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Original subtitles

Legendas revistas por: RosaeCrucis

Pronto? Pode come�ar.

Quando se aceita partir numa miss�o de um ano na Ant�rtica, sabe-se que...

Na verdade, na condi��o de cozinheiro, como eu,

quando se aceita trabalhar numa miss�o de um ano na Ant�rtica

j� se sabe que vai ser duro.

Sabe-se que as condi��es de trabalho e de vida

s�o dif�ceis...

N�o, n�o est� a resultar.

Entra e sai, n�o estou a conseguir enquadr�-lo.

N�o faz sentido.

John! Volta, por favor.

N�o faz sentido filmar aqui fora.

Est� a balan�ar demasiado.

Estamos na porra de um navio.

Eu avisei-te em Sidney!

O mar est� agitado. � rid�culo!

O que esperavas, John?

Dentro do barco ser� muito mais f�cil.

- John. John! - O que foi?

Arquip�lago de Crozet

Ei, voc�!

Quem � aquela mulher ali?

Pensei que s� havia homens na base.

� a presidente. A cozinheira.

- Como? - Chamamo-la assim...

...porque antes de vir aqui para a ilha

ela era a cozinheira 'chef' do Presidente da Rep�blica

no Pal�cio do Eliseu, em Paris.

Base Cient�fica Alfred Faure

Apresento-lhe o novo cozinheiro, o Loic.

Bom dia, seja bem-vindo.

Ent�o, Babette?

Esses s�o os patos que eu cevei durante tr�s semanas.

- J� alguma vez cevou patos? - N�o, nunca.

Gr�gory, explique-lhe como se cevam patos.

Sim, senhora.

Encha este pote com ovos e trufas

para que os ovos absorvam bem o perfume das trufas.

Sim, isso eu sei.

Enquanto isso, vou preparar os patos para o jantar de amanh�.

J� sabe qual ser� o menu da minha festa de despedida?

N�o, gostaria de saber.

Caldo de alho com cubos de 'foie gras' fresco.

'Magret' com molho agridoce acompanhado de batatas 'sarladaises'.

E 'Saint-Honor�' com creme 'M�m�e'.

Com licen�a.

- Gr�gory. - Sim, senhora?

Daqui a dois minutos pode coar o molho que deixei reservado.

Depois disso, misture com o 'minestrone' e sirva com o parmes�o separado.

Ol�.

Ol�.

Estou a gravar um document�rio

para a televis�o australiana.

Importar-se que conversemos um bocado?

Estou muito ocupada. Estou a preparar o jantar de amanh�.

N�o tenho tempo, estou ocupad�ssima.

Disseram-me que foi cozinheira do Presidente Franc�s.

O trabalho que tinha no Pal�cio do Eliseu

era muito diferente do que faz aqui na ilha de Crozet?

Gr�gory, acho que as massas est�o prontas.

Estou certa que n�o seria a mesma coisa.

Pode pedir ao seu 'camera man' para parar de me filmar?

- Mas pode falar comigo, n�o? - N�o, n�o � poss�vel. Lamento.

N�o � poss�vel.

P�rigord, quatro anos antes...

Temos que dar meia-volta.

Tudo bem, viramos � esquerda depois da cruz.

Muito bem.

Ele est� na estrada de T�rrasson.

Ent�o ter� que virar � esquerda logo depois da cruz.

Foi o que acabei de lhe dizer.

Disseste-lhe que era para virar � esquerda?

Sim, ele acabou de chegar.

- At� logo. - At� logo.

O Sr. Presidente da C�mara pediu que o desculpasse.

Ele queria vir busc�-la pessoalmente

mas teve um problema de �ltima hora.

Estamos em cima da hora.

N�o � inc�modo nenhum,

mas preciso que a v�o buscar imediatamente na esta��o de Brive.

Vai no comboio das 8h50 para Paris.

� imprescind�vel que esteja algu�m l� para receb�-la.

Obrigado, Nicole.

O seu bilhete de comboio.

O regresso � �s 17h23, chega �s 22h18.

Um t�xi esper�-la-� na esta��o de Brive para a levar a casa.

Na esta��o de Austerlitz estar� uma viatura

que a levar� diretamente � Rua de Valois.

O Minist�rio da Cultura.

L� encontrar-se-� com o Chefe de Gabinete do Ministro.

N�o d� passagem... Imbecil.

� ele o alto funcion�rio que precisa de uma cozinheira?

Isso eu n�o lhe sei dizer. N�o sei.

- Porque quando o Sr. Landreau me telefonou ontem... - O senhor qu�?

O Sr. Landreau, o presidente da C�mara Sindical da 'Alta Cozinha Francesa'.

N�o o conhe�o.

Foi ele que me telefonou ontem a dizer

que um alto funcion�rio de Estado procurava uma cozinheira.

N�o me soube dar mais informa��es,

s� me disse que queriam uma mulher que soubesse cozinhar.

Passa.

Com uns peitos grandes, se poss�vel.

N�o vai dar para passar.

- Perd�o, o que disse? - Nada.

Sra. Laborie.

� o senhor que me vai levar ao Minist�rio da Cultura?

N�o. Sou eu. David Azoulay.

J� n�o vamos � Rua de Valois. Vamos diretamente para o 55. Vamos.

Ao 55 de onde?

Ao 55 da Rua do Faubourg Saint-Honor�.

- Sabe o que �? - N�o. Porqu�? Devia saber?

O 55 � o Pal�cio do Eliseu.

Por favor... com licen�a.

Acompanhe-me.

Bom dia, minha senhora.

Esperam-na na sala ao lado. Queira acompanhar-me.

Bom dia. Entre, por favor.

- Bom dia. - Venha...

Sente-se, por favor.

Sei que est� com o tempo contado...

Em resumo, o Presidente da Rep�blica ficaria feliz

se aceitasse administrar a cozinha privativa do Eliseu.

Isto �, as suas refei��es pessoais com os amigos e colaboradores.

Sinto-me honrada, s� que...

N�o creio ser a pessoa que procuram.

N�o, n�o, n�o.

� que s� fa�o coisas muito simples.

Sempre cozinhei s� para o meu irm�o, a minha m�e e a minha av�.

� justamente isso que o Presidente deseja.

Ele quer para si no Eliseu uma cozinha de m�e.

Sim, mas n�o sei se conseguirei,

Sr. Chefe de Estado... de Gabinete, perd�o.

Eu... como � que hei-de de dizer?

Acho que n�o estaria � altura, entende?

O Presidente pensa o contr�rio.

A senhora foi recomendada por pessoas da sua extrema confian�a.

Perd�o, mas ser� que me podia dizer quem falou de mim ao Presidente?

Foi o pr�prio Jo�l Robuchon que a mencionou ao Ministro da Cultura.

O Jo�l Robuchon?

Conhece o Jo�l Robuchon, certo?

Sim, claro.

S� o vi... uma vez.

Troc�mos cart�es de visita e apenas isso.

Muito bem.

Se precisar de alguns dias para se instalar em Paris,

n�o h� problema nenhum.

Sim, mas h� de convir que n�o posso abandonar

a minha fazenda assim do dia para a noite.

Os animais, o meu tio... tantas coisas.

Tenho a certeza que encontrar� uma boa solu��o.

Sim, sim. Se tem assim tanta certeza.

Important�ssimo. Jamais atravesse o p�tio.

Siga junto � parede e entre por aquela porta ali para descer ao subsolo.

Ou ent�o entre pela Rua do Eliseu do lado esquerdo,

mas essa � a entrada dos fornecedores.

N�o seria elegante. Fa�a o favor.

Outra recomenda��o importante.

As pessoas com quem se cruzar:

Jovens, idosas, conhecidas, desconhecidas.

Cumprimente-as, a todas.

Diga bom dia com defer�ncia,

pois nunca se sabe com quem se pode cruzar.

Tem sentido de orienta��o?

Porqu�? Preciso de uma b�ssola?

Isso � importante quando se trabalha no Eliseu,

t�o importante quanto o protocolo.

Daquele lado fica o leste, do outro lado o oeste.

Leste, oeste.

