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Eita vida.
Você está linda.
Cada vez mais linda.
você também.
Vai pela sombra, hein, Joaquim?
Fiz boa viagem, maestro.
Ótimo, excelente.
Meu nome é Érico, vou ser seu intérprete aqui. Minha mulher é a Minda, Mindinha.
Mindinha de Vila Louca. Encantado, dona Mindinha. Luiz, vamos apressar o
pássaro, está frio demais.
Érico, maestro, meu nome é Érico Veríssimo.
Música
Meus senhores, minhas senhoras, é a primeira vez que eu venho aqui nesse
grande país de vocês e o faço com muito orgulho nessa hora em que soldados
americanos e brasileiros lutam lado a lado em defesa da democracia.
Ao contrário,
enquanto não tiraram dos cartazes Vila Lobos, compositor brasileiro, e puseram
somente Vila Lobos, compositor, eu não apareci aqui.
Recusei mais de dez convites.
Alguém aqui já viu anunciado alguma vez Mozart, compositor austríaco?
Beethoven, compositor alemão?
Então por que me chamar Vila Lobos compositor brasileiro?
A música é a voz
da natureza. E longe da natureza é o quê?
É guerra, é morte, é sofrimento.
Eu digo isso não por ouvir dizer ou porque li em lugar algum, não. Eu digo
porque eu sei.
Meus amigos, eu vou lhes contar um segredo.
Certa vez, há muitos anos atrás, no meio da selva amazônica, eu ouvi o canto
de um pássaro. Na verdade, era um passarinho pequenininho, desse
Eu lhes digo que, com ele, eu aprendi a canção da liberdade.
Mas eu acredito em você, maestro. Porque a única liberdade que você encontra
nesses dias no Brasil é com pássaros no meio da jungle.
Seis.
Cinco.
Ok. Agora, qual é o seu nome?
Como é o seu nome?
É isso lá.
Terezinha, vem cá.
Quero te apresentar um amigo meu lá da orquestra.
Heitor Vila -Lobos.
Muito prazer.
Você dança mal?
Tem que ser com pressa?
Não.
Quando você quiser.
É a primeira vez?
Por quê?
Sei lá.
Achei que era.
É?
É.
A primeira vez, a gente nunca
esquece.
Agora eu vou ser quem está com fé.
Heitor. Desce daqui, menino.
Venha cá.
Por favor, mulher.
Já não lhe disse para você não sair do quarto sem autorização?
Eu queria ouvir de perto.
Volte já para a cama.
Amanhã conversamos. Espere.
Antes... Peça desculpa para todos.
Vamos. Não se meta nisso, mulher.
Eu sei muito bem o que estou fazendo.
Isto não é assunto para pais ou para mães.
A tia Fifina resolve.
E vocês continuem ensaiando, pois ainda não estão à minha altura.
Você gosta de música?
Tia, de onde que ela vem?
A música?
Essa é uma boa pergunta que eu nem sei responder.
Mas venha de onde vier, ela chega pela cabeça dos músicos, ou melhor, pela alma
deles.
Essa música que você está ouvindo foi feita por um homem chamado João
Barr. A senhora conhece ele?
Onde é que ele mora?
Ele morava num país muito longe daqui, chamado Alemanha.
E se o céu existe, ele deve estar morando no céu.
Porque ele já morreu há muito tempo.
João Bach?
Bach.
É assim que se fala em alemão.
Bach.
Curioso você me perguntar de onde vem a música.
Porque... Bom, eu vou lhe contar uma história.
Mas fecha os olhos que é pro som não chegar depressa, tá bem?
Rodor!
Se agradou de nós, menino?
Gostou da música?
O nome é Rasga o Coração.
Fugiu de casa?
Fugiu, fala.
Fugir.
Língua presa se acofarda.
Fugir.
Ah, pois então se cuide.
Fera que rompe jaula, vira caça.
O que é, sujeito? Fala.
Vai tocar minha música hoje?
Meu filho, eu já lhe disse que quando puder eu mesmo lhe aviso.
Não seja insistente. Volta lá para sua estante. Volta.
E agora?
O que eu vou fazer?
Mãe, eu vou.
Mas eu volto.
Não é verdade.
Obrigado, mas não é verdade.
Tantos filhos e o preferido é o que menos gosta de mim.
Maestro Villalobos?
É você?
Eu sou do serviço de cópias. Me mandaram aqui.
O senhor não requisitou um copista?
Meu nome é Arminda, mas eu sou conhecida como Mindinha.
Olha, maestra, já vou logo dizendo que não tenho prática de partitura de
orquestra, mas passei no teste, acho que em pouco tempo eu pego o jeito. Senhor,
por favor, tenha paciência comigo.
Meu nome é Arminda.
Ah, isso eu já disse, não é?
Ah, teoria.
Eu fiz o curso completo, cheguei a lecionar, então havia anunciado esse
falei com a Mariuxa, ela me disse que procurasse diretamente o senhor, que...
É você.
Me diz uma coisa, quem é que te mandou aqui?
Mas, maestro, eu acabei de contar tudo.
É você.
E o nome da sua esposa?
Swiss Poster.
Música Música Música
Meus senhores e minhas senhoras, peço perdão, mil perdões, por
interromper o fluxo de tão merecida alegria. Mas eu serei breve, muito
Imbuído da liderança que o destino me legou, talvez por julgar mal as minhas
qualidades, é -me imperativo alertá -los para a grande importância deste
momento.
Companheiros, artistas, técnicos,
estejam conscientes que estamos trazendo a delicada
flor da cultura pátria para o gigantesco oceano do primitivismo
nordestino.
Não vou botar a mão nele, não!
Larga ele!
Larga ele!
Larga ele!
Larga!
Delicada flor da cultura pátria, a priquitina.
Artista, é?
Faz o quê?
Eu sou músico.
Eu também.
Diploma de canto no conservatório em Milano.
