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Original subtitles

Eu te ensino a namorar.

Que eu te ensino a namorar.

Boa tarde, senhoras e senhores.

O que estão fazendo por essas bandas?

São funcionários civis do Rio... O senhor está querendo dizer que não é

pois não?

Isso eu vejo logo.

São funcionários civis do Rio de Janeiro.

E fomos mandados para fazer o levantamento de um traçado. Que

aquele? É um tiodolito. Não perguntei de que é o instrumento.

Perguntei para que é que serve. É máquina de tirar retrato?

É para medir terreno. Medir para quê? Para abrir uma estrada de rodagem.

Então a sua viagem acaba aqui.

Volte e diga lá para o seu governo que ele fique mandando as suas governanças e

não se meta no sertão onde mando eu.

Enquanto o capitão Galdino Ferreira for governador da Caatinga, por aqui não

passa rodagem nenhuma.

Vamos. Virem no pé e sumam daqui.

E deixem o tal de tiodolito.

Você, macaco, se aproxime.

Deixe ver o lombo.

Capitão,

me faça uma mercê.

Me deixe sangrar isso.

Pronto. Agora está com o sinal do Capitão Galdino.

Agradeça a Deus por estar hoje de Veneta.

Vamos. Pé no caminho, macaco sem vergonha.

Eu era aqui que o Tico devia estar esperando?

Era sim, mas nós chegamos um pouco cedo.

Aquele moleque é bem capaz de fazer uma atrapalhada com a gente.

Desculpe, capitão, mas tenha paciência que o menino chega.

Não é por ser meu filho, mas por ele eu põe a mão no fogo. Homem, menino é

sempre menino.

Como é que diz outro?

Dormida com menino é reia de moiada.

A benção, meu pai.

Capitão, só tem cinco soldados e um cabo.

Então já sabe, como eu disse.

Entramos macio, cada grupo numa entrada e quando os macacos derivem, estão

cercados. E agora cada um com seus companheiros e ninguém esquece as

Cuidado, mano, que a nuvem é braba.

Se não pode colocar a boca, deixa pra mim, seus moles.

Pois arranjar não tem cadeia mais nessa terra.

Tu vai matar de fundo o cabra da pele.

Não. Vou tirar o macaco do gás.

E então?

Esse pessoal vem ou não vem reclamar os direitos deles?

Ora, já se viu.

Eu ataco a terra.

Rebento a poção de coisa.

Carrego tudo o que posso.

Mato magotes e macacos e não me aparece ninguém para fazer reclamação.

Onde diabo andará a gente dessa terra? Não sei, capitão.

Capitão! Capitão!

Pelo amor de Deus, me afunda! Por almas dos seus defuntos, me afunda! Tem

ninguém que afunda por mim!

Não chore, dona.

Não gosta de ver mulher velha chorando. Diga logo o seu agravo.

Não chore, já lhe disse.

Veja a flor.

Arranje uma cadeira para ela.

Sente, dona, e fale, mas sem choro.

Sente!

Eu tinha uma cabrinha de leite, capitão. Era só que me ajudava a ganhar algum

vinteio para viver.

Tinha leite nas casas com um menino novo.

Mas agora... Ai, meu Deus! Está desgraçada!

O que aquele homem matou a minha cabra!

Zé Pulastro.

Pronto, capitão. Foi você que matou a cabra aqui da dona?

O tio saiu seu querer, capitão. O que lhe perguntei foi se você matou a cabra.

Matar... O que eu vou fazer?

Matar, matei, capitão.

De quanto a senhora parece para comprar outra capa?

Era uma cabrinha de leite.

Boa, graciada.

Eu já tinha rejeitado 200 mil reais por ela.

Zé Polastra. Volte, capitão.

Dê 200 mil reais à dona para ela comprar outra capa. Desculpe.

Capitão, mas eu não trago dinheiro comigo.

Você pensa que eu sou o quê?

Então acha que eu não sei onde é que traz o dinheiro?

Mas é desmola, velha desgraçada.