Comecemos pelo lado oeste, o faroeste como dizem alguns.

Tudo por causa dos assassinos contratados.

Para ter uma ideia,

a Central prepara 70 mil refei��es por ano,

servidas por uma equipa de 24 pessoas.

As panelas s�o todas de cobre,

da �poca de Louis Philippe

e levam uma hora e meia, todos os dias, para limpar.

Mas n�o precisa de se assustar.

S�o todos experientes e ligeiros, como pilotos de corrida.

E usam luvas brancas.

Com licen�a.

Vou apresentar-lhe o Sr. Lepiq, o nosso chefe de cozinha.

Sim. N�o...

Faremos uma apresenta��o mais completa noutra altura.

Estou � procura do superintendente...

Sr. Moncoulon!

Sr. Moncoulon, o nosso assistente.

A Sra. Laborie, encarregar-se-� da cozinha privativa do Presidente.

Est�o todos muito ocupados. Vamos por aqui...

Onde est� o superintendente?

O Lepiq sempre ao telefone.

N�o estou a encontrar o Sr. Coche-Dury.

Vou ligar-lhe.

S� um minuto.

Bom dia, sou o Philippe Coche-Dury.

T�nhamos encontro marcado, desculpe a demora.

N�o se preocupe. J� ia ligar-lhe.

Bem, pe�o desculpa.

Deviamos dar uma vista de olhos nas reservas.

Se desejar podemos come�ar j�.

- Sim. - Acompanhem-me.

N�o tem de ser voc� a fazer as compras.

O Pal�cio do Eliseu tem os seus pr�prios fornecedores.

Se precisar de qualquer coisa...

Pe�o desculpa de n�o poder ficar mais tempo,

mas qualquer coisa de que precise...

Qualquer d�vida ou problema, sabe onde me encontrar.

- Certo? - Sentido de orienta��o?

Isso!

- At� logo. - Azoulay.

Como dizia, se precisar de alguma coisa em particular,

ter� necessariamente de passar primeiro pelas minhas m�os.

Tudo tem de ser devidamente justificado.

Aqui fica o frigor�fico.

Aqui ficam, evidentemente, as carnes, os peixes, etc...

Continuemos por aqui.

Ali fica a sala de jantar da Grande Cozinha.

� ali que, todos os dias, �s 11h30 em ponto,

a senhora ser� convidada a dividir a mesa com o Pascal Lepiq,

o seu assistente e o chefe pasteleito.

- Bom dia. - Bom dia.

Bom dia.

� grande, o corredor!

Aqui, chamamos a isto "O T�nel".

O Sr. Luchet n�o est� aqui?

N�o, mas posso ir procur�-lo, se desejar.

N�o � preciso. Eu encarrego-me disso.

- Apresento-lhe o... - Nicolas Bauvois.

O Nicolas Bauvois, o jovem pasteleiro

que a Cozinha Central destacou para a senhora.

- Bom dia, senhora. - Bom dia.

Ser� ele o seu assistente.

Com licen�a, vou procurar o chefe de sala.

Quer dizer que foi "destacado" para mim?

Sim, senhora.

Ent�o...

- Esse � um "Piano Lacanche". - Sim, estou a ver.

O mesmo do outro lado.

Mas, est�o novos!

Na verdade foram muito pouco usados.

Que m�quina � essa?

� um Pacojet, madame.

� uma m�quina para fazer gelados, sorvetes...

Mais tarde voc� explica-me isso.

E isto? Do que se trata?

� uma panela de press�o Gastrovac.

� igual a uma panela pequena

que se pode esvaziar com uma bomba.

Liga-se aqui e regula-se assim...

Para que serve isso?

Isso � para a temperatura. Faz um barulh�o.

� complicado, h�?

- E isto � um forno? - Sim, � um Convotherme.

Isso est� escrito ali.

N�o... sim... � maneira de dizer. � um forno a vapor.

Serve para peixes, legumes,

algumas carnes a temperaturas baixas...

Apresento-lhe o Sr. Luchet,

o chefe de sala encarregado do servi�o privativo.

Senhora.

Senhor.

S� excepcionalmente saberemos de antem�o quantas pessoas estar�o � mesa.

Geralmente ser� avisada �s 11 horas

para um almo�o que dever� ser servido �s 13h15.

O que lhe dar� duas horas para o preparar

obrigando-a a apresentar-se aqui todas as manh�s.

� a mim que dever� apresentar a sugest�o de menu.

Submet�-lo-ei ao secretariado do Presidente

que no-lo devolver�, corrigido ou n�o,

para ser mandado para a gr�fica.

A mesa ser� posta antes do meio-dia

em fun��o do n�mero de convidados.

As toalhas s�o desdobradas e passadas no local

para que n�o se amachuquem.

Por aqui, se fizer o favor.

De seguida vem a prataria

e por fim a florista.

Com licen�a.

O que espera, exatamente, o Presidente de mim?

Isto �, o Presidente tem alguma prefer�ncia em especial?

Ou que n�o goste de todo?

Ningu�m me falou acerca dos seus gostos.

Desde que cheguei s� me falam de trajetos, de protocolos,

de assassinos contratados, de b�ssolas,

mas nunca de cozinha.

Talvez seja melhor marcar um encontro com o Presidente

para saber o que ele deseja.

N�o � bem assim que as coisas funcionam.

Se o Presidente desejar um marcar um encontro consigo, ele f�-lo-� saber.

Est�o a chegar!

Meus senhores!

Um pouco de sil�ncio.

Bom dia.

- Bom dia, senhores. - Bom dia.

Reparaste na blusa?

- Mas ela � jeitosa... - Chega, falem baixo.

Soube que antes de vir para c� tinha uma pousada em Dordogne.

Segundo se diz tem liga��es em todas as regi�es.

N�o, n�o � bem assim.

Parece que est�o mal informados.

Na verdade, sou uma das pioneiras na organiza��o de est�gios

para inicia��o de estrangeiros � cozinha francesa.

Na fabrica��o de 'foie gras', 'magrets', 'confits', etc.

� isso.

J� me aconteceu de receber jovens 'chefs' do mundo inteiro,

do Jap�o, dos Estados Unidos...

Enfim, j� devem ter lido isso em algum lugar.

No 'Le Bohemio', na 'Time Magazine'...

Aqui n�o nos sobra muito tempo para ler.

Bem, ent�o, bom apetite a todos.

Perd�o, j� tinha come�ado.

� a primeira e �ltima vez que como com aqueles machistas.

N�o s�o m�s pessoas.

N�o, s�o apenas grosseiros.

J� alguma vez tinhas conduzido numa estrada como esta?

Claro, John...

Claro que j� tinha conduzido numa estrada como esta.

� s� para teres cuidado.

- John! - O que foi?

A c�mera, a c�mera! � a cozinheira! Filma!

- Viste-a? - N�o!

Como assim, n�o?

N�o consigo ver porra nenhuma!

Ol�!

Viva!

Se conseguiste apanhar isso vai ficar fant�stico.

John, o que foi?

A bateria? Idiota!

- Jacques! - Sim?

Tem de falar com aquela australiana para parar de insistir.

J� falei com ela ontem � noite.

Ent�o ela n�o entendeu.

Estava a dar a minha corrida e ela perseguiu-me com a carrinha.

N�o aguento mais.

Eu falo com ela outra vez.

Queria um pouco de paz. Afinal � o meu �ltimo dia na base.

Tenho de preparar um jantar enorme, e estou exausta.

N�o quero que me filmem.

S� falta querer filmar-me na casa de banho.

Deixe isso comigo.

Estou? Bom dia, senhora.

- Muito bem. - E ent�o?

M�os � obra. Seis pessoas para o almo�o.

O Presidente da Rep�blica receber� cinco convidados,

hoje ao meio dia, aqui no Pal�cio Eliseu.

Sim?

J� fomos informados, Jean-Marc.

E o que planearam?

Ainda n�o sei.

Muito bem.

Pegue numa d�zia de cogumelos-de-bordeaux.

Pegue tamb�m...

N�o � isso... Ah, aqui est�...

Esse repolho grande.

