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Os anjos da cidade informam problemas agora na Avenida dos Bandeirantes, na
altura da Ponte Ari Torres, no sentido da Imigrantes. Como rota alternativa,
vire à direita na Avenida Nova Independência e acesse à esquerda o
avenidas Padre Antônio José dos Santos e Vieira de Moraes, no sentido do
aeroporto. Problemas também na Avenida Paulista, na altura da Praça Oswaldo
Cruz, no sentido da Consolação. O motorista que tem incomodice no centro
tentar outro caminho.
Vamos acionar agora a nossa equipe de reportagem. Boa tarde, repórter Sheila
Magalhães. Equipes de reportagem já postos, espalhadas pelas principais
rodovias, levando paulistano ao interior ou ao litoral pelo melhor caminho, no
melhor horário. A maior...
Heitor?
Heitor, eu tô aqui, Heitor.
Heitor?
Eu tô aqui.
Heitor. Tecno.
Tecno, qual o problema, Heitor?
Fumaça, cheiro de cigarro, gente gritando coisa chata no ouvido da gente,
gente não consegue entender, o que nesse caso é até uma boa, né? Agora vem cá,
você quer por ordem de cômodo ou por ordem alfabética?
Eu só tava com vontade de dançar.
Então por que a gente não aluga uma britadeira e a gente dança aqui em casa
mesmo?
Ah, legal, assim eu posso levar todo mundo pra ir enquanto você escreve seu
livro.
Todo mundo quem?
Você quer por ordem de amizade ou por ordem alfabética?
Olha aqui, você podia ter me convidado pra sair com vocês.
Te convidado, Heitor?
A gente nunca falou ao telefone, você disse que tava cansado, além de ter que
acordar cedo pra ir pra universidade.
Você tá trabalhando muito, tá tenso, e além disso, você detesta dançar.
Olha aqui, eu não tô tenso.
Eu não tô tenso, eu tô concentrado, tá certo? Tá, eu tô acabando meu livro,
tenho que dar aula todo dia de manhã. Mas isso não significa que eu não posso
sair com você num lugar chato que eu não gosto. Que você não gosta, exatamente.
Mas justamente por isso que eu não... Olha, Heitor, assim não dá.
Sei lá, talvez a gente... Eu acho que a gente devia terminar agora, sabia?
Eu já nem sei se te amo mais.
Como é que é?
Acho que a gente devia dar um tempo.
Não sei.
Existe outra pessoa?
Não! Não existe!
É o Tiago, não é?
Ótima ideia.
Vou ligar pra ele agora. Aliás, já devia ter feito isso há muito tempo.
Heitor? Heitor?
Heitor?
Morre agora, Heitor.
Ação. Péssima escolha de palavras.
Não tinha que ficar provocando.
Ficar falando de outra pessoa. Ainda mais o Thiago. Tem que ter 50 % de
juventude a mais. Parece que ele tem vontade de sair a noite pra dançar.
Mas... Pensar que hoje eu escrevi um capítulo de amor.
As palavras pareciam tão dóceis de manhã.
Palavra. Objeto selvagem.
Para matar a palavra errada, sou mesmo um abraço.
E a gente não diz nada.
Volta a garoar aqui na região da Paulista e o tráfego está lento em toda
extensão no sentido Consolação e também no sentido Paraíso da Avenida Paulista,
ruim e pior da Doutora Arnaldo até a Alameda Campinas. Uma pessoa foi
na altura do número 3 .400 no sentido centro. A parte da esquerda está
interditada e o trânsito ruim em toda a extensão dos 3 ,2 km.
Minha jovem veterinária.
Você cuida dos bichinhos com tanto carinho.
Pra você a vida é um dom fácil.
Só quero chegar aí.
Após a briga, o macho acuado em sua toca corre desesperado em direção à fêmea
veterinária.
Há três anos eles estão juntos.
E durante a briga...
Coisas que não se devem dizer num relacionamento foram ditas.