Pague o que deve, seu cabra ordinário.

E não se atreva a botar nome e ninguém na minha frente.

Vamos, pague a mulheria já.

Mas eu não paguei, capitão. O senhor não viu?

Não vi, não.

Aqueles cento mil reais foram dados de desmola.

O preço da cabra ainda não pagou.

De modo que pague como lhe mandei.

Se não...

Adeus, doutor. Boa viagem.

Volte logo, capitão. Vamos, levamos o bicho para o homem. Com licença,

A respeito aqui do nosso negócio... Estamos entendidos.

O senhor terá os votos certão.

Mas não será troco de qualquer dez reais de mel coado.

Traga a moça aqui para fora.

O que é que a senhora está fazendo aqui?

Deixe de soberba, moça.

Responda quando lhe perguntam.

Olha o que está falando com o capitão Galdino Ferreira.

Hoje, neste lugar, só tem um senhor.

Andi, responda. Quem é a senhora e como é que se chama?

Sou a professora.

Meu nome é Olivia.

Você não precisa ter medo disso.

Nunca deixei de se esconder feito macaco.

Vamos ver se a sarapuca trabalha.

Vai já tirar um retrato bonito, hein?

Pessoal!

O pringo aqui vai tirar um retrato.

Espera aí.

Não tire já não.

Capitão, quer sair no retrato?

Por favor,

Sr. Cargaceiro.

Essa história já está muito gostosa. Tira logo esse retrato.

Um, dois, três, quatro.

culta a população desta cidade a fim de desagravar a honra da nossa gente sobre

a qual tripudiou o miserável capitão Galdino Ferreira o comandante Alcides de

acordo com as altas autoridades locais acaba de organizar a friosa terceira

volante formada por patriotas de coragem e que sairá de imediato a fim de

destruir aquele bando de cangaceiros e castigar os que tão covardemente Tiram

foros de civilização de nossa querida pátria.

Viva a terceira volante!

Acorda, cabrinho da peste.

Mãe.

Me dá macete d 'água.

Vai você buscar.

Deixa de enjoo com a gente, mãe.

Ora, se levante, seu pamonha. Fica a vida inteira aí rasgando o fundo da

Chega aqui, bichinha, que eu te ensino.

Jogue essa.

Esperou calado, ganha cruzado.

Como é que essas travengas trabalham? Isso não vale nada.

Vigiem só. Se arrastando. E se ela é música, vai rebolar tudo no mato.

Gramofon não tem culpa.

Tu é que é burro.

E você sabe atirar, meu bem?

Tanta arma assim é de 100 metros escopeteiro.

Sempre atiram na coisinha.

Pois mostre para a gente ver.

Me põe a sacuia lá em cima daquele pau.

Se aquece, as meninas não te passam fogo de verdade.

Deixa de pabulagem, mané mole.

Passa fogo nada, seu farolfeiro.

Quanto mais arma, mais medo.

E fique sabendo que não é você sozinho, não.

Tudo aqui é um bando de cabra mole.

Banana, medroso. Sozinho nenhum de vocês é homem.

Coragem? Só tem quando andam os magotes.

E assim mesmo se encontra um cabra disposto a ficar tudo tremendo de beiço

branco. Cala essa boca suja, senão trementa os beiços com tabé, vem.

Ora, tabé.

Se é homem, vem a dar.

O que vocês são mesmo é uns galinhas.

Me arrastaram pra esse buraco.

Precisaram de me botar laço.

E depois largam a gente por aí.

Por que vocês não andam tudo de saia, feito mulher?

Ora, meu bem.

Até doce de coco, quando é doce demais, enjoa. O que é que tu tá dizendo, coisa

ruim? Isso mesmo, se é oferecida demais.

Nunca era assim a gente pedia. O Felicida, eu sei quem é, senhor. O

sim, senhora.

E todo homem gosta de mulher que se vende caro.

No começo estava bem.

Você dava coxa e dentada.

Não chegava para quem queria.