Cenouras pequenas... Prefiro aquelas ali.

Para preparar um bom caldo.

Come�aremos com um caldo de cogumelos de Bord�us ao ceref�lio

seguido de repolho recheado de salm�o.

Talvez na brasa, talvez com cubos de 'bacon'.

Espere... escrevo o qu� exatamente?

Repolho recheado com salm�o da Esc�cia e cenouras do Vale do Loire.

Gosto de coisas com origem conhecida.

E para a sobremesa?

Um 'Saint-Honor�', Jean-Marc.

Pode come�ar a coar o caldo.

Sim, assim que colocar isto no forno.

Enquanto isso, as minhas cenouras cinco minutos no vapor

e de seguida v�o diretamente para o repolho.

Nicolas, preciso de uma etamina.

Do qu�?

Uma etamina, um peda�o de tecido fino.

- Para forrar a minha peneira. - N�o, n�o temos disso.

- V� ver se t�m na Central, por favor. - Sim, chefe.

- O que quer agora a "Du Barry"? - Precisa de uma etamina.

Vai fazer o qu� com uma etamina?

� para o repolho.

Precisa de uma etamina

para forrar uma peneira

e preparar um repolho recheado.

Para preparar um repolho recheado?

O repolho � que vai rechear o Presidente, isso sim.

- Calma a�... - Vamos voltar ao trabalho, pessoal.

'Chef'.

Nicolas.

Se quiserem alguma coisa na privativa

n�o � aqui que devem procurar,

e sim na Superintend�ncia, depois de passar pelo Coche-Dury.

Diz � tua chefe que isto aqui n�o � nenhuma feira nem um bazar, est� bem?

Sim, 'chef'.

Bem, eles tamb�m n�o t�m.

Bom...

- Vou ausentar-me 15 minutos. - Ai sim?

- Consegue terminar o 'Saint-Honor�' enquanto isso? - Sim, chefe.

- Com 'cr�me chiboust'? - N�o! Com 'cr�me de M�m�e'.

Espere! O que � um 'creme de M�m�e'? Aonde vai?

Volto daqui a 15 minutos.

O que � um 'cr�me de M�m�e'?

Voc� � que � confeiteiro.

'M�m�e'... deve ter a ver com a av�.

Assim que puser a farinha

acrescente leite quente para amolecer a mistura

e de seguida misture tudo com o resto do leite.

Ponha em lume brando at� ferver,

batendo sempre durante uns cinco minutos.

Pronto, j� encontrei!

Nicolas, o mais importante,

quando acrescentar as claras em neve,

certifique-se de que o creme esteja quente

para que cozinhem um pouco.

Isso.

Forro com duas camadas de repolho,

uma camada de salm�o...

Assim.

Jean-Marc, pode dar-me um pouco de sal grosso.

Obrigada. Repito a opera��o...

- Parece perplexo. - Perd�o?

Quando cozinho tenho que falar, dizer tudo o que estou a fazer.

- Sou assim. - Por mim...

- Com licen�a. - O que foi?

Prove.

Exatamente como fazia a minha av�.

Bravo!

Por favor, senhores, tragam os pratos para aqui.

Qual � o prato do Presidente?

Ponham-nos aqui.

Sabem se ele comeu o repolho todo?

- Creio que sim. - Ele comeu as folhas de cenoura?

� primeira vista ele demonstrou surpresa.

Cortou uma folha, comeu uma cenoura...

Pouco depois pegou numa folha com o garfo

ficou a olhar atentamente e comeu-a com prazer, sem d�vida.

Sim. Um ponto para ele.

Podem retirar os pratos, por favor.

Mas, o Presidente pode ter fingido.

Cozinha privativa da Presid�ncia da Rep�blica, pode falar.

Amaciar at� obter a consist�ncia para salpicar com o ceref�lio

um 'filet en cro�te' acompanhado de fricass�e de cogumelos 'girolles'

e, para terminar, 'tarte p�tissi�re' de frutos vermelhos

e 'nougatine aux pistaches'.

- A porta ainda est� fechada. - Eu ligo para a portaria.

Pode deixar, eu desenrasco-me.

Pe�o desculpa. Acho que me perdi.

Como? A senhora �...?

Sou a sua cozinheira, Sr. Presidente.

Hortense Laborie.

Ah, sim, claro.

Est� tudo a correr como esperava?

- N�o lhe falta nada? - N�o, est� tudo perfeito.

At� ao momento as minhas obriga��es

n�o me permitiram receb�-la.

Mas reservarei um tempo para conversar com a senhora.

Com muito prazer.

Desejo-lhe um bom dia.

Bom dia, Sr. Presidente.

- Aqui est�! - Obrigado, Hortense.

Bom...

Por favor!

Tenho umas explica��ezinhas a dar.

Primeiro, as trufas v�m diretamente da minha pr�pria trufaria.

Tem um pouco no gratinado

mas esta noite encontr�-las-�o essencialmente

nas batatas 'sarladaises'.

Outra coisa...

Infelizmente os cogumelos de Bord�us que v�o comer no gratinado s�o liofilizados.

Lamento imenso, mas...

Se algum dia desejarem provar

o verdadeiro gratinado de macarr�o com cogumelos-de-bordeaux

� s� visitarem-me no P�rigord.

N�o � assim t�o longe, s�o s� 12.000 kms.

Est�o todos convidados!

Deix�-los-ei a comer e vou fazer o que sempre fa�o depois do almo�o.

A partir de agora o Gr�gory e o Loic � que se v�o ocupar de voc�s. Bom apetite.

Quanto tempo ela trabalhou para o Presidente?

Tr�s anos.

- N�o, menos que isso. - Ele disse-me 3 anos.

- Por que raz�o ela n�o me disse? - Ela tamb�m � assim conosco.

Ela n�o gosta de falar acerca disso.

- Acho antip�tico da parte dela. - H� que compreender...

Desde que ela deixou o Eliseu,

toda a gente lhe pergunta como era o Presidente.

O que ele gostava de comer.

Se sabia que ele estava doente.

Se dormiu com ele.

O qu�?

"Dormiu", se fez amor com o Presidente.

Os pol�ticos adoram dormir com mulheres bonitas.

As jornalistas, as assistentes.

Na Austr�lia n�o � assim?

N�o. N�o temos um Presidente da Rep�blica.

Na Austr�lia � diferente, trata-se de uma monarquia.

- � constitucional... - N�o, t�m c�mara de deputados.

- Seja como for, fazem amor... - Rapazes!

O Presidente pediu para me ver.

Por favor, o Presidente espera-a.

O Presidente sabe que estamos prontos para ir?

Ele quis receber a Sra. Laborie.

Garantiu que n�o levar� mais do que dez minutos.

- O Presidente s� vai sair daqui a dez minutos. - Dez minutos?

Vou ligar para o Le Bourget para atrasarem a partida.

Senhores, todos a postos daqui a cinco minutos.

Sinto-me muito feliz de estar aqui nesta casa espl�ndida.

E muito honrada com a confian�a que depositaram em mim.

Trabalho em excelentes condi��es com a ajuda de um jovem muito talentoso.

Mas...

Faz-me falta uma coisa.

Falta-me uma dire��o.

N�o sei bem que tipo de cozinha esperam de mim.

Fa�a uma cozinha simples.

Detesto complica��es, prepara��es muito enfeitadas, decora��es in�teis.

Quando aqui cheguei,

o confeiteiro, certamente para me agradar,

dava-se ao trabalho de decorar as suas sobremesas com rosinhas de a��car.

Rosinhas de a��car.

Eu tinha horror �quelas rosinhas.

Sistematicamente, eu punha-as na borda do meu prato.

E sistematicamente elas reapareciam no meu prato.

Por fim, tive que lhe mandar um bilhete

para me livrar delas definitivamente.

Preciso de redescobrir o sabor das coisas.

Das coisas simples, verdadeiras.

Por exemplo,

adorei a omelete de cogumelos-de-bordeaux que me preparou no primeiro dia.

Se preparar pratos como os da minha av�

dar-me-ei por feliz.

D�-me o que h� de melhor na Fran�a.

Sim?

H�?

