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Porra, dona Emília, como vai? Cadê a Marcelina que não foi mais vir? Nem eu,
menino. Marcelina não aparece não. Marcelina tá foragida.
Eu tô quase espalhando cartaz com a cara dela aqui no Iterói, sabe? Igual quando
perde o púdor.
Deixa ela comigo.
Oi, amada.
Oi.
Tudo bem?
Oi, Jorge.
Oi, Emília. Viu Juliano esses dias, viu? Então deu sorte, porque eu que sou mãe
mesmo não tenho visto.
Como cresceu, ele tá enorme. Então não era ele.
Juliano não cresce? Juliano tem um metro e meio, estagnou nisso?
Não era ele não, hein?
Juliano não.
Deixa eu ouvir. Um beijo.
Dona Hermínia nunca mais levou meu doce. Ah, enjoei do seu doce, menino. Eu comi
muito, fui tomando horror.
Não consigo nem mais olhar. Eu olho pra esse doce com toda arrepiada. Eu tô ali
no polvilho agora.
Quando eu enjoar, eu volto pra cá.
Eu enjoo, eu sou estável, tá?
Até logo. Até logo.
Opa, olha que beleza de fruta. Vamos levar o que hoje?
Me vê uma mão desse aqui pra soltar o tchichino, menino. Uma mãozinha, mais
alguma coisa?
Me vê uma banana também.
Banana prende, né? A senhora não tá querendo soltar?
Não, eu quero equilibrar. Eu como um pedacinho do mamão, dou uma bicada na
banana, ficou excelente depois. Pra poder sair na roupa, eu sou
garoto. Ô, voz da experiência!
Quanto é que tá o abacaxi, hein? Cinco reais.
Não, então deixa.
Não, leva o abacaxi, madame. Não, eu não vou levar. A última vez que eu comi
abacaxi, amor, eu fiquei um ano com afta.
Não, me vê o abacaxi, só. Eu vou bater boca com essa afta.
Me vê o abacaxi.
Vambora.
Obrigada. Vai de abacaxi. Eu pago você depois, tá? Tá falando uma...
Tomate. Querido, me vê um tomate, por favor.
Quantos? Um só, eu sou sozinha.
O que mais?
Três quilos de polvilho.
Ah, mas a senhora não tá sozinha? Não, mas a pessoa sozinha da minha idade, ela
vê no televisão, sessão da tarde, come 30 quilos de polvilho. Vambora, menino.
Eu, hein, fazendo perguntas a hora, cedo, cedo, botando eu contra eu.
Deixa eu pegar o dinheiro aqui, garoto.
Ah, tá aqui no peito, peraí.
Toma. Obrigado, tá? Olha o tomate.
Opa, tudo bem? Tudo bom, Manel?
Tem nenhuma revista de fofoca aí não, meu? Com a separação de alguém?
Tem essa aqui com a Xuxa, ó. Ai, eu adoro a Xuxa, gente.
Agora ela raspou esse cabelo, o cabelo não volta, né?
Porque tá sem força pra subir.
Mas por que que tu raspou esse cabelo? É porque ela quis, garoto.
Mestre da sua vida.
Ela é batalhadora, guerreira, trabalhou a vida toda, dona da vida dela, faz o
que ela quiser.
Quer ver eu me emputecer, passar aqui amanhã sete e meia da manhã com essa
cabeça aqui me raspada?
Viagem, negócio.
Economia, traição, não tem nada, né?
Olha, não tem não, viu senhora? Dessa garota que fez novela das oito da Globo,
ninguém traiu por agora?
Esquisito, né?
Ah, estão demorando.
Alguém ligou pra casa atrás de mim, Valdeia?
Claro que não, né? Que ninguém liga mais pra fixo desde 78.
Te ligaram no celular, não?
Não. Hum, renegada.
Ah, sai fora.
Tem alguma coisa queimando aqui, hein, gente?
Ué, o arroz é queimado agora?
Torrada de arroz? Não pediu arroz negro, Hermínia? Arroz negro compra negro,
garota. Não é pra pegar o branco e queimar não, maluca. Ah, e também não
como adivinhar tudo, né? Eu, hein?
Ovilho pra um ano, né? É isso?
Ai, maluquinha, gente.
Essa garota da novela veio com um negócio de harmonização facial, mas não
bom não, hein?
Ela botou muita cara em volta da cara dela. A cara dela tá só no miolo.
E essa mania que elas estão agora de clarear o dente e aumentar?
O sorriso tá... cavalo. Daqui a pouco, pra reconhecer essas garotas, vai ter
fazer hemograma completo.
Cadê minha cebola, Hermínia? Ih, esqueci a cebola.
Deixa que eu vou lá buscar. Não!
Deixa que eu vou.
Eu, hein? Se eu não for na rua buscar essa cebola, tem nada pra fazer na rua
hoje. Eu vou me entreter com essa cebola.
Peraí, segura aí pra mim.
Ai, meu Deus, quase que eu perco.
O que é isso aí? Dona Odete tá de mudança?
Não, Dona Odete tá aqui.
Ela faleceu ontem, só encontraram o corpo hoje.
Bota ali pra mim, meu, seu roupa, aperta a qualquer andar. Não faz mal a ninguém
não, senhora, só quem faz é quem tá vivo. Vambora, menina, aperta a qualquer
andar, ajuda ele aí.
Gente, ela tá zelada, tira daqui!
Morta, minha filha.
Desde ontem essa mulher tá morta.
Acredita? É pregada que achou, né?
Coitada viveu um trauma e ainda perdeu o emprego.
A patroa faleceu.
Olha, vou te contar um negócio, Hermínia.
Empregada sofre, tá? E eu? Só posso morrer de segunda a sexta no horário
comercial?
Você sai daqui agora. Até você chegar aqui amanhã atrasada, eu já fedi aqui
nesse prédio, Lucélia. Ô, Ia, ô, Valdeia. Então se cuida direitinho.
Porque amanhã é sábado, eu só volto segunda.
Valdeia!
Volta aqui!
Volta pra dentro!
Quero nem saber.
Vai dormir no serviço que eu não posso morrer hoje sem contrato de segunda só,
gente. Apagaram a extra?
Sábado e domingo é duplicado.
Até logo.
Saúde.
William, tudo bem? Eu vou ficar aqui um pouquinho, tá, meu filho? Tá, dona
Mirna, fica à vontade aí. A senhora é moradora, pode ficar o tempo que quiser.
rapidinho, eu vou ficar sábado e domingo só.
Ficar aqui direto na portaria?
Ué, aquela velha da cobertura morreu, eu fiquei impressionada, eu não vou ficar
em casa sozinha.
Ah, eu adoro essa Mônica Martelli.
Você viu? Minha vida em Marte, adoro. Ela sofre com esse homem dela. Eu,
Casalbeto, primeira merda que ele fez, eu botei ele pra rua.
Ô, Dona Hermínia, cadê as crianças?
Quanto tempo que você não vê?
Ah, tem uns dois meses.
Mesma coisa eu.
A família, William, vou falar uma coisa pra você. A família desintegrou.
Tá? A gente fica louco se as crianças crescerem, saírem de casa, ficarem
independentes, eles saem de casa e não ligam mais pra gente. Aí o que acontece?
A gente fica puta.
Agora, se ele não cresce e não sai de casa, a gente também fica puta. Quer
dizer, a mãe sempre se ferra de não ter opção.
Deixa eu descansar um pouquinho.
Oi, boa noite, seu William.
Oi, dona Hermínia.
Ah, querida, senta aqui pra tomar um café.
Não, é que meu marido já tá tirando o carro.
Cê é boba, menina. Vambora, suco adoçante. Já tá até pronto aqui, ó.
Adoçante? Tá, deixa eu ver. Quantas gotas?
Espirrada, né?
Olha,
que legal te receber aqui.
Fica à vontade.
Repara a bagunça, não. Isso aqui é minhas coisas, plano de saúde, raio -x
pulmão, que eu tenho ressonância.
Eu tenho tudo aqui. Porque a gente que é velha tem que andar com tudo, né?
Se eu tiver um piripá caído aqui no chão, eu tenho aqui camisola, chinelo,
queijo, minas. Eu levo tudo para o hospital e fico tranquila. Como é que
está? Tudo bem. E os filhos, vão bem?
Excelente, graças a Deus.
Que bom.
Que bom para você, né?
Porque a gente quer mãe, ou será?
A gente quer o filho ruim.
Porque você acha justo um filho se resolver sozinho, não trazer um pepino
distrair uma mãe?
Pô, mas tudo bem, que depois vem os netos e meu marido. Eu tenho neto, só
Brasília, eu sei, seu marido. Eu tenho neto em Brasília, aqui no Rio eu não vou
ter. Porque o Juliano, meu filho, eu sei, tá, seu marido? O Juliano, meu
é gay. Não tem como, né?
Não precisa entrar nisso. E minha filha é descassetada. Quer dizer, não consegue
nem cuidar dela, vai cuidar de filho como, né? Vai, seu marido, vai. Que bom
tá tudo bem.
É que não tá tudo bem. Ela não entende, essa vaca.
Entendeu? Ela se esboca o negócio de que tá tudo bem.
Aproveita e descansa, dona Hermínia, tá?
Para! Não quero descansar!
Eu, hein?
Mania de achar que velho tem que descansar. Velho descansa, mas descansa
parcelado, igual pombo.
Eu sou assim.
Eu deito, cochilo.
Quinze minutos depois eu acordo, vou lá na cozinha, dou uma bicada no miolo de
pão. Eu sou assim.
Aí eu durmo mais quinze minutinhos, acordo, dou uma golinha no leite. Depois
vou como quem não quer nada sonso. Eu jogo uma isca paesa no WhatsApp pra ver
ela briga comigo.
Pra distrair o dia.
Eu sou assim. É meu.
O ser humano é assim. É meu isso.
A senhora tá bem?
Ah, sai, garoto. Eu tô excelente.
Não, a senhora tá acelerada, Doreen. Para!
Para de botar a pilha errada. Tô nada acelerada. Eu tô tomando café sem parar,
desequilibrada. Não, é diferente. A senhora tá ofegante.
Então eu tô passando mal.
William, meu plano de saúde da direita a quarto.
Calma, dona Hermínia. Por favor, calma. Seu plano gold, seu plano prato. O meu é
o gold.
William, eu tô desacordada. Eu vou chamar alguém, viu?
William, deixa eu explicar uma coisa pra você.
Se você chegar no hospital e não falar que meu plano é gold, eles me botam numa
máquina encostada no corredor, William.
É isso que você quer?
Tá, mas então é chegar lá e falar gold.
Ai, não deu tempo.
Foi piripaque que você teve, Emília.
Piripaque o quê, Ieza?
Tô com problema sério de saúde aqui.
Mental, né? Só se for.
Emília, você precisa se equilibrar. Ah, a pessoa mais desequilibrada da família
querendo dar palpite, sai fora.
Você é desequilibrada desde os oito anos de idade. Você, Ieza, introduziu
piripaque na família.
Eu, esse é a louca varrida.
Que louca varrida?
Eu, hein? Lucelena deu defeito antes que todo mundo, inclusive.
Lucelena não foi defeito, não foi piripaque. Lucelena, o problema dela é
fuma maconha da hora que acorda, da hora que dorme. Lucelena tem negócio de teto
preto. Você não tá nem falando que Lucelena tá aí defendendo ela. Eu não
defendendo Lucelena, estou contra você.
Completamente diferente.
Mãe, o que houve, meu Deus?
Meu Deus do céu, Juliana, eu tô muito ruim. É que o médico falou que eu vou
ficar aqui pra mais de um mês, meu filho.
Um mês?
Mas então é sério, gente. Não é nada sério. Isso aí foi só um pedipaque
de família.
Querida, tira ela aqui do quarto. Deixa um membro da família entrar por vez pra
não dar merda aí. Mãe, você tá mal mesmo.
Juliana, meu filho, eu tô um caco.
Eu tô um fiapo de vida. Aproveita, mamãe, tá?
O médico entrou aqui agora, fez vários exames em mim e falou que é muito
delicado que eu tô vivendo aqui.
Ah.
Eu ia te contar um negócio, mas agora eu fiquei até com medo.
Não, eu já dei uma melhorada. Levanta essa merda aqui pra mim, menina. Ai, meu
Deus, minhas artérias tão tudo. Fala.
Lembra do Thiago, meu primeiro namorado?
É, a gente tá junto.
Eu vou casar.
Meu Deus do céu. Tira aqui o acerto.
Calma, amor. Espera, eu tenho que esperar um pouquinho.
Tira pra mim o acerto pra você não ter problema comigo.
Mãe! Ainda bem que não é sério. Eu tava com medo de você estar mal e eu não
poder te dar uma notícia maravilhosa.
Tá preparada? Tem mais alguém fora pra dar notícia? Porque virou uma palhaçada
isso aqui, né?
Marcelinha, toma cuidado que você vai falar pra mim, tá? Que eu já tô aqui
deitada no hospital daqui, é direto pro caixão.
Você vai ter avó.
Eu tô grávida.
Eu perdi o pedaço da visão.
Parabéns.
Grávida de quem, Marcelina?
Do meu namorado. Que namorado?
Que eu tô namorando.
Quem é esse homem que eu não conheço esse homem? Mas aí tem que ver ela.
Quer tomar um bico nessas futas cheias de botox pra diluir o pedaço?
Mãe... Eu achei que você ia ficar feliz.
Ó, tá tudo certo.
Ele é louco pra ser pai. A gente tá feliz. A gente vai morar junto. Tá tudo
certo.
Avisa o médico. Eu me dei alta. Me ajuda aqui, gente. A menina se interna e
desinterna com uma facilidade, né? Olha o braço.
