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Original subtitles

Episódio de Hoje: A peleja de Chicó contra os dois ferrabrás.

Bom dia, seu Cabo, está bonzinho?

Oxente rapaz, que intimidade é essa comigo?

Que foi, seu Cabo 70? A gente não pode nem dar bom dia?

Isso é uma regra de civilidade e cortesia...

É ou não é?

Se tem uma coisa que eu não gosto é de gente que fala "é ou não é?"

Eu fico tinindo!

- E é? - É!

É que esses ditadozinho, esses viciozinhos que a gente pega são danados, é ou não é?

Olhe que hoje você dorme aqui na cadeia!

- Tô doidinho pra botar um na chave! - E precisa dessa valetia toda?

Eu queria ver essa conversa era pra prender Vicentão!

Você tá insinuando que a autoridade aqui presente,

o Cabo 70, tem medo de um valentão?

Não, não, não. Só tô querendo dizer que quando um não quer, dois não brigam.

- É ou não é? - Moleque!

- Desculpe seu Cabo! - Dessa vez passa...

mas só passa somente por causa de uma coisa.

- Eu acho que sei o que é. - Sabe nada!

Sei sim! Eu conheço os recantos mais íntimos desse seu coração militar.

Rapaz, deixe de intimidade comigo, seu cabra.

Eu sei que se o senhor quisesse, o senhor me prendia,

mas a sua boa vontade comigo é por causa da minha intimidade na casa...

de uma moça que o senhor seu Cabo anda querendo muito...

- Ai, como eu sofro, João! - Sofre? O senhor?

Uma autoridade?

Mas autoridade também sofre. E ela não gosta de mim.

- Quem disse? - Eu é que penso.

Pois todo penso é torto. É ou não é?

Nesse caso eu só queria que fosse.

Pois eu já andei conversando esses assunto com ela.

- Foi nada! - Por tudo que é de mais sagrado.

Ela até me disse que simpatizava muito com um certo Cabo.

- Jura? - Por essa luz que me alumia!

É João, olha, você sabe que eu lhe tenho muita amizade, não é?

Menino, olha como isso mudou!

É seu Cabo, eu sei que o senhor é doido por mim.

É ou não é?

É!

Sou sim, João. E você podia me ajudar.

É só dizer o que quiser.

Eu queria que você entregasse um broche pra Rosinha...

- E diga a ela que foi eu que dei. - Passe o bicho pra cá.

Meu Deus, que broche lindo!

- Foi o ordenado do mês quase todo. - O presente será dado!

- Até mais ver, Cabo 70! - Até mais ver, João! Obrigado!

Fico lhe devendo um favor!

- Bom dia, seu Vincentão. - Vou fingir que não vi.

Eu hoje amanheci azeitado, sabe?

Eu até jurei que a primeira pessoa que eu visse, eu enfiava-lhe a faca no apendicite.

- Mas hoje não é dia de ter raiva, não. - Pois pra mim todo dia é dia de ter raiva!

Eu quero ter raiva, e você não se meta!

Mas logo hoje, no aniversário de D. Rosinha?

- Oi, e hoje é aniversário dela, é? - Eu acho melhor o senhor se amansar.

Pra quê?

- Ela não gosta de mim mesmo. - Que injustiça!

Logo hoje, que ela me disse que estava apaixonada.

E foi, foi? E por quem?

Diz ela que é pelo valentão da cidade.

Eita! Só pode ser por mim!

E logo hoje que o senhor acordou tão mal-humorado.

Passou, João.

- Você me faz uma fineza? - Uma fineza, é?

Você entrega esse par de brincos pra ela?

Olhe só que coincidência rapaz,

Que acaso da necessidade.

Logo hoje, dia do aniversário dela, foi que eu achei de comprar um presente.

Isso não é coincidência, não. É o destino!

Eita que eu me arrepiei todo, olha João.

Pois diga isso a ela.

Diga que é a própria sorte que quer nos juntar...

cruzando nossas vidas na teia do destino!

Ela vai gostar demais!

Eita dois cabra véio besta da peste!

- Que jóias lindas! Quem mandou? - Alguém na cidade que é doido pela srta.

- Oxi, que história, ninguém gosta de mim. - Esse gosta demais.

- Quem é ele? - Posso dizer não, que ele pediu.

- Ele é bonito? - Posso dizer não, que sou modesto.

- É você, Chicó! - Já que a senhora adivinhou...

não vou negar que desde o dia que lhe conheci eu vivo para morrer...

e só não morro porque vivo pensando na senhora.

Eu fico muito agradecida, mas eu não posso aceitar o seu presente...

- D. Rosinha, eu sei que sou pobre... - Oxi, eu não ligo para isso não, Chicó.

É que se pelo menos você tivesse um diploma!

Eu sou doutor em ciências ocultas, filosofia dramática,

pediatria charlatânica, biologia dogmática e astrologia eletrônica.

- Se você fosse valente... - Sou o cabra mais valente dessa cidade.

É nada!

Os sujeitos mais valentes aqui são Vincentão e Cabo 70!

Eu sou doido pra acabar com a valentia deles!