Depois, era só encostar.

Escute, eu vou lhe dizer uma coisa.

Fruta gostosa é no alto do pau, difícil de apanhar.

Mas melancia de beira de estrada?

Isso a gente rebola com o pé. Seu amarelo sem vergonha.

Cara de mamão macho. Filho de mula sem cabeça.

Se eu sou melancia de beira de estrada, então me dê um cavalo que eu vou me

embora daqui.

E ninguém me bota mais os olhos em cima.

Ande, me arrume um cavalo, seu porteiro.

Não sou seu pagem para lhe arrumar cavalo.

Se quiser, vá pedir ao capitão.

Por sinal, lá vem ele mais o Teodoro.

E afinal, qual é a sua intenção a respeito da professora?

Não vai ser fácil as volantes rastrearem a gente até aqui.

Basta eles dão a cara e é que se vê qual é o cabra bom no tiro.

Não troque de conversa que eu estou lhe falando a respeito da professora.

Desconfio que você mudou de intenção.

Já ninguém me escuta mais falar nos vinte contos.

E afinal, não é direito.

Se trouxe a moça para poder cobrar dinheiro, o dinheiro chegando, o jeito é

devolver a moça.

E se não mandarem o dinheiro?

O que você vai fazer com ela?

Tem que mandar embora do mesmo jeito. Vou pensar nisso. E afinal, o que você

quer com essas perguntas todas?

Quem pergunta quer saber.

Tudo em paz?

Tudo em paz, senhor.

Escute, avise o pessoal todo.

Pode dizer que eu mando cortar a orelha de qualquer sujeito que entrar no quarto

daquela moça sem ordem minha.

Cortar a orelha, entendeu?

Me dá aqui esse canetete. Olha aqui, seu capitão.

Não é capitão que ele chama?

Eu quero ir embora dessa desgraça.

Me mande dar um cavalo que eu que não fico nem amarrada.

Não sou mulher para me misturar com essa raça de cabra vagabundo que o senhor

tem aqui.

Me trouxeram à força.

Pois vão embora, nem que seja forte.

Esse danado veio dar em mim.

Eu achei esse canivete.

Ele queria tomar.

O canivete é meu.

O diabo de menino velho é ladrão.

Ou me dá o canivete ou eu acabo com a raça dele. Acaba nada, privido.

Se quer brigar, por que não briga com homens?

Você ainda boleia com essa menina mesmo se está boleando com ele.

Deixe -me estar.

Eu o levo.

Por favor, me acredite.

Deus me defenda de lhe querer mal.

Pelo contrário.

Pode contar comigo para lhe proteger.

De dia e de noite.

Contra qualquer coisa e contra qualquer um.

Não quer comer a sua janta?

Deixe aí e vá embora.

Posso não ter nada nesse mundo, mas palavra eu tenho.

Acredite no que eu lhe digo.

Jurei comigo que ainda levo você pra sua casa sem que lhe caia um fio de cabelo.

E olhe que ainda pode ser esta noite.

Se não for hoje, será amanhã ou depois.

Faltar é que não lhe falto.

Até a noite ou até amanhã.

Lua bonita, se tu não fosse casada, eu preparava uma escada pra ir no céu te

beijar. E se colasse teu frio com meu calor, queria nosso

senhor pra contigo casar.

Lua bonita, me faz aborrecimento ver São Jorge no jumento pisando

teu pilarão.

Pra que casaste com um homem tão sisudo que come, dorme e faz tudo dentro de teu

coração?

Pra que casaste com um homem tão sisudo que come, dorme e faz tudo dentro de

teu coração?

Como é bonita.

Você também é louca.

Deus tirou a marca do seu rosto.

Então, eu também vou fazer uma promessa.

Quem foi que atirou?

O meu pião, ele só roda com ponteira. A ponteirinha rasteirinha pelo chão.

O meu pião, ele só roda com ponteira. A ponteirinha rasteirinha pelo chão.