E examina. Me dá minha bolsa aqui. Deixa eu falar uma coisa pra você. Minha
família em cinco minutos aumentou três membros. Você é da lanchiga. Não tem
falar com você que eu tô ocupada.
Enfermeira. Gente, cadê a enfermeira pra arrancar o acesso? Não vai tirar.
Ai, me dá aqui um algodão, gente, pra poder aqui estancar. Gente, cadê meus
sapatos? Eu tô sem sapato. Eu pego, eu pego.
Marcelina, minha filha, por que que não conheceu o namorado ainda?
É porque eu tô com ele há três meses.
E antes de três meses não é considerado namoro firme a ponto de apresentar pra
mãe, né? Ué, você tá com ele há três meses e tá grávida há quanto tempo?
Três meses.
Ué, minha filha, então se você conhece o cara há três meses e tá grávida há três
meses, você deu pro cara no primeiro dia, minha filha.
Tomou um picolé pelo menos antes de dar pra ele, Marcelina?
Mãe, que caretice. Até parece que você nunca viu isso.
Deixa a Marcelina viver a vida dela.
Não vem com esse papo acima de mim, não, com seu pai, ó.
Eu enrolei horrores dele, tá?
Seu pai roeu beira de pinico comigo.
Seu pai ficou atrás de mim que nem uma varejeira. O dia que eu não sei o que ia
dar, ele botou um colchonete na porta do meu prédio. Ai, mãe, mas isso faz mil
anos. As coisas mudaram. Deixa de ser invasiva.
Tô nada invasiva, Marcelina. Inclusive, vamos entrar no assunto aqui que eu tô
animada, gente? Que é o seguinte.
Marcelina, minha filha, é carrinho de bebê. Mamãe já tá vindo pra você, tá?
tranquila. Bolsa maternidade, mamãe teve três filhos. Deixa a mamãe fazer que a
mamãe vai arrasar pra você, tá? Eu sei tudo que coloca.
Decoração do quartinho, mamãe deixa você escolher, claro. Só não sei se eu vou
acatar, mas vou deixar, tá?
Mãe, calma.
Calma o quê?
Vamos pra você agora.
Olha, primeira coisa é o lugar pra fazer o casamento, tá? A gente vai ter que
escolher esse lugar direitinho, que você não vai casar na igreja, que são dois
gays casando, você não vai bater boca com o Vaticano nessa hora, né?
Clube em Niterói tem vários clubes maravilhosos, eu orcei todos pra você,
filho. Guto, seu filho de Macaé, pensei nele fazer sua roupa, tá bom? Ele é o
faiate, a gente chama ele, vão precisar da família, né?
Os docinhos... Mãe, calma.
A mãe do Thiago também tá participando.
Conheço essa vaca, Salafrária. Vamos deixar ela participar, é claro.
Pois é, é ela mesma. Mas vamos com calma que eu vou casar com o filho dela.
Então vamos ver uma lista pra vaca?
Olha só.
A salafrária, a desgraçada, né? Ela pode ficar com os doces. Vou deixar anotado
aqui, tá?
Ela pode ficar com o fotógrafo e, de repente, a roupa dela. O que você acha?
De repente, a salafrária escolher a roupa dela é legal.
Então, vou botar aqui.
Salafrária, a roupa dela é com ela.
Agora, bufê, clube e alfaiate, mamãe já viu pra você, meu filho.
Mãe, na verdade, a mãe do Tiago já tá resolvendo tudo.
Ela, inclusive, vai pagar tudo.
Ela não vai nem aceitar um centavo meu, nem do Thiago. O presente dela é a
festa.
Entendeu?
É, se ela vai pagar, né, gente?
Então deixa.
Já visto tudo, né, meu filho?
Então tá, meu filho. Faz como vocês acharem melhor, tá? Não quero...
Vamos voltar aqui pra você então, minha filha? A mamãe vai ajudar você.
Olha, batizado.
A mamãe pensou que você não demora muito pra fazer.
Mãe, mãe.
Se eu precisar de ajuda, eu falo com você, tá?
É que eu e o Sal, a gente tá conversando ainda, mas tá tudo tranquilo.
Tá bom, gente.
Como vocês acharem melhor, então.
Se vocês precisarem de mim, eu tô aqui.
Fica de boa, então. Fica tranquila.
E precisam de ouvir.
Botei tudo aqui.
Botei doce, vi clube, eu já tinha visto.
Lugar pra fazer o casamento, eu vi.
Alfaiate, eu já tinha visto. Docinho.
Se precisamos, fala comigo, minha filha.
Marcelina!
Marcelina, cadê você, minha filha?
Marcelina, minha filha, vem cá.
Olha só o que a mamãe encadernou pra você.
Tá bom, mãe.
Obrigada. Mas vamos que hoje é o primeiro dia de aula e eu não quero me
Vem cá.
Senta aqui.
Marcelina, minha filha, é o seguinte.
Juízo na escola, tá?
Que eu sei muito bem que aqui em casa você bate no seu irmão. Eu passo panos
quentes, mas eu sei que você bate.
Não vai me arrumar confusão na escola. Que amanhã ou depois a mãe de um coleguê
vem falar que você bateu nele. Mamãe é descassetada, capaz de chegar na escola
batendo mamãe. Você ainda me arruma um problema, minha filha.
bater em mim?
Se alguém bater em você, minha filha, fica quieta, educada, vai até a
e conta pra ela que a professora é autoridade, tá, minha filha? Mas mãe,
que a professora não acredite em mim.
Suponha?
De onde você tirou isso, Marcelo? Suponha? Onde você aprendeu essa palavra
palavra difícil essa hora?
Mãe, você não respondeu. Se a professora não acreditar em mim, eu vou ficar
apanhando. Marcelinho, se a professora não acreditar em você, você vai bem
sonça, minha filha. Não fala que sua mamãe te falou isso.
Você vai sonça, chega pertinho do seu colega, dá um soco nele e sai. Um soco
já foi, tá?
E se a professora descobrir?
Se a professora descobrir, nesse caso você fica muda, vem pra casa, conta pra
mamãe que mamãe vai lá no dia seguinte e manda ela é merda, tá bom? Vem, minha
filha, vambora.
Dá a mão pra mamãe.
Peraí, Marcelina.
Eu vou atrasar.
Mas peraí, mamãe quer falar com você, gente.
Marcelina, minha filha.
Deixa eu falar, esse início tem que ser muito forte, tá, minha filha?
Vai ser muito difícil pra você, você vai sentir muita saudade de mamãe, mas a
mamãe tá aqui, tá? Mais tarde estamos juntas. Tá bom, mãe. Tchau.
Ué, mas não tá com medo, não?
Não. Ué, mas não tá pensando que vai ficar horas desgarrada de mamãe sem
de mamãe?
Não. Ué, mas não tá pensando que mamãe também pode estar com saudade de você,
sem notícia de você, que tá sendo muito difícil pra mamãe esse primeiro dia?
Não, não tô achando nada. Deixa eu ir, mãe. Eu quero ir.
Marcelina, você quer ver eu te levar pra casa agora e você não ter escola, não
ter nada, enquanto você não se conscientizar que é difícil pra mamãe se
de uma filha?
Dá um beijo, mamãe, aqui.
Marcelina, você tem mais nada pra falar, não? Quer que eu te leve na sala?
Não. Hein?
Não. Onde é que está a mãe de vocês, gente? Estou muito desgarrada.
Marcelina, o caderno está na mochila, minha filha. Se quiser lanche, liga para
mamãe. Você não vai se perder nessa escada, não, Marcelina. Eu vou te levar
na sala.
Tchau, Marcelina.
E esse acredita que o Marcelão quer deixar eu decidir nada a vir do meu neto
ela? E eu não tô pedindo nada de mais. Eu falei, Marcelina, eu quero ter acesso
ao muco do neto. Eu quero cuidar de uma diarreia e fiscalizar uma afecção
bacteriana. É o mínimo pra uma avó.
Eu tô pedindo a parte ruim.
A parte boa eu tô deixando pra ela. Marcelina é egoísta. Ela só pensa nela.
e Juliano. São dois egoístas, dois interesseiros.
Tô puta.
Ai, minha vida é isso.
Eles largam mesmo.
A mãe vai pro escanteio.
João Marcelo, quando foi pro intercâmbio, ia ficar o quê? Três meses
mais voltou. No início eu achei ruim.
Mas depois eu achei ótimo. Hoje em dia eu quero mais é ficar tranquila, me
divertir, sem sofrimento.
Você tá transando, Ieza.
Gente, que isso? Assim, do nada?
Você tá com cara de quem tá dando horrores, confessa.
Óbvio que eu tô.
Ieza, a gente foi criado na mesma família.
Mesma alimentação, escola, tudo.
E daí?
E daí o quê? Como é que você tá transando? Eu não tô transando? Que
essa? Não posso fazer nada.
Vai ser ruim pra nossa relação pra você transar ou não transar, Ieza.
A gente vai ficar sem assunto, vai se distanciar. Bota isso na sua cabeça.
Gente, o que você quer que eu faça? Eu quero que você não transe.
Que aí você não transe, eu não transe, fica tudo organizado em família.
Não posso.
Desculpa.
Agora, caso eu queira transar a partir de agora, vamos lá então. Onde é que eu
arrumo alguém pra transar da minha idade? Ih, minha filha, quando você
espera, aparece.
Eu não tô esperando nada há anos, não aparece nada. Tem alguma coisa estranha
comigo, hein, Isa?
Verificar isso essa semana.
Fiquei culcada aqui.
Tô transando? Há anos?
Esquisitíssimo. Como é que pode?
Ser humano não transar assim, do nada?
Parar de transar, interrompeu, parou a vida.
Eu esqueci de transar.
Seu madre, menina. Alguém esquece de transar? Eu não esqueço nunca. Esqueci,
fui criando filho, fui fazendo coisa.
Gente, igual que eu lembrei que tem transar. Eu descei de transar, mas eu
esqueci. Sempre me lembro. Você não transa onde? Você tá com cara de que tá
dando horrores. Eu tô dando agora, mas eu não tava antes. Você só tá mosquito
atrás de você e o tempo inteiro contra você.
Vem andando gelado aqui com cinco mosquitos em cima de você.
Claro, cheio de creminho aqui, tudo percorrido. Eu, hein?
William, dá um pulinho aqui.
Quem é isso aí, mudança?
É morador novo.
Ah, é? Qual andar?
É 903.
Pra cá da dona Odete, vizinha da senhora. Ai, minha vizinha, homem ou
É homem.
Ah, é?
Ah, tá.
Deixou eu ir, então. E tá na faixa etária de quantos anos, hein?
Ah, deve tá entre uns 60, 70.
Ah, tá.
Deixou eu ir, então.
E é casado?
Você já... Nada, não.
Disseram que é um coroa solteiro bonitão.
E tá interessado, né, dona Hermínia?
Interessado dá isso aqui na tua cabeça.
Palhaço fofoqueiro.
Hermínia, eu botei aquela roupa que tava no cesto, eu vi toda na máquina.
Que isso?
Perdeu o critério?
Roupa de gala em pé na luz do dia?
Você que anda esculhambada no contraste, eu tô over.
Eu estou com uma roupa, meu amor, de que eu vou ser vizinha agora de um cara
charmoso e não posso ser vista, esgrenhada.
Ah, e qual é o plano, então?
O plano é o seguinte, Valdéia. Chegar ali, falar oi, prazer, dar dois
meio antipática, jogar uma isca, sair e deixar ele grilado.
Mas você não fez cara de antipática, não. Fez cara de cu. E entre cara de cu
cara de antipática, tem um abismo aí no meio. Qual é a diferença? Fala.
Ué, cu.
Hum, antipática.
Ah, tá com dor cu na cara, sai fora.
Meu Deus do céu, cegou. Será que é ele, gente?
Ai, meu Deus.
Melhor ser simpática, mais fácil.
Opa, visitinha.
Quem deixou você subir, Carlos Alberto?
Eu quis te fazer uma surpresa. Carlos Alberto, dá licença. Você está vindo um
homem bonito, cheiroso, maduro, interessante.
Enfim, muito melhor que você morar aqui do lado. E se ele me vir com você, você
vai queimar meu filme?
Hermínia, meu amor, deixa eu te contar um segredo, então. Eu não sei se tem um
outro morador novo, mas o homem bonito, cheiroso e maduro que veio morar aqui e
é seu vizinho de porta, sou eu.
Eu quero saber em que momento a ideia de morar do meu lado porta com porta foi
considerado genial, Carlos Roberto.
Hermínia, pensa bem.
A gente vai poder cuidar um do outro. Ah, tá. Você saiu, viveu um auge, agora
voltou velho pra eu cuidar de você.
Carlos Roberto, não quero.
Você é 15 anos mais velho que eu. Bobeou, você morre antes, não me traz o
pepino. Chega uma hora que esses 15 anos não fazem mais diferença.
Eu sou velho, você é velha também.
Tudo velho. Ah, você tá louco, Carlos Alberto.
Você está com 69 anos. Daqui a 15 anos eu sou sua enfermeira. Deixa eu fazer
conta pra você aproveitar com o meu celular aqui. Carlos Alberto, 69 anos.
Mais 15 anos.
Olha aqui, ó. Você ficou com 84 anos. 84 anos você vai estar esfarelando.
Não sou obrigada a catar farelo seu no apartamento do lado, Carlos Alberto.
E você acha que você vai estar como? Eu vou estar excelente, meu amorzinho.
Porque mulher é diferente, Carlos Roberto.
Mulher, quando começa a encarquilhar, ela encharca a cara de botox, que é o
eu vou fazer. E vou ficar indefinida, meu amorzinho. Ninguém vai saber se eu
tenho 60, 70 ou mil anos.
Bom, você tá tão incomodada de eu morar do seu lado, posso morar com você,
então. Não tem como a gente morar embaixo do mesmo teto.