- Cê tinha coragem de enfrentar um dos 2? - Topo é com os 2 de uma vez só.

Boto eles pra correr dessa cidade.

- Isso que eu queria ver! - A senhora aceita as jóia?

Aceito.

E se você fizer o que disse, eu sou capaz até de usá-las!

Opa João! Até que enfim você chegou, rapaz!

Estava por aí, espairecendo, refrescando a natureza.

Tudo certo, né João? Eita!

- Ela tá me esperando? - Ela quem?

Oxente, Rosinha, quem mais haveria de ser?

Sei lá, você que deve saber.

Não desconverse não, homem! Que foi que Rosinha disse?

De quê?

Do presente! Responda logo que estou ficando louco!

Ah sim! Ela ficou com ele.

- Só? - Só? E você acha pouco?

- Você queria bem que ela desmaiasse? - Pelo menos ela podia ter ficado feliz!

Feliz ela ficou! Também, quem não ia ficar feliz...

ganhando um broche e dois brinco no mesmo dia?

Oxente, teve um par de brincos? E eu não só mandei um broche?

Você só mandou um broche. Mas teve um sabido que mandou 2 brincos.

um pra cada orelha. - Oxente, quem foi esse miserável?

E de qual presente que ela gostou mais?

E por quem ela ficou mais balançada?

- Diga homem de Deus! - Até aqui ela não se balançou ainda não...

Mas eu sei que D. Rosinha tem gosto por homem valente...

E disse que fica com aquele que desafiar o outro e for o vencedor.

Pois me diga quem é esse miserável, que eu vou agorinha comer-lhe os fígados...

e arrancar-lhe os corações! - Ele só tem um, Cabo!

Oxente, pois arranja-se outro que eu lhe arranco é os dois!

Não interrompa minha raiva não na hora que eu estiver falando, viu seu João!

- Quem é ele? - Isso eu não sei.

Só sei que eu vi Chicó hoje cedo lá pras bandas da fazenda do Major.

E ele mandou eu lhe dizer que quer lhe encontrar hoje, de 7h na saída da missa.

- Chicó? - De 7h, na saída da missa.

E o que é que ele quer comigo?

Diz que é a respeito de um par de brincos que você deu a D. Rosinha.

Será que aquele exibido tá me desafiando?

Só sei que ele também cuspiu no chão quando pronunciou seu nome.

O magrelo tá doido pra morrer...

E eu tô doido pra matar! Vai dar certinho!

Deve ser também que encontrei D. Rosinha...

toda contente por causa de um broche que ela tinha acabado de ganhar.

E ainda se meteu a dar um broche a Rosinha, é?

Mas é hoje que eu vou fazer a festa!

eu vou estraçalhá-lo!

Tá tudo marcado. De 7h, na saída da missa...

a gente vai botar aqueles 2 valentões pra correr.

Ô Grilo, cê esqueceu que sou frouxo?

- Eles são mais frouxos do que você! - Quer me humilhar, é?

Pois fique sabendo que ninguém é mais frouxo do que eu aqui em Taperoá!

Mas Rosinha não precisa saber disso.

Depois do encontro ela vai achar que você é o Cão do 2º Livro!

Vou não, Grilo. Eu sou frouxo, mas não sou burro!

Eles vão é me matar!

Pois eu digo que vai dar tudo certo, e você finalmente vai conquistar...

o coração de Dona Rosinha!

- Vai dar certo como, homem de Deus? - Você vai ver!

- Ver como, se defunto não enxerga? - É só fazer o que eu vou mandar!

Valha-me, Nossa Senhora! Ou eu morro ou me desmoralizo!

E de todo jeito perco Rosinha!

- Seu Cabo gosta de uma missa né? - Isso é verdade!

Não posso ver uma igreja que já vou logo entrando.

Pois eu acho que seu Cabo não pode ver é uma saia!

A senhora devia ter mais respeito a Padre João...

Já que a batina dele não é saia.

Não se faça de leso, que não é dessa qualidade de saia que tô falando!

- A senhora tá falando de quê? - Duma certa sainha...

recém chegada do Recife... - Com licença, D. Dora...

que eu vou ali conferir a qualidade do tecido!

Eu tô achando que esse santo quer reza. Tá fazendo o quê aqui, Vincentão?

Tô andando. A senhora não tá vendo, não?

Pois eu acho melhor correr, que já já a missa começa.

- Pois eu quero que ela termine! - Trouxe seu terço, seu missal?

Eu trouxe foi minha peixeira!

- Pra meter em quem? - Em quem fizer muita pergunta!

Que as lapadas não doam muito,

que a faca de Vincentão entre macia no meu bucho vazio...

Que as balas do Cabo 70 me vare de uma vez, que é pra eu ter uma morte bem rápida.

Ite, missa est.

Mas se o plano do João Grilo der certo, e eu

sair dessa enrascada, minha Nossa Senhora...

Eu prometo nunca mais... Nunca mais...

Me deitar com mulher nenhuma na vida!

Mulher nenhuma...

tirando Rosinha...

- Você me acompanha, Chicó? - Ave Maria, a missa já acabou?

