All language subtitles for Dani.Rovira.Vale.La.Pena.2025.720p.WEBRip

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Original subtitles

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Bem, Dani, a sessão acabou. Como estás?

Bem. Na verdade, já me sinto melhor.

Assim é que eu gosto. Para a frente é o caminho!

- Sim. Até para a semana. Adeus. - Até para a semana.

Dani, lembra-te de pagar!

O pagamento, Dani!

CENTRO DE PSICOLOGIA

VALE A PENA

Tenho estado numa maré de merda.

Muito obrigado por terem vindo hoje.

E estão com sorte porque hoje, aqui,

vamos falar de tristeza.

Vai ser uma noite de confissões.

A primeira que tenho a fazer

é que, desde há alguns anos,

ando a namoriscar fortemente com a tristeza.

E, ao longo deste tempo, aprendi várias coisas.

Aprendi muitas coisas.

Por exemplo, aprendi que não gosto da tristeza.

Não gosto de a sentir nem de a ver.

E que não a saibamos gerir. Nem a nossa, nem a dos outros.

Em todos estes anos,

só uma pessoa, só uma,

é que me disse algo a que me pude agarrar.

Foi um amigo que, numa tarde em que fomos beber um café,

e eu estava triste,

a desabafar, a dizer-lhe que não aguentava mais,

me disse…

Estou a contar-vos isto para aplicarem na vossa vida.

Às tantas ele disse-me: "Dani, meu,

não fiques triste."

Nunca mais lhe liguei.

Não gostamos da tristeza, nem de nenhuma emoção desagradável, não é?

Mas a tristeza é um pouco pior porque nos expõe.

Quando a tristeza é grande,

choramos e isso expõe-nos.

E é verdade que, ainda hoje,

chorar em público ainda é uma espécie de tabu, certo?

Mostra vulnerabilidade.

E, inconscientemente,

até nas crianças tentamos desencorajá-lo.

"Não chores que ficas feio."

Da próxima vez que ouvir alguém dizer isso a um miúdo, dou-lhe um pontapé.

Ao adulto, claro.

E chorar,

ainda é uma questão relacionada com o género.

Há uma frase famosa, que tem mais de 500 anos,

que já devem ter ouvido.

Foi quando os Reis Católicos estavam a reconquistar Espanha

e o último reduto que restava era o Reino de Granada.

Lembram-se?

O Boabdil estava lá com a sua comitiva cercados há imenso tempo.

Alerta de spoiler. É história. Sabemos como acaba.

Mas houve uma altura em que ele teve de entregar as chaves da cidade.

Foi um dos momentos mais difíceis para qualquer figura histórica.

E, nesse preciso momento, a mãe de Boabdil,

não uma cunhada da uma prima da irmã,

não, a mãe do Boabdil disse ao filho:

"Chora como uma mulher pelo que não conseguiste defender como um homem."

Perdão?

Chiça, não te contiveste, pois não, Boabdila?

O passado é o prólogo, certo?

Suponho que todos já estivemos tristes em algum momento das nossas vidas,

de forma mais ou menos profunda, com maior ou menor frequência.

Há algum tempo, comecei a pensar se houve um tempo na minha vida

em que a tristeza se realmente impôs.

De forma mais contundente.

E, sim, acho que houve um momento exato,

há cerca de 11 anos,

que coincidiu com a estreia do filme Namoro à Espanhola.

Já ouviram falar? Sim? Boa.

Nunca tinha feito cinema, nunca na vida, está bem?

Eu dedicava-me a isto que estão a ver agora

e, de repente, surgiu a oportunidade de fazer o filme.

Claro que o fiz.

E, de um dia para o outro, tornei-me o protagonista

do filme mais rentável na história do cinema espanhol.

E, da forma como as coisas estão, vou levar esse título para a cova.

Não sei se deva rir ou chorar,

mas é um facto.

Não sei como vocês reagiriam à situação, como um grande acontecimento ou assim,

nem sei se alguém imaginou como foi para mim.

Para mim, foram uns meses

onde começaram a acontecer coisas absolutamente extraordinárias

com as quais nem sabia lidar.

Nunca tinha feito um filme e, de repente, era só realizadores,

produtores, tudo a mandar-me guiões e projetos e isto e aquilo,

e eu: "Que raio!"

A procura de espetáculos… Eu já os fazia, mas a procura triplicou.

"Dani, vem a Alicante!" "Está bem."

"Dani, vem a Barcelona!" "Vou!"

"Dani, vem a Múrcia!"

"Múrcia para quê?" "Também é verdade!" Não fui.

Se não gozar com os murcianos, ninguém fica feliz, nem eu, nem eles.

Há aqui algum? Bom, ninguém quer saber!

Já sabem como são as marcas.

As marcas querem caras conhecidas.

Comigo resulta. Estou em casa, vejo um famoso num anúncio,

e saio a correr em cuecas para comprar aquilo.

Claro que as marcas me ligavam: "Dani, a nossa marca…

A tua cara na nossa marca, a nossa marca na tua cara."

E eu: "Não percebo nada!"

Comecei a namorar a estrela do filme, claro.

Foi uma bela história de amor.

Foi tudo bestial. No papel, visto de fora, certo?

Nem conseguem imaginar o que foi para mim.

Mas três ou quatro meses depois,

uma manhã, acordo…

Do nada, acordo uma manhã

e, de repente, estou a chorar. Mas em prantos. Tipo: "Foda-se!"

Como quando temos de cagar e… "Foda-se!"

Não conseguia parar e não sabia porquê.

De repente, a minha namorada disse-me

uma das coisas mais sensatas que já ouvi:

"Dani, porque não vais à terapia?"

E eu respondi: "Está bem."

Reparem como é estranho isto.

Duas coisas que raramente se dizem juntas.

"Porque não vais à terapia?" E a resposta: "Claro." Não.

O que costuma acontecer é: "Porque não vais à terapia?"

"À terapia?"

"Ao psicólogo? Ao manicómio? Achas que sou louco?"

"Não, não estou a dizer isso."

"Estou louco?" "Não, Dani, não estás."

"Eu faço terapia há 11 anos, amigo."

E deixem-me dizer-vos uma coisa.

Estou farto de ir à terapia por causa de gente que não vai à terapia.

Pronto, já disse.

Pronto.

E, se estão decididos a não ir,

pelo menos, ajudem a pagar já que vamos resolver os problemas dos dois.

Recomendaram-me um terapeuta,

o mesmo a que vou há 11 anos.

Continuo a ir. Chama-se Salvador.

Nunca tinha feito terapia, e, de repente, estava numa sala

com um senhor sentado e uma cara muito simpática

com uma cadeira em frente.

Sentei-me e ele pergunta: "Dani, diga o que o trouxe até cá."

No início, não sabia o que dizer.

Mas comecei a abrir-me com ele, a falar sem parar.

Uma hora inteira a falar. Isso não é normal para mim.

E quando passou uma hora, mandou-me parar e disse

"Dani, o que estou a ver em ti é uma tristeza enorme."

"Merda, tristeza?" Não tinha pensado nisso.

Estava a pensar em frustração, pressão, stress…

Mas não, tristeza. "Como assim?" "Dani, estão a acontecer duas coisas.

Primeira, estás de luto.

E, segunda, não sabes que estás de luto."

"Mas não morreu ninguém."

"Não tem de ser literal.

É uma morte metafórica de algo da tua vida."

E, de repente, comecei a perceber muitas coisas.

Por exemplo, não sabemos quão preciosas são certas coisas

porque já as temos.

Só sentimos falta delas quando desaparecem.

A maioria de vocês tem uma coisa

de que não se apercebe que tem ou não valoriza porque nunca a perderam.

Por exemplo, braços. É óbvio, não é?

Ninguém acorda de manhã: "Graças a Deus!

Outra terça-feira incrível com braços!" Não.

Mas estou a falar de algo um pouco mais subtil, que é o anonimato.

Até o perdermos, não sabemos quão valioso é.