Se eu te mandar ir à merda, eu vou pra que cômodo?
Carlos Roberto, vamos lá, eu tô na cozinha. Te mandei à merda.
Você está na sala. Como é que eu passo da cozinha para o quarto sem tacar um
troço na sua cara?
Morando do seu lado, vou poder te levar para o cinema, sair para jantar, dançar
de noite numa gafieira.
Carlos Roberto, você está me dando programação para a noite. Eu quero para
dia. Eu não tenho mais nada para fazer.
A minha vida é supermercado, farmácia, casa, supermercado, farmácia, casa.
Eu nem compro do mês, eu faço mais, Carlos Roberto.
Antigamente eu entrava no supermercado e comprava um litro de pote de iogurte.
Agora eu compro iogurte pra meia hora pra ir voltar 300 vezes naquele iogurte.
Mas o que é que você queria, Hermínia? Esse é o ciclo da vida.
Os filhos não ficam bebês pra sempre.
Caso aberto, eu quero que as crianças me deem valor.
Eu li uma matéria outro dia que me trouxe uma lucidez que eu fiquei muito
O custo de um filho de 0 a 20 anos tá saindo pra baixo de 300 mil reais, caso
aberto. Se liga.
Deixa eu mostrar uma coisa pra você, olha só.
Juliana saiu de casa com 20...
Você lembra, Carlos Roberto? 23.
23 anos. Ih, tá lúcido, hein?
Olha só, 23 anos.
Vamos lá, saiu de casa com 23 anos.
Juliano saiu por 360 mil reais. Vamos ver Marcelina. Marcelina saiu de casa
26 anos.
Um doutor aí vai cinco.
Marcelina me saiu a 400 mil reais.
Gente, Marcelina é caríssima. Não me dá um telefonema.
Mas é isso mesmo, Hermínia. As etapas da vida vão se modificando.
Por que você não faz uma terapia?
Tá na hora de você pensar o que é que pode te preencher, o que te faz feliz.
Qual é o seu desejo, Hermínia?
Ah, César Pé, não vem me trazer essa lucidez, não, essa hora. Porque a pessoa
lúcida, ela nem janta com você.
Meu desejo é que você pague essa conta porque eu tomei essa água aqui e você já
tomou três taças de vinho.
Eu, hein?
Desejo de terapia. Vai pra merda, César Pé.
Bom, vamos dar início à nossa terapia. Quem começa?
Oi, meu nome é Hermínia, tá? Eu sou dona de casa.
Sou mãe de três crianças, mas tenho 27 anos.
A do meio tem 29 e o mais velho tem 34.
E a que tá mais me dando problema é a do meio, que é a Marcelina. Por quê? Não
engrenou na carreira ainda, tá grávida e mal conhece o cara.
Aí eu pensei o quê? Vai correr atrás da vida dela, vai largar o neto comigo.
Mas não.
É só eu decidir nada da vida dela.
Engraçado, porque lá em casa a criação foi bem diferente.
Meus pais nunca interferiram muito nas minhas decisões.
É, mas aí você tá aqui em tratamento, né? Mas eu tô aqui por opção.
Tá nada, menino.
Grosso da tua idade, podendo estar viajando, transando, surfando, tá aqui
você tá sem opção.
Você provavelmente é complicado.
Será que eu podia falar? É rapidinho. Fala, por favor. Então, gente, que a
história é muito doida.
Parece que eu nunca tô em lugar nenhum. Eu morava aqui em Niterói, casei, passei
10 anos no Rio.
Aí eu separei, voltei pra Niterói e agora eu tô saindo com um cara do Rio.
Ah, e daí?
Não, é isso.
Não, sua história não é muito doida. Sua história é ruim.
Sua história é bem ruim mesmo. Conta pra ninguém fora daqui não, tá?
Vamos manter aqui em sigilo absoluto.
Vamos voltar pra mim, gente?
Só um minutinho, Hermínia. E você, Elisandra? Vamos ouvir a Elisandra?
Eu moro com meus pais, minha família tem grana, eu sou rica, já viajei o mundo.
Meu namorado me ama, eu não tenho o que falar dele.
Mas eu acho que a minha vida tá muito monótona. É, o que faltou pra você foi
coça, né?
Lavar uma louça, né? Limpar uma cortina, varrer uma casa, passar uma vassoura.
Mas isso melhora a angústia?
Não, mas aí você arrumou a casa, né? No ruim, no ruim, você arrumou a casa.
Eu nunca arrumei casa, eu não sei como fazer isso. Eu vou te dar outra dica
então. Faz o seguinte, deposita uma grana na minha conta, fica endividada,
aí sua vida decola. O que você acha?
Olha só, vamos tentar um não invadir o probleminha do outro? Não, mas aí não
graça, né? Que aí não entretenha, a hora não passa.
Eu tô sentindo que a conversa tá ficando um pouco agitada.
Vamos tentar manter o equilíbrio? Mas se a gente equilibrar, você perde emprego,
né? Eu posso, então?
Olhando aqui pra vocês, o que me fica é que a raça humana é complexa.
Às vezes eu me vejo dentro, mas na maioria das vezes eu penso que o ser
não deu certo.
Isso aí não é remédio não, gente?
Vocês não falaram nada, né? Ficaram mudas.
Se deram alta.
É um cigarro ruim?
Parei de fumar, Ieza. Nem me oferece isso. Vambora. Ieza, você é cartomante
desde quando?
Tantas coisas sérias, hein?
Hermínia, eu tô sem piripaque. Eu tô transando.
Você acha que eu dei a sanguinada da minha vida como?
Foi o tarô.
Então joga isso pra mim. Vambora.
Primeiro tem que se concentrar pra dar certo. Então não vai dar certo, porque
não tô concentrada há anos.
Concentra aí, vai.
Corta aí.
Como é que faz isso?
Corta. Agora, três cartas.
O que é, Iza?
Um, dois, três.
Inferno.
Vai.
Concentra aí.
Pensou em forcar da degolada aqui, Iza?
Calma, deixa eu pensar.
Tá dando merda, Iza. Sossega, Hermínia.
O enforcado não é coisa ruim.
O enforcado é que vem aí um caminho de luz.
Ué, pra pessoa da minha idade. Recebe uma carta com a pessoa enforcada. Você
fala que tá vindo um caminho de luz. Eu tô fazendo a passagem, Iza.
Ah, pra que que eu vim aqui nessa cartomóide, sabia?
Uma coisa que era pra me tirar angústia. Tô mais angustiada ainda.
Vambora, Iza. Tira outra coisa aí.
Deixa eu parar de fumar e tudo.
Carta do mago.
Que que é isso?
Você não tá preparada pra ouvir, não tem como dar continuidade.
Tô te achando estarlatã, Iesa. Estarlatã, eu tenho ética. Você não tem
nada. Você é mau caráter desde criança, desde oito anos de idade. Que você tinha
inveja que eu tinha madrinha, você não tinha madrinha. Minha madrinha me deu
três cintos, um de trecer, você roubou meus cintos de trecer, falava que esse
cinto era seu.
Eu tô até hoje instalada com esse cinto de trecer, que eu olhar pra aquele
cinto, eu sabia que aquele cinto era meu, Iesa. Você tá ficando uma velha
amargurada, hein?
Amargurada, cacete.
Velha só nas carteiras de identidade.
Na vida real, sou muito mais nova que você. Olha minhas amigas. Mas você tem
amiga velha.
Eu tenho amiga velha, Iesa. Minhas
Gente, vamos fazer silêncio aqui, senão a gente não vai chegar nessa gafieira
hoje não, hein? A gente que tem artrite, artrose, joanete, vamos organizar pra
gente entrar nesse ônibus e descansar logo.
Ô Hermínia, não tem como organizar essas velhas todas não.
Tem sim, vambora. Quem tem joanete, faz uma fila aqui pra mim, joanete.
Anda. Ai meu Deus, todo mundo. Quem tem artrose é aqui, ó, artrose.
Gente do céu, açúcar alto. Aqui, vocês têm tudo, gente.
Vamos embora, não dá para organizar não. Entra no ônibus. Vou marcar check -up
geral para vocês na segunda -feira, tá?
É nesse mesmo ônibus. Vou botar a fichinha para vocês preencherem. O que
uma tem, tá?
Vocês têm tudo, né? Tudo bom, querida? É que eu não faço isso.
Vem, bora, gente. Senta bonitinho, sem briga, sem peido, sem nada, hein? Que
velho peida.
Gente, vocês estão com plano de saúde tudo em dia, né?
Não se empolga não que a gente tá com os ossos aqui tudo sem calço, hein? É pra
dançar no miudinho assim, ó, pra não dar merda, não quebrar nada.
Dona Elza, outro dia, sabe como é que aconteceu, né?
Foi rebolar, quebrou a cabeça do fêmea. É aqui, ó.
Hum,
Carlos Alberto. Peraí, gente, eu falo com vocês.
Carlos Alberto, o que você veio fazer aqui?
Eu soube que você estava na gafieira, vim te tirar para dançar, Hermínia.
Imposto!
Assombração agora?
Não quero dançar com você, quero dançar com alguém mais jovem, mais arístico. Dá
licença aqui.
Elza, segura minha bolsa aqui que eu vou infernizar a casa do Alberto.
Só um minutinho aqui, querido, só para me ajudar.
Tanta, tanta, tanta.
Tanta aqui comigo mais rápido, vai.
Levanta, levanta.
Travei. Tá vendo só, Hermínia, quem mandou não dançar comigo.
Eu jamais teria feito isso, porque eu sei que você está limitada.
Sabe por que eu tô limitada, Carlos Roberto?
Porque você veio com esse olhinho azul, com essa boquinha rosa pra cima de mim.
Eu fui me apaixonando por você. Quando eu fui ver, eu tava lavando sua louça,
engravidando de você.
Lavando sua cueca suja, engravidando de você. Meu peito foi embora, minha bunda
foi embora, você foi embora. Eu podia ter virado uma Beyoncé, tô na merda
Eu só não tô chateada com você, Carlos Roberto, porque você tá ruim também. Se
você tivesse bom, eu tava puta.
Tá, então vamos aproveitar que a gente tá velho mesmo e vamos dançar.
Ei, gente, pelo amor de Deus, acabar a noite com a coluna travada, dançando
Carlos Alberto, eu tô na merda mesmo.
Que isso, Carlos Alberto?
Tá cheirosa, Hermínia. Quer perder o tecido, Carlos Alberto?
Eu, hein? Virou.
Hermínia! Meu Deus, dona Luz, que roupa é essa? Quase não te reconhecia.
Ai, dei uma repaginada no visual.
Gostou? Mas é o quê?
Gótica isso?
Não, é... Normal.
Sem rótulos. Mas a gente acostuma com isso depois, Lourdes? Como é que é o
esquema? Aqui no Brasil é tudo meio careta, né? O pessoal não entende muito.
Mas qual país que entende, gente?
Hollywood, amor.
Tô indo pra lá, passear um pouco, ó.
Topa. Fazer o quê? Eu e você sem falar uma palavra de inglês em Hollywood,
Lourdes. Ih, mas a gente se vira. Se vira como? Tá na rua, entala com
sairia e pedir uma água.
A Wanda Wada. A Wanda Wada? É, a Wanda Wada. Eles entendem. Passear um pouco,
fazer uma compra.
Comprar o quê, Lourdes? O dólar tá quatro reais.
Também não precisa comprar cinco malas. Comprar uma coisa diferente.
Uma saia, uma blusa.
Saia o quê? Você compra uma saia lá, trinta dólares, chega no Brasil.
Dá uma merda aqui na política, até a fatura do cartão de crédito chegar, essa
saia... vira 700 reais. Vai sozinha. A gente é sozinha. Vamos, divertir um
pouco. Faz uma forcinha. Ver gente bonita. Olha isso aqui.
Meu Deus, eu só faço mal nesse Richard Gui, gente.
Que no Brasil a gente não tem o Richard Gui, né, gente?
No máximo aqui a gente acha um Erson Cap, que é o nosso similar, né?
Será, gente? A pessoa então tá no salão de cabeleira fazendo uma unha e vai
parar em Hollywood?
Curtir a vida, Hermínia.
Bora!
Fiquei ótima nessa.
Ué, cadê a placa de Hollywood?
Não existiu. Você tira a placa de Hollywood, fica eu e você, a gente pode
em saquarema.
Deixa que eu faço aqui. Vai.
Excelência essa. Mas eu não saí na foto. Dona Lúcia, vou explicar uma coisa pra
você. Tô eu, você e a placa. Os três não tá dando, eu prefiro ficar eu e a
placa. Eu é o direito que eu tenho.
Daí eu não saio na foto?
Faz uma selfie minha, então que eu faço uma selfie sua, vai.
Minha selfie é a própria pessoa que faz dela.
Ah, não complica minha vida, não. Vou ter que achar alguém pra fazer, sabia?
Já vi que você é complicada em viagem. Tô nada.
Dá licença, cara. Ei, vai.
Tira aqui pra... Picture.
Eu, ela e Hollywood.
Placa.
Vai. 3, 2, 1.
Ai,
que delícia. Ai, Rana.
Marcelinho e Juliana adoram ela. Olha só.
A bunda, ó. A lordosa. Dá pra botar um jarro de água aqui assim nela, ó.
Vamos ver mais.
Ih, que barata aqui, dona Luz. Elvis Presley.
Maravilhoso. O que é isso aqui?
Não conheço.
Ai.
É, gente, de verdade.
Ai, termina. Ai, tira uma foto minha aqui com ele.
Eu sou doida nesse príncipe real. Já pensou se ele me pediu sem casamento?
Deixa de ser ridícula, dona Lourdes. Um príncipe desse olha pra você, não te
pede casamento, não. Ele pede um suco. Pergunta se a charrete dele tá pronta.
