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Este é o condomínio para isso.
São 480 apartamentos de classe média prontos e
vazios, cercados por uma favela com 20 mil habitantes.
Eu sempre me perguntei, se Deus existe, por que será que Ele não faz nada?
Bom, no meu caso, Ele fez.
Este aí, caído aos pés do condomínio paraíso, sou eu.
Meu nome é Célio Rocha.
Esta é a história da minha vida, de como eu morri e o que aconteceu comigo após
a minha morte.
Mas para explicar quem eu sou, ou quer dizer, quem fui, eu preciso contar quem
Otávio Savoy.
Eu conheci o Otávio na infância.
Nossas babás eram amigas.
O Otávio foi o único cara que eu conheci em toda a minha vida que teve uma
babaloura.
O pai do Otávio era construtor e comprou para eles
a melhor casa da minha rua.
E foi na casa do Dr. Saboia que eu conheci pela primeira vez
o paraíso.
Dois últimos andares e mais a cobertura. Meu pai já falou que não vende.
É minha.
Tá tomando fome a minha cobertura.
O pai podia pelo menos comprar o oitavo andar, né? É mais barato.
O futuro.
O Condomínio Paraíso foi o primeiro dos muitos golpes imobiliários da família
Sabóia. Eles construíram um império que veio a acabar 25 anos depois, no
dia em que o doutor Sabóia se atirou por uma janela.
O Otávio herdou muitos processos e uma fortuna em dívidas.
Eu me tornei repórter e, se não fosse por isso, jamais teria ido ao enterro do
doutor Sabóia.
Como o senhor se sente sendo herdeiro de uma dívida que cresce 400 mil reais por
dia? Meu pai ousou crescer num país que sofre de inveja.
Doutor Otávio, o senhor vai declarar a falência das empresas do seu pai? A
falência da maior construtora do país não interessa a ninguém.
O que o senhor tem a dizer às 12 mil famílias que já pagaram e não receberam
apartamentos? Que lutem por mim.
Estamos todos no mesmo barco.
Doutor Otávio, você acha que seu pai se matou de vergonha?
Por favor, respeite a dor da família. O
dia do enterro do doutor
Saboia foi o dia em que eu reencontrei o Otávio.
E de uma certa maneira, o dia em que a minha vida começou a acabar.
Ah, não pode ser.
Ele está aqui. Eu vou comunicar.
Otávio, aconteceu uma desgraça no condomínio Paraíso.
Um amigo seu ligou para o nosso chefe para te procurar. Que amigo?
Otávio Saboia.
Eu não sou amigo do Otávio Saboia.
Mas ele disse que é amigo de infância.
Quer dar uma exclusiva.
Diz que só fala com você.
Não é incrível?
Eu achei incrível.
Como é que o homem que mais vende jornal nesse momento é amigo de alguém que
trabalha pra mim e eu não sei?
Noronha, você me perdoe, mas é porque eu não falo contato com a boia, tá? É uma
coisa pessoal.
Por favor, manda outro.
Não tem outro, Sérgio.
Noronha, essa gente destruiu a minha família, entende? Eu vou destruir sua
carreira! Aquele não tinha sido um bom dia.
Ele estava longe de terminar.
Desligue esse telefone.
Pelo amor de Deus, meu filho. O Reinaldo mandou uma mão na cara da tua prima.
Você nunca mais vai ver teu filho, filho. Ela catou as crianças e se mudou
casa.
Eu não volto, Reinaldo. Eu dou razão pra ela, filho. Mas e nós, filho? O que vai
ser de nós, meu filho?
Eu tô com essa sua barriga.
Eu furava você, filho.
Eu tava fácil.
Você tá assustada.
Meu filho, essa menina vai ter esse bebê agora em outubro.
Que Deus me perdoe, mas onde é que eu enfio os teus pais?
Calma, tia. Põe eles no meu quarto, tá? Hoje eu durmo na sala, amanhã me viram.
Meu filho, pelo amor de Deus, o que é que nós vamos fazer? Vamos fazer o que
devíamos ter feito há mais de 10 anos, né, minha mãe? Nós vamos alugar um
apartamento. Mas sem a colaboração de vocês, as minhas...
Bebeza, como é que eu fico, filho?
A senhora vai arrumar um emprego, não é?
E parar de depender do meu salário, hã? Meu filho, você sabe que seu pai não
aceita pagar aluguel. É, mas quem não tem apartamento, minha mãe, paga
Mas nós temos um apartamento. Não, nós não temos um apartamento.
Meu Deus do céu, voltou tudo.
Voltou tudo, meu filho.
Desde que aquele outro lá se matou, que ele não para de falar desse apartamento.
Nem tomar o remédio mais ele tomou. Célio.
Célio.
Vai. Vai.
Vai.
É você.
Célio.
É a barra. É o seu futuro.
Um novo conceito de morar.
Condomínios fechados, sem frevo, sem assalto, sem pobre. Pai, por favor,
Vamos sentar.
É certo, Zaba, mas muito bonito o local.
Sexto, morar nesse cereal.
Barca, machinador.
É pelo menino, Jovem.
Pelo menino.
É pelo menino.
Pai, o senhor está defumando esse canário, pai.
Estou morrendo, senhor.
Eu sei, pai. O senhor diz que está morrendo há mais de dez anos.
A minha última esperança era matar o sabói. Mas o covarde se adiantou,
pulou, se arrebentou na calçada.
Eu sei, pai.
Eu sei, pai.
Eu sei, mas nós vamos sair daqui e nós vamos alugar um apartamento. Te
Só morro num apartamento de 108, bloco 1, do
condomínio Paraíso.
Que eu paguei até o último centavo.
E aquele pilantra nunca me entregou. Pai, isso fica difícil, pai.
