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- Tudo bem? - Tudo bem.
Queres uma?
Dá cá.
Toma.
- Então, o que fizeste hoje? - Os "Sables d'Azur".
Estás a ver onde é?
Construí-os!
Tive o administrador do condomínio em cima de mim a tarde toda.
Nem te conto como ficou a tília.
Mais! Mais! O idiota só gritava.
Um massacre. Só ficou o tronco.
Porque as pombas cagam na varanda.
Estou a falar para o boneco.
- O quê? - Não estás a ouvir.
Estou! Os "Sables"...
A tua mãe ia lá...
Ver um antigo contabilista.
Ele ia de cuecas à caixa do correio
e punha-se aos berros: Um, dois, três!
Um, dois, três!
Talvez esperasse uma carta da mulher.
Ela estava morta.
Era um tipo porreiro.
E tu, o que é que fizeste?
O que é eu fiz?
Se calhar fiz mal...
Levei as coisas dela para a Cruz Vermelha.
Disse-lhes para escolherem, que eu não tenho coragem.
Levei tudo.
Estava tudo dobradinho.
Era uma mulher de ordem.
Não me tinha dado conta.
Compraste isto?
Nunca gostaste de pesca.
Vou experimentar. Nunca se sabe.
Não te vejo sentado em frente ao mar. Os peixes vão gozar contigo.
Pois, mas tenho que sair daqui.
Ouço vozes, parece que ela esta a falar comigo.
Venho à procura da Dona Chassaigre.
É aqui, mas ela já não está. Era para quê?
É o meu neto, engoliu um desentupidor de canos.
Entre.
Foi operado há um mês,
mas continua mal do estômago, não cicatriza.
Morreu fez ontem cinco semanas.
Morreu fez ontem cinco semanas.
Vim em má altura.
Que azar.
Um acidente?
Não, à mesa, mesmo à minha frente.
Pelo menos, não sofreu.
Que azar... É mina perda, uma mulher com um dom assim.
É sempre uma perda.
E ela transmitiu o dom?
Transmitiu, sim.
Mas ainda é cedo.
Tem que se manifestar.
Sao assuntos delicados. Não e uma ciência exacta.
Conhece a pessoa? Talvez pudesse ir vê-la.
Não, não é o momento.
É preciso esperar.
Pensei...
Temos sempre esperança.
Sobretudo com um pequenito de três anos.
Beber desentupupidor de canos?
A minha filha nunca o deixa sozinho, nunca fica nada à mão.
A vizinha pede emprestado, a minha filha dá-lhe o desentupidor.
A outra faz o que bem fazer e traz o desentupidor de volta.
A minha filha está a dar a banho ao mais pequeno.
"Pousa ai no lava loiças", diz ela.
A vizinha quer ver o bebé e pronto.
Duas mães a falar de bebés, risinhos e tal.
Sabe como é.
Entretanto, vão-se lá lembrar.
O Marius toca de subir para uma cadeira, agarra o desentupidor.
- É assim. - Pronto, vou-me embora.
Desculpem, tenho de ir.
- É o filho suponho? - Sim. Até à próxima.
Dá ares de família.
A mãe passou-lhe o dom.
Mas ele nem quer ouvir falar.
Não sabe o que tem nas mãos.
E quando diz que não, é não.
Tudo bem? Há quanto tempo.
Não estás com bom ar.
Amanhã estou melhor.
Tens que me visitar mais vezes.
Pára! Sabes que não gosto disso.
- Gosto eu. - De que é que te adianta? Pára.
Eu gosto.
Vá entra.
Anda, vai fazer-te bem.
A história mais curta do mundo.
Um tipo da Córsega chega a casa
encontra a mulher na cama com o melhor amigo.
E diz: "Oh!"
E o outro diz-lhe "Hei!"
Tenho uma ainda mais curta:
O José diz à Maria:
"O quê?!"
Também não percebi à primeira.
É o José que diz à Maria, "O quê?!"
Ela acabou de dizer: "Um anjo apareceu, estou grávida."
A Maria é uma tábua, nunca quer cama. Ele não percebe.
Estamos juntos há dez anos e nunca te vi nua!
O quê! O quê!
Deixa lá... Marianne, quanto é?
- 14.50. - O quê?!
14.50?
Traz lá mais umas. E olha o Fredi, há uma hora que está à espera.
O quê?
Pensei que me estavam a chamar. Ouvi o meu nome.
Fui eu que disse. "não te esqueças do Fredi".
Não, não. Era uma mulher. Uma mulher que...
O Fredi ouve vozes. É a Virgem.
O quê?!
Está-me sempre a acontecer.
É o dia todo, Marianne!", ao fim do dia ouço o meu nome.
Serve o Fredi já te disse.
Ela não me vê, não existe.
Mas eu vejo-te.
O Fredi é um anjo, não o vemos.
Marianne, vais engravidar não vais saber porquê.
Não se deve falar com os anjos.
Fredi, diz a Marianne. "Seres a minha Virgem".
O quê?!
A Marianne virgem? O quê?!
Imaculada Concepção!
Imaculada, o quê?
Vá lá... Faz bem rir.
O quê?
O quê?
Que estupidez.
Boa noite. O que se passa?
- De onde vem? - Estive com uns amigos.
- Consumiu álcool? - Não.
Mostre-me os papéis da viatura, por favor.
E veja com a minha colega.
Boa noite. Alguma vez usou este aparelho?
Sim.
Sopre com forca durante alguns segundos.
Obrigada.
Conhece a história o José diz à Maria "o quê?!"
Também não percebi à primeira. É preciso...
O senhor fumou? Consumiu alguma substância?
Não Não fumo, não bebo. Não engulo nada.
A estupidez humana basta-me.
O que quer dizer com isso?
Nada. Estou cansado, estou a divagar.
O que disse? Não se lembra?
É a historia do tipo que passa a noite na cadeia, conhece?
Bom pode seguir.
Daniel!
- O senhor é da família? - Sim.
Da família de quem ao certo?
- Do Daniel. - Está bem, siga-me.
- Vai vestir esta bata. - Parece ser grave.
Por agora não lhe posso dizer nada.
Vou chamar o medico, se quiser.
Ele diz-lhe tudo acerca do estado de saúde dele.
Mas ele vai safar-se.
Não me posso pronunciar.
Sabe, ele este nos cuidados intensivos, não é um serviço como os outros.
- Então muito grave. - Está a ser vigiado.
Compreendo a sua angústia.
Sei que é muito perturbador, mas não lhe posso adiantar nada.
O quarto do Daniel é ao fundo do lado esquerdo.
Mas primeiro vou chamar o médico, está bem?
É só um bocadinho,
- Doutor? - Sim!
Está aqui um familiar do pequeno Daniel.
- Quer saber como está. - Bom dia.
Bom dia.
Sou o médico de serviço.
É da família?
O primo.
Foi informado acerca do que se passou?