Excelente. Vem.
Peraí, dona Lourdes. Peraí.
Eu não sei, ela é sedutora. Vai.
Calma aí. Deixa eu ver. Não tá bom não, hein, dona Lourdes?
Nossa cara não tá combinando com a cara do Sameli não, hein?
Vamos tirar foto com alguém que combine com a gente no quesito beleza.
Vem, essa mulher tá destruindo a gente.
Tá bom. Ficou bom?
Ficou bom, garoto. Diz aí.
Nossa cara.
Face. Tá legal?
Eu
já sei o que eu
vou pedir.
Ué, mas nem olhou o cardápio. Mas eu não sei falar inglês, eu vou pedir salad.
Aproveito e fico de dieta. Onde é que eu vou conseguir a salad?
Mas aí eu não quero salada, não.
E pede um quente, dona Lourdes.
Um franguinho?
É, pode ser.
Menino. Tudo bem?
Oi, posso tomar sua ordem?
Repita, por favor.
Eu não entendo nada.
Não tem inglês aqui.
Eu quero salad.
Salad para mim.
Salad? É.
Ok. What kind of dressing would you like? We have Russian, blue cheese,
balsamic, olive oil.
Aí quebra a gente, né? Eles embromam, né?
Garoto, não atrapalha a minha vida, não. É salad que eu quero. Only salad.
Just plain salad?
É. Vai pra ela agora.
Just salad for you and for you, ma 'am? Tá, isso aí.
Please, I want a kitchen.
Excuse me?
Ah, meu Deus. Se não é americano, eu vou falar inglês agora. Kitchen, menino.
Galinha, frango.
Kitchen. Cocoricó.
Hermínia, eu tô achando que não é kit, não. Bota no Google aí então, dona. Bota
frango pra gente saber o que é pra sair desse desespero. Que Google? Não tem Wi
-Fi. Ai, gente.
Have Wi -Fi.
Have Google.
Wi -Fi, yes. Yeah, we have Wi -Fi.
The network's right there. It's avocado toast.
Eles vão inventando o que que... Gente, ô garoto, deixa eu explicar uma coisa
pra você. Não me dá problema, não.
É salada, salad, eu, kit, ela.
E sai, pra não...
Vai, vai pra cozinha.
Cook it.
Vai no... Cook it? É, a gente quer comer. Wrap it and cook it. Tá, ele
Dona Luz, pergunta onde é o banheiro, já tô até nervosa.
Ah, tá.
Please, where is the bathroom?
É que é descamisar.
The bathroom, ok. I got this, alright.
You're gonna wanna head straight back that way, take your first right at the
of the hall, you'll see a set of stairs, it's right down the stairs, ok?
Aí mesmo é na calça, né?
Como é que o pai vai pro banheiro? Vamos já em casa só.
Dona Lourdes, a gente não consegue se comunicar, não consegue pedir uma
não consegue entrar no wi -fi. Vambora daqui, gente. E a água que a gente
Essa água é da torneira. Tem mania de bico aqui.
Vambora. Vambora daqui.
Garota! Celular.
Game over.
Aí se não vai, toma o legal.
Sorry.
Happy. Bye.
Até logo.
Tô me sentindo Julia Roberts.
É que você não tá mais lúcida, né?
Você sentiu uma virose, um acólio com a diarreia, eu entendo. Agora, sentir
Julia Robson enlouqueceu, né?
Não implica, tá, Hermínia? Ai,
dona Lourdes.
Ai, meu Deus do céu, que coisa linda. Olha, dona Lourdes.
Olha a bochecha desse, gente. É muita saúde. Bença a Deus, meu filho.
Two babies is very beautiful.
Hey, York!
É sim, eu sou brasileiro também. Ai, que vergonha de falar o inglês errado.
Olha, muito bonito. Tá vendo? Passando com o pai, dona Luz. E a mãe, hein?
Na verdade, somos dois pais.
Tô toda arrepiada.
Que lindo. Que lindo demais.
Obrigado, gente. Vai com Deus, meu filho.
Parabéns. Lembrei do meu filho.
Tomara que ele me dê uma família igual a essa.
Ai. Aqui, eu faço o corte. Você é americano?
Não tem cara não, você tem cara que é de lá do ladinho Henrique Marques.
Entendeu nada.
Oi, tudo bom, querida?
Tá tudo certo, a gente que é brasileira é da paz.
Fui? Ah, tá.
Começou esse inferno, essa mulher tem cara de implicante.
Fala.
That is forbidden.
Meu Deus, não sei nem falar inglês. Sempre tem um brasileiro salpicado.
Brasileiro! Oi? Ah, garoto, que sorte. Vem cá, me ajuda aqui que eu não estou
entendendo o que ela está falando.
Querida, repeat please.
I don't understand nothing.
Yeah, why do you have all these pills?
O que é isso que ela está falando?
Ela está questionando por que tanto remédio para dor de cabeça.
Fala para ela que eu sou mãe.
E a partir do momento que você é mãe, você tem dor de cabeça.
Eu tenho três filhos para criar, três filhos diferentes.
Conclusão, eu pego três tipos de remédio de dor de cabeça. Fala para ela que eu
tenho problema na artrose, eu sou toda dolorida, eu tenho muco. Você fez uma
sopa na minha cara agora, menina, eu tenho muco puro. Vai, fala isso para ela
inglês. Você resumiu, hein, garoto?
Eu falei muita coisa.
O que ela falou para ver se eu bato nela?
Ela está questionando o que é isso aí. É carne, é que eu vou chegar em Niterói,
200 horas de viagem, eu não vou para a soga, eu vou chegar morta. eu vou em
comer, me ajuda com isso.
Ela está dizendo que comida não pode não, porque tem risco de levar bactéria
para outro país.
Coitada, bactéria do Brasil, ela mata, extermina a bactéria dos Estados Unidos,
porque a bactéria do Estados Unidos é boba, do Brasil é rasteira, ela é
ela é parruda, ela é forte, ela é malanda, ela não tem educação nenhuma,
para ela isso. Um mexeu em outra coisa.
O que é, menina?
Chuva. Quando cai chuva.
Temporal. Brasil, ó.
Lotado. Ela tá questionando a quantidade de capa de chuva. Pô, essa menina
questiona tudo, né? Ela não questiona esse cabelo dela, não? Ridículo. De dois
andares. Não sabe se você quer ser crespo, se você quer ser lisa,
gente. Menina, me dá aqui minhas coisas. Deixa eu ir embora.
Anda.
Eu, hein?
Entrapalhando a vida da gente.
Sai fora, igual um poodle.
Tem noção, ainda bem que não fala português. Até logo, vai a merda.
Tchau, querida. Vai a merda.
Deixa eu ir, complicando minha vida.
Alô? Vai!
Alô? Oiê.
Oi, meu filho.
Tudo bem?
Tudo bem. E você, mãe?
Tô bem. O que você manda? O que você tá fazendo?
Ah, tô ajudada aqui arrumando casa, lavando o louço de sempre, né, filha? É
eu tô aqui na esquina. Dá um pulinho aqui, então.
Vem lançar aqui. O que você acha? A mesa tá posta.
Ótimo. Eu tô indo pra aí, então.
Beijo. Beijo.
Meu amor.
Quer me dar mais um beijo não? Eu topo. Ah, meu Deus, carinho.
Muito tempo sem ver você.
Tava com medo de não te reconhecer na rua já.
Mãe, vou precisar de umas fotos de quando eu era criança pra um vídeo que
rolar no casamento.
Ué, então não veio me ver, né? Veio por interesse, interesseiro.
Também vim pra te ver, mas vou precisar dessas fotos de criança, tá?
Onde que eu vou achar a foto sua de criança agora, gente?
Que armário? Onde é que tá isso?
Então deixa, que eu vou ali do lado ver se o papai tem. Não!
Eu vou assar, só um minuto, peraí.
Eu acho até que tá aqui, que eu vejo toda hora. Meu Deus, que delícia.
Aqui, ó.
Coisa linda. Tem tanta coisa emocionante aqui, meu filho.
Tem? Não vou chorar, não.
Peraí.
Olha, eu fico até emocionada um pouco. Não vou chorar, não.
Olha você.
Juliano!
Deixa eu mostrar uma coisa pra você.
Olha só a fantasia de visconde sabugosa que mamãe costurou pra você na festa do
sítio do capão amarelo. Eu não quero de visconde, eu quero de Emília.
De Emília você não vai.
Já tá tudo combinado de você de visconde sabugosa. Não vem dar problema em cima
da hora não, hein, Juliano?
De visconde eu não vou.
Quer ir de Pedrinho, então?
Ué, porque eu posso mudar pra Pedrinho e não posso mudar pra Emília?
Ué, porque Pedrinho é mais simples, é homem.
Você bota uma bermuda, uma camisa e foi.
Emília, meu filho, é muito complicada.
Emília é muito perequetada. Você vai querer ficar o dia inteiro se arrumando,
botando rímel, batom, blanço, meia calça, aquelas coisas todas?
Sim, amor!
Emília?
Oi!
Nossa, ele veio vestido de menina?
Como é que explica isso para as crianças? Você não pensou nessa questão?
Pensei sim.
Pensei sim porque eu sabia que ia encontrar gente como você.
Dá licença aqui. Vem, Juliano.
Oi, dá licença aqui. Tudo bem? Por que... quer brincar com ele?
Ah, porque ele é menino e tá vestido de Emília.
Ah, é? E você tá vestido de quê? Só pra tia saber.
Eu tô vestido de rabicó.
Na sua cabeça, né, lindo?
Deixa eu contar uma coisa pra você pra te situar. Sua mãe passou a perna em
você, tá?
Ela botou um moletom azul em você, uma camisinha branca sem graça, uma
mascarazinha e decretou que é rabicó.
Vem cá, Juliana, você tá lindo de Emília. Vem, meu filho.
Meu filho.
Tá tudo bem com você?
Mamãe, brinca comigo?
Claro que eu brinco, meu filho.
Na verdade, eu tive uma ideia muito melhor.
Vem cá.
Gente, seguinte.
Eu sei que a festa é do sítio todo, mas tem uma personagem que é muito especial.
Ela é forte, ela é criativa, ela é valente, ela é autêntica, ela fala o que
quer. Então eu quero fazer uma homenagem a essa personagem.
E ao meu filho Juliano, que teve a sensibilidade de escolher ela.
De uma caixa de costura, pano, linha
e agulha, nasceu uma menina valente,
Emília, a boneca gente.
Nos primeiros momentos de vida, era toda
desengonçada.
Ficar em pé não podia, caía, não
conseguia nada.
Emília, Emília, Emília.
Emília, Emília, Emília.
Emília, Emília, Emília
Inventa mil ideias, não entra pelo cano.
Se não fosse você, essa festa tinha me traumatizado, viu?
E essa mulher, gente?
Arrogante? Falar em mulher arrogante, meu filho? Vamos fazer um jantarzinho
sua sogra aqui.
Ai, mãe, não sei.
Sabendo que o momento do Tiago é difícil e te conhecendo do jeito que eu
conheço, eu fico achando que vai dar ruim. Sai fora, menina. Não vai dar ruim
nada.
Bom, quieta eu também não vou ficar. Que ninguém transforma o mundo quieta. A
pessoa transforma o mundo reivindicando, gritando.
E também se eu transformasse a mulher, menos uma vaca no mundo.
No manhã a comida não vai sair, não? Claro que vai, Juliano. Você acha que
vai comer pastinha e azeitona a noite toda?
Mas tá tudo muito gostosinho, Hermínia. Há tanto tempo que eu não como azeitona
e pastinha.
Muito gostosinho, não é, meu filho?
E a sua casinha é muito simpática, não é?
A sua casa é linda, dona Hermínia. Tem uma energia ótima, é super aconchegante.
Eu adoro vir aqui.
Obrigada. É própria?
É, própria.
É sim, né, Carlos Alberto?
Batalhei a vida toda pra ter essa casa.
Conta pra ela, Carlos Roberto. Nunca dependi de marido, nada.
É, a Hermínia sempre foi muito batalhadora.
Cantou na noite, foi porteira, fez comida pra fora. E olha... Interessante.
uma pena que o casamento de vocês não tenha dado certo.
Não, o nosso casamento deu super certo.
A gente não é mais casado, mas a gente é amigo, né, Carlos Roberto?
Tanto que ele tá aqui.
Seu marido não veio, né? O que aconteceu com ele? Tá em Dubai.
Viagem de negócio.
ótima. Assim eu posso sair com as minhas amigas, tomar meus drinks, fazer
compras. Ah, que legal, né?
Ele deve ter muito orgulho de você.
Mudando de assunto, gente. Mãe, o casamento vai ser em Búzios, tá?
Búzios? Eu aluguei uma casa extraordinária. Dez mil metros
doze quartos. Vocês vão amar.
Mas e Niterói, Júlia? Não é sem Niterói?
Então, não, tia. É que minha mãe se esmou com essa casa em Búzios. Tem
Mas, Juliano, você pensou nos seus amigos, meu filho?
Porque pra ir pra Búzios num casamento, você precisa pegar transporte,
alimentação, hospedagem. Tem amigo seu que não vai poder ir. Tá certo, tá
Você tá certa, mãe. Mas calma. A gente vai dar um jeito.
Sim, mas quem é que não tem dinheiro pra ir a um casamento em Búzios?
Carlos Alberto, muda de assunto, senão eu vou bater nela.
Sol, tá animado agora que vai ser pai?
Muito.
Aruan já é meu xodó.
Aruan é... Aruan é o... Mas... Desenvolve aí, Carlos Roberto.
O que é Aruan? É o nome?
Então, é menino? Não, pai. Aruan pode ser menino, pode ser menina. Tanto faz,
né? O Aruan é lindo. A Aruan é linda.
