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As lembranças são como imagens de satélite.
Transportam -nos para lugares distantes numa fração de segundos.
Tento pensar em tudo o que vivi, mas as minhas recordações parecem não encontrar
outro destino que não seja um passado recente.
E vejo -me novamente ligada a um desejo.
O de conseguir suportar a dor dessa lembrança.
Tenho medo de desejar o que quer que seja, porque o desejo afastou -me da
E no meu caso, esse resultou numa fatalidade.
Um desejo incontrolável acabou por fazer com que o meu destino fosse saltar para
um precipício.
E agora sinto -me como se o tempo tivesse parado.
Os pontéis do relógio a marcar sempre a mesma hora.
Um tempo que já não passa e que me traz a sensação de estar sempre no mesmo
sítio.
Um lugar escuro, onde eu já não me reconheço.
Tarte de espinafres.
A especialidade da raca.
Bom, está com ótimo aspecto.
Obrigada.
Sou, não sou um homem de tarte, sou meu amigo.
Tens uma mulher lindíssima, inteligente, simpática.
E ainda por cima sabe cozinhar, coisa que é rara nos tempos que correm.
Bem, tanto quanto me parece, para ser a esposa ideal basta -me apenas um
requisito. Ah, sim, eu não sei sequer trabalhar um ovo.
Eu nisso nem sequer sabe onde é que fica a cozinha lá em casa.
É que não faço a mínima ideia, mas que existe, existe, eu sei, eu sei. Eu vi na
planta da casa.
Deixa estar, filho.
Quando houver dinheiro para pagar a empregada, não precisas te preocupar com
essas coisas taxas e das panelas. Oh, querida, esta foi uma das razões por que
me casei contigo.
E a outra foi o cartão de crédito, com certeza.
Estão a ver?
Não é só o Paulo, que é um homem de sorte. Um marido como o meu também não
encontra aí pelas esquinas.
O que é que vai sair daqui?
Ela, quando me começa a dar a graxa, é porque me vai pedir qualquer coisa. Vá,
que é que é? Ah, não é verdade. Eu não preciso pedir nada.
Aliás, uma mulher como eu merece todas as atenções. Mas o meu Artur sabe muito
bem. Está sempre a mimar, me compra presentinhos.
E o maior presente que ele me deu foi este meu filho lindo. Dá um beijão, mãe.
Mãe, por favor.
Pode servir, hein?
Quer ajudar?
Não, não é preciso.
Bom, fazer um brinde, não?
Ah, sim. O Artur adora fazer brindes. Se vamos a um jantar e ninguém brinda,
fica logo amoado.
Nós estamos aqui para comemorar a promoção do Paulo. É normal que se faça
brinde. Não sei se não quiserem, não se faz.
Artur.
Obrigado.
Tu sabes que comer -te a pão de pão é importante para mim.
Não.
Eu acho que tomei a decisão acertada quando te pedi para dirigir o escritório
Porto.
Há confiança e há amizade.
E é um futuro promissor.
Então, filho, não brindas connosco?
Estou a beber água.
Anda daí, não é um lindo vinho que está a te fazer mal? Anda lá, ora, sirva -te
aos favor.
Posso? Com certeza.
Tem calma que ele não está habituado, não exageres. Pai, para lá com isso que
já não sou nenhuma criança.
Então o rapaz não quer beber aos favor, vá.
Podemos brindar, então?
Posso ter algo a propor?
Forte, não é?
Que o Paulo tenha tanta sorte no trabalho como tem no casamento.
Sim, sim, sim!
Viva!
Então vocês não pensam em viver para o Porto, pois não?
Nem falámos sobre isso, mas não, não creio não.
Mas não vai ser fácil para o Paulo ficar longe de uma mulher como você, Raquel?
Eu não trocaria que eu ficasse de nada, quer dizer, iria a Nova Iorque.
Mas o Porto é ao virar da esquina.
Uma pessoa de carro, em menos de três horas, chega -se à invicta. Ah sim,
eu não senti que também se está na Tiffany, na 5ª Avenida, não é?
Eu tenciono vir a casa todos os fins de semana. Ai, faz valer muitíssimo bem,
Paulo. Família e diamantes em primeiro lugar.
Pode ficar agora, se não te importa um pouco mais.
Passa lá a semana e depois ao fim de semana vais cá. É exatamente o que eu
de saber fazer.
Além disso, também não quero que a Patrícia esteja obrigada a mudar de
Nem ela gostaria.
Então aí, a vossa filhota já está conquidada?
A 16.
A 16 já?
6 de novembro.
Ah, meu Deus, que horror!
Que horror!
