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- Acho que vai dar cagada. - Eu prefiro desistir.
Parem com isso. Vai ficar tudo bem.
Primeiro, precisamos de um carro bacana.
Depois, alugamos umas roupas e ficamos na maior elegância,
como perfeitos cavalheiros.
Aí, o Montanha e o Juca entram,
enquanto eu e o PR ficamos do lado de fora.
Lá dentro, vocês pedem para ver as joias.
Isso vai deixar os funcionários agitados e solícitos,
querendo agradar o cliente.
E aí, o Montanha pede para ver a joia mais cara.
É esta.
Quanto custa?
Uma joia dessa não pode custar menos de US$ 100 mil.
Vou levar.
Meu Deus! Anselmo, por favor.
Verifique se minha carteira está no carro.
Não está, senador.
Que "massada".
Eu gostaria de resolver esse problema antes de viajar.
Acho que a única solução é pedir a minha esposa que mande o dinheiro.
Isso vai estragar a surpresa, mas o que podemos fazer?
O senhor tem um papel para que eu possa mandar um...
- Posso ajudá-lo? - Muito obrigado.
"Laura..."
Que coincidência. Minha mulher também chama Laura.
Coincidência, bem...
"Entregue ao portador US$ 100.000.
Um beijo."
Obrigado.
Anselmo, peça ao Jonas para entregar isto a minha mulher.
- Pois não? - Uma mensagem do Sr. Leopoldo.
E eu entrego o bilhete à mulher do joalheiro.
Claro, ela vai achar estranho, mas quando ela reconhecer
o papel e a letra dele, ela vai acabar cedendo, gente!
Isso não tem erro, filho!
Perfeito.
Com licença.
Nós vamos perder o voo, senador.
"Massada"!
Não sei por que o Jonas está demorando tanto. Não entendo o atraso.
Vamos fazer o seguinte. Meu chofer chega, te paga,
você dá a ele a joia e o recibo, e ficamos assim.
É um prazer atender a um cliente distinto como o senhor.
Estou louco pra me ver livre dessa merda!
Me dá uma coceira danada!
O sacrifício valeu a pena, rapaz. São cem mil!
Nunca mais vou ter que comer aquela mulher.
Com essa grana, podemos ficar um ano sem trabalhar.
- Onde está Vavá? - Já devia ter chegado.
Caramba!
- Não abra! É a polícia! - Deixe de ser cagão!
Sr. PR, o Dr. Vavá mandou entregar isto a vocês.
- E onde ele está? - Nem desceu do táxi.
Mandou entregar a vocês. Parecia estar com muita pressa.
Amigos, não poderia partir sem me despedir de vocês.
Porque quero agradecer imensamente por vocês terem me ajudado tanto
a botar a mão nesta grana. São cem mil. Muito obrigado!
De coração.
Cada nota que eu gastar vou me lembrar de cada um de vocês.
Eu pagaria mais cem mil só para ver a cara de vocês,
mas infelizmente não posso, porque o avião está me esperando.
Vocês sabem, não é?
O sonho da minha vida sempre foi fazer uma excursão no Caribe.
E não fiz antes porque não tinha dinheiro, nem a mulher.
Mas isso não é mais um problema. Um instante.
Laura, vem cá. Olha que maravilha. Laura!
Olha lá!
É a mulher do joalheiro, rapaz! Eu não falei antes,
mas ela está comigo na parada desde o começo.
Hein, Laurinha? Ô, Laura...
Dá um tchau para os meus amigos. Olha lá!
- Tchau, rapazes. - Olha lá! É linda.
Maravilha! É uma mulher maravilhosa. Nunca tive uma mulher assim.
Mas vamos falar sério, agora.
Gente, Leopoldo... Aliás, Leopoldo não é joalheiro.
Isso é fachada para ele lavar o dinheiro dele.
Na verdade, Leopoldo é um traficante, é um homem ruim.
Leopoldo é mau.
Leopoldo tem fama de não matar ninguém, mas faz sofrer.
Se eu fosse vocês, fugiria, ficava atento.
Leopoldo vai atrás de vocês.
Amigos, adoraria ficar, mas tenho que ir. Arrivederci.
I'll see you later. Au revoir. Seus babacas!
- Vavá, Filho da puta! - Filho da puta!
Cuidei dele como um filho e ele retribui assim?
Um desnaturado!
Como que o Vavá faz uma sacanagem dessas com a gente?
Ele aprendeu direitinho. Contigo.
- Comigo? - É.
Quem foi que ensinou a ele os golpes? As malandragens?
Não ensinei o Vavá a trair os amigos. Porra! Até malandros têm sua ética!
Amigo não trai amigo.
Ele era um pivete.
A mãe deixou aqui pra gente criar.
Eu ensinei direitinho todas as artes da cama.
Modéstia à parte, fui um bom professor.
Realmente ele se superou.
Viram a gata que ele pegou?
Grande Vavá!
"Grande Vavá" é o cacete! Um grande filho da puta!
Tá bom assim?
Sim, tá lindo. Você tá um tesão.
Pensei que nunca mais teria que encarar essa coroa.
Tudo por causa do Vavá.
Epa! Não fala esse nome!
É proibido falar esse nome nesta casa.
O cara levou o nosso dinheiro, agora a gente é obrigado a se virar.
"A gente" quem, cara pálida? Quem vai encarar a mulher sou eu.
Mas é por uma causa justa. Você tá lindo, lindo!
Afinal, quem é que paga as nossas contas?
É ela! Escondam-se!
Madame!
- Como sempre, deslumbrante! - Obrigada!
Você é sempre tão gentil.
E os seus amigos?
Saíram. Este apartamento hoje é só nosso.
É?
Champanhe?
Uma ou duas gotinhas. Não posso me exceder.
Esse champanhe me transporta para um tempo tão distante.
Para a Grécia, na minha infância.
Para a minha ilha de Creta.
Que isso, minha querida?
Pra você, os anos parecem não ter passado.
Você continua deslumbrante como há 30 anos,
minha deusa grega!
Há 30 anos, eu já era uma mulher madura.
E você, apenas um menino.
Um menino apaixonado.
- Mais um champanhe, madame? - Você está querendo me embriagar!
- Quais são as suas intenções? - As melhores possíveis.
Meu Deus! Acho que vou desmaiar.
Um momento.
Me leve para o seu quarto. Para o seu quarto!
Agora, vem, vem!
Agora vire, vire!
Vai! Não pare!
Calma! Calma, madame.
Isso. Agora, isso. Vai, vai.
Tá bom, madame? Tá bom?
Isso!
Madame?
Madame, está bem?