Não se
preocupe.
Eu e a Pinga, nós temos um trato.
Ela não me derruba.
Eu não abandono ela.
Romeo Donizete.
Saxofonista.
Era cantor.
Isso no papel.
No vamos ver. Tudo.
Bom, Sr. Donizete.
Eu vou indo.
Muito prazer.
Amigo.
Obrigado.
Ah.
Eu estou saindo em uma excursão amanhã.
Se tiver servido, está às ordens.
Amigo toca o quê?
Violão, violoncelo, clarineta, piano.
Excursão?
Quanto tempo?
Com quem?
Eu e Deus.
Na derradeira, levamos um ano e meio.
E vamos para onde?
99...
Isso aí.
Isso aí.
Passa, passa. Passa.
Quem quiser se candidatar é só falar. O homem tá aí mesmo.
Pra mim chega.
Isso não vai morrer de tanto cagar.
Tá lento, meu amigo.
Tá lento, meu amigo. Tá lento.
Não tem nada a ver com o intestino. Tem a ver com o cérebro.
É um passarinho miudinho.
E tem gente que diz que ele tem dez cor na cabeça.
E tem gente que diz que não tem cor nenhuma.
Essa bosta perde.
Pois bem.
Diz que a Índia estava caçando.
E aí acertou uma frechada bem no peito do bichinho.
E o bichinho caiu mortinho no chão.
Aí, diz que... Diz que quando o bicho se encarou
no chão, ele se transformou assim de repente.
No índio.
Grande.
Formoso.
E ainda se enraixou dele.
Mas como é o nome desse passarinho?
No Irapuru.
Você já viu ele?
Esse Irapuru?
Nunca vi nem ouvi.
Mas diz que quando o cabra escuta ele... fica maluco.
Vou ficar sabendo de tudo, tá no mesmo tempo.
Quem sabe pouco, é pouco maluco.
Quem sabe tudo, é tudo maluco.
É.
O que foi?
O paciente está pronto.
Morre, Felipe.
Estamos te caçando a uma eternidade.
Está aqui andando metade do que andou no mato. Nunca acaba bom. Já sumiu e
perdeu de vez.
Caralho.
Isso aqui não é um passeio público, não.
Não fosse esses índios aí, babau.
Está querendo morrer, Felipe?
Vou ouvir. Ouvir o quê?
Batalha.
Escuta, acaba o que o passarinho te disse ou não te disse. Eu não vou
com você, não vou.
A mim não disse nada.
Nem quero saber.
Passa bom por ver. Seja feliz.
Passaria quando eu quero, eu mato, mando assar e como.
Se viu isso, sabe.
Quando se viu isso, sabe.
Tá rindo de quê?
Da vida.
Eu tô rindo da vida.
Eu sou o homem que gosta de molhar as palavras.
Você, você se perde, né?
Mais dia, menos dia. Vamos acabar os dois.
Certinho no prato, não.
Eu tenho que me juntar com gente menos doida que eu.
Não é o teu caso.
Até a amizade, coitou.
Sem precisão dessas horas de folga.
Se eu fosse você, voltaria para a sua casa.
O aconchego do seu lar.
Mas hoje não.
Hoje vamos gostar da vida como de bosta.
Para o Rio de Janeiro eu não volto. Eu acho que nunca mais.
Nunca mais.
Fera que rompe jaula, vira caça.
Minha flor idolatrada, tudo em mim é
negro e triste.
Vive minha alma arrasada, ó titinha, desde o dia em que
partiste.
Eu vou pra rua.
Pra rua, Leandro.
Vai.
Deve ser melhor pra você na rua.
Mais apropriado.
Mas é seu gosto.
Vai.
Por que não?
Se encanta minha mulher, não quer ser minha mulher?
Hein? Eu nunca me recusei a ser sua mulher.
Você recusa, não é?
Não se recusa, não.
Por que que de repente... Por que que de repente você se esconde toda, Lucília,
hein? Responde!
Fala por que que você tá escondida!
Responde!
Por que que você tá atrás desse sol?
A irmã está aqui. Está inteira.
Está perfeita.
Entra. Pode olhar.
Vai dormir, Louise.
Está tudo bem.
Vai.
Eu tenho medo.
Eu ando por esses corredores de cabeça baixa.
Acho que está todo mundo contra mim.
Eu sinto.
Eu vejo.
É risinho, é deboche.
Estou cada vez mais confusa, perdida.
Você tem idade para ser meu pai, é um homem casado.
Às vezes eu acho que estou ficando maluca.
Não consigo mais dormir.
Estou muito assustada.
Eu tenho medo.
Medo dela.
O jeito que ela me olha.
Medo.
Medo.
Calma, meu amor.
Tenha paciência comigo.
Tudo vai se arranjar.
Engraçado esse medo.
Numa pessoa que me dá tanta coragem.
Você já a viu?
Já.
Que ponto de interrogação é esse aqui?
Eu estou no meio de uma aula, Vila.
Descansa um pouco, filhinha.
Toma. Está muito magrinha. Esse negócio de escala consome muito, não é, Dani?
Aqui, olha.
Qual o problema?
É esse acorde aqui.
Não dá para tocar.
Como não dá para tocar?
Não dá, Vila.
Ninguém pode tocar essa música.
Só com três mãos e eu só tenho duas, Vila.
Vila Lobos.
Sim, já. Ninguém pode tocar essa música.
Que história é essa agora?
Tem que melhorar a ponta desse lápis, Rombudo.
Não dava tocar se arpejado, Arapinoia.
Pronto.
Agora já cabe nas duas mãozinhas.
Então quer dizer que ninguém pode tocar minha música, né?
Não, Vila.
Quem sabe um dia você vai encontrar uma orquestra cheia de músicos com três
mãos.
Dá capa.
Luiz.
Luiz, larga isso aí. Vem tomar banho que está na hora de sair para a escola.