Vou processar aquele cachorro no inferno. Assim não dá pra conversar.
Fica difícil conversar, pai.
Pela honra do teu pai, sério.
Pela honra do teu pai.
Vai lá e pega o que é nosso.
Ele se trancou.
Não fala com ninguém.
Agora me liga e diz que só fala com você. E você diz que não vai.
Quer bastar o resto da vida fazendo obituário?
Pai, não tenho mais relações com o Otávio Saboia.
O que você tem?
É medo.
Medo desses meninos.
Sempre esteve.
Veja. Sua mãe.
O que vai ser de sua mãe?
Ou a matéria ou rua.
É hora do teu remédio, pai. Toma aqui.
Rua, entendeu?
Ela vai morar num apartamento que eu vou alugar. Eu não morro pagando aluguel.
Quem vai pagar sou eu, pai. Meu filho, por favor.
Eu não estou falando.
de um apartamento que é nosso e que está com ele. Você pensa que eu não quero
esse apartamento? Que eu não sonho com esse apartamento?
Eu sonho com esse apartamento. Cada vez que eu entro aqui e dou boa noite pra
titia, eu sonho com o dia que eu vou enfiar vocês lá dentro e vou sumir, vou
desaparecer e vou cuidar da minha vida.
Você está expulso desta casa.
Você está me expulsando de uma casa que não é nem sua.
Meu inimigo está morto, mas o seu está vivo.
Você vai!
Vai porque eu estou mandando você ir! O herdeiro tem tudo o que nos resta.
Meu filho.
Velho!
Há 25 anos eu me esperava que você fosse o Otário.
Mas como enfrentar um homem que possui um prédio quando você não tem nenhuma
casa para morar?
Eu tenho uma entrevista com o Otávio Saboia, ele está
me aguardando.
Somente Célio Rocha está autorizado a subir. Que isso, mas por que isso,
Por favor, me acompanhe.
Gentileza.
Se ninguém paga, eu tenho que pagar?
Sai daí, Otávio.
Tá esperando o quê, Sérgio?
Fotografa. Que fotografa, Otávio? Sai daí, rapaz. Sai daí.
Fotografa, Sérgio. Eu tô mandando você fotografar.
Eu é que estou mandando você descer daí.
Desce daí.
Olha. Sai daí.
Seu segurança não deixou meu fotógrafo subir, Otávio.
Não tem problema.
Então, fotógrafo, tira a chapa quando eu chegar lá embaixo.
Gravador você trouxe.
Só dou o gravador se você sair da pontinha.
Vem pra cá.
Sai da pontinha, senão eu não vou ligar. Isso, vem pra cá.
Vamos lá pra dentro. Olha pra frente, sério.
Olha pra frente e me responde. O que é que você vê?
Vejo dívidas.
Aquele prédio pagou aquele que pagou aquele outro. Você compra aquele.
Mas, na verdade, está pagando o outro.
Se um deixa de pagar, sério.
Se um deixa de pagar, fica aquele buraco.
Não paga.
Não há dinheiro no mundo que chegue para todo mundo.
Escreve aí no teu jornal. Escreve aí. Eu sou um mártir.
Otávio Saboia é o mártir da construção civil.
Eu ainda não terminei. Eu vim aqui para falar com você sobre o apartamento do
meu pai.
Uma hora dessas, velho.
Tem uma família de miseráveis morando no apartamento do teu pai.
O condomínio paraíso, os 480 apartamentos, a favela vizinha em Ladil,
tudo.
Espera aqui, meu amigo, tá bom?
É a revolução.
Tem 30 anos de atraso, mas é a revolução, meu amigo.
Igualzinho na maquete, cara.
Hein?
Como que é? Uma maquete, uma casa do Otávio.
É meio
perigoso
aqui.
Olha isso aí, tem uma foto aqui, tem uma foto aqui, peraí.
Já tem
dono.
O que que é?
Olha, sou jornalista, tá aqui.
Fazer uma matéria com vocês aí, umas perguntas.
Jornalista.
Entra aí.
Desculpa aí, irmão.
Sabe como é que é, né? Todo mundo de olho na casa da gente.
Entra aí.
Fica à vontade.
A casa é de vocês.
Senta aí.
Mas e aí?
O que o senhor quer saber?
Como é que você se sente morando num lugar que não é seu?
É meu.
Meu pai construiu.
Mestre de obra. Não, seu pai construiu, mas alguém comprou.
É, mas não entregaram. E ninguém veio buscar.
Eu sei, mas não é assim que as coisas funcionam, né?
O problema é que as coisas não funcionam, meu filho.
Meu pai.
Acácio.
Nelson da Silva.
Prazer. Félio Rocha.
Prazer. Fomos nós que construímos esses prédios tudo aí. E dormia no barracão
que tinha ali em frente.
Trabalhamos até os acabamentos.
Aí pararam de pagar salário.
Sem dinheiro.
Um trouxe a família, o outro também trouxe.
Logo tinha meia dúzia de barraco.
Meia dúzia.
Pulou pra 10, 20.
Agora é essa favela aí, desse tamanho que o senhor tá vendo.
Um dia apareceu o advogado dizendo que a construtora tinha falido.
Os prédios tudo pronto.
Acabado.
Seis chefes de família.
Com um ano de salário atrasado.
Aí quando o dono daqui se atirou pela janela, falaram que não ia pagar mais
pra ninguém.
Chega uma hora que a gente perde a paciência.
Tu dá razão, né? Peraí, cala a boca.
Tem dez anos que isso aqui tá fechado.
Maçaneta na porta, privada, vidro na janela. É de tirar o juízo.
Fazer o quê?
É invadir.
Mas vocês sabem que isso é contra a lei, né?
Contra a lei?
Não, mas o que é contra a lei? Invadir propriedade privada é contra a lei.