Ah, bonita. Eu gostei. Eu também gosto.
Não sei se é bom isso não, gente.
Aruan... Não sei... Peraí, deixa eu...
Dá licença aqui. Só um minutinho. Vou pegar vinho.
Só um minuto.
Aruan!
Desce aí!
Aruan, vem pra cá!
Aruan não é bom não, gente.
Marcelina!
Marcelina é excelente.
Eu queria água, na verdade.
Marcelina, Aruan não é bom não. Pestei lá dentro.
Ah, para, mãe. Não é bom por quê?
Por que não é? Porque Aruan não dá tempo de sair o ódio todo.
Bom é Marcelina. Porque Marcelina, você fala Marcelina!
Dá tempo de diluir o ódio inteiro, não dou na tua cara. Bobiou, minha filha?
Você nunca apoiou o caso do seu nome, tá?
Eu não acho. Meu nome é curto e é bonito.
Ah, mas o seu nome é bom mesmo. Seu nome, a gente fala assim, Ana, tua vaca.
dilui no vaca, no Ana, no... Bom, o seu nome é bom, hein? Não entendi o exemplo.
Ah, não.
Eu falei, velho, animal solto. Não tem, nem sei porque que eu... Que que é,
Juliano? Você tá assim pra mim, é o quê?
Conjuntivite?
Quer vinho, amor?
Por favor, querida.
Mas... Esse é o copo do vinho?
É que o copo do vinho é o copo que vira o vinho, assim, ó. Você virou o vinho,
virou o copo, virou o copo do vinho.
Entendeu? É simples.
Casalberto, pergunta mais sobre a vida de Marcelina. Convida pra ir na casa
dela, vai. E quando é que a gente vai poder conhecer o apartamentinho de
Ah, Casalberto é ansioso.
Ah, a gente pode combinar a qualquer hora, né? Claro, minha filha, vai no seu
tempo. Semana que vem, semana que vem.
Tá, pode ir semana que vem. Não, a gente quer também. Tá, tá, tá. Semana que
vem. Maravilha. Ai, meu Deus.
Lasanha na mesa.
É de quê? É de mussarela. De búfala. Não, é de vaca.
Tchau, gente. Vai com Deus.
Tchau, mãe. Tchau, Marcelina.
Tchau, querido. Tchau. Tchau, Hermínia. Tava ótimo. Boa noite.
Obrigada. Tchau, vai com Deus. Hermínia. Hum, merda.
Hermínia, a próxima vai ser lá em casa. Uma coisinha bem simples, como foi aqui.
Que tal dia 18?
Dia 18 eu não vou poder, que eu vou estar gripada.
Mas faz, você vai ser bacana.
Hermínia, você é demais.
Devia estar na TV.
Aliás, já teve.
Enfim, foi ótimo te rever.
Tchau, vai com Deus, tá?
Ai, puta que pariu, vaca.
Sai fora, mulher metida, arrogante.
Palhaça. O marido dela traindo ela lá em Dubai, ela tirando onda com a minha
cara aqui.
Devia ter botado laçante na bebida dela pra ela sair daqui se cagando inteira.
Ridícula. Quem não tem dinheiro pra ir pra Búzios?
Um monte de gente não tem dinheiro pra ir pra Búzios, maluca.
Desinformada. Cheio de gente passando fome.
E Marcelina, agora com esse papo de Aruan pra cima de mim, Caso Aberto não
nada. Fica mudo.
Eu, hein?
Caso Aberto é senil.
Como é que pode um neto amar o Aruan?
Isso é normal.
Só que é uma trilha, né, pra chegar na casa de Marcelina.
Olha isso aqui, se Marcelina derrapa aqui e rola lá pra baixo, bota aí uns
dias pra só os destroços.
Calma, Hermínia, calma.
Ai, meu Deus.
Não trago mais nada de presente pra Marcelina.
Cadê a casa dela? É teleférico pra chegar?
Nossa Senhora está subida, hein, Marcelina?
Presente pra casa nova.
Ai, obrigada. Nossa, que linda, olha.
Obrigada. Bom, a casa é simples, mas é de vocês.
Vamos, gente? Vamos embora.
Nem tirei bobe, nem nada.
Ai, que bom.
Ô, mãe, essa não repara muito, tá?
Bom, então vou parar de reparar a partir de agora, né, Marcelina? Que do portão
até aqui já tô com uma lista, minha filha. Não repara você nem o que sua mãe
diz, Marcelina. Você conhece a peça. Você sabe que se bate um juizado de
daquele, a nossa criança iria embora, né, Marcelina? Não sei por quê.
Não sabe por quê. Isolou a criança do mundo, botou sozinha no meio da
Que isso, Hermínia? Tem coisa melhor pra criança do que poder correr solta?
Caso aberta, a criança cai de uma árvore, quebra uma perna, vara um troço
olho, tem um hospital perto por aqui, a criança gripou. Vamos lá, casal. A
criança gripou. Como é que faz para lidar com 500 quilômetros de estrada com
criança cheia de catarro? Mas a criança vai poder brincar na natureza. Coisa
rara hoje em dia.
Vai brincar com quem, gente?
No meio de uma natureza dessa não tem ninguém. Meu neto cresceu. Quer brincar
bola? Vamos lá.
Hipótese. Só estão vocês dois. Como é que faz? Qual é o time?
Vocês três contra cinco mariposa? Você é bobo, Carlos Alberto.
Olha, mãe, a horta que o sol fez.
Tem pimenta, tem repolho, alface, rúcula. É um sonho. É esquisito,
Você não é sonhar com rúcula, com alface, com essas coisas.
Você sonha com o Santos Filipe, com o Múcio.
Sonhar com rúcula pra você é pesadelo, minha filha. Tá acontecendo alguma
Quer conversar com a mamãe, Marcelina? Ai, mãe, você não muda, né?
Em compensação, você mudou muito, né, minha filha? Porque do Santos Filipe pra
uma rúcula é muito abrupto pra uma mãe.
Mãe, vamos lá estrear o presente que você me deu?
Estreia isso, amor.
O terreno é todo irregular, né, minha filha?
Mãe, a cozinha só não tá muito organizada. Eu tô vendo, minha filha. Tá
coisa pra jogar fora.
Que isso?
Tem nada pra jogar fora?
Marcelina, esse pano aqui com esse rombo é pano de chão ou pano de prato, minha
filha? Que você ainda tá pendurando pelo rombo, ó. Pano de prato, né? Mãe,
sossega que eu tô fazendo um cafezinho bem gostoso pra gente na chaleira linda
que você me deu. Que bom que você gostou da chaleira, mas eu tô preocupada agora
que essa chaleira não combina com essa cozinha, Marcelina.
Você vai ter que reformar essa cozinha pra ter essa chaleira. Porque só a
chaleira solta aqui tá destoando. Ou então leva de volta pra casa.
Leva nada.
Adorei meu presente.
Vambora, xicrinha, cadê?
Ai, não tem, mãe. A gente usa copo de requeijão mesmo.
Marcelina, copo de requeijão, minha filha, é pra gente que tem intimidade.
Você recebeu uma visita aqui nessa floresta, você tem que dar uma xicrinha
pessoa. Eu vou fazer uma lista do que tem que comprar aqui pra casa.
Lixo, lixo, lixo. Mãe, não precisa.
Deixa que você mandona.
Ó, o café tá quase pronto. Tô só esperando a água ferver. Cadê o adoçante
não tô vendo aqui? Ah, não tem adoçante. Adoçante é péssimo pra saúde, mãe. A
gente adoça com mel.
Para, Marcelina.
Seu adoçante faz mal ao problema da pessoa que tá tomando adoçante.
O que não pode é você querer entubar a água lá abaixo da pessoa, um pote de mel
e ainda um copo de requeijão, minha filha. Que isso?
Você tá invadindo demais a vida das pessoas, Marcelina. Olha quem fala.
Que bom que vocês vieram. Gostaram?
Muito, muito.
A casa de vocês é muito legal.
É muito linda a casa, muito bonita mesmo. Vocês vão ser muito felizes aqui.
Meu neto que quando nasceu sequestra, né, Marcina? Leva embora da selva.
Dona Hermínia, eu fiz uma coisinha pra senhora. Aqui tem muita ave, cai muita
pena. Eu fiz esse brinco.
Não acredito.
Olha isso, casa aberta.
Você usa? Usa nada.
O mãe não usa isso não, não. Claro que eu uso. Eu, botando na saia justa. Aqui,
menino, olha que coisa linda, casa aberta, a pena dele.
Casa dele cheia de perna. É linda. É muito bicho que cai da árvore, né,
Olha só.
Casa Alberto.
Olha que combina com a bolsa e tudo, ó.
Usei essa bolsa e usei isso aqui, hein?
Não tá lindo? Eu uso, Casa Alberto.
Eu uso.
Eu uso. Eu usei.
Usarei. Muito bom mesmo.
Obrigada, casa linda. Você é criativo, né, menino? Muito bom. O hippie, no
geral, ele é criativo.
Muito bonita a casa. Deixa eu ir, então. Vamos? Até logo. Vamos, Casa Alberto.
Até logo.
Casa linda.
Teto é lambri.
Tchau, Marcelina. Fica com Deus, minha filha. Vamos.
Tchau.
Casa aberta.
Vambora, que eu tenho energia apenas. Eu tô toda tomada de brutoeja. Vem.
Aperta o passo que eu tô fechando minha glote, hein. Por aqui, vem.
Dona Hermínia, olha o que chegou pra senhora aqui. Que coisa linda, gente.
Quem deu?
Parece que foi a sogra do Juliano que mandou.
Deixa eu ver.
Eu, hein? Gosto dela.
Em retribuição ao delicioso jantarzinho em sua residência, eu e meu marido
convidamos você e seu ex para um jantar em nossa casa que realizar -se -á no
dia... Realizar -se -á um tapa dentro da futa dela.
Isso sim.
E ela é metida mesmo, né, dona Maria? Quanto dia ela esteve aqui?
Eu segurei a porta do elevador pra ela.
Ela nem olhou na minha cara.
Nem me agradeceu.
Me dá um papel e uma caneta aí que eu vou responder usando o seu ódio meu.
Não vou, pois, infelizmente, gripaloei
no dia do vosso jantar.
Eu não vou mandar flor, não. Vou mandar cacto. Pra quando ela pegar, se furar a
mão dela inteira.
Vaca.
Ai, mãe, nem acredito que chegou a hora de fazer esse ultrassom.
Está tudo certo aí, doutora? Que Marcelina bota muita comida para dentro,
comida, não?
Não, é normal a gestante enjoar. Mas a Marcelina e o bebê estão ótimas. Vamos
ouvir o coraçãozinho do bebê.
Esse é o coração do meu neto?
Não está muito acelerado com taquicardia, não, gente?
Marcelina, a criança está ansiosa no útero já.
Mãe, o coração do feto é mais acelerado mesmo.
Não tinha isso na sua época, né?
Marcelina, você já decidiu sobre o parto?
Então, eu queria saber mais sobre o parto ecológico. Que ecológico,
Você não é ecológica?
Eu, hein? Fica horas no banho.
Marcelina fica horas no banho, doutora. Bobeou, tem rio aí que secou por causa
de Marcelina.
Tá ar -condicionado, se deixar, ó.
Ela fica o dia inteiro no ar -condicionado, porque a mar de ozônio tá
Se você botar a luneta assim, ó, tá escrito Marcelina. Sai fora, se é tudo
ecológica. Vambora, como é que tá isso?
Não, dona Hermínia. É só o jeito de falar sobre um parto humanizado.
Mas o que é humanizado? Dá pra você me explicar, pra eu sair do nervoso? Claro.
Parto humanizado é um parto que pode ser feito aqui, pode ser feito fora do
hospital, na casa da gestante, em um ambiente mais acolhedor.
A casa de Marcelina é acolhedora aonde? Já foi na casa dela?
Ah, gente, Marcelina se abrir a porta da casa dela, bobeou sem conta com a
Jagatirica. Mãe, fica quietinha. Deixa eu conversar com a médica.
Eu vou ficar muda aqui, Marcelina. Vai.
Então, doutora, o que eu preciso ter em casa pra poder ter o bebê lá?
Uma banheira com água bem quentinha, parecida com a do útero. Não tem.
Você não tem banheira?
Você vai botar meu neto aonde? Na chaleira que eu te dei? Conta pra mim.
você tá atrapalhando.
Olha, Marcelina, eu vim aqui pra me aborrecer. Eu não sei nem por que você
trouxe aqui. Porque a gente combinou de ir na feira de gestante que você ficou
de dar o berço, esqueceu?
Quer dizer, falar eu não posso, mas comprar eu sirvo.
Mãe, eu preciso da sua ajuda pra comprar umas coisinhas.
Esquece coisinhas, Marcelina.
Eu vou entrar naquela feira, vou comprar o berço e tá bom, vamos embora.
Vou levar, vou levar, vou levar, vou levar uns oito desse aqui, Marcelina.
Entre esse e esse que eu gosto, qual que você prefere, minha filha? Ah, não sei
se eu gosto muito disso, não.
Ótimo, vou levar os dois.
E entre esse e esse que eu gosto também, qual que você prefere mesmo, sabendo
que eu vou levar os dois?
Firuê. Ótimo, vou levar os dois.
Não, não, vou, vou, vou, vou. Deixa eu ver, Marcelina.
Não é bom não, hein, minha filha? Estão porrorosas. Vem.
Cadê a chupeta, hein?
Que isso?
Não existe chupeta. Eu não vou dar chupeta pro meu filho.
Você disse que não vai dar chupeta, que não vai dar doce, que não vai dar nada
agora, Marcelina.