Espera aí.
Espera aí.
Não, senhor.
Não vai pra colégio nenhum hoje, não.
O que você
disse, seu Luiz?
Que a tu vinha no vento vinha?
Isso, seu Vila, que nada.
Já estava sofrendo antes.
Estava fraquinha, cunhado.
Foi a mágica.
Foi a mágica.
Toma.
Quer dizer que... Quer dizer que ninguém pode tocar minha música.
Onde já se viu?
Mas que novidade é essa agora?
Quer dizer que ninguém pode tocar minha música.
Onde já se viu?
Mas que novidade é essa agora?
Que horas são?
Por que vocês não foram para o colégio?
Foi. Foi para você que está inventando sons aí, que nem um macaco.
Foi.
Não se meta, mulher.
Não se meta.
É esse pilantra que nos teus olhos consegue um anel de doutor.
Doutor de gazetas, isto sim.
Agora veja bem, não te dá desfibrar um filho homem com afaguinhos e com
colinhos. Mas a culpa não é da música. A explicação está na tua fraqueza.
Senta, senta, senta. O meu dinheiro que está sumindo deve ser esse vagabundo.
Você vai ficar aí amarrado estudando até eu voltar.
Entendeu?
Até eu voltar da repartição.
E ai de quem se meter?
Ai de quem se meter?
Está com fome, meu filho?
Quer comer alguma coisa?
Tá ouvindo, mãe?
O quê?
Não tá ouvindo nada?
A senhora não tá ouvindo nada?
Não.
Você tá preocupado com seu pai?
Já falta muito tempo pra ele chegar.
Tem medo não, Turru.
Nessa altura ele já se acalmou.
E não esqueça que foi ele que te deu de presente o violoncelo.
Você sabe que por mim você não tocava não, né?
Você ia ficar só estudando.
Concerto só meu.
É isso.
É claro, meu caro. Supimpa. O resto é detalhe.
Só meu.
Com orquestra sinfônica.
E a música de Vila Lobos. Como? Como ainda não sei. Mas sei quando e onde.
Pra já. Pra ontem no Municipal.
No Municipal! No Municipal.
Mas que loucura! Que loucura!
Que isso, seu Afonso! A vida é um assalto e não um passo a passo.
Veja o seu caso. Saiu do poço de um teatrinho chifrinho, fez um piscar de
tá andando nas cartas no melhor jornal da cidade.
Agora, quando você mais tocar pra estimular a força capilar, lembra? Se já
naquele tempo você confiava no meu tato.
É, né?
Boa música, sinceramente.
Não é todo mundo que consegue.
Aliás, você sabe muito bem. Então a música não é nada fácil, né?
Fácil? Fácil é faca tente cortando manteiga.
Que história é essa de fácil e difícil?
O difícil de hoje é o fácil de amanhã.
O dia já se viu.
Já não basta mulher criticada.
A imprensa pode ter essa terra, meu querido Afonso. E ninguém melhor do que
sabe disso.
Se você falar com o diretor do teatro, a coisa tá no papo.
Tá bom, Aitor.
Você ganhou em nome da nossa amizade, do seu talento, principalmente a toda
Odisse.
Pode deixar.
Amanhã mesmo eu vou falar com aquela munha.
Sou eu, o Vila Lombos.
Mas o senhor tem obras suficientes e de qualidade para fazer um concerto?
Para três, quatro, dez concertos.
Óperas, sinfonias, sonatas, quintetos, fantasias, obras inovadoras.
É esse rame -rão de repertório, se o senhor me permite a expressão, sem
ofender ninguém.
Meu caro, como diretor, eu tenho compromissos. Eu tenho calendários
rigorosíssimos, planejados anos antes... Se apressar, diretor, se o senhor me
permite a franqueza, eu acho que estou lhe dando uma chance, e não o contrário.
É verdade.
Uma chance para deixar de macaquear tudo que vem lá de fora e criar uma coisa
nossa, nova, brasileira. Está na hora. Vamos lá.
Fique sabendo, meu caro, que um compositor nacional nunca deu certo
Uma vez tem que ser a primeira.
O senhor sabe, a primeira nunca se esquece.
O senhor tem um quilo, ó.
Quilo o quê? Quilo, audácia, topete.
São palavras vindas do francês, assim como cabotin, cabotino, entendeu?
Bem, vamos ao que interessa. Eu vou atendê -lo.
Mas que fique claro.
Que eu só faço isso em nome das recomendações veemente do doutor Afonso.
porque eu acredito no seu filó.
Também por causa dessa maldita guerra na Europa.
A companhia lírica otariana está retida em Portugal.
Mandaram suspender as representações no final deste mês.
Talvez desse buraco... Fechado.
Fechou -se o buraco.
O senhor não vai se arrepender.
Vem a terça -feira assinar o contrato.
Passar bem.
Obrigado. O senhor ainda vai entrar para a história sem saber.
A vida é bela!
É a grande virada, meu caro.
A grande virada. A tacada decisiva. É o famoso ou vai ou racha. Pode ter
certeza. Já tenho coisa aberta no papel.
Mas vou compor coisa nova também.
Depois, com essa casaca pronta, sabe o que eu faço?
Hein?
E o que é que o senhor faz?
Penduro ela na parede.
Pendura?
Mas antes, por favor, suba aqui no banco que eu tenho que ver sua chapa.
Penduro, sim, senhor.
E só tiro de lá no dia do concerto.
Por quê?
Porque se eu desistir, se eu correr da raia, ela vai ficar lá pendurada pro
resto da vida rindo da minha cara.
Eu não vou querer isso. Não.
Quem vem de baixo como eu, meu cara, tem que varar com fé. Porque está indo
contra a gravidade.
Perfeitamente. O senhor está coberto de razão.
Mas não dá para ficar um pouco quieto?
Obrigado.
Quero ver quem é mais rápido. Eu com vocês.