Para reparar seu grave erro, o macho veloz acelera com todas as suas forças
direção à toca da fêmea para tentar uma reaproximação e, quem sabe, garantir num
futuro próximo a perpetuação da espécie.
Ou, pelo menos, de outra espécie de relacionamento.
Desta vez baseado no profundo amor que o macho arrependido e diante da
possibilidade da perda tem certeza que sente pela fêmea.
Será que a Júlia está em casa?
Que trânsito, isso não anda.
Deus me deu um amor no tempo de madureza, quando os frutos ou não são
ou sabem a verme.
Deus, ou foi talvez o diabo, deu -me esse amor maduro, e a um e a outro
agradeço, pois que tem um amor.
E conheci Júlia. Ió!
Ió, bacantes!
Ió, bacas!
Ió!
Ovinho!
Eu te amo.
O prédio é para os mortais.
Nós vamos estar juntos.
Venha, venha na alegria.
Venha, venha.
É impossível ser feliz sozinho.
É impossível ser feliz sozinho.
É impossível ser feliz sozinho
Ô, professor.
Que prazer.
Tudo bem?
Tudo bom? Bom ver você. Já tá indo embora? Que isso? Mas não vai ver a
parte do espetáculo? Não, não. Vou te apresentar uns garotos aqui.
São todos meus ex -alunos do curso de teatro lá no Galpão.
Paulo, Catarina, Carlos, Thiago, Júlia. Esse é o professor Heitor Férez.
Professor de literatura e um grande escritor, hein?
É, um grande escritor, sim.
A Júlia foi a nossa melhor desdêmona.
Foi asfixiada 257 vezes antes de nos trocar pela veterinária.
Acabou de entrar na faculdade.
Ela preferiu cuidar de bicho em vez de ser estimulada diariamente por homens
ciumentos. Eu vou incontinente afogar -me.
Se assim o fizer, jamais lhe terei afeto depois disso.
Ora você, cavaleiro tolo.
Chega, criança, chega.
Vocês sabem muito bem como é que termina essa tragédia.
Não, não, não.
Não me sinto feliz, mas posso distrair aquela que sou, fingindo ser outra.
Te peguei, gatinho.
Que nível é esse?
Eu estava na prateleira de poesia antes de te ver.
O que é?
Manuel Bandeira é seu predileto?
Meu predileto.
E qual é o seu predileto?
Ah, meu amor, você sabe.
Será que sou eu?
Manuel Bandeira.
Manuel Bandeira é o meu predileto.
Foi isso que eu disse, Heitor.
Você disse isso, mas ainda não adivinhou.
João Cabral de Melo Leto? Não.
Gregório de Matos?
Nina, a horta não é sopa. Isso aqui é culinária. Está na prateleira errada.
Shakespeare?
Platão.
Ionesco? Platão.
Pitágoras?
Platão. Tuxi.
Te amo.
Carlos de Mandeirante.
Tenho um poema de amor pra você.
Liguei.
Peraí, pera só.
Tá de meia.
Já? Já?
Só.
Só?
Já pra lá, vai. Não, não, não. Se você me deixar aqui sozinho...
O que é isso? Vou ficar uns que eu tô sem dono.
Eu preciso de alguém pra dividir essa solidão.
Mas a solidão é assim mesmo. A gente não tem ninguém pra contar que tá sozinho.
Como é que é?
A solidão é assim mesmo. A gente não tem ninguém pra contar que tá sozinho.
Agora você tá fria?
Uhum.
Vamos dançar?
Vem dançar, vai.
Não sei dançar.
Nem silêncio?
Que timidez.
Não é timidez, eu só não quero te pisotear.
Você sabia que os hipopótamos embaixo d 'água transformam todo o seu peso em
leveza?
Cavalgando docemente por entre a vida submersa numa espécie de dança
Mas só que eles fazem isso embaixo d 'água, não em cima, pra todo mundo ver,
Todo mundo quem?
Eu, meu príncipe tímido?
Olha que eu te dou um beijo e você vira um sapo.
Só se for um sapo tímido.
Tímido?