Contra a lei é morar num barraco aí que dá vista pra 480 apartamentos vazios.
Isso é que é contra a lei.
Contra a lei de Deus.
Soninha, pega água pro seu pai, meu anjo.
Pois não, meu pai.
Mas agora vai ser tudo dentro da lei.
Nós entramos com pedido de posse.
Tem advogado, governador, tudo dentro da lei. Desculpe, mas eu não tenho nenhuma
chance. Quem decide isso agora é o governador. Ele que vai dar. Ele é um
bom. Ele disse que é comunista.
Socialista, pai. É socialista. É socialista porque não é com a casa dele,
Socialista? Quer dizer que o apartamento não é meu? Eu não, meu senhor. A lei
brasileira. Como é que é, meu camarada? Eu não estou entendendo. Que lado você
está? Em que lado, rapaz? Não é questão de lado. É questão que o senhor está...
É roubo. O senhor está expulso dessa casa. O senhor está me expulsando de uma
casa que não é nem sua.
O senhor está expulso dessa casa.
Sai daqui. Sai da minha casa.
Com licença.
Sai da minha casa!
Sai daqui!
Vai enlouquecer ou sai? Porra!
Aqui eu preciso explicar.
A minha conversa com o Otávio no parapeito... É o fim dos tempos.
pouco depois.
Tem um cigarro?
Sim.
Alguém vai tirar essa gente de lá, é certo?
É ano de eleição, sério.
E a merda é que pobre também vota.
Eu queria dar na nossa cara com a lamaeda, meu irmão. Cala a boca, meu
Vamos fazer uma reforma agrária naqueles prédios.
Prédios que o meu pai construiu às custas do dinheiro de gente como o teu
Mas nós ainda temos uma chance.
Há uma hora dessas tem um banqueiro americano voando por cima do Atlântico,
vindo pra cá.
Agora, sabe o que vai acontecer quando esse cara desembarcar e ler em todos os
jornais, Otávio, Sabó e o canalha do mês?
Ele vai correr, sério.
Ele vai correr, eu vou falir. O governo vai entregar os prédios pra esses
miseráveis. E teu pai vai morrer sem colocar os pés naquele apartamento.
Horário, vou te dizer uma coisa.
Primeira vez em toda a minha vida que eu sinto vontade de fazer mal a uma
pessoa. Sai da minha casa!
Eu preciso de um amigo na imprensa.
Isso pra mim é suicídio. Pra mim, escrever a teu favor a essa altura não é
suicídio. O esquema é o seguinte.
O banqueiro americano entra com a grana.
Brasília rola a dívida.
Você cava uma matéria a meu favor e eu te prometo, pessoalmente te entrego as
chaves do apartamento do teu pai.
Até aquele momento, eu poderia dizer que em vida eu havia sido um bom sujeito.
Mas aquele momento existiu.
E eu nunca mais fui eu mesmo. Tá pesado demais pra você isso não, hein, meu
anjo?
Quer uma ajuda?
Obrigada. Precisa não.
Não é absurdo isso, né? Uma moça bonita dessa, esse peso todo, essa escada, que
isso? Não precisava?
Não, peraí, deixa mais um pouquinho.
Sabe por quê?
Tá bonita essa luz em você, hein?
Essa luz tá bonita, meu. Não é não, Moraes? Não tá bonita essa luz, não,
Você já pensou em ser modelo?
Tirar umas fotos?
Foto pra quê? Pra jornal, hein? Capa.
Capa? Como capa? É, capa.
Capa, primeira página.
Ó, mas é trabalho sério, hein? Coisa profissional.
E é ele que tira foto?
É, ele é meu fotógrafo, muito bom.
Ele também é meu amigo, tira foto.
Então.
Você topa?
Amor, eu tenho o seguinte.
Não vou ficar pelada nem fazendo nenhum negócio esquisito não, viu?
Eu preciso de uma espreguiçadeira.
Pode ir.
Põe a mão assim, tá? Como se você fosse uma milionária. Isso aqui é a tua
cobertura. Você tá tomando um banho de sol.
A perna bem esticada em ponta, tá?
Isso, a mão pra trás. Vamos lá.
Vamos lá, Moraes. Não, não é daí não.
Isso, sorri agora. Não é daí não, não é daí não, não.
Não é. Tem que aparecer a favela. Sobe aqui, ó.
Bora aqui, bora aqui.
Quem pensa aqui sou eu. Enquadra aí, vai. Isso. Abaixa aqui. Pega a favela
Que nem está aí, né?
Isso, assim. Tá bonito.
Vai. Isso,
sorri. Você é rica, vai.
Eu estou sem apoio aqui.
O que é?
Eu não sei se vai abrir.
Imagina, você acha que eu vou deixar você cair? Está apoiado aqui.
Vem.
Vem
agora.
Vai.
Isso! Vai, fotografa!
Igual o Rico, vai!
Isso!
Pelo visto, você é o Otávio Reatar.
Para quem me prometeu as tripas de um inimigo, essa favelada aqui postando de
rico até parece ação entre amigos.
Publica essa aqui, ó. Essa aqui é perfeita.
Você quer ver como ele fez aqui?
Não ganhou nada que fez isso de graça?
Olha isso aqui.
Um ministro, amigo do meu pai, nunca negou nada pra Savoia.
E é meu seguinte.
O banqueiro americano entra com a grana.
Brasília rola dívida.
Você cava uma matéria a meu favor e... Tá entendendo?
Esse ministro libera verba pro pai do Otávio desde a Copa de 70.
Publica essa foto.
Eu ganho a confiança do Otávio, vou para Brasília, faço flagrante dessa
corrupção e eu pessoalmente escrevo o obituário do Otávio Saboia.