Apercebi-me quando comecei a reparar

que já não podia fazer certas coisas do quotidiano,

como ir buscar os meus sobrinhos à escola,

ou comprar uma sandes e uma cerveja e ir para a praia de Málaga

ler debaixo um chapéu de sol sozinho em paz.

Isso acabou.

Naquela altura, eu punha um pé na rua

e era um Pokémon raro.

Uma loucura. E, passado 11 anos,

vocês perguntam: "Bem, Dani, e agora?"

E eu diria: "Melhor."

Não "bem". "Melhor."

Porque, primeiro, passaram 11 anos

e vamos ganhando ferramentas para lidar com estas coisas.

O entusiasmo também esmoreceu. Já não estou tão na moda.

E não podia estar mais grato.

Passo muito tempo em casa, admito.

Hoje, vou dar-vos muitas ferramentas

que me ajudaram a sair do buraco.

E conselhos. Eu gosto de dar conselhos. Há quem odeie.

"Pessoas que dão conselhos…" Não aceites.

Um conselho que vos vou dar… O primeiro do dia.

Se vão na rua e veem alguém que admiram,

mas quero dizer admirar a sério,

não falo do caçador de fotos que só quer medir pilinhas nas redes

e nem quer saber se é o Pepón Nieto ou o Ortega Smith.

Falo de admiração sincera.

Se virem uma pessoa assim na rua,

o meu conselho é:

Deixem-na em paz.

Deixem-na em paz.

Observem-na à distância, como se estivessem num safári.

No seu habitat. Vê o que fazem.

Mas deixem-na… Não…

Não sabem para onde vai essa pessoa,

de onde vem, em que está a pensar…

Mas, se sentirem realmente uma vontade incontrolável

de interagir com a pessoa, dou-vos outro conselho.

Primeiro, pensem bem no que vão dizer ou fazer.

Segundo, executem.

Executem o plano, não a pessoa.

Ao longo destes anos aconteceram-me muitas coisas recorrentes.

Vou contar algumas para nos rirmos.

Há uma que é um clássico.

É a pessoa que se aproxima e diz:

"Ena! É o Dani Rovira, meu! És meu fã, mano!"

Claro que sim, querida.

Ou outra variação:

"Ena, Dani Rovira, mano! Sou o teu ídolo!"

"Sim, obviamente. Tenho o quarto cheio de pósteres teus!"

"Fã" e "ídolo" não são a mesma coisa, mas não são opostos.

Mas entendo. Há palavras que confundem, principalmente se estamos nervosos.

Acontece-me a toda a hora.

Acontece-me com "túnel" e "ponte".

Sei o que é um túnel, calma. E sei o que é uma ponte, calma.

Mas, às vezes, a falar, confundo-me. Tenho de…

Já disse ao meu irmão: "O que fizeste no túnel do feriado?"

E ele: "Que túnel, pá?"

Acontece-me com "mochila" e "mala". "Camisa" e "t-shirt".

E, em inglês, também há umas que me baralham.

Não falo inglês, mas arranho um pouco.

Mas há duas palavras que me fazem sempre parar e pensar.

Que são "after" e "before".

Porque "after" soa a…

"Quando foi isso?" "Foi 'after' de ontem." Tipo…

E "before" parece que pode esperar. "Para quando é isso?" "É para 'before'."

Cá para mim, eles é que estão errados.

Haverá sempre quem confunda coisas e cada um pelas suas razões.

"Confundo a palavra 'pila' com 'guacamole'."

Tudo bem, Nacho.

Enfim…

Normalmente, quando uma pessoa interage comigo na rua,

eu tendo a dececioná-la.

Se for uma interação rápida, dececiono só porque sim.

Depois, a pessoa vai-se embora a pensar uma de duas coisas.

Uma, que sou malcriado,

ou, duas, que sou muito tímido.

Eu não sou tímido.

Sou discreto.

Se me virem na rua, verão que ando de boné,

metido na minha vidinha, com fones,

de cabeça baixa…

Se me deixarem em paz, Eu deixo-vos em paz.

É uma coisa que não… Mas eu não…

No outro dia, fui atuar em Burgos… Burgos, a cidade que nunca dorme.

Caramba, as ruas estavam vazias às 16h.

Pensei: "Que fixe!"

De repente, um senhor do outro lado da rua vê-me e grita:

"Um tipo conhecido!"

"A sério?

Se me vais chamar, pelo menos, sê específico.

"'Um tipo conhecido!'

Tu também serás conhecido na tua casa, foda-se!"

O mínimo que podem fazer é cumprimentar.

Dizer: "Olá, como estás?"´ Ou pelo menos um verbo.

Há quem diga: "Dani, foto!"

Parece: "Dani, cuidado!" Como se me tivessem atirado algo.

Uma vez, estava num elevador… De um hotel, acho.

Carreguei no botão porque ia subir,

as portas começaram a fechar e veio uma pessoa.

É quando fazemos aquilo: "Ah, sim…"

Não queremos que entre.

Quando fazemos: "Ah, sim…"

Mas não estamos a tocar em nada.

"Ah…" O que é isto?

Isto é falso. Isto é…

Pode ser a vossa mãe numa cadeira de rodas. "Dani…"

E tu: "Ah, sim…" Aquilo fecha e nós: "Vai-te lixar!"

Como assim? Não queremos.

Somos assim.

Gostamos de estar sozinhos no elevador.

Vemo-nos ao espelho, tiramos uma foto, ajustamos os tomates, o que for.

Mas entrou um senhor mais velho, com barba branca,

cabelo branco, roupas largas, assim muito zen, sabem?

"Que raio?"

Ele carregou no botão.

Ficámos ali naquela situação de elevador

e ele: "Desculpa, posso fazer-te uma pergunta?"

Pensei: "Duas, que já gastaste uma."

"Sim, com certeza."

E olha para mim

e diz…

"És tu mesmo?"

Disse aquilo tão sério que até tive dúvidas.

Olhei para o espelho.

"Estou a usar um fato do Homem-Aranha ou assim?"

"És tu mesmo?" Perguntou o cabrão.

Lembra-me uma entrevista com os Estopa.

Um deles disse que ia na rua e que alguém lhe disse:

"És tu ou o teu irmão?"

Isso é marado.

Desde a pandemia até agora…

Nada temam, vai ser a primeira e última vez

que vou falar deste evento global que virou as nossas vidas do avesso

e nos deixou mais ou menos a todos com um certo peso

na nossa bagagem emocional.

Eu tenho a bagagem cheia de gambozinos desde então.

E sofri algumas perdas, mais do que gostaria, honestamente.

Umas mais difíceis de gerir do que outras, mas perdas.

Quero partilhar convosco duas perdas com que tive de lidar nestes anos

e que me afetaram muito.

A perda de dois grandes amigos,

que eram como família para mim, meus companheiros de vida,

os meus cães, Bullo e Carapapa.

Um faleceu oito meses depois do outro.

Ainda estava a recuperar de um quando perdi o outro.

Foi tipo…

Chorei.

E chorei…

Chorei como uma mulher

pelo que não pude defender como veterinário.

Foi um choro que me fez pensar:

"Raios, nunca chorei assim."

Vocês conhecem-me, sabem que adoro dar nomes às coisas.

Foi um choro a que chamei "choro limpo".

"Choro limpo". Senti dor.

Senti saudades, tristeza. Até solucei assim…

Isso tudo. Mas era limpo sabem porquê?

Porque não senti culpa.

E isso alivia. Não senti culpa. Morreram com 12 anos.

Podiam ter vivido mais? Sim.

Podiam ter vivido menos? Também.

Mas divertimo-nos muito juntos. Salvei-lhes as vidas.

E eles a mim.

Portanto, estava tudo bem.

O Salvador, o meu terapeuta, diz sempre:

"Dani, chorar é uma forma de curar o luto,

e de honrar aqueles que partiram.

E, quando as lágrimas se transformarem em histórias, risos, memórias,

seguimos em frente

e honramos dessa forma os que já se foram."

E, com isto em mente, vou contar-vos uma coisa que me aconteceu

na primeira semana em que tive a minha primeira cadela, a Carapapa.

Nunca tinha tido um cão. Não fazia ideia de nada.

