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Dá aqui uma entrevistinha pra gente.
Você tem ouvido falar em noticiários, jornais, TV, rádio, sobre assassinato de
homossexuais? Já, já sim.
E o que você pensa disso?
Ah, acho que tá certo.
Não sei, não é problema que me preocupa. Acho que acabar deve acabar, né? De uma
forma ou de outra.
Prendendo, matando.
Eu acho que não deveria existir homossexual.
Eu acho que não deveria existir. Você acha que deveriam matar travestis?
Bom, eu acho que se a lei permitir, seria uma boa, né? Eu concordo com ele,
me preocupa realmente.
Para aquela época, toda a questão da homossexualidade era tratada debaixo
dos panos, quando isso era admitido ou nem era admitida. Eu vou lhe dar um
exemplo da Folha de São Paulo.
Quando aparecia a palavra lésbica...
riscava -se e se colocava a palavra feminista. Eu sei disso porque um amigo
trabalhava lá me trouxe um artigo cortado exatamente nessas condições.
E a única coisa que você poderia se referir como comprovando
existência de homossexualidade nesse país era o jornal Notícias Populares.
Trazia manchetes absolutamente sensacionalistas.
com uma visão sempre muito negativa sobre homossexuais.
Homossexual mata o outro, homossexual morto, travestis atacam.
Antes do Lampião nós tínhamos um jornal mimeografado, tinha alguma coisa a ver
com charme, alguma coisa assim, não me lembro mais o nome. E não era exatamente
imprensa, eram mais boletins, né? E de repente apareceu...
na coluna do meio, no jornal Última Hora de São Paulo. E era um respiro, porque
era uma coisa engraçada. Era uma coluna muito provocadora.
Não culpa no prato que te comeu.
Eu recebi uma carta feita com sangue.
Logo três dias depois que saiu a coluna do meio, alguém falando que ia me matar,
que eu era uma aberração, que queriam que eu desaparecesse. Logo depois
Eu já fui chamado para explicar.
o porquê que eu estava escrevendo essa coluna. Muito engraçado, acusação.
Por exemplo, eles consideravam uma tentada moral eu escrever cidade
maravilhosa. A maneira como eu escrevia era uma tentada moral.
E quando chegou essa notícia, a gente tentou falar na Folha, e o advogado da
Folha disse que era um absurdo, que eles não iam me defender.
Que eles não iriam me defender.
E havia uma característica importante também, que era a censura à grande
imprensa. Então, a única saída seria editar jornais alternativos, que também
fossem para as bancas, mas que tivessem mais liberdade de opinar. No contato com
o jornalismo dito nanico, a gente falava nanico nessa época, a imprensa
alternativa.
Era principalmente o Pasquim. O Pasquim era a base de toda a minha adoração e
volúpia de ler coisas.
Mas o próprio Pasquim era muito preconceituoso, porque era formado por
extremamente marxista e homofóbico. Quando teve a morte do assassinato do
Pasolini, o Pasquim fez uma espécie de fotonovela que era uma coisa horrorosa.
Uma brincadeirinha com uma coisa brutal, com um assassinato homofóbico.
E eu escrevi uma carta protestando para o Pasquim e eles me avacalharam.
Lá dentro existiam pessoas mais abertas, mas o Tom, no geral, era
homofóbico e transfóbico. Enquanto cartunista, que eu já era, enquanto
que lidava com a linguagem de humor, eu frequentemente retratava e reproduzia
situações onde apareciam gays.
Da mesma forma que eu aprendi como era visto gay no Pasquim, como eu aprendi
era visto gay na imprensa alternativa, de forma depreciativa.
O que aconteceu é o seguinte, teve um cidadão chamado João Antônio
teve a ideia do jornal e teve a feliz ideia de chamar para fazer um jornal
apenas jornalistas homossexuais.
Declarados, claro, porque havia muitos que não eram declarados, há muitos que
não são até hoje.
E eu respeito isso, mas tudo bem. Eu soube logo de cara através da visita do
Winston Leyland.
O Winston era o diretor do Gay Sunshine, um jornal gay de São Francisco que, por
acaso, quando eu morei lá em Berkeley, eu amava, eu não perdia nenhum número do
jornal e fiquei muito feliz em conhecer o Winston quando ele veio para o Brasil.
Aqui tem um gráfico de uma tatuagem gay da Statua de Liberdade.
Você conhece a Statua de Liberdade em Nova York City?
Sim, eu conheço.
E João Antônio Mascarenhas também era um inscrito em Gay Sunshine.
Então eu mandei -lhe todas as questões. Na época em Rio, eu tinha meus 15
minutos... ... ...
...
... ... ...
E no meio dessa conversa, nós nos olhamos e dissemos, bom, mas por que a
não faz uma coisa semelhante aqui no Brasil? E resolvemos que o jornal se
chamaria Lampião da Esquina.
Quando o desenhista foi fazer o logotipo do jornal, ele errou e escreveu
Lampião.
e fez um símbolo que parecia o chapéu de cangaceiro. Aí ficou uma coisa
originalíssima, era o Lampião da esquina. Tinha muito a ver com essa
machismo. O Lampião era a figura mais representativa do machismo nacional,
menos era naquela época. Hoje em dia as pessoas esqueceram um pouco o Lampião.
Eu participei dessa reunião.
Foi muito engraçada.
E eu não fui aceito para ser do Conselho, porque eu era uma pessoa pouco
Mas eu acho que foi um pouco para proteger o Lampião dessa... Porque eu já
um cara processado.
Colaborei com o Lampião, mas nunca fui do Conselho. Nós temos que fazer uma
coisa.
aberta. Vamos fazer as bancas, vamos fazer um jornal. Porque eu era
Dos 11, a não ser o Antônio Crisóstomo, que na época trabalhava na Veja, mas era
crítico de música popular, eu era o único jornalista de redação. Eu sempre
batalhei muito para que o Lampião fosse visto assim. O Lampião é um jornal.
Não é uma brincadeira de bichinhas. É um jornal. Éramos 11.
Aqui estão 11 viados.
Vocês pensem o que vocês quiserem, mas são viados. Um é professor na Unicamp, o
outro é professor na ECA, o outro é um escritor, o outro é um artista plástico
famoso, o outro é um jornalista famoso no Rio. E são todos viados. A primeira
coisa que nós queríamos, por quê? Era confrontar a invisibilidade e dizer,
estamos aqui, isto é parte do Brasil. Com licença, esquerda e direita, aqui
estamos.
Meu bem, eu sou bombom de cereja.
Veja, prove, morda, não seja bobão.
Eu sou um barril, um copão de cerveja.
Beba, babe, baby, se acabe nesse verão.
Oh não, não fique aí na mão, rebatendo perteca e nega.
Pega um avião e me alcança no ar, boneca não canta.
Sou estrela no mar, sou o céu, sou o mel, não basta seu pão.
Tô da lava vulcão, Marilyn da Mauá.
Colunista mais lido da última hora de São Paulo, responsável direto pelo
de vendagem do jornal, Celso Cury, o rapaz...
da Colômbia do Meio foi o curso do artigo 17 da lei de imprensa, ofender a
e aos bons costumes.
E processado, poderá ser condenado a um ano de prisão.
Eu ainda
estava sendo processado. O
número zero do Lampião, ele saiu em abril de 78.
Eu fui absolvido em 79.
O processo, de uma maneira...
no jornal específico, em circulação, davam outra força.
Era um bando de gente que estava me apoiando.
Mas a gente sabia que ia dar encrenca. E fizemos um lançamento na banca da
Cinelândia. O primeiro número que a notícia espalhou que iam lançar um
homossexual, não sei o que. E na Cinelândia, onde todo mundo ia naquela
E aí, dessa vez, os imobiliários ficaram todos de longe, olhando, achando que ia
chegar a polícia a qualquer momento e prender a gente e tudo isso. Chegar lá
jornalismo e dizer assim, só podem ver aquele jornal lá no fundo, aquele que
está escondidinho lá, que era o Lampião que estava escondido. Nós íamos para o
galpão para conseguir que os jornaleiros distribuíssem o jornal, porque no
começo foi um escândalo, eles não queriam levar aquilo.
Jornal do Viado, eles não queriam levar aquilo para as bancas.
E aí nós fizemos todo o trabalho, nós íamos para lá, confraternizávamos com
eles, íamos beber cachaça no bar da esquina de madrugada.
