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Então teu filme começa assim, nesta imagem.
Pessoas negras a caminhar numa vasta praia, coroada por navios abandonados e
vultos voadores de abutres cansados de fome.
No início do século XX, apesar da abolição, centenas de pessoas
ser sequestradas em pequenas vilas e terras distantes no Moçambique e levadas
Brasil.
Pessoas que valeriam o risco do mercado ilegal por serem protegidas e guiadas
por espíritos de riqueza e azar, capazes de forjar o ouro e as pedras preciosas
sob as terras das minas gerais.
E assim foi levado daqui um menino, a se lembrar -lhe sozinho.
Um menino que o seu espírito de proteção, riqueza e mau alvoio tinha
nome curioso.
Andam.
Isto aí que você está filmando é teu avô.
Dono de terras no interior do Brasil e que na juventude tinha criado gado,
tido escravos escondidos, tinha feito muito dinheiro e deixado a família em
busca de riqueza e de glória.
Sonhos sussurrados por um misterioso osso fémur que ele carregava pendurado
cintura e que ele devia esconder suas memórias e os segredos do passado.
Mas o tempo passava e o teu avô ainda não tinha encontrado merda alguma sob o
solo que havia desmatado e destruído feito um gigante.
Era o ano de 1984, ano em que a democracia parecia voltar à tua terra
e o teu avô, solitário, cheio de dívidas, passou a viver sozinho numa
madeira com um menino guitarrista que se apaixonou por ele.
e que era o único que não tratava como homem.
Encontrar o amor depois de ser velha carcaça podia ser capaz de acalmar o
no peito daquele homem bruto e orgulhoso.
Mas as febres noturnas não o acalmaram.
E o teu avô saía pela noite onde devia ouvir vozes, conversar com as sombras e
ver o espírito africano corpulento e colhido que um dia, eu diria, me iria
libertar daquela vida que era sua.
E dar -lhe um lugar entre os grandes.
Entre os reis.
. . .
Me queima com o cuidado, me arde os olhos, eu danço sem olhar, eu danço
cego. Me queima com a paz, me desperta, me desperta,
me desperta. Me atrapalha, me atrapalha,
me atrapalha, me atrapalha,
me atrapalha.
E aí E aí E aí
Ficou embora antes da última música.
Juliano. Sim?
Meu filho Caçula ligou.
Meu neto nasceu.
Tu sabe o que
isso significa?
Além de estar ficando ainda mais velho hoje, virando oficialmente um robô.
E o mundo?
O que é que significa, vovô?
Tu vai ter que ir lá.
Conhecer o monstrinho.
E tu vai ficar aqui sozinho os dois ou três dias.
Tu vai cuidar sozinho da casa, da pedreira, dos cães, da guitarra.
E de quem?
Tá bem.
Tá bem.
Eu posso fazer isso.
Você vai pro Rio e me traz um disco.
Um presente. Sei lá.
Eu quero aprender uma canção nova.
Sabe qual é o meu maior medo, não sabe?
Tu sabe o medo que eu tenho dessa cidade.
Medo que eu tenho desse vendaval de pudicos.
Eu sei me safar.
Eu sou um preto inteligente.
Perigoso.
Eu tô também, amigo.
Te cuido.
Jogo branco, cagão.
Só quando você nasceu, depois de anos de isolamento do resto da família, o teu
avô atravessou a noite e desceu até ao Rio de Janeiro para conhecer aquele que
seria um dia o herdeiro de todas as suas riquezas.
Felicidade te dá por aquilo que faz.
Estava mesmo a tremer isso aqui, pai.
Acorda.
Obrigado.
Ninguém sabe ao certo o que aconteceu naquela noite de inverno.
Dizem que foi um menino mesmo que armatou ao tentar utilizar a escavadora
aclarar a procura de riquezas da pedreira.
Dizem que foram os homenzinhos da cidade brutal que não podiam suportar a
alegria de dois homens apaixonados.
Dizem... Foi o próprio espírito amarelo e corpulento que havia -se vingado
daquele homem teimoso e doçal que não desistia da riqueza e da glória que
nunca viria.
Mas tudo o que se viu foi o sangue e as vísceres.
E as mãos enfimentadas do teu avô.
Teu avô Sebastião.
Rusal e apaixonado, foi julgado e condenado meses depois.
Morreu anos mais tarde, pouco antes de sair da prisão.
Dizem...
Você entra no teu próprio filme.
Um herdeiro.