Responde o corpo mulher, das da mão, das da mão. Das da mão, das da mão, das da

mão. Das da mão, das da mão, das da mão. Das da mão, das da mão, das da mão. O

meu pião é feito de goiabeira. Ele só roda com ponteira na palma da minha mão.

Roda morena no meio desse salão. Recarvando o corpo todo no rosto desse

Que foi que lhe deu, Teodoro?

Você sempre foi calado.

Mas desde anteontem parece que se trancou ainda mais consigo.

Quem lhe vê diz que tem uma coisa ali roendo.

Ande, me diga o que é.

Não quer dizer?

Não sabe que eu toda a vida estou com sentido em você?

Não é nada.

A gente não pode querer ficar só.

Mas eu adoro.

Eu só sei que sem você... Já disse que não quero nada e nem preciso de ninguém.

Vá!

Pensa que eu não sei o que é?

Você ficou desse jeito desde que a tal professora veio pra cá.

Você anda é doido por ela.

Não faz conta de mim, mas se atira nos pés dela como um cachorro.

Olha, Teodoro, te juro pelas cinco chagas de Cristo.

Se esse caso for verdade, só Deus sabe o que pode haver.

Que eu lhe quero muito bem e você sabe.

Mais do que a todo mundo.

Mas se me enjeita por outra, com estas mãos...

Vai embora, Maria.

Eu vou.

Mas se lembre que não há nada como um dia depois do outro.

E você ainda pode me pagar isso tudo.

Saudade, saudade do meu amor.

Saudade, meu bem, saudade, saudade do meu

amor.

Foi -se embora, não disse nada, nenhuma carta

deixou. Foi -se embora, não disse nada,

nenhuma carta deixou.

O zóio da cobra verde,

Hoje foi que a reparei. Se a reparasse há mais

tempo, não amava quem amei.

Quem levou o meu amor deve ser o

meu amigo.

Levou pena, deixou glória, levou tra...

Levou pena, deixou glória, levou trabalho

consigo,

arrenego de quem diz.

Saudade...

em cima, na estrada.

Chegou a hora.

Com pouco mais você está livre.

Tem dois cavalos nos esperando ali na volta da estrada.

Seja o que Deus quiser.

E não se esqueça, dona Felicidade. A senhora está ferrada no sono.

Não viu de jeito nenhum como é que a moça fugiu.

Entendeu bem?

O melhor é a gente mudar de rumo.

Galdino conhece esses rasos, vereda por vereda.

Temos que arranjar o caminho de que ele não tenha notícia.

O melhor é subir uma serra dessas.

As estradas são ruins, mas tem água e tem sombra. E além do mais, Galdino não

gosta de subir serra.

Por esse rumo, cortamos pela aba da serra e do lado de lá caímos na estrada

cidade.

Mas não quero lhe enganar.

Ainda não estamos livres do perigo.

O melhor é confiar em Deus.

E abaixo de Deus?

Confiar em mim.

Antes da gente ir mais adiante, queria que você me respondesse uma coisa.

Você é um fora da lei, em quem não se pode confiar. Diga logo, um bandido.

queira.

Portanto, é um homem de coração fechado, acostumado a roubar e a matar.

Então, por que, de repente, resolveu desgraçar sua vida para me salvar?

A mim, que nem lhe conhecia, que nunca lhe fiz um favor.

O que lhe adianta saber?

Minha vida está em suas mãos.

Não é natural que eu queira saber o motivo?

Um homem no seu lugar não fazia dessas perguntas. Mas eu não sou homem. Como

você disse, vivo de roubar e matar.

Todo pecador tem o seu dia.

Até o bom ladrão não se arrependeu?

Eu faço uma boa obra uma vez por ano para Deus não se esquecer de mim.

Fale sério, Teodoro. É sério.

Você é minha boa obra deste ano.

E vamos andando, que a caçada deve ser dura atrás de nós.

Não sei, capitão.

Juro pela alma de minha mãe que não sei para onde ele foi.

Mas não foi você que arrumou os cavalos?