Ele foi vítima de um acidente muito grave.
Sofreu ferimentos no crânio, na cabeça.
Fizemos um TAC ao cérebro que mostra lesões hematomas e contusões.
É muito grave.
Neste momento esta em coma.
Uma maquina ajuda a respirar está em perigo de vida.
Mas vai safar-se?
Nestas 24 a 48 horas é muito incerto.
Há risco de vida.
E vai ter sequelas?
É possível. Caso sobreviva, é possível que surjam sequelas,
Mas agora estamos na fase em que o risco de vida é muito elevado.
Quer vê-lo?
Sim.
Vamos acompanhá-lo. Venha.
Pode ser muito perturbador.
Se quiser pode tocar-lhe, falar com ele.
É possível que ele o ouça.
Estou aqui ao lado.
Se precisar, é só chamar, está bem?
Vá, coragem.
Sou eu.
A moto, fui eu.
Desculpa.
Peço-te desculpa.
Vais acordar. Estás a ouvir?
Faz-me um sinal se me ouves.
Vim para te acordar.
Sentes a minha mão?
Acorda!
Sentes a minha mão?
Desculpa.
Desculpa.
Peço-te desculpa.
Acorda.
Acorda.
Tens frio? Eu tenho calor.
Acorda.
Acorda.
Vá lá.
Não o matei!
Estas a olhar assim porquê? Ele não está morto!
Não, vai acordar, claro.
Vai acordar...
É, claro que vai acordar!
Então olha para mim de outra maneira.
Ele tem de descansar.
Passei três dias no hospital.
Descanso quando ele acordar.
Não me chateiem.
Não está nada bem.
Fica de olhos abertos, não dorme.
Atenção não estou a criticá-lo.
Um cão que se atravessa na estrada...
Fosse como fosse. Vocês zangaram-se?
Vou falar com ele.
Fredi, não acho nada. Não quero que penses que...
Acreditas no que quiseres, não quero saber!
Deixei-te uma mensagem, o que andas a fazer?
Achas que ouço com a serra ligada?
A directora da escola ligou, a Lucie não pára de chorar.
O que ela tem? De manhã estava bem.
Não faço ideia!
Porra, não grites comigo!
Nunca estás quando precisamos de ti.
As chatices, sou sempre eu que levo com elas!
Quais chatices?
Pára, já chega, já chega!
Fui buscar a Lucie à escola, vai ao medico às seis horas.
Quero que fiques com ela amanhã não vai às aulas e eu não posso.
Podes ficar com a Lucie amanhã?
O que se passa?
Não sei.
A mãe diz que está a chorar.
Vão ao médico às seis horas.
Por estar a chorar?
Não fico ideia.
Acendes-me um?
Toma.
Olha o que apanhei.
Tenho que ir a uma entrevista em Draguignan!
Eles ainda não perceberam que já não quero trabalhar.
Despedem-me como um zé-ninguém quando preciso de trabalhar.
Agora, já não tenho vontade!
Comecei aos 14 anos.
A empurrar os caminhos de mão!
E as pás cheias, quantas levantei?
E tudo para quê?
Para engordar um porco e os seus pequenos!
Porquê eles fazem pequenos,
que Sao piores do que os grandes...
Porquê foi o pequeno que me despediu!
Nunca dizia bom dia. Sempre com os seus óculos escuros.
Nunca me apertou a mão!
Nem se dignou ser ele a despedir-me! Enviou uma carta registada.
Não volto a trabalhar.
Nem para ele nem para os outros!
Os porcos não merecem.
Para mudarem de carro todos os anos?
Agora, quando me levanto, é para mim.
Para ir mijar.
Respiro o ar puro, é bom.
Estás em forma, o que se passa?
Passa-se que olho para o mar e dá-me que pensar...
A tua mãe foi-se e eu fico só, como um parvo.
É o que se passa!
E apercebi-me que nunca olhei para o que estava à minha volta.
Olha o mar como é belo.
Dá que pensar, não?
Dá que pensar.
Não faças como eu, os anos passam depressa.
Não contes com os outros. Nem comigo!
E se alguém te disser o contrário, desconfia, é um tolo...
É um sacana que te vai deixar pendurado.
Já sei a resposta, mas digo-te na mesma.
Ligaram-te por um caso de zona.
Disse-lhes para voltarem a ligar.
O médico diz que é preciso fazer análises.
O teu pai tem de ir com ela amanhã de manhã ao laboratório, rue de Provence.
Tem? Ele não esta às tuas ordens!
Não há nada a fazer eu não posso! Já te tinha dito.
Como disseste, sou eu...
Não estás grávida?
Estás louco! Ela só tem treze anos.
Quase catorze.
Mas não é razão para a acusares.
Não estou a acusar, estou só a perguntar, digo o que é.
Já não é nenhuma criança!
- Filha com a qual devias falar. - É o que estou a dizer!
E imaginas logo o pior, ela é mais adulta que nós!
É o que estou a dizer, mas isso não queres ouvir!
Pára, pára!
Está bem, eu paro...
- Lá, estás tu. - Desaparece não há mais a dizer.
Lá vamos nós Não ponho cá mais os pés, acabou.
Até amanhã minha querida.
Não sei o que lhe fiz...
Ou o que não fiz.
Mas a culpa não é tua.
O que queres comer?
Tens a certeza que não estás grávida?
Sim!
Viemos colar-nos.
- Fazem muito bem! - Cheira bem!
Tudo bem? Olá Lucie!
Ela está a chorar.
Toma, sobremesa e mais umas coisas.
Obrigado, Fredi!
Olha lá, não vejo o teu pai há algum tempo!
Anda na pesca.
Ai é?
Vai durar três dias.
Há que lhe dar tempo.
Chega para lá. Sou eu que estou a fazer.
- Ai é, mas estou com fome. - Sim, está quase.
- Para querido! - É a natureza.
Fredi, almoçaste ou nem por isso?
Comeste o quê?
Já nem sei.
Já sei que não comeste. Mas devias.
Pára, não consigo fazer nada!
Está bem, pronto.
Devia ter feito filhos, muitos filhos...
Eu queria seis, agora fizemos uma pequena pausa,
mas vamos continuar.
- Viste a Virgem ou quê? - E porque não?
- Não é essa a questão. - E porquê?
Onde e que punhas os miúdos aqui?
Não sei, aumentamos e pronto.
Que disparate.
Alugamos uma casa, sei lá.
Então ai temos de jogar na lotaria.
Está bem, jogamos na lotaria.
Ou pego num pequeno terreno, com o pai do Fredi e construo.
É pedreiro o teu pai? Pronto.
Assim ninguém se entende!
Então? O que achas?
Larga-me!
Muito bem, vamos enfrascar-nos!
Fredi, fazemos sempre tudo mal!
Fazemos assim ou assado, está sempre mal.
Mas o que queres de mim, afina?
Queres que me interesse pela queda do euro pela crise, pelo quê?