Primeira merda que essa criança fizer, você amarra ela na frente da televisão
com a chupeta baiada no açúcar pra ter um momento de par, minha filha. Mãe, eu
não quero que meu filho chupe chupeta.
Respeita. Na tua casa. Na minha casa vai chupar chupeta, vai ter doce, vai ter
tudo. Essa criança vai me amar e vai passar a terraço de você, Marcelina.
isso na sua cabeça.
Não vai dar chupeta, coitada, até pena.
Ai, mãe, vambora.
E o berço, Marcelina? A gente veio aqui por causa do berço.
Ah, não sei, tô meio na dúvida nesse negócio de berço, mãe.
Não, porque o Fala andou pesquisando uma linha de pensamento que diz que é legal
a criança dormir no chão, que é pra ter mais autonomia. Dormir no chão, coisa
nenhuma, Marcelina.
Manda Sol cuidar daquele cabelo dele, cortar aquele tufo de cabelo que sai de
dentro do nariz dele, clarear o dente dele, em vez de se meter na vida do meu
neto. Meu neto não vai dormir no chão gelado da sua casa.
O sol não acha o chão gelado. O sol não sente o chão, minha filha. O sol anda o
dia inteiro descalço. Ele criou uma casca de tartaruga concreta embaixo
pé dele que o pé dele não comunica com a temperatura da terra.
Mãe, olha só. Eu e o sol vamos fazer o que a gente achar melhor.
E eu vou fazer o que eu achar melhor. Eu vou comprar esse berço contra a sua
vontade. Porque essa teoria aí do sol é muito boa na Inglaterra, no país
civilizado, detetizado. Na sua casa, Marcelina, é berço com grade, igual o
Safari, pro meu neto sobreviver.
Ai, tá bom. Compra seu berço com grade que eu vou ali olhar a decoração do chá
de bebê.
Marcelina, minha filha, olha quem eu trouxe. Vem, bora.
Olha lá ela.
Minhas amigas, Marcelina, vai levando as fraldas na mão.
Recebe aí o cardume, minha filha.
Olha aí, pode ir, amor. Vai, entrega a fralda para ela e sai, tá? Não fica
fazendo pergunta, não. Olha o barato, olha lá. Como é que é isso? Você pirou?
Minhas amigas, que eu trouxe chá de bebê de Marcelina.
De onde é que você conhece essas senhoras todas?
O velho brota, Juliano. Você tá andando na rua, passa um velho do outro lado da
rua, você dá tchau, acenda, ele não tem o que fazer, ele responde pra ver se tem
um link, conhece alguém que você conhece.
Ah, tá legal. E nesse caso o grupo fica gigante. Fica gigante, nada que o velho
vai morrendo, vai renovando. Amanhã esse grupo aí é outro.
Por isso que a gente tem que estar sempre recrutando. Presta atenção.
No meu casamento, eu não quero essa galera toda. Seu casamento bobeou nem
quer ver?
De tanta raiva que eu tô, você tá desgraçada?
Pelo amor de Deus, eu ganhei um caminhão de fralda. Que exagero, pra que isso?
Não precisava. Não precisava, você que não cagava, Marcelina.
Isso é prisão de ventre. Neto meu vai nascer aí com 50 cocô garantido.
Ah lá, as velhas não saem da porta da cozinha. Elas comem, elas não têm freio,
não têm fundo, não têm nada. O garfão não consegue nem passar, coitada. Tem
chamar alguém pra despertar elas dali. Mas como que faz pra tirar dali? É só
chamar a velha líder, que as outras vão atrás. A velha líder é a Saléia. A
Saléia!
Passa! Vai!
Tem doce pra lá.
Circula. Ó, as outras, igual o Pinto atrás.
Ali, ó.
A zalefa tá lá.
Vai pra lá.
Maravilhosa. Oi, gente, o que é isso? Por que essa gente chegando de uniforme
aqui? Ah, isso aí, Marcelo, é presente meu pra você, tá?
Contratei um paramédico pra poder ensinar você se der merda com o meu
você salvar ele até chegar na civilização.
Pode entrar, vem.
Coisa linda, só dispensável. Vamos embora.
Olha aqui, ó. O primeiro exercício é o seguinte. O bebê engasgou, parou de
respirar. Como é que resolve?
Acho que é assim, ó.
Não, assim você afundou o pâncreas da criança, né? Nesse momento aí, estaria
pâncreas. Mãe, como é que você ia fazer, então? Eu não vou fazer, Marcelina. Eu
sou vó, vou estar nervosa, desmaiada no chão. Preciso que vocês aprendam.
Tapinha nas costas. É, tapinha nas costas, para não engasgar.
Não, isso aí você explodiu o pulmão da criança, né?
Moço, pelo amor de Deus, algum exercício na frente, que por trás meu neto já
teria falecido.
Eu acho que a gente podia ir pro banho.
Banho vai, melhor, mais calmo.
Isso, numa aguinha morna, coisa linda. Aqui, ó, pega o sabonete agora.
Matou a criança, a apneia?
Que isso, é acrobacia, gente?
Pelo amor de Deus, gente, pega ali. Cadê um pano pra enrolar essa criança?
Passando mal já.
Marcelina, morar colado, colado no hospital, hein? Você já viu que não tem
condição nenhuma.
Foi confuso, mas rolou. Rolou, mas não tem um ser humano, né? Tamo aí com o
Frank Stein.
Marcelina... Ai, gente, a bolsa estourou. Que puta que... Gente, caso
nem chegou ainda. Marcelina, vambora.
Ai, meu Deus, tá doendo minha cesariana. Gente, vambora pro hospital.
Calma, calma.
Respira, amor, respira.
Tá tudo certo.
Amor, e o parto humanizado?
Não vem puxar assunto agora não, menino. Vambora que ela vai expelir minha neta
aqui nesse porcelanato.
Bora! Calma, Hermínia. Ai,
Marcelino, cuidado. Como é que você vai contar pra sua filha que o nome dela é
Aruan, hein? É uma situação muito delicada, minha filha. Ela vai ficar
puta. Gente, alguém toma a toalha aí?
Ainda bem que minha neta nasceu aqui em Niterói.
Imagina se essa criança nasce na selva. Tá demorando, né?
Bota a pilha errada, não. Me dá um cigarro aí. Ah,
é, gente.
Ah, Hermínia, posso te falar uma coisa?
Mas você promete que não vai ficar chateada depois?
Já tô chateada antes de você falar qualquer coisa. Não tem nem como te
isso. Mas fala que eu fico irritada, te dou um fórum e me distraio aqui.
Eu não roubei aquele cinto de crescer. Ah, meu Deus, voltou esse assunto.
Assim que você ganhou o cinto, a mamãe falou, pega esse cinto pra você, que
cinto é pequeno, não vai caber em Hermínia, que ela tá gorda. Quer dizer,
mamãe me autorizou a pegar o cinto pra mim. Então foi formação de quadrilha na
família, né, Ieza?
É minha própria mãe com minha própria irmã me aplicando um golpe. Ai, William.
Tá vindo aí uma nova geração na família. Vamos zerar o passado.
Não tem como zerar ódio acumulado, Ieza. Bota isso na sua cabeça.
Inclusive, quando minha neta nascer, vou situar ela quem é você, tá?
Quando ela botar a cara no mundo, vou estar ali na borda e falar pra ela, ó,
toma cuidado com o que sua tia rouba. Sua tia furta na família.
Será que nasceu? Ai, meu Deus.
Vem cá, eles vão nos dar gente aqui fora. Me dá três cigarros IPCA aqui no
peito, parar de depender de você, Ianda. Ai, você acaba com todos os meus
cigarros. Vai fora, deixa de ser egoísta. Vou lá dentro ver o que tá
acontecendo.
Isso, Marcelina, faz força.
A senhora não pode ficar aqui assim. A senhora precisa sair.
Eu não vou sair coisa nenhuma. Não atrapalha a minha vida, não.
Já botei até essa touca aqui que não tá nem me favorecendo. Eu não posso ir
embora, gente. Minha neta vai nascer. Vai pegar uma BR -101 que Marcelina mora
na puta que pariu. Eu preciso ver minha neta aqui agora.
O quarto não tá progredindo. A criança tá parada no canal vaginal. Ai, meu...
Abra essa vagina, Marcelina.
Tá caindo, mas tem duas voltas do cordão, uma volta do pescoço. Meu Deus,
certei tesoura? Eu tô com tesoura de unha aqui, hein?
Tá nascendo.
Ai,
meu Deus, como é que tá minha neta? Tá tudo certo, gente.
Marcelina, dá um beijo nela aí pra mim, eu não posso chegar aí que eu não tô
esterilizada.
Meia, você tá olhando pra onde? Amor, fecha a vagina de Marcelina pra mim, por
favor. Gente, me tira daqui. Tô ficando nervosa.
O nome dela é Aruan. Deixa.
Deixa pra lá. Deixa.
Aruan.
Ai, mãe, ainda bem.
Graças a Deus que você veio. Tô desesperada. Eu não tenho tempo pra nada
Eu não tomo banho. Eu não cago. Eu não durmo. Eu não aguento mais.
Dá aqui, minha neta, pra mim. Vai dormir, Marcelina.
Meu amor, eu tô...
Mãe, qualquer coisa você me chama, então? Não tem como eu te chamar, hein?
conta comigo, senão que eu vou estar enrolada com minha neta.
Coisa linda, meu Deus.
Não desmoraliza a vovó não, tá?
Não vem bem com o negócio de soro agora não, que mamãe volta aqui e busca você
do colo de vovó, a vovó fica prejudicada.
Aí sabe o que vai acontecer?
A vovó já tá apaixonada por você, não vai dar você pro colo de mamãe, a mamãe
vai ficar muito puta, vai bater boca com o vovó.
Tá?
Conclusão, você nasceu, não tem nem meia hora, já tá arrumando confusão com a
família.
Fica quietinha aqui no quarto de vovó, tá?
Ai, meu Deus.
Vamos aqui, vai.
Para de chorar.
Jesus.
Mãe, cadê o chupeta, Carol?
Por isso que ela dormiu rápido.
Eu falei que eu não queria que desse.
Não é você que tem que querer, não, Marcelina. É criança.
Ah, e quem disse que ela queria? Ué, eu mostrei a chupeta, se botei na reta da
visão dela, ela regalou o olho e eu entreguei pra ela.
Ai, mãe, sério, você tá fazendo tudo errado.
Marcelina, deixa eu explicar uma coisa pra você, minha filha. Você vai educar
essa criança que eu vou estragar na hora.
Tá? Eu vou dar doce, vou dar laptop, vou dar tudo.
Aceita. Você tá entendendo que isso não é correto? Onde é que você já se viu dar
doce pra criança?
Eu não tenho condição de ser correta, Marcelina.
Não viaja.
Você virou as costas, enfiou doce dentro da goela dessa criança.
A neta é minha. Se mete na sua vida. Se mete você na sua vida.
A minha família agora sou eu, meu marido e minha filha.
Eu limparia os trilhos do metrô. Esse é o ciclo da vida.
Os filhos não ficam bebês pra sempre.
Eu a salvador.
Eu aceitaria a vida como ela é. Deixa a masculina
viver a vida dela.
Eu daria prazo pro pé.
Eu tomaria banho gelado no inverno. A minha família agora
sou eu, meu marido e minha filha.
Eu mudaria até o meu nome.
Eu viveria em greve de fome.
Desejaria todo dia.
Cara do Alberto, me ajuda aqui com minha mala.
Permínia, não te avisaram. Você não vai comigo, não. Mudou tudo.
Vambora, casa aberta. Atrapalha minha vida, não. Guarda minha mala aqui. Não
cabe. O Juliano me pediu pra botar uma porção de coisas aqui em cima da hora.
tô levando a Valdeia.
Valdeia vai no porta -luva. Sai daí.
E você vai no porta -mala, né? Que a tua carcaça não cabe aqui no porta -luva,
não. Ei, vamos parar com essa briga. Aqui é tudo em família, por favor.
E além de família, hoje eu sou convidada do casamento.
Tá? Segunda -feira, nove horas da manhã, eu volto a ser empregada doméstica.
Inclusive, ó, quero falar um negócio com você, ó. No momento.
Sai fora com o negócio de aumento.
É muito difícil lidar com você, sabia?
O quê, o quê?
Essa cara de tonta.
Enquanto família, eu tenho vontade de te mandar a merda, Valdeia. Agora,
enquanto patrão, eu me ferro na Constituição.
Pronto, sua carona chegou, você vai com ela. Não precisa mais brigar.
Vambora!
pra alugar um carro conversível no Brasil, né, Lucelena?
Ah, sei sim. Que glamour, Hermínia.
Glamour. Glamour em Hollywood, Lucelena. Aqui no Brasil, você para um carro
desse no sinal, você toma um tapa na cara.
Ai, gente, como a Hermínia é chata. Entra logo, garota. Tô cheia de babado
te contar.
Ah, não vem não, Lucelena.
Vem não que você fica trancada de avião dos Estados Unidos até aqui, fica cheia
de assunto entalado e daqui a pouco você bate com esse carro, hein? Então a Iesa
dirige. Quer dirigir? Não, Iesa não vai dirigir coisa nenhuma.
Iesa é desequilibrada.
Primeiro homem que passar na rua, ela gira o pescoço igual exorcista, cai do
penhasco. Ah, Hermínia, para com isso. Entra aí, vai. Entra aí, entra aí,
Hermínia. Bora, bora. Vamos, vamos.
Como é que estão as mulheres da sua vida, Lutelena?
Ué, Lutelena sumiu? Quando?
Sumiu o quê, garota? Não tem nada pra sumir, não.
Eu... Deixa de ser ridícula, Lutelena.