Até que eles começaram realmente a expor o jornal. O Fernando Quinalha, em um
determinado momento, disse não, chega, não vamos mais publicar coisa
pornográfica, então a gente tinha que sair atrás de outro que não era tão
abrangente quanto o Quinalha, que distribuía para o Brasil inteiro. E aí
pega para capar, mas conseguimos montar um esquema do Rio Grande do Sul até o
Amapá. Nós tínhamos que conquistá -los, conquistá -los ali, convencê -los a não
apenas levar o jornal, mas a expor o jornal.
Quer dizer, no primeiro número poucos fizeram isso. No primeiro, no segundo,
terceiro, no quarto número, em todas as bancas que você passava, estava lá o
Lampião.
Sim,
eu lia, eu gostava.
Primeiro eu achei quase impossível aquele tipo de coisa naquele momento,
Porque aquilo oficializava uma coisa que se vivia.
mas que não era falada, que não era exposta. Era a imprensa que me
era o que se publicava que me interessava. Não tinha acesso a
Lampião fosse leitura costumeira, mas quando caía o Lampião na minha mão, eu
lia, eu lia com inquietação e palpitações.
Também o Lampião era a coisa mais parecida que tinha na época com a
underground americana.
E todo mundo queria ler, naturalmente. Um jornalzinho, um jornalzinho
de merda gay está fazendo sucesso.
Isso incomodou muita gente. Era muito atrevimento. Um jornal de viado na
anunciando, contando o caso de viado, abertamente dizendo o que estava
acontecendo com as bichas, que matavam bichas, que o delegado plano de tal era
um sacana, que o programa tal da televisão era um programa escroto. Eu
certeza que o Lampião não vendia só.
Nós tínhamos centenas de assinantes, milhares de assinantes, nos lugares mais
estranhos, as pessoas assinavam o jornal, mandavam vale postal na época,
coisa mais prática.
O Palácio do Jornal dessa época é antes de computador, né?
Era tudo feito à mão, e é por isso que eu me aliei muito com o Agnaldo, de
Porque para nós era muito fácil, a gente escrevia, opinava, dava palpite. Agora,
Aguinaldo teve que produzir graficamente esse jornal, todos os meses.
Tudo datilografado, não é isso?
A capa tinha que ser cortada e colada, literalmente, não é mais assim, control
C, control V, nada disso.
Quem fazia isso era eu e uma jornalista chamada Adão Acosta, que já morreu.
Nós é que íamos para a oficina de madrugada, para rodar o jornal, para ver
estava errado.
Eu me lembro que uma vez nós estávamos indo para o Jornal do Comércio, na Rua
Livramento, que era uma zona bastante deserta do Rio de Janeiro. Quando
uma esquina, tinha uma blitz da PM.
Eu e o Adão. E aí eu dei uma freada tão brusca que as páginas que estavam todas
no banco de trás do carro, quer dizer, caíram todas e se espalhou. O material
espalhou todo.
E os PM chegaram e perguntaram, o que é isso?
Eu falei assim, papel velho. Os caras não se deram ao trabalho de olhar o que
era e deixaram ele embora.
Tínhamos que remontar tudo, todas as páginas, tudo isso. Esse trabalho físico
era feito por duas pessoas, eu e o Adão.
Às vezes o jornal rodava.
5, 6 horas da manhã. Era um sistema muito complicado, porque era em offset,
vinha todos aqueles filmes, você tinha que consertar as provas. Era um drama,
era uma coisa pavorosa. Não é essa facilidade que tem hoje no jornal, que
faz sua matéria e vai para casa, e quando chega em casa o jornal já está na
internet.
No dia seguinte você está velho. Aí havia um revezamento.
Quando a reunião? Um mês.
Era em São Paulo, outro mês no Rio. Quando a reunião era no Rio, era
na casa do Mascarenha. Quando era em São Paulo, era no apartamento do Darcy
Penteado. Eu gostava muito de me relacionar com o Darcy, porque ele
essa maneira mais independente. Ele era um lorde, uma pessoa muito delicada, que
discutia as coisas, era ponderado, mantinha a linha dele, tinha as relações
dele.
os amigos dele na mais alta sociedade paulistana.
Foi um privilégio conhecer o Darcy, porque o Darcy era o grande artista da
paulistana, além de tudo.
E era uma pessoa muito bonita, uma barba branquinha e um olho muito agradável.
Tem um aqui, sabe?
Esse é do Darcy, que ele me deu.
Lindo.
De cara, o jornal ficou instalado no Rio de Janeiro, no endereço do Rio de
Janeiro, porque o Aguinaldo já tinha uma pequena infraestrutura organizada. Eu
ia diariamente à redação.
Mesmo que não tivesse nada o que fazer, no jornal mensal você ficava boa parte
do tempo sem ter o que fazer.
Esse prédio aqui.
Só que era um boteco bem ruinzinho. Aqui tinha uns botequinhos baratos e cerveja
barata. E as reuniões engraçadíssimas lá na Lapa.
que a gente fazia. Tinha uma sala pequenininha, horrível, uma espelunca.
Eram duas salas, né? Você tinha a 707, que era a parte administrativa, onde
ficava o Sr. Maurício, e a 706, onde tínhamos um mesão enorme, uma única
de escrever, onde o Nelson, que era o diagramador, ia lá com o Aguinaldo para
poder fazer o fechamento do jornal. Todo mundo estava escrevendo ali, parava,
dava um risado.
Era um pessoal de cultura, era um pessoal divertido, era um pessoal que
boas risadas, que tinha um bom humor.
Incrível! Eu fui a primeira vez, a porta estava encostada, eu ouvi um bando de
vozes assim, fiquei apavorado, tímido e fugi. Não fui.
Aí eu só fui numa outra semana.
O Lampião começava a funcionar, é muito engraçado isso, a partir das seis horas
da tarde.
Literalmente era o Lampião, um pedizinho bem pequenininho, bem fuleiro, mas era
ali que a gente passava.
Até o final da noite, até umas 10 horas da noite.
E a gente passava o tempo todo a debochar das situações, entendeu?
E eu acho que isso irritava também um pouco o pessoal de São Paulo. E os
militantes? Militante é sério, né?
Tinha um determinado dia que a gente abria as cartas para ler.
Pô, só o Aguinaldo lia, né? Com aquela performance dele, bem irônica, era muito
engraçado. E a gente interferindo e rindo, como se fosse uma obra coletiva a
resposta das cartas.
Tinham algumas matérias que o Aguinaldo considerava que iam ser bombásticas, que
iam causar ou a ira, ou muitas reações, e nada.
E aí não chegava uma única linha. Ele ficava indignado. Vamos fazer uma carta
contra essa matéria.
Sentávamos todos e escrevíamos uma carta contra a matéria do jornal, como se
fôssemos leitores, e respondíamos a carta.
Uma das características da imprensa gay é o bom humor, o que chamamos de camp,
que é uma espécie de chacota que a gente faz, uma auto -chacota que os gays
fazem de si mesmos.
A gente quer discutir, mas a gente também quer pular o deboche, a gente
quer ser feliz, a gente quer fazer a diferença.
Nós começamos a receber do Brasil inteiro
vocábulos da experiência homossexual, do gueto homossexual, da subcultura gay,
não é? E era muito divertido, porque tinha coisa do arco e da velha ali, não
O negócio é viado, é baitola, é bicha, porra, sabe?
É boiola, é frango, é coaleira. Você já ouviu alguém dizer assim, fulano fez uma
gayagem? Não, fulano fez uma viadagem.
Oi, gay.
Não é ninguém dizer oi, gay. Oi, bicha, não é?
É assim, com aquela mãozinha. Então, entre gay e bicha, bicha.
Sempre. Essa é a linguagem que nós falamos. É a linguagem, inclusive,
demolidora. Há uma linguagem da subcultura gay. E é essa que nós vamos
falar no jornal. E resgatar essa terminologia do mau uso que era feito
Deixa eu ver se eu uso a palavra exata. Não é popularizar, mas uma maneira de
tornar essa linguagem conhecida e, entre aspas...
Normal, comum, né? Essa capacidade do jornal de se comunicar em alguns textos,
não em todos, mas em alguns textos, com o público ao qual ele se dirigia, é que
fazia o sucesso do jornal. Quando ele decidiu um dia, vamos botar a palavra
ele não botou em inglês. Ele botou G -U -E -I, depois de tanta pressão.
Ah, eu quero que a Bicinha da Pavuna, que é um bairro da zona oeste do Rio,
o jornal. Eu não quero que os intelectuais da zona sul apenas leiam o
E por isso que eu gostei de Lampião, porque eu achava que Lampião, pelo
tinha essa possibilidade.