Sei lá, pelos tremores de terra ou...
Pelo que quiseres!
É o que tu queres,
queres que vá votar,
que vá mijar à casa de banho como toda a gente?
Quando o que eu gosto é de mijar contra a hera logo de manhã,
Esse, é o melhor momento do dia, está bem?
- Miúdos, não! - Pois, pouco barulho!
Não basta nascer, é preciso estar sempre a recomeçar.
Gostava de ser uma mama, aí está.
Uma mama para ser acariciado, o dia todo do bom e do melhor.
Isso é que era. Isso é que é viver.
Estás a chorar? Olha para mim.
Também achas que fui eu?
Quis evitar o cão, a moto foi para um lado e eu para o outro.
E fui contra o rapaz.
Pára de chorar.
Pára!
Estás a chorar?
Queres um copo de leite?
Toma.
Não sei porque choro.
Estou muito triste não sei porquê.
Estás a pensar no rapaz?
Na avó que morreu?
Sim, mas não é por ela ter morrido.
É por eu e a tua mãe discutirmos?
É dentro de mim... dói-me.
Onde?
- Onde? - Não sei. Na barriga por todo o lado.
Dói muito.
Queres que te leve ao hospital?
É bom sentir a tua mão assim.
Ficas aqui comigo?
Não devia estar aqui. Vá se embora!
Também quero que ele acorde.
Por favor, vá se embora.
Vou acordá-lo.
O senhor? Proíbo-o de vir aqui. Vá-se embora.
Por favor, vá-se embora.
O que quer?
Ofereço-lhe a minha vida. Fique ele com a minha vida que viva.
- Nem que eu tenha de morrer. - Cale-se.
Não. A culpa foi minha, ia depressa demais. Quis evitar o cão...
Não olhe para mim assim.
Nem sabe o quanto me magoa.
Peço-lhe perdão. Perdoe-me.
Dê-me cinco minutos com ele.
Talvez eu tenha um dom... A minha mãe passou-me um dom.
O senhor é louco.
Não. Não olhe para mim assim.
Não consigo olhar para aí de outra forma.
Não sou louco.
Acredita em Deus?
O que fizemos para merecer isto?
O meu marido tem fé, é mais simples.
Não posso crer num Deus tão cruel.
Nada justifica que se tire a vida a uma criança...
Tem filhos?
Uma filha.
O médico disse que se ele acordar, não voltará a andar a falar.
Ele tem de partir.
E eu não consigo deixá-lo partir...
Tentei.
Disse-lhe: "Vai. Não quero que sofras."
Já viu o que eu disse?
Desculpe. Não tenho com quem falar.
Eles tem tanta fé.
Repetem-me constantemente: "Deus assim o quis".
Vejo-os sorrir porque crendo em Deus tudo é uma bênção.
Deus é amor.
Está a pôr-me à prova.
E se não consigo sorrir,
é porque não mereço.
Pois não, não mereço.
Não sou suficientemente forte.
Vivo com loucos... Desculpe.
Outra?
Estás bem?
Está tudo bem.
É a historia de um tipo.
Uma imperial. Duas, por favor, Marianne.
Tudo bem, Fredi?
É a historia de um tipo que se espalha de moto.
Sabes que hoje é noite de lua cheia?
E então, mexe contigo?
Vou pensar em ti a noite toda.
Ele vai uivar e acordar o bairro todo.
Fredi, estás bem?
Não lhe toques! Está a ter a crise dele.
Não lhe toques.
Mas vai-se magoar.
Deixa-o estar, corre tudo bem.
Aí está.
Quando éramos miúdos a jogar à bola, pregou-me o cagaço da minha vida.
Achei que estava a bater a bota, mas não.
Aí está.
Chamamos o médico?
Não, chamamos o pai dele.
Fredi, estás bem?
Estás a ver, está a voltar. Deixa-o... Está a voltar a si.
Aí está.
Fredi, estás a ouvir?
Antes...
Depois.
Antes.
Depois.
O que fazes aqui no escuro?
Antes... Depois.
Antes. Depois. Entre os dois só há vazio.
- Pára! - É, antes, depois e vazio.
Não fiques aí, anda lá.
Ficas linda com essa blusa... Comia-te com gosto.
Desculpa!
Josiane, desculpa!
Quero que vejas isto.
Estás a ver?
Antes...
Depois.
Entre os dois é o buraco.
O buraco negro.
É a minha vida.
Um buraco negro.
Quem é?
Um buraco.
Que ordinário.
Sim, eu sei...
Terrivelmente ordinário.
Para ti a vida é uma linha.
Para mim...
Pensei que isto tinha acabado, mas voltou.
À noite sonho que ando na montanha, o céu olha para mim e tenho medo.
É estúpido, o céu olhar para mim.
Tenho medo.
E depois acordo.
Antes há a vida, depois caio, depois...
E depois voltas.
Sim.. Não. É outra que volta.
É isso que não sei. Não sei explicar.
Tu quando acordas, és tu.
Imagina que acordas com um braço
a menos, ou um olho o nariz...
É qualquer coisa assim.
Desce!
- Desce! - O quê?
Estou a dizer para desceres.
Mas acabei de subir!
Merda!
Pára! Podemos falar, não?
Mentiste-me porquê?
Menti, como?
Não me disseste que és epiléptico.
Porra!
É uma porra, é!
E quem é que se entala, tu ou eu?
Há quinze anos que não tenho uma crise!
Quero lá saber.
Não tens direito de trabalhar!
Faço-te um desconto.
Não nada de descontos, é proibido!
Faço-te um desconto.
Nada de descontos, já disse!
Preciso de trabalhar. Tenho uma filha.
E eu também preciso de comer, portanto nada de descontos,
não vou de cana por tua causa!
Estás a brincar, faço um desconto e não queres saber!
Não serve!
Não me chateies.
Preciso de trabalhar, percebes?
Pára de trabalhar e arruma tudo, vá!
Tenho de trabalhar, tenho uma filha!
Não quero saber também tenho um filho!
Que cão é este?
Anda aí há dois dias... Dei-lhe comida.
Pois se lhe dás comida!
E tu, não comes?
Dá-lhe o telefone!
Foste feliz com a mãe?
Acho que sim.
E com a tua mãe?
Não vivi com ela.
Não a vais ver?
Não me reconhece.
E então?
Fico deprimido.
O que vais fazer com o cão?
Vou ficar com ele.
Olha, ela já não chora. Diverte-se.
Temos de lhe dar um nome.
Trocaste de moto?
Sim.
Se não estivesses aqui, suicidava-me.
Que conversa e essa, estou aqui.
Deixei de fumar porquê? É bom, é bom.
Preciso de um corpo.
O quê? O que disseste?
Preciso de um corpo.
A toalha não serve de nada!
Deite-se, por favor.
Mas não há um médico?
Sim, já chamámos, estão a chegar.