É carneiro? Ah, que lindo!
Eu sou um sagitário. Carneiro e sagitário combinam perfeitamente.
E leão e carneiro são quase almas vémeas, não é, mãe?
Bem, eu sou leão.
Quanto me dê.
Eu também.
Paulo, olha.
Já foi.
Não importa.
A Raquel já vai chorar -me assim, mãe. É maluca, não é?
É a primeira vez que nos vemos e eu trato -a como se fôssemos velhas amigas.
Não, fica à vontade.
Eu tenho horror a formalidades. Onde quer que esteja, eu gosto de me sentir
íntima das pessoas.
É, sou eu.
E a Raquel é daquelas pessoas com quem apetece logo criar intimidade.
Este tiramisum está uma delícia.
Será que tudo o que a Raquel faz é tão bom como este todo?
A sobremesa ficou por conta do Paulo, do meu marido.
Se quiser fazer um alveol, deve -se fazê -lo a ele.
Bom, nesse caso eu vou pedir -lhe a receita. A minha empregada tem um jeitão
para nós.
Então, perdemos alguma coisa?
Estava a gabar a sua sobremesa, Paulo. Uma maravilha.
Alguém quer café?
Eu vivo café e tenho que ir lá fora fumar um cigarro.
Mas um uísque é feito.
Sabes que depois do cão, o whisky é o melhor amigo do homem.
Puro ou com gelo.
Por favor, Paulo, muito gelo e pouco whisky.
Senão o Arturo vai ficar a dormir e não vai.
Eu trato do gelo.
Paulo, diz -me onde é a casa de banho, por favor.
Corredor em frente, ao fundo, à direita.
Obrigada.
Até em quanto é que a tua filha volta das Canárias?
Ainda fica lá mais uma semana. É o quê? Uma viagem de fim de curso?
Anticipada.
Anticipada?
No nosso tempo não havia dedos -luz.
Opa, no nosso tempo nem sequer tinham inventado a roda.
Bom, tu tens filmes que nunca mais acabam.
Tenho aí o último do Polanski.
Quiseres levar?
Não.
Quase clássicos.
Clássicos e pornográficos.
Só se quiseres ir à internet.
Ah, e quando chegar a casa vou à internet e deixo a taxa para você estar
gastar a tua.
Desculpe, eu não queria a sala.
Está, eu posso ir sozinha.
Já disse que posso ir sozinha.
O que?
Não te faças de novo.
Raquel, não estou a perceber.
Isso é parte de ser um pouco mais clara.
Eu não estou a gostar nada desse teu jogo.
Jogo?
É isso mesmo que eu estou a jogar.
Então, o jogo.
É lá, o que é que eu...
Onde é que estão, Henrique?
Fui à cozinha buscar água. Alguém quer?
Obrigada, filha, mas lá está assim meio zonça. Preciso descansar um bocadinho.
Não há música.
Aqui está o gelo.
Uma pedrinha, duas.
Firme -lhe um, Henrique.
Não, muito obrigada. Não faço misturas, Paulo.
Henrique, filho, traz o copo da mamãe, só chover.
Já não há música.
Então, Henrique.
Estou depressa.
Não tem certo voltar lá ao escritório, não é?
Eu tenho andado ocupado com a faculdade.
Eu quero dizer que não gostaste lá muito do estágio.
Estágio? Tirar fotocópias e arquivar processos.
Não, obrigado.
Pois, assim, também como é que o miúdo podia tomar aborto pela advocacia?
Então mas querias que eu o mandasse logo para o Ministério Público?
E assim se perde um belo advogado.
Nem mais.
Então mas que o interesse dele é a educação física, porque é que há de
carreira do pai?
Diz -te pequeno que o Henrique é louco por desporto. É, eu sempre gostei de
jogar.
E nunca entro num jogo para perder.
Tanto no desporto como na vida temos de sair vitoriosos, não é?
E eu nunca ponho a hipótese da derrota.
Vês?
Dava um bom advogado, não dava?
Claro que não.
Aquele rapaz não tem nada na cabeça.
É porque não o conhece. O miúdo é cartiço.
Não gostei nada dele, ponto.
E a mãe é uma chata.
Em relação a isso até estou de acordo.
Mas quanto ao Henrique, acho que ficaste com uma ideia errada do rapaz.
Tu não viste que ele estava a tirar a mim?
Eu cheguei a ficar constrangida.
Não é possível que não tenhas percebido.
Não, não percebi coisa nenhuma.
Carneiro e leão são almas gémeas. Hã?
Não ouviste dizer que leão e carneiro são almas gémeas?
E então?