Que tipo de herdeiro serias tu, menino tão delicado?
Que tipo de louco serias tu?
Finhaste a mirim, a crescer assim, num mundo tão
destornado de tudo.
Como é difícil virar um homem, não é assim, esta?
Tu, miúdo magro e frágil, comente tudo.
Que agora eras seguido por uma sombra debochada e gigantesca que te assustava
ajudava. Que te assombrava e cuidava de ti.
Que te daria coragem para pular aquela janela no meio da noite.
Escrever o nome do teu primeiro grande amor, pois para isso ela começa.
O coração a portar como um ridículo balão de ar quente.
E tu a escutar a mesma voz misteriosa que um dia havia sussurrado aos ouvidos
teu avô as memórias dolorosas de um passado interminável.
Foi só quando o teu avô morreu, quando o outro apareceu, que você sentiu que o
tempo passava.
Suas mãos crescendo, desordenadas, os pêlos imitarem o teu corpo de todos os
lados. A voz ainda frágil até cantar a coragem cruel e desesperada dos heróis
sua mãe.
Fernanda?
Só quando o teu avô morreu, foi que o vulto te sussurrou que os amores todos
desapareciam em dias.
Perdidos nos profundezos daquela sombra dourada e boa, se guardarias cada
excesso teu, cada amor teu, cada pensamento teu,
e não te deixaria esquecer de nada.
Eu não quero ver isso.
Porque ontem à noite, eu virei um homem.
Eu queria que você fosse a primeira a saber.
É que eu gosto.
Muito. Muito.
Muito. Muito.
De você, cara. Muito.
Eu não sou de verdade.
Estou muito nojento, Fernanda.
Desculpa.
Fernanda.
Aquela seria a tua maldição e a tua aventura.
A doença toda a que mais corrói os ossos é a memória sem esta.
Então, o senhor sabe que como gerente da sua conta, não é o meu papel analisar o
argumento de um filme, certo?
Isso está claro para o senhor?
Claro.
Claro que está claro.
É que o senhor fez certas exigências ao telefone e eu achei que seria uma boa
ideia se o senhor conhecesse o roteiro.
Eu sei que não é nenhum blockbuster, mas eu tenho certeza que uma ventinha
aqui...
Outra vencinha ali.
Isso a gente vai conseguir fazer.
Um monstro de pelos amarelos que devora criancinhas.
Um velho viado casado com um escravo moçambicano.
Um osso, um osso, um osso fêmur que fala em dialeto africano.
E, além do mais, eu vi no anúncio da TV que vocês gostam muito de
cultura, esportes e da bandeira do país.
Seja no centro do reino, entre paixões de carnaval, ruas escuras e cigarros
escondidos.
E visto o teu país mergulhar no sonho de ter finalmente o elo dourado do século
que se iniciava.
Onde você poderia fazer o que mais amava.
Alô, Rubão?
Desgostado, não o quero?
Eu até morava na casa do meu pai, 15 anos depois.
E me sinto como um pirata naufragado, lidando com a morte.
O dinheiro
foi
sumindo, o brilho do ouro brilhando.
Homens bons continuavam bons.
e homens -mãos que se movem mãos.
Enquanto o país afundava, o filmável deste jovem bondoso espereste para viver
tuas dores no cinema.
E as miragens de amor iam -se desvanecendo com a ilusão de um país
E assim, o sangue da história começou a escorrer pelas ruas do país mais uma
vez. Sem que você sequer tivesse dado conta de Nádia.
Pai? Tá dormindo?
Deixa eu tirar meu cochilo, meu filho.
Voltei.
Essa mesma cara de c...
Mais velho.
Pode. Tem água suja.
Cabelo.
Pedaços de umas coisas amarelas que eu nem sei o que são.
Uma gosma florescente.
Um líquido vermelho com uns pentelhinhos perdidos.
Caindo do nosso teto.
Sinto que colocas minhas perigosas por todos os dias agora.
E vira que eu te avisava. Antes que a minha mãe percebesse da terrível
calamidade que acometeu a minha residência.
Senhor.
Fernando.
Não sei o que está acontecendo com ele ultimamente.
As luzes começaram a despencar.
Estou espalhado lá.
Quase caminhando.
Numa terra onde 5 milhões de pessoas negras foram escravizadas e mais de 10
milhões de almas indígenas arrancadas do corpo.
Como é que você pensou de desenhar -se? Um filme teu, um jogo teu, desse salvado
percepção.