Socorro!
- Socorro! - O que aconteceu, PR?
- A mulher morreu! - Cara, você matou a coroa?
Não! Eu não!
Poxa, cara. Faz respiração boca a boca.
- Vou beijar uma defunta? - Estava transando com ela!
- Mas ela estava viva! - Ela está mortinha mesmo.
É o primeiro caso de "homicídio por pirocada" que vi.
Não brinca! Onde está a Montanha?
Ele tomou um porre. Virou um uísque e apagou.
- Ajude-me a tirar ela... - Espera aí, cuidado...
Segura ela.
- Agora, enfia a cabeça. - Vou colocar devagarzinho.
Vai colocando devagar.
- Agora, o braço. - O braço.
Puta merda!
Cuidado!
- Aqui. - Foi.
Foi?
O anel, é brilhante. Deve valer uma fortuna, cara.
Puxa!
Cuidado!
Essa mulher é uma santa. Que Deus a tenha.
Deixa eu ver.
Isso é brilhante puro.
Vamos poder ficar um mês sem trabalhar.
Um mês que nada, rapaz. Um ano, no mínimo.
Vamos comemorar!
- Chico Buarque é amigo deles? - Não faço a menor ideia.
Eu sei que eles se conheceram naquela época
que "Sabiá" ganhou o Festival da Canção, lembra?
- Vou voltar... - Sei que ainda vou voltar...
- Lembro. - Eles saíram dali pra comemorar
e tomaram um porre daquele de chamar urubu de "meu louro".
E desde esse dia, eles nunca mais se separaram.
Às vezes um deles encontra uma mulher, casa, fica lá um tempo.
Mas aí não aguenta. Volta para junto dos outros dois.
Entra, companheiro. A festa está apenas começando. Fique à vontade.
Por favor, o senhor Paulo Renato Viveiros de Sales.
- Quem? - Paulo Renato Viveiros de Sales.
PR!
- Sim? - Sou oficial de justiça.
Trago aqui um pedido de reintegração de posse deste imóvel.
Vocês têm 30 dias para devolver o apartamento ou serão despejados.
Espera aí, meu amigo. Deve estar havendo um mal-entendido.
Pelo contrário, cavalheiros.
Está tudo bem explicado neste documento.
Sugiro que procurem um bom advogado.
Passar bem.
- Caralho! - O Camões. Camões!
- Camões... - Gol de quem?
Não adianta, ele está de porre.
- Nós precisamos falar com ele. - "As armas e os barões assinalados..."
Quando ele começa com essa história de Os Lusíadas, só tem um jeito...
"...Por mares nunca dantes navegados..."
Rapaz, que história...
Os Lusíadas é coisa séria, cara. Que história é essa?
O documento está claro. Estão pedindo o apartamento
para o pagamento da hipoteca, que está em atraso.
Cinco anos de atraso, para ser mais exato.
Deve ter algum engano, Camões. O apartamento não era dela?
Não mais. O apartamento e todos os bens dela foram hipotecados
por causa das dívidas de jogo. A velha era vidrada no pôquer.
- Quer dizer que ela estava quebrada? - E o que podemos fazer?
Se quiser ficar com o apartamento, tem que pagar as dívidas.
Que dão... Empresta esse papel.
Segundo os meus cálculos...
Dá, mais ou menos, isso daqui.
Porra, Camões!
Você colocou zero demais nessa merda.
- É isso mesmo? - Fora meus honorários, é claro.
- Camões, quanto tempo a gente tem? - Um mês.
Mas como a gente vai fazer pra arranjar essa grana toda em um mês?
O anel!
E aí, Salomão? Quanto vale?
- Porra nenhuma. - Nada?
Essa merda é falsa.
É um anel de doce de criança.
Não vale xongas.
Quer ver?
- Safada! - Uma 171.
Quer dizer que eu trepei com ela esse tempo todo à toa?
- Estelionatária sexual. - Não adiantar berrar, reclamar.
Temos que arrumar um jeito de ganhar dinheiro.
Como?
Bem, só existe um jeito.
Eu sinto muito em dizer isso a vocês, meus amigos,
mas nós vamos ter que trabalhar.
Aí é sacanagem.
Trabalhar vai contra os meus princípios.
Mas espero que a gente se lembre da razão pela qual estamos lutando.
Não estamos lutando simplesmente por um apartamento, não.
Estamos lutando pela nossa história!
Proponho um brinde.
- Então, ficou bom? - Irresistível, garoto.
Quando o anúncio sair, vai ficar assim de mulher...
E dinheiro!
As madames vão ficar malucas com esse troço!
Pessoal, estou achando meio constrangedor essa história
de ser "táxi boy" a essa altura do campeonato.
Qual é, PR? Você sempre fez isso.
Vai dar pra trás agora,
quando estamos mais do que nunca precisando dos seus talentos?
- Sem moralismo, né? - Não é questão de moralismo.
É que o que outrora costumava ser um vigoroso obelisco,
hoje jaz em ruínas.
Não tem problema, o "Zorba" está aí pra isso mesmo.
Está bem! E vocês? O que vão fazer para ajudar?
Eu já decidi.
Vou voltar a escrever a coluna de conselhos sentimentais
de Dolores Sol para o jornal.
É uma merda, mas dá dinheiro.
O engraçado é que as pessoas
acham que a Dolores Sol existe mesmo.
Ninguém desconfia que era eu que escrevia aquelas baboseiras.
Tá bom. E você, Juca? O que você vai fazer?
É. O que você vai fazer?
Eu, eu...
Juca, olha aí. Saiu o anúncio.
Maravilha!
Cadê?
"Paulo Renato, quarentão enxuto, queimado de praia,
alto nível, inteligente,
carinhoso, e com um detalhe realmente enlouquecedor.
Venha conferir."
Ficou ótimo, cara. Vai chover mulher.
E olhe aqui...
"Família tradicional procura pessoa responsável
para cuidar de um idoso.
Paga-se bem."
- Isso parece interessante! - Maravilha!
Então, cuidar de velho é a maior moleza, cara.
É só dar umas voltinhas com o sujeito,
ler o jornal para ele, levar para tomar sol no calçadão...
Cara, é o trabalho que pedi a Deus! Maravilha!
E aí, Dolores? Escreveu muito?
Nem uma linha. Nunca pensei que seria tão difícil
escrever aquelas baboseiras sentimentais da Dolores Sol.
Eu acho que perdi a mão.
Também, bebendo desse jeito, acha que consegue?
Não regula. Você sabe que o uísque é minha inspiração.
Olha aí!
Falaram que tem uma velha subindo e te procurando.