Como assim, ainda n�o partiram?

- Ningu�m pensou em avisar ao Presidente? - N�o.

- Algu�m ligou para o Presidente da C�mara? - N�o.

H� quanto tempo ele est� com ela?

H� cinco minutos.

- O que tanto t�m para falar? - N�o sei.

Pois tente saber!

Quando eu era pequena, adorava livros de receitas.

N�o me diga, livros de receitas, voc� tamb�m?

Conhece o "�loge � la Cuisine Fran�aise" de �douard Nignon?

N�o, acho que n�o, Sr. Presidente.

Quando eu era crian�a lia livros de culin�ria.

O de Nignon era o meu favorito.

As receitas dele faziam-me sonhar.

Sabia-as de cor.

Acho at� que ainda me lembro de algumas delas.

Por exemplo, lembro-me...

...do pato � Rouen Surprise.

Come�ava com estas palavras:

Do pa�s de Pierre Corneille

fa�am-me chegar um pato dos mais gordos.

Do pa�s de Pierre Corneille

fa�am-me chegar um pato dos mais gordos.

Hoje em dia nunca se escreveria assim.

Os tempos eram outros.

Era outra cultura.

Acho que ficaria horas aqui a falar de cozinha.

Vou terminar a nossa conversa perguntando

se n�o valeria mais a pena do que tratar de pol�tica.

Pronto. Est�o a sair.

Philippe, telefone para o aeroporto.

Diga que nos vamos atrasar mais meia hora.

Obrigada, Sr. Presidente.

- N�o acredito! - Sr. Presidente...

O que se passa?

O que lhe deu? Disse que seriam s� 10 minutos.

Perd�o, n�o quero p�r em causa a qualidade dos fornecedores do Eliseu,

mas acho que eu poderia arranjar coisas ainda melhores.

Na verdade, gostaria de poder escolher os produtos pessoalmente

sem ter que passar pela Central.

� do Eliseu novamente. Tivemos um novo contratempo.

Por exemplo, em Pazayac, uma cidadezinha perto de onde eu moro,

conhe�o uma mulher que cria as melhores galinhas do mundo.

E o boi de Coutency, conhece? S�o da ra�a Limousin.

S�o criados com em Kobe, no Jap�o.

S�o massajados diariamente,

o que torna a carne mais macia e saborosa.

Extraordin�rio!

Obrigada.

Sra. Laborie, posso falar consigo um momento?

Estou ocupada, Sr. Chefe de Gabinete. Noutra altura.

O champagne preferido do Presidente.

Acabo de saber que o Presidente a autorizou a...

Perd�o... Estou, Tonton?

Sim!

Tenho um pedido para lhe fazer.

Pode colher 3 ou 4 quilos de cogumelos de Bord�us?

N�o dos grandes. Dos pequenos, tipo rolha de 'champagne'.

Gostaria de falar com o Sr. Papas, por favor.

Da parte da Presid�ncia da Rep�blica.

N�o, n�o estou a brincar.

Para o meio-dia ser� costeleta de cordeiro com ervas, batatas Julia.

De seguida, atum de Aravis com marmelada.

E, para terminar, 'pets de nonne' de sobremesa.

� isso.

E se o Presidente perguntar o que s�o batatas Julia,

diga-lhe que a Julia era a minha av�.

Isso � da minha criadora de frangos

que reserva para mim o sangue das suas aves.

Utilizo-o para os meus recheios e molhos.

Claro, com uma colher de vinagre para n�o coagular.

Como pesa!

Diga ao Presidente para n�o se esquecer de provar o 'cro�ton' de p�o com alho.

Que a Sra. Deville lho sirva l� dentro.

Receita 'Oreiller de la Belle Aurore'.

Preparar dois recheios...

O primeiro preparado com carne magra de vitela e de porco,

o segundo, composto de f�gado de galinha e frango de Bresse

de perdizes, moelas e am�ndoas em quantidade proporcional � do 'p�t�'.

Mistura-se um ovo... caldo de carne e reduzido a uma pasta macia.

Perfeito, perfeito.

Coloco o pato a cozinhar,

acrescento um molho de cardamomo com a s�lvia.

Enquanto o pato cozinha lentamente

ocupo-me com os legumes para o 'potager' de 'sommi�re'.

Hortense, o que faz depois de p�r a s�lvia? N�o entendi.

N�o deu para ouvir.

- Ocupe-se com as suas vieiras. - � o que estou a fazer, 'Chef' Laborie.

Pare de me chamar de Chef.

Tenho a sorte de ter um belo nome antigo

que vem do latim 'hortus'

- ...que significa... - A senhora j� me disse, mas esqueci-me.

J� n�o me lembro.

- Jardim. - Isso, jardim.

E Nicolas, sabe o que significa?

- N�o. - Quer dizer "o lugar onde se compra vinho".

Chez Nicolas.

Hortense!

Hortense!

Procurei-a por toda a parte.

Dormi um pouco mais do que devia, enfim...

Ent�o, vamos preparar o jantar?

Vamos.

Vamos, vamos.

- Sr. Presidente... - Disseram-me que n�o se estava a sentir bem.

- N�o foi nada. - N�o se deve brincar com essas coisas.

A sa�de � o nosso bem mais precioso.

Todos os anos no m�s de maio em Paris

re�no a minha fam�lia, os meus amigos mais pr�ximos

para um grande banquete realizado no sal�o de festas.

Vir�o os meus irm�os e irm�s com os seus c�njuges

e os filhos, naturalmente,

para um almo�o em fam�lia.

Gostaria, portanto, para esse almo�o excepcional,

que me apresentasse um projeto de menu.

Sim?

Entre, Sr. Coche-Dury. Entre.

Sente-se.

Estava a explicar � Sra. Laborie o car�ter meio excepcional

que gostaria de dar � minha reuni�o do m�s de Maio.

Estou ansioso por conhecer o menu que a Sra. Laborie vai arquitetar.

Porqu�? O senhor foi convidado, Sr. Coche-Dury?

Que eu saiba,

o Sr. Coche-Dury ainda n�o faz parte da minha fam�lia.

O emprego da palavra "nos" faz-me lembrar o Rei Louis XIV

que dizia "n�s" para falar de si.

Mas atrav�s dele

era a Fran�a no seu todo que se expressava.

Estou certo de que o Sr. Coche-Dury

quis dizer que toda a Fran�a estava ansiosa

por conhecer o menu que vai nos preparar.

Em todo caso, obrigada, em nome de toda a Fran�a, Sr. Coche-Dury.

O Presidente da Rep�blica deseja que a mesa seja posta no jardim de inverno

para ficar mais perto dos seus convidados.

Ser� um almo�o que acredito reunir� uns vinte convidados.

Vinte e um, para ser preciso.

Portanto, o Presidente almo�ar� no jardim de inverno

ao fim do qual ele se reunir� aqui neste local

com os seus primos, os seus sobrinhos,

os seus amigos...

- Estava formid�vel. - Obrigada.

Muito prazer e obrigada, senhores.

Pe�o que me desculpem.

Para comerem todos juntos a tradicional sobremesa de Ys�ges.

� senhora, portanto, cabe a responsabilidade pelo almo�o

e � Cozinha Central a do buf� e das sobremesas.

Alguma quest�o?

A minha ideia � preparar uma refei��o em fam�lia

focada no Loire e nos seus afluentes.

Pod�amos come�ar com 'Foie de Canard en Gel�e au Coteaux du Layons'

e p�o de milho...

Nicolas, quero que experimente alguns p�es de milho.

Algo como p�o com especiarias ou 'galette', entende?

- Mas que seja crocante. - Tudo bem.

Tudo bem.

Em seguida.... o que foi que eu anotei....

'Cassoulet de Petits Gris � la Nantaise'

seguido de uma 'Chaudr�e Charentaise'.

- Sabem o que �? - 'Chaudr�e Charentaise'?

� uma sopa de peixe e s�pia.

Servi-la-ei como prato principal.

Depois queijo de cabra de Gr�vy

e, para terminar, uma 'Jonch�e Rochefortaise'.

- 'Jonch�e Rochefortaise'? - O que � isso?

