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A Luisa n�o pode vir. Acabaram de me dizer.
Que pena. Queria que ela tamb�m estivesse c�.
O caso est� encerrado.
Foi um acidente.
N�o h� mais nada.
- E as impress�es digitais? - Nunca tivemos amostras suficientes.
O Sergio esteve sempre a dan�ar.
- Todos o abra�aram. - N�o. E as fotos?
- E a pulseira? - Eu mesmo mandei revistar a �gua.
Encontr�mos de tudo, objetos, colares, brincos...
N�o podemos provar nada.
Acho que o Sergio estava sozinho.
E, infelizmente, estava muito b�bedo.
Lamento, Ana.
� s� isso.
O SEGREDO DO RIO
Estou?
Sim.
Vamos embora? Estou pronto.
Se n�o queres vir, vou sozinho.
- Mas tu prometeste. - Manuel...
Acabaram de me ligar, filho.
Meu querido menino,
a tua m�e morreu de madrugada.
�s uma mentirosa.
- Porque mentes sempre? - N�o, querido, juro.
A tua m�e j� est� com Deus. Ela...
J� n�o vai sofrer.
Anda, Manuel. Ela j� n�o vai sofrer.
Anda c�, Manuel.
Manuel!
- Achas que ele foi ter com a m�e? - Sim.
Com ou sem a av�. O Manuel � muito corajoso.
Espero que n�o o reprovem por faltar outra vez �s aulas.
Erik!
Manuel!
O que se passa?
Manuel...
Vais com aquelas maricas?
Para, Braulio!
N�o chateies o meu namorado.
Prova. Espero n�o ter posto demasiado sal.
Sabes que gosto de sal.
Ela era t�o nova.
N�o acredito.
Pobre rapaz.
O que vai fazer um mi�do sem a sua m�e, Jacinto?
Olha...
O teu primo Pepe j� arranjou a carrinha?
Acho que sim.
- Podes pedir-lha? - Para qu�?
Para levarmos a Rafaela a Salina Cruz para trazer o corpo da Carmen.
Sim, eu pe�o-lha.
Eu levo-vos.
Obrigada.
Devias comer.
Bem...
Est� um pouco salgado.
Pois est�.
Manuel.
Aonde vamos?
N�o sei.
O que queres fazer?
Tamb�m quero morrer.
Quero ir com ela.
A Vela � a festa religiosa da aldeia.
� a festa de Deus. Porque n�o podemos participar?
Sabes que n�o � f�cil, Solange. Discutimos isto todos os anos.
H� pessoas aqui que n�o est�o de acordo com voc�s.
Padre, noutras aldeias, permitem que as Muxes estejam na igreja.
Que fa�am parte da prociss�o e da festa.
- Eu sei, filha, infelizmente... - Solange!
- Solange... - O que se passa, dona Rafa?
O que se passa?
Ele enlouqueceu.
Gritou comigo e fugiu.
� normal. Ele n�o est� pronto para aceitar a not�cia.
Preciso da vossa ajuda.
Claro, diz-nos.
Tenho de ir buscar a minha filha.
Por favor, encontrem o Manuel, sim?
Claro, podes contar connosco.
O Manuel deve estar devastado.
Pensa. Aonde irias se te tivesse acontecido algo assim?
Tu conhece-los.
Onde achas que podem estar? Pensa.
Mana. Mana, j� sei. At� logo.
N�o, o que... Eu vou contigo!
A minha av� morreu h� dois anos.
A minha m�e chorava muito.
Estava sempre a chorar.
At� que, um dia, saiu para o p�tio e come�ou a gritar.
Gritou muito alto. Muitas vezes.
Depois, disse que se sentia melhor.
M�e!
M�e!
M�e!
Sabia que estariam aqui.
Lamento muito.
Ela n�o pode estar morta.
N�o � justo.
A vida n�o � justa, Manuel.
Porque n�o me disse que estava doente?
S� o fez para te poupar � dor.
Todos temos segredos.
N�o � uma coisa m�.
Nunca mais a vou voltar a ver.
Estou sozinho.
E o teu pai?
N�o sabes como � o meu pai.
Seja como for, n�o est�s sozinho.
Manuel! Erik!
Ningu�m me conhece de verdade.
A minha m�e sim. Ela sabia quem eu era.
Meu pequenino...
A tua m�e...
A tua m�e est� no oceano. Foi por isso que vieram c� � procura dela.
Ela vai estar sempre onde a quiseres encontrar.
Ela est� dentro de ti.
E ela nunca te vai deixar.
V�s? N�o est�s sozinho, Manuel.