Isso só prova que eu e tu nos temos um problema. Ah, Paulo, não sejas parvo. Eu
estava a falar dele, dele e de mim.
Quando virou os olhos em cima de mim durante todo o jantar.
Se não tem bom gosto.
Paulo, eu estou a falar a sério.
Ah, esse é o teu problema.
Falar bastante tudo a sério.
O que é que tu queres dizer com muito a sério?
O Henrique lá no escritório também se paga sempre a meter com toda a gente. É
brincalhão, sai ao pai, o que é que queres?
Olha, não me pareceu nada que fosse brincadeira.
Ah, tu achas mesmo que ele se estava a meter contigo?
O Henrique só tem 18 anos.
Obrigada por me chamares a velha.
E amanhã, sempre vamos ao teatro?
Hum.
Vais querer ou não ir ao teatro amanhã?
Vemos isto depois, não é?
Fica para lá.
Chega para lá, chega para lá
Então ligas à Patrícia?
Se sobreviver a esta batalha, prometo que ligo depois.
Eu não percebo a pressão que tu tens às empregadas, de facto.
Ai, Paulo, és um chato. Que mal é que tens a gostar de arrumar a casa?
Nenhum, mas depois não te queres. Vá, vá, vá, vá.
Tenho que arrumar esta bagunça, depois ainda tenho que passar pela agência,
ver se finalmente me pagam os anúncios da automóvel.
Ainda não te pagaram.
Já entregaste o projeto que é.
Dois meses. Como vejo, nada de novo na vida de uma freelancer.
Olha, eu depois de falar com a Patrícia, ligo -te a contar as novidades.
Vê lá que ela está a precisar de dinheiro.
Sim, se tem alimentado bem, se tem passeado muito, se anda a usar o
solar, se já conheceu um espanhol guapo.
Nessa parte eu dispenso coisas de me contar.
Não, Paulo, não há nada mais ultrapassado que um pai ciumento.
Bom trabalho.
Depois diz -me se sempre vamos ao teatro logo à noite.
Só? Aqui está ele.
Deve ter -me caído o bolso das calças.
Onde é que o encontraste?
Eu já tenho o teu telemóvel, já podes ir embora.
Não me convidas para entrar?
Eu tenho um compromisso, eu estou atrasada.
Podias ser simpática e oferecer -me um copo de água, não?
Eu espero que não tenha modo de ter tirado o t -shirt, mas estava toda
Sim, Henrique, tens um corpo bonito.
Se era isso que querias ouvir, já te podes pôr a andar.
Gostas do meu corpo?
Henrique, eu já te disse que estou atrasada. Sim, eu sei.
Mas ainda não respondeste à pergunta.
Gostas ou não do meu corpo?
Eu sei apreciar o belo, sim.
Quando vejo uma obra de arte, um quadro ou uma escultura, por exemplo, posso até
achá -la bonita.
Posso até gostar dela.
Mas isso não significa que a queira para mim.
Olha, pode estar a te enganar a ti própria.
Acreditas mesmo nisso?
Não sei.
Diz -me tu.
Sai da minha casa.
Agora!
Obrigado pela água.
Eu queria ter ligado antes, mas estive a manhã toda a arrumar a casa.
Sabes como é que eu sou. Eu não gosto nada de ver a casa desarrumada.
Tarte de espinafres.
O costume.
Tiramisu.
Não! Desta vez o teu pai acertou.
Ah, filha, não ias gostar nada.
Ora, porquê? Porque foi uma chatice?
A mulher do chefe do teu pai bebeu demais e... Enfim.
Mas, ó, Patrícia, Patrícia, escuta, eu não te liguei para falar do jantar de
ontem à noite.
Liguei para saber como é que está.
Como é que está?
Ainda bem que está sol, assim é bonitas e faz praia.
Olha, e diz -me uma coisa, tu entendes bem o espanhol?
Não, querida. Você é sevilhana.
Não, serbieta.
Sim, sim.
Serbieta é guardanapo.
Sim.
E diz -me lá, com quem é que estás a dividir quarto?
Ah, sim, sim. Sei quem é aquela rapariga dos cabelos aos caracóis. Sim.
Bom, filha, se não gostas dela, pede a alguém para trocar -te o quarto contigo.
Bom. Ninguém é grama, não podes fazer nada, vais ter que aguentar, não é?
Sim, amanhã, amanhã liga -te outra vez para saber como é que estás.
Sim.
Sim, vou agora para Lisboa.
Não, não sei.
Não sei, mas estava aqui a pensar, se calhar vou almoçar naquele restaurante
onde nós fomos no outro dia, ali ao pé do São Carlos, lembras?