Logo tu, branco brasileiro, sem origem e sem identidade, nem
europeu, nem africano, nem indígena.
Neto e bisneto, coestos e estupros escondidos, a carregar no peito aquela
ternura e o naufrágio.
Desculpa entrar assim sem avisar.
Quer dizer, ainda não foi.
Só queria te ver, conversar.
Nossa vida, caindo aos pedaços de você, engolindo dor e fumaça, sabe?
Tinha esquecido como vocês meninos são covardes nessa hora.
Um pezinho me acertou no meio da bunda e me botou no rumo.
Aperta o escudo.
Então, não sei se o Pedro te contou, mas eu gostei muito do filme.
Mesmo.
Gostei bastante. Admiro o seu trabalho, admiro a sua coragem.
Acreditar tanto assim no cinema é muito bacana, muito legal.
Mas eu falei pra... Fernando ficou muito animado, viu?
Que bom.
Fiquei.
Fiquei sempre.
Mais um vez um crítico americano.
Esse aqui era... Ridículamente desajeitado.
É, crítico.
Desajeitado. Eu nunca consegui dar um abraço nesse filme.
Em agradecimento.
Eu gosto muito do seu trabalho.
Uma delicadeza.
Me sobreviver em minúsculos.
Parabéns.
Então, eu acho o filme bastante poético.
Mesmo. Só tem um probleminha com o final.
Consegui entender.
Por quê?
Mas os personagens...
O cara larga tudo, joga tudo para o alto, vai viver uma ideia maluca de
de glória. Eu não sei, acho que se a gente conseguisse entrar um pouco mais
a psicologia do personagem, tentar explicar um pouco mais o personagem, eu
que talvez seja bom para o filme.
Você percebeu?
Percebo.
Percebo, sim.
Bom, e tem também uma coisa que eu não posso deixar de citar.
O animal amarelo. Tem um animal amarelo.
Se a pessoa, por acaso, defende cortar esse animal, tira fora isso, cara. Vamos
ver se fica com o essencial.
A gente filma a realidade, a vida real.
Basta.
Fernão, porra!
Eu achei que tivesse um, como se diz, um inseto
posado no ombro dele.
E assim neste frame, entre risos e choro, o teu mundo
começava a tremer.
Na mesma praia pequena em que caíram mortos os primeiros índios e os negros
chegavam acorrentados.
Enquanto os cadáveres escondidos do teu país saiam no chão.
E entoavam o fim da utopia e a volta das trevas.
Outros fantasmas, como o teu encosto, guardavam nos espelhos o que se podia
salvar de delirio e de boche, em dias de morte, violência e silêncio.
Nunca estava, não.
Vou buscar a vontade.
Pegar um filme de ação com bastante barulho.
Filme de insono.
Não vai mais morrer.
Que bonitas.
Foi você que escreveu?
Foi.
Posso roubar alguma ideia que foi alta?
Tchau.
Então cala a boca e volta a ser criança, capitão.
Vem até aqui.
Coloca a mão entre as minhas pernas.
Me diz o nome do lugar pra onde você quer ir.
Luz do Céu.
Luz do Céu.
Dívidas no banco, desterro. Tu sonhaste jogar uma bomba ao destino e fugir desse
país golpeado.
E há -te -vos delírias de viagem do teu vôo. O sopro do teu amoroso vulto
africano. E assim, a fábula pode finalmente começar.
E a loucura de trazer ao começo tudo.
Era uma vez.
brasileiro que ganhou.
Então chegaste à minha aldeia, brasileiro, na fronteira do Moçambique
Zimbábue. Em busca de riquezas fáceis, exercícios sobre o passado do homem,
pus o cadáver que carregava -os como um troféu amarrado na cintura.
As pessoas no garimpo logo passaram a chamar -te de... pirata -palo,
sem origem.
caminhava como um sonâmbulo e cantava alegrias como um filhote de Indiana
sem câmara para o filme.
E assim viraste uma lenda local.
E os meninos no acampamento do garimpo não conseguiam perceber se a tua palidez
era fruto de doença ou tu já estás morto.
A cor branca lá de onde eu vim era a cor dos mortos.
Era a cor usada em nossos rostos para tentar falar com a morte.
E por isso, apenas um deles teria a coragem de andar contigo pelas montanhas
proibidas.
As montanhas onde o universo teria sido criado e por onde hoje mulheres choravam
seus filhos desaparecidos.
Não se sabia se engolidos por espíritos ou pelas malícias das empresas europeias
e chinesas.
que comprava e roubava as nossas terras de nós.