Com sua monótona melodia, o safado sapo verde dos trópicos tenta atrair a fêmea
para seu entorno. Como as monótonas cantadas do seu amiguinho Tiago?
Por instante, ela hesita diante da ladainha do macho e considera
cuidadosamente ser a escolha adequada para a transmissão do seu patrimônio
genético.
Já o castor tem predileção à vida em família.
Sem escapadas ocasionais, ele constrói sua moradia com aposentos funcionários
para o convívio doméstico.
Posso dizer que esta compromissada espécie é dotada de profunda consciência
social, melhorando o meio ambiente onde vive através de seu trabalho.
Ao contrário da raça humana.
Dos numerosos bandos que povoam as quentes planícies e regiões tropicais, o
heitor. Heitor Sferes, também chamado de querido, é sem dúvida a espécie mais
peculiar graças a sua inabilidade para danças sociais.
Animal doméstico, adaptado funcionalmente aos hábitos íntimos, o
maior parte de sua vida escrevendo, só se dirigindo para a toca da fêmea na
época do acasalamento.
Excelente andarilho, este espécime é adotado de pés tamanho 42, grandes e
possantes, que funcionam como leme para pisar no acelerador do carro, apesar da
pouca resistência que apresentam para o solo agreste do chão da casa.
Outro traço típico são os dois dedos das mãos unidos em torno da caneta ou
pousados no teclado do computador.
Características físicas que o habilitam a mergulhar com facilidade no
pensamento, para pescar ideias com grande desenvoltura.
Preocupados com a sorte do Heitor, amigos e naturalistas de todo o mundo
lutando contra sua extinção com sucesso, transferindo o Heitor para a toca da
fêmea veterinária, local onde um espécime relativamente frágil se sente
especialmente protegido.
Pois que tenha um amor, volto aos mitos pretéritos e outros acrescento aos que o
amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso e talhado em penumbra sou e não
sou.
Mas sou.
Mas sou cada vez mais.
Eu que não me sabia e cansado de mim, julgava que era o mundo um vácuo
atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs que não vivi jamais, pois jamais me
sorriram.
Um presente mágico para você.
Gostou?
Quer as tampinhas de casamento? Não.
Eu passaria o resto da minha vida com você, sabia?
Dizem que a vida é curta, Heitor.
Que tal uns 30 anos?
Heitor. 10.
Será que a gente vai se ver no mês que vem? Claro, Heitor.
Quer jantar comigo hoje à noite?
Olha a vista, é tão lindo aqui.
Deus me deu um amor no tempo de madureza.
Quando os frutos ou não estão colhidos, ou está bem a vermo.
Deus, ou foi talvez o diabo, deu -me esse amor maduro.
E a um e a outro agradeço, pois que tem amor.
Será que dá?
Será que eu pego esse farol?
Três carros na minha frente, o farol vai fechar de novo.
Anda!
A equação não é tão difícil.
Se pelo menos dois andassem e o terceiro avançasse um pouquinho, eu conseguiria
passar o amarelo.
Será que eu estou pedindo muito?
Dois carros num país que tem 35 .099 .960 condutores?
Eu engarrafado aqui, a 760 metros de altitude, a 1 .015 quilômetros de
na maior cidade da América Latina, segunda em população somente após a
México. O maior centro financeiro, a maior rede de metrô do país.
O maior número de veículos, telefones, rádios, emissoras de televisão, hotéis,
animais de estimação, pessoas estressadas, casais de namorados se
70 % dos quais tentando resolver por telefone, evidentemente sem sucesso, 29
aceitando a separação, 1 % indo em direção às suas namoradas, tentando
a situação contra todas as estatísticas.
O coração é um órgão côncavo e muscular que no adulto pode ser comparado ao
tamanho de sua mão fechada. O coração é também um músculo muito resistente que
tem suas próprias razões. Na fibrilação ventricular, os ventrículos estão em
intensa, descontrolada e desorganizada atividade elétrica.
Quando saia de casa, percebeu que a chuva soletrava uma palavra sem nexo na
pedra da calçada.
