assim!

Depois de morrer, todo mundo fica bonzinho!

- Quanto a Severino... - Quanto a esse, deixe comigo.

Não foi sua morte que o redimiu, mas a de seus pais.

Com 8 anos de idade, ele conheceu a fera que existe dentro dos homens.

Escapei daquele massacre sem querer.

Passei a vida desafiando a morte.

Severino enlouqueceu depois que a polícia matou a família dele.

Ele não era responsável por seus atos.

- Está salvo! - Isso é um absurdo, contra o qual...

Já sei que você protesta.

Mas eu não recebo o seu protesto,

você não entende nada dos planos de Deus.

Severino está salvo!

Ele foi um mero instrumento da cólera divina.

Severino meu filho, pode ir por ali.

E nós?

Decida-se logo por favor, que essa ansiedade é pior do que qualquer coisa!

Não diga isso. Você não sabe o que se passa lá embaixo.

Qualquer ansiedade é melhor do que aquilo.

É, mas eu não posso ficar aqui, eternamente à espera...

Afinal, qual é sentença?

Um momento, Senhor. Eu posso dar uma palavra?

Você o que que acha, minha Mãe?

- Deixa João falar, meu Filho. - Fale João!

Os quatro últimos lugares do Purgatório estão desocupados?

- Estão! - Pegue esses quatro camaradas e bote lá.

É uma ótima solução, meu Filho.

Dá para eles pagarem o muito que fizeram e ainda assegura a salvação deles.

E tem a vantagem de descontentar esse camarada aqui...

que é pior que carne de cobra.

Tá vendo ele aqui de costas?

- Estou! - Isso é de ruim!

- Minha mãe, o que que acha? - Ai, eu ficaria muito satisfeita.

Então está concedido.

Podem ir vocês quatro.

Ah, não tem jeito!

Homem que mulher governa.

E agora nós, João Grilo.

Pelo menos esse eu faço questão de levar.

Você que é tão sabido, o que é que você tem a dizer em sua defesa?

- Nada não, Senhor! - Como nada?

- Chegou a hora da verdade! - É por isso que eu estou lascado.

- Comigo era na mentira. - Ainda bem que reconhece!

- Você mentia para sobreviver, João! - Mas eu também gostava.

Eu acabei pegando gosto de enganar aquele povo

Mas porque eles lhe exploravam!

A esperteza é a coragem do pobre!

A esperteza era a única arma de que você dispunha contra os maus patrões!

Agradeço sua intervenção. Mas devo reconhecer que não vivi como um santo.

Tá se fazendo de humilde para ela tomar as dores dele.

Do jeito que eu sou ruim, pode até ser isso mesmo.

Não! Não se entregue!

João, esse é o pai da mentira! Ele está querendo lhe confundir!

A verdade é que eu não fui nenhum santo...

e nem tive uma morte gloriosa, como a dos meus companheiros.

João foi um pobre como nós, meu Filho.

E teve que suportar as maiores dificuldades de uma terra seca e pobre como a nossa.

Pelejou pela vida desde menino.

Passou sem sentir pela infância.

Acostumou-se a pouco pão e muito suor.

Na seca, comia macambira, bebia o sumo do xiquexique.

Passava fome.

E quando não podia mais, rezava.

Quando a reza não dava jeito, ia se juntar a um grupo de retirantes...

que ia tentar sobreviver no litoral.

Humilhado,

derrotado,

cheio de saudades.

E logo que tinha notícias da chuva, pegava o caminho de volta.

Animava-se de novo,

como se a esperança fosse uma planta que crescesse com a chuva.

E quando revia sua terra, dava graças a Deus...

por ser um sertanejo pobre,

mas corajoso e cheio de Fé.

Peço-lhe muito simplesmente que não o condene.

O caso é duro.

Eu compreendo a situação em que João viveu, mas isso também tem um limite.

Eu acho que eu não posso salvá-lo.

Dê-lhe, meu Filho, então, outra oportunidade.

- Como? - Deixa João voltar.

- Você se dá por satisfeito? - Ah, demais!