Foi assim, esforçado de Alan Quartman, e a mentir sobre o teu nome, e a
esconder o teu passado no Brasil, que irias conhecer os meus dois amores, os
meus dois companheiros, o meu sócio, e embarcar em um sonho sobre ele.
O senhor
tem
osso amarrado na cintura ou eu estou a ver coisas?
Geralmente são os jovens a desobedecer.
A não acreditar que essa terra aqui tem dono.
Mas o amigo... Já parece ter um pouco mais de idade para compreender os
do mundo.
De onde é que vem você?
Eu venho da Espanha.
Eu sou um amante dos pássaros.
Os pássaros.
Os pássaros estavam a ver ali, nesse buraco.
No buraco.
No buraco.
Como em um esconderijo.
Por isso que os pássaros de Moçambique são tão tímidos.
São mesmo tímidos.
E não gostam de ser observados. Não, não lembro.
Já ouvi falar nisso, Cujarino.
Já ouvi qualquer coisa.
Tengo até uma documentação na casa. Não, não, não.
Não queremos explicação alguma.
Há uma coisa que precisas aprender aqui no nosso ambiente.
Quando o dente descer, que não há problema.
É melhor.
Agora vai.
Pássaros! Pássaros!
Pássaros!
Quem é o branco maluco?
Disse um homem.
Quem foi que deixou ele andar pela montanha com a bebida?
Disse uma mulher.
Foi o filho da Edna Emília, não foi?
Disse outra de olhos mais doces.
Esse fantasma devia tomar mais cuidado.
Disse uma menina assustada.
Assim, ele vai acabar sumindo.
Disse um segundo homem mais alto e mais forte.
E assim, entre as vozes e os sussurros daqueles homens e mulheres cobertos de
terra, os teus brilhos de alegria iriam calar. E teu bom coração brasileiro
iria atender que cantoria alguma poderia apagar os brilhos.
E que sem a tua máscara desenhaste a sensível, tu eras só mais um homem
azarento e bruçado, como tantos que passaram nestas nossas terras.
E mesmo assim eu rindo -te, e gostava -me tanto de ver -te de onde estás
A cavara de couro.
Um beijo tão parvo e tão louco.
Eu terei lanças, navios,
mulheres, palácios e coisas de tal.
Quero comer ouro.
Quero...
Quero ser rei. Ser rei é melhor do que trabalhar.
Quero ser rei. Quero ser rei. Quero ser... Mas eu...
Estava cantando tudo no tempo certinho.
E aí
Então, meu amigo, como vão os pássaros?
Olha... Eu sei que...
vai parecer que é mentira.
Mas eu sou um especialista brasileiro.
Um pintacilgo belga.
Eu tenho
que
fechar os olhos.
Aceitas trabalhar para esses dois pretos moçambicanos, lindos e simpáticos?
Foram, então, 200 quilómetros até a Oliveira, à cidade da Beira, segunda
cidade do Moçambique.
Que um dia já foi transformada em um resort, desenhada de hotéis de longe,
os portugueses voarem ao sol tropical.
Até que o sangue correu.
O tempo mudou e derrubou o império.
E assim ficámos nós aqui, pescadores, vendedores e refugiados de guerra, sob
ruínas do que já foi um templo ao genocídio colonial, construído com o
piscina e a luz cristalina dos entornos.
Ficámos aqui, diante da tua câmara, neste grande hotel da beira.
O meu forte apaz, o meu Vaticano, a minha Alcatraz.
Onde tu ias ver -me pela primeira vez, eu, rainha de Nuno.
O branquel sem noção, perdido no tempo, e carregando o fantasma, abstrado ao
brasil, sobre o qual eu ouvia nas lendas desde pequena, e que voltava assim, em
companhia tão desastrada.
Ele ainda não desistiu?
Eu tentei.
Mas... Eu não juntei.
Outra vez.
Outra vez. Outra vez. Outra vez. Chega.
Para trabalhares comigo, não tens de fazer nada além do que já sabes.
Mentir.
Os brasileiros são uma raça de mentirosos.
Premiados mafiosos internacionais.
Só tens de honrar o sangue que vestes.
Serás conhecido por hoje.
Recebeste?
Estás a perceber?
Então?
É das bolas.
Viva!
Viva! Viva!
Não vem das minas que os brancos compram e tomam de nós.
As nossas pedras somos nós quem produzimos.