De repente, lá estava eu sozinho em casa com uma bolinha de pelo

com apenas três quilos e três ou quatro meses. Uma cadelinha.

Na primeira semana, fomos inseparáveis.

"Como é isto? E como é aquilo?" E estávamos um pouco…

Mas, a dada altura, tive de ir trabalhar.

E, como vivia sozinho, ela teve de ficar sozinha.

E nas primeiras vezes foi tipo…

Preparei tudo para ela.

A cama, algo para beber… Água, claro, não ia deixar Coca Cola.

A sua comidinha.

Certifiquei-me de que não havia perigos.

E lá fui eu, mas com um certo receio.

Seis ou sete horas depois, voltei,

e a vizinha saiu e disse:

"Dani, ela passou a manhã a chorar e a arranhar a porta com a pata."

"Ai, a sério?"

Abro a porta, vejo umas poças de xixi, um cocó

e a perna de uma cadeira estava toda roída.

Ela estava no corredor toda nervosa. A mijar-se toda. E eu: "Ai, coitadinha.

Carapapa, vá lá, o que se passa?

"Está tudo bem. Não te preocupes.

Queres fazer terapia?"

"Está bem." Está bem, certo?

Cuidado!

Recomendaram-me um treinador, um etólogo.

Falei com ele e expliquei o que tinha acontecido.

E ele disse: "Não te preocupes.

Isso é muito comum. Principalmente nos cães bebés.

É o que se chama, ansiedade da separação."

E eu fiquei…

"E o que é isso exatamente?"

"Basicamente, a cadela sofre de ansiedade

por separação."

A definição está no nome.

"E há alguma maneira de resolver isto?"

"Sim, há várias técnicas que não são difíceis.

Só tens de ser consistente."

Apliquei várias, mas houve uma que ajudou muito

e que achei bonita. Por isso, quero partilhá-la convosco.

Ele disse-me: "Quando saíres durante algumas horas,

deixa-lhe uma peça de roupa tua que cheire a ti."

Como sabem, os cães têm o olfato muito melhor do que o nosso.

E têm o olfato muito ligado às emoções.

O que é muito especial.

Nós também, mas temos vindo a perdê-lo de tão civilizados que somos.

Portanto, ele disse: "Quando saíres, se lhe deixares uma peça com o teu cheiro,

ela terá uma espécie de pensamento mágico na sua cabecinha

e pensará que está a cheirar alguém

que representa o seu amigo, o seu protetor,

o seu guardião, a sua família, e fica calma."

"Que coisa linda. Vou tentar."

Antes de ir trabalhar,

fui ao armário onde tenho a roupa velha e faço assim…

Vi a parte de cima de um pijama de inverno antigo.

Cheirei-o e pensei: "Porra, cheira mesmo a mim!

Cheira mais a mim do que eu. Como é possível?"

Portanto, antes de sair, pus a caminha dela no corredor,

pus o pijama, peguei na cadelinha e deixei-a lá.

Ela ficou lá deitada em cima do pijama assim…

Estava muito calma e eu pensei:

"Credo! Isto ou te mata ou deixa-te mais forte."

E lá fui eu, a desejar que resultasse.

Voltei seis ou sete horas depois, reparem que nunca trabalho oito,

e a vizinha não saiu para me dizer nada.

Abri a porta

e vi a cama,

o pijama,

mas nada de cadela,

que era o que me interessava, claro.

Comecei a procurar, a aguçar o ouvido

e ouvi…

Eu tenho aqui um hall e uma sala…

Bom, a sala. Não é como se tivesse 17 salas.

Fui lá

e vi, no chão, ao pé do sofá…

Eu tinha uma manta no sofá.

Aquela mantinha para a sesta depois do almoço.

Sou andaluz. O que querem?

A manta estava assim pendurada, ela puxou-a com a boca ou a pata.

Ou seja, o que eu vi foi:

A manta no chão toda amarrotada

e a cadela lá no meio a dormir o sono dos justos.

Pensei: "Claro, a manta cheira a mim.

A filha da puta automedicou-se."

Claro.

"Mas se funcionou…"

Peguei na manta, arrumei-a no sofá,

brincámos e, no dia seguinte, deixei o pijama.

Fez isso três vezes.

À quarta, quando ia arrumar a manta,

ela deu uma patada ao estilo mafioso do Joe Pesci:

"Esta manta agora é minha!" E eu…

E realmente a manta ficou para ela.

Foi a manta que a acompanhou a vida toda até aos últimos dias.

E passou a cheirar muito mais a ela do que a mim.

Digo isto caso estejam com problemas com um cão.

Chamem um profissional.

E saibam que há técnicas que são muito válidas.

Isto é um ponto de viragem no espetáculo, está bem?

Têm sido um ótimo público. Têm-me apoiado muito.

Portanto, quero agradecer-vos com uma confissão.

E isto é verdade porque é este o espetáculo que vai para o ar.

O outro não deixei. O público era uma merda.

Este é que vai para o ar.

É verdade.

Quando descobrirem que disse o mesmo no outro…

Vou confessar uma coisa. Será uma prendinha.

Atentem!

Sou um grande fã,

e quero dizer um grande, grande fã…

Prendi-vos mesmo, não?

Se uns paus-mandados, não?

Vá. Estou a brincar.

Aqui vai.

Sou um grande, grande fã…

… de comer cona.

Grande fã.

Comer cona está no top 10 das minhas coisas favoritas da vida.

Imaginem se mudasse assim de tema. "O que se passa?

Ele passou do trauma a conas."

Nada temam. Deem-me a mão e vamos para um sítio seguro.

Está tudo bem.

Enfim.

Já que sou um grande fã,

sempre que surge a oportunidade,

sempre que o contexto é adequado,

eu solicito-o, peço-o.

Mateus 7:7: "Pede e receberás." Está na Bíblia.

E, por alguma razão, ao longo destes anos todos,

acho que tive sorte,

aceitaram o meu pedido as vezes suficientes

para poder dizer que sou um craque no que toca a comer cona.

No que toca a comer conta, ninguém chega aos meus pés.

Ninguém.

Pronto.

Dito isto…

Dito isto,

gostaria de vos poder oferecer hoje…

A vossa imaginação é muito fértil, não?

Ficava com um six pack na língua.

Gostaria de vos oferecer umas dicas,

uns conselhos,

para que, daqui para a frente,

quando forem praticar a maravilhosa atividade da cunilíngua,

a experiência seja muito mais satisfatória.

E podem pensar: "O Dani vai dar-nos dicas

para comer melhor cona."

Não.

Não, não é nada disso.

O meu conselho é

para as pessoas que têm cona que nos deixem comê-la.

Só para mudar a perspetiva.

Posto isto, é oportuno, antes de começarmos,

fazer uma espécie introdução ao contexto anatómico genital.

Acho que é preciso, embora muitos achem que não.

É sempre necessário fazer uma pequena apresentação.

Desculpem se for muito técnico.

O que é uma pila?

Vou dizer muito "pila" e "cona". Com licença.

São apenas quatro sílabas, como quaisquer outras.

Somos adultos.

Não precisamos de eufemismos se já há uma palavra para algo.

O que é uma pila?

A pila é um dos dispositivos anatómico-genitais do ser humano,

que está situado na zona púbica.

É uma parte do corpo protuberante.

Umas são maiores e outras são mais pequenas.

Olhem…

E como adoro nomes e metáforas…

E eu fosse uma catedral…

Imaginem, se eu fosse uma catedral,

seria a gárgula. Certo?

E catedrais e gárgulas há muitas.

Quantas vezes já viram uma catedral enorme em que a gárgula acaba por desiludir?

Ou o contrário, uma capelinha com uma gárgula que nem cabe na porta.

Ou veem uma catedral e perguntam: "A gárgula?"

Ela tem gárgula, mas a catedral não está bem conservada nem cuidada.

Tem muita erva e não se vê. Tem de ser aparada.

Ou talvez tenha uma parede tão lisa

que se vê a gárgula a léguas.

Há gárgulas cabeçudas. Umas que parecem tristes.

Umas que se inclinam para um lado e outras para outro.