Pra mim é até melhor, porque daqui pra lá eu tomo cuidado com a hora de morrer...

e não passo nem pelo purgatório, que pra não dar gosto ao Cão.

- Então, João. Fica satisfeito? - Eu fico...

Quem deve estar danado é o filho de chocadeira!

Que que ele teve, meu Deus?

Na raiva, olhou para você e me viu!

- Quer dizer que eu posso voltar? - Pode João. Vá com Deus!

Com Deus e com Nossa Senhora, que foi quem me valeu.

Até a vista,

grande Advogada,

e não me deixe de mão, não. Estou decidido a tomar jeito...

mas a Senhora sabe que a carne é fraca! - Até a vista, João!

Obrigado Senhor!

- Até a vista. - Até a vista, João.

- João! - Senhor?

Veja como se porta

Sim, Senhor.

Mãe, se a Senhora continuar a interceder desse jeito por todos,

o inferno vai terminar virando um repartição pública.

Existe...

mas não funciona.

Olhe lá Chicó enterrando um defunto.

Mas que danado que eu tô fazendo aqui em cima?

Eita! Mas que danado que eu tô fazendo ali embaixo?

Quando eu penso que o pobre do João teve nem direito

a um enterro no cemitério que nem os outros.

Coitado, tá mais abandonado que o cachorro do padeiro.

Um Padre-nosso e uma Ave-Maria pra uma alma que aqui pena.

Ai meu Deus, é o João!

João! Dizei-me o que quereis,

Se estais no Céu, no inferno ou no purgatório!

Olha a besteira desse, fica logo com fala de alma.

“João, dizei-me se estais, não-sei-o-quê”.

Tenha vergonha Chicó! Estou vivo.

É alma das ruim, daquelas que dizem que está viva!

Ai minha Nossa Senhora!

Levante Chicó! Não está vendo que sou eu? Estou vivo rapaz!

- E é possível? - Ora se é possível, que estou aqui.

- Só acredito vendo! - Pois então veja.

Que isso homem, você não disse que só acreditava vendo?

Disse, mas não era pra me mostrar, não.

E como é que vai ser agora, Chicó?

Vai ser assim mesmo. Eu sem acreditar, e você sem me mostrar!

E a nossa sociedade, nossa velha amizade?

- Vão se acabar? - Já acabaram!

É contra os meus princípios fazer sociedade com defunto!

Mas eu estou vivo, rapaz!

Veja, pegue aqui no meu braço.

Coragem homem, pegue!

É mesmo, João!

- Como é que foi isso, João? - Não sei.

Eu acho que a bala pegou de raspão.

Fiquei com a vista escura, quando acordei, estava aqui. Vivinho!

- Eita notícia boa! - Tenho uma horrível pra lhe dar.

- É o que, homem? - Eu perdi o dinheiro que tava no meu bolso.

Fique descansado, João.

Eu tirei do seu bolso antes de te enterrar.

Eita cabra safado. Com pena de mim, mas não esqueceu o dinheiro, não foi?

Quer saber de uma coisa? Foi! O dinheiro estava ali, você estava morto.

Não ia servir pra nada, achei que era mais seguro ficar comigo.

Fez bem, eu teria feito o mesmo.

- Quer dizer que estamos ricos! - É milhardário!

Além do dinheiro do padre e do bispo, tem o dinheiro que Severino tirou da padaria.

Que você acha da gente ficar com a padaria?

Grande ideia!

“Padaria Miramar:

João Grilo, Chicó e Cia”!

- O que acha? - Lindo...

Ai meu Deus! Minha Nossa Senhora! Burro, burro, burro!

Que isso? Burro o quê? Burro é você!

Sou eu mesmo, João! Sou o maior burro que já apareceu nessa história!

- Ai meu Deus, minha Nossa Senhora! - Que que há, rapaz?

Pobre de mim, pobre do João Grilo! Era rico nesse instante, agora é pobre de novo!

- Não me diga que você perdeu o dinheiro! - Perdi nada João, tá aqui!

Meu Deus, minha Nossa Senhora!

E porque essa gritaria toda, homem de Deus?

Eu pensei que você tinha morrido, João!

E o que que tem isso, homem?