Fui, mas por que ele mandou?

Pensei que era a ordem sua, capitão.

Se os meninos voltarem sem trazer o Teodoro, você vai me descobrir onde ele

seu cachorro.

Nem que eu tenha que lhe arrancar esses olhos da ponta de faca.

É você o Chico Rastejador?

Sou sim, senhor. Já me avisaram que o senhor vinha me buscar.

Então vamos.

Depressa.

Batemos tudo quando foi estrada.

Nem ensinado Teodoro.

Supriano.

Quebra o orgulho desse cabra.

Então, peste.

Você conta ou não conta?

Quantas vezes tenho de dizer que não sei, capitão.

Juro pela luz dos meus olhos.

Se eu soubesse, eu dizia.

E aí que ganho protegendo o Teodoro.

Então não diz, hein?

Pelo amor de Deus, capitão.

O que é que eu vou dizer?

Simôncio, amarra esse cabra. Vamos dar um galope nele.

Capitão Galvino, por tudo que lhe é sagrado, pela alma da sua mãe, não faça

isso comigo.

Eu não tenho culpa, lhe juro que não tenho culpa.

Pelo amor de Deus, capitão, não faça comigo essa barbaridade.

Eu não tenho nada com Teodoro, até que sempre tive raiva dele.

Fiz o que ele mandava, pensando que era ordem sua, capitão.

Me deixe sair atrás dele.

E juro por Deus que lhe trago aquele miserável aqui.

Então,

já quer dizer para onde é que foi Teodoro?

Não sei, não.

Assassino desgraçado.

E se soubesse, não dizia. Cão do inferno.

Celúcio, outra vez por dentro.

Vamos parar aqui antes de atravessar a mata.

Você não tem fome, Teodoro?

Eu tenho.

Comemos à noite quando arranjarmos para dormir.

E onde é que vamos dormir?

Onde a noite nos alcançar. O bom seria passar a noite em campo aberto.

Mas tem o perigo de a gente acordar cercado pelos cabos de Galdino.

Cada hora que se passa, Teodoro, há -se um mistério maior.

Você é um homem esquisito.

Pelo seu modo de falar, pelas coisas que você pensa, vejo muitíssimo bem que

você é muito diferente desses cabras com quem anda.

Como terá sido sua vida antes?

Quando tiver certeza de que você não desconfia mais em mim, lhe falo da minha

vida.

Beba.

Afinal, Teodoro não tem falta com o cão para se sumir no vento.

Vocês são os frouxos. Não valem o feijão que comem.

E Pedro Visco, tem notícias? Deve andar montado no rastro de Teodoro.

Caldino Ferreira, tenho que lhe dizer umas verdades.

Nem que também fique enterrado à beira da estrada como esse infeliz.

Deus nosso Senhor foi quem preparou esse encontro.

Você tem religião, Galdino?

Havia de não ter, seu vigário.

Recorde seu catecismo. Alguma coisa, mas desculpe. Adeus. Estou com pressa.

Pere, Galdino.

Jesus Cristo morreu na cruz para salvar a nós todos.

E cada vez que você mata um cristão, Galdino, é como se estivesse

novamente o nosso Senhor.

Ouça a voz do Salvador, meu filho, se arrependa.

Lembre -se do inferno e dos mandamentos da lei de Deus.

Principalmente daqueles dois.

Não matarás, não roubarás.

Vou me lembrar, seu vigário.

Deus que lhe abra os olhos, lhe dê o arrependimento e a salvação de sua alma.

Amém.

Cavalo bonito, seu vigário.

Modéstia à parte, é bonito mesmo.

Até nem fica bem um padre velho como eu, um cavalo bonito assim.

Tchau, tchau.

mundo no chão!

Chegou a hora!

Galileu!

Aqui é o comandante da volante que estão falando, seus assassinos.

São homens velhos.

Rato, tobão.

Trago aqui um taco para levar a cabeça deste bandido, Tardino Pereira.

Vamos, atirem!

Reanjos comungados!