Será que já é o anúncio?
Esses anúncios de sacanagem são "batata". Funcionam mesmo.
Porra, vou tomar o "Zorba".
Preciso de 30 minutos para aquecer os motores.
Por favor, atende à velha. Vai entretendo a coroa que eu já volto.
Aqui que mora o Paulo Renato?
Aqui mesmo, minha senhora. Entre, por favor.
Fique à vontade. Só um instante.
Mamãe!
Mamãe, o que a senhora está fazendo aqui?
Não deveria estar no asilo?
- Eu fugi. - Por quê?
Porque estou morrendo.
Porque eu quero passar meus últimos momentos com você.
Mamãe, a senhora está ótima!
A senhora está muito bem! Ela não está bem, pessoal?
Não adianta me enganar, viu?
Eu estou com os dias contados.
Não, mamãe. Não. Claro que não!
A senhora está ótima. Está muito bem, mamãe.
Sente-se aqui, isso. Agora me diga...
O que a senhora tem, mamãe?
Espasmo da glote.
Você sabe o que é espasmo da glote?
A glote fecha...
e não consigo respirar,
começo a sufocar,
entro em convulsão
e morro em poucos segundos.
Quando a glote fechar só tem um jeito.
Enfiar um bisturi na garganta. Aqui.
Eu volto a respirar.
Que é isso, mamãe? Eu não vou esfaquear a senhora.
Você prefere que eu morra sufocada?
Foi pra isso que te criei com tanto carinho e amor?
Que isso, mãezinha?
Querida, eu vou cuidar da senhora.
Vem comigo, vem. A senhora tá ótima, olha!
Sobe, fica lá em cima no meu quarto, mamãe.
Suba as escadas, é aquela porta lá em cima.
Depois eu levo suas coisas lá pra cima, tá bom?
- Ela vai ficar aqui? - De que jeito?
Ela está completamente esclerosada. Cada vez é uma doença nova.
Ela já inventou que teve aneurisma cerebral,
sopro no coração. Até AIDS!
A coitada não transa desde que papai morreu!
Tenham dó, é só por alguns dias.
Quando ela melhorar um pouco, a gente despacha ela para o asilo.
Poxa, pessoal, é minha mãe.
Não posso botar a velha, assim, pra fora desse jeito.
Tá bom.
Mas dê um jeito de esconder aquele bisturi, tá?
Por ali, senhor, por favor.
Como o senhor vai notar, desde que sofreu o derrame,
meu tio está preso a uma cadeira de rodas.
Coitado. Precisamos de alguém para levá-lo para passear,
faça companhia. O senhor acha que dá conta do serviço?
Claro. Claro, madame.
Ótimo. Só tem um pequeno detalhe.
Como qualquer pessoa de idade, o comendador
tem algumas pequenas manias. Nada muito grave.
Espero que o senhor tenha paciência
e saiba atender aos pequenos caprichos dele.
Pode deixar, madame.
Farei tudo que o comendador quiser, sem pestanejar. Estamos aqui para isso.
Ótimo! Muito bom. Eu saberei ser muito generosa com sua dedicação.
Ele está ali.
Comendador?
Comendador, quer dar uma voltinha?
Demorou, mona. Vamos sair deste mausoléu,
que estou louca pra soltar minha franga!
Montanha!
Montanha?
Montanha!
Montanha!
Oi, querido. Que saudade.
Oi, Montanha!
Lembra de mim? Dolores Sol.
No meu quarto, ela está lá! Ela saiu de uma garrafa.
- Quem? - Dolores Sol.
Ela estava aqui. Eu vi. Ela saiu de dentro da garrafa.
É verdade!
Dolores Sol não existe. Você inventou ela.
Dorme um pouco.
Empurre essa merda com vontade, mona.
Você acha que me arrumei toda para ficar aqui derretendo nesse sol?
Meu Deus! Que bofe mais caído que arrumaram para mim.
Você está pior do que eu, hein!
Volta, volta! Volta!
- Vamos atrás daquela coisa linda. - Comendador...
Não me chame mais de comendador. Meu nome aqui fora é Lola Brandão.
Depressa, enrustido, ele está indo embora.
Mas que bundinha!
Eu sei que eu sou bonita e gostosa
E sei que você Me olha e me quer
Eu sou uma fera de pele macia
Cuidado, garoto, eu sou perigosa...
Isso.
Nossa, Juca. Que cara é essa?
Cara, nem me fale. Eu tive um dia de cão.
Tudo que eu quero agora é dormir.
Pra que essa elegância toda?
Bom, está chegando uma cliente. Nossa primeira cliente.
Maravilha! E quanto à velha...
Desculpe. E quanto à encantadora senhora?
Bem, contamos com a sua colaboração.
Mamãe vai dormir no seu quarto.
Por que no meu quarto? Por que não no quarto do Montanha?
Não, senhor. Não divido quarto com nenhum fantasma.
Fantasma?
Deve ser ela. É uma longa história, depois eu explico.
Durma bem, mamãe. Durma com os anjos.
Cuide bem da mamãe, sim?
- Olá. - Olá.
- Você é o Paulo Renato? - Isso mesmo. Pode entrar.
Não tem ninguém aqui?
Não, só estamos nós dois. Pode ficar sossegada.
Como diz no anúncio: "privacidade completa
e satisfação absoluta".
Quer tomar um uísque? Champanhe?
Não, não. Prefiro ir direto ao assunto.
No anúncio diz que você vai fazer tudo que eu desejar.
Todas as suas fantasias mais íntimas, meu anjo.
Com licença. Eu vou tomar um champanhezinho.
Um momentinho. Eu quero dizer uma coisa.
É uma coisa meio diferente, viu?
Você acredita em espiritismo?
Acredita que é possível entrar em contato com pessoas que já partiram...
para outro plano?
- Falar com os mortos? - Falar, não. Trepar.
Deixa eu explicar. Eu sou uma cantora lírica.
E durante 20 anos eu fui parceira do grande tenor Adamastor Fontana.
Em cena e na cama.
Nosso melhor número era Carmen, de Bizet.
Eu era Carmen, ele era o Escamillo.
Ele era um tenor lindo. Possante. Maravilhoso.
E eu nunca consegui superar a sua ausência.
Eu fui a um terreiro e a mãe de santo disse
que eu podia entrar em contato com Adamastor se um outro homem
aceitasse fazer o papel de cavalo.
A madame quer me usar para trepar com o falecido?
Você se importaria?
Prometo pagar regiamente pelos seus serviços.
Está a fim?
É bom para espasmo de glote.
- Jura? - Juro.
De repente uma bitoquinha...
