All language subtitles for O Beijo no Asfalto

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Original subtitles

Chefe, o armado está lá embaixo.

Lá embaixo?

Com o delegado assistente. E diz que com o fotógrafo e tudo.

Arubinha, olha.

Desce e diz aquele moleque.

O famoso Cunha.

Você? Eu.

Se retire, seu merda.

Cunha, um momento. O que é que eu vou fazer? Saia.

Cunha, eu dei um presente para você. Uma bomba. Vem lá. Tira a mão.

Escuta aqui. Será que você... Você é de espinafre? Ainda tem a coragem? Cunha,

não deu para fazer nada.

Cunha, odava -se, senhor, odava -se, ô merda!

Com licença, mas era, hein? Licença, porra nenhuma!

Tô besta com teu caraduri!

Tem a coragem de pôr os pés no meu gabinete?

Eu devia!

Quase perco a cabeça.

Por acaso, o secretário me disse o que não se diz a um cachorro.

Cunha, deixa eu falar.

Eu quero um aconchado.

Preciso de uma cobertura.

Na mesa dele, na mesa, a reportagem, uma humilhação.

Cunha, eu tenho um caso que vai limpar tua barra.

E mais a mais você sabe, amado. O Aruba também sabe.

Aquilo que saiu é mentira. Porra, cunha, sossega. Já passou.

O que que há? E a nossa amizade?

Mentira, senhor.

Mentira!

Não houve tortura de preço nenhum.

Eu não dei chute na barriga da mulher dele, não, senhor. Olha, cunha.

Um tapa.

Um tapinha.

Um tabé, senhor.

O Aruba viu. Não foi um tapa?

Uma bolacha.

Um tapa.

Escuta, eu te disse. A mulher abortou, não sei porquê.

A sarra.

Pedi pra você abafar. Você ajudou?

Abafou? Nada.

E a minha dignidade profissional?

Moleque, patife.

Canário é o que você é.

Eu não me ofendo.

Pois se ofenda.

Nessa delegacia não há tortura.

Acabou?

Ô, cunho.

Deixa de ser burro. Eu vim aqui pra te ajudar.

Suma. O que vai sair, ô Aruba?

Tu é besta. Não admito.

Manda ele cair fora. A rua é desinfeta.

Quem é você, senhor?

Desenferta. Eu não estou, Cunha.

Fora daqui.

Vamos nós.

Não quero conversa mó. Escuta, Cunha. Eu vi um caso agora.

Ali na avenida.

Uma tremenda coincidência. Um caso que pode ser tua salvação.

Estou mais sujo que Paulo Galieira. Por que você é estúpido, Cunha? Eu sou o

delegado mais burro do Rio de Janeiro.

Então tira. Então dá.

Cadê? Tudo é de nada. Tudo é de nada.

Qual é o caso?

Agora, na avenida, um rapaz foi atropelado. Estava juntinho de mim.

Dessa distância aqui, ó.

Bom, o fato é que ele caiu.

Vinha um ônibus raspando. Gente, é meu filho.

Apanha o cara, enchei, joga longe.

É aquele tumulto, corre pra lá e corre pra cá. E o sujeito ali, estendido,

morrendo.

E daí?

De repente, aparece um outro cara.

Se ajoelha no asfalto.

Se ajoelha.

Apanha a cabeça do atropelado e... Dá -lhe um beijo na boca.

O que mais?

Não tá vendo, não? Exibição.

Homossexualismo. Inator de jurisdição, Cunha.

Atentado contra a moral pública, entende?

Talvez até um crime.

Um crime?

Ô, sujeito burro, escuta, escuta!

Você não quer se limpar, hein? Não quer se limpar?

Nesse caso pode ser tua reabilitação. E olha, eu vou vender jornal pra burro.

Como reabilitação?

Mas, quando eu vi um rapaz dando beijo, homem beijando homem num asfalto, gente

assim, me deu um troço. Uma ideia genial.

De repente pensei, Tem coisa atrás disso.

Você não acha?

É.

Cunha, vamos sacudir essa cidade, nós dois, eu e você.

Cunha, eu estou vendo até a manchete, o beijo no asfalto.

Ai, que bonitinha.

Pai,

o senhor aqui.

Como vai?

Tudo bem? Eu vim só te dar um recado do teu marido. Mas entra agora. Escuta,

filha, se é o meu.

O Tati está esperando. Não, pai, manda ele embora.

Otro dia, eu prometo.

Tchau, Flávia. Meu marido, escuta.

Eu estive com teu marido na caixa econômica. Teu marido mandou avisar.

Você está pálido.

Pensei que o Nandinho viesse com o Timor.

Aliás, você vai ficar pra jantar com a gente, não vai, papai? Janto assim.

Oh, seu menino.

Minha filha, não faz confusão.

O teu marido mandou avisar que ele vem mais tarde hoje.

Mais tarde.

Ele teve que ir ao distrito.

Distrito? Por quê?

Calma.

Pelo seguinte, nada demais.

Teu marido assistiu um desastre hoje.

Quer dizer, assistimos, eu também. Um desastre horrível.

Um ônibus passou por cima de um sujeito.

Morreu? Coisa chata.

Muito sangue? Na hora.

Morreu. É, chato mesmo.

Mas enfim.

É por isso que eu... É um criminoso esses homens, né? Eles andam aqui... E

marido foi servir como testemunha.

Pazinho, escuta. Hoje eu vou fazer aquele... Aquele sopadinho de abóbora

você gosta, que a mamãe fazia.

Não, Salminha. Hoje não estou me sentindo bem.