Outras que perderam a firmeza ao longo dos anos.

Há microgárgulas, em forma de lápis…

Há todo o tipo de gárgulas.

E são todas lindas.

E todas têm direito a sentir prazer.

Mas eu acho

que a pila é uma zona do corpo muito acessível.

Usamos roupas, mas se andássemos nus era uma coisa que…

Por exemplo, gosto muito de ir a praias de nudismo.

Gosto da sensação de estar nu. "Qual praia?" Não digo.

Vou sempre a uma com um amigo, e ele chega sempre depois de mim.

E ele já sai nu do carro.

Já vem nu.

Portanto, estou na praia e já o vejo a vir ao longe.

Traz uma geleira, um chapéu de sol, um saco, tem as mãos todas ocupadas.

Põe-se à minha frente e cumprimenta-me sem largar as coisas.

"Tudo bem, Dani?" E eu…

Tenho vergonha de o beijar, então… "Como é que é, nabo?"

Imaginem uma monarquia moderna, uma monarquia nudista.

Vão a uma receção real. "Olá, como vai isso?"

"Vossa Majestade. Como está?"

Ou no metro. Imaginem que estão no metro

e que vos perguntam: "Estás agarrado?"

"Sim." "Já somos dois. Vamos."

"Venham daí essas curvas." Não é?

Enfim…

O que é uma cona?

A cona é o outro dispositivo anatómico-genital do ser humano,

que não está situado na zona baixa da púbis,

mas sim um pouco mais escondido, mais abaixo,

numa zona a que gosto de chamar a região perineal aragonesa.

De fora, é um pouco mais modesta,

mais discreta.

A cona é uma coisa mais contida.

Ora bem…

Já vi umas que parecem sandes de fiambre feitas à pressa.

E nós ficamos ali a mastigar…

Um pouco de pão não fazia mal.

Mas são todas bonitas.

E são todas dignas de receber prazer.

Acho que, ergonomicamente,

chupar pilas é muito mais acessível.

Há muito mais técnicas fáceis.

Não é preciso estar-se em forma para chupar pilas sem fazer ginástica.

Há uma pessoa com pila.

Dizem: "Olá." Boa onda. "Posso chupar-te?"

E: "Claro, chupa-me a pila."

Só temos de nos dobrar assim…

Podem fazer isto ou isto. Até sem mãos.

Se estiver deitado, fazem assim, com ou sem mãos.

Se estiver de costas, podem agarrá-lo por trás.

Chupar pilas é muito mais divertido.

Pelo que me contaram, claro.

Mas deixem-me dizer-vos uma coisa.

Estou num momento tão bom da minha vida que para o ano volto

e conto-vos como foi.

Atenção.

Que a heterossexualidade não impeça a diversão.

Só vivemos uma vez. Atenção.

Se chupam pilas, é o que é.

Contudo,

comer uma cona sem que a dona não se empenhe um pouco,

ergonomicamente, é um pouco mais complicado.

A mesma situação, certo?

Estamos com alguém com uma cona, mesma onda.

"Queres que te lamba?" "Força."

E, normalmente, a pessoa faz assim…

Come on!

E ficamos a olhar…

Olhamos e apetece dizer:

"Parece que o Squidward caiu do quinto andar."

Temos de lhes dar um toque: "Miúda!"

Fazemos uma cunilíngua ou chamamos o médico-legista?

Tudo bem. Ela não ajuda.

Mas como eu gosto tanto, trabalho pelos dois.

E, depois,

a posição em si já é desconfortável.

Vocês aí, desculpem.

De repente, ficamos assim. A ver…

A posição é estranha porque a pessoa está…

E, como está escuro,

não dá para procurar as coisas,

começamos a apalpar terreno com a cara.

Vamos procurando com a cara…

Imaginem um porco trufeiro.

A procurar… E nós ali…

A posição é muito forçada.

É muito forçada e dá vontade de dizer:

"Porra, faz a tua parte, inclina o cóccix.

gira um pouco as ancas. Dá-me um ângulo."

Porque, assim que sentem, aquele primeiro formigueiro agradável,

o que costumam fazer? Fazem…

Contorcem-se e metem ainda mais para dentro.

Deixamos de ter porcos trufeiros.

Passamos a papa-formigas.

Se ela se levantar e sair, e entrar outra pessoa,

o que verá é um homem a beber de uma poça.

"Olá."

"Há aqui uma seca?" Enfim… Deixem-me que vos diga.

Os seres humanos têm umas coisas chamadas vértebras cervicais.

A partir de certo ponto, já não dobram.

Vão estar lá dez, 15 minutos, meia hora, o que for preciso!

Mas, quando terminam, ficam assim…

Acabam com um prolapso que não é normal.

"Gostaste? "Sim, o que tens no pescoço?"

"Vou ter uma aula de violino. Quando saíres, vou enfiá-lo aqui."

Podem ficar assim uma semana. "Que faço agora?"

Vou procurar apartamento. Olha.

"Vende-se, quarto andar."

Já que estão ali…

Foda-se!

Pronto.

Segunda dica.

Sei que se têm queixado a vida toda,

e com toda a razão,

de que os vossos parceiros são egocêntricos.

Que sempre foram egoístas. Que o prazer sempre esteve centrado neles.

Que, quando acabam, acaba tudo.

E têm toda a razão. Foram muitos anos assim.

Mas, felizmente, estamos a viver numa época

de progresso, de igualdade, de mente aberta,

de generosidade em geral.

E isso é muito fixe.

Se há 25 anos me dissessem: "Clitóris!"

Eu diria: "Pokémon de água!"

Mas agora posso dizer-vos:

"Sabiam que o clitóris é o único órgão no corpo humano

exclusivamente concebido receber prazer?"

- Porra! - Sim!

"Sim", diz ela. Claro.

E disse com a mão levantada.

Foda-se, se é assim, é para aproveitar, não?

Mas quando vamos começar a fazer a cunilíngua,

um bufete de ratas, o clitóris fica sempre aqui.

Não literalmente. Mas, às vezes, sim.

Temos de o procurar, claro.

Não é uma coisa que…

Quer dizer, se for uma cona familiar…

"Familiar" como quem diz…

Se são fami…

Com que estejam familiarizados. Merda de língua!

Há uns segundos em que estamos a reconhecer o terreno.

Porque cada cona é um mundo. Lembrem-se disso.

Estamos ali…

Não estou a falar de encontrar o ponto G, mas do clitóris.

Procuram…

E quando encontram: "Já está!" Não, não é assim.

"Acabou-se." Não.

Não são uma vaca a lamber um poste.

Têm de ser…

As pessoas são diferentes. Um pouco de pressão aqui…

Vão ouvindo, vendo. É uma coisa linda.

Dois ou três minutos depois, quando encontras a chave,

quando começa o prazer,

a pessoa diz: "Ai!"

Fazem… E afastam-se meio metro.

E nós ficamos…

Com um fiozinho qual ponte suspensa e dizem:

"Porra, devia ter posto um pin ou marcado o local."

É como estarem a ler o D. Quixote, deixarem cair o livro,

e dizerem: "Não marquei, não faço ideia de onde estava."

Eu percebo que se mexam se estão a gostar,

mas, por favor, não se mexam.

Comecei a comer cona aqui e acabo ali.

Pareço um Roomba à procura da estação de carregamento. Por favor!

Terceira dica.

Não digam nada importante enquanto estamos lá em baixo.

Não se ouve bem.

A mensagem fica distorcida.

Houve muitas manhãs que me disseram:

"Não compraste café?"

"Não sabia que precisávamos de café."

"Disse-te ontem à noite."

"Ontem à noite, quando?"

"Ontem à noite, quando estavas…"

"Ouvi muitas coisas, mas não percebi nada."

Eu estava lá em baixo, e ouvi algo como…

E eu…

"Pensei que tinhas enlouquecido e estavas a cantar Maluma."

E, finalmente, a quarta dica. A mais importante.

Não é um conto de fadas, nem fantasia, nem mito urbano.

Não. É um facto.

Podem atingir o orgasmo

através da cunilíngua.

É uma coisa linda.