Há meia-hora que dizem isso.
Porra.
Vai correr tudo bem, calma, eles estão a chegar.
A vaca de merda...
Levem-me ao hospital! Um carro, um táxi, não quero morrer!
Sim, vou ver o que posso fazer.
Vão-me deixar morrer...
A vaca de merda!
- Onde sente a dor? - Na barriga!
Estou-me a esvair por todo o lado! Não, aqui!
É bom sentir a tua mão aqui!
É bom aqui, não mexas!
Não mexas!
Sinto calor aqui. É bom...
É bom sentir a tua mão. Que bom!
Espera, aqui, assim. Não deixa a mão.
Tenho a sensação...
Parece que já não está a sangrar.
- O que tens nas mãos, tu? - Acalme-se.
Vá, trata-me!
É bom sentir a tua mão aqui!
Dou-te o que quiseres, não quero morrer, trata-me.
Tenho a sensação que...
Se eu apagar diz-lhes que sou O negativo, porque...
Eles estão a chegar estão aqui!
Se me dão outro sangue, morro.
Digam-lhes, O negativo.
Pronto, já estão aqui.
Lembra-te, O negativo.
- Bom dia. - Bom dia.
O que se passa, senhor?
Uma hemorragia anal.
- O senhor quem é? - Preciso de O negativo.
Preciso de O negativo, por favor!
É a primeira vez que lhe acontece?
Não, aconteceu duas vezes. Esvazio-me.
Sim. Toma alguma medicação?
Não.
- Tem alguma doença? - O negativo.
Já não estou sangrar.
- Acalme-se senhor. - Já não estou a sangrar.
- Olhe para mim, por favor. - Foi ele, foi a mãe dele!
Christophe, prepara-me o estetoscópio. E uma via.
Tens um dom! Não?
Seguias com o teu dedo assim, soltas aqui, muito bem.
Agora um pouco para o lado.
Um bocadinho, com pouca força e depois de uma vez.
Sim. Não está mal.
E agora enrolas e já está.
Posso tirar uma foto aos surfistas?
Sim.
Porque não fazes? Porquê, porquê...
Este verão vamos aprender, está bem?
Esta bem?
- Os dois! - Está bem.
Eles estão muito longe.
Não faz mal, é muito bonito.
O Nanar vai-se embora.
Gostava que falasses com ele, por favor.
- Vai-se embora porquê? - Mão faço ideia porquê.
Parque encontrou uma gaja e pronto.
Assim é mais fácil.
Porra como e que faço com as crianças?
Como é que faço?
Ele desaparece e sou eu que lhes vou dizer.
Que cobarde, nem acredito.
Podes falar com ele, por favor, eu não consigo.
Por favor.
Já sei o que o traz por cá.
Poupa a tua saliva para as coisas boas.
Só tens de lhe dizer que fizeste o que podias.
Que eu te disse que ia pensar é o que ela quer! Que eu pense...
E tu, estas bem?
Estou na merda Fredi.
Pensei que podia amar duas mulheres mas não funciona.
Amo-as às duas, mas não é fazível, não é possível.
Há que escolher.
E tu, estás bem?
Estou tramado.
Ela tem 20 anos, eu tenho 40. Quando estou com ela, sinto-me com 20.
O que se pode fazer contra isto?
Quando tinha 20 anos, era um parvo, não sabia nada.
Agora, não sei. Estou confuso como se tivesse 20 anos.
O que queres que explique à Josiane?
Onde é que a conheceste?
No descampado com os amigos, com o bando dela.
Primeiro vi-lhe os tornozelos. E tramei-me.
Depois cruzámos olhares e...
O que há para escolher?
Já estiveste apaixonado?
Não sei se é amor. Não sou feito como tu.
Como assim?
Vejo a forma como vocês vivem, sei que sou diferente.
Porque é que nunca te fizeste a ela?
A Josiane?
Acho que ela não ia querer.
Sabes lá tu? Já experimentaste?
Porque não?
Se queres fazer lume, pegas num fosforo e acende ou não acende...
Senão ficas num canto com os tomates gelados.
A Martine aceitou logo?
Esquece! Essa história é velha...
Comeste-a ou não?
O que é que interessa?
Toma.
O que é que te falta com a Josiane?
O que me falta, falta-me o fogo, a loucura...
Sei lá, coxas jovens que se agarram às minhas ancas.
Sei lá, outra carne...
Mais do mesmo vazio.
Qual vazio? Isto é vida!
Vida com paixão!
Queres que jogue a Petanca como eles?
Não, não!
Vais voltar e dizer-lhe que espere por mim, está bem?
Podes dizer-lhe isso?
Diz-lhe, sei lá. Aconselho-te a esperar.
Agora não o consegues impedir.
Está tipo louco.
É preciso deixá-lo ir.
Depois tens que a empatar até eu me pirar.
Não estou para cenas logo à noite.
Já tive a minha dose.
Pronto. Vá...
- Queres uma? - Sim.
Apanhaste alguma coisa?
Achas.
Abre.
O que é?
Uma prenda.
Um tipo que acredita que lhe salvei a vida.
Estava a mijar sangue, pus-lhe a mão em cima e parou.
A mijar sangue?
A esvair-se em sangue... Um horror.
E conseguiste fazer parar?
Parece que sim.
Isso, ela não saberia fazer.
Bom dia.
Bom dia.
Está tudo bem?
Por aqui, só se fala em si.
Queria perguntar-lhe...
A minha mulher sofre de enxaquecas, tem dores horríveis...
Todos os meses na mesma altura.
Dizem que é da menopausa.
Já dura há 6 anos. Enchem-na de medicamentos.
- Aceitaria vê-la? - Sim.
Mas não garanto nada.
É claro.
Pode ser agora?
Estamos a chegar ao momento fatídico.
Ela está ali na praia.
As pessoas aqui falam.
Não lhe faz diferença que seja praia?
Eis a minha esposa.
Acha que me pode ajudar?
Não sei porque tenho de viver este calvário todos os meses.
Tomo conta de crianças.
Quando isto me afecta,
os pobres pequenos são uns queridos, nem fazem barulho...
Vão buscar o alguidar e vomito é horrível.
Estás a impedi-lo de se concentrar.
Neste momento está com dores?
Não.
Dá-me licença?
Sim.
Acha que pode ser o coração?
Não sei.
Um problema de coração?
Um problema de coração...
A sua mão está muito quente.
Até agora ninguém me disse que podia ser do coração!
O senhor é o primeiro.
Não pense mais nisso.
Pronto.
Acabou?
Sim. Não posso fazer mais nada.
Acha que devia fazer um exame no coração?
Talvez. Mas deve ficar bem, não sinto mais nada.
Afinal, era o coração!
Obrigado.
Sinceramente, obrigado.
Também faz massagens?
E se lhe propuser uma formação. O que diria?
Estaria mais adaptado ao seu perfil do que andar a limpar piscinas.