Puxa, puxa...
Manda ver, e agora segura.
Segura, porra! Segura.
É forte, não é? Forte mesmo.
É gostoso. Posso?
Claro, manda ver.
Então, como estou?
Por um momento, pensei que era mesmo o meu Adamastor.
Vocês têm a mesma altura.
Tomara que as outras partes tenham as mesmas medidas.
Tenho certeza que a madame não vai se decepcionar.
Lembre-me, meu doce Escamillo. Venha comigo e deixe
que o espírito de Adamastor flua pelo seu corpo!
Um momentinho, madame.
Um momento. Tenho que fazer uma coisa, mas já volto.
Muito engraçado! Quem foi o sacana que escondeu meu "Zorba?"
Está maluco? O cara está maluco!
Porra, sacanagem! Agora, a mulher está lá em cima em brasas
e eu nessa situação. Deixa de sacanagem, Juca.
Eu não peguei nada, cara.
Você está falando daquela cartela com dois comprimidos?
- Sim. Você viu, mãe? - Eu vi. E tomei.
A senhora tomou meu remédio para...
Achei que era remédio para gases.
- Mãe! O que vou fazer agora? - Deixa comigo!
Deixa comigo. Eu vou preparar um chá que vai deixar o "pico" roxo...
- "animadaço". - Veja lá.
Vem, vem, vem...
Madame, calma. Pra que tanta pressa?
Porque é chegada a hora! Eu sinto a presença de Adamastor
se materializando...
Todo o meu corpo clama pela presença de Adamastor!
Eu estou sentindo... Espera aí!
Não estou sentindo nada. Tem alguma coisa errada aqui!
Vai dar tudo certo, madame. É só uma questão de minutos.
Quer tomar um uísque?
"Uísque" o cacete. Eu quero sexo!
E aí?
Isso, madame.
Pode mandar Adamastor incorporar que esse cavalo está preparado.
Venha, venha que eu vou arrebentar!
Que loucura, Adamastor. Venha, meu Adamastor!
Adamastor, por que você foi embora? Por que você fez isso comigo?
Por que você me deixou?
Por que, Adamastor? Por que você me deixou?
Por que você foi embora?
Seu nojento!
Você estragou tudo!
Meu Deus!
Eu estou morrendo!
Não, mamãe...
- Espasmo da glote... - Mamãe, para com isso!
Não! O que é isso? Socorro!
- Mamãe! Mamãe... - Socorro!
Calma! Não é o que você está pensando.
Fica longe de mim. Você e aquela louca assassina.
- Não, meu anjo. - Não, não...
Espere! Por favor, calma!
Corra!
- Socorro! - Meu bem, eu posso explicar...
Meu anjo, não faz assim.
Bom...
Poxa!
"Obrigadão" pela carona. Você quebrou um galho!
- Estamos aí quando precisar. - Obrigada. Boa viagem.
Obrigado.
- Moça, e a bagagem? - Manda aí.
Aqui.
- Valeu! - Tchau.
Juca ficou desapontado Declarou ao delegado
Não saber se amor é crime Se samba é pecado
Em legítima defesa Batucou assim na mesa
O delegado é bamba Na delegacia
Mas nunca fez samba Nunca viu Maria...
O delegado é bamba Na delegacia...
- Você esqueceu as calças. - Não. É de propósito.
- Você sempre fica de bunda de fora? - É para refrescar as ideias.
Acho que você devia primeiro cozinhar as carnes e depois os legumes.
Não se meta na minha comida!
Se quiser ajudar, corte o alho.
- Não. Alho, não. - Eu não sei cozinhar sem alho.
Alho, não! Alho me dá espasmo da glote.
Alho!
Montanha, você anda bebendo demais.
Isso é uma alucinação.
Dolores Sol não existe!
Eu também tenho meus truques!
- Assim não dá para trabalhar! - Estou atrapalhando?
Porra! O ato de escrever é um ato pessoal muito íntimo, entende?
Requer privacidade.
Não dá pra escrever com uma pessoa olhando às suas costas!
Muito menos com umas coxas lindas dessas na minha frente.
- Eu vim te ajudar. - Quem disse que eu preciso de ajuda?
Meu Montinho...
Que coisa feia. Não seja tão orgulhoso.
Você é, eu sei. Você é um grande escritor.
Nossa! Muito talentoso, mas...
Cá entre nós, há muito tempo que você não consegue escrever nada.
Lembra como você escrevia antigamente?
Você era tão bom. Tão bom...
Você vai mesmo me ajudar?
Sempre que precisar. É só me chamar.
- Sempre? - A qualquer hora, meu anjo.
- Que animação, cara. - E aí, Montanha?
Conseguiu escrever?
Agora, sim.
Graças à ajuda de Dolores.
Caraca! É o joalheiro. E agora?
Eu vou ver, deixa.
É uma garota.
Oi.
Oi.
Com licença, posso falar com o Juca?
Juca, é pra você.
Não tá me reconhecendo?
Tainacã!
Gente, essa é minha filha Tainacã!
- E aí? - "Tainacã".
Isso lá é nome de gente?
O que você veio fazer aqui?
Pois é. Então, pai, vim gravar um CD com minha banda, lá de Brasília.
Queria saber se posso ficar uns dias, nada de mais.
Claro que ela pode, né, pessoal?
Acho que é o porteiro com a minha bagagem.
Paizão!
Que saudade de você!
Não lembrava que você tinha uma filha.
Aliás, você lembrava?
Claro. Eu não sou um pai desnaturado.
Essa menina é um produto, digamos assim,
de uma rápida relação que tive com aquela antropóloga de Brasília.
Eu perdi o contato com ela
depois que ela se mandou pra morar com um cacique no alto Xingu.
De lá pra cá, nunca mais tive notícias nem dela e nem da menina.
Então...
Pelo menos em uma coisa você puxou o papai.
O que foi, pai? Não está feliz por eu ter vindo?
Não. Não é isso. Estou envergonhado.
Você já viveu tanta coisa
e eu jamais soube se você estava bem, se estava mal.
Pior, eu nunca procurei saber.
Desencana, pai. Relaxa, pelo amor de Deus.
Paz e amor.
O importante é que estamos juntos,
e podemos recuperar esse tempo perdido.
Você vai ficar assim, minha filha? Com...
Ih, olha lá. Qual é, paizinho?
Esqueceu? Fui criada no meio de um bando de índios,
lá todo mundo fica nu, peladão.
Não tem essa de ter vergonha do corpo, paizinho.
Tal pai, tal filha.
Mas que merda é essa?
Porra, Juca! Assim não dá para trabalhar!