É o objetivo a atingir.

É bestial.

Mas também vos digo,

se alguma vez

atingirem o orgasmo através da cunilíngua,

nunca se esqueçam, por favor…

Isto é um assunto sério.

Nunca se esqueçam

que o que têm entre as pernas…

… é um ser humano

que quer continuar a viver.

Por favor!

Porque eu entendo que, quando percebem que há algo

entre as pernas que te vos quer dar prazer,

o instinto de sobrevivência entra em ação como uma armadilha para ursos.

"Ficas aqui sequestrado para o resto da vida."

Mas lembrem-se que essa pessoa tem sentimentos

e que precisa de um certo nível de oxigénio no cérebro, está bem?

Já vi a vida a passar-me à frente umas quatro ou cinco vezes.

Juro que é verdade.

Já não como conas sem ter um macaco hidráulico debaixo da cama.

Já fiz de tudo. Já me fiz de morto.

"Se a presa estiver morta, aborrecem-se e abrem!"

Pus vaselina atrás das orelhas

como fazem aos miúdos que enfiam a cabeça entre as grades.

Uma vez, fiz… e meti um melão para ela não reparar.

E ela fez… Podia ter sido eu!

Passaram dos limites agora

com o Body Pump, com Pilates, com o CrossFit.

Por favor!

Por favor!

Por favor.

Não mordam a mão que vos dá de comer.

Partilhei convosco estes pequenos conselhos

com a intenção de, a partir de agora,

esta cidade, e quem vir isto,

possa ter uma vida mais feliz quando praticar uma cunilíngua.

Só quero que as pessoas sejam felizes.

A malta anda zangada.

Mas há sempre um grupo de pessoas que diz: "Mas…"

"Sim, está bem."

"Conselho para quem tem cona. Mas e as pessoas com pilas?

Quando te fazem um broche, fazes tudo bem?"

"Eu? Desculpa, mas eu faço a minha parte."

Faço mesmo o meu trabalho.

Como o quê? Como a disponibilidade, por exemplo.

Aceito sempre.

Uma vez não, mas estava a confessar-me. É outra história.

E depois…

Tenho de dizer

que mais de 90 % das vezes

em que alguém se ofereceu para me fazer um broche,

foi alguém de cabelo comprido, está bem?

E, muitas vezes, não o têm apanhado.

E depois?

Enquanto estamos a ver a pessoa a dar-nos tal prazer,

vemos que ela está…

E nós estamos ali a ver aquilo

e não fazemos nada?

Eu tenho sempre…

E eu…

Eu digo: "Concentra-te na tarefa que tens em mãos que eu…"

Faço-lhe um rabo de cavalo, claro.

Houve alturas em que acabaram, viram-se ao espelho

e disseram: "Tranças caribenhas?" E eu…

"Se tiveres mais tempo amanhã, pinto-to."

Uma das ferramentas que me ajudou

a ultrapassar a depressão… Não tenho vergonha de o admitir.

Foi o pensamento mágico.

Muita gente ouve isto e pensa: "Ai, pensamento mágico…"

Há pessoas que não acreditam ou que… Escutem.

Ele existe, quer acreditemos ou não, ou saibamos o que é.

Já existe há centenas de anos.

E todos já tivemos pensamentos mágicos sem saber.

Por exemplo, fazem anos.

Têm um bolo com velas. Acendem as velas.

A vossa família e amigos estão a cantar-vos os "Parabéns"

e, quando acabam,

vão soprar e eles dizem: "Não, espera!

Pede um desejo."

E mesmo que não acreditem nessas coisas

e pensem: "Chatos! Vou pensar num desejo."

E, quando pensam, pensam num fixe.

Como quem diz: "Não vá acontecer!"

Isso é pensamento mágico.

Pensamento mágico é, numa tarde,

em que temos um desafio ou evento

que nos preocupa, que é difícil.

E temos um vestido ou camisa

que, por alguma ligação emocional ou assim,

nos dá boa sorte, boas vibrações, boa energia

e dizem: "Hoje vou vestir isto porque me vai ajudar a enfrentar isto."

Isso é um pensamento mágico.

É estarem a beber café de manhã em vossa casa,

estarem na merda,

e a caneca ter uma frase lamechas com que toda a gente goza.

E, se essa frase vos ajuda a subir a rua com mais ânimo,

isso é pensamento mágico.

E é válido. É válido porque ajuda.

Se ajuda, usem e abusem dele.

Eu sempre usei o pensamento mágico.

Mas, naquela altura, usei mais ainda.

Usei-o muito mais.

Por exemplo, a fazer exercício.

Adoro fazer exercício, treinar. Estudei Ciências do Desporto.

Mas, naquela altura,

como temos a cabeça avariada, notamos no corpo.

Não rende. Estamos mal.

A tristeza anula-nos.

Estava a correr no Parque Retiro,

e um mimo passou por mim e disse: "Que pena."

"Que pena."

Gosto muito de correr no Madrid Río.

E, um dia, comecei a correr.

Tinha corrido um quilómetro e estava: "Não aguento mais."

Só queria chorar, não tinha energia.

E…

Pensei: "Vamos, faz um exercício de pensamento mágico."

"Vamos lá."

Olhei para a frente, no mesmo caminho,

e a cerca de 500 metros,

havia um túnel, está bem?

Ou uma ponte, não sei.

Estava a cerca de 500 metros. E eu disse a mim mesmo:

"Vá, se lá chegar

nos próximos dois minutos e meio…"

Inventei na altura.

Disse:

"Os meus pais serão libertados,

depois de terem sido raptados

na Colômbia

por um cartel de narcotraficantes."

Não é verdade,

mas eu acreditei.

E haviam de me ter visto a correr pelo Madrid Río afora.

Estava tipo:

"Os meus pais!"

Cheguei à ponte e… Dois minutos e meio.

Funciona ou não o pensamento mágico?

Consegui. Não era verdade.

Claro que inventei.

Os meus pais ainda continuam presos.

Vou pedir-vos um favorzinho.

Os que estão comprometidos levantem a mão.

Não precisam de ter vindo acompanhados, mas levantem a mão.

Nada temam. Não vamos personalizar isto. É só para ter uma ideia da…

Os comprometidos que levantem a mão.

Está bem.

Costuma ser mais ou menos a metade. E acontecem coisas estranhas.

Pronto. Obrigado. Às vezes, alguém levanta a mão,

olha para o lado e: "Que fazes?" "Não…"

Uma espécie de limbo.

Se isso aconteceu, faz-se uma nota de rodapé: "Ver se quer sair comigo."

Isso esclarece tudo.

Vou dizer uma verdade um pouco incómoda.

Esta é a única verdade absoluta

que vou dizer durante o espetáculo.

Todos os casais mentem um ao outro.

Todos.

Alguém discorda?

Muito bem.

Mas não vou desenvolver isto já.

Está bem?

Vamos fazer como aqueles chefs na TV que estão ali e dizem:

"E reservamos este refogado para mais tarde…"

Ficou ali.

Não me vou esquecer.

Outra ferramenta que quero partilhar.

Meditação.

A meditação ajudou-me muito.

Há malta que ouve e diz: "Dani, essa cena da meditação…

Isso é para os iogues, certo?

Gente espiritual que faz poses estranhas."

Não.

Qualquer um pode meditar.

Eu medito, portanto…

Tenho uma aplicação no telemóvel com meditações guiadas.

E pronto. Não é complicado.

Só têm de ouvir.

Como vos poderei explicar rapidamente o que é meditar para mim?

Para mim.

Para mim, meditar é

decidirem reservar cinco, dez, talvez 15 minutos por dia,

não é preciso mais,

para se dedicarem exclusivamente a vocês mesmos

apagando todo o ruído do mundo para enfrentarem o vosso próprio ruído.

Que, às vezes, está mais alto do que o do mundo.

E é nesse tempo em que se dedicam a vocês mesmos…

O exercício consiste basicamente

em terem consciência de vocês mesmos aqui e agora.

Tentar que a mente não divague para outra coisa que não sejam

vocês mesmos, o vosso corpo, a sala, a vossa postura…

Há âncoras que ajudam com isso, como a respiração, por exemplo.