Sério.

Escuta, vamos fazer o seguinte. Hum, amigo da Onze.

Cafezinho aceito.

Café é topo. Vai, Dália, faz um fresquinho. Pra já.

É, depressa que o táxi está esperando.

É caríssimo.

Senta, papai.

Sabe que teu marido ficou tão... Ele teve um choque.

Interessante o teu marido.

Ele correu na frente de todo mundo. Uma coisa, papai.

O senhor sabe que desde o meu namoro o senhor nunca chamou o Arandir pelo nome?

É sério.

Antes o senhor dizia seu namorado.

Depois seu noivo.

Agora é seu marido ou então meu gelo.

Ora, filha, ora.

É, eu tenho observado isso.

Você acha então que eu... Nunca, filha, e por quê?

Vamos então fazer uma aposta?

Uma aposta, hein?

Eu quero ver o senhor dizer Arandir.

Diz, Arandir.

Diz, papai.

Não tem cabimento.

Está lá o táxi.

O que é que eu estava falando mesmo? Perdi o fio.

Ah, teu marido.

Ele correu na frente de todo mundo e chegou antes dos outros.

Chegou, ajoelhou e de repente ele fez uma coisa que me impressionou pra burro.

Ele beijou.

Beijou o rapaz que estava agonizante.

E morreu logo o rapaz.

Você ouviu?

Você não acha?

Não acha que... Por exemplo, eu.

Eu não faria isto. Não faria, filha. Nem creio que outro qualquer, ninguém faria

isto.

Rezar, está bem, está certo.

Mas o que me impressiona, realmente me impressiona, é o beijo.

Mas eu até acho bonito.

Olha, o quê?

Pó, acabou o pó.

Ué, mas tinha. Não precisa.

Eu me esqueci de...

Corre lá na vizinha. Não, não tem importância.

Eu chamei pelo muro, mas não tinha ninguém lá.

Olha, Selma, é até bom. Eu não estou bem do estômago e o café... Chá.

Chá é melhor.

Chá?

Chá. Rapidinho.

Oi, irmã, você viu?

Está sem sutiã.

O que que tem?

Não é o fim do mundo, papai.

Parece até que você não conhece a Dália.

A cada dia que passa, eu acho que eu conheço menos as pessoas.

Teu marido. Pai, o senhor não conhece o Arandir.

E você, conhece?

Diga, conhece teu marido?

Papai.

Responda.

Você tem muito pouco tempo de casada.

Mas conheço o Arandir desde garotinho. E o senhor também, ou não se lembra mais?

Eu quero saber como marido. De casada você tem um ano, nem isso, menos?

Pois é pouco.

Isso não é nada na vida de um casal, é pouquíssimo.

Mas vamos lá.

Você tem mesmo certeza de que conhece teu marido?

Mas absoluta.

Papai, eu conheço tanto Arandir que... nem ele me esconde nada.

Pai, escuta.

Eu confio mais em Arandir do que em mim mesma. No duro.

Isso eu falo, engraçado. Falo como se... como se duvidasse.

Papai, eu amo Arandir.

Sei.

Acredito.

Mas digamos que teu marido...

Uma hipótese é assim.

Que o teu marido não fosse exatamente aquilo que você pensa.

Você gosta dele a ponto de aceitá -lo mesmo que... Numa palavra,

você é feliz?

Você duvida?

Dahlia! Dahlia! Um momento, eu sou suspeita. Dahlia! Dahlia, vem cá!

Está quase pronto.

Pegou a xícara grande?

Peguei.

Agora escuta, Dália.

Hoje, agora, responde. Eu sou feliz?

Que que é? E por quê?

Fala. Olha, papai, ela veio pra cá logo depois da lua de mel. Vive com a gente,

não sai daqui.

Fala. Eu sou feliz?

Parece.

Parece ou eu sou? Eu tenho que ir embora. Não, responde. Eu faço questão.

É felicíssima, pronto.

Então diz aquilo.

Aquilo que você disse naquele dia. Repete.

Você é um saco, Selminha.

Papai, a Dália disse que o seu morresse. Não foi você que disse?

Mentira, pai.

Ela disse que o seu morresse e casaria com o Arandir.

Foi uma brincadeira, pai.

Escuta, você é uma criança, não deve dizer isso, certas coisas.

Sabe como é o mundo.

É mentira dela, pai. Não precisa chorar.

Se é minha, você me paga.

Pai, o que eu disse foi que eu...

Eu não me casaria nunca porque eu não quero, nem me interessa. Calma.

E o teu namorado?

Brigamos.

Essa bobona agora chora por qualquer coisinha.

Calma.

Calma, crianças.

Ô, papai.

Eu sou a mulher mais feliz do mundo.

Arandir. Ele é apenas testemunha, Cunha.

Não se meta.

Passe agora.

Volte. Não é força, rapaz?

Não, absolutamente.

Absolutamente. Você é casado?

Casado, sim.

Ah, muito bem.

O homem é casado.

Casado. O senhor deixa eu dar um telefone mais rápido pra minha mulher?

Não usa nada no dedo, por quê?

Um dia no banheiro caiu.

Caiu a aliança no ralo do banheiro.

O que é que você fazia na avenida, hein?

Bem, eu fui lá... Não gagueja, rapaz.

Eu fui em pé uma joia na caixa econômica.

É casada há quanto tempo?

Eu? Gosta de mulher?

Quase um ano.

Gosta de mulher?

Tô casado há um ano.

Queria telefonar para casa.

Que medo, rapaz.