Já
sei.
Já sei. Já sei como divulgar o conserto. Pelo amor de Deus, Vila, são duas e
meia. Pode dormir até meio -dia.
Você não precisa mais da aula. Nem essa e nem nenhuma.
Parar de sonhar um bocadinho, vamos.
Vamos encarar a realidade, Vila.
Tá bom, fala.
O que foi, Vila? Fala.
Amanhã bem cedo eu vou comprar todos os jornais para distribuir os panfletos que
o Afonso conseguiu imprimir no jornal dele de graça.
Que ótimo.
Mas agora eu preciso dormir.
Viva eu, viva tu e viva o rabo do tatu. Viva eu, viva tu e viva o rabo do tatu.
Alguém aqui tem que ter um mínimo de responsabilidade.
Maestro, a orquestra está pronta.
Obrigado.
O que podemos ouvir foi um confuso amontoado de sons que se chocavam
canalhamente.
Aquilo não é arte, aquilo não é nada.
Ou melhor, é um abuso, um desrespeito e seria de bom ao vitre...
Continua, por favor.
Seria de bom ao vitre... Que se criasse um mecanismo qualquer para impedir que
tais palhaçadas cheguem ao palco do municipal.
Aliás, diga -se em tempo que o único mérito de tão singular compositor é que
música faz rir.
Finalizamos com apelo sincero. Se o senhor Villa -Lobos realmente tem amor
música, afaste -se dela para o bem de todos, inclusive o seu.
Beethoven, Mozart, essa turma toda tinha lá princesada para garantir o feijão?
Quem mandou não nascer alemão?
Quem mandou?
fracasso e dívidas para deixar de ser metido à besta.
O que eles querem de mim?
Que eu não exista? Calma, Vila.
Calma.
Calma. Parou a bobagem, a maniaria, uma coisa à toa. Não tem a menor
importância. Eu não posso existir. Só isso. Se eu concordar, fica tudo ótimo.
Mas não vai ser nada.
Eu só saí pelo raio dessa porta mais uma vez para tocar a orquestra em cima da
parede.
Você não tem o direito de berrar com ela desse jeito.
Você está vivendo a vida que você escolheu viver.
E não foi por falta de aviso.
Seu pai é que tinha razão.
Dá isso, meu pai, que vai pro inferno!
Deixe -me ir.
Quando você voltar dessa viagem, eu não vou estar mais aqui.
É pena.
Porque eu sinto que ia ser maravilhoso para toda a vida, mas... eu não aguento
mais isso.
Não aguento mais.
Do mês que vem em diante.
Estou falando sério, Vila.
Você não vai mais precisar tocar em orquestria nenhuma.
Ah, é?
Ganhou no bicho ou vamos jejuar?
Eu tenho vários colégios me chamando para lecionar.
De modo que eu fiz as contas, estudei os horários.
E dá perfeitamente.
Juntando com as aulas particulares, dá e sobra.
Dá e sobra.
Dá e sobra mesmo.
Daqui a um mês, considere -se livre.
Para compor o que quiser e quando quiser.
Você não tem a princesada dos alemães.
Mas você tem a mim.
Vai me sustentar?
Vou viver as custas da minha mulher.
É.
Daí para a sarjeta é um purim de pulga. Santa Maria Perniana.
Eu sou o que me faltava.
Conversa direito comigo pelo menos uma vez na vida.
Eu não sou tonta, boba e nenhuma santinha dedicada ao marido.
Toma isso como um empréstimo.
Eu sei que você vai poder me pagar em duplo, em triplo.
Eu não estou falando só de dinheiro, não.
É de vida também.
De felicidade.
Não diz nada. Hoje quem fala sou eu.
Fiz questão de te chamar aqui para te receber em público e com música. É o
seguinte. Ou vamos nós dois viver juntos já já, ou eu vou sozinho para os
quintos do inferno. A mala está aqui. Pronto.
É o escândalo, sim, senhor.
Vila Lobos Maestro, chefe do ensino musical do estado.
Como é? É assim ou é não?
Mas eu estou com a roupa do corpo.
Tem razão.
Pronto.
Empatou. E agora?
Dá para os pobres.
Relaxa e não some nada, hein?
O senhor pensa ocupar quando?
Já estamos ocupando. Mas o senhor não perguntou o aluguel? Eu sou apenas o
porteiro. Qual é o seu nome?
Joaquim Alves dos Santos Pereira.
Joaquim. Meu caro Joaquim. Há momentos na vida que um homem tem que ir de três
em três. Se ele for de um em um, não dá tempo.
O piano vai ser aqui, meu benzinho.
Agora deixa a gente aqui. Vai tomar uma cerveja por conta da casa.
pensando nas voltas que o mundo dá. Mas, doutor... Eu não sou doutor, meu caro.
Você também não deve ser.
Então eu acho que nós vamos nos entender muito bem.
Amanhã eu venho morar aqui, eu e ela. Vai estar tudo mobiliado e o aluguel
adiantado. Eu vou confiar no senhor. Você não vai se arrepender.
levando.
Esse aqui é Arthur Rubinstein, um dos maiores pianistas do mundo.
Bravão, esse.
Minha felicitação.
Sua música é realmente muito interessante.
Gostaria de conhecer suas peças para piano.
Acho interessante.
Lhe aprovou?
Que nota que ele me dá?
Perdão, não entendi.
O que é isso?
O que tem com o francês em cima de...
Peças. Uma vez sim de você.
Fui eu que trouxe para te ajudar.
Não é francês. É polonês, porra. Está na mesma.
Desculpa.
Peças. Meu amigo, eu não componho peças para piano.
Aliás, cá entre nós, eu nem gosto de piano.
É um instrumento meio bobo. Com aquelas pecas todas grandes demais, é difícil de
carregar. Não serve.
Você, pela cara, é um virtuoso.
Virtuoso!