Qual foi palavra que usaste?
Quando viemos c� os tr�s.
Era uma palavra em zapoteco.
Para descrever o que � bonito.
Beleza.
O que � belo.
O que � bonito.
Sicar�.
Quando crescer, vou chamar-me Sicar�.
O que se passa? O que fazem aqui?
J� passaram quatro dias.
N�o vemos o Manuel desde o funeral.
- � muito estranho. - N�o �, j� vos disse.
Ele n�o teria ido sem dizer adeus.
N�o tenho culpa que n�o acreditem em mim.
O Manuel foi embora. Est� com a tia em Xalapa.
V�o para casa.
V�o!
Quero brincar com eles.
Ainda n�o podes. Temos de esperar uns dias.
Disse a todos que n�o estavas.
N�o saio h� dias.
N�o podes.
Nunca posso fazer nada aqui.
Manuel...
De certeza que o teu pai j� sabe que a tua m�e morreu.
Ele n�o pode saber que est�s aqui.
Tu conhece-lo bem.
Se ele vier buscar-te, podes esquecer as Muxes.
E esquecer-te a ti.
Espera s� uns dias para as coisas acalmarem.
E se ele vier aqui sem avisar?
Essa � mesmo a �nica raz�o, rapaz.
Tenho de entregar os pedidos.
Tenho tudo o que precisava.
Porque n�o me ajudas a ver o que trouxemos de Salina Cruz?
S�o da tua m�e.
Ficamos com o que quisermos
e doamos o resto � igreja.
Est� bem?
- Olha que lindo. - Olha que bonito.
- Estas flores s�o maravilhosas. - Sim.
- Eu punha-as na entrada. - No arco.
- No arco. - �timo.
- Est� lindo. - Que emocionante.
- Senhoras. - Boa tarde, padre.
Boa tarde. Tenho m�s not�cias.
O respons�vel pela Vela disse que n�o.
N�o nos pode dizer isso agora. Olhe para este trabalho.
Ningu�m te pediu que o fizessem, Solange. E tu sabes disso.
Todos participam. As Muxes t�m o direito, padre.
Algumas pessoas s�o contra.
Al�m disso, se Deus n�o tem g�nero, que foi o que o senhor nos disse,
porque se preocupam tanto com o nosso g�nero?
- Certo, meninas? - Sim.
Isso mesmo.
N�o h� Muxes na Vela.
N�o podem ir � igreja, � prociss�o ou � festa.
N�o depende de mim. N�o decido. Acreditem, lamento.
- Com licen�a. - Ent�o, � isso.
Um dia, essa treta vai mudar.
Se isto continuar, o que aconteceu em Juchit�n pode acontecer aqui.
As Muxes organizaram a sua Vela.
A m�e da Diana diz que isso � pecado.
Ela n�o � ningu�m para falar porque tem um primo que � Muxe.
Podemos mudar de assunto?
O que se passa contigo?
A dona Rafaela diz que o Manuel est� em Xalapa com a tia.
Mas n�o acreditamos nela.
A Paulina acha que o viu dentro de casa.
Pode estar a esconder-se do pai.
Manuel?
Manuel?
Manuel?
O que se passa? O que fazes?
S�o coisas da minha m�e.
A tua av� disse que estavas em Xalapa.
� por causa do teu pai?
Para ele n�o vir � minha procura e levar-me com ele.
Eu sabia.
Porque est�s a usar isso?
Sabemos sempre porque fazemos as coisas.
Gosto. Sinto-me bem.
Tive saudades tuas, precisava de te ver.
N�o quero viver com o meu pai.
Isso n�o vai acontecer.
Lembras-te do que te prometi?
N�o est�s sozinho. Eu vou ajudar-te.
Obrigado, Erik!
O que est�s a fazer? Porque me beijaste?
Desculpa... Foi sem querer.
N�o sei o que aconteceu. Desculpa.
Estou? Fala o Pedro Soto? Fala o Jacinto Morales.
Conhecemo-nos h� anos quando namoravas a Carmen.
O teu filho est� aqui. � por isso que ligo.
Desculpa, sei que n�o � da minha conta.
Mas tens de saber o que se passa com o Manuelito.
O que se passa?
Est�s muito calado.
H� novidades do Manuel?
Ent�o, ele est� aqui.
Escondido em casa.
Conta-me!
O que disse ele? De que falaram?
�s a minha namorada?
Disseram-me na escola que disseste ao Braulio que eu era teu namorado.
Significa que �s.
Muito bem.
Agora, conta-me sobre o Manuel.