Cê tava rezando com tanta fé que nem notou!

Eu tava fazendo uma promessa pra Nossa Senhora.

E qual é a graça que você quer obter?

Uma graça tão grande que chega a ser um milagre!

- Aposto que era um pedido de amor! - Não deixa de ser...

Rezei pra não morrer desse mal.

Seu coração tá batendo tão forte assim?

Tá quase pulando pra fora da caixa dos peito!

O Cabo e o Vincentão vieram tomar satisfação com você.

- Satisfação de quê, meu Deus? - Chicó não contou pra senhora?

Que ele vai botar aqueles 2 pra correr, não?

Fica por isso Chicó, você está dispensado do compromisso!

Já que a senhora insiste!

Não, não, não, D. Rosinha! Amigo meu não fica desmoralizado!

- Mas com esses 2 a parada é dura! - A senhora vai ver uma coisa!

Esse aí é calmo, ponderado, mas quando se espalha o negócio fede!

- Chicó! - Senhora?

Cuidado pra não judiar demais desses pobres.

Se aperreie não, esses dois correm só com um grito de Chicó!

- Tava me procurando, seu Chicó? - Tava, mas já encontrei, seu Vincentão.

Pois trate de fazer logo seu último pedido...

Que eu tô doidinho pra enfiar minha faca no seu bucho!

- Tô atrapalhando alguma coisa? - Que é isso, seu Cabo.

O seu Cabo vai me desculpar, mas isso aqui é assunto safado...

carece gastar autoridade não.

Oxente homem, esqueça o Cabo, Vincentão, dispenso a patente...

-Hoje eu tô aqui de civil -Sendo assim...

o senhor não vai poder me prender se por acaso eu resolver...

acabar com a raça de um amarelo aqui mesmo na sua frente!

Oxente homem, e esse amarelo foi quem marcou comigo, esse aqui já tem dono.

O que é que tá acontecendo, João?

- Chicó desafiou os dois pra um "truelo". - "Truelo"?

É, um duelo de 3!

Então Chicó, marcaste comigo ou foi com ele, rapaz?

Marcaste foi com os dois...

mas foi só pra dar o recado de D. Rosinha.

Ela tá ali e mandou dizer que adorou as jóias que os senhores mandaram pra ela...

e que vai usar o presente daquele que sair vencedor de um duelo.

Certo, aí o caso exige reflexão.

Está com medo, seu Cabo?

Oxente cabra, que medo o quê? Tu já viste autoridade ter medo?

Está preparado, seu Vincentão?

Mas agora? Não rapaz...

- Vai assustar D. Rosinha. - Que é isso...

Ela tá doida pra ver um homem furado de bala!

Botando os bofe pra fora!

Ai minha Nossa Senhora! E agora?

-Chicó começa a contar -E é 1...

- E os cabra vão andando... - E é 2...

Quando ouvirem "já", se viram atirando em Chicó.

- Mas Chicó nem armado está! - Pra quê? Revólver é coisa de frouxo.

- E é 3... - Jesus!

E é já!

- Vixe meu Padre Ciço! - Valha-me minha N. Sra. do Perpétuo...

Fuja por aí, seus fuleiros!

Tô dizendo...

Uns mequetrefe desse metido a valente pra meu lado?

Pronto, esses dois vão sumir no oco do mundo.

Pode se preparar pra pagar a promessa pra Nossa Senhora...

que o seu pedido de amor foi atendido.

O voto que fiz pra ela é fácil de cumprir.

Jurei que daqui pra frente só vou gostar da senhora.

O Cabo e o Vincentão saíram numa carreira, com alpercata batendo a bunda!

Isso não é mais uma história de Chicó, não?

Todo mundo viu! Antes de correr, cada um ainda danou 6 tiro nele...

mas tavam tremendo tanto que não pegou nenhuma bala.

Daí Chicó tomou as arma, abriu o tambor e só pra afrontar...

engoliu todas as balas que sobraram.

E onde é que você já viu revólver com mais de 6 balas?

Não sei, só sei que foi assim.

Agora você tá pronto pra ir pedir a mão da noiva!

- Não tenho dinheiro pra pagar essa roupa. - Tu não tem dinheiro, mas tem nome!

Chicó, valente que só cobra de resguardo!

Futuro marido de D. Rosinha, bisneta de D. Rosa não sei das quantas!

- E quem tem nome na praça, tem crédito! - E crédito é o quê?

Crédito é uma coisa que faz os besta...

acreditar numa pessoa e vender fiado pra ela.

Como a gente vai pagar tudo isso depois?

A gente não tá fazendo tudo isso pra ficar rico?

Sim.

Então, quando a gente ficar rico, paga essa parte outra.

Seu Major, desculpe a impertinência mas eu queria lhe apresentar um conhecido meu

lá de Serra Talhada.

Pretendente a pretendente de Rosinha.

Tem que ser no mínimo fazendeiro ou então doutor.

Pois esse é fazendeiro e é doutor!

E o que é que você tá fazendo que não mandou o rapaz entrar?

Muito prazer, seu...

- É Chicó. - Chicó? Chicó de quê?