Tô pra boate com você, vieram dois sapatão com cabelo azadelto na nossa
uma puxou assunto com você, te levou pra beber, você sumiu na boate, a segunda
sapatão ficou acoplada em mim com cabelo azadelto me querendo, eu tive que
zanzar a noite inteira pra despistar a acoplada.
E Lucilena lá com a outra. Como é que é pegar mulher agora?
Pegar mulher eu sei como é, agora eu quero saber se Lucilena assume.
Como é que você sabe como é que é pegar mulher, Inza? Ué, já peguei.
Meu Deus do céu, quem foi a santa que pegou a Iêza?
Gente! Ó, pra governo de vocês, eu tô bem transando com carinha, gato!
Então a sapatão voltou pra Iêza? Não, comigo não tá não, porque eu peguei uma
vez só, solta, avulso. Bom, então tem uma família aqui dentro do carro, somos
três. Com quem tá a sapatão na família?
Ah, com você, né? Comigo não tá de jeito nenhum.
Vira agora, boba! Sai fora, Iêza!
Tem nem roupa pra ser sapatão, deixa de ser louca!
Ah, fica brigando aí vocês dois, me deixa em paz, tá?
Agora você vê, né, gente.
Casei. Cuidei de marido, criei filho, nem lembrei de seu sapatão.
Bota uma música aí, gente.
Adoro essa música.
Ai, adoro.
Vem cá, meu bem, me cola um carinho. Eu tô lelém, pego com
beijinho. E me dá o prazer de ter prazer comigo.
Me aqueça, me vira de ponta a cabeça.
Me faz ligar com essa paz.
Me deixa de quarto no ato.
Nossa,
viemos voada, né, gente?
Estrada delícia, maravilhosa.
Puta, olha a casa.
Já pensou em perder um celular aqui dentro? Não acha nunca, né? Vem pra
vassoura aqui, gente.
Olha lá como é que ela fica.
Igual o Mickey na porta do castelo dando tchau. Dá tchau para a desgraçada.
Tudo bom, querida?
Vem. Ela é armada, né?
Eu tenho a bajula em casa que é igual o cabelo dela.
A gente não está em condição de julgar cabelo de ninguém, não, hein?
Se o quarto de alguém for melhor comigo, vou ficar uma arara. Claro que o meu
vai ser melhor que o seu, Lucelena. Sou mãe do noivo, não viaja.
Negação, tia. Isso não é justo.
Vamos tirar no zerinho. Ai, gente. Vocês complicam.
Zerinho.
Ganhei. Não estou de acordo.
Gente, o quarto aqui é tudo excelente. Vai ser tudo vista a mar. Vem.
Meu Deus, o tamanho do corredor, gente. Dá pra pegar um táxi.
Essa vaca... botou a gente aqui nesse quarto ridículo, cubículo, uma grudada
outra, partindo do princípio que a gente se ama. Olha, gente, essa mulher, ela
espalhou essa casa inteira de nobreza. A gente tá aqui, a gente aqui é plebe,
hein? Só que não configurou nem quarto, gente.
Tem nem armário. Olha aqui, ó. São duas gavetinhas.
A gente vai ter que dividir aquelas gavetinhas por três pra botar nossas
Aqui não tem nem uma mesinha de cabeceira, não tem um abajur, não tem
A gente vai botar uma garrafa d 'água, gente. Isso aqui é tudo improvisado.
Vambora, gente. Vamos andar pela casa e conquistar território.
Eu aposto que o quarto dela vai ser... Sete vezes o nosso quarto.
Eu vou saquear, eu vou roubar ela inteira. Deixa ela comigo.
Não vou nem levar bolso pra ter mão.
Herminha! Você tá dando um tapa nela!
Oi, querida. Oi, tudo bom, querida? Fica à vontade, aqui é o banheiro. Ah, é?
Esse aqui é o quarto, meu bem, meu quarto. Nossa, que lindo, né? Vista mar.
E vocês estão bem instalados? Ah, a gente tá excelente. A gente tá ótimo. A
gente tá num quartinho pequenininho que você botou a gente. São três caminhas,
só um grudado no outro. Parece três leitos.
Mas não foi isso que eu vim falar com você, não. Vim falar o seguinte. A gente
tá precisando, necessitada mesmo, de três travesseiros. Que aí eu venho aqui
venho olhar assim. Você tá com um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito,
que você não vai usar. Você cede três pra gente, que você não fica desfocada,
tá? Outra coisa que eu tô precisando é o seguinte. Um abajur.
Você tá com vários aqui também.
Um só pra gente poder enxergar o ser humano quando escurecer e não ficar no
breu. Claro, querida. Obrigada. Mas e cobertor vocês também querem?
Cobertor não precisa porque a gente não tem ar -condicionado. Então não precisa
de cobertor, né? Não faz sentido.
Claro. E vocês não estão com fome? Não querem comer alguma coisinha?
Não, fica tranquila com o negócio de lanche que eu tô passando na cozinha
e tô levando o mantimento lá pra base, tá bom, querida?
Deixa eu te falar uma coisa. Vai lá visitar a gente.
Lá é mó barato. Entra assim. Quando você entrar assim na porta, vão ter três
leitos. Primeiro leito já à esquerda sou eu. Tô no leito um.
Tá? Até logo.
Seu cabelo tá excelente. Brinco, tudo.
Tudo combina com tudo.
Excelente. Ah, peraí.
Desculpa. Ih, amarrotei sua cama.
Ai, desculpa.
Só um minuto.
Quarto bonito.
Tô de madeira.
Bonito aqui, desgraçada.
Para!
Estou chocado com este bolo!
Que lindo, meu Deus.
Que lindo. Mas não é muito bolo, não, gente? Cinco andares de bolo, mãe? Claro
que não, garoto. É só o primeiro andar que é verdadeiro. O resto é tudo falso.
Não vira. Vendo esse bolo, a minha ficha tá caindo. Eu tô ficando nervoso. Para!
Tá nada.
Vai ser maravilhoso.
Juliano, os convidados. Tudo resolvido. Vão sair cinco vans de Niterói, trazendo
a minha galera e os amigos da família.
Maravilha. Tô tendo uma síncope aqui. Vem.
Hermínia!
E suas irmãs? Cadê?
Vocês brigam muito, né? Brigam muito.
Vocês são doidas, mas...
Mas são engraçadas.
É, sim, a gente é super engraçada. Deixa eu explicar pra você como é que
funciona. Pela frente, a minha família é toda descassetada. Por trás, é só amor.
Agora, a sua, eu andei observando, achei super engraçada também. Porque pela
frente é um amor, por trás é cagada.
Engraçado, né? São formatos diferentes.
É, nós somos bem diferentes.
Mas e a Marcelina? Será que ela vai conseguir ver?
Ai, menina, eu tenho tanta dó dessa menina, mas tanta dó.
Primeiro filho, sem grana, sem uma babá e você não podendo ajudar.
Vai ficar difícil, não é? Não, querida, fica tranquila com a Marcelina, que a
Marcelina é despachada. Se mete mais assim, bem na tua vida, né?
A Marcelina, quando eu não dou dinheiro pra ela, eu dou valores.
Parabéns. Mas eu fico preocupada, assim, eu fico preocupada com seus convidados.
E o povão de Niterói.
Será que eles vão conseguir vir? Porque a van tem que ser bem grande, não é? É,
mas ela é grande. Ela é do tamanho da tua arrogância.
Você me acha arrogante? Eu te acho várias coisas, né? Mas eu tô mais
com o casamento do meu filho do que ficar te dando uma situada.
Ah, minha Emília, não deve ser fácil ser sozinha, separada e sem marido. Me fala
uma coisa, o que você faz pra distrair, pra relaxar? Ué, eu tô com esse líquido
aqui, que dentro desse copo. Se eu pegar esse líquido e varar na tua cara, eu
fico relaxada, distraída. O que você acha?
Não vai precisar essa baixaria, por favor.
Passar bem. Sai pra lá, desequilibrada.
Puta que pariu, garota.
Você derrubou o bolo inteiro.
Cara, você tá muito desequilibrada. Dá a mão aqui. Ai, meu Deus, eu virei um
suco em você, menina.
Levanta.
Nossa senhora.
Ai, coitada.
Ai, coitada.
Ela derrubou o bolo todo.
Eu? Ela.
Você provoca ela desde o começo.
Pode ser.
Ó, meu filho, eu tô fazendo uma festa linda pra você.
Pra que essa festa toda?
Hein? Pra quê?
Não é só no dia do meu casamento que eu espero a aceitação de vocês, não, mãe. É
todo dia.
Você e o papai fingem.
Uma vista, uma vista, né?
Linda, linda casa.
Não fica assim não, menina.
Vem, vou te ajudar e tal. Levanta daí, vem.
Vamos lá, enxuga essa cara, penteia esse cabelo, conserta esse rimo e vamos lá
resolver o bolo do seu filho. Não, Hermínia, não. Eu acho que eu tô
ficar reclusa. Vai ficar reclusa lá dentro do supermercado comprando
pro bolo. Vambora, menina, levanta daí. Vem arrogante de si mesmo.
Vem, dá a mão aqui.
Vou te ajudar, vem.
Nossa senhora, pentei o cabelo.
Tá lindo, tá igual um periquito. Vem.
Parou, parou, parou.
Ai, meu Deus do céu.
Fala, garoto.
Documento, senhora. Eu não tenho.
Então, senhora, não pode dirigir.
Exatamente. Entra aqui e dirige pra mim. Não, eu não posso. Eu não posso sair
daqui. Menino, deixa eu falar uma coisa pra você. Meu filho vai casar, o bolo
dele caiu no chão, quebrou inteiro, tá destroçado em casa. Eu preciso ir no
supermercado comprar ingredientes pra fazer outro bolo.
Tem como a polícia brasileira ajudar duas mães passando por um desespero
Eu não posso largar meu trabalho.
Menino, deixa eu te falar uma coisa pra você sobre minha saúde.
Não tô bem mais, não.
Tô velha já.
Eu tô com colesterol alto.
Tô com artrose.
Eu tô com glicose alta.
O meu osso já tá esfarelando, ó. Já tem um tempo já, de dois anos pra cá, meu.
Perdi dois centímetros de fêmur.
Dirige pra mim, menina. Vai pro supermercado pra mim. Eu tô sem fêmur.
Essa senhora não sabe dirigir? Como? Olha na cara dela, vê se ela tem
de dirigir. Avalie a fuça dessa mulher. Você que avalie a fuça. Nos carros que
vão passando, avalie a fuça dela.
Essa menina, ela não enxerga um palmo na frente a quantidade de rímel que ela
bota na cara dela. O olho tá empedrado, menino.
Entra. Vai dirigir que você tem mãe. Você sabe como é que é.
Abra aqui pra mim, periquito.
Bora.
Fermento, leite, ovo, aqui ó, chocolate.
Vem, que mais tem?
Achou o fermento? Tá lá pra... Tô completamente perdida nesse lugar.
Meu Deus, ficou um fermento. Olha, eu vou precisar desse fermento, menina.
Infelizmente, eu não vou poder te ajudar, querida. Eu fiquei de fazer um
uma boda de 50 anos pra um casal de amigos meus. Deixa eu te falar uma coisa
você, minha filha. 50 anos casado hoje em dia não se comemora mais, se lamenta.
Esse bolo aí desse casal só se for pra tacar na cara um do outro pra poder
esquentar a relação.
Passa esse fermento pra cá que meu filho vai casar amanhã. Eu preciso fazer um
bolo pra ele que ele ainda tá na ilusão, garota.
Olha, infelizmente, eu já me comprometi.
Mas 50 anos casado tá pra lá de 70 anos de idade. Se casar, não pode mais comer.
bolo não, minha. Tá com açúcar alto, com certeza. Você vai matar esses velhos,
senhora. Mas o bolo não é só pra eles.
Tem os convidados também.
Oh, meu Deus. Não tá sendo compreensível.
Senhora, senhora.
Aqui, ó. Olha, vamos resolver isso, não é? Já tem um tempo já que ela... Tem.
Pode pegar aqui. Pega, amor. Tá comprando você.
Olha, mas tem... Dá aqui pra mim.
Olha, ó. Ih, vai passar Natal onde? Dá aqui. Pagou?
Ih, vai viajar, vai brigada, tá?
Vem, querida. Uma hora ou outra vai ter fermento aí.
Você declara esse dinheiro?
Você tem cara de que não declara, hein?
Fica de olho nela, hein?
Vem, gente.
Valdeia, ajuda aqui.
Bora. Emília, tô de convidada aqui hoje, hein?
Tem 700 empregados aí pra você explorar. Não vai me explorar, não.
Isso aqui é a Valdélia, tá?
Ingrata. Isso aqui é um policial amigo meu que tá me ajudando. Prazer.
Tenente Rafael.
Mas aqui no velcro, colaram Adolfo. Como é que faz?
É Rafael Adolfo.
Ah, vou te ajudar aqui a colocar as coisas. Não é aqui não. Tô aqui pra
trabalhar hoje. Vou te ajudar.
Vem cá.
É... Pra botar aqui.
Desce aí, ridícula garota. É pra cá agora fazer esse bolo agora, palhaça.
Mudou pro local.
Valdé... Valdéia!
Opa! Gente, muito mosquito aqui ainda.
Aonde? Toda vermelha aqui, ó.
Toda empolada aqui. Vai fora.
Concha. Manhada. Bota aqui, querido. Obrigado. Dá licença aqui.
Emília, muito pavio curto, né? Brigou com a sogra, destruiu o bolo, agora tá
tentando descascar esse pepino. Emília é muito impulsiva.
Se tivesse ignorado a desgraçada mão de vaca, nada disso estaria acontecendo.
Mas é exatamente o que eu sempre digo.
Quando um não quer, dois não brigam. Mas não briga mesmo.
Dá licença aqui. Querido, faz favor pra mim.