Não percebeu que percebia que a chuva que chovia não chovia na rua por onde
andava.
Era a chuva que trazia de dentro da sua casa.
Era a chuva que molhava o seu silêncio molhado na pedra que carregava.
Um silêncio feito mina, explosivo, sem palavra.
Quase um fio de conversa no seu nexo de rotina em cada esquina que dobrava.
Fora de casa.
Seco na calçada.
Percebeu que percebia, no auge da sua raiva, que a chuva não
mais chovia nas águas que imaginava.
Não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não,
não, não, não, não, não, não, não, não,
não,
não.
Não, não, não. Obrigado. Não, não, não. Obrigado.
Eu
acho
que a gente devia terminar agora, sabia?
Eu já nem sei se te amo mais.
Como é que é?
Existe outra pessoa?
Não! Não existe.
É o Thiago, não é? Ótima ideia.
Vou ligar pra ele agora, aliás.
Tchau.
Mulher, pronta?
Tô indo.
Bora pro teatro.
Peraí, Thiago.
Bem, Desdêmona, tenho só uma hora de amor, de sentido e significância
para contigo ficar.
Devemos obedecer ao tempo. Para de falar assim, Tiago. O que devo fazer?
Confesso que me é vergonhoso encontrar -me tão apaixonado.
Mas não está dentro da minha capacidade retificar tal sentimento. Não está
dentro da minha capacidade uma ova.
Chega, Tiago.
Aquele que foi roubado, quando sorri, furta o ladrão.
E rouba a si mesmo, que não se consome em mago inútil.
Tudo que eu queria era me apaixonar.
Que pode uma criatura, se não entre criaturas, amar?
Amar e esquecer.
Amar e mal amar.
Amar, desamar, amar.
Sempre.
E até de olhos vidrados.
Amar.
Eu vi as venérias as veneratas bacantes
dando leite branco que as recém -palidas vertilam das
tetas cheias.
E aí, esse Deus desconhecido
Jorra uma fonte de vinho.
Elas se empapuçam.
Elas dão sinal com bastão para começar a bacanal.
Uma. O senhor tem que assistir.
Pega a unha.
Uma vaca leiteira, fugindo em pleno ar, me rasga em duas
portas.
Professor, tudo bem? Que prazer.
Bom vê -lo.
Bom vê -la.
Vai embora?
Você não vai ficar batendo na parte do espetáculo? Não, não. Ok, espera aí.
Vou te apresentar uns garotos aqui.
São todos eles alunos meus do curso de teatro lá do Galpão.
Paulo, Catarina, Carmen, Thiago, Júlia.
Esse é o professor Retor Férez.
Professor de literatura e um grande escritor também.
É, um grande escritor, sim.
A Júlia foi a nossa melhor desdêmona.
Foi asfixiada 257 vezes antes de nos trocar pela veterinária. Não me sinto
feliz, mas posso distrair aquela que sou, fingindo ser outra.
Nossa,
como está escuro.
Parece que a gente não sai do lugar.
É, você não sai mesmo do lugar, companheiro. O trânsito está
parado na região metropolitana. No coração da Avenida Paulista encontramos
trânsito travado nos dois sentidos.
Pô, me dá dinheiro.
Já é hora de dormir?
Que horas são?
Hã? Que horas são?
Balança o relógio.
Sete e meia.
Se fosse pra ela ligar pro Thiago, ela já tinha ligado.
Isso você não sabe?
Eu tô com sono.
Sabe quando a gente dorme, a gente pode ficar mais perto das estrelas?
Uma estrela pode demorar anos para aparecer aqui no nosso céu.
Quando você vê o brilho de uma estrela, muitas vezes ela nem existe mais.
Te apagar.
Uma estrela no céu cada vez que eu tento orar.
Por contrário, também nem pode acontecer.
De uma estrela brilhar, de uma lágrima cair.
O trânsito flui um pouco melhor. A vítima de atropelamento que causava
na zona do paraíso já foi removida do local.