Atirem, senão atiro eu!

Em frente!

Vamos bater esse vaso e pegar um desses bandidos!

Correira!

Tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorar.

Que eu te ensino a namorar.

Golemo na rendera.

Golemo na renda.

Tu me ensina a fazer rei.

Já tem nem a que dar uma fogueira de São João.

Hoje ainda comemos carne seca.

Mas amanhã vamos ter peixe para almoço.

Peixe? De onde?

De um rio que corre perto da... Como é que você sabe?

Não disse que nunca tinha andado por esta serra?

Acho que tem instinto de bugre. Sinto no cheiro do ar que o rio está perto.

Virgem Santíssima, você até parece que bebe uma cozinha inteira na garupa.

Homem prevenido.

Demos muito bem chegar amanhã.

Mas também é possível que a gente fique rondando por aí dias e dias.

Olha a cama feita.

Enquanto eu preparo a ceia, você pode cochilar um pouco.

Teodoro.

Ainda acha que eu desconfio de você?

Mas afinal você ainda não me disse qual o motivo, Teodoro. O motivo que leva

você a arriscar sua vida para me salvar.

Já não disse?

Era mentira.

Era mentira aquilo que você disse a respeito do pecado. Que fazia uma boa

todos os anos.

Você corre esse risco todo não é somente porque de vez em quando precisa ser

bom.

Não acredito.

Diga a verdade, Teodoro. Que verdade?

Pense que eu já não sei.

Que não vejo pelo seu rosto, pelos seus modos, por tudo.

Mas queria ouvir da sua boca.

Acho que a gente não devia falar nisso.

Não quer dizer?

Tem medo?

De quê?

Pois então eu digo. Digo que você está querendo esconder.

Não, não diga.

E a bem dizer eu não tenho culpa.

É este coração que trai a gente.

No começo era simpatia.

Não é sempre assim.

Depois tive pena.

Era natural que me preocupasse vendo você nas mãos daqueles cabras.

Quando dei fé tinha tomado conta de mim.

Não pensava em outra coisa.

Já não era simpatia nem pena.

Era amor mesmo.

E a gente quando ama até parece que nem morrendo pela criatura se fez nada.

Adivinha então que eu fugisse, que lhe roubasse deles, fizesse tudo para lhe

salvar?

Eu bem que entendi.

Pois eu queria guardar segredo.

Afinal, amanhã ou depois, você está longe de mim.

De você só restará lembrança.

Nada mais.

Amor, é isto mesmo.

A gente se encontra de repente...

E descobre que um esteve a vida inteira esperando pelo outro.

Cego a desejar, Teodoro, que esta nossa fuga não tenha fim.

Que a gente fique por aí, perdidos numa casinha de palha o resto da vida.

O resto da vida.

Mas não posso.

Não tenho direito.

Nem mesmo o direito de sonhar.

Se você fosse comigo para a cidade, Teodoro, aceitasse o castigo, sua

salvando, de certa de abrandar a justiça.

E depois, o resto da vida sossegado, e quem sabe, feliz.

Não, não posso pensar nisso.

Não me largo desse sertão.

Se fugisse, voltava como fiz da primeira vez.

Então você já viveu longe daqui?

Fiquei sem pai e sem mãe quando era pequeno.

Então os padres me levaram com eles.

Queriam fazer de mim um homem... um homem importante.

Por isso você me achou diferente dos cabras de Galdino.

Tive o ensino que eles não tiveram.

E como foi que você veio parar no bando de Galdino?

Fui forçado a...

Fui forçado a matar um homem numa briga.

Fugi e escapei pra cá, que é meu canto.

Nasci aqui.

Aqui vivo.

E aqui moro, seja como for.

Parece até que tem um bocado desta terra desmanchada no sangue.

E nada neste mundo.

Nenhuma amizade.

Uma pessoa capaz de carregar você daqui.

Nem eu.

Acho que nem você.

Mulher e terra são uma coisa só.

A gente precisa das duas para ser feliz.