Calma, calma. Filhinha, pelo amor de Deus!
Meu amor, para com esse barulhinho, não é bom.
A glote!
Chega!
- Para, para! - Pra mim chega!
- Chega, chega! - Manda ela parar!
Pra mim chega! Eu vou embora! Chega, chega!
Porra, logo agora?
Deve ser o serviço de quarto. Eu pedi algumas coisas pra gente.
Eu sou seu serviço de quarto.
Leopoldo?
Piranha!
Achou que podia fugir de mim?
- Onde está seu cúmplice? - Não sei...
- Fala! - Você está me machucando!
- Onde está aquele desgraçado? - Já disse que não sei.
E o dinheiro?
Onde está meu dinheiro?
Também não sei, eu juro!
Achei a grana, patrão.
Eu vou achar aquele desgraçado.
Nem que eu tenha que ir no quinto dos infernos,
mas eu acho aquele desgraçado.
E, quando eu achar,
vou quebrar cada ossinho dele.
Um por um!
Vamos embora.
Está doendo, me larga.
Está me machucando!
O que é, Sr. Lola? Você está meio jururu.
O senhor não quer jogar dominó com os coroas do Posto 6?
Não, não. Quero ir a uma boate.
- Tudo que eu quero é fazer meu show. - Boate, Sr. Lola?
É, eu fui uma grande estrela.
Lola Brandão, la reina de la noche gay.
De dia, eu despachava no Tribunal de Contas da União.
À noite, eu encantava multidões.
O senhor não pode sair à noite. Sua família não vai deixar.
Menos ainda para ir em uma boate.
Juquinha!
Só você pode me ajudar. Só uma noite, Juquinha.
Tenha piedade dessa pobre bicha velha e entrevada!
Vai, me leva.
Não sei, Sr. Lola, vou acabar perdendo meu emprego.
Não seja cagão. Eu saberei te recompensar.
- Eu topo. - Ótimo. Me leva ao salão.
- Salão? - Claro, salão.
Você acha que vou pra boate com essa cara de ralador de coco?
Não, senhora! Lola Brandão tem que aparecer linda e poderosa.
Que é para arrebentar com a concorrência!
Não, meu anjo. Pode ficar sossegada.
Todas as suas fantasias.
Você não vai se arrepender.
Eu estou te aguardando.
Um beijo. Tchau.
- Falando com sua namorada? - Não.
Parecia uma namorada.
Cliente.
Espera aí. Cliente?
Não vá me dizer que você é um coroa de programa.
- Isso mesmo. Qual a graça? - Que coisa mais patética!
É um trabalho como qualquer outro.
"Trabalho"...
Estamos precisando de dinheiro. Seu pai não te contou?
Estão querendo tirar este apartamento da gente.
Se não pagarmos a dívida no banco, vamos para o olho da rua.
E você resolveu se prostituir?
É.
Este apartamento é muito importante. Preciso fazer alguns sacrifícios.
Quanto você cobra?
Mil.
Nossa!
Se eu te pagar, você transa comigo também?
O que é isso, menina? Claro que não.
- Por que não? Eu pago. - Nem pensar.
Você não precisa de dinheiro?
Esquece!
O que foi?
Meu dinheiro vale menos do que das suas clientes? É isso?
- Você é filha do Juca. - E daí?
Juca é meu melhor amigo.
É como se você fosse minha própria filha.
Meu Deus! Que papo mais careta! Não sou sua filha.
Sou uma mulher. Você é um homem. Qual é o problema?
Além do mais, tenho a grana. Posso pagar.
Menina, não quero seu dinheiro. Não insista.
Meu Deus do céu!
Então, quer dizer que de graça você transa comigo?
Tainacã, você é uma mulher maravilhosa.
Mas, por favor, o Juca é meu melhor amigo.
Não vamos fazer uma besteira.
Com licença.
Dolores! Dolores!
Dolores! Dolores!
Dolores! Dolores...
Chamou, querido?
Você está deslumbrante!
Seu bobo. Eu apareço do jeito que você desejar.
Não esqueça que sou apenas fruto da sua imaginação.
- Então, vamos trabalhar? - Calma!
Pra que a pressa?
Não quer tomar um champanhe?
Montinho, seu safadinho.
Achei que você estivesse precisando da minha ajuda. Não?
Estou. Estou e muito.
Para escrever, seu bobo.
Dolores, você só pensa em trabalho.
Há quanto tempo a gente não se vê?
Eu queria matar a saudade.
Meu amor, você sabe que isso não vai dar certo.
Qual é o problema de unir o útil ao agradável?
Me dá um beijinho.
Não! Dolores, não.
Não faz isso comigo.
Dolores, volte! Volte, amor!
Volta!
Dolores! Dolores!
Dolores, não faz isso comigo. Para com essa brincadeira, Dolores!
Dolores, para com essa brincadeira! Não faz isso comigo, Dolores!
Que diabos, Dolores. Desce daí, já!
Só se você parar de se comportar como um adolescente.
Tá bem. Droga!
Melhor assim. Podemos começar?
Qual a graça de escrever se não posso nem me divertir um pouco?
Ora, Montanha, querido, tudo ao seu tempo.
Tá bem...
- Vamos entrar num acordo? - Que acordo?
Vou voltar a ser escritor, vou me dedicar à tarefa.
Eu vou ser um grande escritor. Mas, depois,
quero uma recompensa pelo meu esforço.
E você sabe ao que estou me referindo, não é?
Pensei que sua recompensa fosse voltar a escrever. Não?
Nem pensar!
Então, estamos de acordo?
Tá bem.
Mas acho que você vai se decepcionar.
O que a bebida faz com um homem.
Desmancha esse bico, darling!
Olha, eu aposto que dentro dessa abóbora aí,
tem uma Cinderela louca pra desabrochar.
Vai ver, eu vou ser sua fada madrinha gay.
O que é isso, Sr. Lola?
Eu sou "espada", não sou "bainha"!
Cruzes!
Chazinho.
Que gentileza toda é essa?
Gentileza, não, mamãe.
Eu sei que a senhora gosta de tomar um chazinho quentinho de tardezinha.
Isso, toma tudo, toma.
Bom, muito bom.
Estava bom?
Uma delícia!
Obrigado, meu filho...
- O que aconteceu? - Nada.
Mamãe gosta de tirar uma soneca depois de tomar um chazinho de tardezinha.
Tá bom, eu nasci ontem. O que tinha nesse chá?
Nada!
Não acredito! Você dopou a própria mãe!
É para o bem dela. Ela fica nervosa quando tenho clientes.
Cínico!