� um tipo de queijo branco.

Feito de leite coalhado perfumado com folhas de louro

para ser comido sobre uma l�mina de tiras de junco tran�ado.

Algo que s� se consegue por encomenda

e que talvez possamos tentar fazer aqui.

Seria divertido, n�o?

- Isso � para si, Nicolas. - Vou adorar.

Ent�o, o que achou desse menu?

Parece-me muito coerente.

- E voc�, Alix? - Gosto desse vi�s intermares.

Para acompanhar tudo isso � preciso uma l�gica.

Eu ficar-me-ia pelo Loire.

Um registo do frescor, da mineralidade.

Para acompanhar o 'foie gras' podemos come�ar com um Vouvray

e de seguida um Silex.

- E com a 'Chaudr�e'? - A 'Chaudr�e'...

Pensei num 'Coul�e de Serrant Vin vigne'

fechando com um 'Clos Rougeard des Fr�res Foucault'.

Vinhos do Vale do Loire.

- Tin-tin. - Sa�de, Hortense.

Cinco s�pias e tr�s linguados, por favor.

Bom, dia, foi a C�mara de Agricultura de...

A C�mara de Agricultura de Charente-Maritime.

Sim, foram eles quem me deram o seu telefone.

Encontrei no "Conhe�a a Cozinha de Charentes".

� uma edi��o antiga, de 1922.

1922.

Pronto, a l�mina de tiras de junco tran�ado.

Pegamos na mistura, dispomo-la sobre a l�mina de junco

e dobra-se.

N�o.

N�o, n�o resultou.

Essa receita n�o � boa?

Demasiado seco.

N�o p�e vinho branco na 'Chaudr�e'?

Ai sim? Coloca.

Mas isso � antes...

Antes... depois?

Um pouco firme, mas...

Com licen�a, vou cuspir.

- N�o � assim. - Pois, ainda n�o � isso.

Bem, e depois? Ela diz tudo ao contr�rio!

Senho... senhora, espere.

� para cortar em l�minas ou postas inteiras?

N�o, n�o, n�o, as s�pias brancas!

N�o, est� a desfazer-se. N�o � por a�.

Vou tentar outra vez.

Adeus, senhora.

Hortense, espere, espere!

Uma nova experi�ncia de p�o de milho.

Fiz umas pequenas altera��es.

Amargo. Demasiado amargo.

Veremos isso amanh�. At� logo, Nicolas.

Boa noite, Hortense.

Amargo.

Est� bom.

O menu foi aceite pelo Presidente.

Muito bem.

Perfeito.

Vamos, meus senhores, despachem-se!

J� est� decidida a composi��o do menu.

Isto � uma brincadeira?

Esta sobremesa � alguma anedota?

A sobremesa � comigo.

A si cabem-lhe as entradas, o prato principal e os queijos.

Logo, fa�a-me o favor de retirar a sua sobremesa deste menu.

Por favor!

Sim, mas a 'jonch�e' n�o � uma sobremesa, � um queijo branco.

Est� a gozar comigo? Est� a gozar?

Creme de am�ndoas, � um queijo?

- Xarope de sabugueiro, � um queijo? - Isso est� quente!

- Nicolas, fique de olho nisso. - Fique descansada.

'Chef'!

N�o tive inten��o de mago�-lo,

s� que n�o posso modificar o menu j� que foi validado pelo Presidente.

O Presidente! Acha que n�o percebo o seu arranjo com ele?

Esse safado quer tornar-me num in�til, � isso?

Tenho 30 anos de casa, senhora. Trinta anos!

Conheci muita gente como voc�, que se acham os donos da casa.

Amantes que se fazem passar por amigas do Presidente,

dando ordens a torto e a direito...

Essa gente � toda assim, mas comigo n�o!

Comigo n�o, comigo a coisa � diferente!

E n�o se esque�a que a sobremesa � comigo, n�o consigo!

- N�o podemos servir isso de sobremesa. - Nem como "entre pratos".

Resume-se, portanto, a um queijo branco.

Uma especialidade 'rochefortaise' que lhe agrada.

Que n�o interfere de forma alguma na miss�o confiada � Cozinha Central,

que � a de preparar as sobremesas.

O que comp�e essa refei��o?

Um come�o, um meio e um fim.

� isso. Cada prato leva a outro.

Existe uma ordem, uma l�gica.

Se retirar o toque final, o que sobra?

Uma coisa sem jeito nenhum.

Diga ao Presidente que cada detalhe tem a sua import�ncia.

O que quero dizer � que

cada produto foi escolhido com a maior aten��o...

Neste momento o Presidente tem outras prioridades.

Muito bem.

Como fez isto?

� uma receita de p�o 'fougasse' que eu adaptei.

Leva um ter�o de farinha de milho,

um pouco de mel, uma pitada de a�afr�o.

Mas aten��o, uma informa��o...

N�o � feito no forno mas sim na panificadora

e n�o vai na torradeira para tostar

mas sim � grelha bem quente.

Assim fica menos gorduroso, como � suposto.

- Est� genial. - Desta vez ficou bom.

� essa a consist�ncia perfeita.

- Com o seu creme de am�ndoas, fica divino. - Obrigado.

S� tenho d�vidas se a geleia em baixo n�o est� de mais.

N�o, na minha opini�o n�o est� de mais.

Justamente, ela empresta um buqu� floral

que contrasta com o agridoce creme.

Percebe?

Al�m do mais, sabe a uns bombons que eu costumava comer em crian�a.

Logo,

� uma sobremesa que nos traz lembran�as de inf�ncia

sem cair na demagogia dos doces de morango tagada

ou sorvetes de castanha, coisas assim.

Entende o que eu quero dizer?

H� alguma coisa errada?

N�o. Estamos prontos, Nicolas. Bravo.

Correu mal.

Pediram-me para retirar o 'jonch�e' do menu.

Pediram, mas quem? Que hist�ria � essa?

N�o sei. Veio da Secretaria Geral.

O Presidente est� ao corrente?

Francamente? Duvido.

N�o fui eu que pedi dois assistentes, mas j� que est�o aqui

n�o os mandarei de volta para a Central.

Ficarei convosco.

Como se chamam?

- Abdelkarim. - Jonathan.

Sabem limpar um fil� de linguado, fazer um caldo de legumes?

Sim, 'chef'!

N�o, aqui voc�s n�o me chamam de 'chef'.

Tratem-me por Hortense.

Tamb�m n�o me chamem de "Du Barry".

Estou enganada?

N�o � assim que me chamam na Central?

Sabem porque me chamam de "Du Barry"?

Eu n�o sei. Tu sabes?

� porque faz muito 'foie gras'.

N�o.

�, por causa do 'foie gras'? A Condessa Du Barry, � isso?

N�o s�.

� que no s�culo 18 a Du Barry era a favorita do Rei Louis XV.

� por isso.

Sabem o que � uma favorita?

N�o, senhora.

� a amante do Rei.

A puta.

Bem, vamos ao trabalho. M�os � obra!

Jonathan, quanto tempo fica a 'fougasse' na salamandra?

Quarenta e cinco segundos.

Pode colocar as 'tartines'.

- Sabe contar at� 45? - Sim, senhora.

- E o peixe cozido? - Est�o prontos, pode reservar.

- Os enchidos est�o a avan�ar? - Sim.

Os empregados de mesa t�m dez minutos. Vamos montar j� os pratos.

J� est�o prontos l� em cima.

Quanto tempo falta, Jonathan?

- Onze segundos. - Conte em voz alta.

Dez, nove, oito...

Pegue em dois pratos para as 'tartines', por favor.

...cinco, quatro, tr�s, dois, um, zero.

R�pido, r�pido, r�pido. Toca a acelerar.

E ent�o, Jean-Marc?

O Presidente n�o disse nada acerca da 'Chaudr�e',

mas isso n�o quer dizer que...

Vamos, vamos, n�o fiquem parados.

Tragam os pratos para a salada, por favor.

- O molho est� pronto? - Sim, est� tudo pronto.

