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Em nome de Alá.
Trabalhadores?
Um trabalhador? Precisa de trabalhadores?
Não.
- Quer trabalhadores? - Quantos?
Leve dois.
- Olá, senhor! - Olá.
Olá! Como estão?
- Que estão a fazer? - A brincar aos carros.
Sabe quanto custa uma refeição?
Vai direto ao assunto.
100,000 tomans não é nada!
E como é que pagamos?
Quanto é que eles estão a pedir?
Onde é que arranjamos os títulos de propriedade?
Não desligue! Quer usar o telefone?
Como?
- Quer usar o telefone? - Não.
Sim, eu a ouvir...
Onde?
À entrada do museu? Quando?
Certo.
Adeus.
- Dou-te boleia. - Não preciso, eu estou a trabalhar.
- Eu vou para ali. - Estou a trabalhar.
- Não seja tão orgulhoso... - Já disse que eu estou a trabalhar!
Venha aqui. Só um instante, por favor.
- Olá. Como está? - Bem.
Se precisar de dinheiro, eu posso ajudar.
Não.
- Não está com problemas financeiros? - Não.
Eu posso ajudar.
Põe-te a andar ou desfaço-te a cara!
Desaparece!
Olá.
- Como está? - Bem, obrigado.
O que é isso? O que você anda a apanhar?
Sacos de plástico.
Para quê?
Apanho-os e vendo perto da fábrica.
O que aconteceu com o seu dedo?
Cortei-me de manhã.
Aqui?
Bela camisola! Onde a arranjou?
Encontrei-a ali a semana passada.
Bonita cor, combina consigo!
Sabes o que diz?
De onde é?
De onde é?
- Não lhes ligue. - Estão a brincar.
- De onde é? - Perto de Lorestan.
Então não é daqui... é de Lorestan.
- Também é de Lorestan? - De certa maneira.
Quanto é que fazes por dia?
200, 300, 400...
700, 600...
O que faz com o dinheiro?
Envio para a minha família.
Quer casar-se?
Não, eu tenho que ajudar a minha família.
Está a ajudá-los?
Fazias uma coisa, se te pedisse?
Um trabalho?
Um trabalho bem pago.
Não, eu não sei se posso...
Eu só apanho os sacos e vendo-os.
Porquê? Onde vais?
Um filme de Abbas Kiarostami
com Homayoun Ershadi
Abdolhosein Bagheri Afshin Khorshid Bakhtari
Safar Ali Moradi
Mir Hosein Nouri Ahmad Ansari
Hamid Masoumi Elham Imani
Operador Assistente Farshad Bashir Zadeh
Assistente de Som Sassan Bagherpour
Operador Alireza Ansarian
Títulos Mehdi Samakar
1° Diretor Assistente Hassan Yektapanah
2º Diretor Assistente Bahman Kiarostami
Montagem Abbas Kiarostami
Som Jahangir Mirshekari
Mistura Mohamadreza Delpak
Fotografia Homayoun Payvar
Escrito, produzido e realizado por Abbas Kiarostami
- Para onde vai? - Para o quartel.
Venha, entre.
Olá.
Olá.
Tudo bem? Onde vai ficar?
Ali para baixo, não muito longe.
Ali para o quartel?
- Perto do reservatório? - Sim.
Parece cansado.
Acho que sim.
- Está exausto? - Sim.
Um soldado nunca se cansa!
Não é de admirar. Vim a pé de Darabad.
- De Darabad? - Sim.
Mas hoje é feriado.
Estou de serviço até às seis da manhã.
E depois, o que vai fazer?
- Para onde vai? - Para casa da minha tia.
Ela morreu. Fico com o marido dela, que é porteiro.
Há quanto tempo foi recrutado?
Há dois meses.
- Ainda está a fazer a recruta? - Sim.
De onde é?
Do Curdistão.
- E está na tropa aqui? - Sim.
E depois, fica ou volta?
- Não, eu vou voltar. - Perdão?
- Vou voltar para casa. - Voltar para o Curdistão?
- Sim. - Ótimo.
O que fazia no Curdistão?
O que fazia lá?
Era agricultor.
Agricultor?
Estudou?
- Andaste na escola? - Não por muito tempo.
Bem...
Desistiu?
Porquê?
Sabe como é.
São quantos na sua família?
Nove.
- Nove? - Sim.
- Trabalham todos? - Sim, todos.
- Conhece alguém em Teerão? - Sim.
- Parentes? - Sim.
Tenho dois irmãos em Teerão.
Porque não fica com eles?
Eles são casados, têm casas pequenas, crianças.
Não posso ficar lá.
Tem dinheiro? Os soldados são pagos.
- Dinheiro? - Pouco... o salário não é muito bom.
É o suficiente?
Não, não é o suficiente.
Quando tem que voltar?
Às seis.
São cinco horas agora.
Gosta tanto daquilo para chegar
uma hora mais cedo?
Não, na verdade... não.
Temos uma hora para gastar. Que tal um passeio?
Sou capaz de ter um trabalho bem pago para te oferecer.
Para complementar o teu salário.
Quero estar no quartel às seis.
- Como? - Quero estar no quartel às seis.
Eu levo-te de volta.
Não te preocupes, não te vais atrasar.
- Podemos ir? - Tudo bem.
Está de volta às seis, não te preocupes.
Dizes que não achas muita piada ao quartel?
Eu gostei de fazer o serviço militar.
Foi a melhor época da minha vida.