Se se concentrarem na respiração durante a meditação,

o que mais há aqui e agora para além da vossa respiração?

Vou fazer uma pequena demonstração

de como medito no meu dia a dia, está bem?

O que vão ouvir agora é basicamente o meu diálogo interno.

Como se pensasse em voz alta.

Começa com um gongo,

termina com outro gongo,

e a postura deve ser confortável, mas digna.

Podem estar sentados no chão com uma almofada, numa cadeira…

Não é preciso nada de especial. É mais ou menos assim…

Vamos ver como corre o dia hoje.

Vamos começar pela respiração.

Vamos.

Respiro.

Inspiro.

Expiro.

Inspiro.

Inspiro.

Inspirar é como…

… ter uma ideia que nos inspira.

Sim, essa é boa. O ar entra e isso inspira-nos.

E expiro… Merda, expirar é morrer. Temos uma ideia e depois morremos.

Estou a desconcentrar-me. Vamos lá.

Vá. Concentra-te, Dani. Concentra-te na respiração.

Tenho uma ideia.

Vou seguir o ar à medida que viaja através do meu sistema respiratório.

Vejamos.

O ar entra pelas fossas nasais,

depois, passa pela…

Como se chama?

Laringe? Não, como se chama?

Faringe, não?

Traqueia! Raios, é isso. A traqueia.

A malta que faz traqueotomias tem tomates.

Fazem traqueotomias com canetas. Porra, que loucura.

Já me desconcentrei outra vez.

Vamos.

Aqui vou eu.

O ar entra pelo nariz…

Dizem que devemos respirar pelo nariz porque tem uns pelos

que retêm os ácaros e as bactérias.

Porra, de há uns anos para cá têm-me crescido tantos pelos no nariz!

"O que é isto?"

E também me estão a começar a nascer nas orelhas.

Às vezes vejo-me ao espelho e digo: "Merda, pareço um lince."

Vá lá. Vamos lá.

Concentra-te. Vá.

Pronto.

Inspiro.

Meu, porque importam os abacates todos da Nova Zelândia?

É isto.

É assim.

A mente está sempre a divagar.

Nem acho que seja uma luta, é mais uma dança.

Quando nos apercebemos que nos distraímos,

ela volta e focamo-nos.

Não existem más meditações. Deviam experimentar. É fantástico.

Todos os casais mentem um ao outro.

Todos.

Ele a ela.

Ela a ele.

Ele a ele.

Ela a ela.

Elu a elu.

Mano a mano.

Olé, olé. Aioli.

Todos, sem exceção.

Porque em todas as relações,

há sempre um momento, talvez um momento íntimo,

em que um membro do casal diz ao outro:

"Querido,

em que estás a pensar?"

E, 99,9 % das vezes,

a resposta é…

Nada.

"Em nada."

"Em nada."

"Em nada."

"Nada."

Vai mamar!

Vais dizer-me a mim,

que medito há 11 anos,

11 anos,

tenho centenas e centenas de horas de meditação,

e se alguém me perguntasse: "Nessas horas todas

quanto tempo estiveste tu com a mente vazia?"

"Uns três ou quatro segundos em toda a minha vida."

E devem ter sido imediatamente antes de me peidar.

Quando nos peidamos, a cabeça…

Agora, vais dizer-me,

seu parolo de merda,

que, quando te perguntam, tens a mente vazia?

Sim, claro. Quem és tu agora? Siddhartha Gautama?

Quem és tu, Krishnamurti?

És Mahatma Gandhi?

És Buda agora?

És Shiva?

És um mentiroso do tamanho de um camião de bombeiros.

Diz-lhe! Diz o que estás a pensar.

Não quer dizer que estejamos sempre a pensar em coisas más

tipo: "Em que pensas, querido?"

"Que estava numa orgia com 50 pessoas numa cama redonda

enquanto a tua mãe assistia a…" Não!

Não digo isso, mas talvez: "Em que pensas, querido?"

"Eu digo-te!"

Estão distraídos e dizem: "Eu digo-te!

Estava a pensar que media quatro metros e estava na praia.

Tinha pernas de Bollycao, um chupa-chupa com picos

e eu estava a lutar com um pão-de-ló gigante e mau

que queria destruir o planeta.

O que achas?"

Digam-lhe. A ver se são capazes.

E digo-vos mais,

se disserem isso à vossa parceira,

e ela decidir continuar convosco,

vão durar para sempre.

Para sempre.

Mas também vos digo,

é uma opção legítima,

se vos perguntarem em que estão a pensar,

responder: "Agora não acho apropriado

partilhar contigo o que penso porque os meus pensamentos são privados."

Acho a história do pão de ló menos arriscada.

Encorajo-vos a perguntarem um ao outro aleatoriamente e dizerem a verdade.

Vão-se passar.

Creio que estamos a viver uma boa época social.

Onde há mais foco, mais empatia,

mais carinho, onde damos mais valor, como quiserem dizê-lo,

a tudo o que tem que ver com a saúde mental ou falta dela.

Hoje em dia, já conhecemos certas doenças e transtornos…

Dar nome às coisas torna-as reais.

Faz com que olhemos para elas de forma diferente.

Não sei se alguns de vocês têm a minha idade ou são mais velhos,

mas aqui há 15 ou 20 anos,

tudo o que tinha que ver com saúde mental estava dentro do mesmo saco,

tinha tudo o estigma de "louco".

Tudo no mesmo saco.

E era algo da qual não nos tínhamos de aproximar.

"Este tipo chora o dia todo, está louco. Aquele bebe o dia todo, é louco.

Este está sempre a gritar, é louco!"

Hoje em dia, este tipo de coisas são tratadas de forma mais humana.

E vale a pena celebrar isso.

E também vos digo…

Também vos digo,

entre a pessoa a quem faltam uns parafusos…

… e a que bateu com a cabeça,

algures neste intervalo…

… estamos todos nós.

Realmente bons da cabeça

nenhum de nós é.

Se não tiverem um tique,

têm TOC.

Ou têm o TikTok. Não sei o que é pior.

Quer dizer…

Mas de todos os transtornos ou doenças,

queria destacar duas que acho que são as rainhas da saúde mental.

Não por serem as mais fixes,

mas porque parecem ser as mais entranhadas na sociedade.

Se não passámos por elas, vamos passar ou algum conhecido já passou.

Estou a falar da ansiedade.

Grande, certo?

E da depressão.

Ora bem.

Quem sofre de ansiedade sabe que é uma merda.

Não vamos romantizar nem dourar pílula.

A ansiedade é uma merda.

Há muitos anos que lido com ela.

Nos últimos anos tenho estado sempre ali no 4 ou 4,5 em 10.

E, depois, dispara. Há que saber lidar.

Durante anos, tentei erradicá-la. Erradicar a ansiedade da minha vida.

E, agora, estou no caminho da aceitação.

Aceitar que tenho ansiedade,

e que, quando aparece, tenho de a gerir o melhor que posso,

sabendo que é uma nuvem negra que chega sem avisar,

mas que desaparece da mesma forma.

É verdade que, se temos um ataque de ansiedade à tarde,

mas, de manhã, tinham-nos ameaçado com uma faca,

são duas situações de merda, mas é um silogismo do caraças.

Se P, então, Q.

Compreender a causa alivia. "Fui assaltado esta manhã. É normal."

O pior é quando a ansiedade nos apanha de surpresa.

Quando estamos tranquilos em casa,

parece estar tudo a correr bem,

e ela aparece.

De repente, o coração dispara,

a boca seca, não conseguimos respirar, o corpo fica desconfortável.

E queremos atirar-nos da janela. Isso é uma valente merda.

Quero enviar força a quem tem de lidar com isso.

E eu acho que nós, os que sofremos de ansiedade,

somos pessoas que vivemos um pouco dessincronizadas

do ritmo da vida.

Eu explico, é tipo…

Estamos sempre um estado pré… Mil vezes pré.

Preocupamo-nos com as coisas antes de acontecerem.

Há uma citação de Descartes,

o filósofo, não o ferro-velho.