São homenzinhos muito delicados. Eu também não sei lidar com eles.
Ah, bom.
Você sabe, senhor, sua música é o futuro.
Mas, infelizmente, você não merece a música que você faz.
O homem perdeu muito.
Perdeu o seu e o meu.
Adeus.
Bom dia.
Desculpe -lhe acordar tão cedo.
Mas é hora que meus amigos podiam.
Eu descobri o seu hotel.
Eu vim aqui para lhe mostrar um pouco mais da minha música.
Garçom, por favor.
Garçom, traga aqui para o meu amigo gringo um verdadeiro café brasileiro.
e forte.
O que é isso?
Mijo de gato?
Pipi de chá?
Meu querido Hugo, eu vou precisar da sua ajuda.
Aqui não está dando mais para suportar.
Infelizmente, eu não sei jogar bola.
Sim, mas, enfim, esse jovem, ele precisa de quanto?
Ah, meu querido Guilherme, nada mais do que de um bom mestre.
Um dia em Paris sem ter pensado no dinheiro, é tudo.
Sim, eu conheço, mas, enfim, dizem também que ele é muito malandro.
Sim, sim, talvez mesmo bom que ele seja.
Que importância. Que importância.
Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu. São seis
meses, mas ele garantiu casa, comida e roupa lavada. Eu garanti que você era
mesmo. Não vá me decepcionar, Vila. Meu caro Rubi, vou lhe ensinar uma arte
milenar. Vamos soltar uma pipa em plena Torre Eito. Ou será Eiffel?
O automóvel, meu filho.
Já chegou.
Já vou, mãe.
Pede para esperar um pouco.
Cecília, entende.
Não fica assim.
Eu vou só abrir caminho.
Da próxima vez, a gente vai junto.
Eu não estou falando nada, viu?
Pode ir, foi pegado.
Você não vai me acompanhar até a porta?
Não.
Eu prefiro me despedir aqui.
Vai com Deus.
Você entende o francês?
Você quer que eu fale mais lentamente?
Eu me ofereci para fazer a promoção do seu concerto.
Você não se lembra de mim na recepção, em honra de Rubinstein?
Havia muito gente.
Para esse trabalho, que de fato, digamos, não é o meu trabalho habitual.
artista pintora.
Eu vou ter que perguntar algumas perguntas.
Vamos tentar?
Maestro... Eu aprendi que, durante essa primeira visita a Paris, você se tornou
celibataire. É verdade?
E, aos poucos, a melodia assombrou os terríveis antropófagos. Então você é
liberado, sacerdote sagrado, etc, etc.
O fim.
Você inventou tudo isso?
Sim.
Por quê?
Em Paris, em uma cidade famosa de novidades, eu sabia que uma história
essa, bem plantada, haveria um mundo louco na sala para te ver de perto.
Para ouvir sua música.
Eu sinto que a graça evoluiu um pouco.
Por que você não me contou isso?
Por quê?
Porque... Porque eu te conto agora.
Mas que importância pode ter?
Isso não é bom.
O que é esse tom comigo?
Escuta, não seja idiota.
Eu adoro o Brasil.
Mas aqui, meu querido, o Brasil é uma terra selvagem no fim do mundo. Do outro
mundo. Com muito honra.
Estou muito orgulhoso.
E atenção com palavras.
Eu falo o que eu quero.
Desça desse lugar e coloque a espada no chão, meu querido.
Aqui, você é exatamente isso.
Selvagem, exótico e pitoresco.
Com certeza, senhor.
Em breve.
Mas antes... Um último conselho.
Um conselho de amizade.
Não saia sozinha de noite.
Você é ainda muito garotinha, meu pequeno.
Tentei perseguir um talento inexistente.
e caçando notoriedade a qualquer preço, esse anarquista dos sonhos não hesitou
em dirigir -se à capital do mundo civilizado, onde, com histórias
e sensacionalistas, entregou -se de vez escancaradamente ao deboche
e à vigarice mais eslavada.
Merece o repúdio de todo brasileiro que tenha um mínimo de respeito por sua
pátria.
Agora não vai ser assim.
Diz -me, diz -me que não chega.
As mulheres, quando fazem as ampletas... Sim, é isso.
Cuidado, estamos registrando.
Então, então, agora, pedi para ele.
Desculpa o atraso, meu benzinho, mas eu acho que valeu a pena.
Supimpa!
Valeu.
E agora?
Você acha que vai jogar agora?
Você acha?
O trenzinho do caipira.
Vou cega, Joaquim. Senta aí.
Vai botar o carro na porta.
Nem telefonar pra médico nenhum.
Isso aqui tá bonitinho.
Deixa eu ficar até o fim.
Não vamos arriar trouxa antes do tempo.
Ih, olha lá.
Lá vem o corão.
Isso, seu Vila -Lobos!
Rasga o coração!
Senhoras e senhores, estou muito orgulhoso de apresentar à creme dos
parisianos um monumento do meu país, um portrê do Brasil.
Meus amigos, a feijoada.
Mas isso é merda.
Nada mais que merda. A merda é você.
Vila de pedido!
Vila! Vila!
Calme -se, senhor!
Nós estamos há dois dias com esses não -me -toques e desconversas.
Chega.
Vila -Lobos, antes que você... Antes não.
Depois.
Já está duro de falar, não me tire o impulso.
Eu conversei com eles hoje, os doutores.
Eu já sei que eles me podaram todo.
Eles me disseram que eu vou poder levar uma vida praticamente normal.
Praticamente.
Esse praticamente vem de quebra.
Umas sondas e umas bolsinhas pra eu carregar.
para o resto dessa minha vida normal.
Meu beijinho.
Uma cilada do destino.
Não se esqueça que ainda por cima eu tenho 30 anos mais que você.
Para encurtar essa história, eu estou vendo o fim da caminhada.
Estou me vendo mal.
Ciumento. Mitroso.