Um ter�o de vinagre bals�mico,

um ter�o de azeite de avel�,

um ter�o grande de azeite de oliva

e um ter�o pequeno de sumo de lim�o.

- O que foi, Nicolas? - Mas isso d� quatro ter�os.

Pois �...

Coment�rio t�pico de pasteleiro.

Habituado a tudo bem medidinho, pesado...

Pois fique a saber, Nicolas, que um cozinheiro n�o � um contabilista.

Um cozinheiro � um artista que prefere preparar maravilhas

com um simples aspargo de Argenteuil,

uma cebolinha de Paimpol,

um fio de vinagre de M�dena...

Perd�o.

Sra. Laborie...

Fa�o quest�o de felicit�-la pelo sucesso do almo�o de hoje.

A 'Chaudr�e' que preparou estava exatamente igual

�quela que eu comia com a minha fam�lia.

O almo�o proporcionou ocasi�o de evocar

uma torrente de recorda��es de inf�ncia.

N�o me perdoaria se n�o lhe pudesse agradecer.

- Mas eu... - Minha senhora.

Formid�vel, n�o?

Obrigada.

D�-me c� isso.

Como � que ele fez isso, o 'Grand Chef'?

Mil folhas, chocolate, baunilha e bombom,

'ganache' e laranja amarga.

E voc�s, rapazes, gostaram?

- Est� bom. - Sim.

E voc�?

N�o sei...

Acho que associar baunilha com laranja amarga n�o combina.

N�o combina porque

quando se mastiga uma fava de baunilha j� � �spero,

al�m de tamb�m ser amargo.

E isso n�o combina com o amargo da laranja.

� redundante.

Mas tecnicamente, est� bem feito.

Falta-lhe apenas personalidade.

Concordo. Qualquer um a podia ter feito.

N�o tem autoria.

A groselha est� �tima.

Estou a brincar.

O Presidente achou que gostaria.

Pref�cio de Sacha Guitry.

Fa�am-me chegar do pa�s das ervas abundantes,

dessa Normandia onde triunfam vacas e vitelas de alta estirpe,

um lombo de vitela cuja carne iguale em brancura a das mais finas aves.

Amarre-a com quatro voltas de fio,

e doure-a numa assadeira rasa.

Estou?

N�o.

N�o, n�o me avisaram de nada.

Vou j�.

Sabia que o Azoulay foi substitu�do?

N�o.

N�o, mas n�o lhe cabe a ele fazer isso.

Mas ele � um absoluto incapaz.

Sra. Laborie, a cozinheira do Presidente.

Sim.

Como preferir.

Mas n�o diga que veio daqui.

Sei l�, diga que � uma rapariga foi mandada pelo cardeal.

N�o, n�o... Sim, falamos mais tarde.

- Jean-Michel Salom�. - Hortense Laborie.

Disseram-me que tem uma trufaria no P�rigord.

Sim...

Enfim, acabei de plantar os carvalhos ano passado.

At� poder colh�-los levar� uns tr�s ou quatro anos.

Estou?

Sim. E ent�o?

Mas eu avisei.

� o tipo mais tosco que eu conhe�o. Sim.

Com certeza que n�o � assim que ele vai encontrar uma circunscri��o.

Sim, tudo bem.

Desculpe.

Bem, ent�o...

Pedi-lhe que viesse aqui pois estamos a proceder

a uma pequena reorganiza��o dos servi�os do Eliseu.

E, em rela��o � cozinha privativa,

gostar�amos que a partir da pr�xima semana

os menus destinados ao Presidente

fossem submetidos para an�lise com maior anteced�ncia.

Para uma an�lise mais completa.

An�lise? Que an�lise?

� a pedido do m�dico do Presidente.

E ent�o?

Espero que goste de trabalhar com frutas, meu caro Nicolas,

porque os 'babas au rhum', as 'tarteletes' de chocolate amargo

e as 'madeleines aux pistaches' acabaram.

Porqu�?

Porque a partir da pr�xima semana, tal como na pol�tica,

haver� uma mudan�a de regime.

Analis�mos o conjunto de menus desde a sua chegada

e precisamos de abandonar tudo o que for molho, queijo e doces.

E reduzir consideravelmente toda a gordura animal.

Privilegiar as carnes magras, os peixes

e os cozidos a vapor.

Mas para os convidados do Presidente

n�o precisar� mudar nada, pode cozinhar...

Isso vai ser muito dif�cil.

Por outro lado....

Em rela��o � semana que vem...

Perd�o. Pe�o desculpa.

Do que se trata este 'boeuf des mariniers du Rh�ne'?

� p� de alcatra. Uma carne magra...

...cortada em fatias de 1 cent�metro

servida com batatas 'la Ratte du Touquet' cozidas a vapor.

- � preparada como? - Na panela.

Passo a explicar.

Coloco na panela

uma camada de cebola, uma camada de p� de alcatra,

tomilho, sal e repito a opera��o

finalizando com uma camada de cebola.

Entenderam at� a�?

De seguida, ponho a cozinhar em lume brando.

Depois retiro o caldo, misturo com os filetes de anchovas,

cubro com o molho obtido

e deixo cozinhar mais uma hora.

� delicioso.

Remete-nos simultaneamente � terra e ao mar.

Mas ainda assim, trata-se de um molho.

N�o, n�o, n�o.

O que chamam de molho

� o que se faz a partir da mistura de manteiga com farinha

que se rega com um caldo ou com vinho,

ou ao qual se acrescenta creme de leite.

Na minha receita a gordura � zero.

A �gua obtida da cebola e da carne � que forma o molho.

Ent�o � um molho, tal como estou a dizer.

Com licen�a, minha senhora, mas conhe�o o meu of�cio.

Posso cozinhar o que me pedirem para cozinhar

mas...

Como hei de dizer? At� hoje quem comp�s os menus fui eu.

Se o Presidente gostou, melhor para mim, se n�o gostou, azar.

Sei que est�o a haver mudan�as

e que eu devo apenas executar...

Sra. Laborie, quando se trate dos convidados do Presidente

a senhora continuar� a escolher...

Escute, n�o me foram buscar para ser cozinheira

de um embaixador ou de um ministro qualquer.

Foram-me buscar para ser cozinheira do Presidente.

Dele e mais ningu�m.

Se quiserem mudan�as, tudo bem, mas � preciso que me digam.

Mas � o que estamos a fazer.

Hoje aprendi uma palavra nova.

- Drinkit. - Drinkit?

Foi com uma jornalista australiana.

Ent�o, o que filmou hoje?

Como � que voc� diz?

� segredo profissional.

Ah, bem.

J� esteve na Austr�lia?

Isso � outra hist�ria.

Contar-lha-ei mais tarde, est� bem?

Sente-se, por favor.

Loic, n�o te mandei arrumar nada.

- Sim, mas... - Tudo bem, tudo bem.

Pegue na panela. Vai ajudar-nos a servir o 'magret'.

Hortense, venha para o p� de n�s! Hortense!

Este tamb�m est� pronto.

Hortense, venha para o p� de n�s!

Hortense, venha para o p� de n�s!

Bom.

- Onde est�o as 'tarteletes'? - J� est�o assadas.

Vou tir�-las sen�o ficam escuras.

� melhor deixar sen�o teremos que as requentar.

Parem tudo! O Presidente quer ostras.

Uma travessa para seis pessoas daqui a 15 minutos.

Ostras?

Mas isso n�o estava previsto!

Nicolas, ligue para a Brasserie La Lorraine, por favor.

N�o � bom sinal quando ele pede ostras.

Vou sair.

Ponha misturado.

Girardot e Savas, sim. Espere...

Com arranjo de flores, se puder.

Sem gelo na bandeja.

Sim, e sem gelo na travessa.

Isso, obrigado.

- N�o pode ter gelo na travessa. - Sim, sim...

Obrigada, est� perfeito. Muito obrigada.

- Cheg�mos. Ainda temos tempo? - Sim, temos.

Podem colocar aqui, por favor.

Preparei uma maionese com lim�o...

Uma 'mousseline' e um 'vinaigrette' com '�chalotes' cinzas.

Muito bem. Agora vou abrir duas latas de 'p�t� de foie gras'

para comerem as ostras como em Arcachon.