Eu lá, mesmo com você, acho que morria.

Me faltava outra.

Teodoro. Teodoro, veja como estão os cavalos.

Deve ser alguma pintada por aí.

Uma onça? Mas não tenha medo.

Vamos esperar um pouco para ver se é onça mesmo.

É onça mesmo.

Vamos ver se atraímos o bicho pra cá. Joga um pouco de terra na fogueira.

Vamos matar a onça um pouco longe daqui por causa dos cavalos.

Ela vem nesta direção.

Como você sabe que é onça mesmo?

A onça pia como uma coco.

E o pobre pensa que está ouvindo o chamado da companheira.

Vai indo, inocente... e cai na guarda da onça.

Fique quente e abra bem os olhos.

Está com medo?

Não.

Pode vir sem susto. Era uma vez uma onça.

Veja que beleza.

É um bicho bonito.

Bonito e malvado.

Onça depois do cavalo? É o animal mais bonito que Deus botou no mundo.

Não é nenhum dos nossos cavalos. Vamos.

É obrigado a atravessar o rio?

Com o rio atrás da gente, estamos mais garantidos.

O rio é uma barreira contra o rastejador.

Olha que eu não sei nadar. Os cavalos sabem.

Mas não vai ser preciso nadar.

Nesta época, quase todos os rios não vão.

Eu vou na frente.

Deixe seu cavalo acompanhar o meu.

Não chegue até aqui, seu cavalo. Peguei um atoleiro.

O melhor é forçar e achar um fundeador.

Pensei que atravessar um rio a cavalo... fosse muito mais difícil e muito mais

perigoso.

É bom trazer os cavalos aqui pra cima.

Traga o seu.

Teodoro.

Vem vindo gente numa canoa.

É um índio.

Abacatu!

Abacatu!

Teodoro, será que não quererá nos dar aquele colar?

Dizem os índios que colar de dente de onça dá coragem e protege a vida de quem

usa.

Coragem você já tem muito.

Pois que esse colar sirva para lhe proteger sempre.

Viu como o colar deu coragem?

Só porque toquei nele fiquei outro.

Coragem de lhe abraçar.

Coragem de lhe dizer o bem que lhe quero.

Tomara que dê coragem também para a separação, que não tarda.

Você disse, o rio é uma barreira.

Barreira entre o sonho e a realidade.

Vá -se embora.

Fuja, Teodoro.

Me deixe, me deixe por aí.

Prefiro morrer sem sair dessa sua terra.

De onde você não sai, nem por amor de mim.

Nem por amor de mim.

Você tem aí o colar, Olivia.

Proteja -se!

Fique onde está! Não se mexa!

Temos que sair daqui sem demora. Era um homem do bando.

Ande ligeiro, por favor.

Estou com medo, Teodoro.

Estou com medo que Galdino nos apanhe. Daqui até ele alcançar o Galdino é na

custa.

Devia ter me lembrado do desgraçado Pedro Vesco.

Sim, você garante minha vida.

Mas não fala na sua.

A minha eu cuido depois.

Primeiro eu quero garantir você.

Lembre -se de que você tem um punhal nas costas. Mas também tem um coração no

peito. Já pensou que Galdino vai desfegar enquanto não descobrir você?

Quem procura é pra achar. Sempre houve mesmo uma cisma entre nós dois.

Se a gente se encontra, pelo menos a cisma acaba.

Estamos bem perto da cidade.

Por aqui passamos no dia do assalto.

Uma hora ou pouco mais...

Outra vez o

Pedro Visgo.

Mas garanto que dessa vez eu não erro.

Dessa vez Galdino vem perto.

Os nossos cavalos estão estropeados.

Quer dizer que não podemos fugir juntos. Temos de nos separar. Eu fico aqui para

entreter o bando e você corre por esse caminho. Não tem errada.

Vai dar na cidade.

Mais uma puxada, meu velho. Só essa.

Leva a moça até em casa.

Salva a vida dela que eu aguento aqui.