Ele disse: "A minha vida tem sido cheia de terríveis infortúnios,

a maioria dos quais nunca aconteceu."

Temos a capacidade de imaginar todos os piores cenários,

vivê-los nas nossas cabeças, quer acabem por acontecer ou não.

Mas o nosso corpo já correu a maratona, não é?

E a depressão,

na minha opinião,

é um trauma que nunca sarou.

É uma tristeza que se enraizou

depois de um evento traumático,

seja uma separação, uma perda, seja o que for, está bem?

Acontece alguma coisa,

o tempo passa, o trauma não sara totalmente,

e a tristeza instala-se.

Podem passar dois anos e continuamos a viver normalmente,

mas os nossos sentimentos, pensamentos,

está tudo ligado ao que aconteceu há dois anos.

Vivemos condicionados pelo passado.

A ansiedade é a obsessão com o futuro.

A depressão é a obsessão com o passado.

É como viver através de um espelho retrovisor

ou de um telescópio.

Uma amiga disse-me:

"Se tens uma perna no passado e outra no futuro,

vais acabar a cagar no presente."

Que poeta.

É fantástico quando descobrimos que "presente" significa "prenda".

Há outro conceito que… está ali numa zona cinzenta.

Que está na moda agora, que é nostalgia.

A nostalgia é boa ou não?

Há dois tipos de nostalgia, a boa e a menos boa.

Qual é a boa?

A boa é que nos traz memórias antigas,

coisas que vivemos há muito tempo.

Gostamos, e não ficamos necessariamente tristes.

Vou dar-vos um exemplo divertido.

Nasci em 1980, certo?

Quem tem mais ou menos 15 anos do que eu

deve perceber isto.

Se eu disser:

"Os Polegares…"

Ninguém sabe onde estão

E podíamos continuar com Willy Fog, Capitão Falcão,

Dungeons & Dragons, Juana Hazuki, Candy Candy, Navegante da Lua…

Pegava nestas duas filas de desconhecidos, bebíamos umas bejecas,

cantávamos a noite toda

e voltávamos para casa, completamente bêbedos

a dizer: "Diverti-me tanto a recordar o passado,

mas sem ponta de tristeza, sabes?"

A nostalgia má é a que nos deixa tristes.

Os profissionais chamam-lhe melancolia.

É outra fase.

Há pessoas que vivem presas a uma certa época.

Chamo-lhes "kariners".

Pessoas que acham que tudo era melhor no passado.

Pessoas que ficaram presas numa época seja por que razão for.

Seja por causa dos amigos que tinham,

do sítio onde viviam, de um parceiro que tiveram, ou porque eram jovens.

Porque não tinham problemas nem responsabilidades.

Porque ninguém morria, claro.

Sempre que falo disto, Lembro-me de um amigo meu,

da minha geração com quem cresci, que acho que ficou preso nessa época.

Falávamos com ele no ano 2000,

e ouvimos todas as suas histórias, passado, piadas, referências.

Era tudo dessa época.

Dizíamos: "Raios, estás dez anos atrasado."

Falávamos em 2010 e era igual. Dizíamos: "Estás 20 anos atrasado."

Agora, vemo-lo em 2025

e ele continua a falar de coisas de há 35 anos.

É como se o tempo nos puxasse para a frente,

mas nós quiséssemos ficar, mas temos de avançar

e começamos a desaparecer como as fotos do Regresso ao Futuro.

Para aqueles que são melancólicos,

ou nostálgicos, e eu também sou, aqui vai outra dica:

Acho que é bom que, no presente,

quando estamos a viver um momento fixe, um momento de alegria,

um pouco de felicidade tipo: "Ena, meu! Brutal!"

Aproveitem-no.

"Estou a viver um momento realmente fantástico."

E mais: "Vou tentar lembrar-me deste momento para o resto da minha vida."

E, se estiverem sozinhos, verbalizem-no.

Dizê-lo em voz alta ajuda a guardá-lo na memória,

nem que seja para renovar a nostalgia do futuro.

Imaginem, hoje vieram ver este espetáculo.

Vieram com o vosso parceiro, um amigo, com o vosso pai, um colega, o que for.

E divertiram-se como o caraças.

Assimilem.

Se acham mesmo que foi um momento feliz,

mesmo que seja só este bocadinho aqui,

assimilem-no.

Interiorizem-no. E, quando saírem, digam-no em voz alta.

"Isto foi fixe."

Isso é muito bom.

Porque, quem sabe, daqui a 20 anos,

estão sentados na Praça da Catalunha com esse mesmo amigo,

a beber uma cerveja e dizem:

"Porra, lembras-te do Vale a Pena do Rovira?"

"Lembras-te?"

E ele diz: "Porra, isso foi há uns 20 anos, não?

Vinte anos! Foi ótimo. Fartámo-nos de rir.

Rimo-nos muito. O gajo era muito bom."

"Ele era o melhor!" "Não te entusiasmes."

"Sim, foi divertido. Pena ele ter morrido."

"Sim, é triste."

Guardem-no aqui.

Muito obrigado.

Bom, estamos na reta final do espetáculo.

E já que estávamos a falar de nostalgia,

lembrei-me de uma letra do Sabina:

"Não há nostalgia pior do que chorar por algo que nunca aconteceu."

Nunca me contaram histórias em criança.

Sempre senti nostalgia por algo que nunca aconteceu.

Deve ser por isso que, em adulto, tudo o que é comunicação oral,

bem como com o sexo…

Como último presente, e com um toque de nostalgia boa,

e porque já não devem ouvir uma há muito, vou contar-vos uma história

que tem que ver com tudo o que falámos aqui hoje.

Bom, do que eu falei.

Esta história passa-se numa pequena aldeia muito austera.

Uma aldeia muito pequena e inóspita.

E o protagonista da nossa história é um homem mais velho,

mas que ainda não tinha perdido a sua agilidade, energia, força e vigor.

Este homem tinha o hábito de, desde que se lembra,

acordar todas as manhãs

antes do galo cantar e do sol espreitar sobre as montanhas.

Ele acordava,

levantava-se,

calçava as sandálias,

pegava em duas grandes ânforas de barro

e percorria um caminho de 5 km até uma nascente cristalina.

Lá, enchia as suas ânforas até cima,

e voltava percorrendo o mesmo caminho de 5 km.

Quando chegava à aldeia,

usava a água para as suas necessidades.

Para beber, para cozinhar, para regar,

para lavar, para os animais…

Há uns oito ou dez anos,

que uma das ânforas se estava a começar a partir.

A rachar.

Estava bastante usada. Tinha pequenas fraturas por todo o lado.

Chegou ao ponto de começar a perder água.

Muitas vezes, quando chegava à aldeia,

mais de metade da água já se tinha perdido no caminho.

E, como nas histórias, os seres inanimados podem ganhar vida,

uma noite,

antes do nosso protagonista ir dormir,

a ânfora partida,

perdoem-me a redundância,

partiu em discurso.

Começou a lamentar-se e a dizer ao dono:

"Meu mestre,

sinto-me muito mal.

Sei que estou partida e já não o sirvo como dantes.

Tenho muita vergonha e pena.

Não me importaria nada se me substituísse por uma nova,

porque já não sirvo para nada."

O homem, completamente inabalável, mas com um tom gentil, disse-lhe:

"Nunca te substituirei por uma ânfora nova.

Mas não te vou dizer porquê hoje.

Dir-te-ei amanhã pelo caminho."

E o homem foi dormir como sempre.

As duas ânforas ficaram ali tipo…

E, no dia seguinte,

como sempre, antes do galo cantar e do sol espreitar sobre as montanhas,

o homem acordou, calçou as sandálias e pegou nas suas ânforas enormes.

Ele levava sempre determinada ânfora em determinado braço.

A ânfora partida ia sempre no braço direito.

Sempre.

Tanto na ida, como na vinda.

Quando começaram a percorrer os 5 km, ninguém disse nada.

Só se ouviam os pássaros a cantar

e o farfalhar suave das folhas ao vento.

Quando chegou à nascente cristalina,

sentou-se e começou a encher as ânforas.