Com medo de perder você.
Amargo.
A gente não tem mesmo filhos pra criar.
De modo que eu... Reuni... forças pra te pedir
que vá embora logo.
Por favor.
Depois de tudo que nós vivemos na cama
e fora dela.
Você ficar comigo, por pena,
seria um tiro de
misericórdia.
Posso falar agora?
Por que você não trabalha em cima da mesa?
Eu prefiro no chão. É maior e as coisas não caem.
Vila.
Eu preciso conversar com você.
Te converso.
O que foi?
Não, eu preciso conversar com você agora.
Cecília, o concerto está aí na bucha. Eu já programei. Isso aqui está impresso
no programa, de modo que eu tenho que acabar essa pinóia.
Fala.
O que foi?
Quero voltar para casa.
Não se preocupe.
O dinheiro está no fim.
Teremos que voltar.
Quero voltar agora.
Priscila.
Meu Deus.
Para de sofrer, Lucília. Para com isso.
Olha, mas é... É que... A gente tem um troço forte. Nós dois.
Que é a música.
Vamos mergulhar nisso juntos.
Vamos começar por aí.
Vamos começar de novo.
Lucília, olha, se você me deu... Depois de tanto tempo.
É no mínimo engraçado você me falando de recomeçar.
Filha, você não é tonta nem boba. Você tem medalha de ouro.
Começar, recomeçar, rerecomeçar. Dane -se o nome.
Todo dia o sol se levanta e começa tudo de novo. Desde Adão, todo dia.
Sem falar nas noites.
Vamos mergulhar juntos.
Ai, filho.
Esse mergulho não é pra mim, não.
Não é culpa minha se eu não tenho o seu talento.
Assim como não é mérito seu ter nascido com ele.
Mas é um fato.
Você mergulha.
Eu fico no raso assistindo.
Aí me sobrou amor para mergulhar.
E nesse setor... Nesse setor a mediocridade não é minha.
Eu poderia até entender suas aventuras.
Se comigo também fosse uma aventura.
Quem me dera.
Mas não se preocupe não, que eu vou ficar para o concerto.
Eu já me acalmei.
E agora, meu querido Rubi, a pipa!
A pipa!
A arte milenar que no Brasil dominou perfeitamente.
Vem dentro da xingueira, cachorro do mato, que vai me morder!
Vem dentro da xingueira, cachorro do mato, que vai me morder!
Vem ver o que eu xinguei, vem ver o que eu xinguei, cachorro do mato que eu não
mordei.
Vocês lá sabem o que é um pajé? Explica pra eles, meu benzinho. Eles não sabem,
eles não gostam de índio.
Eu sou benzido por pajé e nasci de sete meses.
Maestro, você era um prodígio de criança, senhor?
O que ele disse, Luiz?
Maestro, pela última vez o meu nome é Érico Veríssimo.
Ah, é?
É pena, porque você tem cara de Luiz, não é, meu benzinho?
Ele está perguntando se o senhor foi um menino prodígio.
Eu?
Não. Eu sou um velho prodígio.
O senhor, no momento, está compondo alguma coisa?
Ultimamente, meu caro, eu só venho é decompondo.
Que é isso, meu benzinho?
Mas como eu ia lhe dizendo, o brasileiro, o brasileiro é o povo mais
mundo, embora não saiba se dar valor.
Eles não gostam de ser brasileiros.
Disfarçam. Querem acabar comigo? É interessante.
Vivem metendo pau em mim sem parar, mas não param nem para ir ao banheiro. Mas
eu volto para lá. Eu saio e volto.
Eu sou que nem gato. Me enxoto no quintal e eu volto pelo telhado.
Esse é o truque. Eles não perceberam. Mas não é o povo.
Não é não.
É preciso não trocar o sentido das coisas.
Não confundir o povo.
Povo. Não confundir nem com o público, nem com massa.
É importante.
A massa, veja bem, a massa... É a massa. É massa.
O público se enfeita todo e vai pra sala de concerto com cara de quem está
entendendo tudo.
É preciso notar a diferença.
A massa é horizontal.
O público é vertical.
Mas o povo, pelo menos o povo brasileiro, é diagonal.
É por isso que eu gosto do povo. E é por isso que a minha música é popular.
popular, porque eu cuido muito mais do aspecto diagonal do que do horizontal ou
do vertical.
Maestro, ele está querendo que o senhor fale um
pouquinho mais sobre essa história de diagonal.
Eu também gostaria de saber.
Ah, meus caras, infelizmente, cada um que acha o seu, a sua.
Se arrisque, mergulhe fundo.
Seu Vila -Lobos, o presidente vai recebê -lo agora.
Tenha bondade.
Meu caro maestro, fiquei muito contente com seu interesse em me visitar.
Estou às suas ordens.
Senhor presidente, eu não sou um homem de muito falar, sou apenas um músico.
E a música, presidente, é o motor da vida. Isso mesmo, o motor da vida. Não
há vida sem música, como não há vida sem coração.
Agora, o coração da música é o metrônomo. Quer dizer, o coração é o
metrônomo da vida.
Um metrônomo que a humanidade se esqueceu de escutar não tem saída. A
tem que voltar a escutar seu coração, seu metrônomo.
O Brasil, senhor presidente, o Brasil tem a forma de um coração.
Portanto, o Brasil é o metrônomo da humanidade. É daqui, dessa natureza,
pássaros, dessas cascatas e cachoeiras que sairá o som, que irá salvar a Terra.
Muito bem. Todos os brasileiros nascem músicos, senhor presidente. Só falta um
pouco de estudo e é isso que eu venho lhe propor.
Senhor Vila -Lobos, estou sendo convocado de emergência e preciso sair.
O que o senhor está me dizendo está tudo aqui.
Eu o convocarei novamente. Espero que o senhor me desculpe mais uma vez.
Obrigado.
Deixa. Deixa tocar.