O motorista pode agora seguir com mais tranquilidade.
Com tranquilidade.
Tranquilidade nada.
As condições de tráfego melhoraram. Mas as humanas não. O motorista não deve
enveredar por este caminho.
As condições são boas. Será que ela ligou pra ele?
Será que ela ligou?
É, a situação vai ficando um pouquinho mais difícil.
Não se iluda.
Tudo é mentira neste mundo, tudo é mentira, a verdade, tudo
é mentira, eu me digo, tudo é mentira, porque será,
esperando a última hora, esperando a última hora.
É, chefe, vamos levar o monstrinho hoje aí, ó. O que monstro? Cadê o vendedor de
flores? Flores? Não, só tem monstrinho. Você não vai querer levar o monstrinho
pra namorada? Olha que bonitinho, chefe.
É um monstrinho que eu meti nesse dedo. Não, obrigado.
Vai levar? Vai perder a promoção. Olha o monstrinho, o monstrinho em promoção.
Para dirigir a noite, os olhos se transformam em faróis que só enxergam as
estrelas gêmeas dos outros faróis.
Todo o resto vira escuridão.
Desde que saí, parece que só avanço num rio de luzes impossíveis.
Já nem sei se eu quero encontrar a Júlia.
Gostaria que ela estivesse vindo em minha direção.
Na verdade, eu gostaria que a Júlia estivesse correndo para mim agora.
Sabia que você viria.
Quando saía de casa, percebeu que a chuva soletrava uma palavra sem nexo na
pedra da calçada. Não percebeu que percebia que a chuva que chovia não
rua por onde andava.
Era a chuva que trazia de dentro de sua casa.
Era a chuva que molhava o seu silêncio molhado na pedra que carregava.
Um silêncio feito mina, explosivo sem palavra, quase um fio de conversa, no
nexo de rotina, em cada esquina que dobrava.
Fora de casa?
Seco na calçada, percebeu que percebia, no auge de sua raiva, que a chuva não
mais chovia nas águas que imaginava.
Os faróis também te olham, Júlio.
E as horas?
Caração, cada vez que passo pelos faróis dos carros que vêm na minha direção,
fico pensando se não é você.
E talvez você também imagine que sou eu.
O olhar, a palavra e o fato que eu te amo.
Tudo está em movimento.
Seguirei minha reta em direção a tudo que amamos.
Boa
noite.
Boa noite.
E alguma coisa para dor de cabeça?
Você tem aspirina?
Tenho sim, só um instante.
Dois reais.
Obrigada. De nada.
Vi arquipélagos, siderais e ilhas cujos céus delirantes abriam -se ao sonho.
A tempestade abençoou o meu despertar.
É claro que nada disso resolve o meu problema.
Júlia, o que é que você está fazendo agora?
Minha pequena propriedade.
Eu tô indo pra... Silêncio.
Você não tá indo pra lugar nenhum.
Você tá perdido.
Você tá indo embora.
Só porque eu vou te falar, escuta.
Você tá perdido nessa selva escura.
Nesse inferno de cidade sem sol e sem raída.
Ó, escuta.
Você não tá vendo que você tá entre a vida e a morte?
Vem.
Passa o relógio aí.
Ele não serve pra nada. Passa, vai.
Obrigado.
Agora vai embora.
Vai, mas não olha pra mim, não.
Olha pra dentro.
Acorda para dentro.
Vai embora que a gente não vai.
Não fala nada.
Presente mágico pra você.
Gostou?
Mágica tá aqui com você agora.
Agora estreita nos lindos que a gente já teve.
Três anos?
Que tal mais dois?
Dois?
Que tal mais dez?
Trinta?
Ou tão pouco?
Passaria o resto da minha vida com você.
Para com isso.
Aqui.
Júlia.
É tão difícil cruzar o espaço até você.
O médico Brigadeiro está me falando de uma vítima de politrauma, atropelamento.
É uma lesão importante em fígado, uma hemorragia.
Ele está com uma frequência cardíaca caindo, desobetria de 84.