Lampião não estava ensinando ninguém a fazer nada.
Estava apenas abrindo o mundo e conversando.
Havia essa grande hipocrisia de fazer vistas grossas quando interessava.
a vida homossexual. Então havia a vida no gueto, que não era totalmente
impedida, até certo ponto, né?
E isso era dentro de um regime ditatorial capitalista. Ao mesmo tempo
tínhamos uma ditadura cruel, quer dizer, havia um
movimento meio underground de liberação de costumes, que era loucura, né?
Eu acho que nunca se transou tanto quanto na década de 70.
Tinha sempre aqueles homens meio distraídos, ou fingindo de distraídos,
sempre ou de um lado ou do outro, ou às vezes dos dois, entendeu?
Eles se divertiam e etc e tal. Não eram profissionais, igual na Finlândia, que
rodavam bolsa e sacudiam o pau. Não eram.
Eram assim, digamos, ao bel prazer.
Não existia bote -paguei, querida.
Não existia boate para gays. O que é isso?
Quem ia para a noite, querida, já sabia o que ia encontrar.
Não havia esse monopólio de hétero, essa divisão de héteros,
gays. Falava hétero.
Nunca tinha ouvido. Apesar da ditadura, nós tínhamos uma liberdade incrível.
Sexual? Nenhum!
E beleza, né?
Não tinha AIDS, não tinha problema de camisinha, não tinha nada. Era muito
misturando. Quem se dava, se dava. Claro que tinha aquela coisa de ser fulano, é
viado. Se vivia uma liberdade que nunca mais foi alcançada.
Mesmo com a ditadura, porque havia essa... Isso era uma resistência à
Porque a resistência armada, todos sabemos que já não existia. A pouca que
tinha sido presos, torturados e mortos, ou tinham se exilado.
Nós éramos da ala, vamos dizer assim, mais desbundada, mais intelectual, e a
gente tinha que reagir de outra maneira, reagir com ideia.
Eu fiquei dois anos sem meu nome poder ser escrito no JB, porque eles diziam
não publicavam o nome de travesti. Eu nunca fui travesti.
Eu sou homem do sexo masculino com pau e gosto de ter pau. Mas todas as pessoas
que viviam dessa forma, era uma maneira alternativa.
Eu, porque era artista, ou Caetano, não era, não, era de uma maneira geral. As
pessoas, elas experimentavam a vida, elas se davam ao desfrute, sabe?
Elas gostavam da esborna, e era uma esborna maravilhosa.
Não importava que tipo de ideologia você tivesse, desde que você fosse mais ou
menos libertário, mais ou menos contra.
a opressão, contra a censura, contra a ditadura, você se unia com outros para,
vamos dizer assim, resistir.
Porra, aqui é uma barata, cara. O que você gosta daqui?
Não, realmente é um paraíso, cara. Porra, tem de tudo aqui.
Porra, é uma... Na galeria do amor é assim.
Muita gente à procura de gente.
Na galeria do amor é assim.
Onde a gente quer gente, você entende? Onde a gente... Onde a gente... Na
Zona Sul, em Copacabana, no final da Zona Sul, no posto 3.
Tinha um bar na esquina, tinha uma barbearia, aí tinha a boate Catacombe,
tinha outra barbearia, tinha outro bar, tinha a boate Stop, onde o Rogério ia
cantar em cima, o Teatro Alaska, muita gente trabalhou ali. A Galeria Alaska
o foco gay do Rio de Janeiro.
Embora dizer isso seja um absurdo, porque o Rio de Janeiro era gay
Na década de 60...
Quando eu saí da aeronáutica, já existia turismo gay, porque o Rio de Janeiro
era considerado uma cidade gay internacionalmente.
Hoje em dia ela é como se chama?
Friendly?
Quem eu vi na gareta? Fred Mercury.
Uma maluca, uma maluca, né?
Uma maluca que ia, voltava, levava dois, voltava, levava um, voltava, levava
três, voltava, levava outro outra vez, a noite toda, né?
E o Nureyev, de toda de preto, aquela coisa de preto, era outra doida que ia,
subia, voltava, descia, voltava, subia. Estava encantado da facilidade.
com quem se pegava rapazes do Copacabana, e o nome deles valia muito.
eu fui para o teatro da Galeria Alaska, e eu sabia já que eu tinha um certo
alcance, que eu poderia levar pessoas que não fossem gays para aquele...
começava o show eu cantando, e é, se nós temos bananas, não sei o que, com uma
cesta de bananas na cabeça.
E tinha um momento que eu já estava com uma calça leather, de couro negra,
daquelas todas abotoadas aqui. E eu simulava que ia tirar a calça. Eu
desabotoar a calça. E quando eu desabotoava os primeiros botões, a luz
E eu pegava uma banana de verdade, que estava dentro da cesta.
E quando a luz acendia, eu estava com a banana na minha mão.
Descascava essa banana olhando para a cara das pessoas.
E comia a banana.
Quando eu mordia, as pessoas gritavam. Olha como as pessoas eram loucas.
Dos anos 70 e 80, o que eu me lembro muito bem dentro da classe gay são os
espetáculos do teatro.
Da riqueza, do glamour.
Vinte e tantas, trinta travestis em cena, todos muito bem vestidos, com um
grande balé. É muito fácil ser drag, você compra a bota com uma plataforma.
compra uma roupa atrevida, bota um perucão, pinta a boca e começa a fazer
Mona! Oi, Mona! Todas as piadas que eu ouço hoje, eu já ouvia 30 anos atrás,
feitas pela Rogéria, pela Kiriak, pela Camille, pela Laura de
Vison, pela Marlene Casanova.
Por exemplo, tinha um que entrava no operário do metrô. Na época estava
de camisolão, com aquele capacete, sentava assim, como se fosse fazer um
foguinho, uma marmita. Aí começava uma música.
E aí o cara começava a cantar e fazia um striptease e de dentro era uma bicha de
biquinho.
Entendeu? Isso era um número sensacional.
Tinha um outro que vinha, uma de Carlitos.
Esse o Aguinaldo conhecia muito. Era uma bicha cubana que tinha fugido do Fidel,
já tinha uns 80 anos.
Fazia Carlitos assim.
com aquele bigodinho, depois faziam striptease e era uma bicha de biquíni.
mundo ia ver o Zico Roquette, era uma coisa socante, absurda. Aqueles homens
entravam vestidos de jogadores de futebol e tiravam um pedaço daqui, um
daqui, e viravam mulheres, todos eles. Era uma loucura, sem pensar de
nada disso.
E tinham corpos maravilhosos e dançavam lindamente.
E foi ali que aconteceu um dos fatos mais...
terríveis que eu já vi na minha vida. Foi a prisão do Leme Deli. Esse cara foi
condenado a um ano de prisão, porque tinha um cigarro de maconha.
Mas na prisão ele continuou fazendo seus exercícios, fez um baile com pessoas
presas, e quando saiu fez um espetáculo fantástico no Teatro da Lagoa, que era
aquela coisa assim...
De voltei, aqui é meu lugar. Foi maravilhoso. O lene dele, maravilhoso. E
vezes chegava o camburão, quando eles não tinham nada o que fazer, aí pegava o
camburão, documento. Aí, muitas vezes, com o documento, a pessoa ia presa,
porque tinha que ter o documento assinado. A carteira de Ministério do
assinada. Então, muita gente passou a ser cabeleireiro assim.
Chegava lá o carinho.
Aqui no
Rio havia um problema
terrível, não só para quem era gay.
Você podia ser preso na rua por falta de documento.
Se você era cabeludo, a polícia podia implicar com você. Se você estava com
roupa que eles achavam meio hippie, implicavam com você. Isso se implicava
essas pessoas, você imagina o que implicava com os travestis, com as
pintosas, pobres, que andavam pela cidade.
Nós éramos a imoralidade personificada. Tanto que o delegado Riquetti queria
mostrar serviço, e como é que ele queria mostrar serviço? Prendendo viado. Então
ele ia lá no Lago do Aroche, que já era o espaço de frequência gay, ele abria os
camburões, quem for viado... vai entrando, podiam até ser libertados no
seguinte, mas imagina o sufoco, o constrangimento as agressões físicas que
suportavam então a gente tinha que dar a cara pra bater se arriscar um pouquinho
ainda que eventualmente tivesse que
O Lampião, por exemplo, enfrentou o Riquetti violentamente publicando na
denúncias contra o tratamento aos travestis, de coisas horrorosas, como os
travestis eram tratados, por exemplo, botar o peito de travesti dentro de uma
gaveta e fechar a gaveta. A gaveta aberta, e aí você... e fechava o peito
travesti na gaveta. Estamos falando agora do final da década de 70 e começo
80, quando a ditadura já estava no sufoco.