Opa! Se eu estou preso, o ônibus é que foi ocupado, senão estava mudando. Se

me interessa, cobedeiro, me interessa. O que interessa é você.

Estava junto do cara na calçada.

Quer ver o depoimento do rapaz? Não dá palpite. Não se meta.

Há quanto tempo você conhecia o cara?

Que cara? O morto. Eu não conhecia. Nem que mista. Eu juro, o que é que eu juro?

Eu dou a minha palavra.

Vem cá.

Doutor, eu preciso telefonar pra minha casa.

Porra, é por estas e outras que a polícia abaixa o pau.

E tem que baixar a alma, Cunha!

Se você não tinha nada com o cara, então me explica.

Como é que você, casado há um ano, um ano, praticamente lua de mel,

lua de mel, você larga a sua mulher e vem beijar um outro homem na boca?

Na boca.

Só está pensando. Esse beijo foi meio esquisito.

E depois?

Nós sabemos que não foi acidente, não é?

Premeditação. Escuta. Se um de nós aqui fosse atropelado. Um de nós. O delegado.

Diz para mim.

Você pariu mesmo?

Você beijaria um de nós, rapaz?

Na boca.

A morte da mamãe tudo mudou.

Até papai mudou. Parece outra pessoa.

Mas mudou com o meu casamento.

Foi sim.

Foi com o meu casamento que ele mudou, Dália. E te digo mais, viu?

Às vezes eu penso que o papai sentiu mais o meu casamento que a morte da

Ele não vem aqui, não telefona.

Sou eu quem telefona.

Ou então, evita o Arandir. Papai me assusta.

Ele não gosta do Arandir.

Não gosta do Arandir? Por quê? Seu amigo.

De mim?

Ou você é cega?

Que bobagem, ciúme de mim.

Você acha?

Claro, de você.

No teu casamento eu pensei tanto na morte de mamãe, mas no teu casamento

morria era papai.

Na igreja de braço com você, papai era um vento.

Eu tive a sensação, te juro, de que... Não fala assim. E outra vez, aquele dia.

Quando? No dia em que eu vim pra cá.

Você tinha chegado de lua de mel, eu me lembro.

Papai me trouxe e você estava com aquele kimono.

Aquele, como é que é? O azul?

Não, aquele que a vovó te deu.

Ele não queria ver, não insistiu. Ele veio.

Chegou aqui e você se sentou no colo de arandi.

Se você visse a cara de papai, que cara?

Eu me lembro disso. Cara de ódio. Está aí imediatamente.

Essa imaginação tua, Dália, você está aí imaginando.

Selma, eu preciso falar uma coisa para você.

Muito trabalho?

Sempre, Dona Matilde.

Muito quente, né?

É, quente.

Seu fogo esteve aqui.

Saudade.

Cansado? Muito.

Dália, um copo d 'água, por favor.

Ali estão mais gente que... Dália, meu anjo, água, sim.

Gelato. Gelato, não. Mistura um pouco com o filtro.

Está suando.

Calor. Tira a gravata.

Duas horas na polícia.

Ah, água linda.

Tem um anjo.

Não chama a Dália de anjo, não.

Vai embora?

Daqui de vez?

Amanhã. Você vai pra casa da vovó. Nós chato. Você tem coragem?

Já tá, vamos.

Quem foi? Mais tarde.

Ah, um pouquinho você faz.

Dália, peraí, mas certo isso?

Em dois, dois são quatro.

Dália, volta aqui.

Por que assim, de repente, tem motivo?

Parece incrível que eu chegue da polícia, primeira noite que me dão, que

vai embora.

A polícia agora, de repente, me senti tão sozinho.

Uma sensação tremenda.

Tive vontade de gritar.

Selminha! Dália!

Eu quase gritei. Você não precisa de mim?

Quem sabe?

Precisa da Selminha.

Preciso.

Preciso.

Responde. Acho que o Wetzel nunca me deixará.

Nunca. Me abandone nunca.

Te adoro.

Você viu um rapaz morrer?

Quem?

Era jovem.

Dali, meu anjo, isso não me interessa.

Vamos falar de outra coisa.

Você vai embora amanhã? É, amanhã. Ótimo, magnífico. Eu ajudo você a fazer

malas. Eu só não quero que toque nesse desastre.

Ele gritou?

Dali, por favor.

Você não grita? Ou grita?

Por que não gritou?

Era bonito?

Você que não pode ver sangue.

Eu corri.

Cheguei primeiro que os outros.

Me abaixei.

Peguei a cabeça do rapaz. É, peguei a cabeça dele e... Me beijou.

Te amo tanto.

Muito bem, amor.

Estou exausto.

Que dia, hein?

Interrogaram duas vezes, sabia?

Eles vão me chamar de novo.

Eles pensam que eu conheci o rapaz.

Conheci? Ah, céu minha. Não é claro, Andi. Você diz que não quer falar no

assunto, mas é você mesmo que puxa.

Nem de vista?

Era assim mesmo que a polícia perguntava. Nem de vista, nem de nome.

Foi.

O rapaz estava morrendo junto, no meio fio.

Mas ainda teve voz para pedir um beijo.

Agonizava pedindo um beijo.

A polícia repórter disse que toda a cidade estava lá.

Desfiando. O dia quando eu...

Como é o número

da casa da vovó?

O número.

Olha, ele mandou dizer que se chegar logo mais não te encontrar.

Corta as relações com você, hein? Tá, gente.

Selminha! Selminha!

Selminha, eu quero te mostrar uma coisa.

Dá licença.

Bom dia.