Desta vez ela não vai me atrapalhar. Pega as pernas dela, vai lá.
Vamos, pega ali!
Ajuda aí. Pega aí nas pernas. Isso!
- Espera, está caindo. - Cuidado, cuidado com as pernas dela.
Esse é divino, olha só! Esse é "divinérrimo"!
Gente, é tanta coisa linda que nem sei por onde começar.
Juquinha, será que você pode vestir para eu ver como fica?
Não, Sr. Lola. Aí já é humilhação demais.
Como você quer que eu escolha?
Presa nessa cadeira, fica tudo tão difícil.
Tenha dó de mim, meu querido.
Além disso, vestimos o mesmo número.
Experimente, vai. Faça esse favorzinho pra sua Lola?
Tá bom. Me dá, vai.
É esse, amei!
Você pode dizer que sou sua assistente.
De repente, ela topa uma transa a três.
Ora, querida, deixa de besteira. Isso é uma coisa séria.
Some daqui, vai. Some.
Boa noite. Paulo Renato, ao seu dispor.
Nada mal.
Você faz tudo?
Todas as suas fantasias. Meu lema é:
ou sua satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.
Excelente.
- Podemos ir? - Sim, claro.
Por aqui.
Então, meu amor, quais são as suas fantasias?
Dor.
Minha fantasia é causar muita dor.
Herly, acorda!
Velha! Filho da puta!
- Espere! Está machucando. - Você disse que fazia tudo.
Sim, mas tudo tem seus limites, não é?
Se não realizar minha fantasia, eu não te pago!
Tá bem. A cliente tem sempre razão.
De quatro! Anda!
Está com sorte, escravo.
Não é qualquer um que cai nas graças da grande sacerdotisa de Tânatos!
De quem?
Eu sou a grande sacerdotisa da ordem mística de Tânatos!
Irmão perverso de Eros, mestre supremo da dor e do prazer!
O que é isso?
Porra! Desse jeito não consigo me concentrar!
Desisto!
Não, o que é isso? Querida, meu anjo, vamos tentar de novo.
Vem aqui, meu bem. Jogue nas costas.
Você me fez perder tempo, escravo incompetente!
Olha aqui...
As algemas! Deixe pelo menos as chaves.
Você esqueceu as algemas. Aqui, olha! Querida...
Deixa as chaves! Deixa...
- Porra, Tainacã! - Desculpa!
Só achei que um pouco de música fosse animar sua transa.
Por sua causa, perdi mais uma cliente.
Se o problema é esse,
posso compensar o prejuízo que te causei.
Eu não quero nada com você, garota. Não insista.
Tem certeza?
Então?
Está ótimo!
Muito bom mesmo, meu amor.
Você escreve muito bem mesmo.
- É só querer. - Eu fiz a minha parte.
Agora é a sua vez.
Dolores, para com essa brincadeira.
Bobinho! Esqueceu que eu não sou real, né?
Isso não é justo.
Veja o lado bom, meu amor.
Pelo menos, você voltou a escrever.
Eu queria você.
A gente não pode ter tudo o que deseja, Montanha.
Merda!
- Bom dia, meninos! - Bom dia, mamãe.
Nossa, que caras. Dormiram bem?
- Não. - Não.
Pois eu dormi maravilhosamente bem.
Isso é estranho, não é? Porque sempre durmo péssimo
com medo de morrer no meio do sono.
Esta noite eu até sonhei com seu pai. Engraçado, não é?
Acordei tão animada!
Tudo bem, Montanha?
Dolores Sol está me deixando louco.
Continua com essa história? Dolores Sol não existe.
- Isso é invenção sua. - Eu sei.
Mas não consigo tirar ela da minha cabeça.
Procura um psiquiatra. Você não está bom da cabeça.
Polícia! Todo mundo no chão, cambada de vagabundos!
Você, mãos na parede! Mãos na parede, "bora"!
Abra as pernas, vamos. Aqui, cadê?
- Olha, espere aí! - Não reage à autoridade, minha filha.
A Polícia Federal está de olho neste apartamento.
Agora eu sou um guarda bom. Se você for boazinha comigo,
nós podemos dançar uma valsa...
Vavá, filho da puta!
- Pega ele! - Me solta!
- Toma isso, seu desgraçado! - Desgraçado!
Você sai fora. Isso é conversa de gente grande. Sai.
- Cadê a grana, desgraçado? - Desembucha! Vamos, desembucha!
Espere aí, vou falar.
Olha, realmente...
Não posso negar, pisei na bola com vocês, isso aí.
Mas a maior vítima dessa história, sou eu. Foi essa mulher. Ela...
Ela me usou. Ela me seduziu.
Foi ela que me convenceu a enganar vocês.
Depois o quê? Ela deu um pé na minha bunda e fugiu com o dinheiro.
Como um malandro como você seria enganado por uma mulher?
Não, sai fora!
Espera. Estou falando a verdade.
Estava apaixonado por ela. Não sabem disso?
Homem apaixonado, rapaz, é um homem burro, que fica duro.
- Ela fugiu com todo o meu dinheiro. - Nosso dinheiro!
Não. Dinheiro esquece, isso já foi.
O problema agora é salvar nosso pescoço.
Porque Leopoldo...
Leopoldo está atrás de todo mundo.
Leopoldo me descobriu, não sei como.
Leopoldo...
é mafioso. Ele não quer o dinheiro dele de volta.
Leopoldo quer matar todo mundo. Ele falou: "Vou matar".
E, se o Leopoldo me descobriu,
ele pode descobrir este apartamento.
- A gente tá fodido. - Calma.
Calma, por isso que voltei.
Mesmo sabendo que iria enfrentar a ira de vocês, voltei.
Porque, meus amigos, eu tenho um plano
que é a solução dos nossos problemas.
Um plano maravilhoso que vai resolver todos os nossos problemas.
Plano?
O que vocês acham?
Não sei. Pode ser o jeito de conseguirmos pagar o apartamento.
Tá, vai lá. Diz aí, que plano é esse?
"Ai" de você
se tentar nos enganar outra vez.
Dolores?
Dolores! Dolores...
Não posso agora.
Ué. Você não disse que viria sempre que eu chamasse?
Só que agora estou ocupada. Não dá pra esperar?
Montanha!
Coisa feia, Montanha.
Se eu não posso tocar, deixa pelo menos eu olhar.
Sinceramente, acho que precisamos reavaliar nosso relacionamento.
Por que mulher tem mania de ficar discutindo a relação?
Porque você está confundindo as coisas.
Eu vim te ajudar a escrever, mas você só pensa em sacanagem.