É a história de um tipo que parou uma hemorragia.
O quê?!
Paraste mesmo?
A mãe dele curava o fogo.
Fui lá várias vezes, queimadura de medusa, zona, tudo.
Mas parar uma hemorragia é de génio!
Como fazes? Pousas a mão e...
Ele não dirá nada. Atenção, segredo!
E não podias tirar-me as dores nas pernas?
É que depois de um dia inteiro em pé, chego à noite de rastos!
Deixa cá ver.
Está bem. Doem-me as pernas!
Passe minha senhora.
Eu também tenho um dom! O Fredi apanhou-lhe o jeito!
Fredi, faz-lhe antes festas na passarinha
que de tanto convívio, tem dores.
Diz que é uma rata.
Que piada!
Tens a pele suave... muito delicada.
O quê! O Fredi vai sacar as gajas todas?
Fredi, faz-me festas, Fredi!
É muito bom, quero isto todas as noites.
Todas as noites!
Fredi, não te esqueças dos teus compinchas.
Fredi, dói-me aqui.
Fredi, eu compro-te.
Eu compro-te!
Fredi! Faz-me sentir bem!
Não, fora de brincadeiras, dói-me o braço.
O Senhor, só trata donzelas!
Ainda estás aqui?
Levo-te a casa?
Estou cansada.
Está de chuva, eu levo-te.
De scooter?
Sim, ou a pé.
Muito bem. Desce até ao fundo.
- Assim? - Mais baixo...
Muito bem.
Onde estiveste? Não dormiste cá?
Não digas nada, nem quero saber!
De qualquer forma são todos iguais, só pensam em vocês.
Acalma-te, diz lá o que se passa!
O que se passa é que ele não vai voltar, é o que se passa.
Mentiste-me!
E quanto ao dinheiro, toma. Desenrasca-te!
O que queres que faça com três miúdos?
É doido.
Não quero saber, amanhã deixo-os com ele e vou-me embora.
A ver se ele não percebe...
Passar o dia todo sem três bocas a pedir de manhã à noite.
Juro que o faço! Também não tenho mais nada.
Ontem comemos batatas com sal grosso e para logo já não tenho batatas.
Portanto vou roubá-las, aí está. Maravilhoso.
Porra, estou a afundar-me e ninguém quer saber!
Ninguém quer saber. Estou um fedor.
Passo e olham todos para o lado.
Claro, muito bem, bravo. Obrigada pelo apoio, bravo.
A assistente social a mesma coisa.
Hoje de manhã: "Pois, compreendo a sua situação."
"Mas o seu marido tem um salário."
"A senhora é casada, não posso fazer nada."
E eu, que posso eu fazer?
Ligo-lhe, não atende.
Vou ter com ele, prega-me um estalo!
Fui posta na rua pelos colegas, que me chamaram histérica.
E sabes o que ele me diz?
Diz que tenho um tecto portanto não tenho nada que me queixar.
É um cretino.
Os próprios filhos!
Não têm nada para comer e ele desaparece com uma fedelha.
Juro-te, se a apanho, trago-a cá, a ver se não lhe passa a vontadinha!
Vou fazer como tu, ter um ataque.
Parece que o meu cérebro vai explodir!
Toca! Toca!
Tratas dos outros e de mim, nada.
És meu irmão.
Amo-te na mesma.
Vou falar com ele. Não sabia.
Desculpa.
Tenho mesmo vergonha, desculpa!
Não, não, não.
Olha para mim.
Vais tomar um banho, pôr um vestido bonito.
Vais pôr-te bonita, assim metes medo.
E eu vou falar com ele.
Toma. Leva isto.
Estás louco.
Leva.
- Mas isto é demais. - Leva!
É para ti.
E não me agradeças.
Desculpa. Vou falar com ele.
Temos de falar.
Não podes deixar a Josianne sem um chavo.
Vens até aqui só para me dizer isso, estás doido ou quê? És maluco?
Eles andam a comer batatas, ela não tem um tostão!
E tens que me vir chatear aqui, estou a trabalhar, merda!
Vens atrás de mim, estás louco? O que me ensinas tu da vida?
Não a vais deixar naquele estado, imbecil!
- Achas que és o quê? - Anda!
- Não vou! - Anda!
- Se me levas parto-te a boca toda! - Vais-me partir a boca toda? Tu?
Vai-te embora, estou a trabalhar! Estou em casa!
- Anda cá! - Vai-te embora!
Olá, Fredi.
Estás bem?
- De certeza? Não estás com cara disso. - Sim, sim. Está tudo bem.
A minha irmã, Claire. Já te tinha falado nela.
- Bom dia. - Bom dia.
Contei-lhe sobre o que passou e ela quis vir ver-te.
Ela vai explicar, tem a ver com as ultimas análises que recebemos.
Talvez possas fazer algo?
Não queremos incomodar.
Não tem problema.
Entrem.
Acho que vos vou deixar a sós, talvez seja melhor falarem os dois.
Vou dar uma volta. Já venho.
- Olá, Caroline. - Bom dia!
- Olá, Tino. - Olá.
Mexilhão frito para mim.
Para mim também.
- Tudo em forma? - Olá, Tony!
- Olá, tudo bem? - Jean, estás bem?
Fiz asneira. Chega uma mulher, comida por um cancro.
E o que é que lhe digo?
"É a sua irmã que a está a matar".
Já viste!
Que direito tenho eu de lixar uma família?
Olho para ela e são as palavras que me vêm.
Estou farto desta porcaria.
Não nasci para isto. Era bem mais feliz a subir às árvores.
Já te esqueceste? Já não falavas, a tua filha é que chorava por ti.
Fui ver o miúdo.
Estive com a mãe dele. Tenho o olhar dela na cabeça.
Está-me a matar.
Não vais acordar os mortos.
És apenas o Fredi.
Ele não morreu.
Só estou a dizer que não te cabe a ti fazer tudo.
Ela está a matar-me.
Então não voltes lá mais.
Não posso.
O que foi?
Esta mulher...
O que foi?
Fredi?
Merda, outra vez!
Não tenha medo minha senhora, vai passar?
É aqui?
Vais ficar bem aqui. Entra.
Não, aqui podem entrar. Tens de me enterrar!
É fundo metes-te lá dentro e ninguém te vai encontrar.
O que andas a fazer às três da manhã?
E tu?
Tive um pesadelo.
Dizias-me para entrar numa gruta querias esconder-me.
Já tomaste os remédios?
E eu queria que tu me enterrasses.
Que te enterrasse numa gruta?
Tinha de me esconder para não ser encontrado.
Vou esconder-te aqui.
Vais dormir no meu quarto.
Não é bom dormir sozinho.
Vais dormir aqui.
E tu?
Eu não durmo... Fico por aqui.
Deixa estar a mão!
O que foi?
Nada...
Mais parvoíce.
Isto cansa-me.