Sério? Sério?
Sério, você é um gênio.
Brasília acabou de ligar confirmando a audiência. Foram até simpáticos comigo
telefone. É matéria séria. A tua matéria. O governador recuou
declarou que a invasão do condomínio para isso não pode servir de exemplo
outros tipos de vandalismo. A polícia vai descer o cacete. Vão arrancar
favelados na marra.
O banqueiro já embarcou, Suárez.
Posso ficar aqui?
Claro, seja meu convidado.
Um artigo muito interessante.
É sua, não é?
Sim, sim.
Parabéns. Obrigado.
Maravilhosa mulher.
Sim, muito bonita.
Então, você lê português?
Claro, claro.
Salve, Rocha. Prazer em conhecê -lo.
Emílio Gutiérrez.
Prazer.
Gutiérrez? Gutiérrez.
De onde você vem?
Eu sou de La Paz.
La Paz?
Capital de Bolívia.
Não, não, sim, claro.
Isso eu sei, capital de Bolívia. Mas eu pensei que você era americano.
Não. Eu trabalho para alguns americanos. Mas eu sou natural de
Bolívia.
Octavio! Como você se sente esta manhã?
Tranquilo, Octavio. Tudo bem.
Tranquilo. Estamos todos muito tranquilos. Tranquilo.
Lá estava eu, acendendo uma vela para Deus e uma para o diabo.
Eu conseguiria o apartamento do meu pai pelo esquema do Otávio ou eu colocaria o
Otávio na cadeia?
O que eu não sabia é que o meu pai também tinha um plano.
Tem dono.
17 anos de professores.
Tudo pago.
Não atrasei nem um dia.
Só sobrou lugar no quartinho de empregado.
Em vida, eu era um radical.
Eu achava que se Deus realmente existisse, ele deveria jogar uma bomba
Brasília, tal qual ele fez com Sodoma e Gomorra.
Todos os nossos problemas estariam resolvidos.
Mas a bomba teria
que esperar.
Eu precisava de Brasília para resolver os meus problemas.
Eu tenho que admitir, o encontro com o ministro foi muito impressionante.
Se bem que não exatamente da maneira que eu estava esperando.
Senhor João, sentar, por favor.
Doutor Otávio,
o senhor ministro já conversou com o governador e pressionou para que o
retire os invasores ainda hoje.
Eu não tenho palavras para lhe agradecer, senhor ministro.
O grande medo é a convulsão social.
Acabamos de saber que a menina que pousou para as fotografias, Quase foi
linchada por uma multidão descontrolada.
Enfim, uma situação lamentável.
Agora vou deixá -las a sós.
Senhor ministro, eu venho mais uma vez em nome de minha família contar com a
imensa generosidade. Doutor Otário, antes que o senhor prossiga, eu gostaria
lhe dizer uma coisa.
Pois não.
Há sete anos, seu pai convenceu minha esposa a investir suas economias num
projeto hoteleiro que ele estava desenvolvendo numa praia de Sergipe.
Mãe Jubinha. Mãe Jubinha.
Investimos tudo.
Meu Deus.
Meu pai.
Tranquilo, meu pai.
Tranquilo. Minha mulher.
Vive hoje na base de sedativos.
Foi decretada uma auditoria nas contas do meu ministério para explicar os
inúmeros empréstimos que eu avalizei para seu pai. O que provavelmente me
afastará do meu cargo neste ministério e da vida pública
definitivamente.
Doutor Otávio...
Não só vou negar o empréstimo que o senhor está prestes a me pedir, como vou
dedicar cada minuto que resta no meu comando deste ministério a prejudicar e
interferir no curso dos seus interesses.
Oficialmente, o Otávio estava acabado. E com ele, as chances do meu pai
recuperar aquele apartamento.
Só me restava vingança.
Será que eu sou o único cristão com um par de orelhas nessa redação?
Alô?
O quê?
Anota aí, Noronha. A ruína de Otávio Sabóia. O quê?
O ministro vai cair. Eu tive lá, vi tudo.
Estou em Brasília ainda. É aqui, num apartamento funcional de um deputado.
lá, Noronha. Coisa suja do Otávio aqui. Mas presta atenção.
Está tudo gravado.
Segura aí a primeira página.
Acabou para o Otávio Sabóia, Noronha.
Acabou, Tadeu.
Está aqui o que eu te prometi, sério.
Não estou entendendo, Otávio.
O apartamento do teu pai.
300 mil dólares.
Esse dinheiro é do teu pai.
Dá pra comprar um apartamento de três quartos.
Cabe numa mala e não é problema.
O problema, Célio, é o meu dinheiro.
E teu dinheiro?
Eu tô quebrado, Célio.
Eles vão tirar tudo de mim.
Eu consegui livrar 50 milhões.
50 milhões de dólares que eu não posso botar no meu nome.
O problema é que eu não confio em ninguém pra fazer isso por mim.
Você não tá entendendo, otário? Sabe o que eu tô indo fazer no Rio de Janeiro?
Eu vou escrever o teu obituário, você entendeu?
Sério, a gente se conhece há quanto tempo?
Eu tô precisando de ajuda.
Minha ajuda vai.
Pensa bem, nós não somos parentes, não temos o mesmo sobrenome, você nunca
trabalhou pra mim.
Nós não nos vemos há quanto tempo, mais de 20 anos.
Eles nunca vão chegar até você.
Eu não vou cair nessa, não. Nem teu americano é de verdade, cara.
Eu te dou 300 mil agora.
E depois eu coloco outros 5 milhões na tua conta.
Eu só preciso que você abra uma conta no seu nome. E aí eu coloco os meus 45
milhões lá também.
5 milhões, sério.
Eu estou te dando 10 % de tudo que eu tenho.
Mas tem que ser agora.