Montanha, me empresta uma toalha?
Porra, Vavá! Não sabe bater na porta?
- Quem é esse amigo tão simpático? - Esse cafajeste? Nem pensar!
Que isso? Tá falando com quem, rapaz? Tá falando comigo? Me magoou.
Porra, Dolores. Para com isso! Não estou gostando dessa história.
Quem é Dolores? O que é isso? Você está bebendo de manhã?
Isso é delirium tremens. Para com isso.
- Pega a toalha e some daqui! - Pare de beber...
Porra, Dolores!
Não dá pra você ficar flertando com qualquer vagabundo que aparece.
Você é parte da minha imaginação. Só minha.
Montanha, querido, o que sinto por você é uma admiração profissional.
Já aquela coisa fofa...
Ele foi tomar banho, não foi? Vou dar uma espiada.
- Mas ele nem pode te ver. - Mas eu posso vê-lo.
Melhor ainda, porque tiro uma "casquinha" e ele não percebe.
Eu te proíbo. Volte imediatamente para a garrafa!
Montanha, você não aprende.
- Que isso? - Acabou a brincadeira!
- Que brincadeira? - Chega! Fora!
Que isso? Por que está nervoso assim, Montanha?
- O que está acontecendo? - Chato! Como você é tão chato!
- Onde você está indo? - Ué, vou embora!
Você não deixa nem eu me divertir um pouco, não vou ficar. Tchau!
Pelo amor de Deus! Não vá!
Você quer que eu vá? Que eu fique?
Eu não estou falando com você! E fique longe da Dolores.
Se eu te pegar se engraçando com ela,
eu te mato, entendeu? Eu te mato!
Tá maluco, Montanha? O que você está bebendo ultimamente?
Rapaz, para de se drogar.
Oi, Laura. Entra aí.
Laura, meu amor, você não imagina a saudade que senti de você.
O que é isso? Não há necessidade disso, meu amor.
"Meu amor" é o cacete. Você fugiu e me deixou pagar o pato sozinha!
Olha o que fizeram comigo. Meu marido me bateu a viagem inteira.
Laura, o importante é que você conseguiu escapar.
Não. O importante é que eu vou te entregar.
- Só assim ele vai me perdoar. - Não faça isso.
Tenho coisas para te dizer, Laura.
Coisas que vão mudar... Olha pra mim.
Você não vai acreditar, mas eu amo você.
Que isso? Seu cafajeste, eu vou te matar!
Socorro! Socorro!
Eu vou te matar, seu cafajeste.
Te peguei.
Entra aí!
Você vai entender agora.
Eu amo você, Laura. Amo...
- Seu filho da puta! - Você vai entender.
Dolores, para com isso. Eu falei por falar.
Volte para mim, volta!
Você veio me ver?
O que é isso?
Além de roubar meu dinheiro, quer roubar minha mulher?
Que mulher, rapaz? Está maluco?
Eu estou maluco, muito maluco. Eu vou acabar com você.
Deixa eu falar uma coisa pra você.
Honestamente? Quer saber? Realmente aconteceu, cara.
Eu e essa mulher maravilhosa, nós...
Eu e essa mulher maravilhosa estamos tendo um negócio...
Eu vou acabar com você!
Montanha, não vou aparecer nunca mais pra você.
Nem em garrafa, em lugar nenhum!
Montanha, que papel ridículo!
Você não tem mais idade pra isso.
Montanha! Um...
Montanha, dois...
Montanha, três!
Montanha!
E você, não se meta!
Montanha!
Montanha, não vou aparecer nunca mais pra você.
Quanto eu devo, amigo?
Aquele cavalheiro ali já se ofereceu para pagar sua bebida.
Não existe pecado Do lado de baixo do Equador
Vamos fazer um pecado rasgado Suado, a todo vapor...
Quer dançar?
O amigo tem uma banana no bolso
ou tudo isso é só admiração por mim?
Relaxa, baby.
Já está na hora de você tirar esse dragão de dentro do armário.
...Deixa a tristeza pra lá Vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru Tucupi, tacacá
Vê se me usa Me abusa, lambuza
Que a tua cafuza Não pode esperar...
Aposto que dentro dessas calças tem uma surucucu adormecida,
esperando para fazer a próxima refeição.
Eu sou conhecido na night como "encantador de serpentes".
É só soprar a flauta para sua jiboia sair do cesto.
Chazinho!
Não quero.
A última vez que tomei chá, dormi o dia inteiro.
Imagina se eu tivesse tido um ataque.
Ia morrer dormindo. Não quero chá desta vez.
Seu maluco, você vai dopar sua mãe de novo?
- Vai matar a velha. - Não se mete.
Estou esperando uma cliente
e desta vez ninguém vai me atrapalhar.
Que brincadeira é essa? Espera aí.
- O que fizeram com você? - Solta meus pés!
Eu vou matar aquele cara. Eu vou matar aquele desgraçado.
Por favor, desamarra aqui. Eu vou matar aquele babaca.
- Vavá! Vou te pegar! - Moça, espera!
Calma, calma! Você está muito nervosa.
- Quer um chazinho? - Que chazinho?
- Vai ajudar a relaxar. - Vou pegar o sacana de qualquer jeito.
- Toma o chazinho. - Fugiu, o filho da mãe.
Isso. Pronto.
Aqui é o apartamento do Paulo Renato?
Vim por causa do anúncio.
É aqui, sim. Mas é que o patrão está muito ocupado!
A senhora vai ter que esperar na fila.
O quê?
Fila pra previdência,
fila para o hospital, fila para o banco...
E agora, fila para trepar?
Mas nem pensar!
- Porra, o que você fez? - Eu?
Eu não fiz nada.
E ai, você tomou o "Zorba"?
- O que você acha? - Um desperdício, não é?
Pelo amor de Deus, Tainacã. Para com isso!
Leva muito tempo pra fazer efeito?
Você está brincando com fogo!
O que você pretende fazer? Vai fugir de novo?
Não quero causar uma tremenda confusão com seu pai.
Ele não precisa saber.
É assim que você pretende me conquistar?
Saindo no tapa igual moleque de rua?
- Vocês, homens, não amadurecem. - É...
Mas eu venci. Agora, você é só minha.
Montanha, o que eu faço com você?
Tenho algumas ideias interessantes que a gente podia experimentar.
Você está confundindo tudo, Montanha.
Eu vim para estimular sua mente, não outra parte do seu corpo.
Como diz o ditado: "Mente sã em corpo são".
Vem, vamos, Dolores. Vem fazer um chameguinho, vem.
Chega, Montanha. Acabou.