Achas que está na minha hora?
Não.
A tua mãe teve algum irmão ou irmã que morreu quando ela era pequena?
Com menos de 5 anos.
Foi isso que viste?
E então?
Então, nada. Não sei...
Não vejo televisão e sei as notícias.
Certas ou erradas, notícias de há um século.
É isso.
Durante a noite, corro.
E durante o dia, vejo a mãe do miúdo, a olhar para mim. A fuzilar-me.
Ela fuzila-te, eu enterro-te numa gruta. Isso é tudo vento.
Sim...
É o tempo a passar. Deixa-o fazer o seu trabalho.
Quantas mulheres amaste ao longo da vida?
A tua mãe.
Só?
Duas ou três...
O amor não se conta.
Gosto muito de falar contigo.
Achava que eras homem de poucas palavras.
Ou que não tinhas nada a dizer.
Ou que te aborrecia.
A tua mãe falava pelos dois.
Isso não te incomodava.
Não.
Também gosto das nossas conversas.
Temos coisas a dizer um ao outro...
Está em construção, isso.
Não sabemos onde vamos parar.
Uma taça por favor.
Aqui tem.
Obrigada.
- Bom dia. - Bom dia. Uma cerveja.
Lembra-se de mim? A crise de epilepsia.
Foi você?
Não é de cá?
Não. E você?
Eu sou daqui.
Achei que não existia, tenho alucinações antes das crises.
Acontece-me com frequência.
Questiono-me se já vi esta cara.
Não têm qualquer importância, as caras que vemos.
Mais vale esquecê-las.
Não acha?
Não se lembra de mim?
Não... Quanto é?
Sete euros.
Obrigado. Adeus.
Josianne?
Sim?
Tens cerveja?
Sim.
Estás bem?
Estou farto de estar sozinho.
Porque não vieste almoçar connosco?
Voltou.
Esta tristeza que dá cabo de mim.
Achei que tinha acabado.
A empregada de balcão?
Não.
Vês doentes o dia todo, não é isso que te vai animar.
Vivo como um parvo.
Não percebo nada de nada.
Viste, está uma estrela de fora. Elas limpam a Terra.
É por isso que de manhã, o ar está limpo.
Senão, já não respirávamos há muito tempo.
Não, queria ser outra pessoa.
A minha vida mudou e isso não muda nada.
Também gostava de ser outra.
Mas quando tens miúdos já não podes ser outra.
Mas tens vida. Com os miúdos, tens uma vida.
Eu estou ao lado. Sempre ao lado. Porquê?
Vejo o que os olhos não vêem. Não muda nada.
Nasci torto, vou ficar torto.
Por muito que olhe para as estrelas.
Onde vais?
Vou para casa. Ver o meu pai.
Fica um pouco, não?
Estamos bem aqui.
Estamos bem? Não sei...
Venho chorar a tua casa. Tu vens chorar à minha.
Gostava de dizer a uma mulher que a amo.
Gostava.
Eu também gostava.
Lembra-se de mim? No Arpillon.
Entrou e eu tive uma crise de epilepsia.
Foi você? E agora já está bem?
Voltámos a ver-nos noutra ocasião.
Quer sentar-se? Aceita uma taça de champanhe?
Duas taças, por favor!
É estranho, tenho a sensação de voltar atrás.
Levantei-me para ir ao seu encontro, e agora está aqui.
Sem lacunas!
Lacunas?
Depois de uma crise, não me lembro de nada.
É uma lacuna o vazio. A morte.
A mim acontece-me quando durmo.
Não se compara.
É um pouco como...
Cair sem ter onde se agarrar.
E é o nada que importa.
É uma vertigem sem imagem.
Porque é que bebo?
É verdade que bebo.
Tornei-me numa mulher que bebe.
Entro nos cafés...
Gosto do seu sorriso quando é o da criança, não o da mulher.
Consegue ver isso! E este qual era?
O da mulher.
Não, desculpe.
Não devia ter dito isto.
Tenho a sensação de poder dizer tudo, sem a magoar.
E pode.
Não há malícia no seu olhar.
Tem umas belas mãos.
Aí esta ele, o seu sorriso de criança.
Há muito que não o vejo no espelho.
Não? Foi-se embora, a menina?
Não se quer mostrar. Não gosta que eu beba.
Não bebe?
Não seria correcto, com o que tenho.
Sei o que há a fazer.
Quer comer qualquer coisa?
Para quê?
Estou medonha!
Mas nem estou bêbeda...
Ainda não.
Chamo-me Nina? E você?
Fredi.
Seja simpático, dê-me o seu braço.
O levantar é sempre um problema...
E por isso que prefiro beber ao balcão.
Quero voltar a vê-la.
Claro.
Quando?
Não sei...
Não sei...
Uma destas noites.
Sei onde encontrá-lo.
Larga!
Empurras ali e estabilizas; com um golpe seco, páras!
Boa!
Vá curto!
Agora é a Lucie que vai controlar, com calma.
Vais para a esquerda e agarras-te, põe bem o dedo.
Vá Lucie, vais conseguir, à esquerda. Direita, aí está!
Pára, senta-te, ainda não acabaste.
Não, não, não!
Mas que balbúrdia é está?
Já chega!
Vá, para a rua!
Já para a rua! Desapareçam!
Desculpem, não sobrou grande coisa para comer.
Deviam ter ligado, não há quase nada.
Senta-te Lucie.
Eles esgotam-me, estou saturada.
Espera!
Voltaste a pôr a tua saia de menina?
Gostas?
Serve-te, Lucie.
O Nanar ligou, quer voltar.
E então?
Então...
O meu filho, Fredi.
Bom dia.
É a Karine.
Ainda tens consultas ou queres vir comer uma mousse?
Não, vou deixar-vos.
Até uma próxima, talvez.
Já vem tarde, estou à espera há mais de uma hora.
Não fique em pé, sente-se!
Esteve a beber...
Venha, vamos apanhar um táxi.
Não, não. Espere.
Não acabei o copo, não paguei.
Sente-se, cinco minutos.
Vá, agarre-me a mão!
É pena que tenha chegado tão tarde. Estou contente que esteja aqui.
Novidades?
É, diz-se isto, como se pudesse haver algo de novo nesta terra.
Está a ver, não estou assim tão bêbeda. Ainda consigo juntar duas palavras!
Porque é que voltou?
Porque é que veio?
Porque sim.
Porque...
Não, não é grave. Não diga.
Estou farta de andar!
É preciso, faz-lhe bem.
Ando como uma velha.
Andava com um homem mais velho do que eu.
Também o obrigava a andar...
Ele agarrava-se a mim. Agora, estou no lugar dele.
É estranho, não acha? Não sou assim tão velha.
Era o seu marido?
De certa forma.
O seu amante?
Gostei muito desse homem.
Devia odiá-lo.
Foi ele quem me pôs a beber.
Estupidamente, porque...