Eu tô de saída, dá licença. Como você é teimosa, Dália. Já leram? Não. Não leu o

retrato do seu marido na primeira página?

Na última hora.

A manchete é o beijo no asfalto. Tem um retrato do atropelado e do orandi na

delegacia.

Aí diz uns troços que... Gente, o que é isso?

Tem um repórter na vila entrevistando todo mundo.

Repórter? Um fotógrafo e tudo.

O repórter tá querendo saber se a Arandi vive bem com o Selminha. Então eu

disse, vive.

Mas nunca, nunca. Não, peraí, deixa eu ler.

Mas o que diz aí? Isso aí é mentira, isso tem mentira. O jornal é muito

escandaloso. Olha, toma, toma, não quero ler mais nada não, dona Matilde.

Imagina, o meu marido, e na boca.

Meu marido nem conhecia, era um desconhecido. Claro, evidente que... Mas

Mas, o interessante, Selminha, sabe que, pela fotografia, a fisionomia do rapaz

não me parece estranha?

O mortão que já esteve aqui uma vez?

Aqui na minha casa? Aqui, na sua casa. Escuta, dona Matheus. Ei, ô, Dália, você

está me chamando de mentirosa, é, dona Matheus? Não, não, Selminha, não é isso.

Mas sabe por quê?

Veja bem, aqui no final, o jornal diz, não foi o primeiro beijo,

nem a primeira vez.

Não é

brincadeira não, tá? Tá

aqui, tá aqui.

Tua viúva está aqui no jornal, na manchete.

Linguinha com linguinha no asfalto. O beijo no asfalto?

É ou não é, Vilves?

Você beijar o sujeito na boca era de porra.

Escondendo o jogo, é? Não, não, não pode ser.

E o morto que vinha aqui? Mentira, quem vinha aqui?

O morto. O atropelado.

Ele vinha aqui falar contigo. Não, que eu não conhecia o cara.

Conhecia sim, Didi.

Conhecia sim, Didi.

Eu provo. Eu provo. Dona Judite.

Dona Judite.

Que loucura, meu Deus.

Aceita a palavra.

Calma, calma aí. Eu não minto.

Eu não minto.

Chamou o seu vermelho?

Dona Judite, o que foi que a senhora me disse?

Dona Judite?

Um momento.

Quando a senhora viu o jornal, a senhora não disse que tinha visto o morto aqui?

Fala, Dona Judite.

Pode falar, fala.

O que eu disse foi que... Não tenha medo, Dona Judite. Fala.

Bem, realmente, pela fotografia, parece... Parece ou não?

Parece um rapaz que esteve aqui a semana passada procurando pelo Sr. Arandir.

Procurando por mim?

Mas o senhor não estava.

Dá uma reboladinha. Não admiro seu casal, tá? Não admiro. Não? Você ficou

nervosa.

Há testemunhas.

Viram o rapaz.

Cala a boca. Qual é?

Quem é você pra mandar eu calar a boca, hein, seu viado?

Te parto a cara.

Vem, vem. Parte.

Parte a minha cara se você for homem.

Isso é uma infantilidade.

Uma impertinência.

Ninguém se acusou, é claro.

Falta caráter.

Honestidade e sinceridade entre vocês.

O professor tem o sovaco nas mãos.

Professor, peraí um pouquinho.

O professor diz que é urgente.

Pai,

você viu que coisa horrível.

Escuta, amor.

Fica tranquila.

O que é isso? Não liga.

O jornal, você leu?

Li, li sim.

Ah, não. De novo, não.

O que é?

Trote, pai.

Eu nunca vi tanto palavrão assim na minha vida.

Ligam só pra dizer nome feio.

Deve ser apóstolo. É gente da vila. É da vizinhança, eu tenho certeza.

Chorando por quê?

De raiva.

De raiva de tudo isso, de toda essa mentira.

Mas não é mentira, filha.

O quê?

Não é mentira?

Nem tudo.

Escuta, você está nervosa, tem a cabeça fria.

O repórter, o Amado Pinheiro... Escuta, o repórter estava lá, ele viu tudo.

O senhor também viu, não viu? Então conta.

Eu quero saber, pai.

Conta, eu quero saber.

Meu sonho, ontem eu te contei. Contou nada.

Sra. Minha.

Sra. Minha.

Sra.

Minha.

Amor de Deus, papai.

Eu confio mais em Nandia do que em mim mesma. Se fosse verdade o que o jornal

diz, não, papai.

Se fosse verdade, Arandir me diria.

Você sabe o que Arandir me contou?

Que viu a Dália nua hoje de manhã.

Foi sem querer, é claro. Ele empurrou a porta e viu ela pelada completamente.

O senhor compreende?

Papai, na mesma hora, ele veio correndo me contar.

Disse, olha, se alguém escuta, aconteceu isso assim, assim, assim.

Eu nem disse nada pra Dália, mas a sinceridade de Arandir eu adorei. Eu

falar?

O jornal pôs que teu marido beijou outro na boca e é verdade. É mentira. Eu vi

que sou seu pai.

O ônibus arrastou o sujeito e ele caiu de bruxos, rente ao meio fio.

De bruxos.

Teu marido foi lá, virou rapaz e deu beijo.

Na boca. Caramba, eu diria. Ele nunca me escondeu nada. Desculpa, deixa eu

falar, menina.

Ontem eu vim aqui pessoalmente. Eu podia ter dado o recado por telefone, mas eu

vim aqui pra te perguntar se... Se é minha, eles se conheciam. Pai, é

Não foi o primeiro beijo, não foi a primeira vez. A Dália tem razão. O

tem ciúmes de mim. O senhor sempre odiou a Arandina e por isso foi contra o

nosso casamento.