Estamos no hospital mais próximo do hospital Santa Casa, positivo, TKF tem
Se a noite está muito linda, um olho atento percebe uma longa fita
esbranquiçada, de uma luminosidade tênue, que aparece em todo firmamento.
Durante muito tempo, a Via Láctea permaneceu um mistério que os astrônomos
preferiram ignorar, considerando -a como emanações da Terra que flutuavam nos
ares.
A Via Láctea sustenta a noite.
Sem ela, fragmentos de escuridão, viriam espatifar seus nossos pés.
Para você.
Obrigada.
Entre. Tudo bem?
E para mim?
Um pouco de cabeça.
Quer um café?
Não, obrigada. Prefiro um chá. Vou fazer um café. Senta aí.
Cadê o Tiago? Que Tiago, Heitor?
Você não chamou o Tiago? Heitor, vamos comer.
De duas cabeças.
Vamos chá? Não, eu prefiro um café.
Vamos chá, senta aí.
Eu vou atender.
Deixa eu atender, Tony.
Eu vou atender.
Tente, estou indo.
Como é que ele sai daqui?
Não dá mais pra falar.
Não paro.
Não paro mesmo.
Não paro. Não paro!
Eu quero chegar, Julia. Eu quero saber o que está acontecendo.
Não é possível.
Não é possível você ter ligado praquele filho da puta!
Atende, Júlia, pelo amor de Deus, eu preciso falar com você.
Atende, meu amor.
Meu
amor.
Atende, será que você não me ouve?
Oi, você ligou para o Júlia?
Taxa postal, não.
Você tem que estar em casa.
Você tem que estar em casa.
O quê?
Você só pode estar falando com o Tiago.
Será que você não me ouve?
O cachorro é teu?
Pera, não precisa ter medo não. Vem aqui!
Tchau.
O nome da cachorrinha Laika, na verdade, era Kudryavka, que em russo quer dizer
crespinha. Ela ficou mundialmente conhecida como Laika, que não era seu
mas sim o de sua raça, um tipo de cão esquimó.
Laika foi o primeiro ser vivo a entrar em órbita ao redor da Terra em 3 de
novembro de 1957, no Sputnik 2.
A cachorrinha astronauta ficou 10 dias em órbita da Terra até o fim do seu
suprimento de oxigênio, quando morreu.
A espaçonave com o corpo de Laika continuou descrevendo 2 .370 órbitas em
dias, ao fim dos quais, entrou na atmosfera terrestre.
Vamos para a viatura.
Para a viatura, Guilhermino.
Preparar o estimulador.
Estimulador montado. Passa, objeto, equipamento.
É para passar que eu vou descarregar, então. Ok. Passado.
Positivo, então.
Carga.
Plantão médico em TAP, sou o seu doutor, Thales Tive.
Sou uma vítima de colitrauma, vítima de atropelamento, uma lesão importante em
região de fígado e hemorragia.
Iniciamos a RTP há algum tempo e tem sucesso.
Hum!
Doutor?
Dormiu de novo na frente da TV, filho?
É, tava vendo o Tonjé.
É? Nessa hora?
Uhum.
Então... Você é um ratinho. Não.
E eu vou te pegar.
Não. Vem cá.
Vem cá.
Vamos dormir, filho?
Ah, não.
Ah, sim, sim.
Pega o chinelinho, vai.
Ainda não tô dormindo.
Era uma vez... Uma ovelhinha.
Era uma vez...
Uma outra ovelhinha.
E uma terceira.
E uma quarta.
De quantas ovelhinhas a gente precisa para o Heitor dormir?
Hein? Fica, mãe.
O céu não começa onde brilham as estrelas, nem onde vagam as nuvens.
O céu toca a copa das árvores e os talos da relva a nossos pés.
É isso aí, pessoal.
Já vai chamar a ambulância e tal? Tudo bem? Tudo bem, cara.
Aumenta aí, identifica aí, vai.
Vamos para a secundária, rápido.
. .
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.
.
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Eleitor, eu estou aqui.
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