Tem que eu, achando que você tinha morrido,

prometi dar a Nossa Senhora todo o dinheiro se você escapasse!

Ai meu Deus! Ai minha Nossa Senhora!

Ai meu Deus! Ai minha Nossa Senhora!

Mas Chicó, como é que se faz uma promessa dessa?

E eu sabia lá que você ia escapar, desgraça?

Ô homem duro de morrer, meu Deus!

Ah promessa desgraçada!

- Ah, promessa sem jeito! - Agora é tarde pra dizer isso!

- Não terá sido metade que você prometeu? - Não João, foi tudo!

Ah, promessa desgraçada!

Ah, promessa sem jeito!

Diabo de uma reclamação em cima da gente de minuto em minuto!

Vamos deixar de conversa e vamos pagar o que se deve!

Vamos não! Vá você!

Eu não prometi nada, e metade do dinheiro é meu!

É, mas quando eu prometi era meu, porque eu me considerava seu herdeiro!

Eu não tenho nada a ver com isso! Eu não prometi nada!

Então fique com sua parte e assuma a responsabilidade,

que eu vou acertar a minha!

Chicó!

- Que é? - Espere que eu vou com você!

- Vai? - Vou.

Pois eu já tava convencido de que cê tava certo, João.

É, mas faltou quem me convencesse.

Se fosse outro santo, ainda ia ver se dava um jeito.

Mas você achou de prometer logo a Nossa Senhora...

Quem sabe eu não escapei não foi por isso?

- Quer dizer que entrega? - Entrego.

Pessoalmente.

Ai meu Deus, ai minha Nossa Senhora!

Parece disco arranhado!

Com essa confusão toda, esqueci do dinheiro que tinha prometido pro Major!

Você promete dinheiro demais, Chicó!

Esqueceu que esse dinheiro foi você que me fez prometer?

E ainda deu como garantia o direito do Major arrancar...

uma tira de couro das minhas costas!

Ai meu Deus, ai minha Nossa Senhora!

E agora vai o dinheiro todinho pra Santa!

- Será que não dá pra ser metade? - Não senhor, você disse tudo.

Ah, promessa desgraçada! Ah, promessa sem jeito!

Tá enrolando mais do que linha em pé de pinto.

Diga logo se tem o dinheiro!

Tenho!

Quer dizer, tinha!

É porque eu prometi tudo pra Nossa Senhora se João Grilo escapasse.

Se eu soubesse que ia lhe dar esse prejuízo, Major, eu tinha morrido mesmo.

Se não tem dinheiro, não tem problema.

Cumpre o contrato comigo, ou eu arranco seu couro!

O senhor vai fazer uma desgraça dessa com o seu próprio genro?

Que genro o quê... Pra casar com a minha filha, tem que ser rico ou valente!

Então está resolvido, porque Chicó é o cabra mais valente de Taperoá!

Essa eu quero guardar pra rir depois...

quando tiver passado a raiva! - Por minha causa...

ele botou pra correr Vincentão e Cabo 70 de uma vez só!

Eu vou lhe dar chance pra você provar que é macho, que gosta da minha filha.

Você casa com ela e cumpre o contrato comigo,

ou desiste dela e eu perdôo a dívida!

Oxi, desiste nada! Chicó me adora!

- Escolhe, cabra... - Pode marcar o casamento, meu pai.

- Eu ainda não respondi... - Nem precisa né, eu confio em você.

- A gente se casa amanhã. - Amanhã eu lhe arranco o couro!

Sabe o que é, D. Rosinha, eu gostaria muito de casar com a senhora,

mas a verdade é que eu sou mais frouxo que calça de porta de loja

- Oxi, e eu não sei? - Sabe como?

Faz tempo que eu descobri.

Mas aí era tarde e eu já estava doidinha pra casar contigo.

- Quem disse que eu tenho coragem? - A porca!

- A porca? - A porca!

Que porca?

A porca que D. Rosinha vai ganhar de presente de casamento, homem!

E o que a porca tem a ver com meu courinho?

A gente se casa, meu pai lhe dá a porca, você paga o que deve e livra o seu couro!

Chicó, você encontrou uma companheira no amor

e eu achei uma parceira na inteligência!