E a dietista que v� � merda.

Tenho medo que com este calor as ostras...

Nicolas, pode perguntar � Central

se eles nos emprestam o frigor�fico?

- Ir at� � Central... - Quer que eu v�?

N�o, n�o, eu vou!

�s tr�s horas tem que estar tudo pronto!

Alexi, vem c�, tenho uma coisa para ti!

Pronto, tranquilo, tranquilo.

Bem...

N�o nos querem emprestar o frigor�fico. Lamento.

Fala Jean-Marc Luchet.

Sim. Sim, vou passar-lhe.

Quem �?

O Sr. Salom�.

N�o, obrigada.

Voc�... O que acabou de fazer � absolutamente desprez�vel!

Desprez�vel!

N�o � digno de um verdadeiro cozinheiro.

Se eu n�o fosse mulher j� lhe teria dado um soco na cara!

Se n�o gosta de mim, saiba que tamb�m n�o gosto de si!

E a "Du Barry" manda-vos a todos � merda!

O que aconteceu?

Mandei que a chamassem porque estou com um pequeno problema, Sra. Laborie.

Sim? Disseram-lhe que a Cozinha Central se recusou a emprestar-nos o frigor�fico?

Perd�o?

E que com o calor que fazia,

se a travessa de ostras n�o fosse imediatamente para o frigor�fico...

N�o entendo nada de frutos do mar.

Mandei cham�-la pois h� um problema com os seus bilhetes de comboio.

Sente-se.

Como se explicam estas idas e voltas Brive-Paris,

em segunda classe, no dia 3 de Mar�o?

E esta de 17 de Julho?

Ah, sim. A Brive-Paris de Julho foi por causa dos cogumelos.

Dos cogumelos?

Depois do calor�o de Junho tivemos um m�s de Julho muito chuvoso.

A minha filha colheu mais de 40 quilos de cogumelos na quinta numa s� manh�, nunca vi nada igual.

Como o Presidente adora cogumelos...

O problema maior era o transporte.

Tive que arranjar algu�m que pudesse ir e voltar no mesmo dia.

Trouxeram-me ent�o dois caixotes enormes de cogumelos absolutamente perfeitos.

N�o demasiado grandes, bem redondinhos, lisos.

Foi isso.

E a minha filha aproveitou para acrescentar uma caixa de queijo Rocamadour.

Senhora, este tipo de viagens n�o pode continuar.

- Porque eu... - Que viagens?

N�o se trata de tr�fico.

S�o cogumelos que a minha filha colheu. N�o ia desperdi��-los, era preciso...

Pode ser, mas o Eliseu n�o � uma ag�ncia de viagens.

Acontece que estes bilhetes v�m parar � minha mesa e eu tenho que justific�-los.

Saem todos a ganhar, o Presidente, o Eliseu. N�o entendo.

J� pensou comprar cogumelos desta qualidade em Paris?

Bem, chega. Passemos ent�o � qualidade dos seus produtos.

Dei-me ao trabalho de fazer um pequeno c�lculo que demonstra

que o pre�o m�dio de uma refei��o preparada pela Cozinha Central

custa mais de tr�s vezes menos que uma refei��o preparada na sua.

- Sim, mas... - Mas � de mais!

N�o pode comparar uma cozinha que prepara 3.000 refei��es por m�s

com uma cozinha que prepara 150.

A organiza��o n�o � a mesma. Os produtos tamb�m n�o s�o os mesmos.

Isso j� eu percebi.

Com o pre�o que os seus fornecedores cobram at� eu mudaria de emprego.

Quer que lhe mostre as faturas?

Eu mostro-lhe as faturas.

Veja bem, asseguro-lhe que n�o desperdi�o nada.

Trabalho com pessoas apaixonadas pelo que fazem

a um n�vel de excel�ncia, a pedido do pr�prio Presidente,

Por exemplo, conhe�o um mercado

que cultiva legumes que desapareceram.

Sabores novos que h� muito j� t�nhamos esquecido.

- Todo esse trabalho tem um pre�o. - Senhora...

� um pre�o que tem que ser revisto.

Obrigado.

Esse bolo � o �ltimo que fa�o aqui.

Volto para Fran�a amanh�.

Deixarei a Base Alfred Faure,

mas creio que n�o estarei sozinha no barco.

O David estar� comigo, o Baptiste tamb�m.

O �douard tamb�m, claro.

O Olivier, n�o?

Bem, s� queria dizer-vos umas palavras.

Esta noite lembrei-me de um an�ncio,

j� faz mais de um ano...

Procura-se para uma miss�o em Terras Austrais e Ant�rticas

um homem, 'chef' de cozinha de 25 anos

para comandar uma cozinha de cantina escolar.

Fui eu que preenchi essa vaga

e posso garantir que tive que lutar para conquist�-la.

Eu quis mesmo vir para c�.

Mas... Bom, n�o quero tocar nesse assunto.

Mas dir-vos-ei porque resolvi fazer um 'Saint-Honor�'.

Na verdade s�o duas as raz�es.

A primeira �...

� uma homenagem a minha av�,

foi ela que me ensinou a faz�-lo assim.

Com massa folheada, massa de 'choux' e creme.

A outra raz�o � porque durante mais de dois anos

trabalhei numa rua que tem o nome desse bolo.

No n�mero 55...

Isso deixa marcas.

Mas foi aqui que consegui virar a p�gina.

Porque viver nesta ilha durante um ano.

Ao vento, ao frio,

em isolamento...

Isso deu-me for�as.

Bem, n�o vou continuar com as confid�ncias,

porque quero que vejam o que eu estou a ver.

O que aqui se trata � de comer!

Desfrutem do bolo!

H� que chegue para todos.

Vou comer uma bombinha.

Precisa de alguma coisa, Sr. Presidente?

Est� tudo bem.

Est� tudo bem.

A Sra. Arvelet disse-me que recebeu trufas.

Sim. Est� bem informado.

Deseja v�-las?

- N�o atrapalho? - De maneira nenhuma.

Imagino que sejam as primeiras da esta��o.

S�o.

Veja s�.

Que maravilha!

Ch�teau Rayas 1969.

Obrigado.

Perfeito.

T�m-lhe feito a vida num inferno ultimamente, h�?

A mim tamb�m.

A adversidade.

Pessoalmente, � a adversidade que a mant�m entre n�s.

� um elogio. Compreende?

Boa noite, minha senhora.

Boa noite, Sr. Presidente.

Fil� de linguado eu j� agendei para o dia 25.

Ent�o coloquemos um peixe menos gorduroso...

N�o vai fazer grande diferen�a.

Vai ficar melhor...

N�o, vamos pensar noutra coisa.

- Bom dia, Nicolas. - Bom dia, Jean-Marc.

O Presidente n�o vai almo�ar aqui hoje.

Muito bem.

- Bom dia. - Obrigado.

Ser� o Sr. Pascal Lepiq quem acompanhar� o Presidente

na sua visita oficial � Tun�sia.

Durante os quatro dias de sua viagem,

ser� a senhora, que se encarregar� do Eliseu.

O que significa que os seus servi�os

ser�o retomados ap�s o regresso do Presidente.

O qual se dar� no dia 7 de manh�.

Uma ter�a-feira.

Chama-se fratura de esfor�o.

� este tracinho aqui na t�bia.

� quase invis�vel numa radiografia simples.

F�-lo sozinha.

Requer repouso, andar o m�nimo poss�vel

e evitar for�ar a perna afetada.

Abram alas!

Hortense?

Hortense?

Estou aqui.

O que se passa? Est� a escondida?

Estou apenas um pouco cansada.

Tudo o que voc� fez para o jantar foi grandioso.

O 'magret' n�o estava suculento.

H� dias assim, em que as coisas n�o correm bem.

S� n�o entendi porqu�.

- Est� triste? - N�o.

� uma pena que se v� embora amanh�.

Sabe o que vou fazer?

- Vou embebedar-me. - Eu tamb�m.

Vai-se arriscar?

- Hortense? - Sim?

Senhoras e senhores...

Senhoras e senhores...