Essas blusuras vêm da comida que comemos, das vísceras que carregamos.
Uma compensação do espírito.
Quer o branco aceito, quer não.
E tu, agora és meu servo, doutor.
Sebastião.
Doutor Servo Sebastião.
Geólogo internacional de mentirinhas.
Vai nos ajudar a vender as pedras preciosas dos nossos preciosos ratos.
E ai de ti, pensas em dizer que não.
Talvez por medo ou por curiosidade do nosso milagre, tu aceitaste ser o
de James Bond que há tempos só tinha sonhado em ver -te.
A pele vermelha do sol e com medo de tudo, a importar a tua cara pálida para
convencer professores e escrocos internacionais a negociar connosco.
Como eram feios os teus sonhos, Sebastião.
Como era feio por inteiro.
Ainda assim, irias atravessar conosco céu e terra.
E ainda assim, estavas perto conosco até os pintelhos do cu do teu branquelo
rabo.
E assim chegaste a Lisboa, carregando as nossas malas e com o Robin entre as
pernas.
Enquanto o milagre de nossas vísceras prometia o futuro com o qual o teu avô
sempre sonhara.
Chegaste a Lisboa e vieste comigo conhecer um grande amigo.
Um ex -soldado, caçador de ouro e elefante.
No passado tinha amado a minha mãe.
E eu tenho a oportunidade de te amar de pai.
Vejo mesmo que estou.
A presa vingativa apanhou um avião para me vir procurar.
O homem do livro que sobrou voltou com o momento de mãos.
A presa apanhou um avião, sim.
De macetes?
A Lisboa.
Veio fazer negócio com o velho soldado Sr.
João. A tua mãe tirou -me da frente de guerra. Com as unhas.
Aquela mulher morreu finalmente?
Isto é riqueza pura.
Quem é que é o bonitinho armado em Honesto? Trabalha para mim.
Bom dia, papai.
Quanta delícia.
Delícia, papai. Finalmente um homem bom.
Abaixão. Engenheiro mineral do Brasil.
O sucesso.
Suzeninha.
Prazer.
E então, papai?
Juntamos amanhã?
Claro.
Todos?
O homem do Pá -Brasil?
E os pretos simpáticos?
Sim.
Juntamos.
O acordo com o meu velho amigo e sua filha era simples.
Eles faziam contato com toda a rede internacional de compradores de pedras
contrabandeadas e nós trazíamos as nossas misteriosas joias preciosas,
brotadas dos nossos prodigiosos destinos africanos.
As primeiras vendas...
para seguir as velhas tradições europeias, eram para cobrir os gastos
brancos, os luxos deles, os jantares caros, os champanhes e os caracóis que
comias com multa à teta.
As segundas vendas seriam nossas, minhas e dos meus dois amores.
Jesus brasileiro, cumpririas a tua sina.
Ser um jumento da história, a carregar o passado do mundo nas costas e a trocar
sonhos e amores impossíveis por um punhado de dólares.
E então, então, Sr.
Sebastião, o que é que não nos conta mais das suas maravilhosas aventuras?
Os amigos do seu pai, com certeza, não vieram aqui para ficar vendo meus belos
lábios mastigando caracol.
São esses os estilos.
Eu bem que poderia vir aqui somente para vê -la mastigar, senhorita Dona Susana.
Mas eu compreendo que os tempos de contemplação já se acabaram.
E que hoje todos têm muita pressa.
E sempre tão pouco dinheiro. Ai, tão pouco.
De modo que eu convido o cavaleiro.
A cheirar o pé da Catarina.
Sintam como é cheiroso este pezinho.
Por isso é que eu sempre disse.
Moçambique tinha futuro.
Eu sempre disse em que época saí do elefante.
Papai, vem -nos para o dia desta noite.
Sem guerras e sem memórias, que é assim que nós mantemos a boa saúde, não é
verdade?
Eu até queria brindar -a uma noite bonita.
Obrigada. E assim,
o chão do Moçambique estaria finalmente a andar -nos de volta.
Assim que o tempo e a história nos tinham arrancado do corpo.
Até agora é tudo bem, não é?
Brasileiro.
Até agora os teus pássaros trouxeram -te.
Só te queria dizer uma coisa.
Se tu nos traires, eu juro que vou com essa pila
assentada.
Os primeiros dias foram bons e a tua encenação calhorda fazia a todos rir.
E assim convencemos Susana, adorada filha de soldado, a nos levar a conhecer
amigo de família.