Não quero falar com ninguém.
Nada. Nada adianta. Nada.
É o país dos bem -nascidos, dos sobrenomes, dos salamaleques, dos
única diferença entre política e futebol é que na política, por falta de bola,
eles se chutam uns aos outros.
E cansa.
Como cansa.
Maldita hora que eu voltei pra cá.
Dois meses fazendo um projeto que me encomendaram, que eu não pedi pra fazer.
acredito, faço.
E aí, silêncio. Gaveta nele.
Ih, ele acreditou, o palhaço. Aquele músico meio esquisito.
Cega, Vila. Descansa um pouco.
Eu te avisei pra não se meter em política. Não é do teu temperamento.
É uma questão de temperamento. E que política?
Música.
Música e criança.
Com música e criança eu virava esse país pelo avesso. Pelo avesso.
Que eu não posso fazer tudo sozinho.
Sozinho e sem dinheiro.
Entra!
Rila, o telefone do Palácio. É urgente.
Sim, seu presidente.
Sim, seu presidente.
Sim.
Seu presidente.
Eu tive um sonho.
Estava lá no estádio. Tinha uma enorme bandeira voando.
Bonita, aberta.
Aí eu acordei e perdi o sono.
Como é que faz uma bandeira voar?
Bandeira voar?
Voando sozinha?
Pois é.
Aí é que tá.
Difícil.
Tem alguma coisa na geladeira?
Tá com fome.
Digamos. Eu também.
Vamos lá?
Podia, quem sabe, usar um balão.
Pendurava ela e pronto, um balão.
Ele é grande, não é?
A bandeira não era grande?
Será que é fácil ela usar um balão, hein?
Não sei, pode ser.
Mas aí ela vai voar com o pé.
E o que que tem?
Só aí ela voava deitada. Em pé não tem graça.
E balão?
Balãozinho como?
Muitos balõezinhos formando a bandeira.
Bola de sede, gás.
Aí, de repente, solta e sobe.
Criança segurando.
Mas aí, quando soltar, vai desmanchar a bandeira?
Vai desmanchando e daí?
Aqui fica bonito.
Balãozinho.
Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu, viva eu, viva tu, viva o rabo do
tatu. Depois eu não componho músicas, eu faço aventuras musicais, é muito
diferente. Ah, mas ele chamou de sinfonia, não tem forma de sinfonia.
tem forma? O senhor tem dado um forte apoio, digamos, musical ao este governo
Vargas, que não é propriamente um governo democrático.
Não seja tão diplomático, mister.
Meus inimigos, até mesmo alguns amigos, vivem se reunindo para falar mal de mim.
Para acabar comigo.
Me chamam de fascista.
Lambicu de autoridade.
Fantoche. Bobo da corte. Fundo musical do Estado Novo. E por aí afora. Mas são
apenas palavras.
A única acusação que me tira do sério.
É quando chamam a minha música de plágio de folclore ou de sei lá o quê.
Ora, essa coisa de folclore, tudo são coisas que vêm da terra,
que estão no ar.
Como Bach.
Para eles, Bach é um compositor erudito, barroco, do século não sei das quantas,
que mora na página 63 da enciclopédia.
Bach.
Era um missionário.
Ele tinha uma missão.
Ele veio a este mundo para captar lá a música dele.
No infinito astral. E impregnar a terra.
E está aí.
Impregnando tudo. Para quem quiser.
Para quem quiser.
Aí eu quero.
Eu vou lá e pego mesmo e ponho na minha música da mesma maneira como eu faço com
o meu folclore. Eu vou lá, eu bebo, eu ponho na minha música e transformo com a
minha personalidade, porque o folclore sou eu. Ora, bolas.
Eu queria mesmo todo o Brasil dentro do estádio, mas hoje serão apenas 40 mil
crianças lá, cantando juntas, a quatro vozes.
Olha, se eu pudesse... Brasil hoje, quantos são?
40 milhões?
Me dá, me dá cinco minutos com esses 40 milhões cantando juntos.
Cinco minutos que seja.
Estava tudo resolvido assim, ó.
Política, economia, fome, tristeza, burrice, tudo.
Dona Bidia está procurando o senhor.
Parece que a segunda banda está sem resposta.
Calma, calma, tudo se resolve.
Maestro. Boa tarde, eu sou o capitão Prata da logística. O general pediu que
transmitisse algumas instruções a respeito de... Instruções?
É sobre a ordem das músicas. Capitão, eu não sou um homem instruído, de modo que
eu tenho penimba com instruções. Eu simpatizo no máximo com sugestões, mas
até para isso eu estou sem tempo. Com licença. Mas, maestro, o que eu vou
ao general, maestro?
Diga ao general, meu caro capitão, que em festa de Nhambu, Jacu não pia.
Vá lá, vá lá para o seu lugar.
Então, seu Luiz, como vai essa força? O que é que o traz até aqui?
Bom, eu vim a pedido de maninha.
Eu já imaginava. O que é a Lucília que é dessa vez? Eu estou com pouco tempo.
Bom, vou tentar lembrar as palavras da mana Lucília.
Ela mandou dizer que sua esterilidade não é apenas física, é também da alma.
E que ela tem pena de você, porque você não consegue viver sem ser amado, mas
não tem capacidade de amar.
É só?
É. Por que justo hoje esse recado?
Bom, a maninha pediu... Eu quero saber o que você acha. Resolveu me odiar
também? Não.
Não, de jeito nenhum. Mas eu queria fazer uma pergunta.
O senhor sabe que destruiu a vida de minha irmã?
Ah, agarrei a mocinha. Agora vou levá -la para a mina abandonada e aí...
Parabéns. Para com isso. Vai derrubar tudo.
Miserável. Mas eu voltarei a atacar.
Alô?
Residência do Maestro Vila -Lobos?
Um momento.
É pra você.
É pra mim, Benzinho.