São 5 milhões de dólares, sério. Dá pra resolver a vida de qualquer um. Você
sabe que o seu pai não aceita pagar o seu. Mas o que é pra fazer?
São 5 milhões, sério.
Foi esse daqui pra fora.
Sai daí da casa. Rua!
O da cadeia, rapaz.
Cinco milhões, sério.
Você é maluco. O da cadeia.
O da cadeia.
Cinco milhões de dólares.
O da cadeia.
Está
aqui
a passagem.
Ilhas Caimã.
Primeira classe.
Rapaz, nunca vi a gente de primeira classe.
Eu tenho que ir.
Espera aí, uma senha. Você deve ter uma senha, hein?
Tranquilo, Célio, tranquilo.
Ele trata o justo.
Sem você, Octavio não tira acesso ao dinheiro.
Vou guardar assim até o final de semana.
Meu dinheiro também tá lá.
Te cuido a sério.
Te vejo em Caimã.
Um setecento.
Cinquenta, noventa e sete, mil e oitocentos.
Novecentos. O homem roubou dois mil dólares. Caralho, tá
safado.
Mãe.
Sério, minha nossa senhora. Mãe.
Estamos ricos.
Meu Deus, Sérgio.
O apartamento do papai.
Estou olhando pra ele, mãe, hein?
Sério, meu filho. Mãe, diz pra ele, diz pra meu pai, que eu consegui, mãe.
Eu consegui o apartamento pra ele. Sério, seu pai.
O que foi, mãe?
Ele morreu.
Seu pai morreu.
Assassinado pela polícia.
Alô? Alô?
Sério, meu filho?
Ele leu a tua matéria e levantou da cama.
Levantou, meu filho. Depois de cinco anos.
Ele tinha ido à igreja. Ele saiu.
Ele foi pra lá, foi pro nosso apartamento.
Lá puseram ele, meu filho, num quartinho da empregada.
Obrigado. E ele, meu Deus, ele ainda agradeceu.
Ele ainda agradeceu, meu filho.
Aí... A polícia invadiu.
O coração dele parou ali dentro.
É o que ele falou.
Ele morreu noite sem se ouve.
Dizem que a polícia invadiu por causa da tua matéria.
Onde é que você estava, meu filho?
Você... O que eu estou fazendo?
O seu pai mais precisou de você.
Alô? Alô?
Sério, meu filho?
Você vem aqui ao menos enterrar meu pai.
Sério?
Meu filho?
Sério?
Sério?
Aquilo foi o fim da minha vida. Tal Paulo a conhecia.
É sem vício.
Porque foi quando eu tive a minha primeira visão.
Eu vi o que qualquer um faria no meu lugar.
Recolhi as provas do meu crime e fugi.
Durante um período de tempo, que eu não sei qual foi, eu vaguei.
Louco e culpado.
Foi quando eu comecei a ouvir vozes.
Pois estás diante do teu Deus.
Triunfarás. O que,
senhor?
Os apartamentos.
Isto é impossível.
Faça o que eu digo.
Caso contrário, tua alma e o teu amigo arderão para sempre no
fogo do inferno.
Encontrar com Deus é ao mesmo tempo transformador e doloroso.
Mas o Todo -Poderoso sabe disso.
E é por isso que existem sonhos para dar força aos que têm uma missão.
De repente eu acordei e sabia exatamente o que eu tinha que fazer.
O elemento me aparece em farrapos com 160 mil dólares dentro de uma pasta e
dizendo para quem quiser ouvir que o senhor faz parte de um esquema.
Me deixou numa situação difícil.
Agora, oficialmente, o caso não existe ainda.
Eu tenho certeza que o senhor não vai se arrepender de ter nos avisado tão
rapidamente. Eu gostaria de ter dois minutos a sós com ele, por favor.
Pois não.
Sério?
Otávio, me aconteceu a coisa mais assustadora de tudo na minha vida.
Sim, você roubou todo o meu dinheiro e fugiu. Muito bem.
Nós precisamos conversar, Otávio. Não, não, cala a boca.
Você não vai dizer nada.
Nenhuma palavra eu te tiro daqui.
Otávio, eu vi Deus.
Estive com Ele.
Não, não, você não vai enlouquecer agora.
Otávio.
A morte do seu pai, a morte do meu pai, tudo isso está relacionado a outros
planos, entende?
De modo que sobrou para nós dois e Deus quer que eu resolva o problema dos
apartamentos e que você, Otávio, que você se arrependa. Mas eu estou
arrependido, eu coloquei todo o meu dinheiro na mão do maluco. Se você não
arrepender agora, depois vai ser muito pior, porque nós vamos arder no fogo do
inferno. Escuta, escuta.
Nós vamos alegar insanidade.
Do jeito que você está, não vai ser difícil.
Você vai sair daqui. Vai pra uma clínica desgastar.
O problema é que eu estive pensando e eu acho que Deus quer que eu te
denuncie.
Como é que você pode ser tão túpido? Eu não tenho que fazer isso. Você se
arrepende e eu vou sumir contigo, entendeu?
Você vai me obrigar a sumir contigo, tá me entendendo? São 10, 15 anos. A gente
tá livre.
Otávio!
Otávio! Seja mais razoável.
Aqui estão os 160 mil dólares que a gente conseguiu reaver.
Esse dinheiro pode nunca ter existido.
Se o senhor guardar o meu amigo num lugar onde ele pare de falar besteira.
Peraí, está havendo um mal -entendido. Eu não posso ser preso. Eu não sou
julgado. E eu preciso ser julgado.
Aqui todo mundo é inocente.
Eu sei, mas...
Naquela
noite eu percebi que Deus era louco.
Afinal, se eu estava fazendo o que ele tinha mandado, por que me maltratar
daquela maneira?