Pai, preciso saber se eram amigos e que espécie de amizade. O senhor não gosta

de ninguém, nem de mim. O senhor não sabe amar, papai. Despeito, menina.

Adeus.

Pai, não.

Espera.

O senhor já me ofendeu bastante, agora tem que me ouvir.

Há tanto tempo que a mamãe morreu e o senhor continua só.

Preciso saber.

Eu preciso saber se meu pai é capaz de gostar.

Responde. Nesse momento o senhor gosta de alguém?

Ama alguém, papai?

Quer saber mesmo?

Quero.

Querida, nesse momento... Eu amo alguém.

Quer falar comigo?

A senhora viu?

A senhora é da polícia?

Somos. Polícia e imprensa. Eu mandei chamar a senhora para fazer o seguinte.

O enterro já vai sair. Um minuto.

Vamos fechar o caixão. Aguenta as portas.

Não a roube, tá?

Vai lá, Aruba, e manda esperar.

É, avisa o senhor, como é mesmo? Aruba. Sr. Aruba, avisa que eu não demoro para

não deixar o enterro sair.

Sim, manda. Um momento.

Sr. Aruba, para aquele senhor alto.

Diz para não fechar o caixão. Só com a minha presença.

Minha senhora, não vamos perder tempo.

Eu tomei informações a seu respeito.

E eu sei de fonte limpa. É o que corre por aí. De fonte limpa que a senhora tem

um amante. Eu? É, um amante, cheio da gaita, em uma posição... Sem

Bem... O senhor está me ofendendo. Ofendendo os clarinhos.

Desculpa.

Você tem um amante com toda razão. Eu sei da sua vida de fia, Pabinho.

Fala baixo.

Você está falando alto.

Seria o jornal?

O jornal, eu li.

Então, presta atenção.

E... Está vendo esse retrato aqui, ó?

É o sujeito que beijou seu marido.

E a senhora, naturalmente, conhece esse camarada.

Não conhece? Já viu, não viu?

Nunca.

Ah, madame, madame, assim não vamos nos entender.

Olha aí, de loucador, geladeira, sei lá, o cadáver tá com mau cheiro, tem que

enterrar logo.

Manda fechar o caixão. Não, peraí. Não, não, toca o enterro. Diz que é hora da

polícia. Vai lá, toca o enterro. Hora da polícia.

O senhor fala mais baixo.

Olha, ou você coopera, ou sua boa.

Bota isso na cabeça.

Você tem um amante?

E por quê? E por que você tem um amante?

Porque é seu marido, entende?

Seu marido tinha relações anormais com um outro cara.

Um cara que acabou matando ele por ciúmes.

Isso é grave.

Isso cheira a homicídio. Mas é um morto.

Por favor.

Um morto que se traía e não com uma mulher. Um cara.

E na hora de morrer levou um chupão.

Está tudo fechado.

Tá. Demorei porque... Há uma hora que eu dou volta na vila. Dei umas três

voltas.

Tem um cara na entrada.

Uma pergunta... Não, não, não. Esse assunto não.

Arantia, por favor. O que o jornal diz é só isso que eu quero saber.

O que o jornal diz é verdade?

Saí do emprego.

Me chamaram de viúvo.

O quê?

Viúvo. Viúvo do rapaz que morreu, entende?

Você acha que depois disso... O Guilherme é aqui.

E você, reagiu?

Você devia. Você quebrou a cara dele?

Não.

Eu não podia.

Eu não.

Alandinha.

Como tua mulher, eu te peço. Você vai lá amanhã e quebra. Quebra mesmo a cara

desse sujeito.

Não. Não abre. Não abre, não.

Arandia?

Arandia?

Acho que agora você entendeu tudo.

Nunca mais.

Em lugar nenhum em emprego, nenhum teremos sossego.

Em todos os empregos, os caras vão olhar como... serão sempre as mesmas

piadinhas em todo canto.

Eu te amo.

Eu te amo tanto.

E você?

Primeiro responde.

O jornal botou que você... Beijei.

Eu te contei.

Olha, propriamente, não.

Quando eu baixei, o rapaz pediu um beijo. Ele estava quase sem voz.

Ele passou a mão por trás da minha cabeça.

Passou.

E na bonita ele me beijou.

Ele. Não foi assim que você me contou? Foi assim.

Seu menino estava morrendo. Não.

Você não quer me beijar?

Não, boca não.

que estão transformando um fato que foi uma manifestação de carinho, de amor, de

solidariedade, coisa rara, aliás, nos dias de hoje, quando as pessoas estão

sós e carentes, num escândalo que mostra bem como a sociedade pode utilizar um

gesto espontâneo como esse para catarse das suas fantasias.

O que o senhor acha a respeito? O senhor daria o beijo?

Não dava não.

Por quê?

Porque não dava não.

Olha, pessoalmente, eu não tenho nada contra.

Eu acho que se foi dado com amor, tudo bem. É um crime, um pecado.

Brechineve, beijo cártel na boca.

Eu não acho nada demais. Acho uma boa, uma barata. E, aliás, é o seguinte.

A boca é um órgão sexual usado pelos antigos para falar. Falou? Eu sou uma

mulher casada, de respeito. Me respeite, entendeu bem? Me respeite.

O crime está em dar o beijo sem ser espontâneo, sem ser espontâneo no ar,

querido.

Eu também, eu não dava, não.