Prende aquela ruiva ali. Ela é maconheira, tá? E a que tá do lado dela
cúmplice. É irmã. Prende uns 40 minutos só. Só é o tempo do bolo mesmo. Bota
onde, Hermínia? Servão e cana.
Dá licença um pouquinho, senão vou ter que autuar as duas por uso de
entorpecente. Não, pode revistar. Não pode ser preso.
Bananada, pipoca, cocada, queijadinha, sorvete, chiclete,
sanduíche, chocolate.
Paçoca, mariola, quindim, tomelo, dope de abóbora,
cocô, bala, juquinha, algodão, dope manjar.
Venha pra cá.
Vem comigo,
a hora é pra já.
Não é proibido.
Ai, que graça.
Criança! Oi! Vem cá!
Vocês fizeram esse bolo? Fizeram não, né, meu amor? Eu fiz, né? A patoca
fui eu. Essa aqui só encaixou um isopor assim.
Logo vi, porque mamãe não sabe fazer bolo. Vem cá. E vocês duas estão bem?
Ah, estão me empurrando com a barriga, né?
Ana. Ana.
Mãe.
Gostou, meu filho?
Obrigado, viu?
Obrigado, Ana.
Vem, vem, vem.
Obrigado. Viu, periquito?
Eu não sei nem como te agradecer.
Amigas.
Amigas. Tá.
Quer dizer, vamos, né? Vamos deixando a vida, né? Não adianta.
Tá muito... Né? Que a gente não vai vendo como é que funciona e vamos
vamos. Tá muito bom.
Oi mãe, olha quem tá aqui comigo.
Coisa mais linda, tá fofo... Garibe, você não quer deixar ele passar uns dias
com vovó não?
Deixa...
Quantos dias, mãe? Uns 10 anos, garimba. Aí quando entrar um adolescente e
começar a fazer merda, eu vou fazer folfe, né?
Mãe, você tá linda.
Eu tava morrendo de saudade de você.
Eu também, minha filha. Tava louca pra fazer as partes com você pra voltar a
invadir sua vida, Marcelina.
Invadir coisa nenhuma, que agora você já entendeu como as coisas funcionam.
Exatamente. Antigamente eu invadia sem saber, agora vou invadir consciente,
pocada. Tô perdendo alguma coisa?
Ai, mamãe, daquele jeito dela.
Hum, tá, é melhor sair de perto.
Volta aqui, Carlos Alberto, quero falar com você. Nem precisa, eu já sei. Vai me
chamar de velho, dizer que eu tô esfarelando e depois me mandar ir à
tá se achando médium, né, Carlos Alberto?
Não é nada disso, tá?
Eu tô vindo aqui, na verdade, te agradecer a família que você me deu.
Obrigada, Carlos Alberto.
Mas admitir que tá ficando velho, você não quer não, né? Ah, vai pra merda,
Casalberto!
Bom, gente, é... eu... Eu morro de vergonha de falar em público, mas eu
dizer que eu tô muito emocionado e nunca imaginei que
eu fosse estar vivendo esse momento.
Um dia minha mãe chegou pra mim e falou assim, meu filho, você é gay?
Eu falei, sou, mano.
Ela pegou e saiu.
Eu fui atrás dela e falei, mãe, algum problema?
Ela falou, não, meu filho, nenhum problema.
Meu medo é lá fora, porque o mundo é mau.
Mas aqui dentro de casa eu estou fechada com você.
E isso me deixou muito mais forte para o mundo. Isso aumentou minha autoestima,
aumentou a minha confiança, minha coragem.
E é por isso que eu estou aqui hoje.
Mas eu sei que, infelizmente, essa não é a realidade de todas as famílias.
Obrigado, mãe.
Por você me ajudar a ser quem eu sou.
Juliano, meu filho.
Deixa eu só dar uma palavrinha pra aproveitar que você falou de mim. Um
não vou... Tem certeza?
Eu não vou fazer você pagar milco não, Juliano. Tá bom. Eu vou falar do
tá, meu filho?
Gente, eu tava muito emocionada ali, eu vou falar uma coisa pra vocês, vai ser
rapidinho, tá?
Se não eu esqueço, é daí pra pior.
Eu queria dizer que se eu pudesse, eu levava meus três filhos agora de volta
casa.
Eu começaria tudo de novo.
Eu sinto falta da papinha, eu sinto falta da fralda suja, eu sinto falta das
noites sem dormir, porque mãe não dorme.
Mas vocês foram embora, seguiram o caminho de vocês, está tudo certo, eu já
entendi isso, eu torço por isso.
Mas o que mais importa é que a gente nunca vai se perder, porque aqui tem
A gente sofre junto, a gente passa perrengue junto, tudo junto.
Meu filho, deixa a mamãe falar uma coisa para você. O que você está fazendo
aqui, meu filho, é muito bonito.
Você vai inspirar muita gente.
Eu estou muito orgulhosa, meu filho, de você estar seguindo o caminho do amor.
Obrigado.
Quando eu olho para você, para Marcelina, para Garib, eu penso que eu
Eu penso que valeu a pena todo o meu esforço.
O que vocês precisarem de mim, eu vou estar aqui, tá, gente?
Oi, meninas. Oi, gente.
Casa Alberto, acho que você não tá dançando muito bem, não, hein? Desfaça e
Eu, hein?
Valdeia, vamos dançar aquela dança que a gente dança assim, ó.
Um, dois, três, quatro.
Um, dois, três. Lembra, seu Gonçalo?
Lembra?
Um, dois, três, quatro.
Música Música
Tá linda, a vovó tem vontade de esmagar você.
Não pode botar na boca, não.
Vovó veio passar Natal com você, sabia?
Ai, meu amor, vamos dormir que vovó é muito apazanada. Você não deixa ela
comigo, né?
Gente, vamos começar aqui o Amigo Oculto? Vamos, vamos, vamos.
Eu posso começar, Hermine? Vai.
Então eu começo.
O meu Amigo Oculto me detestava. Eu? Eu?
Se bem que todo mundo te detestava. Vai, fala mais características.
É você mesmo, Hermine.
Estou tão feliz de estar aqui com vocês. Depois do casamento dos meninos, tudo
mudou. Eu me separei, me renovei. Estou ótima.
Você me perdoa por tudo? Vamos ver o presente, né? Que dependendo do
dá na cara uma da outra aqui de novo.
Segura aqui essa carta para mim, Sadafara.
Deixa eu ver aqui.
Quem eu sou? Meu porta -joias. Que coisa linda. Olha, gente.
Tem joia? Porque porta -joia tem que vir com a joia, né? Pra mim, se não tem
joia, porta -joia vira porta -biju em dois minutos. Mãe, sou amigo oculto.
vai. Vamos lá. Segura pra mim aqui, Sarafaria. Só um minuto.
Meu amigo oculto é Carlos Aberto. Ih, mas assim, direto, você não vai falar
nenhuma característica minha?
Carlos Aberto, eu pensei em falar várias coisas pra você, mas qualquer coisa que
eu falasse, eu ia te humilhar. Então, eu preferi te dar esse presente aqui, ó.
O que é? Uma poesia? Que poesia, Carlos Alberto. Eu pensei em te dar livro,
Carlos Alberto. Só que eu andei vendo sua cara, achei seu olho fechando de
Então eu estou dando para você. Deixa eu ler para você, que você não deve estar
enxergando. Aqui, ó. Vale Botox.
Aí você vai encher isso aqui de Botox. No momento que seu olho abrir, eu te dou
um livro, tá?
Obrigado, meu amor.
Muito obrigado. Bom, gente, o meu amigo secreto... Espera aí, gente. Só um
minuto. Se eu interromper aqui, eu vou precisar... Marcelino, cadê Marcelino? A
gente esquece o peru no forno. Dá um intervalo aqui. Só um minuto.
Não pode, Lucelena. Tem intervalo em peça na broda e não pode ser nessa
floresta. A Marcelina já foi pegar o peru, Hermes. Gente, Marcelina do Forno
aqui, ela estraçalha esse peru. Eu preciso desse peru intacto pra hora da
Gente, o peru tá pronto.
Bota esse peru aqui agora, Marcelina. Tô preocupada com você, hein? Que você tem
um histórico de sequestro de comida, de estraçalho de mesa. Quero até ver se não
tem nenhum rombo aqui na minha mesa. A mesa, um, dois, três.
Mãe, eu tô amamentada. Eu não tenho condição de esperar até meia -noite,
Eu preciso comer.
Então, vambora. Marcelina precisa comer, gente.
Vamos antecipar essa reza a todo mundo? Hermínia, o peru inteiro pra Marcelina é
um aperitivo, não é? E qual que é o seu aperitivo? Me conta, ô periquito.
Alpiste? Ah, sai pra lá, calopsita.
Eu, hein? Falando mal da minha filha. Vem rezar, gente.
Ai, Hermínia, você já parou amigo oculto. Agora vai antecipar a reza. Pai
que estás no céu, santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso reino.
é que me tirou de amigo oculto, hein? Cala a boca pra mim, Lucelena. Tá no
da reza aqui, atrapalhando a gente.
Seja feita a vossa vontade.
assim na terra como no céu.
Ave Maria, seja de graça.
Gente, fica quieto todo mundo que eu tô fazendo um pupurri que eu já vi que não
dá pra ir na íntegra com a reza com vocês.
Eu, hein? Seja feita a vossa vontade. Eu já falei isso?
Ah, então, gente, pelo amor de Deus, o que importa é que Deus tá com a gente.
Ai, meu Deus, o que aconteceu, sol?
Caiu a resistência, aqui é só uma fase, não pode ligar a luzinha de Natal com
nada. Você quer ver que isso aí é coisa de Marcelina com negócio de micro
-ondas? Vai começar!
Lucelena, me presta o isqueiro aí, você que é maconheira.
Gente,
tô achando que essa luz aí não ter vontade de ser um sinal pra gente poder
em harmonia, que a gente não se dá bem no claro, hein?
Mãe, deixa eu te falar uma coisa?
Não quero coberta.
Tô precisando ficar um mês aí, 15 dias, 10 dias no máximo pra você ver vocês.
Reveião é daqui a 7 dias, vai ficar toda de branco sozinha em casa?
Não, vou passar com vocês.
Ué, você acabou de falar que quer 10 dias?
Não interessa, gente, eu errei na contagem.
Reveião vai ser lá em casa e vai todo mundo, hein?
Vai ter ceia, champanhe, vai ter música. Quando der meia -noite a gente vai
brindar, vai comemorar meia -noite um.
Eu vou mandar todo mundo pra puta.
Que pariu, que vou fechar a porta da minha casa, que quem manda sou eu.
Acabou!
Ai, Paulo Gustavo!
Olha aqui. Você entrou aquela coisinha. Não, olha aí. Eu quero ver o sábado de
Natal aí, por favor.
É, vai ser um Natal lindo de morrer. Mas não vai ter Natal. Não vai ter Natal.
Por que, gente?
Eu já te falei que não vai ter Natal aqui. Então fala aqui pra câmera.
Não, vou falar pra câmera. Pode estar registrado pra depois... Registrado.
que não vai ter Natal, eu acabo cedendo e faço Natal aqui em casa. Esse ano você
vai fazer Natal na sua casa. Tá gravado. Tá gravado. A família toda tá brigada.
Pois, porque... A Keyes entrou aqui outro dia, no segundo cafézinho, eu
ela pra puta que pariu, foi embora.
Então não vai ficar no Natal. Xalu tá vindo pro Natal. Não, Xalu não tá vindo,
me telefonou, falei, Selena, fica em Nova York.
Mas daí eu tô com muita saudade. Não venha!
Não venha! Fica em Nova York!
Pô, então você tá rindo? Pega ela e leva pra sua casa. Então eu vou... Não faz
nada. Não, então eu vou desmontar. Você não vai botar água em nenhuma.
Pô, caralho.
O passado você não faz nem de besta.
Você... Me mostra onde é que é a casa do papai que eu vou mandar o vídeo.
Paulo Gustavo, mostra onde é que é a casa do seu pai. Não mostra, eu quero só
mostrar pro pessoal.
Olha só.
Gente...
Vai, ele veio aqui com ela.
Júlia, eu dou um peito aqui na cozinha. Mãe, você está viajando, os vizinhos,
você vai ser expulsa.
Vou tentar ir dentro da casa dele.
Vai. Vou tentar ir dentro da casa.
Vai não sair mais.
Vai dormir.
Ele tem medo de você, de espírito. Vamos lá.
É no abdômen, mãe, que ela tá com coisa.
É no abdômen. Chega, tá explicando muito.
Me dá seu celular.
Solta!
Solta! Mãe, eu preciso ver o negócio do seu celular. Vai ver porra nenhuma!
Aqui,
ó. Eu vou cair em cima de você, seja atroz, eu vou me fuder.
Eu chapo você.
Me dá essa celular, mãe. Eu preciso ver um troço aqui, cara. Nada te interessa
nessa merda.
Tchau.
Você, eu dançaria tango no teto, eu limparia
os trilhos do metrô, eu iria a pé do rio a Salvador.
Eu aceitaria a vida como ela é,
viajaria a prazo pro inferno.
Eu tomaria banho gelado no inverno.
Com você, eu me deixaria de beber.
Com você, eu ficaria rico no meio.
Eu dormiria de meia pra virar um gui.
Música Música
Música
Conseguiria até ficar alegre, pintaria todo o céu de
vermelho. Eu teria mais herdeiro que um coelho.
Eu aceitaria a vida como ela é,
viajaria a prazo perfeito. Eu tomaria dom
gelado no inverno.
Eu mudaria até o meu nome Eu viveria em grande
fome Desejaria todo dia a minha
irmã
Eu mudaria até o meu nome, eu viveria em greve de
fome, desejaria todo dia a mesma
mulher.
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