Igualzinha sem tirar nem pôr.
As merdas eternas de Portugal.
Espelhar então.
Que é a última que morre.
Muito bem.
Um velho, branco, salazarista e brutal.
Herdeiro de terras, sem estudos e sem nada na cabeça.
Que além de filósofo, vivia...
Da janela se atirou!
Não se cansa de repetir sempre esta mesma ladainha?
Esta coisa de sonifera e abissal?
Ou será que, para além de impotente, também foi ficando surdo com a idade?
Não se preocupe, não. Ele sabe o que eu estou fazendo.
Ele gosta.
Trama, amor e anarquia.
Quando era jovem, acreditava nestas coisas.
Depois, um dia, a minha mãe foi ao céu, em 1975,
e eu herdei este pequeno refúgio.
Onde criei? Portei -nos -ia a minha, não é?
Uma escola de música, dança, etiqueta e moral.
Permita -me, Sr. Barão.
Acontece que a senhora há muito tempo não conhece um homem como eu.
Tão fantástico quanto eu.
E sem nenhum senso de ridículo.
E com tantas, mas tantas pedrinhas como esta.
Há brotado o coração.
Continua.
Continua. Estás -me a divertir.
A mim é muito útil.
Fique com ele.
Sabe destes dias, senhor varão, em que o senhor acorda e pensa, sou Deus.
O sol não estaria a brilhar no céu.
Tudo bem falando.
E tropical.
Estou. E sempre.
O que procuram deste pobre homem? Pobre romântico. Dono de uma escola de dança e
de música.
Um ONG com corpo de vaina.
A ter -se explorado.
Traídos escravos pretos.
Afas!
Parece -se neste fim de semana.
Com mais pedrinhas destas.
E fazemos negócio.
Estamos entendidos? Senhor Sebastião.
Toma conta da minha aninha.
Aquela ali... Já foi a minha esperança.
E depois de um dia... Fugiu.
O Barão não gostava dos outros.
Muito menos de gente como nós.
Não foi?
Não subimos.
Mas a que preço?
Há quantos dias não cabe um pedra?
Os nossos olhos já não podiam esconder a tragédia que se anunciava desde que
tínhamos pisado nesta estéreo terra lusitana.
Mas... Por vezes comporta -me
como bicho espelhante.
É logo depois, Maradona.
O silêncio é muito grande.
Sua cara maluca.
Tinha que fazer de um meio pra ter caído.
Ela não é maluca.
Nem princesa.
É só uma empresária.
Uma empresária do ramo mineral.
Muito me impressionou o fato de teres um rubi gravado lá.
Eu tenho rubis encravados em todas as partes, meu querido.
A minha ideia é remover o meu coração.
E no lugar colocar uma pedra.
Mas para isso eu vou precisar de uma pedra do tamanho do mundo.
Você faz um simples...
Inventou um pássaro que não existe.
E depois disse que só como eu gozando com você numa cama de hotel.
Não é bom, não é?
Não é bom, não é? Não é bom, não é?
Deixe -me ir.
Deixe -me ir.
O papai não dorme enquanto eu dormo.
O papai está a dormir amanhã.
Mas o que poderia dar errado, não é, Nuno Sebastião?
E assim tu e a tua gaja sem coração sonhavam.
E queriam dali fugir e cavalgar até o deserto. Para só um dia voltar com os
corpos bronzeados, as peles sombreadas e os ossos metálicos.
Enquanto tu saqueavas aquele corpo alto como um pirata.
E ela fingia poder escapar para sempre.
desta grande merda patriarcal chamada paz de espírito.
Estás a ouvir o macaco?
O que foi, homem?
É que ainda me impressiona o seu rupi.
Dóris de 200 mil anos.
Eu não sou só o que brilha por fora.
Eu tenho história.
Mas o azar e o delírio não abandonam assim o homem.
E o vento que joga a areia de Saara sobre os carros de Lisboa trouxe também
vulto amarelo de volta naquela tarde do verão.
Cartas e tempestades são terríveis prestágios para quem quer navegar para
Precisamos falar, brasileiro.
O mal aconteceu.
Deu tudo errado, Sebastião.
Oi? Retire -se.
Fechas faz uns anos.
Podes ir cuidar da tua vida que ela já não nos pertence.
E o barão?
E a Susaninha?
O pai da... Eu apareci lá de mão trabalhando.
Eles vão me jogar os porcos.
Por que é que não saímos dos quadros?
Vamos até a praia. Cala -te, Sebastião!