Se quiser desistir, eu levo a moça de volta pra casa.

Nem que me esfolasse o couro todo, seu Major.

- Quanto mais, uma tirinha só. - Pois então, eu vou fazer um cinto com ela.

Você pode não ser valente, Chicó...

mas finge que é uma beleza!

Aquela santa porquinha me deu uma coragem da gota!

- Não se esqueçam que a metade é minha! - Que danado de dinheiro é esse?

Essas moedas são do tempo do nunca!

Valha-me Santo Cristo! Esse dinheiro já está recolhido há muito tempo!

Não vale mais nem um tostão de hoje!

Mas como foi que eu não me atinei por isso antes?

Sua bisavó depositou essas moedas nessa porca já faz mais de 50 anos!

- Como eu sou burro, burro! - Imagina eu!

Estou cansado dessa agonia de fica rico, fica pobre, fica rico, fica pobre!

E eu tô cansado dessa agonia...

de ficar inteiro, ficar sem uma tira, ficar inteiro, ficar sem uma tira!

A festa está muito boa, mas tá na hora de cumprir o contrato!

- É cedo... - Não se preocupadre..

Que a faca tá amoladinha!

O senhor não teria uma anestesia?

Peraí, meu pai

- O que estava no contrato mesmo? - 10 contos de réis ou uma tira de couro!

10 contos de réis...

ou uma tira do couro dele? - Isso!

- Couro, couro? - Couro, couro!

- Só couro? - Acha pouco?

Pouco não é, mas também não é tanto assim!

É uma tirinha só!

Uma tirinha só, sem nenhuma gota de sangue que o sangue não estava no contrato!

Que história é essa?

A única palavra que se pronunciou nesse contrato foi couro!

Ninguém falou em sangue, não foi?

Mas é mesmo, não tinha atinado pra isso antes.

Ou o senhor tira o couro de Chicó sem tirar sangue...

ou o senhor não tira é nada!

Eu devia era lhe sangrar pelo pescoço, cabra safado!

Só não faço isso, porque o pior castigo que eu posso dar para a minha filha...

é deixar ela casada com uma desgraça como você!

Frouxo, pobre...

- Malamanhado! - Bondade sua!

Some daqui até a sexta geração!

Eu sou capaz de tocar fogo nessa casa...

mas não deixo um tostão pra senhora, Dona Rosinha!

Todo mundo liso de novo!

De novo não, meu filho. Comigo é a primeira vez.

É mesmo minha flor, deste o golpe do baú ao contrário.

Eu estive pensando se não é melhor assim.

Quem sabe se eu ficando rico não terminava como o padeiro?

E depois com a desgraça, a gente tá acostumado!

Falar nisso, está me dando uma fome da muléstia.

A sorte é que eu carreguei um pedacinho de bolo da festa.

Danou-se, D. Rosinha, a senhora tá aprendendo a ser pobre!

Uma esmola pelo amor de Deus? É pra eu tirar a barriga da miséria.

O senhor vai desculpando, mas de barriga na miséria aqui já tem três.

Tome, meu senhor!

- E vá com Deus. - E vocês vão com Ele.

Danou-se dona Rosinha, foi-se a comida quase toda!

Deixe, ele também é filho de Deus.

Jesus às vezes se disfarça de mendigo...

pra testar a bondade dos homens.

Pode até acontecer, mas aquele ali não era, não!

- Oxi, como é que você sabe? - Jesus? Pretinho daquele jeito?

Por que não?

Eu conheci um sujeito em Cabaceiras que se encontrou com Jesus Cristo.

- Aonde, Chicó? - No Céu...

Diz que lá a romaria é mil vezes maior que a de Juazeiro.

Esse camarada me contou que viu Jesus Cristo

sentado no trono com um monte de anjinhos ao redor,

igualzinho na pintura.

Ele me falou que o paraíso fica lá pros lados

da Bahia, por isso que o Cristo é escurinho.

E contou como rapaz, se ele já tinha morrido?

Não sei...

Só sei que foi assim!

Can't find what you're looking for?
Get subtitles in any language from opensubtitles.com, and translate them here.