E ninguém disse nada.

Só se ouvia a água naquela espécie de gruta.

No regresso, também ninguém falou até bem depois da metade do caminho.

A ânfora até já tinha perdido muita água. E, nesse momento,

o nosso protagonista parou.

Parou e virou-se

para a ânfora partida e disse:

"Agora vês porque não te substituí?

Olha.

Olha para este troço do caminho.

Está coberto de flores,

graças a ti."

A vida vale a pena.

É um cliché, é óbvio,

mas tendo a pensar que coisas óbvias podem ser tão óbvias

que, às vezes, se olvidam.

Mas a tristeza,

por si só, também tem valor.

Ao longo desta noite,

entre gargalhadas e algumas confissões,

contei-vos algumas das mágoas por que passei,

algumas das perdas que sofri ao longo destes últimos anos.

Mas deixei deliberadamente para o fim a maior perda

que sofri na vida.

O maior luto por que passei.

E foi o luto de mim mesmo. A perda de mim mesmo.

E vocês perguntam: "Como assim?

O que significa isso? Como te perdes a ti mesmo?"

É tão fácil.

É surpreendentemente fácil.

Porque acho que tudo começa antes de nos apercebermos.

Quando somos miúdos,

tudo aquilo por que ansiamos é o amor da nossa mãe, certo?

Que ela nos ame e nos abrace.

Há uma espécie de medo enraizado de sermos abandonados.

Ninguém sabe porquê. Estamos sempre a fazer

tudo o que podemos para garantir que a nossa mãe nos ame.

E muitas dessas coisas não têm muito que ver com a nossa essência.

Mas sabíamos o que tínhamos de fazer e não fazer

para receber afeto e evitar castigos.

Mas muitas dessas coisas não nos eram naturais.

E o que é isso, senão usar, desde tenra idade,

uma espécie de…

… máscara?

Também acontecia com o pai.

Quantas vezes quisemos que o nosso pai se orgulhasse de nós?

Quantas vezes procurámos uma palmadinha nas costas?

Quantas vezes sentimos que um dos nossos irmãos era o preferido

e imitávamos o que ele fazia

para que o nosso pai também se orgulhasse de nós.

E muitas dessas coisas, quando as fazíamos,

não tinham nada que ver connosco.

Não faziam parte da nossa essência.

Mas fazíamo-las porque precisávamos do apoio e carinho do nosso pai.

E o que é isso, senão…

… pôr outra máscara?

Ou nas relações de casal.

Nas relações românticas.

Quantas vezes ouvimos ou dissemos:

"Uau! Permite-me ser a melhor versão de mim mesmo."

E, às vezes, é verdade.

Mas, muitas vezes, o que significa é:

"Uau! Permite-me ser a melhor versão de mim

que eu acho que o meu parceiro vai gostar."

Porque já nos conhecemos,

sabemos que bagagem temos,

as nossas merdas, os nossos esqueletos no armário.

E, se mostrarmos o nosso verdadeiro eu ao nosso parceiro,

assustamo-nos e entramos em pânico a pensar que ele fugir.

Então, serei o que ele quer para que não me abandone e me ame.

E o que é isso, senão…

… pôr outra máscara?

As redes sociais.

Parece que crescemos com elas, não é?

E achamos mesmo

que o nosso perfil representa a 100 % quem somos?

Porque estamos sempre a fazer coisas para agradar pessoas que nem conhecemos.

Para quê?

Para ter seguidores?

Likes?

Somos mesmo a pessoa que as nossas redes sociais retratam?

Se isso fosse verdade, diria:

"Raios, não acredito que estão aqui tantos filhos da puta como no Twitter.

Nem acredito que haja pessoas com vidas tão perfeitas

como no Instagram."

Mas fazemo-lo.

Somos mesmo as pessoas que mostramos nas redes sociais

ou também é…

… outra máscara?

No meu caso em particular, sou uma pessoa famosa.

Tenho sido muito popular durante quase 20 anos.

E, nesses 20 anos, sempre quis que gostassem de mim.

Sempre quis ser gostado.

E um dos meus maiores medos

era que pensassem que eu era um cabrão,

que não gostassem de mim, ou que pensassem que era cagão.

Ou que pensassem que a fama me tinha subido à cabeça.

E, para garantir que isso não acontecia, punha-me em último lugar.

Passava constantemente por cima de mim,

para que as pessoas me amassem.

Até tirei fotos numa funerária.

Não sei qual é a chave do sucesso, mas sei que a chave do fracasso

é tentar agradar a todos.

E, quando usamos tantas máscaras,

chega uma altura em que a vida, para o bem e para o mal,

nos bate com tanta força, quando nos apanha numa esquina,

que nos caem as máscaras todas e até os números do cartão de cidadão.

Até nos podem cair os alicerces, as ilhas.

Lembram-te do Divertida-Mente? Do primeiro? Com a menina.

Quando tudo parecia perdido, aquelas ilhas aparentemente indestrutíveis colapsaram.

Ilha da Família, Ilha da Amizade, Ilha da Magia,

Ilha da Inocência, da Brincadeira, da Infância…

Houve um momento que a vida me bateu com tanta força

que me caíram todas as máscaras e ilhas.

Vi-me ao espelho e não me reconheci.

E acreditem que é uma sensação horrível.

Quase que vos podia dizer

que houve uma altura em que senti que não tinha chão.

É uma sensação de abandono,

uma sensação de desorientação,

de medo…

Medo, muito medo.

Acreditamos que não podemos continuar. Temos medo de continuar, não queremos.

Os místicos chamam-lhe: "O lado obscuro da alma."

Chorei.

Como diziam os Maná: "Chorei um rio e um mar."

Mas, como também dizia Vetusta Morla:

"Só seremos livres quando já não houver nada a perder."

Há uns anos, li um poema pelo meu adorado Mario Benedetti

que dizia que um sorriso é muito mais bonito

quando se segue às lágrimas.

É como quando aparece o sol

depois de muitos dias de chuva

e a probabilidade de aparecer um arco-íris é grande.

Depois de todo este processo, não sei se sou uma pessoa melhor ou pior.

Sei que sou muito mais autêntico

e é isso que importa.

Nunca fui tão eu como agora.

Lembra-me daquele homem que entrou no elevador, lembram-se?

Perguntou-me: "És tu mesmo?"

E eu ri-me.

Se calhar ele viu o que se passava e quis avisar-me.

Se ele estivesse aqui agora, eu diria:

"Sou mais eu do que alguma vez fui, meu!"

E vocês,

se alguma vez passarem por uma tristeza destas,

ou se estão a passar agora,

lembrem-se de três coisas: Primeira, coragem.

Coragem, vai passar.

Segunda, já que vão passar por esta fase de escuridão e dor, aprendam com ela.

Não deixem que tudo seja em vão.

E, terceira, façam o melhor para vocês.

O que vos faz sentir bem.

E, se quiserem beber café numa chávena com uma frase pirosa,

porque isso vos dará aquele empurrão para saírem de casa,

bebam e não liguem ao que as pessoas dizem.

Mas também vos digo,

quando a tristeza nos toca desta maneira,

nunca mais nos larga.

Parece uma pastilha colada na sola do sapato.

No meu caso, quando a tristeza aparece, traz sempre muita solidão.

Muitíssima.

Porque parece que lá fora há muito mais ruído

e muito mais hostilidade.

E quando essa tristeza e a solidão me atacam

e estou sozinho em casa,

sabem o que faço?

Recorro ao pensamento mágico.

E talvez esteja sentado no sofá e olho para a direita…

… e vejo a manta.

E sabem o que faço?

Abraço-a.

E cheiro-a.

E um pequeno pensamento mágico surge que me leva a olhar para a porta

e imagino que tudo que já não faz parte da minha vida,

tudo o que a vida me tirou, tudo o que amei e já se foi,

um dia, de alguma forma, a vida vai devolvê-lo.

E quero lá saber do que vocês acham,

porque comigo funciona.

Muito obrigado e…

E, se ficou algo por dizer, foi que vale sempre,

sempre,

a pena.

Legendas: Marta Brás

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