Isso.
Bom, querida, agora a mãe vai ter que desligar. Sabes que no elevador não há
rede?
Olha, aproveita bem e lembra do que eu te disse. Do vizinho, hã?
Sim, está bem.
O pai vai gostar de saber que tem saudade dele.
Tá. Beijo grande, querida.
Beijo grande.
Adoro -te.
O que é que tu queres de mim, Henrique?
Quero -te a ti.
O perigo, por vezes, bate à nossa porta e nós não nos damos conta.
Pensamos que connosco não pode acontecer.
Julgamos -nos invencíveis.
Ignoramos todos os sinais, todas as pistas.
Eu, na verdade...
Fingi ignorá -las para não assumir o prazer que estava a sentir por estar
próxima do abismo.
A minha vontade de saltar foi maior do que razão.
Como é que entraste aqui?
Fui eu que lhe abri a porta.
Ah, não sabia que já tinhas carro.
Ah, já que tinha que deixar o carro na revisão, aproveitei para sair mais cedo
do escritório.
O teu filme.
Obrigado, Paulo.
O Henrique veio pedir -nos desculpa.
É, eu perdi que a Raquel ficou um bocado aborrecida com as minhas brincadeiras.
Mas não me leva mal a minha maneira de ser.
Eu tive que lhe dizer que tinhas ficado um bocadinho incomodada.
Sem razão.
Me senti isso.
Raquel, eu disse aquela história do Paulo ter tanta sorte no trabalho como
casamento para meter com ele.
Mas eu, como percebi que não achou piada, vim cá pedir desculpa.
Eu espero que corra.
Obrigada.
Bom, eu vou andando. Não, já estás connosco.
O Paulo, eu não fui ao supermercado, eu não tive tempo.
Eu passei nos chineses, comprei comida.
Gosta de comida chinesa?
Sim, mas não íamos ao teatro hoje.
Podemos ir no outro dia?
Paulo, se calhar é melhor a voltar noutra altura.
Até porque eu não tenho bateria para ligar os cotas. Não seja por isso.
Usas o meu.
Onde é que está?
Merda.
Deve ter deixado no escritório.
Lá está. Então tenho mesmo de me ir embora.
A não ser que a Raquel me empreste o seu.
Fique à vontade.
Bem, enquanto o Henrique telefona para os pais, ajuda -me com os pratos na
cozinha.
Acompanhas -me numa cerveja ao jantar?
Já.
Tu não acreditas mesmo em mim?
Para com isso, Raquel. Tu insistes em não querer ver o que é óbvio.
Ele está aqui a ver que me desculpa.
Ele ontem à noite estava -se a meter comigo.
A mandar -me bocas como fazia quando estava no escritório.
Isso é o que eu quero que tu pedas.
Não, isso é assim.
Eu não estou a falar com ele ontem à noite.
Me despertaste mal.
Só já está a sorrir, borra.
Eu não posso ter problemas com o Arturo.
Ah, então a questão é essa. É porque ele é filhinho do teu chefe.
És patético.
Patético?
Até tenho a impressão de que no meio de uma larga os coelhos possa estar
encrestado uma mulher da tua idade.
Gostaria de uma ajuda?
Então, consegui falar com os teus pais?
Mandei -lhes uma mensagem.
Este é o teu telefone, Paulo.
Onde é que estava?
Na mesa onde deixaste a chave do carro.
Minha cabeça.
Aqui tem o seu, Raquel.
Obrigado.
Então, preciso ou não que eu faça alguma coisa?
Podia levar os pratos?
Eu não quero falar sobre isso.
Ficaste chateada, que eu sei.
Assunto encerrado, Paulo.
Falaste com a Patrícia?
Sim, falei com ela hoje de manhã.
E como é que ela está?
Santinho.
E se tem todas as tuas?
Eu ligo -lhe amanhã do escritório.
Não me fez deitar?
Não, não tenho que falar.
Bom, calhar é melhor a voltar noutra altura.
Até porque eu não tenho bateria para ligar as cotas. Não seja por isso. Os
um.
Onde é que está?
Merda.
Deve ter deixado no escritório.
Lá está.
Então tenho mesmo de ir embora.
A não ser que a Raquel me empreste o seu.
Fique à vontade.
Bem, enquanto o Henrique telefona para os pais, ajudas -me com os pratos na
cozinha?
Henrique, ontem durante o jantar só desejava estar sozinha contigo.
Nem consegui dormir a pensar que bom seria ter -te a meu lado na cama.
Quando posso ver -te, quando posso beijar -te, só penso em ti.
Raquel
Não me queres mesmo dizer o que é que se passa?