Francisco Antônio Ronaldo Ermenegildo de Aragão...

Correia Vaz Pereira Góes.

Chicó é somente o apelido dele.

Também, com um nome desses, ninguém decora!

Como é que chama a sua fazenda?

- Que fazenda? - É tanta fazenda que ele até se confunde.

Doutor Chicó, como que chama aquela de Serra Talhada?

- Fazenda de Serra Talhada? - Fazenda de Serra Talhada!

Taí um nome bonito,

simples e sem arrodeio!

Então, além de fazendeiro, o senhor ainda é doutor?

Doutor advogado! Formou-se na capital.

Então cê sabe tudo sobre leis?

Tudo, tudo, tudo, também não.

- Ele é muito modesto. - Você pretende se casar com minha filha?

Oi, é, é, na verdade...

Tão acostumado a falar alemão,

que chega a hora de falar "brasileiro" perde as palavra.

- Rosinha! - Senhor?

Venha cá, Venha conhecer um pretendente seu.

- Pretendente? - Chegou como pretendente a pretendente...

mas já foi promovido. - Eu gosto de outro, meu pai.

Oxente, quem mandou?

Começou sem querer... mas agora nem se eu não quisesse.

- Quem é o cabra? - Ele é pobre, mas é valente e honesto.

O meu ganhou!

É fazendeiro, doutor e fala alemão!

- Eu não posso mandar no meu coração! - Deixe que eu mando!

Você tem uma semana pra esquecer de um e gostar do outro!

Meu pai, eu prefiro morrer!

Mas já que o senhor insiste...

Pronto Dr. Chicó, a garrota já está domada.

- Então a gente se casa semana que vem. - Já?

Eu tenho mais é que lhe obedecer, meu pai!

E eu tenho mais que obedecer D. Rosinha...

E o Major vai poder obedecer sua santa avozinha...

que deixou essa porca cheinha de dinheiro pra D. Rosinha quando ela se casar!

- Boa tarde! - Fedeu.

Mas veja só! Falou-se em casamento, chega o padre!

Casamento de quem?

Eu quero que o senhor conheça o meu futuro genro.

- Chicó? - O senhor já conhece?

Todo mundo conhece Seu Chicó! Vai ser o casamento do ano.

- A igreja vai ser até reformada! - E vai?

- E o senhor não acha que precisa? - Demais!

Menino, a igreja está caindo aos pedaços, não sabe?

Olha aí!

Seu Major Antônio Moraes não vai querer ver os pedaços da igreja caindo...

na cabeça dos convidados, né?

De jeito nenhum!

Tem que consertar o telhado, dar uma boa pintada...

Calma padre João, primeiro dê os parabéns a Seu Chicó.

Parabéns. Reformar o altar...

envernizar os bancos, comprar um sino...

Acho que com uns 12 contos passa a reforma.

Pode fazer a reforma, que Seu Chicó manda pagar.

- 12 contos de réis? - Se for adiantado fica por 10.

Então pague logo, Seu Chicó! Que é assim que faz economia.

- 10 contos de réis? - Ele não tá acostumado com dinheiro pouco.

10 contos, Doutor!

Aquilo que o senhor deu a seu empregado ir a

Serra Talhada pra buscar o resto do dinheiro!

Deu o que tinha no bolso!

Venha comigo que eu lhe empresto o dinheiro pro senhor adiantar pro padre.

Pelo sim, pelo não, vamos trocar um papel entre nós.

Você vai até a cidade e me traz uma cópia da escritura da Fazenda Serra Talhada...

de propriedade de Dr. Chicó...

pra ele deixar como garantia pelo empréstimo.

Você assine esse contrato, passando a propriedade pro meu nome...

caso não pague a dívida.

Vá se embora, rapaz! O que é que tá esperando?

Pra quê escritura, Seu Major?

Dr. Chicó vai provar que a palavra de um homem vale muito mais que a fortuna dele.

Não é terra que ele vai lhe dar como garantia, não.

Pode escrever aí que se ele não lhe pagar com uma semana, o senhor pode...

Arrancar uma tira de couro das costas de Chicó.

Eita cabra macho!

- Assine aqui. - Assino não!

É que ele está sem óculos! É só carimbar com o dedo.

Assine você também, como testemunha.

- Eita que eu tô ficando importante! - Eita que eu tô ficando lascado.

Assinado em couro...

Ai meu couro, meu courinho, gosto tanto dele.

- Deixe de coisa, homem. - Que o couro não é seu, é meu...

- e é a única coisa que tenho! - Por isso mesmo!

Que mais que cê teria pra oferecença como garantia?

Sua língua, pra ver se calava sua boca.

Tá bonito que só lá vem já dá moça.

- Chega me dá um negócio subindo aqui. - Pois então manda o negócio descer...

porque hoje eu não tô bom.

Oxente!

E pra quê que tá tão arrumado se é pra fugir de mulher?

Só quer saber de Rosinha.

Não sei o que esses homem vêem nessa lambida.

- A senhora acha ela lambida? - Lambida, amarela e desenxabida.

Como a senhora é exigente!