Arandi, resolvi. Eu não vou mais.

Todos comentam.

Toda a cidade viu.

Você é o meu?

Vou deitar.

Está nervosa, pobrezinha.

Escuta, por que você não desaparece por uns tempos até tudo se acalmar?

Porque eu não fiz nada demais.

Ou fiz?

Sei lá.

A única coisa que eu quero saber, sentir, entende?

É que a filhinha está comigo, do meu lado.

Ela é tudo que eu tenho.

Pois horrível, né?

É, uma maldade.

É triste.

Horrível mesmo pra você saber que seu cunhado... Ei, o que você tá pensando,

hein?

Olha, limpa sua boca.

Limpa sua boca, sua vaca. Fique sabendo que meu cunhado é muito mais homem, mas

muito mais homem que teu marido, tá?

O teu marido é um corno. Um corno.

Onde está minha carteira? Lá.

O papai, a Selminha, ela... Calma, Dália. O que houve com a Selminha?

Presa. Papai, ela foi presa.

Vamos sair daqui, vem.

Vamos.

Agora fala.

A polícia entrou e perguntou primeiro?

Primeiro perguntou pelo Arandi.

Aí eu disse que o Arandi não estava, hein? Então eles levaram a Selminha.

Para onde?

Sei lá, papai, sei lá.

E onde se meteu meu gênero? Onde é que ele está? Vamos, fala, anda. Ele fugiu

antes da polícia chegar.

Mas isso é o cúmulo, isso é... Eu queria que o Arandi fosse preso, papai. Ah,

meu gerro não pode ser preso, minha filha pode. Ora, Dalia, onde é que se

aquele canalha?

Arandi não é um canalha.

Perfeitamente, um canalha que se esconde e larga a mulher. Dá o fora e a mulher

que se dane.

E tudo por quê? Por quê? Não, papai, não! Cala a sua boca!

Eu estava junto de meu gerro e vi tudo. Ninguém pediu beijo nenhum. O rapaz já

estava morto. Morto?

Não, eu não acredito.

Morto, de olhos abertos e tudo mais.

E não eram desconhecidos.

Eles eram amantes.

Não. Arandi não mente.

Amantes. Eles eram amantes, Dalia.

Papai, eu descobri o seu segredo.

Que segredo?

Quer que eu diga?

Eu não admito. Cala essa boca.

Ou então diz.

Pode dizer.

Se você sabe, diz.

Qual é o segredo?

O senhor não gosta da Selminha como pai?

Gosta como... É amor.

Amor de homem por mulher.

Amor de homem por mulher.

Esse é o segredo. É o meu segredo. Por isso o senhor odeia o Arandi.

Eu pensei que... Mas quem sabe, talvez você tenha... Realmente, quando uma

se casa, o pai é um pouco traído.

O sujeito cria uma filha para que o miserável venha e... Em certo sentido, a

Salminha cometeu adultério contra mim.

Boa.

Essa é boa.

Me espera. Eu não demoro.

Isso daqui é uma casa.

Exato, exato. Uma casa, não nego.

Escuta, minha senhora.

Para evitar escândalo, eu preferi que fosse aqui.

Na delegacia, propriamente dita, não se pode trabalhar.

Está assim de repórteres e fotógrafos. Não há mistério.

Essa casa é de um amigo do Amado Pinheiro.

Amado, presença.

Amado Pinheiro, da Última Hora.

Prazer.

Salminha, onde está seu marido? Não responda já.

Amado, escuta.

Trouxemos um barzinho portátil.

A senhora não toma nada?

Por exemplo, não quer tomar um? Nada.

Mande esperar um pouco.

Não é uma aguinha? Apoia lá, amado.

Não, não.

Obrigada. Não precisa, amado.

Mas calma.

Sim.

Ou tem medo?

Um pouco.

Medo de mim?

Tem medo de mim, amada?

De mim?

Não, o senhor não entendeu. É nervosa.

Diz pra ela, amada.

Conta. Medo de mim?

Ela se aminha.

Aqui é o Cunha. Ouviu, Dona Salminha? Está ouvindo?

Não é como os outros.

E olha que até metido o pau na polícia.

Mas o Cunha é um dos raros.

Um dos raros, entende?

Mano. E mais a mais o seu pai. O amado sabe.

Tem uma filha.

Única. Noiva.

Noiva. Vai se casar.

Quando olho para você, penso nela.

Nunca se sabe o dia de amanhã.

Vamos que meu gênero.

Essas coisas.

Você sabe, entende, né?

Quero que você me veja como um pai.

Agora responda.

Ainda tem medo de mim?

Não. É uma pergunta.

Uma perguntinha só.

O seguinte.

Onde está seu marido?

Eu não sei.

Ai, meu Deus!

Eu te falo como pai.

É porque eu tenho uma filha. Ela que me impede de... Menina, olha.

Pense bem antes de responder.

Eu juro, eu não sei. Eu sei onde está meu marido. Você está diante da polícia.

olha, vai dizer a verdade, hein? A verdade!

Não se engana a polícia.

Escuta, doutor. Meu marido saiu de casa e... Fugiu!

Seu marido fugiu! Calma, cunha.

Calma. Fugiu por quê? Se ele não fez nada. Ele nem conhecia o morto.

Tem certeza?

Note bem.

Tem?

Tenho.

Amado, manda entrar a moça.

Vou lhe provar que ri melhor quem ri por último.

Venha.

Venha.

Tenha bondade.

Essa aqui é a viúva do rapaz atropelado.

O tal que seu marido beijou.