Dos brancos portugueses cuido eu.
São uns gajos medíocres, cruéis e previsíveis.
Devia ter a preocupar -te com as duas pedras que desapareceram. As duas
pedras que tínhamos para pagar as contas e não estão em lado nenhum.
O que está acontecendo?
O que está acontecendo?
É que os nossos corpos já não nos querem dar as pedras preciosas que nos
trouxeram até aqui.
Desde que chegamos a essas terras lusitanas, não geramos
uma padrinha sequer nas nossas tripas.
Cagamos ordeira e ordinariamente.
Desde que chegamos aqui, só cagamos merda. Merda como toda gente.
Não passamos de pessoas comuns.
Ouvi -se, Bastião.
O relógio de ouro, as roupas, os sapatos, tudo.
Vamos levar tudo de volta para Moçambique e vender.
Está terminado o empréstimo que lhe fizemos.
Nós vamos e você fica.
E tu preocupado com aventuras em Iaves com a tua gaja rica cor de milho.
O ciclone varreu a cidade da beira.
Por isso nós já não achamos riquezas nos nossos corpos.
Os nossos corpos não existem sem a terra que comemos.
E a culpa é tua.
Do azar que tu carregas nesses sonhos sem gravidade.
E assim partíamos.
E se deixávamos de cuecas a choramingar miséria em um quarto de hotel.
Precisávamos jogar uma bomba ao nosso destino e reinventar a nossa vida em
Moçambique. E uma vez lá e feliz, a ver nossa terra desvastada por um ciclone
e a começar nossa vingança contra o mundo.
E assim abandonado, por andar sozinho em ruas de um bairro cheio de imigrantes e
refugiados como tu.
Gente vinda de todos os cantos do mundo.
Por onde um dia andaram soldados portugueses a matar e a controlar
Até tomar coragem de ir atrás dela.
A princesa de coração duro.
A quem você ousou, como um palhaço, chamar de meu amor.
Pensei que tinhas morrido, oh mãe.
Deveria ela dar -te uma segunda chance, se me haste?
A ti, que sequer sabias reconhecer a dor engolida de uma mulher.
Mesma desta, uma desalmada.
Quebra já esta janela, rompe o mar.
Escuta atento o canto amargo das
estrelas. Os meus pés são feitos
só de outro lugar.
Não te quero a navegar.
Nas minhas veias, os meus pés
são feitos só de outro lugar.
Não te quero e não jogares nas minhas
veias.
E aí
Bacaco.
Desvenda. Pega -a.
É tua.
Está aberta. Eu já li e já sei tudo.
Então tu desapareces.
Sou -te uma carta de uma amiga brasileira a dizer que te ama.
E que tu te chamas ferrado.
Que tem um filho teu e que tem um pai que é um cineasta fulido e um cobarde,
como todos os outros.
Fazer filmes de coisa horrorosa.
O que é que você vai fazer do amor?
Vai desaparecer como um covarde?
Vai abandonar a aventura e a mentira?
Vai envelhecer e pagar contas?
Só que cada vez que eu estiver gozando de um pau de um outro homem...
Você vai sentir um vento grande do Atlântico lhe apertar as bolas.
Para lhe lembrar que eu estou muito bem aqui sem si.
E que eu, nesse instante, vou ser rainha.
E que você vai continuar assim.
Eu? Vou ser rainha.
E você vai continuar assim.
Fez descalço.
É bonito.
Obrigado.
e com duas pedrinhas preciosas roubadas dos teus amigos
africanos.
Voltaste ao Brasil para conhecer teu filho e tentar fazer um filme.
A pirata é a só que inventou o mar.
O que pode sozinho fugir da terrível travessa universal que lhe persegue?
Essa vida é um colégio.
A só
que o
mundo parou de girar.
Enquanto ele tentava ser menos covarde.
Covarde. Lu!
Luisa!
Se eu for fazer nem um filme.
Aí está mais triste, filho.
Aí está ainda mais escroto e abismado desde que você partiu.
Tem alguns amigos que foram presos por terem ido às ruas.
Outros estão indo embora.
É assim.
Como você foi.
E agora que tá aqui.
Aqui de volta nas ruínas e nas vozes do hotel da Beira.
Os meninos quase não acreditam quando eu conto sobre si.
Acreditam no teu vulto amarelo.
Acreditam nos nossos rabos milagrosos.
Acreditam na menina lisboeta que substituiu o coração por um bebê.