Pois eu vou lhe propor um negócio...

Dou-lhe 1 conto se você convencer Chicó a passar uma noite comigo.

- Tá difícil... - Oxe, difícil por quê?

- Eu lá sou algum jaburu? - É nada!

A senhora sempre foi 1º lugar...

até a chegada de Rosinha.

Pois eu vou aumentar a proposta. 3 contos.

Tem jeito não...

Chicó morreu pras outras mulheres.

- Cinco! - O homem tá cego de amor...

- 10 conto de réis! - Negócio fechado!

Por 10 conto de réis, D. Dora, não tem morto que não levante...

Nem cego que não espie!

Ai meu couro, meu courinho, que cresceu junto comigo.

Cabra besta! Tá tudo arranjado!

Arranjado pra você, que vai ficar inteiro!

Você acha que eu ia botar seu couro num negócio assim sem dar um jeito?

- Acho! - Pois fique sabendo...

Seu mal-agradecido, que eu já tenho quem pague o tal dinheiro.

- Quem é? - Dona Dora.

- Mas tá! Aquilo nunca dá nada pra ninguém! - Mas troca!

Pela minha cabeça, meus estômagos, meus ovos? Quê que ela quer de mim?

Ela só quer o seu amor, Chicó!

E quer tanto que até vai pagar 10 conto só pra você passar uma noite com ela.

- Jura? - É lá e lô.

Você recebe 10 conto aqui, paga 10 conto ali pra casar com D. Rosa!

- Diga que é brincadeira, diga! - É não, é sério Chicó!

Você é um cabra de sorte mesmo!

Eu sou é um azarado. Não posso passar a noite com D. Dora não

- E por quê não pode? - Porque fiz uma promessa na igreja...

Jurei que não deitava com mulher nenhuma se eu escapasse do duelo com os valente!

- Diga que é brincadeira, diga! - É sério, João...

Ah promessa desgraçada, ah promessa sem jeito!

Ai meu couro, meu courinho, que sou tão pegado com ele!

Ah promessa desgraçada, ah promessa...

Você tinha nada que botar igreja na história!

Não tava tudo resolvido, homem? Era só confiar em mim!

É o mesmo que confiar na cascavel!

Vou avisar a D. Dora que você vai mesmo nesse encontro!

Vou não, que eu não quero confusão com minha Nossa Senhora!

Prometi, tá prometido!

Você prometeu que não se deitava mais com nenhuma mulher, não foi?

Foi

Mas não prometeu que não se encontrava com ela!

Você vai ao encontro hoje à noite e eu dou um jeito de interromper o desacontecido!

- Que desacontecido? - O que não aconteceu!

Não vai acontecer nada entre você e ela, Chicó!

Pense num jeito de adiar o desacontecido...

que eu penso num jeito de interromper o desacontecido...

que é pra ele não acontecer!

Adiar! Adiar! Parece que não conhece D. Dora!

No que eu chego lá, ela dá o bote em mim, e o negócio acontece!

Faça a feira, homem. Uns xamego, um cheirinho no cangote...

Ou isso tá proibido também?

Você acha que eu ia entrar nesses detalhes com a Santa?

Eu sabia que você vinha!

Sabia como?

Tem uma coisa aqui dentro de mim me dizendo.

E a senhora tem uma coisa aí dentro que fala, é?

- É... - E ela acerta sempre?

Sempre...

É que tenho umas coisinha pra perguntar pra ela.

Ai, agora não dá, que ela tá pedindo, chamando, implorando por você, Chicó.

- Não tá ouvindo? - Tô não.

Não?

Pois ela tá danada gritando "venha Chicó"!

Venha, me apague, me acenda, me vire pelo avesso...

Não tô escutando é nada

Oxe, das duas, uma: Ou você não é lá muito homem ou então é mouco!

É o quê?

Vixe Maria Seu Eurico, chega fiquei nervoso quando vi sua pessoa andando pela rua.

Nervoso por quê?

Não me diga que o senhor está indo pra casa!

- Tô não! - Tem certeza?

Oxe, tá vendo não?

Graças a Deus!

- Graças a Deus o quê? - Que o senhor não está indo pra casa.

E por quê?

Porque o senhor não pode ir pra casa agora, de jeito nenhum.

- Oxente, e se eu quiser ir?! - Não, não posso deixar não!

- Pois eu não ia não, mas agora eu vou! - Vai não, seu Eurico!

Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus, seu Eurico!

Agora deu. E por quê?

Posso falar não, que mandaram eu não falar!

Danou-se! Já entendi tudo! Dora tá com um homem lá!

Como foi que o senhor adivinhou?

Eu não sou burro não, João. Eu deduzi!

Venha menino. Não tá enxergando que eu tô doida por você?

Não tô enxergando nada! Será que além de mouco, fiquei cego?

Deixa de invenção, Chicó! Cê tá enxergando eu muito bem aqui!

Se eu tiver enxergando, eu cegue!

Pois venha sem enxergar, ande!

Eu não posso mais!

Mas por que não pode?

Elas pararam D. Dora, minhas perna não andam mais!

Não, Seu Eurico!