Logo depois vieram as diretas já e aí a luta foi se intensificando.
Aí
houve
um momento em que um grupo paramilitar começou a soltar bomba em bancas e
deixava panfletos. Enquanto vocês venderem tais jornais, nós vamos atacar
lá estava o nome do Lampião.
E as bandas começaram a se recusar a vender, distribuir e vender.
Inclusive, fui representando o jornal numa reunião dos jornais alternativos
estavam sofrendo. Eles ficavam no mesmo prédio que funcionava, por exemplo, o
jornal do terceiro do B, que chegou, inclusive, a ser invadido um dia ou
alguma coisa lá que eu não me lembro o que era.
O São Maurício, ele era uma espécie de...
administrador da parte burocrática do jornal, mas ele tinha sido militar.
E era aquela coisa meio neurótica. Então ele resolveu estabelecer um esquema de
segurança para a sala. Ele fazia uns adesivos, umas coisas, ao fechar as
portas da redação, e no dia seguinte quem tinha que abrir era ele.
Porque ele ia verificar se alguma coisa tinha sido modificada.
Era muito engraçado que ninguém entrava enquanto São Maurício não chegasse.
Armando Falcão, que hoje em dia as pessoas... Sempre houve esse boato que
Armando Falcão era gay, né?
Mas nunca ficou comprovado.
Ele nos perseguiu, assim, barbaramente, né? Quer dizer, no fim conseguiu que a
gente fosse processado, mas pela lei de imprensa. Já no número zero.
Uma matéria violenta que eu escrevi em defesa do Celso Cury. Essa matéria
foi o gancho que o Ministério da Justiça tomou para criar um
inquérito em cima de nós. Eu não me lembro exatamente o número que o Daci
com a canga no pescoço dele. Era 024 alguma coisa. E eu fui 024, 0.
Obviamente não foi obra do acaso este 24.
Era moral e bons costumes, não era?
Nós éramos acostados.
Lá fui eu e foi o advogado Greenhalg que nos
defendeu. Uma mesa separava o delegado, eu aqui, Greenhalg aqui e um escrivão
aqui.
Não é que ele foi lendo, o Greenhalg foi... Não, não foi exatamente assim que
ele falou. Ele foi corrigindo, porque a impressão que eu tenho...
que o delegado estava formulando a ideia de que eu estava depravando o Brasil,
quando, de fato, o contrário era a verdade.
Eu, menino inglês, saindo da Inglaterra toda fechada e chata, e o delegado
começou a espumar.
Você continua mudando isso aqui, eu vou expulsar o senhor do recinto, não sei o
que mais. Qual era a relação que o senhor tinha com Cuba?
Quantas vezes o senhor foi a Cuba?
E aí, de repente, veio alguém e cochichou no ouvido dele. E ele parou a
entrevista, porque ele estava fazendo uma entrevista errada. Ele não estava
informado sobre o que era aquilo.
Para ele não tinha o menor significado. Nós éramos subversivos, ponto.
Marcou -se um outro interrogatório e lá fomos nós de novo.
E aí o delegado chegou.
Como é que...
Nós podemos chamar o senhor, eu disse, pode chamar de viado mesmo.
E aí aquilo blabava, era delicioso.
E aí
nós
fizemos umas fotinhos com roupa de preso e mandou arquibar.
É essa fase que a gente começa a trabalhar a reportagem.
Bom,
não sabia como é que ia ser gay, afinal. A gente faz aquilo hoje, com a situação
de que seriam obras -primas de jornalismo.
A gente fez uma matéria sobre prostituição masculina. Foi a primeira
se fez no Brasil sobre prostituição masculina. Nessa matéria, o Agnaldo liga
para um desses garotos de programa, ou encontra, e acabam indo para um hotel,
não sei o quê.
Isso era ir a campo, né? Eu fiz aqui, o Televisão fez em São Paulo. Ele
praticamente diz que o Michel se apaixonou por ele, né?
Quer dizer, no meu caso, o Reinaldo não se apaixonou por mim, não.
Existia, na época, um hotel que era frequentadíssimo pelos gays. Aliás,
até hoje. E era muito engraçado, porque de madrugada você abria a porta e via
dez pessoas conhecidas circulando pelo corredor. Era ótimo.
Uma discussão de como os homossexuais eram representados na teledramaturgia,
basicamente na Globo naquele momento.
E eu não conseguia, como homossexual, me identificar com aqueles personagens.
Tem um que eu escrevi até que é o gay no cinema brasileiro. Existe o filme de
temática gay específica, que pode ser feito até por um diretor não gay.
Existe o filme cuja temática não é gay, mas o modo que o diretor dirige...
você percebe que o diretor é gay. O Brasil tem mais filmes sobre gay do que
ótica gay.
Eu me incomodava muito, eu criticava muito o machismo que me horrorizava do
personagem homossexual nos filmes da Boca do Lixo. Mas isso não era uma
exclusividade do cinema da boca.
Tinha espaço pra Bicha Louca, o Sérgio Manbert era a Bicha Louca oficial do
cinema brasileiro.
A bicha da boate, a bicha do cabaré, que arrumava a cama das putas, só tinha
espaço nesse sentido.
O Lampião tinha muito essa coisa da... Sexo é bom, né? Sexo é saudável, mas
existem várias maneiras de sexo, inclusive essa impossibilidade que não
afasta o desejo. O jornal abordou isso muito bem.
Produziu.
Como que você faria um vestido para cada um de nós?
Clodovil era uma pessoa muito diferente.
Ele era uma bicha ferina. E a gente embarcou no senso de humor dele direto.
O Trevisan era, e acho que ainda é, vegetariano. Ele queria escrever um
dizendo que os gays tinham que se tornar todos vegetarianos.
E aí começou aquela discussão. E houve um momento que eu falei assim, Trevisan,
quer saber de uma coisa?
Bicha gosta mesmo é de carne.
Nós criamos uma coluna que era a coluna da gozação por excelência, que era a
Rafaela Mambaba, que não existia a Rafaela, era um personagem, e todos nós
escrevíamos nessa coluna que era a coluna de fofocas, mas fofocas maldosas.
Bissórdia, era uma mistura de bichice com missórdia, onde você tem tudo, uma
miscelânea de bichice.
Quem criou Rafaela Mombaba foi Antônio Crisócio. Era a que culpa em Mombaba.
E ela fez tanto sucesso a personagem que nós tivemos que fingir que ela existia
realmente. Chegamos a entrevistá -la uma vez.
Vai ter um Bichon, vai ter um Bichon. Todo mundo já se apontava.
Bichon já foi um... Puta que pariu, jamais vamos ter aquilo outra vez.
Bons tempos, bons tempos. A Vistórdia era uma festa, né?
Geralmente era a festa de aniversário do jornal, né? A Ângela, ela fornecia o
teatro, a gente pagava, né? Ela era amiga do Crisóstomo. Ele foi crítico de
música popular na Peça, né? Teve brigas homéricas com Caetano Veloso. E ele
conseguia os artistas, porque ele dirigia todos.
O Crisóstomo era uma pessoa muito talentosa. A gente tinha, pô, o Gal
As pessoas iam lá tipo um criança esperança gay.
Cada um subia no palco, cantava, não sei o quê. O cartaz não tinha, gente,
espaço para colocar logotipo, nem colocar nada.
Era artista de nome, até com gente que estava se projetando naquele momento.
Ninguém ganhava café ali. Ia pelo prazer de estar participando numa coisa do
Lampião. Aí tinha travesti, tinha cantora, tinha cantor, tinha macho,
hétero, tudo misturado. Eu vou contar um segredo para vocês. Nós fizemos duas
bistórdias no Teatro Rival e as duas eu paguei do meu bolso. Eles nunca souberam
disso. Era impossível um jornal com orçamento apertado que tinha dar aquelas
festas, né?
Quando eu vejo hoje a internet, o Troca -Troca era o bate -papo da UOL dos anos
80. Funcionava, pra muita gente funcionou, entendeu?
O Troca -Troca. Conheço várias pessoas que conheciam. O meu casamento, eu
casado quatro anos, foi conhecer o Troca -Troca, entendeu?