Não se passa nada, só que eu fiquei a dormir.
Bem, se não queres falar, problema então.
Espero que não te esqueças de ligar à Patrícia.
Eu ligo no escritório.
É bom que te lembres que tens uma filha.
O que é que tu queres dizer com isso?
Que para ti nada é importante.
Tudo gira em torno da tua promoção.
Estou, Henrique, preciso falar contigo.
Mais um passo e serei em cada livro.
Só eu posso tomar a decisão de recuar.
Ainda estou a tempo de o fazer.
Fecho os olhos antes de decidir se avanço.
Mas aproximo -me ainda mais do prazer mórbido de me atirar à escuridão do
abismo.
Já tinha saudades tuas.
Tens que parar com isto, Henrique.
Mas porquê é que estás sempre a dizer o contrário daquilo que pensas, Raquel?
Porquê é que inventaste que estavas sem matéria no telemóvel e o escondeste do
palco?
Por azar o meu, não foi?
E por que faria isso?
Jogo limpo, Henrique.
Eu mostrei a mensagem ao Paulo.
Escorra a mensagem.
Eu vou reavivar a tua memória.
A mensagem que enviaste do meu telemóvel para o teu.
Eu não acredito que a tenhas mostrado ao teu marido.
Mas podes acreditar.
Não mostraste, não.
Sabes porquê, Raquel?
Não podes.
Perfeitamente que o Sr. Paulo deixe esta mensagem a correcular com o meu pai.
E é isso mesmo que ele vai fazer?
Ai, tu achas que o Dr. Arthur vai acreditar nessa história?
Basta que o filhinho do papá diga que vocês estão a mentir. O Sr. Paulo vai
parar o olho da rua.
Estás muito seguro disso?
Eu estou aqui na humildade.
Onde é que tu queres chegar, Henrique?
Onde queres que eu esteja?
É para o outro lado, Henrique.
Tu não passas de um menino mimado.
Espera. Se não me toques.
Calma.
Eu não estou a fazer nada que tu também não queres.
Conta -me.
Afinal, o que é que te faz, Raquel?
O desejo de sentir os meus lábios nos teus.
As minhas mãos a percorrer em teu corpo.
O meu sexo a entrar dentro do teu.
É isso que te assusta, Raquel? Ves -me?
Quero... Nunca mais ser para cima de mim, ó filho.
Mas afinal, o que é que te assusta, Raquel?
Ou desejas de sentir -me os lábios nos teus?
As minhas mãos a percorrerem o teu corpo?
O meu sexo entrar dentro do teu?
É isso que te assusta, Raquel? Diz -me.
Tu? Pode -te vir?
Estou aqui à porta do prédio.
Deixa -me em paz!
Deixa -me em paz! Deixa -me em paz!
Deixa -me em paz!
Vou mesmo ficar no porto até terça -feira.
Vou ter três dias bem puxados.
Mas assim na volta, apanha a Patrícia no aeroporto.
Estás a ouvir alguma coisa do que eu estou a dizer?
Passas no aeroporto para apanhar a Patrícia.
Onde é que eu tenho o telemóvel?
Não sei onde é que deixo a porcaria do telemóvel.
Um dia... Eu peço desculpa ter subido tanto caro.
Mas o Domingos dava -te a ideia de abrir uma porta.
Ah, Henrique, és tu?
Tinha -me esquecido completamente que vinhas.
Eu tenho de me ir embora.
Se quiseres, eu volto noutra altura, Paulo.
Não, não, não.
Foi por causa do filme do Apalante, não é?
Se não te importas, vais ver ali na estante. Há de lá estar.
Se quiseres, leva outros filmes.
Tenho mesmo de ir.
Quando voltar, vamos disputar uma corrida de bicicleta?
Combinado? Vamos ver quem ganha.
O último passo foi algo instintivo, nem eu própria consigo explicar.
A razão é dizer que não, mas o corpo avançou indiferente.
O desejo foi tão forte que não me deixou parar.
Agora flutuo nos braços de um jovem.
Não foi ele que me trouxe até aqui.
E nem o medo de me arrepender me impediu de saltar.
Quero apenas viver este momento, que não será nada mais do que isso mesmo.
Um breve momento ao lado de alguém que não tem nome e que nunca terá.
O desejo, a paixão e o sexo podem fazer parte de um caminho para se ficar ao
amor. Muitas vezes levam -nos a esse destino, mas não posso.
Principalmente não quero avançar nesta direção.
Tão próximo, tão íntimo.
E continua a ser um estranho.
Ele é o que eu imagino.
Mas as pessoas nunca são o que imaginamos.