- Eu vou embora. - Espera, Dolores!
- Você não pode me abandonar. - Vai ser melhor assim.
- Mas eu te amo. - Que lindo, Montanha.
Mas você está esquecendo uma coisa.
Eu não existo.
Isso é um mero detalhe.
- Adeus, Montanha. - Não vá!
Montanha...
promete que vai continuar escrevendo?
Eu prometo.
Epa, epa! O que é isso, cara?
Está pensando em fugir, é?
Dolores...
Dolores, volta.
Volta para mim, Dolores!
- Para... - O que é isso, Tainacã?
Não, Tainacã. Não.
Como você é linda, Tainacã.
Juca, tentei resistir, mas não foi possível.
Pai, vamos conversar?
Mais uma proeza do grande conquistador.
Comer a filha do melhor amigo debaixo do nariz dele!
Você deve estar orgulhoso!
É mais uma trepada para se exibir para os seus amigos,
contando os detalhes mais sórdidos.
Que detalhes você vai contar sobre Tainacã, seu escroto?
- Espera... - Ela foi embora.
Dolores me abandonou.
E a culpa é sua, desgraçado! Vou acabar contigo!
- Espera, Montanha! - Vou acabar com você!
- Segura ele! Seu corno maluco! - Eu te mato, desgraçado!
Você está inventando, pelo amor de Deus!
- Eu te mato! - Segura ele.
Vavá, seu desgraçado! Eu te mato!
Eu vou te matar!
Não abre! É o Leopoldo!
Glote...
- Oficial de justiça. - E o que você deseja?
Acabar com essa bagunça. E aqui está.
A ordem de um juiz despejando vocês desse apartamento.
Espera aí, companheiro. Não dá pra você quebrar um galho?
Companheiro, quem quebra galho é macaco gordo.
Rapazes, em frente.
Tudo pra rua.
É foi assim que perdemos nosso querido apartamento.
Mas, malandro que é malandro, perde o teto, mas não perde a pose.
Se era para ficar ao relento, que fosse em grande estilo.
Com todo conforto.
Estamos aqui, no bairro de Copacabana,
onde está acontecendo uma coisa insólita.
A exemplo de tantas pessoas que moram nas ruas,
um grupo de amigos, moradores deste prédio,
ao serem despejados, resolveram instalar o seu apartamento aqui,
no meio da calçada, causando a maior confusão no bairro
e polêmica entre vizinhos.
Da noite para o dia, viramos personalidade.
Aparecemos na TV em horário nobre e cadeia nacional.
Mas a fama acabou nos trazendo alguns problemas.
Eu conheço esses malandros.
O que o senhor acha dessa situação?
Isso é um protesto legítimo contra a trágica situação
que se encontram muitos dos brasileiros deste país.
Totalmente abandonados pelas autoridades e pelo sistema.
E nós, do movimento dos sem-teto de Copacabana e arredores,
apoiamos integralmente a luta
desses bravos companheiros.
O que é isso?
Por mim, eu mandava a polícia colocar esse barraco abaixo.
Jogava esses vagabundos na cadeia e acabava com essa bandalha rapidinho.
É isso mesmo! Qual é?
Vamos.
Aqui é o 5-1-0. Estamos na cola do suspeito.
Ok, 3-0-1. Mantenha distância da viatura...
Gente, o Leopoldo!
De repente, foi aquele sururu. Parecia que estava tudo perdido.
Como diria o Juca: "Fodeu".
Meu amor, que bom que você veio.
Esses loucos me sequestraram e me deixaram presa com eles.
- Graças a Deus você veio me salvar. - Sr. Leopoldo.
Eu sou o delegado da divisão de narcotráfico da Polícia Federal.
O senhor está preso sob acusação de tráfico internacional de drogas.
Um dia, eu ainda pego vocês!
E aí, os bravos e honrados homens da lei, mais uma vez,
deram provas de que o crime não compensa.
Como é bom viver num país onde a justiça triunfa
e os safados são punidos.
Missão cumprida. Levando o acusado.
Foi assim que tudo terminou. Leopoldo foi preso.
Já nós, pobres mortais, tivemos que trabalhar.
Afinal, alguém tinha que pagar as contas.
Como sempre, sobrou pra mim resolver a situação. Eu, sempre eu.
Mas, desta vez, eu bolei um plano infalível.
Não tem erro. Agora, vai dar tudo certo.
Preciso que todas estejam com uma cueca em mãos.
Todas serão atendidas.
Manda entrar as outras.
Senhoras, podem seguir em frente, por favor.
Isso, senhora. Ali, no cantinho.
Não esqueçam da cueca sempre nas mãos.
- Está aqui. - Senhora pode sentar ali.
Aguardem só um minutinho,
que o pai de santo vai chegar. As senhoras não vão se arrepender.
Preto velho que voltar...
Ele era velhinho, mas ainda dava no coro.
Olha se dava!
Este falecido...
Onde está a cueca? Me dá a cueca.
Preto velho está cansado...
Tenho medo do santo me pegar, cara.
Está com medo de exagerar, né?
Se o Parreira me chama...
Em todas as cenas, minha atuação é baseada em segurar a barriga.
As algemas! Você esqueceu as algemas. Aqui, olha!
Querida. As algemas!
Vira. Vira pra cá, isso aí.
Ele faz de um jeito...
Fica dando uma tremida.
Olha o que fizeram comigo. Meu marido me bateu...
- Olha, não me faz rir agora. - Silêncio. Vamos lá!
Making of!
- Não sei se isso aqui é bom. - Não, faça uma coisa natural.
Muito bem...
"Socorro! Socorro!".
Sai, bate na porta e lá fora você grita: "Polícia".
- Socorro! - Eu posso explicar...
- Não é o que você está... - Polícia!
Carvana, olha o que você está me obrigando a fazer.
Corta!
Bota a bunda um pouco para trás.
Fiquei irresistível!
Não sai.
Não vai.
Que história é essa? Essa água toda!
Porra! Cacete!
Corta!
Pode ir, atenção.
- E aí a gente vira? - ...assim, um pouco.
- Levanta um pouco. - A virada.
Cara, como trepa nessa cama d'água?
Piranha, pensou que podia fugir de mim?
- Vamos lá... - Tinha desistido, não é?
Não precisa mais do dinheiro, então pra quem vai o dinheiro?
Bota no bolso!
Acabou! Obrigado!
Vê se me usa Me abusa, lambuza
Que a tua cafuza Não pode esperar
Deixa a tristeza pra lá Vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru Tucupi, tacacá
Vê se me esgota, me bota na mesa
Que a tua holandesa Não pode esperar...
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