- Entre em casa agora não! - Lascou!

Como é que cê vai correr pra dentro do armário agora?

Cadê o homem?

- Acabou de chegar! - Não!

Ele quer saber o homem que estava aqui com a senhora

Isso mesmo!

Eu quero saber do homem que tava aqui com a senhora!

Que homem, homem? Tem homem nenhum aqui não!

- Eu sei que tem! - Sabe como?

Sou bobo não, Dora! Eu deduzi. Cadê ele?

Diga logo que ele fugiu pela janela e pronto!

Quer dizer que seu amante fugiu, sua desgraçada!

- Fugiu! - Eu tô falando com ela!

E você ainda mandou esse amarelo alcoviteiro pra ficar tocaiando, não foi?

- Foi ela que mandou não! - Então foi o safado que tava aqui com ela!

Não! Chame Chicó de safado não, Chicó é meu amigo!

Chicó?!

Eu mato aquele desgraçado!

E mato você também, sua...

Eu se fosse o senhor, matava só ele, que ela não tem culpa de nada.

- Como não tem culpa? - Como?

Chicó é quem ficava atrás da coitada. Ela nunca quis nada com ele.

- Não é, D. Dora? - É...

- Ele ficava dando em cima de mim. - Ô Dora...

por que você não me avisou antes, minha filha?

- Por quê? - Pra não lhe aborrecer, homem.

- Por isso que ela não lhe contou. - É...

Pra não lhe aborrecer, Eurico.

- Não precisa explicar nada não, Dora. - Precisa, porque tem mais.

E tem?

Ele veio aqui, mas foi pra convencer D. Dora a se encontrar com ele...

logo mais, atrás da igreja.

- Pois eu vou pegá-lo! - E como o senhor é inteligente, vai.

- Mas é vestido com as roupas de D. Dora! - Por quê?

Porque o senhor não é besta.

Se o senhor chegasse lá vestido de homem, Chicó ia ficar com medo...

ia inventar uma desculpa qualquer...

e o senhor não ia ter nem como provar que ele foi lá pra se encontrar com sua mulher.

- Claro! - Mas se o senhor chega lá de mulher...

num escurinho daquele... - Ele ia pensar que eu sou Dora...

Vai querer lhe agarrar...

E vai levar uma chapuletada nas venta...

pra aprender a nunca mais se meter com mulher de homem sabido como eu!

Qualidade de amigo!

Desta vez não tem tempo pra você ficar dizendo que eu lhe boto em confusão...

Deixe logo lhe contar meu plano...

senão seu Eurico desiste de ficar esperando atrás da igreja!

Oxi, Chicózinho... Se achegue mais um bocadinho...

Chicózinho o quê!

Mulher infiel!

Como é que cê tem coragem de botar chifre num homem bom como seu Eurico?!

- Não é Dora não, Chicó, sou eu! - Mentirosa!

Só marquei esse encontro pra ver se cê ia trair meu patrão, sua galheira!

Sou eu Chicó, Eurico!

Oxe, não é que é mesmo?

Graças a Deus, viu. O patrão não sabe a sorte que teve.

Sorte como, se eu acabei de levar uma pisa dessas!

- Mas escapou de virar corno. - Mas o que é isso?!

Que gritaria é essa?!

Sou eu, padre João!

Isso é uma depravação!

Eu não sabia que o Presidente da Irmandade das Almas gostava de se vestir de mulher!

Foi gosto não padre, foi necessidade.

E você por que é que está batendo nessa moça...

nesse invertido?!

Chicó só tava querendo me ajudar, padre João.

Menino! E ainda por cima, gosta de apanhar!

Eu trouxe seu amante de volta, fiz sua fama de esposa fiel...

e ainda dei um jeito de Seu Eurico agradecer a Chicó...

o par de chifre que levou!

- Os 10 conto de réis ficou até barato! - Mais barato do que você imagina...

porque não vou lhe pagar é nada! - Mas D. Dora, e o nosso trato?

O trato era uma noite de amor. Eu fiquei só no calor.

Traga Chicó de volta que eu lhe dou o dinheiro.

Eita que eu tô vendo a hora de perder aquela porca cheinha de dinheiro!

Eita que eu tô vendo a hora de perder meu couro cheinho de mim.

A culpa é sua de negar fogo a D. Dora!

E você quer que eu vá pro inferno por não cumprir minha promessa com Nossa Senhora?

Pois então vamos falar com ela!

- Desgraça! - Demência!

7 para a paróquia, 3 para a diocese.

Como representantes do Senhor, devemos sempre pregar a justiça.

E isso não é justo, padre João!

Não é justo por quê, Sr. Bispo?

Porque a diocese é maior do que a paróquia.

Mas é na paróquia que vai realizar-se a cerimônia.

Mas quem vai abrilhantar a cerimônia serei eu.

Mas fui eu que tive a ideia de aceitar.

Mas quem autorizou a ideia fui eu.

Mas Eminência, considerando-se que a cerimônia será realizada na paróquia...

há necessidade de reformar-se até a casa do bispo?

Padre, de casamento dessa importância, até o Vaticano merece uma demãozinha.