E é justamente isso que me faz ter -lo junto a mim.
Imaginá -lo de uma maneira diferente do que ele realmente é.
Sei que o encontro dos nossos corpos será breve.
Entrego -me sem pudor, sem medo, sem pressa de antecipar o fim desta loucura.
Agora estamos juntos.
Mas até quando?
Até que a vida nos separe.
Enquanto isso, vou alimentando a ideia de que o mundo parou de girar.
Deixa -me ficar.
Eu ligo para os cotas e vendo uma desculpa.
Não me digas mais nada.
Ficas bem?
Sim, não me preocupes.
Novamente a sensação do abismo e de uma brisa leve que desfaça o meu corpo.
O tempo agora parece estar com pressa de passar.
Começo a sentir saudades da lentidão das horas.
Mas não me resta mais nada se não aceitar a proximidade do fim.
Sinto -me como se o ar já me faltasse.
Talvez seja uma sensação de dor ou de alívio.
Cheguei ao fim sem arrependimento.
E ao mesmo tempo, sem o desejo de voltar a fazê -lo.
Seis meses no bicho?
Meu marido deve estar a chegar.
E a minha filha também chega hoje das Canárias.
Eu sei.
Mas vá, não fique depois daquilo que é triste.
Encontramos -nos durante a semana enquanto pode ver no porto.
Não, Henrique.
Nós não nos vamos voltar a ver.
O que aconteceu entre nós acabou aqui.
A única razão para eu ter estado contigo foi a tua juventude.
Nada mais.
Senti -me atraída por isso e não consegui controlar o meu desejo.
E estes três dias que passámos juntos foram... foram
maravilhosos.
Mas foram e serão sempre apenas três dias.
Quer dizer que eu não signifiquei nada para ti?
Eu acabei de dizer que foram dias maravilhosos.
Mas que levarmos esta história para diante, eu vou passar a minha vida a
esquecer -te.
Não, e acabamos por aqui.
Raquel, mas o que é que nos impede de ter uma relação?
O meu amor pelo Paulo.
E o que eu sinto? Não conta?
Eu não estou só a falar de sexo, eu estou a falar de amor, Raquel. Eu amo
Deixado, Paulo, nós podemos viver juntos.
Não vamos parar com a brincadeira, Henrique.
Não te fudiste já o suficiente a contar mentiras e a fazer os teus joguinhos?
Não achas que já chega?
Eu menti foi para poder ficar contigo. Não, não, tu mentiste.
Porque sentes prazer ao fazê -lo.
Eu tenho de ir.
Não sabes se consigo deixar de pensar em ti.
Eu também não.
Mas vou ter de aprender.
Olá. Tentei ligar -te várias vezes.
Eu deixei o telemóvel a carregar.
Desde que fui para o Porto que não me atendo de telefone.
Eu mandei -te uma mensagem e não mandei.
E aposta que eu agradecer -te por teres tido a consideração de me enviar uma
única mensagem desde que eu fui para o Porto? Em três dias?
A Patrícia.
A Patrícia está no luxo.
Estava com o Henrique.
Que pergunta é essa?
A tua bicicleta não estava na garagem.
Onde é que foi -te?
Dar uma volta com o rapalinho?
Bastou eu sair de Lisboa para vocês ficarem muito amiguinhos, de repente, é?
Tu estás a ser ridículo.
O cabrão sempre estava atrás de ti.
E tu a fazeres de santa.
A quereres dar -me a entender que não estavas interessada. Qual é a tua ideia,
Raquel? Explica -me, porque eu ainda não consigo perceber.
Eu a dar -te a perceber que não estava interessada.
Tu é que preferiste não dar ouvidos? Sim, porque estávamos a falar do vizinho
todo poderoso Artur?
E para ti é Deus no céu e Artur na terra?
Eu vou fazer o jantar.
Raquel!
O filme do Paulante está no mesmo sítio onde estava quando o Henrique veio buscá
-lo. O que é que te passou?
Ele esqueceu de repente, teve um ato de memória, um ataque da média.
Explique -me!
Não, tu é que estás a ver fantasmas onde eles não existem.
Abre o DVD.
Abre a caixa do DVD, abre.
Se quiseres o dever é de volta. Ligas ao Henrique. Ou então ao Artur.
Sim, porque ele vai ficar contente por saber que estás a incutir no filho o
gosto pelo cinema.
Ou talvez não.
Talvez ele prefira que tu leves o miúdo ao futebol. Sim, talvez isso.
Acho que é mais o género do teu chefe.
E como és um lambotas, talvez ele te convide para sócio no escritório.
Deixa -me olhar para ti. Estás linda.