Ele bebia e eu comecei a beber.
Amava-o.
Estava apaixonada. Está apaixonado?
Não me quer dizer.
Talvez seja cedo demais.
Não estaria aqui se não estivesse um pouco...
Muito...
Só sabemos no fim, não é?
Podemos sentar-nos?
É tão bonita.
Obrigada. Fale-me de si, diga-me o que faz, de que gosta.
Diga qualquer coisa. O que dizemos pouco importa.
As crises de epilepsia, é doloroso?
Não.
Fico com um vazio.
Pois é, já me tinha explicado isso.
E não tem cura.
É como eu, com o álcool.
Se eu morder...
Não tenha medo. Eu...
Não sei porque o segui, estou louca.
Vamos voltar, tenho sede.
Não, não.
Vou morder.
Bebe todos os dias?
Quando se bebe, é todos os dias, e à noite.
Não existe dia ou noite.
Tem de se tratar.
Pois... Não diga disparates.
Diga-me antes que...
Que sou bonita e...
Mesmo quando roubado é bom de ouvir.
É tão bonita.
E agora que o disse, tem de voltar a dizer. Não se esqueça.
O velho também lhe dizia?
Não diga o velho.
Teria gostado dele, se o tivesse conhecido.
Ele era...
Pintava-me.
Fez de mim aquilo que sou.
Desenhava-me.
Desenhou-me milhares de vezes.
E vi o que ele queria.
Vi o que ele via em mim.
Acabei por ceder.
Tornei-me a coisa dele.
Era um monstro.
Era modelo dele?
Sim, ele olhava para mim.
Fique ao sol muito tempo e ele vai queimá-lo.
Como um monstro. Acabei por...
Vamos voltar.
Vou enlouquecer. Ajude-me.
Boa noite.
Boa noite. Duas taças, por favor!
Duas taças.
Aqui tem.
Obrigada.
Leve-me.
Para onde me vai levar?
Para sua casa.
Não... Para minha casa não.
Não, por favor!
Não me deixe.
Por favor.
Está bem.
Tenho medo.
De quê?
Não me deixe.
Não me deixe.
- Fica assim. - Obrigado.
Tenho sede.
Tem água?
A luz. Pode apagá-la, por favor?
Vai dormir aqui.
Bom dia.
Bom dia.
Cheguei cedo, talvez.
Não, entre.
A Lia tem uma leucemia.
Sou médica.
Nunca enviei um doente a um curandeiro.
Agora estou aqui.
Tento qualquer coisa...
Sente-se.
Quantos anos tens?
Sete anos.
Gostas de cavalos?
Sim.
Como é que sabes que tenho um?
Chama-se Zébulon.
É um pónei.
Sim, mas é como um cavalo.
Sim.
Também tenho um cão lobo, que se chama Victor.
E a minha tartaruga Lili.
Porque eu, chamo-me Lia.
E se eu partir, eles vão ficar tristes.
Já lhes disse que eu talvez vá partir.
Podes vir para o pé de mim?
As tuas mãos estão muito quentes.
Vais-me curar?
Talvez.
Não tens a certeza?
Nunca podemos ter a certeza.
Porque não sou eu que decido.
Porque não sou eu que decido.
Quem é que decide?
Não sei.
É Deus?
Não sei.
Não sabes grande coisa.
Pois não.
Quando adormeceres à noite...
Lembra-te das minhas mãos. Como elas te aquecem.
Vais sentir calor, e vais adormecer.
Pode ser?
Sim.
Eu podia tentar com o Victor.
Talvez as minhas mãos aqueçam também.
Pronto, já está.
Deixa-me dar-te um beijinho.
Já está?
Quanto lhe devo?
Nada.
Faço questão.
Não. Se voltar, dá-me aquilo que quiser.
Devemos voltar?
Não pede fazer nada, é isso?
Você é um charlatão!
Aproveita-se da desgraça dos outros.
Anda, vamos embora. Tem cuidado.
Bom.
Senta-te aqui. Esperas por mim?
Desculpe...
Fui um pouco desagradável.
Não faz mal. Eu percebo.
Entre.
Desculpe.
Espero o impossível...
Já nem o pai dela acredita.
Tenho a sensação que sou a única a querer que ela viva.
Mesmo sem hipóteses, não consigo olhar para ela sem fazer nada.
Afaste-se dela.
Não entendo.
Se ficar perto dela, é você que corre perigo.
Não entendo.
Faça uma viagem, qualquer coisa.
Alguém está à sua espera.
Como é que sabe?
O meu pai quer ver-me.
O meu pai biológico. Nunca o vi.
Está a morrer.
Então, vá ver o seu pai.
Não.
Sim. Tem de ser.
Não posso.
Não.
Tem de ser.
Eu também não queria ser curandeiro.
Então começou tudo... A andar ao contrário... Até eu aceitar.
E pela Lia não pode fazer nada?
Não sinto nada nela.
Vá ver o seu pai.
Não posso.
Já a acordaram.
Vai ser assim a manhã toda.
É tão bonita.
Não, a esta hora, não...
Será que me pode trazer água?
Sim.
Obrigada.
Vou dormir.
Estás a ver, voltei.
Estou a ver.
Tudo bem?
Olho para o espelho e vejo um tipo que não conheço.
É grave, Doutor?
Pode fazer alguma coisa por mim?
Deixei a moto na cidade, ontem.
Preciso de uma boleia.
É parvo!
A sério, estou melhor quando ele não está.
Ontem vi-te chegar.
Quem é a rapariga?
Estás com ciúmes?
Claro que sim!
Faço-te alguma cena quando me pões fora porque o Nanar voltou?
Podias.
Isso mudava o quê?
Não vês que te amo?
Dizes isso porque o Nanar te fez uma sacanice.
Fui buscar a moto.
Tudo bem?
Tudo muda quando chegamos a casa e temos uma mulher à nossa espera.
É curandeiro?
Fui ouvindo coisas durante a manhã, a dormir. Achei que estava a sonhar.
Não tente curar-me.
Não tem qualquer hipótese.
É você que me está a curar.
Sim...
Não tente perceber, faça como eu.
É o Além. É o Além que quer.
- É crente? - Não!
Não é preciso ser crente.
Existe mais para além daquilo que vemos.
Estou a curá-lo de quê?
Do meu corpo, dos outros. Se soubéssemos...
É como consigo. Não é o álcool que a mata.
Não, sou eu.
Não, acho que não.
Então, o que é?
Não me quer dizer.
Não sei.
Está a dizer-me como disse à menina, esta manhã.
Está com um ar transtornado.
Há palavras que me vêm e assustam-me.
A miséria do mundo, não fui feito para isto.
Abro a porta e é tudo o que vejo.
Felizmente não vejo só isso.
As queimaduras, as feridas, tudo isso, gosto.
Vejo-os sair com um sorriso.
A maioria tem falta de confiança.
Quantas vezes digo, confie em si.