Vamos deixar o Vaticano de lado.

5 para a paróquia, 5 para a diocese.

Nada disso!

3 para a paróquia, 7 para a diocese.

Como representantes do Senhor, temos sempre que pregar a justiça.

E isso não é justo, Sr. Bispo.

Como representantes do Senhor, temos sempre que pregar a justiça...

e a humildade.

Temos que pregar a justiça, a humildade...

e o desapego às coisas materiais.. - A justiça, a humildade...

o desapego das coisas materiais...

E a obediência! Portanto, o senhor me obedeça!

Os senhores vão me desculpar, mas nós vamos ter

que desfazer o arranjo e devolver o dinheiro!

- Desfazer? - Devolver?

Chicó não tem dinheiro pra pagar o Major, sendo honesto, vai

ter que cumprir o contrato arrancando uma tira do próprio couro.

Sendo frouxo, resolveu fugir da cidade, e sendo assim

não vai haver mais casamento nem reforma nesta igreja.

Frouxo como? Ele não enfrentou 2 valentes de uma vez só?

Então, toda a valentia que ele tinha, gastou

daquela vez. Não sobrou nem um restinho pra agora.

Mas que besteira Chicó!

Desfazer um casamentão desses por causa de uma tira de couro?

Seja como for, o dono do couro é Chicó, e se ele não quer, está desfeito o negócio.

Calma!

Deve haver um jeito de resolver esse problema.

João, você que é tão sabido, não tem nenhuma ideia?

Ideia eu tenho. Só depende dos senhores.

Pode dizer

Chicó fez uma promessa miserável de não se deitar

com mulher nenhuma antes de se casar com D. Rosinha.

Olha o respeito na igreja, amarelo!

Prossiga, meu filho.

Mas tem uma mulher que quer se deitar com ele.

E quer tanto que paga até 10 conto pra ele se deitar com ela.

O que é que a Igreja tem a ver com isso?

Se a Igreja liberar Chicó da promessa, é só ele se

deitar, ela pagar, e ele saldar a dívida com o Major!

Hum, isso é meio complicado.

De acordo com o art. 358 do Código Canônico, uma

promessa só pode ser comutada se for por uma boa causa.

E o amor não é uma boa causa?

Sim, mas de acordo com o art. 431 do mesmo Código,

um homem e uma mulher só podem dormir junto se forem casados.

Então melhorou, porque ela já é casada, e Chicó vai casar em seguida!

Ela é casada?! Menino! Então o pecado é mais grave ainda!

Deus me livre de cometer esse pecado! Vou fugir, pronto!

Então não tem jeito, Chicó vai fugir e a gente devolve o dinheiro.

Não, não, espera!

Pra quem é que Chicó fez essa promessa?

Foi pra minha Nossa Senhora.

Oh, mas por que é que você não me disse logo?

A padroeira é de casa, tenho bastante intimidade com ela, ela

não vai me negar a comutação duma promessa besta que nem essa.

Ainda mais que o altar dela está mesmo precisando de umas corzinha, não sabe?

Pode deixar meu filho, fica tranquilo, que com Nossa Senhora a gente se entende.

Mas de acordo com o art. 358 do Código Canônico, uma

promessa só pode ser comutada se for por uma boa causa!

E o amor não é uma boa causa?

Sim, mas de acordo com o art. 431 do mesmo Código,

um homem e uma mulher só podem dormir junto se for casados.

Mas pelo que eu saiba, ela já é casada, e você vai se casar em seguida.

Sim, mas...

Mas, mas, nem meio mas. Sou eu, o bispo, quem está lhe liberando da promessa.

Muito obrigado, seu Bispo, mas meu trato foi direto com Nossa Senhora

e mesmo que ela viesse aqui pessoalmente me

desobrigar do compromisso, não ia adiantar nada!

Agora eu só tenho uma mulher que me acende o facho.

Meu beija-flor só levanta vôo se for pelo mel de uma certa Rosinha.

Cê disse isso, Chicó?

Disse também que quando o coração de uma pessoa tá

enroscado no de outra assim como o meu tá enroscado no seu

tem nada no mundo que possa desenroscar não.

Desenrosque mesmo não, senão meu coração vai ficar batendo pela metade.

em vez bater tum-tum, vai bater um tum só,

esperando que o seu complete o batimento.

Venha junto por causa de que nós ainda tem que acertar esse compasso.

E o que que cê vai fazer pra pagar o dinheiro de meu pai?

Se aperreie não. João Grilo dá um jeito!

Aquilo é o cabra mais inteligente que eu conheço,

e do fundo do quengo dele há de sair uma solução.

Sei não, Chicó.

Espremo, espremo, e não sai uma ideiazinha!

- Não desanime homem, vai ver é fome. - É nada.

Fome, aperreio, antigamente isso tudo fazia eu pensar mais rápido!

Mas cadê aquele João Grilo, o quengo mais fino do Nordeste!

Capaz de fazer dormindo o que ninguém faz acordado!

Acabou-se. O poço secou, Chicó.

Nem uma gota de pensamento, nem um clarão de entendimento.