As Canárias são um máximo.
E a praia do Inglês. É tipo o Guincho, só que sem vento.
Anda, contas -me tudo enquanto eu vou fazer o jantar.
Vim dar -te um beijinho de boa noite.
Ainda estás acordada?
Não, sou sonâmbula.
Acorda do teu pai. Vai ver se eu chegar à cama aqui para o lado.
Tu vai dormir.
Mas a melhor mãe do mundo e eu adoro -te.
É bom?
É o último do Polanski.
O Paulo disse -me que era giro.
Não sei, ainda não vi.
Então é para já.
Uma sessão de cinema, a meia da tarde.
Mas estava à espera.
Então não tenho que ver o filme.
Pelo menos para ti não vai ser uma grande seca.
Mas porquê é que tens que ver o filme?
E não foi essa a justificação que eu dei ao Paulo para vir cá a casa.
Se eu tivesse visto o filme, contavas -me. Como não viste, tenho que fazer o
trabalho de casa.
Já pensaste se o Paulo me perguntou o que é que eu acho?
Servilheta. Servilheta. Guardanapo disse servilheta, minha tonta.
Pois, mas eu disse servilhana. Olha, um espinhão ficou a olhar -me com uma cara
quando eu disse Ei, por favor, não é servilhana?
Pode sair?
Vou ao supermercado.
Queres que eu vá contigo?
Não, querida, eu não demoro. Vou só comprar aqui umas coisas.
Olha, não desquete de tirar a roupa suja, que depois quando voltar ponho -a
máquina.
Isso quer dizer que eu vou ter de desfazer a mala.
Não sejas preguiçosa, vai lá.
Está bem.
E não te esqueças da mochila também.
Compras de cigarros?
Se lembrar...
Papai, é de mim ou tu ia na maestrosa teatro?
Não te quero preocupar com isso, tá bem?
Guapita, o que passa?
O que passa é que tu tens a boca suja. E necessitas uma servilheta de papai.
Quando mentimos procuramos desesperadamente uma solução para o
Mas o tempo voa. A rapidez é fundamental para não sermos descobertos.
Acabamos por ficar sem tempo para nos arrepender.
O que é que se passou? Estavas tão aflita ao telefone.
Toma. O que é isto?
Disseste que não tinhas. Eu fui comprar.
Ou bem, o que eu te vou dizer? Tens que dizer exatamente o que eu te vou dizer,
ok?
Te pegas num leitor de DVD e vais à minha casa.
Para dizer o quê?
O meu pai disse -me que voltaste ontem do porto.
Pois é.
Os filhos de tua mãe não serão para passar em casa.
Eu vim devolver -te o filme.
De facto?
Achei porraio.
Será que eu não o perdi?
Vá, é um bocado seca, mas eu juro que vi até ao fim.
Só não levei a caixa porque ocupava muito espaço na mochila.
Olá, tudo bem?
Tudo.
É o Henrique.
Filho do Arturo.
Meu chefe.
Vai devolver -me aquele filme do Paulante que tu achaste uma seca.
Ai, fogo. Da próxima vez que tu me convidares para ver um filme, eu vou
que estou com conjuntivite.
Olha, estou a pensar em ver o do Tarantino. Se quiseres vir?
Ah, deve ser super giro.
Olá. Olá, Henrique. Então, tudo bem?
Já. Eu vim trazer o filme que levei no outro dia.
Ah, podia ter ficado com ele. O Paulo não dava pela falta.
Eu ajudo -te com as compras.
Não é preciso, obrigada.
Bom, eu vou andando.
Combinamos o cinema?
Sim, sim.
Novamente o perigo espreita, bate insistentemente à minha porta.
Agora, mais do que nunca, não posso permitir que avance impostosamente para
dentro da minha casa.
Eu não entendo porque é que o Henrique não pode vir aqui jantar a casa.
Quantas vezes eu vou ter que repetir que não quero que andes com esse rapaz?
Qual é o teu problema?
Ele é o meu namorado.
Eu não vou discutir isso contigo, Patrícia.
Claro, claro que tu e os teus mistérios, não é?
Eu não tenho de te dar justificações.
Pois. Pois, pelo justo, nem tu nem ninguém.
Sabe, se não te ires para cá, parece que eu estou a viver na casa dos segredos.
Já estou atrasada.
Desde que o pai arrendou o apartamento no Porto que já nem vem a casa.
Já te levantaste porquê? Disse -me que não tem tempo. Mas se calhar não tem
mesmo. Então e o Henrique?
Tem alguma coisa a ver com isso?
Vá, fala, Henrique. Tem ou não tem alguma coisa a ver com esta história?