Eu e até o Alceste também, né? Resolvemos fazer perfis falsos nossos.
Alugamos uma caixa postal, né?
Eu fiquei impressionado. Eu recebi quase 300 cartas na primeira vez que eu botei
amante grego. E as cartas são, assim, interessantíssimas. E recebi do Brasil
inteiro.
Teve até pessoas que até por achar interessante o papo, eu comecei a me
corresponder.
Tem um rapaz de Maringá. E aí você também tinha aquelas cartas bem
como hoje no mar.
Numa sala de passe -papos, né? Ah, eu quero ir pra cama, quantos centímetros
você tem, o que você faz, se você é ativo ou é passivo.
O pessoal queria, né? Pau dentro, mas aí...
Foi
pioneiro, foi pioneiro. Nessa mesma década de 70, o Oficina produziu uma
Brecht, Nas Selvas da Cidade, a Italanandi.
Ela aparecia nua na peça durante, assim, 15 segundos.
E era uma coisa, era uma, sabe, censura. Ela quis vetar e vetou, e depois não
vetou, e depois deixou. Quando o Lampião publicou as primeiras fotos de homens
nus, quer dizer, o nu frontal, foi uma ousadia, foi uma coisa que a gente
que ia ser aprendido, jornal, tudo isso. Não foi.
Imagina a pessoa posar nua, né? Quer dizer, tinha que ser quem topasse. O
por exemplo, adorou.
Vai chegar o Fernando Gabeira, o exílio. Ah, temos que fazer uma entrevista com
ele. Depois de ter trabalhado numa sauna em Socoma, ele chegou com ideias, uma
sauna gay, diga -se de passagem, ele chegou com ideias bastante avançadas
época no Brasil.
E eu vi pelo papo do Gabeira e pelo jeito do Gabeira que ele estava querendo
falar alguma coisa que a imprensa...
careta, digamos assim, não estava perguntando, só estava perguntando sobre
lado político específico, o rapto do embaixador, da tortura, do pau de arara,
etc. Mas eu vi que ele queria falar de costume.
Inclusive o Gabeira, que não participou do início do Lampião nem do Somos,
quando ele voltou, ele já voltou com bastante mídia em cima dele, aí ele ia
tanguinha de crochê na praia dizer que estava fazendo política do corpo.
Na verdade, ele era surfando na onda que nós já tínhamos criado. O Gabeira era
uma figura fascinante.
É até hoje um pouco menos, mas ainda é.
Porque já não pode usar tanguinha de crossé.
Mas aí fomos entrevistar o Gabeira e a entrevista durou quatro horas.
E nós íamos com um gravador enorme, um negócio assim.
E quando chegamos na redação, entregamos para o taquígrafo, ele disse assim, não
gravou nada.
Não gravou nada.
E aí foi uma coisa pavorosa. O que fazemos? O que fazemos é ligar para o
explicar o que aconteceu e perguntar se ele topa fazer de novo.
Ele riu muito, né? Ele disse, topo.
E aí voltamos lá.
E dessa vez com vários gravadores para garantir tudo e fizemos a entrevista. E
aí saiu muito melhor que a primeira, claro.
A entrevista não foi exatamente centrada na questão da homossexualidade, mas foi
centrada na relação das esquerdas com esses novos temas que as esquerdas não
aceitavam, no caso especificamente a homossexualidade. E aí, no Lampião, foi
publicada a célebre frase do Fernando Gabeira, que eu acho um achado
absolutamente maravilhoso, nós não podemos esperar 70 anos de revolução
um orgasmo.
Aí surgiu uma outra dificuldade. Fazer política dentro dos moldes
tradicionais, tipo esquerda -direita, tipo situação e oposição, porque a gente
sabe que se a direita nos oprimia... de forma extrema, a ditadura do bloco
comunista não era uma solução. Fidel Castro vestido de Carmen Miranda
não é? E especialmente uma matéria sobre a perseguição aos homossexuais em Cuba.
E foi o número menos vendido.
Era um lugar onde tinha bichas e lésbicas a dar com o pau, literalmente,
processo revolucionário veio massacrar essa população, como era na Rússia,
quando o Stalin...
transformou aquilo no pesadelo que foi.
Era um jornal de esquerda na medida que era um jornal contestador, que
contestava o status quo. O status quo era a ditadura, a ditadura de direita.
fizemos uma entrevista com o Lula, que na época era só um líder sindical, e foi
uma entrevista que causou um rumor enorme, porque nós conseguimos
Lula numa rede de calção.
E publicamos essa foto e foi um escândalo, porque o Lula era um ícone,
naquela época, meu Deus do céu, vai ser até o ano 2500.
Muito engraçado. E quando o Lula diz, nós falamos, não, homossexuais no
movimento operário não existem.
Nunca encontrei nenhum.
Na medida que você começa a colocar o povo na rua, e militar, você se torna
visível e os próprios grupos.
Mas a esquerda percebe que ali tem um...
Uma torneira que, se aberta, pode dar resultado.
E você vai e incorpora. Todos nós compartilhávamos com as mulheres e com
negros a crítica à esquerda brasileira da época, que tudo se resolveria com a
luta de classes, etc.
Então, isso foi importante, eu penso.
De uma posição contra...
a posição hegemônica da esquerda. O MR8 atacou as feministas no encontro das
feministas que houve no Tuca. Foi uma coisa assustadora. Eu estava presente.
Eles cortaram o som, derrubaram o microfone. Porque nós estávamos
unidade da luta proletária.
Não era brincadeira, não. Era uma coisa muito feia. Mas Lampião, penso, virou um
jornal lido pela esquerda, admirado pelos intelectuais da esquerda.
Havia uma livraria de trotskistas ali no final da Paulista. O dono da livraria
um dia me disse, olha, o Fernando Henrique vem aqui. O Fernando Henrique
intelectual, não era político absolutamente, não era um grande
vem aqui e compra o Lampião. Eu falei, ah, que legal, mas ele manda embrulhar.
O Peter Fry era uma coisa muito excepcional. Jean -Claude Bernardet, ele
a sua homossexualidade, que era uma coisa muito rara na intelectualidade
brasileira. A intelectualidade brasileira era o tchan -tchan -tchan
dizer, era elite.
Imagina elite, viado. Eu digo isso assim com a boca cheia porque era muito
desagradável a gente ver os viados da universidade que não tinham a menor
solidariedade, não tinham o menor interesse em se aproximar da gente,
não... não fossem explicitamente contra a gente.
Então, eu sabia que esse namoro dos gays com a esquerda, no
fundo, não era correspondido.
E eu já tinha morado em São Francisco, em Nova Iorque, era uma coisa que estava
muito na minha cabeça.
A ideia do arco -íris e as minorias deviam se unir todas contra a caretice.
Politicamente, os outros jornais alternativos não faziam. Raramente
negro, alguns cobriam mulher.
Falavam de índio, mas daquele jeito mais tradicional, meio vilas -morros,
digamos assim.
Eu acho que o Lampião teve o leque, foi mais aberto, foi mais moderno, digamos
assim. Mesma questão de negro.
O Lampião foi um dos poucos jornais, um dos primeiros jornais a falar da questão
de negro com uma visão menos paternalista do que normalmente se tinha
época. O Adão Acosta era o único negro, digamos que era mais radical, digamos
assim, nas posições políticas algumas, e ele menos.
Mas não é que ele fosse a favor de entrar em acordos com os racistas, não
isso. Mas ele achava que a luta podia ser feita de uma maneira menos
digamos assim.
E também que o lado show business também era uma forma de luta, e é também, eu
acho. Já achava na época e hoje eu acho mais ainda. Por exemplo, por que
entrevistar o Abdias no nascimento? Porque para nós era muito importante e
levava a uma discussão política semelhante à questão da
O Abdias como um líder muito radical.
e muito influente, se o Abdias não quisesse, ou se o Abdias não desse o
aval, digamos assim, iria prejudicar muito a aproximação entre os lados.
O Abdias foi um ato de inteligência política, tão só do Lampião quanto do
Abdias. Ele não teve nenhum problema, não mostrou o menor preconceito,
Foi uma entrevista.
Simultaneamente à circulação do Lampião, se formou também, aqui em São Paulo, O
Grupo Somos.
E muitos integrantes do Somos colaboravam no Lampião. Chamei até mais
amigos, a Dolores e o Aristides, que faziam parte do Grupo Somos do Rio de
Janeiro, que eu também participava. Que também estavam estudando jornalismo. A
gente está no movimento, a gente tem informação.