Tá pensando que deve ficar na varanda, meu amor?
Lugar de novato?
É lá atrás, na privada. Na boca do boi.
Não te abate, não.
Logo mais, vai aparecer um outro que vai pegar o teu lugar.
Aí você começa a progredir.
Mais tarde, você está lá na varanda, pegando um ar que vem lá de fora.
Meu Deus, me tira daqui.
Olha, meu filho.
Pode ser até que ele exista.
Mas pra cá, ele não colou.
A crise imobiliária também afeta os animais.
Um leão precisa de 50 quilômetros
quadrados para se sentir tranquilo.
Já o homem precisa apenas de 5 metros quadrados para não enlouquecer.
Visita, Célio.
O quê?
Visita, meu amor.
O meu o quê?
É bonitinho.
Célio, visita.
Célio, visita. Visita, Célio.
Visita, meu amor.
Visita.
A senhora me achou?
O Otávio. Ele me procurou.
Foi lá em casa.
E a senhora deixou ele entrar, mãe?
Deixei.
A senhora sabe quem é que me trancou aqui?
Como é que o Otávio põe todo o dinheiro dele no teu nome e você entrega ele pra
polícia, meu filho?
Com um telefone, amor.
Se você ficar calado, ele te tira daqui.
Eu não posso, mãe.
Acorda, meu filho. Pelo amor de Deus, acorda.
Cala tua boca.
Ele te tira daqui.
O que eu passei, meu filho? O que eu tô passando?
Viúva.
Numa casa cheia de criança.
Meu filho único, trancafiado aqui na cadeia.
Essa é a nossa oportunidade.
Ouve bem.
Essa é a nossa chance.
Mãe, mãe, mãe.
Eu vi Deus, mãe.
Naquela noite eu duvidei.
Duvidei se eu não estava louco.
Se Deus não teria sido mais um delírio. Você pensa bem.
Pensa bem.
No domingo eu volto.
Se fazia algum sentido denunciar o Otávio ao invés de me calar, sacar 5
de dólares e aproveitar a vida como qualquer corrupto normal.
Me perguntei se o inferno poderia ser pior do que aquilo ali.
Eu ouvi dizer que vai chegar ainda mais gente.
Deve ser boato.
Deve, deve.
Afinal, se eu tinha uma missão, por que Deus não me dava uma mãozinha?
Você sabe que às vezes eu sonho, quando eu consigo dormir, sonho que estou em um
quartinho todo branco, feito só para mim, só meu,
vazio.
Um quartinho que não tem ninguém, não tem parentes, não tem
amigos, não tem cachorro.
Nem planta tem vazio e silêncio.
Eu só escuto o barulho do ar
condicionado.
Olha, Otávio, eu falei.
Eu tentei, mas ele não quis me ouvir.
Nesse caso, a senhora vai ter que sacar o dinheiro pelo seu filho.
Eu? O Célio é solteiro. Ele não tem filhos por aí, tem?
Não.
Que eu saiba, não.
Pois então.
Nós precisamos de um atestado de óbito.
Você vai matar meu filho.
Não, Dona Isaura. Se eu não o tirei da cadeia até agora, é porque no estado em
que ele está, a cadeia é o lugar mais seguro.
Preso, ele está protegido.
Mas preso não viaja.
E preso também não pode sacar dinheiro no banco.
Nós já fizemos o testamento.
Dona Isaura, nós vamos matar seu filho.
Juridicamente.
A senhora só precisa agora reconhecer um corpo. Corpo?
Corpo de quem?
Eu tenho muito bons contatos na fronteira com Bolívia.
Bolívia?
É uma zona onde morre muita gente, claro.
É um pulinho para Caimão.
Por que você acha, Otávio?
Por que você acha que eu vou acreditar em você?
Nos conhecemos há muitos anos.
Porque eu sou o único que pode tirar o Célio da cadeia e também porque, Dona
Isaura, eu posso depositar cinco milhões na sua conta.
O que é?
O que é? Vem cá, rapaz!
Vem aqui agora!
Você só mata a pessoa que já está morta! Agora vem aqui!
Vem matar a pessoa que está viva!
Vem você matar agora uma pessoa que está viva!
Saída é por aqui.
Pela merda?
Só havia um lugar para onde ir.
Para casa.
Que beleza de apartamento, hein?
Alô? Alô? Alô?
Alô?
Alô?
Escolhe qualquer um, qualquer, sendo branco, servo.
Aquele ali sou eu?
Se a gente tivesse entrado pelos fundos.
Sem dinheiro fica difícil, Octavio. Eu não faço milagres.
Quem é? Internacional, deve ser o Gutierrez. Pergunta sobre o testado de
antes que a ligação caia. Pergunta sobre o testado.
Olá! Alô!
Gutierrez!
Sim, Octavio.
Aqui de Cochabamba.
A senhora está reconhecendo o corpo.
Liso?
Sim.
É perfeito.
É igual.
E é branco.
O corpo foi reconhecido.
Agora você segue direto para Caimã.
Hoje.
Muito bem, muito bem. Suficiente, suficiente.
Muito obrigado, muito obrigado.
A Vera reconheceu o corpo. Deus é pai.
Agora não há o que me faça entrar nessa CPI. Vai lá e me arranja um adiamento.
Não importa qualquer mentira, qualquer desculpa, sei lá, digo que estou
deprimido.
Não, não tenho dinheiro.
Eu não tenho...
Ganho!
Ganho! Mentira, prepara o banho pra mim.
Pra mim o frio. Peraí, peraí.
Você não vai me trancar dentro desse armário. O que é, rapaz?
Armário? Isso é um quarto que teu pai construiu pra uma empregada morar. Bota
ele pra dentro. Vamos lá.
O meu pai, senhor!