Mas do que todos duvidam é mesmo de ti, brasileiro.
Que você possa existir.
Como pode haver farsanto tão farso como tu, Senhor?
Como pode haver farsanto capaz de ser aqui a mudar o passado sem doer e sem
sangrar?
Ainda não fomos apresentados mesmo.
Bem apresentado.
Preciso baixar.
E aí
Homem. Eu já te pedi tanto.
Me deixa ir.
Me deixa fazer o meu caminho. Cuida dessa criança.
Homem.
Deixa cedo o chamado homem.
Eu vim te pedir para desertar.
Você esqueceu.
O medo que você persegue.
Esquecer o ouro e o ósseo.
E voltar comigo.
Eu preciso fazer alguma coisa contra o medo.
Desafiar o medo.
Se queres a glória.
Vamos fugir desses trópicos.
Vamos dançar. Pare em algum lugar frio e distante.
Onde só haja o gelo.
O silêncio.
O meu fumo.
O silêncio da mata.
A escuridão da mata em você que eu penso.
O vento batendo na formiga.
Então tu filmaste a dor do passado sem perceber que apenas reproduzias a dor
daquele homem.
Mas que o silêncio continua igual.
Não o teu silêncio. Você não tem importância alguma.
Mas o silêncio das imagens continua mastigando e mastigando o passado e
vomitando as mesmas luzes.
O homem negro amarrado.
O homem negro sangrando.
O homem negro com medo de morrer.
O teu
desejo de fazer um filme contando fragmentos de memórias do teu avô.
A ganância, a paixão.
Eterna vontade de um homem.
A obsessão pela ideia de ficar rico, carregando o cadáver mágico de um
de dor.
E tu, Fernando, perdido nesse mapa de memórias trancadas, tentando fazer
funcionar a tua máquina do tempo cinematográfica.
Enquanto o teu país mergulhava em um delírio sobre ele, feito de amnésia e de
dor.
E foi assim, entre cheiros dos cabelos das meninas,
entre pelos pubianos e música pop norte -americana,
entre os nossos rostos pintados de branco para falar com amor,
entre os olhares curiosos dos meninos moçambicanos,
entre partes de um cadáver,
Entre teu avô apaixonado.
Entre a raiva da adolescente que te deu um filho.
Entre as joias me gravadas no corpo da menina lusitana.
Entre os sons de uma guitarra mal tocada.
Eu estava bem.
Evite, brasileiro.
Mais do que qualquer câmara tua seria capaz de ver paisagem alguma um dia.
E ao olhar para ti, agora, pela última vez, nestes um alto lento,
eu não sinto raiva nem dor por ti.
Sinto uma ternura debruxada.
Talvez tenha sido a única coisa que eu tenha aprendido perto de ti.
De imaginar centenas de pessoas sentadas em salas escuras que praticamente não
existem mais só para te ver agir como o teu país.
E carregar o teu filho no vazio do teu peito.
Feito bem para o mundo.
E o que fazer?
E assim vais retornar a ter o teu fantasma dentro do filme que não é mais
que é sobre si.
Tu perguntas com um nó na gaveta desse teu pescoço pálido o que é que se pode
fazer diante de tanta crueldade no mundo?
O que é que se pode fazer diante de um mundo feito assim de tanto mal?
E ele te responde com um sussurro e uma voz familiar que te acompanha desde a
enqueca entre os dentes brancos e a pele feita de ouro e memória.
E o que é que se pode fazer?
Meu amigo.
Meu cavalo.
Meu animal amarelo.
Você pode morrer, Fernando.
Todos os dias.
Enquanto eu te devoro. E devoro esta casa.
E este teu filme.
E esta equipa atrás da câmera.
E todas as pessoas sentadas em todas as salas de cinema do mundo onde este filme
estiver projetado.
Até só restar poeira e a vontade de cruzar o brilho infinito dos centros da
vida. Só assim.
Sem cinema. Sem você.
Sem câmara. Sem imagens. E sem óculos mágicos para te guiar e
proteger do infinito trágico da história.
Pintarmos todos.
Recrutar.
Histórias nacionais, histórias nacionais,
coitados.
Ninguém me salva, ninguém me engana. Eu sou alegre, eu sou contente, eu sou
cigana, eu sou deslível, eu sou salva.
Eu perco com o mundo que rola, eu e o palhinho da
viola, vivo o palhinho da viola.
Eu perco com o mundo que rola, mesmo do lado de fora.
Atrás do muro, a voz do clube
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