Estou como num quarto sem porta

e pra onde quer que eu me vire dou com as ventas na parede.

Franzino, pobre, e agora burro!

O jeito que tenho é me matar!

Adeus, Chicó,

nunca mais...

- vou comer farinha. - João!

Que desgraça é essa! Cê num pode morrer no meio dessa história!

Pronto! Acordei!

Ô homem pra morrer, ô homem pra ressuscitar, esse...

Você ainda não entendeu que isso foi a grande ideia que eu tive?

Você não tinha ficado burro e por isso que ficou morto?

Chicó, se burrice matasse, cê já tinha batido a cachuleta faz tempo.

Eu enfiei a faca foi nessa bexiga cheia de sangue que eu escondi embaixo da camisa.

Menino, vixe que eu tô tremendo até agora, olhe pra aqui.

É assim mesmo que tu vai fazer.

Você vai botar essa bexiga que enchi de sangue debaixo da camisa...

vai fingir que morreu, mas deixe que você vai fugir pra bem longe.

Aí Rosinha finge que ficou doida de tristeza, e então vai lhe encontrar.

Cê já usou essa ideia de fingir de morto, todo mundo já tá prevenido.

Dessa vez tu vai morrer de morte matada...

na frente da igreja e de todo mundo, que é pra ninguém duvidar.

O padre e o bispo tão sabendo de tudo e vão testemunhar a sua morte.

E quem que vai querer me matar?

O cangaceiro. Você vai morrer feito herói, defendendo a cidade.

Tá desconversando, e eu lá quero história com essa gente?

O cangaceiro sou eu, demência!

Eu vou chegar disfarçado.

Mas você não é meio magrinho pra ser cangaceiro, não?

Na hora do apavoramento, ninguém presta atenção em detalhes.

Valha-me minha Nossa Senhora, se eu sair dessa...

Homem não prometa mais nada, que depois quem tem que pagar sou eu.

E eu vou entrar nessa parada seco, é?

Confie em mim.

Pode começar a arrotar valentia por aí, que amanhã você vai enfrentar...

o rei do cangaço!

Vidinha aqui tá muito parada!

Minha mão tá coçando pra dar uns bofete!

Mas faz só 3 dias que você botou pra correr os valente da cidade!

Eu já tô doido pra uma briga de foice.

E quem é besta de vir topar com você?

Bando de frouxo, Seu Eurico!

Já pensei até em me alistar na Volante pra sair por aí matando cangaceiro.

Homem, se aquiete.

- Aquilo lá é uma guerra! - É isso mesmo que eu quero!

O pipoco dos tiros!

A mulherada gritando!

A bala zunindo no pé do ouvido!

Ah! Acabou tudo, os cangaceiros estão aqui na cidade!

- Eita que agora eu me espalho! - E a polícia?

- A polícia correu! - Correu foi?

Então, informaram que eles vinham lá pelas banda da igreja...

eles saíram exatamente pelo outro lado!

Sabe que me deu uma vontade danada de rezar?

Homem, você se lasca!

Comigo é assim, escreveu, não leu, o pau comeu.

Vou até deixar as armas!

Vou acabar com esse cabra é na dentada.

Você tem certeza que isso não é bala?

Não se preocupe Eminência...

São bombas de São João que João Grilo espalhou pela cidade toda.

E esse reboco tá caindo por quê?

- Benção, padre! - Deus te abençoe, Severino.

Vim lhe pedir pra rezar um ofício de casamento.

Ah, e cadê a noiva, meu filho?

Tá aqui!

Trouxe a morte pra casar com o senhor.

O que é isso aí deitado, é um cônego?

- Bispo. - Ótimo.

Nunca tinha matado um bispo, o senhor vai ser o primeiro.

Levante-se e deixe de chamego. Chilique comigo não pega!

Va. Rvma. vai me desculpar, mas me deixe ver os bolsos.

Só lamento essa minha pobreza, que não me permite ajudar os amigos.

Mais pobre do que V. Senhoria é Severino de Aracaju que não tem ninguém por ele.

A não ser seu velho e pobre papo-amarelo.

7 Conto!

É possível?

Tô vendo que o negócio de reza tá prosperando por aqui!

Isso aí era um dinheirinho que tava guardado pra reforma da diocese.

Quem sabe o padre também não tá pensando em reformar a igreja...

E não tem alguma coisa pro seu amigo Severino?

Tenho, não vou negar. Aqui está, seu Severino.

1 conto de réis. É tudo o que tenho para lhe dar neste momento.

É mesmo? É possível?

Em terra que o bispo tem 7, um padre deve ter no mínimo 3.

Olhe lá! Num disse?

3 contos!

Tô quase pensando em largar o cangaço...

e me empregar como sacristão!

Seja quem for o corno que invadiu essa igreja...

Venha cá pra fora que é pra eu lhe aparar o chifre!

Vai conhecer o que é um macho!

Porque comigo a volta é por dentro...

que nem pavio de vela e talo de macaxeira!

Taí duas coisas que eu não sabia.

Uma, que eu era corno.

Outra é que defunto falava.

Ai, mamãe...

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