O que é que tu estás a querer insinuar?
Não sei, diz -me tu.
Patrícia, eu não sei o que é que tu andas a pensar, mas é bom que não fiques
imaginar coisas.
Tu traíste o papá, não foi? Não sejas parva. E é por isso que não queres que
ande com o Henrique?
Vá, diz a verdade.
Eu não vou ficar aqui a ouvir as tuas infantilidades.
Tu foste para a cama com o doutor Artur, não foste?
O quê?
Dormiste ou não com o pai do Henrique?
De onde é que foste buscar essa ideia?
Responde!
Patrícia, eu e o teu pai estamos a viver um momento difícil.
Não tem nada a ver com traição, mas sim com falta de confiança.
Claro, claro.
É que isso nem é a mesma coisa, não é? Claro que não é a mesma coisa.
O teu pai já não acredita em mim. Agora, se a culpa é dele ou é minha, não sei.
São coisas que acontecem na vida de um casal.
Então e porquê que o pai não acredita em ti? Eu não tenho que te dar
justificações. Isso é um assunto que só me diz respeito a mim e ao teu pai.
E quanto ao teu namorado, a única coisa que eu posso dizer é que não simpatize
com ele. Portanto, não me obrigues a recebê -lo cá em casa porque não o
Estamos competidas.
Mentirosa!
Quando escondemos uma parte da verdade, tudo o que fizemos está mais próximo da
mentira.
Enrique!
Estás bonita? Para com isso.
O que é que tu pretendes agora?
Desculpa? Há um mês que estou a tentar falar contigo.
Desde que passámos aqueles três dias juntos que eu só pensei em ti, Raquel.
Tu afasta -te da Patrícia.
Será que tu não percebes que a minha próxima é da Patrícia para poder estar
junto de ti? Não digas disparados, Henrique.
O que é que eu posso fazer para que tu acredites em mim?
Estou -te a dizer a verdade, Raquel. Eu amo -te.
Chega. Para com as mentiras, Henrique.
Sentir o calor do teu corpo junto ao meu.
Tu afastas -te da minha filha.
Eu quero estar contigo outra vez.
Uma única vez.
Raquel, ouve!
Só mais uma vez.
A última.
Vem ter comigo a garagem.
Vai sair outra vez?
Não demoro.
É isso aí.
Eu não te ficaria deixado.
Espera, espera, Raquel, espera.
Tem a minha bicicleta lá fora.
Não confio.
Já estou a descer.
Estás na porta?
Vai ter comigo a ciclovia.
E nada de jogo sujo.
Sei que só estou com a minha mãe.
Parece que vai apagar um incêndio.
É que chagaste tudo.
Não ia ser boa e engraçada a tua filha apanhar -nos aos beijos na garagem.
Tu foste longe demais, Henrique.
Pensavas o quê?
Que eu era só criativo na cama?
Mas porquê tu viste isto?
Porque gosto de jogar.
Mas tu foste na aldinha e não deixavas esta partida.
Mas olha... O campeonato ainda não acabou. Sim, mas tu não vais sair daqui,
vitrioso. Não vais!
Olha que eu já levo vantagem.
Primeira mãe.
Depois a filha.
Deus, tu és mesmo ordinário.
Ordinário?
Vês chamar a ordinária a tua filha?
Sinto que ela no sexo esteve a canseir. É quase tão ordinária como tu.
Ainda lhe falta um bocadinho para chegar aos seus calcanhares. Mas não te
preocupes.
Não é assim.
Mato -te!
A que horas nos quer lá?
Lá estaremos.
Obrigado por ter ligado.
O que é que ele disse?
A audiência que o Luís fica comigo.
E quais são as minhas hipóteses?
O advogado está com esperanças de que o Artur aceite o acordo.
E se ele não quiser?
O Artur não vai ceder.
Se formos a julgamento, tens grandes possibilidades de ser absolvida.
Eu acabei com a vida do Henrique.
Foi um acidente.
E destruí a tua vida.
Perdeste o emprego por minha calda.
Praticamente acabei com a tua carreira e eu... Eu
percebi desde
o início que o Henrique se estava a meter contigo.
O meu trabalho sempre foi o mais importante.
Então, vamos ou não almoçar alguém?
O desejo levou -me à lacura, ao encontro do abismo.
Há muito tempo que não consigo dormir.
Uma imagem recorrente insiste em afastar -me da fome.
Não há luz, é puro greu.
Não me reconheço.
Aquele corpo não é meu.
Mas lembro -me dele.
Ele, que agora é um corpo sem movimento.
para sempre inerte.
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