No movimento, de repente, a gente pode ampliar a pauta das coisas, do próprio
grupo, inclusive, no jornal.
que foi a matéria que introduziu a questão do movimento homossexual
militância, essa matéria foi organizada pelo Grupo Somos. Outra matéria sobre
a presença das lésbicas foi organizada, e era matéria de capa, organizada pelas
lésbicas dentro do Grupo Somos. Então, quando o Lampião surgiu, eu fiquei
empolgadíssima, porque imagina, naquela época, você tem um jornal...
que a gente chamava alternativo, que tinha uma proposta de discutir as
dos negros, das mulheres, dos gays. Eu acho também que o Lampião era um jornal
de homens gays feito para homens gays.
Apesar de ter uma abertura para os outros movimentos.
Na entrevista você fazia uma pergunta, mas alguém outro fazia a pergunta.
A minha...
Na verdade, as mulheres éramos eu, eu e eu. Nós convidamos
algumas mulheres que não aceitaram absolutamente.
Para as lésbicas era muito mais complicado a superação dessa barreira.
As mulheres do Rio realmente não estavam assim de militar.
A gente foi entrevistar a Cassandra Rios, que era uma notória escritora
e ela negou até o final que fosse lésbica. Você dar entrevista para o
era um negócio que era muito complicado.
Em 1967, quando nós lançamos o LP Coisas do Meu Pessoal, que veio a música Ombro
Amigo, o Lampião fez uma matéria comigo.
Matéria essa que, inclusive, esse detalhe agora é muito importante que eu
dizer. Pegaram o jornal e levaram para apresentar na Mangueira, lá na aula de
compositores. Foram na escola, porque o Lampião era um jornal discriminado.
Então as pessoas foram lá e disseram, mas como é que a compositora da
vem fazer uma matéria nesse jornal, o Lampião?
Aí os compositores disseram o seguinte, a Lissi é uma compositora que chegou
aqui e já se destacou.
pelo trabalho artístico dela, é apadrinhada por Cartola, por Dona Zica,
Nilma, nós não sabemos nem o que vocês estão pretendendo de trazer isso aqui.
A Alessia é nossa compositora e a gente vai continuar adorando a Alessia da
mesma forma. Foi isso que aconteceu.
A gente já falava de vários assuntos que hoje estão na moda, que estão na mídia.
Lá nos anos 70, a gente já tocava nessa ferida, com muita tranquilidade.
Sem tal covardia, você poderá
com seu amor sair.
Todos, a esquerda toda, estava brigando nesse período, cada um à sua maneira.
As feministas, do seu jeito, se organizando, os negros, foi que foi
movimento nacional dos negros. Nós criamos, aí pulularam, começaram a
grupos de liberação homossexual em várias cidades, em vários estados, a
do Somos em São Paulo. Vocês não imaginam o que era o grupo Somos, a
reunia no começo, um olhava para a cara do outro e dizia, bom, como é que a
gente vai começar? Nós vamos começar por onde?
Nós não tínhamos, tinha que começar do zero.
Nós tínhamos experiências de fora do Brasil, mas nós estávamos, inclusive,
ditadura. Então, essa experiência, esse discurso, esse contorno da
ação que nós íamos encontrar naquele espaço profundamente contrário àquele
clima inóspito da direita e da esquerda.
E a gente vivia em estado de estresse. Era uma reunião atrás da outra. Um dia
nós olhamos um para a cara do outro e, exausto, no meio de uma reunião,
disseram... Porra, isso é um grupo de liberação homossexual, quando é que a
gente vai trepar?
E aí, então, fizemos discussões, fizemos encontros grupais de sexo grupal. Vamos
lá, vamos fazer, testar, por exemplo, como é que nós vamos no escuro ver a
textura da pele, do cabelo, como é que isso dá tesão. Enfim, nós estávamos
discutindo coisas, encontrando nosso espaço, nossa linguagem e, sobretudo, a
nossa convicção. Houve, por exemplo, uma outra matéria sobre o primeiro encontro
de homossexuais brasileiros. que foi aqui na Faculdade de Medicina de São
Então foi o grupo de São Paulo, a partir do Somos, que organizou isso. O
primeiro encontro nacional de gays e lésbicas foi patrocinado pelo Lampião,
fizemos isso. E aí veio gente de vários estados, mas a maior delegação, claro,
era a do Rio e depois a de São Paulo. E houve um momento que teve o maior
quebrar pau, porque...
Começou uma coisa assim, sobre quem é mais vanguarda, Rio de Janeiro ou São
Paulo? Cara!
E houve um momento em que uma das lésbicas tirou o sapato, bateu na mesa e
assim, senhores, vamos parar com isso porque essa história de bairrismo é
de heterossexuais.
Agora você calcula o que é ser um jornal militante e você ter que administrar
briga do grupo Somos com um grupo mais não sei o que, com um grupo de São
com um grupo da Bahia, que tinham opiniões e visões diferentes de não só
o jornal deveria ser, mas sobretudo visões diferentes de como deveria ser o
comportamento militante. Uma vez eu fui, teve uma reunião de militantes, eu fui
representando o jornal, eu quase apanhei.
Eu tentava explicar, não, a gente faz um jornal.
Militância, vocês é que fazem, porque vocês é que vão para a rua.
A gente faz a notícia à militância com um olhar favorável a isso. Realmente, o
Agnaldo achava que o jornal não podia ser político partidário de qualquer
natureza.
Tinha que ter um tempo de discussão de assuntos.
com seriedade, mas ele não queria nenhuma vinculação, nem com o movimento
nem com o movimento rista, nem com o movimento negro.
Dentro do jornal havia facções, como havia em todo lugar.
Havia facções, havia as lésbicas, as trotskistas, havia os gays,
vegetarianos, havia vários grupos. Eles queriam assim.
Fazer ativismo, aquele ativismo político, que é uma coisa muito chata. O
era muito mais interessante porque era anárquico.
Ele era bem -humorado, era para cima, era anárquico, ele tinha uma linguagem.
Muitas pessoas liam aquilo com o maior prazer. E se você começa a fazer o
ativismo, vira assim, o nosso prazer é melhor.
o que já começa a ser também uma forma de discriminação.
Por um lado tinha aqueles que iriam fazer a Serra Maestra gay, entendeu? E
os que iriam fazer striptease com o Lantejolo.
Entre um e o outro, que era difícil. Eu não entendi Lampião como movimento
político, nunca entendi.
Entendi um jornal sobre, que evidentemente tinha...
Tinha consequências políticas, tinha visões políticas, tinha sonhos
Mas não era um movimento político, porque a questão do jornal... Jornal é
coisa, eu achei. E foi.
Jornal é onde várias posições podem coexistir, não é verdade?
Por exemplo, o grupo de São Paulo, que era principalmente, quase
o Trevisan, era um grupo militante.
Aqui no Rio, o Grupo Somos era menor, acho que o Antônio Carlos foi do Grupo
Somos, mas acho que a maioria dos outros não. E o Aguinaldo não era, nem eu, nem
o Francisco, nem o Adão, nem ninguém. Então aqui as pessoas eram mais
jornalistas. E isso foi afastando as pessoas.
Nós éramos, de certa forma, o pessoal aqui do Rio, era muito mais debochado.
Sempre debochei, como o Aguinaldo também debochava, de certas coisas, certos
comportamentos que a gente mesmo tem, e que isso era tido, às vezes, como
ofensivo.
Faz parte da nossa cultura.
O Rio é oba -oba. E o paulista está sempre preocupado com... Está sempre
em outra coisa. O carioca está focado naquilo ali. Mas eu peraí, deixa eu ver
aquilo ali. Deixa ele na esquina ver aquele pelito ali que eu gostei. Depois
volto aqui.
Chegou uma hora que a gente rompeu mesmo com a militância. E isso foi...
Foi a partir desse momento que o jornal começou a entrar num processo de
decadência. A pauta ficou mais restrita ao Rio de Janeiro, como a interferência
do Rio foi muito maior.
Então, por exemplo, Aguinaldo passou a censurar matérias de São Paulo, por
pretexto de que não havia espaço suficiente.
E depois a gente ia ver, porque as matérias do Rio eram consideradas
prioritárias e entravam. Por exemplo, me lembro de uma matéria de quatro páginas
sobre a Praça Tiradentes e não foi publicada. uma matéria minha sobre
vegetariana, porque não tinha mais espaço.