Pronto?
Baixe essa rádio.
Sim.
Sim.
Advogado.
Alô.
Não.
Não quer.
Mas como não?
Não é possível.
De novo.
Olha aqui, Simval, você tem que tomar uma providência enérgica.
Urgente.
Tá bom.
O que é, meu benzinho?
Que história é essa?
Você está com algum problema?
Advogado. É, são os americanos de novo.
Eles...
Insistem em botar no contrato o Vila Lobos Compositor Brasileiro. Você sabe,
Benzinho, como isso me chateia. Eu pedi a um advogado que cuidasse disso e
parece que eles ficaram perto.
O que é, Joaquim?
Eu já larguei a portaria. O senhor não queria sair?
Espera aí.
Espera aí, que negócio é esse? Onde é que vocês pensam que vão?
O que é que está acontecendo?
É calhorda.
Calhorda como toda carta anônima. Mas é verdade.
Vocês estão mesmo indo pra cama?
Sim, amor. Olha lá como está vindo aí. Vocês estão fodendo. Foi você mesmo que
fez isso? Você que escreveu essa porcaria? Vai tentar se capulir por aí.
está tornando a nossa vida insuportável.
Insuportável? E como é que é o nome do que você está fazendo comigo lá com a
secretariazinha? No lugar onde eu trabalho.
Me humilhando na cara de todo mundo.
Que nome tem isso?
Agora fala.
Pra que toda essa comemoração?
É... É a quebra de um juramento.
Para com o mistério.
Anda, meu benzinho, desembucha.
Meu benzinho, eu nunca menti pra você.
Eu nunca te escondi nada.
Mas é a única regra que eu respeitei até hoje.
Mas a verdade é que eu ando te escondendo uma coisa.
O que é?
Vamos começar pelo fim.
Eu nunca mais vi a Lucília nesses 22 anos, mas eu vou ter que me encontrar
ela. Que história é essa?
É a seguinte.
Os meus últimos exames de sangue não têm tido uma nota muito boa, você sabe.
Vai daí que enquanto é tempo eu queria dar um presente pra nós dois.
O primeiro é um testamento, bonitinho, direitinho, porque eu quero ter o
de deixar as minhas músicas, que são a única coisa que eu tenho pra você.
Eu não quero ouvir falar em testamento, muito menos nessa senhora.
Eu não estou gostando nem um pouco dessa conversa. Espera, ouve, falta a minha
parte. Eu não quero morrer casado com esta senhora. Eu não quero, Benzinho.
favor, eu não quero.
Eu tentei resolver por bem. Mandei até o Simval lá falar com ela. Ela se negou a
conversar. Então vamos por mal.
As chances não são lá grande coisa, mas o advogado acha que ela pode se
descontrolar lá na frente do juiz. Aí a coisa vai virar para o nosso lado.
Por que você me escondeu isso tudo?
E por que está me contando agora?
Eu escondi porque eu queria te fazer uma surpresa, mas desisti.
Eu estou te contando agora porque, de repente, eu tive medo.
Medo de estar enfrentando esse negócio sem ter você sabendo e torcendo por mim.
Benzinha, não zanga comigo, não.
Eu te me assustei.
Mas não estou zangada.
Também vou te contar um segredo.
Eu curtei.
Me paga.
Um dia você me paga.
Lucília, por favor.
Pelo amor de Deus, por tudo que é mais sagrado, vamos dar um fim nisso.
Será que você não percebe mesmo que fui eu que te pus de pé?
Eu, aturando tua grosseria, tua ignorância, tua loucura,
corrigindo tuas músicas cheias de erro, me matando de trabalhar anos a
fio para construir uma extra o Vila Lobos, agora não sirvo mais?
Canalha! Casca grossa!
Cala essa boca!
Passe!
Pensa bem.
E cuidado.
Estou com muita mágoa.
Muita raiva guardada.
Se você me trocar por essa vagabunda, eu não sou de rezar.
Mas eu vou rezar cada dia para que você morra.
E para que eu dure o bastante para ver você morrendo.
Veja, Dona Lucia, nós estamos aqui ainda na tentativa de que haja uma
solução amigável para esse caso.
Eu prefiro que o processo continue para que as coisas se aclarem publicamente.
Estou sendo acusada de injúria grave e de ufamação por ter dito que várias
músicas assinadas pelo maestro na verdade são minhas ou parcialmente
Eu sou uma musicista profissional, senhor juiz.
E tenho o Villa -Lobos na conta de um gênio.
A estatura de um Wagner.
Chamosa.
De maneira que eu jamais inventaria um absurdo deles.
Sim, muito bem.
Mas me diga uma coisa, por favor.
Por que a senhora não concorda com o disquite amigável?
É simples, senhor juiz.
É porque eu sou a legítima esposa do maestro Heitor Villa -Lobos.
Segundo a lei dos homens e a lei de Deus, não pode se confundir o amor.
É, mas não acaba.
De maneira que, mesmo correndo o risco de ser mal
interpretada ou encarada como louca ou ridícula,
Eu digo que espero e com ansiedade, Senhor Juiz, o dia em que eu
possa novamente aquecer o meu corpo contra o corpo desse homem.
Tenho vivido da esperança e assim eu vou continuar a viver.
Não adianta mais mentir, Lucília.
Acabou.
Junto de você me sinto um estranho, constrangido, triste, sem mais nenhum
Restou apenas uma certa gratidão, que não basta para que eu renuncie ao meu
caminho.
Gostaria que você não guardasse rancor e conseguisse aceitar que as coisas não
poderiam terminar de outra maneira.
Felicidades. Uma nova vida.
Eita vida!
Então, você vai voltar pra cá?
Pra cá onde, Rua?
Pra casa. Você sabe que eu fui embora.
Não tem de mais você.
Como se chama?
Bento.
E você?
Léo.
Cântaro? É já rodado.
Encantareira.
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