A senhora vai repetir aqui.

Conhece o Anadir?

Conheço. Ele frequentava a minha casa.

Muito bem.

Agora, conte aquilo.

Uma vez ele foi lá em casa.

Ele foi lá em casa e os dois...

Os dois tomaram banho juntos.

Meu marido?

Muito obrigado, madame. Não, espera, escuta.

O banho é apenas um detalhe, mas que basta.

Para mim, basta.

O resto, a senhora pode deduzir.

O senhor está querendo dizer que meu marido... Entendeu?

Prefere que eu fale em português claro?

Prefiro, fale. Fale claro.

Escraxa! Escraxa que eu já estou de saco cheio, porra! A polícia sabe que entre

a vítima e seu marido havia uma relação íntima.

Uma intimidade, compreende?

Uma coisa que não pode haver entre homens, filho.

O negócio do banheiro.

O negócio do banheiro não é bom ainda, né, cara?

Homossexualismo.

Viadagem, tá?

Menina, tá na cara que teu marido não é homem.

Eu tô grávida.

Quem?

Eu.

Eu tô grávida e agora vocês vão me ouvir.

Olha, o meu marido foi na caixa econômica aquele dia.

Um momento, ele foi lá colocar uma joia no prego. Você sabe por quê?

Porque ele pediu pra eu tirar.

Tirar o filho.

Ele acha que a gravidez estraga a lua de mel.

Prejudica.

Ele prefere ir mais tarde. E como eu nunca tive barriga, ele acha que podia

que estragasse, né?

Ele foi na caixa econômica apanhar o dinheiro do aborto.

E daí?

Ou será que o senhor não entende?

Olha, eu conheço muitas que é uma vez por semana, duas, ou de 15 em 15 dias.

Mas o meu marido é todo dia.

Todo dia. Olha, o meu marido é homem, homem.

Nunca ouviu falar em gilete?

Gilete! Ô, vaca da cantarela!

Gilete! Seus indecentes!

Indecentes! Olha que você é pai, e tem uma filha que é noiva.

Tomara que o noivo da sua filha seja tão homem quanto o meu marido, ouviu?

Você é capaz de tudo para defender a honra do seu marido, não

é?

Tudo para defender, não é?

Então tira a roupa.

Fica nu.

Levanta a saia.

Levanta a saia! Vai!

Levanta!

Levanta!

Levanta!

Você vai ver um homem agora.

Abre. Abre mais.

Ele se esquentava assim?

Ele se esquentava assim?

Te acariciava assim?

Enfiava em você?

Magrinha. Sem barriga.

Olha que coxinha gostosa.

Tá vendo o homem como é que é?

Hein?

Me desculpe.

Obrigada.

É uma celebridade.

A pederastia vem do jornal pra bolo.

Tiramos hoje, está rodando quantos exemplares?

Trezentos mil. Uma fábula. E eu garanto pra vocês que aquele jornal gay, o Das

Bichas, como é que é o nome?

Ele vai fazer desse Eradir um herói, um mato. Mas escreve o que eu digo. Ele é

um assassino com todas as letras. Quer falar comigo? Quer me cumprimentar?

Escuta aqui, ó. Nós estamos lá embaixo.

Um pedaço, hein? Vai pela sombra, hein?

Boa noite.

Eu sou sogro do rapaz do beijo que beijou -me.

Aos sogros não.

Era o que faltava.

Seu amado, eu desejava... Aliás, eu queria uma conversinha particular.

Propriamente... Meu amigo, com licença.

Por que veio aqui me cantar? Certo.

Mas escuta uma coisa.

A única coisa que me compra é mulher.

E magra. Sem barriga.

Mas, cavaleiro, o senhor não está entendendo.

Não sei.

As magras.

As magras.

Escuta, é sem alusão a sua filha.

Magrinha a sua filha.

Eu vou lhe contar uma passagem.

Eu tive uma dona.

Nem sei que filha.

O corpo da sua filha direitinho. Sem barriga nenhuma.

Na cama era uma loucura.

Subia pelas paredes que nem larga a tixa profissional.

Esse negócio que o senhor escreveu de crime é uma mistificação.

Mistificação?

Crime!

Eu provo!

Quer dizer, não sei se provo, não sei a importância, mas é que tá lá. Crime!

Pera aí, doutor.

Escuta, é um negócio bem bolado pra chuchu.

Eu botei que seu gênio esbarrou no rapaz. Mas não esbarrou aí que está!

Seu G1 empurrou o rapaz. Um amante debaixo do ônibus.

Assassinato, é ou não é?

Tenho certeza.

Escuta, vem cá.

Sinceramente.

O que eu estou com você?

Um pai.

Se minha filha tivesse casado com um cara assim como... Palavra de mão. Eu

dava -lhe um tiro na cara.

O senhor quer vender mais jornal.

Falha de brincadeira. A observação seria uma babada.

Nenhum juiz lhe condenaria. Nenhum.

Depois o Fernandinho não aguenta o repuxo da magrinha da tua filha.

Bêbado imundo.

Beijo aqui em mim.

Beijo aqui em mim.

Tá,

tá, tá bem.

Tá, tchau.

Olha, guardei um jornal pra você.

Muito obrigado.

Arundi pediu. Olha, seu amigo, pediu que você fosse imediatamente, fosse agora.

Dália, todo mundo achou, todo mundo tem certeza que os dois eram amantes. Você é

a mulher dele?

Vai!

Você... E se eu pudesse me seguir?

Arandi está te esperando, por favor.

E daí?