Confie.
Eu que não tenho confiança nenhuma em mim!
Tenho fome. E você?
Não.
Compreendo que um pintor a tenha raptado.
Tenho ciúmes.
Nunca a irei acariciar como os olhos dele fizeram.
Vou para casa. Pode chamar-me um táxi?
Eles não vêm até aqui, perdem-se.
Eu levo-a.
Em cima daquilo?
O que está a fazer?
Você agrada-me!
Apetece-me ir pela direita,
vou pela direita...
Apetece-me ir pela esquerda, vou pela esquerda...
Pare! Tenho medo!
Pare!
Já viu os cavalos, como eles correm?
Você não é um cavalo!
Sou!
Consigo, tenho 15 anos.
Que idade tem?
Pare, pare!
15? 80?
Que idade?
15 anos, 35 anos!
Não quer que a acompanhe?
Não, não é necessário. Obrigada.
- Quero voltar a vê-la. - Eu sei.
Esta noite?
Não.
- Amanhã? - Eu ligo-lhe.
A Karine fez que me contratassem na empresa onde trabalha.
Começo amanhã.
Vais voltar a trabalhar?
E dizes-me isso assim!
Como é que queres que te diga?
Vai ser estranho levantar-me às seis da manhã.
Já não querias trabalhar.
Mas agora quero.
A Karine tem menos dez anos do que eu.
O que queres que faça?
Quando chega do trabalho, conta-me o dia.
Fala sobre uns e outros, tudo isso.
E eu, não tenho nada para contar.
Vi o mar, falei com o cão.
Não pega.
É bem. Encontraste a mulher certa.
E tu, não encontras?
No entanto vê-las...
Vejo passar umas bonitinhas.
Encontrei... Mas ela não voltou a ligar.
Porquê?
Porque...
Porque estás a mudar.
Estou a ajudar?
Sim, sim. Não te vês.
Tens a vida dos outros nas tuas mãos.
O dinheiro entra sozinho.
Já não fazes as mesmas perguntas.
Tens vontade de outra coisa.
Tenho vontade... Não sei de quê!
Tenho vontade de ter uma mulher que não me abandone.
Se esta me rejeita, mata-me.
Carrego a tua mãe em mim.
Vivo com a história dela, com o trauma dela.
Não te sei explicar.
Percebo melhor as árvores do que as pessoas.
Numa semente está contida a árvore toda.
Está tudo ali, todas as árvores que cresceram antes dela.
Não há certeza de que vá crescer. Será talvez um pouco torta, como eu...
Sou eu. Preciso de si.
O que se passa?
Preciso de si. Pode vir?
Onde é que está?
Em casa.
Bom.
Vou andando.
Obrigado.
Nina?
Nina!
Obrigada.
Está tudo bem?
Estou melhor. Vai passar.
Amo-a.
Quis...
Quis morrer.
Eu sei.
Vive sozinha há quanto tempo?
Não sei... Há muito.
Porque quis morrer?
Não sei. Enlouqueci.
Preciso de estar à beira da morte para lhe ligar.
Porque é que me ama?
Talvez apenas tenha querido ver se conseguia morrer.
A morte não a assusta.
É o que está à sua volta.
Estes muros.
A solidão. O silêncio.
O meu marido dizia que só suportamos a vida porque podemos terminá-la.
É ele que a impede de me amar?
Não, sou eu. Ninguém mais.
Não bebe água há quanto tempo?
Sai ontem da clínica.
Estou sóbria há...
23 dias.
Tem de se queimar esta casa.
Está louco!
É tudo o que tenho neste mundo.
Estou a falar a sério. É ela que a está a matar.
Eu sei.
É preciso queimá-la.
Se não gosta desta casa, nunca poderei amá-lo.
Estou completamente louca por lhe ter ligado.
- É preciso queimá-la. - Não!
- Sim! Você vai queimá-la. - Não!
- Sim! - Não!
Estou a falar muito a sério.
Está completamente louco.
Talvez. Então, venha comigo.
Não. Vá-se embora!
Não vou deixá-la esta noite.
Venha, venha. Vou mostrar-lhe.
Olhe. Aqui, estou por todo o lado.
Aqui, aqui, aqui, aqui.
Ele começava por me pintar e depois...
Pintava por cima de mim, compreende.
Até ver aquilo que buscava em mim.
Ele já me queimou.
Não resta mais do que a essência.
O perfume. Nunca conseguirá queimar isso.
Se a perder sou eu que vou arder.
A cada crise, ardo um pouco mais.
Não olhe para mim assim.
Porque haveria de me perder?
Não sei...
Não poderia encontrar-me consigo aqui.
Porquê?
Não o sente?
Porque é que ele bebia?
Para pintar.
E você?
Já lhe disse, para fazer como ele, para o seguir.
Por amor?
Amava-o?
Era velho demais...
Para que os nossos corpos se encontrassem percebe?
E o álcool não ajudava.
E a velhice é...
Um drama.
Acabámos num campo em ruínas.
Um dia, disse-me: "Bom dia, minha Senhora".
Pensei que estava a brincar. Não.
Já não me reconhecia.
Teria preferido vê-lo morto.
O que foi?
Diga-me!
Fale-me dele.
Ele?
Tornou-se odioso, cruel.
De início, mesmo que repetisse a mim mesma que o cérebro doente...
Vou fazer xixi.
Importa-se de repetir isso?
O quê?
Vou fazer xixi.
Foi muito bonita a forma como disse.
Desculpe.
A natureza mete-nos na ordem quando dizemos baboseiras.
Gostei muito daquele homem.
Pode dizer outra vez?
O quê?
Vou fazer xixi.
É você.
É cedo.
Sim.
Sinto desejo por si.
Eu sei.
Anda.
Estão à espera há mais de uma hora!
Não tens mais nada que fazer.
O que foi?
Adeus.
Volto já.
Diz lá!
O quê?
Vai tratar dos que precisam de ti.
Pára!
Quem é que te fez isso? Foi ele que te bateu?
Larga-me!
Não vais fazer nenhuma asneira?
Que asneira queres que faça?
Não sei. Tenho um mau pressentimento.
É uma estupidez, quereres acabar contigo.
Que disparate.
- Não? - Não.
Talvez seja um destes, então...
Não posso recebê-los hoje.
Tenho de ir.
Depois ligo.
Nina?
Nina!
Olha para mim!
O que se passa?
O que foi?
Tomaste isto?
Quantos tomaste?
Olha para mim!
Não sei...
Quando é que os tomaste?
Olha para mim! Olha para mim!
Não, isso magoa!
Anda.
Vá.
Mais.
Mais.
Mais.
Tenho medo.
Tenho medo.
Estou aqui.
Tenho medo...
Estou aqui.
Estou aqui.
Tradução: Vanessa Sirvain e Mariana Branco Legendagem: PIXEL BUNKER
Transcritas por: RicardoB/2022
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