Nós não tínhamos uma redação em São Paulo, nós tínhamos colaboradores em São
Paulo que eram também editores de jornal, alguns.
Mas a redação de jornal era no Rio, era na rua Joaquim Silva, lá no nosso
escritóriozinho. E o pessoal de São Paulo tinha uma posição muito cômoda,
eles só escreviam.
As coisas começaram a ser feitas aqui porque eram as pessoas que tinham
condições técnicas de produzir o jornal, de ir para a oficina, de saber o...
como o processo é feito. O editor do jornal acaba sendo sempre considerado a
figura do mal.
Porque, sabe, se você escreve 12 laudas e você só tem espaço para 7...
Você não tem saída, você tem que cortar, tem que fazer alguma coisa.
Essa limitação física do jornal era solenemente ignorada pelo pessoal de São
Paulo. Claro que coincidiu essa fase com a fase que o Ignacio Silva começou a
ganhar dinheiro.
Ele estava no Lampião quando escreveu a primeira peça de teatro dele, ele estava
mais ou menos no Lampião quando começou a fazer a TV Globo. Ele acha que não diz
muito isso, mas ele bancou muito o jornal durante muito tempo.
Era evidente uma questão da crise financeira.
As festas, as vendas de livros, os calendários, as assinaturas.
Isso não segurava mais.
Nós vivíamos num país com uma inflação altíssima.
E todos os custos aumentaram. Imprimir o jornal, despachar o jornal. Nessa
questão, eu acho que o Aguinaldo tinha uma visão mais realista mesmo.
Afinal, o jornal era um jornal que tinha que estar.
Todo mês na banca. Havia um compromisso. Ele estava vinculado a uma empresa.
Havia momentos felizes em que todos nós concordávamos com a mesma coisa.
Aí era o paraíso, né?
Mas era muito raro.
Que o homem alto e moreno não existe, que ela fazia a vida atuando
como nos filmes, e que quanto mais ela era, mais
ele não existe.
Mas ele já estava sentado na redação, aí chegou um senhor.
Senhor, mas relativamente, meio senhor, devia ter uns 40, 45 anos.
Muito encabulado, contou a história dele, que ele era um senhor casado.
pai e filho, que ele comprava o Lampião, e a mulher nunca percebeu do que se
tratava o jornal.
Achava que ele estava comprando um jornal comunista.
Era um gay teórico, que nunca tinha feito
sexo com um homem na vida.
E ele foi lá para perguntar onde ele poderia ir para ter sexo.
Então nós ficamos horas reunindo. O que vai fazer para o homem? O que sobrou de
conselho?
Sauna. Aí deu o endereço de saunas para ele ir.
Aí, uns cinco dias depois, apareceu ele lá de novo.
Todo feliz da vida, encantado com o mundo.
Ah, vocês salvaram a minha vida. É o melhor lugar do mundo para ir.
Gente, isso outro dia, eu estava repensando nisso, depois de muitos anos.
Gente!
Era a época que a AIDS estava começando.
Primeiro que as pessoas da minha geração não falavam o nome.
A gente não falava esse nome.
A gente falava, morreu daquilo. Eu tive vários amigos que eram fratricidados,
todos eles morreram.
Todos.
Nós aconselhamos ele, ele não sabia, né? Nós aconselhamos ele a ir para a morte,
porque antes da AIDS, o ambiente gay era mais...
heterodoxo. E que isso não era nenhum empecilho moral.
Que ele nunca tivesse, que isso nunca tivesse na cabeça dele, mas que ele
passasse assim num lugar em que encontrasse gay e que fosse abordado
achasse normal ter sexo com... A AIDS acaba com isso.
A AIDS acaba com os eventuais.
Eu me lembro que eu fiquei muito feliz quando eu escrevi um artigo chamado O
Vírus Nosso Irmão, que de um ponto de vista social e biológico houve um
problema, de fato, um problema de saúde.
O fato, por exemplo, de um Rock Hudson aparecer doente de AIDS e
assumir a sua homossexualidade foi um dado
cultural da maior importância.
Por quê? Porque Rock Hudson foi criado para ser um parâmetro
heterossexual. Hollywood tomava conta para que a homossexualidade do Rock
não transparecesse. E, de repente, a AIDS nos fez esse favor.
Isso é ou não é um favor?
Na verdade, a militância como a gente tem hoje, ela começa com a militância em
função da AIDS. A militância passa a ser uma coisa mais prática. Precisamos ter
hospital funcionando, precisamos ter médico, precisamos ter medicamento. E
funcionou, porque apesar de todas as dificuldades, ainda o sistema de
de AIDS no Brasil é um sistema exemplar. O preconceito no Brasil existiu, existe
e existirá.
Porque a nossa cultura é uma cultura homofóbica. A rede de televisão mais
importante continua fazendo das bichas uma piada, mas uma piada escrota. Não
se tem respeito nenhum à classe gay. Essa coisa de fazer gozação desse tipo,
isso não é humor, isso é escrotidão. Embora o país seja o país.
do carnaval, do futebol, tropical, povo maravilhoso, povo lindo, enfim, tudo
aqui acontece de uma forma absolutamente lúdica, carnavalesca, festeira, é um
país que ainda é pautado pelo preconceito.
Uma pessoa como o Antônio Crisóstomo, por exemplo, sofreu um processo violento
acabou na cadeia por uma situação que aparentemente não tinha nada a ver com a
homossexualidade dele, mas foi denúncia de vizinhos por conta do fato do
Crisóstomo ser um homossexual assumido, público, não é? E que era considerado
arrogante por conta disso.
Uma bicha, para ser considerada decente, ela tinha que ficar no lugar dela e ser
discreta. Ele é processado por abuso sexual. de uma menina que ele havia
que ficava na porta do prédio do jornal pedindo esmola com a mãe, não sei o que,
não sei o que. A vida da menina seria muito pior se ela ficasse com a mãe na
rua.
O Estado nunca se preocupou com isso, mas se preocupou em abrir processo
ele. Ele não devia ter feito aquilo. E vai que falou, Aguinaldo falou várias
vezes para ele, não faz isso, entendeu?
Aí umas pessoas acusaram o Crisófilo, pessoas tão horrendas que fugiram do Rio
de Janeiro depois quando a história... Ele foi condenado e tudo, mas não era
verdade. A pior fase do Crisófilo foi quando ele saiu da cadeia.
Porque ele saiu sem lugar para morar, sem emprego.
Sem saúde, sem dinheiro. Se aconselhou que ele fosse para São Paulo, que o
mercado estava melhor, que ele conhecia gente lá. Morreu num quarto de uma
hospedaria de quinta categoria em São Paulo. Mas ele já tinha sido assassinado
culturalmente. Ele estava sempre fazendo milhões de coisas ao mesmo tempo.
Livros e organizando exposições e participando dos eventos
políticos.
Eu gostava muito do Crisóstomo. Um dos medos era que eles viessem em cima do
jornal, já querendo associar o homossexualismo à pedofilia, mesmo que a
do Crisóstomo fosse uma invenção.
Então havia um perigo real pela legislação do jornal poder ser
isso. O Jean Claude ficou preocupado, o Peter Fry, quer dizer, porque eles
estavam envolvidos com o jornal.
Porque a preocupação era a pedofilia, será que vão matar aqui nós, né?
E eu acho que esse foi a padecal, junto com a crise e as divergências, para o
pensamento do jornal. O atributo do jornal é o meu cansaço. Porque, veja
quando eu saí do jornal, eu disse assim, olha, a partir de hoje eu não edito
mais. Vocês escolham o editor.
Isso numa reunião onde estavam todos os remanescentes do conselho original e
mais os que tinham entrado depois disso. E aí ninguém se apresentou. O jornal
acabou por isso.
Porque ninguém se apresentou para editar.
No final, já estava muito tenso. Eu tive brigas com o Aguinaldo, algumas.
Depois de uma amizade muito sólida, eu cortei relações com o Antônio Carlos.
O embate entre um grupo que queria um jornalismo mais militante, mais, talvez,
Trevisan, e algumas pessoas que eram colaboradoras, como o Luiz Motti.
O pessoal de São Paulo, e eles usam um argumento muito interessante, que é
assim, eu me apequenei, ou seja, eu fui escrever novela.
Traí a causa, eu traí a classe, pois é.
Vendi a alma ao diabo, que é a Rede Globo, entendeu?
Todo mundo quer trabalhar lá.