O meu pai!
Eu não dei de nada pra ninguém, você tá me acusando de uma coisa que eu não fiz?
Não, não fez, mas você usufruiu.
Usufruiu. E agora você vai pagar.
Você vai se arrepender.
Olha, Otávio, lá em cima não dá pra esconder nossas culpas não, tá
Então é melhor você se arrepender aqui embaixo.
E se eu não tiver mais salvação?
Vou ajudar você.
Mas não adianta nada você se arrepender e continuar usufruindo dos lucros de uma
vida de crime, né?
Por isso, Otávio, é que eu vou distribuir os teus 50
milhões de dólares.
Vai pra um convento, Célio!
O que eu fiz pra te merecer, cara?
Você destruiu a vida do meu pai.
Tonelada, tira a roupa dele.
Aquele terno me caía muito bem.
Eu vou sair.
Vai sair?
Ah, já sei. Você vai passar no banco para trazer a nossa grana, né?
O banco não é no Brasil.
Como é que é?
Fedeu, viu? Depois ainda falta juntar todo mundo.
O que? Mas o que é isso? O que é juntar todo mundo? É muita gente.
É. Mas pode ficar tranquilo que tem para todos.
Ah, peraí, peraí, peraí, Dom.
Por que é que você acha que eu vou sair distribuindo minha parte com todo mundo?
Porque é assim que vai ser, Tonela.
Ei, Tilo, faz uma coisa.
Faz uma coisa, Tilo. Você vai no mercado e compra um estopa e um querosene.
E um marquinho de cigarro pra... Não.
Você vai ficar tomando conta do campo.
Eram 480 proprietários, ganhando cada um 85 mil dólares.
Isso dava 34 milhões e meio.
5 milhões para mim, 5 milhões para minha mãe, 5 milhões para a soninha, 3
milhões para o tio, 1 milhão para o tonelado, meio milhão para o meio quilo.
Sobrava 1 milhão e 400 para dividir com 98 famílias de operários, o que ia dar
15 mil dólares para cada família.
É. 15 mil dólares.
Sr. Cássio, com licença.
Sr.
Cássio, eu estou aqui.
Em nome de Otávio Sabói, o homem construiu aqueles prédios.
Ele me pediu que falasse com o senhor, que é para o senhor reunir os operários,
porque ele vai pagar os salários atrasados.
Júlio!
Eu conheço você.
Eu conheço você. É aquele filho da puta do jornal, pai. Você está maluco de
voltar aqui, meu irmão? Sai fora, seu cachorro do inferno.
Vai lá dentro na cômoda. Pega aqueles papéis que estão lá na gaveta. Pai, eu
vou deixar você fazer negócio com um pilantra desse. Júnior!
A polícia quebrou tudo que a gente tinha.
Ele está falando de dinheiro.
Isso, ele vai pagar os atrasados todos. O meu pagamento, o nosso dinheiro, faz o
que eu estou mandando fazer.
Sr. Acácio, com a sua permissão, eu gostaria de trocar duas palavras
com a sua filha. Eu não tenho mais filha.
Minha irmã virou puta, mudou para Prado Júnior.
Sr. Acácio, queria dizer para o senhor que eu vou falar com ela. Eu vou trazer
sua filha de volta para cá.
Se aquela vagabunda puser os pés aqui nessa casa, eu conto pra todo mundo que
foi o senhor que mandou a polícia expulsar a gente daqueles prédios lá.
Você! Senhor, por favor, reúna os operários que o Otávio vai pagar.
Sai daqui!
Sai daqui!
Peraí, eu vim tirar você daqui.
Tirar daqui o quê?
Aqui agora é minha casa, sacou?
Sai daqui, eu tô mandando, sai! Peraí, calma, o que é isso?
O que é isso? Tá me expulsando de uma casa que não é nem tua, o que é isso?
Calma aí, calma.
Sônia, escuta, eu quero te... Escuta o quê?
Eu não te escuto de novo nem por todo o dinheiro desse mundo. Eu tenho 50
milhões de dólares.
Eu sequestrei aquele homem que construiu aqueles prédios perto da... Sequestrei
ele. Tenho 50 milhões. Vou distribuir o dinheiro dele entre as pessoas que foram
prejudicadas. E acho que uma parte desse dinheiro pertence a você.
400 dólares por uma noite. Chega.
Eu só preciso de uma noite, Soninha, para te convencer.
Nós vamos embora.
Escuta aqui.
Se me passar para trás outra vez, eu te mato, entendeu?
Eu vi.
Eu vi.
Ele arrancando a privada com o chão e tudo. Ele ressuscitou o físico.
Olha aqui.
Olhou? Ele tirou a gente da cadeia, tá?
Ainda tem a parada da grana, hein?
Ele disse que você deve muita grana a ele.
Muita grana.
Mas é o bastante para mim, para você, para nós quatro aqui.
Não para essa gente toda que ele quer dividir.
Comprei roupa pra todo mundo. Quero todo mundo de banho tomado. Quem é a vadia?
Vadia, rapaz, é a dona da casa.
Sônia. Pra você, é dona Sônia.
Vem cá.
Pega as compras, rapaz. Sim, senhor.
Agora é oficial.
Célio Rocha está morto.
Alô, Otávio.
Sacrado e sacramentado.
Alô, Otávio. Pegamos o dinheiro. É dinheiro.
Eu nunca vi tanto dinheiro na minha vida.
Está tudo aqui na minha frente. Não é só dinheiro.
Tem título do tesouro americano.
Alô, Otávio.
É, nós vamos sair daqui direto pro aeroporto.
Pergunta quando é que ele chega e me diz que você vai mandar um carro.
Que horas vocês vão chegar? Vamos chegar aí, ó. É noite assim.
Mandar um carro e esperar no aeroporto.