Quem � aquele?
Nunca tinha visto aquele carro.
- Vim buscar o Manuel. - A s�rio? Para qu�?
Tens a tua outra fam�lia. Ele vai atrapalhar.
Rafaela, vim...
Ele est� na escola. Est� bem. Tem amigos.
Vim busc�-lo, n�o discutir. Onde est� ele? Manuel!
N�o precisamos de dinheiro nem nada.
Podes vir visit�-lo sempre. Por favor, n�o o leves.
Quero-o comigo. Ele precisa do pai.
Al�m disso, passou demasiado tempo entre mulheres. Onde est�? Manuel!
- Onde raio vais? - N�o lhe batas.
Quero ficar com a av�!
N�o estou a perguntar. Eu mando. Pega nas tuas coisas.
N�o te metas.
Erik!
Erik!
Erik!
Erik!
- O que se passa? - � o pai do Manuel!
O qu�?
Aquele carro estranho que vimos do telhado. Era ele!
Ele veio busc�-lo.
Vais deix�-lo ir?
Pode ser a �ltima vez que o vemos.
N�o te vais despedir?
O que � isto?
- E isto? - Era da minha m�e.
Deixa com a tua av�.
A partir de agora, as coisas v�o mudar, vais ver.
- Vim logo que pude. O Manuel? - Est� mal.
Boa tarde, sou a Solange. Vim despedir-me do Manuel.
Que bonito.
� teu?
Era da minha m�e.
Vamos ver.
Vem.
Vai para longe, Manuel. Aqui, n�o ser�s compreendido.
N�o quero ir.
Quero ficar aqui com a av�, contigo e com o Erik.
� inevit�vel.
O teu pai veio buscar-te. Tens de ir com ele.
Podes n�o perceber agora, mas � uma oportunidade, Manuel.
Ficar aqui n�o � t�o bom como parece.
A tua vida merece muito mais do que isto.
Eu...
Quero ser uma Muxe.
Podes ser outra coisa.
Podes ser tu mesmo.
�s especial.
Podes ter um destino diferente.
Algo grande.
Longe daqui.
N�o deixes que te cortem as asas.
- N�o vais sair, Erik. - Porque n�o?
- Porque n�o. - S� queremos despedir-nos do Manuel.
Parem de se meter nos assuntos de outras fam�lias.
- Por favor! - O Manuel tem de estar com o pai!
Ele est� sequestrado aqui.
Se n�o tivesse ligado ao Pedro, o que seria do mi�do?
O qu�?
O qu�?
Ligaste ao pai do Manuel?
Denunciaste-o?
Tens de compreender. � o melhor para todos, Erik.
- Percebe! - Larga-me!
- Erik! - Erik!
Erik!
D�-me isso.
Despacha-te e n�o chores.
Onde est� o Erik?
Fica bem, Manuel.
N�o quero que v�s, meu menino.
Amo-te e vou ter muitas saudades tuas.
Av�.
Eu tamb�m, meu shuncu.
Despacha-te. Est� a ficar tarde.
Adoro-te muito, Manuel.
Eu tamb�m, �mbar.
Fica bem.
O meu cora��o n�o aguenta tantas despedidas.
Olha, para de chorar.
S�o os teus irm�os, Pedro e Andr�s.
- Ol�. - Ol�.
Vamos.
Tenham um bom dia.
Adeus, meu pequenino!
N�o te esque�as de n�s, Manuel!
- Escreve-nos, querido. - Fica bem, Manuel.
O meu menino.
O Pedro e o Andr�s jogam juntos numa equipa todos os s�bados.
Gostas de futebol?
Se n�o gosta, vai passar a gostar.
Vais ver, Manuel.
Tornar-te-�s um homem.
Para!
Mas que raio? Quem � este idiota?
Erik!
- N�o quero que te levem! - E eu n�o quero ir.
Aconte�a o que acontecer ou onde estivermos,
seremos sempre amigos.
Para onde olham?
Que raio se passa, Manuel?
- Larga-me! - N�o tolero essas mariquices.
� a primeira coisa que resolveremos. Entra.
Desaparece!
Vou ter saudades.
- J� chega. - Eu tamb�m.
Disse para desapareceres!
20 ANOS DEPOIS
Querida...
� o teu telem�vel.
- Est� tudo bem? - Sim, vou atender l� fora.
Querida...
Ela foi-se!
A Solange...
A Solange morreu, querida.
T�XI
� a primeira vez em Istmo?
Ou j� c� tinha estado?
Lembras-te disto?
Manuel?
Legendas: Rita Mendes do Carmo
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