Mas eu escrevo para 40 milhões de pessoas e isso deve significar alguma
entendeu?
Enfim, tudo bem. O jornal, através do Aguinaldo, começou a atender
para uma coisa...
Que eu dizia, eu não quero que a gente torne notícias populares de viado, ou
seja, um certo sensacionalismo, com chamadas sensacionalistas, não é?
Para chamar a atenção de um público...
que não estava tão interessado assim no Lampião. Houve uma tentativa que eu acho
que foi errada. Mesmo sendo errada, já era uma coisa antecessora. De fazer uma
publicação, acho também, que tinha uns modelos nus, que também não funcionou,
porque isso só funciona dentro da máfia da prostituição.
E o Lampião, evidentemente, não tinha esse contato, nem queria, nem teria, que
eles não iriam deixar.
Então ficou uma coisa assim, uma tentativa meio canhestra, que os modelos
meio feios.
Também não era bem a linha do jornal. Aí o lado mais militante, mais intelectual
também quis se afastar por causa disso.
Então também foi um lado que foi assim meio dissolvendo. E havia uma outra
questão muito grave.
De repente a Folha começou a ter uma coluna feminista.
Começou a ter uma coluna sobre racismo. Aí começaram a aparecer temas sobre
ecologia. Os temas típicos do Lampião tinham sido cooptados por parte da
imprensa. E você tem que lembrar também que toda publicação, quando é muito
pioneira, ela tem uma vida útil.
A própria revista de antropofagia em relação ao modernismo, você vê isso com
Claxon. E não eram revistas para criar hábitos. Os jornais e revistas que criam
hábitos de leitura, eles são comodistas, eles se acomodam.
E não era o caso do Lampião. Eu, eu assumo isso.
E assumo com quem quiser discutir, fui para o Rio de Janeiro e eu disse, eu vim
aqui para propor que a gente feche o Lampião.
E não vou sair daqui enquanto isso não for decidido. Eu acho que o Lampião
cumpriu a sua função e agora nós temos que partir para outra.
Gostei quando o movimento gay sai do armário e fez uma aliança com o mundo
com as primeiras paradas gays de São Paulo.
Amei. As paradas gays aqui do Rio de Janeiro são divertidíssimas. Tem tios,
avós. Ao mesmo tempo tem uma juventude que vem de metrô de Nova Iguaçu.
Linda! Se todas as pessoas que têm uma transação homossexual se
revelassem, estou falando de todos, aí é o que eu digo, se for da Rocinha ao
Congresso Brasileiro.
O paradigma muda. E com relação às drogas, a mesma coisa.
Estamos falando também de mulheres, estamos falando de negro.
Ninguém hoje vira e fala, ô macaco, cala a boca. Sabe, com os amigos dele, com
os primos dele, ele fala, eu detesto preto. Na verdade, elas aprenderam
lidar com a sexualidade e respeitar o poder relativo que essas populações
conseguiram. Que o Didi se sinta incomodado porque, segundo ele,
viado e preto não ligava para as piadas que a gente fazia, é um problema dele.
Ele não pode fazer a história andar para trás.
Hoje eu vejo que o ativismo gay está todo voltado para uma aceitação que
sendo uma reprodução dos cânones heterossexuais. Todo mundo quer ser um
casalzinho, um casadinho de classe média, com filhinho, com não sei o que,
não sei o que.
Os homossexuais querem isso. Fica tudo muito igual. A gente brigava. Nós não
queremos ser aceitos por essa sociedade, porra. Nós não queremos entrar nisso
pedindo licença. Olha, vocês nos aceitam. Nós não tínhamos absolutamente
ideia. Ok, o contexto social é outro, mas é igualmente inóspito. Encontro,
amigos que são jovens e eu percebo que o mundo que eles vivem é completamente
diferente. É um mundo bastante de gueto e que não se mete com outras pessoas e
que... O eventual não entra. Porque agora existe cruzeiro gay. Deus me livre
um cruzeiro gay.
Deixa o gueto se formar e cada um ocupa o seu espaço dentro disso aí.
Porque aí você não pode estar misturado. Eu quero estar misturado, me interessa
a mistura. Hoje em dia, travesti não gosta do bigode, bigode não gosta de não
sei o quê, a forte não gosta da afeminada, afeminada não gosta do
entendeu? A preta não gosta da índia, entendeu? Virou tudo, separou. A gente
descobriu também nos anos 80 que existe um público gay com poder aquisitivo. Eu
acho que essa abertura para as diferenças não é por bondade.
Não é por inteligência, não é por bom, é por esperteza, porque é um público bom.
É claro que as pessoas critiquem, dizendo que são superficiais e tal, mas
acho que faz parte.
Esse outro lado, as marchas pedem o quê?
Casamento, adoção e tal.
Deixa as pessoas pedirem essas coisas, eu entendo o que é.
Estou casado no papel há dois anos, no cartório.
Sou sócio de um clube comum.
Não tem nada a ver com a religiosidade.
Estou falando de casamento, de uma questão civil.
Você constrói uma vida com uma pessoa e aí morre e a família vem e mexe o pé na
bunda do cara com quem você viveu 20 anos.
E essa pororoca do conservadorismo com as ideias libertárias...
resulta em conquistas objetivas. O fato de existir um deputado federal do PSOL,
que é o Jean Wyllys, que defende declaradamente, ele foi eleito pelos
homossexuais. Eu acho que principalmente o movimento gay do Brasil tem um âmbito
que agradeceu o lançamento.
As coisas sabem.
Caminhavam juntos.
O movimento cresceu no Brasil por causa do Lampião. E o Lampião cresceu no
Brasil por causa do movimento.
O Lampião foi um jornal de viado. Quando você lê o jornal de viado, você vê que
ele transcendeu totalmente isso. Embora tivesse uma linguagem...
muito descontraída, o Lampião era um jornal seríssimo. Falava de coisas que
hoje as pessoas hesitam em falar.
Todas as publicações gays que hoje existem, elas são exatamente para
nus. Os artigos são uma coisa paralela. Hoje em dia, com toda a liberdade que se
tem, essa imprensa gay que existe hoje não me diz nada, não tem o menor
interesse. E era muito mais difícil do que hoje fazer jornal. É muito mais
O mesmo jornal de papel era muito mais caro antes do que hoje. E as pessoas não
fazem jornal. O Lampião não deu...
Talvez por ser homossexual.
Na verdade, eu acho que a reunião do Agnaldo, do Darcy, do
Adão, do Crisóstomo, do Francisco, foi aquela coisa que a gente chama de
dos deuses, né? O momento certo e que deu certo.
Compartilhar esse entusiasmo de você começar a vislumbrar a luz no fim do
aquela coisa de...
aquela ideia de liberdade, eu acho que quando você está em grupo, assim...
Idealizando isso é mais gostoso do que ficar trancado em casa pensando sozinho.
Eu acho que foi na hora certa, ele cumpriu a sua função e nós chamamos a
da sociedade para a existência de outros temas. Foi uma espécie de meteorito que
caiu no meio da imprensa brasileira.
E aí, depois que ele caiu, ele teve as suas ressonâncias e aí pronto, o
impacto foi consumado. Quem é esse rapaz? Que tanto androginiza, que tanto
convida pra carnavalizar Que tanto se requebra do céu de um salto alto E usa
anéis e plumas pra lantejolizar Que até me manda beijo pra todos seus amores E
vive sempre a cores pra escandalizar A minha mãe falou que é um tipo perigoso
Que vive sorridente fazendo quá -quá -quá O meu pai me contou que um dia viu
cara Num cabaré da zona, dançando tchá, tchá, tchá. Quem é esse rapaz que tanto
androginiza, que tudo anarquiza pra dessocializar?
Comia um veado puxando seu foguete, que lembra um sorvete pra represcalizar.
Cuidado, aí vem ele, é um circo, é um cometa. Havana, Havana, Havana, que é o
Papai Noel.
Cuidado, aí vem ele, é um circo, é um gometa Havana, Havana, Havana, que é o
Papai Noel
E descobrirás o mar.
Suba na baleia.
Canta o canto de manja.
Mexe com esta onda.
Mexe com o chumaré.
Corre com esta água.
Salve a tua mãe.
Oxumbi. Entra no tapete.
Deixe a força de Xangô, toque na manzana,
bebe a luz de Oxalá.
Vai na brincadeira, criança sempre será,
voa nesse vento, colhe um beijo e te
ame.
É um gesto forte, preto velho que...
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