Se eu for presa? Você quer que eu seja presa? Quer?

Que façam comigo aquilo outra vez? Os miseráveis.

O cachorro ainda disse que me queimava o seio com o chaluto.

Nua, Dália.

Nua.

Você vai?

Vai.

Ele vai me beijar e eu... Quando a viúva disse que eles tinham tomado banho

juntos, me deu uma vontade de morrer.

Darlene, como é que um homem pode beijar outro homem?

Você me entende?

Quando um homem olhar para o meu marido, eu vou desconfiar.

Aliás, durante sempre teve umas certas delicadezas, assim.

Eu nunca disse para ninguém, por vergonha, mas...

Eu sabia que a primeira mulher que eram de conhecer fui eu.

Eu acho isso tão... Ele casou um beijo como eu, Dali.

Se eu for lá, eu já sei.

Ele vai querer me beijar na certa e eu... Eu não quero um beijo sabendo...

Sabendo que... Que o beijo do meu marido ainda vai ter a saliva do outro homem.

Você aqui?

A Selminha não veio?

Minha mulher não vem?

Não quer vir?

Fala, olha pra mim.

Eu preciso da minha mulher.

O jornal tá me chamando de assassino.

Assassino, Dália.

Você acha que eu sou assassino?

Arandir, eu acredito em você.

Mas eu preciso da Selminha.

Dália, diz pra Selminha.

Pede, traz ela.

Eu não tenho ninguém, eu tô só.

E eu? Ninguém.

Olha o que diz o jornal.

Joga fora esse jornal.

Isso que empurrei o rapaz.

Eu não entendo as declarações da viúva.

Será que eu esbarrei nele?

Você queria, é claro, né?

Eu não toquei nele.

Eu tenho certeza.

Uma mulher vinha em sentido contrário.

O cara estava em cima do meio fio.

Eu me desviei da mulher.

Mas não sei o que eu toquei no rapaz.

Eu quero o seu meio aqui.

Não vem?

Não vem e mandou dizer que nunca mais.

Ela não gosta mais de você?

Gosta. Ama.

É um amor de infância.

Eu era menina, menino. Ela já gostava de mim. E eu dela.

Ninguém me entende.

Deus me segue, Sri.

Eu nunca tive outro namorado. Seu menino quer mais ser tua mulher.

Ela disse que você e o rapaz eram amantes. Amantes! Eu não beijaria um

ele não estivesse morrendo.

Eu sei que eles querem de mim.

Querem que eu duvide de mim mesmo, de um beijo que... Escuta, Dália.

Faz o seguinte.

Diz pra Selminha que em toda a minha vida, a única coisa que se salva é o

no asfalto.

Quando eu te vi no banheiro, eu não fui bom, entende?

Eu desejei você.

Desejei. Eu sei logo, mas eu desejei a Cunha da Lua.

Mas lá na avenida eu fui bom.

É lindo.

É lindo.

É lindo beijar alguém que tá morrendo.

Eu não me arrependo.

Não me arrependo.

Minha tia odeia você.

Mas eu quero o seu beijo. O que? Você?

Beijo.

Beijo. Deixa eu te beijar. Não, menina.

Você é uma criança.

Eu me ofereço.

Eu quero.

Se a minha não veio, eu vim.

Você não quer ter eu.

Dália, eu amo tanto a tua irmã.

Amo. Que eu ia pedir pra Selminha morrer comigo.

Eu morro contigo.

Nós dois.

Eu te amo.

Te perdoaria sempre.

Eu... Eu acredito em você.

Responde. Você amava muito ele. O quê?

Querido, pode dizer para mim?

Vocês eram amantes.

Meu bem, eu não sou como a Selminha. Ela não compreende, não aceita.

Eu aceito.

Topo qualquer negócio. Eu não mudo.

Serei a mesma sempre.

Fala para mim.

Você é como todos.

Acredita em mim e pensa que eu...

Sai daqui agora, vai. Sai, vai embora. Sai daqui. Vai embora.

O que significa isso?

Minha filha.

Nua.

Nua, uma menina.

Está satisfeito?

Meu Deus.

O senhor é um dos responsáveis.

Só estava atrás do repórter. Tem insinuações para a telminha. Você quer

Se liga para a talha.

Solta! Você tentou seduzir minha filha a negócio. A minha vai acreditar em mim.

Só fez tudo pra me separar dela. Você não queria nosso casamento?

Escuta, vim aqui saber. Você conhecia o rapaz?

Conhecia. Era um amante de uma torre. Empurrou ele.

Tia, ninguém acredita, mas eu acredito. Acredita em mim. Ninguém acredita!

Você, olha, eu preciso saber.

Eu vou buscar minha mulher.

Eu te perdoaria tudo.

Casamento, ouviu? Dá -lhe a nua, tudo.

Eu só não perdoo é o beijo do assalto. Eu só não perdoo o beijo que você deu na

boca de um homem. Seu Minha, seu Minha, ela vai acreditar. Para!

Escuta, você é o único homem que não podia se casar com minha filha. Único.

Sou eu que desejo a própria filha.

É paixão, carne.

Tenho ciúmes da Selminha.

De você!

Não da minha filha.

Ciúmes de você tenho.

Sempre.

Desde garoto.

Desde o teu namoro que eu não digo teu nome.

Jurei a mim mesmo, só diria teu nome até o cadáver.

Quero que você morra sabendo.

Meu ódio é amor.

Por que você beijou o outro na boca?

Por quê?

Mas eu vou dizer teu nome.

Direi teu nome até o cadáver.

Arangir.

Arangir.

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