E agora corra. Nem posso mais lhe falar que não há tempo.

Quer dizer que é despedida para sempre, Teodoro? Quer dizer que nunca mais...

Não diga essa palavra nunca mais.

Quem sabe?

Venha comigo, Teodoro.

A gente não pode ser feliz. Se escapo desta...

Vou procurar você amanhã.

Então?

Então até amanhã.

Eu adoro.

Vamos. Vamos correndo.

Nem que mate os cavalos. Eu tenho que pegar aquele cabra.

Cuidado, gente!

Cuidado com a plantaria dele!

Eu tenho que pegar esse cabra!

Fogo!

Fogo nele, sem piedade!

Eudora, que é meu amigo.

Diga ao comandante que pegue Teodoro para o outro lado da pedreira.

Deixe -me tratar desse tiro.

Não. Deixe os cuidados para o Teodoro.

Se arruinar, você pode morrer.

Não antes de pegar aquele cabra e acabar com a vida dele.

O capitão?

Com aquela bala do Teodoro?

Não sei não.

Aquele besta tem mania de ser homem de bem.

Já está sem munição.

Vamos subindo pegar ele vivo.

Quero ele vivo!

Teodoro! Você quer morrer aqui dentro feito tatuado ou quer morrer aqui fora

feito um homem?

Ora, que papel o seu, Teodoro?

De que lhe adiantou estudar, aprender?

Então não sabia que de mim não se foge?

Que mais hoje, mais amanhã, eu acabava lhe pegando como lhe peguei?

Quando resolveu me trair, você não pensou que era impossível escapar?

Nem que se entregasse à polícia.

Nem que ficasse guardado no quartel dos macacos.

Sinto muito.

Te adoro.

Tinha você por meu amigo.

E agora você vai morrer.

Traidor comigo... não vive.

Mas como se um homem de coragem... um favor ainda lhe faço.

Escolha sua morte.

Se eu sou homem de coragem, Galdino, você também é.

Posso me escolher como é que morro?

Pois vamos tirar a teima.

Vamos ver qual de nós dois é mais homem.

Cada um com a sua faca, seus cabras nos rodeando.

Vamos ver Deus por quem é.

A sua ideia não é ruim.

Mas o capitão Galdino Ferreira não se abaixa a brigar de faca... com um

fujão como você.

Tive uma ideia melhor.

Está vendo lá aquele pé de pau?

Daqui lá vai umas quatrocentas praças.

Distância grande para se acertar num homem em movimento.

Pois vou dizer minha ideia.

Você vai indo, andando no seu passe natural.

Correndo, não.

Porque homem não corre.

Ninguém lhe atira até passar pela sombra do pé de pau.

Depois, cada um de nós dá um tiro.

São 23 homens, 23 tiros, sem contar comigo e se não falhar nenhum.

Se uma bala lhe pegar, todo mundo fica sabendo que a professora desmanchou o

corpo fechado.

Se não pegar nenhuma, você vai se encontrar com ela e se

esquece do capitão Galdino Ferreira.

Se escapar, você manda me dar o cavalo?

Se escapar.

Acha mesmo que escapa?

Olha que eu estou carecido de um bom cavalo.

Tá bom, aceito.

Eu não tiro nele, nem que me mate!

Deus te abençoe e te pague, meu amigo.

Dê o primeiro tiro.

Quebre a sua promessa.

Não se atreve.

Ande. Nem pelas costas tu tem coragem de enfrentar o outro.

Estejam todos preparados.

Um tiro cada homem.

Um de cada vez.

Vai cair antes do outro?

Primeiro ele.

Eu sei que ele vai morrer.

Mas cuide que a tua vida é do tamanho da dele.

Obrigado.

Não, não vou.

Não posso ir.

Nasci aqui.

Vou morrer aqui.

Olha.

Olha a terra.

Olha a terra do meu sertão.

Primeiro ele!

Primeiro ele!

Eu te ensino a namorar.

Que eu te ensino a namorar.

namorado.

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