Entendido.
Dinheiro chega amanhã.
Acredita agora?
Só sai daqui, rica!
Moraes, quem vai estar aqui na cobertura amanhã? Não tô te falando.
Quem? A gente tem que terminar aquela matéria, tá?
Veja que traiu uma vez, Sônia.
O dinheiro está a caminho.
Vai trair outra.
Amanhã está todo mundo fora daqui.
Menos você.
Ele falou que vai te deixar aqui.
É alguém chegar para comprar esse apartamento.
Eu
juro.
Me tira daqui ou me caso com o tio.
O que é isso?
O que é isso?
O que é isso? O que é isso? O que é isso?
O que é isso?
O que é isso?
O que é isso?
Vocês não veem que ele está completamente louco? Você vai se
porque eu vou comprar 98 apartamentos sem contar as casas populares com o teu
dinheiro. Não tem que ter casa popular, seu idiota.
Ou seja, alguém vai ficar satisfeito.
Vocês não estão entendendo? O dinheiro não dá para todo mundo, porra.
Tranca ele.
Tranca ele.
Fica com a puta. O dinheiro chegou.
O que é?
O que é, seu Carlos?
Eu não falei pra você que quando tivesse tudo pronto eu mandava chamar? O
dinheiro ainda não chegou.
Acho bom essa grana chegar rápido, porque tá correndo boato aí na favela
distribuir dinheiro.
Só me dá cinco minutos.
Só, gente, cinco minutos, tá?
Está na hora de você dizer quanto é que tem para mim. Tem bastante. Espera aí.
Tem bastante.
Espera aí. Você também.
Tem bastante.
Faz o seguinte.
Traz o Otávio aqui.
Tranca a Soninha lá no quarto. Depois você desce. Como é que é? Vai esperar o
tio. Cala a boca. Cala a boca. Estou te falando para você calar a sua boca.
O que é isso? Sério?
Foi ele que me agarrou. Você me pediu em casamento.
Seu pai está aqui. Seu pai não pode saber que você está aqui. Eu não vou nem
amarrar. Amarra ela. Me larga, caralho.
Solta.
Eu não disse que ele ia te trair outra vez?
Vamos embora, gente.
E a festa lá em cima. Vamos.
Vamos para trás, meus filhos.
Vamos, meu povo. Vamos subir.
Esse aqui é o Otávio Sabaia, o homem que construiu esses prédios aí, ó.
E sabe por que ele está aqui hoje, hein? Sabe, Otávio? Hein?
Porque hoje é dia de pagamento.
O doutor Otávio está esperando lá em cima. Vamos, senhora.
Por favor, senhora.
Tranquilo, é melhor sacar o dinheiro daqui. Vamos, vamos.
Mas o que é que a gente veio fazer aqui? O doutor Otávio não acha conveniente a
senhora ficar com o dinheiro aqui embaixo.
Vamos, senhora. Com gentileza. Por favor,
me acompanhe. Eu quero falar. Ah, ele vai falar.
Isso aqui é sequestro.
Crime hediondo.
Voltem para as suas casas.
Vocês vão ser acusados de cúmplices.
Um sequestro de um homem inocente. Você tem
certeza que o
Otávio está aqui nesse buraco?
Doutor Otávio está esperando.
Esse homem matou meu pai!
Esse homem matou meu pai!
Ele matou meu pai, me prendeu numa cadeia imunda e roubou o salário de
todos vocês!
E agora ele está aqui e nós vamos distribuir o dinheiro dele.
Filho, você enlouqueceu?
A senhora me dá essa mala que eu perdoo a senhora.
Não!
Não!
o meu filho.
de operários que trabalharam e não receberam.
São cento e noventa e oito.
Cento e noventa e oito? É.
É cento e noventa e oito, família.
Vocês falaram noventa e oito. Eu não falei porra nenhuma. Cento e noventa e
oito. Eu te avisei que o dinheiro não chegava pra todo mundo. Tá, deixou
Noventa e oito. Tá, agora eu consigo noventa e oito.
daqui.
E foi ele, foi ele que me deu o dinheiro para eu tirar aquela foto.
Isso não é hora para virar teu.
Se você encontrar com ele antes de mim, diz que eu me arrependo. Eu me
arrependo. Sério.
Sério.
Fala para Deus me salvar.
Eu me arrependo. Sério.
Amigo.
Amigo.
Fala para Deus me salvar que eu me arrependo.
Foi assim que eu morri.
Mas essa história não acaba aqui.
Melada. Mil quilos.
Filho.
Tomem conta dessas pessoas.
Sua casa.
Perdoe a sua filha, sua casa.
Soninha.
Me perdoe.
Minha mãe.
Oh, minha mãe.
Abre esta mala, mãe.
Abre esta mala.
E você, Otávio, ajoelha.
Ajoelha e pede perdão.
A minha mãe, ela estava perto da mala quando aquele dinheiro todo voou.
Resultado, ela comprou a casa do pai do Otávio.
A Saninha virou modelo e, claro, pousou para a Playboy.
Hoje ela tem uma banda de hip -hop chamada Os Invasores.
Ela ajeitou a vida do pai e do irmão.
Comprou para eles um apartamento muito, mas muito melhor que o 808.
Quanto a mim, bem...
Eu finalmente cheguei na cobertura.
Oi, pai.
Oi.
Eu
chegava
a morrer.
Não deu.
Eles jogaram.
Ah, o Otávio.
Eu realmente converti o Otávio.
Ele e o seu bando foram presos, mas hoje estão muito bem.
Fundaram a seita dos filhos de justos. E na cadeia exibem em físico como
relíquia viva e prova incontestável dos meus milagres na terra.
Já era!
E aí
E
aí E aí
Obrigada.
Amém.
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