Esta noite vamos contar-lhes, a partir do menu, a hist�ria...

Ainda n�o!

A hist�ria bem apimentada da cozinheira

que quase se tornou Primeira-Ministra de Fran�a.

Esta hist�ria, ver�dica, tem o seu in�cio no Pal�cio do Eliseu.

Naquele dia, como acontecia todas as manh�s,

o Presidente veio cheirar os odores que subiam at� ao seu quarto.

Ent�o, o que me preparou de bom, minha cara Hortense?

Senhor Presidente, fiz rins de vitela...

N�o, n�o, n�o diga mais nada.

Deixe-me s� cheirar os seus rins.

O Presidente adorava os rins de vitela com 'sauce poulette' que a Hortense lhe preparava.

Na verdade adorava tudo nela.

Adorava os seus belos e fartos peitos 'farci',

os seus linguados divinos, tudo...

At� os seus 'choux pets de nonne' delicadamente perfumados.

O que me daria um grande prazer

era comermos juntos os tais rins.

Desculpe, mas faz mais de duas horas que tentamos falar com a senhora.

Lamento, mas precisam da si na cozinha.

Um avi�o partir� amanh� de manh� para...

Entre, por favor.

- O que se passa? - Um avi�o partir� amanh� de manh�...

...para se ir juntar ao Presidente, na Tun�sia.

Precisa de preparar a comida

para as doze personalidades que far�o parte da comitiva.

Teremos a confirma��o do voo logo mais � noite.

Onde se meteu?

H� mais de duas horas que andam atr�s de si.

- A que horas parte o avi�o? - �s 6:50.

Hortense, colhi esta rosa...

A rosa? A rosa? Onde est� a rosa?

Colhi esta rosa nos jardins do Eliseu,

�s escondidas do jardineiro.

Sr. Presidente, n�o precisa de ficar de joelhos.

Ai, ai, ai, ajude-me a levantar.

Sr. Presidente, est� a aleijar-me!

Vamos ver os pratos que me vai preparar...

Que bom � morarmos juntinhos.

Se continuar assim, Sr. Presidente,

vou mand�-lo terminar as suas reuni�es na Cozinha Central!

Isso n�o, isso n�o!

Mas � o meu cora��o que est� a falar, Hortense!

Sim, o monop�lio do cora��o, isso j� sei que tenho.

Esqueceste-te do sotaque? Onde est� o sotaque?

Que tal ent�o uma L�gion d'Honneur?

N�o ser� assim que vai me conquistar.

Ent�o f�-la-ei Primeira-Ministra.

- Palavras, palavras, palavras... - Voc� � linda!

- Palavras, palavras, palavras... - Continua linda!

S� palavras, como voc� � malvado.

Caramelos, bombons e chocolates.

Agrade�o, mas para mim isso n�o serve.

Ofere�a-os a outra.

Bem, acabou...

Felizmente, querida Hortense,

a senhora teve a boa ideia

de recusar tornar-se Primeira Ministra de Fran�a.

Logo no primeiro dia que chegou

perdemos logo um pouco daquela sensa��o Ant�rtica.

Faz exatamente agora um ano.

E, para ser franco, a senhora n�o parecia muito � vontade.

Percebemos logo que contrari�-la n�o era uma boa ideia.

Os seus limites tiravam-nos do s�rio.

N�o pod�amos entrar na cozinha.

Nem debru�ar-nos sobre os pratos quando comiamos.

T�nhamos que levantar o dedinho para pedir sal.

- N�o falar mal o Franc�s... - Sen�o era logo uma reguada!

- T�nhamos de trat�-la por "madame". - N�o pod�amos trat�-la por "tu".

Mas hoje, Hortense, queremos trat�-la por "tu" pela primeira vez.

E dizer que te amamos como tu �s.

Dizer-te que vamos sentir saudades tuas.

E que n�o te vamos esquecer.

E aos teus 'choux pets de nonne' tamb�m.

Portanto, diremos apenas "at� um dia destes", Hortense.

� apenas um "at� um dia destes".

'Sim, n�s ver-nos-mos novamente, Hortense'

'� apenas um at� um dia destes'

'Ser� preciso deixar-nos sem a esperan�a'

'Sem a esperan�a de voltar?'

'Ser� preciso deixar-nos sem a esperan�a'

'De um dia nos voltarmos a ver?'

'� apenas um at� um dia destes, Hortense'

'� apenas um at� um dia destes!'

'Brindaremos � tua gentileza, Hortense'

'� apenas um at� um dia destes'

Vim pedir licen�a para voltar para casa, senhor.

No prazo que mais lhe convier, se poss�vel hoje.

Aqui est� a minha carta de demiss�o.

E uma carta endere�ada ao Presidente da Rep�blica.

Obrigada.

- Bom dia, senhores. - Bom dia.

- Bom dia. Procuro o Sr. Moncoulon. - Est� ali atr�s.

Obrigado.

- Bom dia, Sr. Salom�. - Bom dia.

Desejo informar que a partir de ter�a-feira

a Cozinha Central reassumir� os servi�os privativos.

J� avisei o Pascal Lepiq que est� na Tun�sia.

Ele n�o dever� tardar em procur�-lo.

Bem... Bom dia.

- Bom dia, senhores. - Bom dia.

Senhores, podem festejar! Recuper�mos os servi�os privativos.

Sr. Presidente da Rep�blica,

quando ler esta carta aquando do regresso da sua viagem � Tun�sia

eu j� terei partido.

Terei despido o meu avental preto e deixado a cozinha do Pal�cio do Eliseu.

Se decidi partir hoje, fi-lo por n�o me sentir mais � altura da miss�o que me confiou.

Entretanto, durante quase dois anos,

entreguei-me a essa miss�o com toda a felicidade.

Com devo��o.

Mas hoje, Senhor Presidente, estou cansada.

Terrivelmente cansada.

� portanto, hora de eu partir

e de ceder o lugar a algu�m mais jovem,

mais talentoso e, talvez at�, mais obediente.

Este � um trabalho realizado � sombra, por vezes ingrato.

Foram raras as ocasi�es em que encontrei

e nem sempre sabia se a minha cozinha era do seu agrado.

Todavia, e apesar de tudo,

adorei estar ao seu servi�o, Sr. Presidente.

Assim, � com tristeza que parto

e s�o muitas as lembran�as que levarei comigo.

Espero que n�o acabe por se esquecer de mim

e que se lembre de vez em quando da cozinheira

que lhe preparava 'beignets' de flores de ac�cia

e 'risotto aux trompettes de la mort',

pois eu jamais o esquecerei.

Porte-se bem, Sr. Presidente,

e tenha cuidado com os regimes.

Pois, como dizia Montesquieu:

A pior doen�a � a sa�de conservada por um regime extremo.

N�o sei se as regras de protocolo me permitem, mas...

Mando-lhe um beijo, com a minha mais sincera considera��o,

Hortense Laborie.

Voc� disse-me, ontem,

que esteve na Austr�lia.

Fiz l� fazer prospe��o.

Andava � procura um terreno entre Melbourne e Camberra

para fazer uma trufaria.

Mas encontrei o sitio perfeito na Nova Zel�ndia.

Foi por isso que vim para esta maldita ilha.

Era um trabalho muito bem remunerado

e agora poderei usar o dinheiro para me instalar l�.

A Nova Zel�ndia � t�o linda!

� maravilhosa, � uma terra virgem.

T�o nova.

N�o � uma corrida do ouro, � uma corrida �s trufas.

N�o existem pepitas de ouro, mas exitem trufas.

Gosta de trufas?

- Adoro trufas. - "Truffes".

"U". � dif�cil dizer em franc�s, n�o �?

Truffle.

Muito bem.

Para mim n�o h� nada melhor no mundo.

Sair de manh�, bem cedinho, com o seu c�o.

Caminhar pela floresta, respirar o cheiro da terra.

E de repente o c�o come�a a ficar que nem louco, procura, fareja,

e ali, ao p� de uma �rvore

� a perfei��o.

O milagre.

- Temos que ir, senhora. - Sim.

Legendas revistas por: RosaeCrucis

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