Fiz lá os meus melhores amigos.
Sobretudo nos primeiros seis meses.
Levantávamo-nos às quatro da manhã.
Depois do pequeno-almoço, engraxávamos as botas e
saíamos para marchar. O major agrupava-nos.
Havia cerca de 40 ou 50 homens no regimento.
O major começava a contar.
Mandava-nos repetir: Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Também fazem isso? Ainda é assim?
Então?
Como contam?
És tímido?
- Sim. - O quê?
Porquê? Não contas com os amigos no quartel?
Sim.
Então não me consideras um amigo...
Claro que considero, somos amigos.
Não, ages como se não nos conhecêssemos um ao outro.
- Não, não é isso. - O que é então?
Não é isso.
Nós fazíamos assim: Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Um, dois, três, quatro.
Um, dois, três, quatro.
- Repete comigo: Um. - Um,
dois, três.
É assim que fazem no quartel?
- Os soldados não contam assim! - Não é por mal.
Estamos a afastar-nos muito. Quero saber o que deseja.
- O que vais ter de fazer? - Sim.
Sabes, filho...
No teu lugar, não perguntava
o que era o trabalho, mas antes quanto é que vais receber.
Para alguém como tu,
o pagamento é o que importa. Um trabalho é um trabalho.
É mais fácil se encarares dessa forma.
Não é um trabalho comum, assim como o pagamento.
Em 10 minutos, podes ganhar o que ganharias em seis meses.
Qual é o trabalho?
Esqueça o trabalho, o pagamento é o que importa.
Tem que me dizer o que é!
Quando pedes a um trolha que escave umas fundações,
ele pergunta se é para um hospital,
um hospício, uma mesquita
ou uma escola? Faz o serviço e recebe o dinheiro.
Já trabalhaste nas obras?
Sim.
Disseram-te o que estavas a escavar?
- Não, ninguém me dizia. - Então, porque me perguntas?
Ajudas-me, eu pago-te.
Não custa nada, vais ver.
Tudo bem?
Para onde está a ir?
Tenho que estar no quartel às seis.
Eu levo-te, espera um pouco.
Quero sair.
Deixe-me sair.
- Sair? - Sim.
Precisas de te aliviar?
Não, estava a pensar ir-me embora.
Porque te pedi que viesses? Achas que sou doido?
Pareço-te doido?
Estava a pensar que era melhor voltar...
Prometi que te levava de volta às seis e vou cumprir.
Espera um pouco.
Anda, sai um instante.
- Tenho de voltar. - Sai, eu explico-te.
Estás a ver aquele buraco?
Aquele buraco ali.
Presta atenção...
Às seis da manhã, vens cá e chamas-me duas vezes:
"Sr. Badii! Sr. Badii!"
Se eu responder, pegas-me na mão e ajudas-me a sair.
Estão 200,000 tomans no carro,
pegas neles e vais-te embora.
Se eu não responder,
atiras vinte pazadas de terra para cima de mim.
- Depois pegas no dinheiro e vais embora. - Leve-me embora daqui.
Fique com o seu dinheiro e leve-me de volta.
Não quero arranjar sarilhos.
- Sarilhos? Que sarilhos? - Não quero. Já é tarde.
Quero voltar. Não me quero envolver nisto.
Não podes atirar vinte pazadas de terra para aquele buraco?
Preciso mesmo da tua ajuda.
Se não fosse assim, não teria pedido ajuda.
Queres que te implore? Queres isso?
Não, porque haveria de me implorar?
Sabes o que é uma necessidade?
O que significa ajuda? Ajuda não é algo que se paga,
mas eu estou a oferecer-te dinheiro. Estou a dar-te uma ajuda.
Não te dava jeito o dinheiro? Tens a certeza?
Claro que dava jeito...
Então? 200,000 não é suficiente?
Não é isso. Não posso fazer o que me está a pedir.
Não é uma questão de dinheiro.
Não podes atirar terra para dentro de um buraco?
Posso. Mas não se estiver lá alguém.
Não posso atirar terra para cima de uma pessoa.
Se a pessoa estivesse viva, levantava-se e respondia.
Escuta, preciso mesmo da tua ajuda. Não estou louco.
Quando atirares a terra, a pessoa não estará viva.
Caso contrário, não estaria no buraco.
Compreendes?
Consegues compreender?
Sim.
Bem, se já compreendeste, sai daí e vem cá ter.
Quando vieres cá amanhã às seis da manhã...
O teu quartel é ali?
De lá até aqui são apenas 20 minutos.
Chamas pelo meu nome duas vezes: "Sr. Badii, Sr. Badii!"
Se eu responder, dás-me mão e ajudas-me a sair.
Serás pago.
Mas se eu não responder...
Sai daqui.
Sai!
Sai e vem ver!
É por vontade de Deus que preciso de ti,
e tu recusas-te a ajudar.
Recusas-te?
Não me vais enterrar vivo!
Neste preciso momento, dezenas de pessoas estão ser enterradas.
Enquanto falamos, dezenas de pessoas mortas estão a ser enterradas.
- Nunca viste um coveiro? - Nunca.
Eu não sou um coveiro.
Eu não enterro pessoas.
Eu sei que não és coveiro.
Se quisesse um, tinha tratado de o arranjar.
É de ti que eu preciso.
É como se fosses meu filho.
Ajuda-me.
Tenho que implorar?
É isso que queres?
Não, implorar não serve de nada.
Então sai lá daí e vem ver.
Talvez te animes.
Vinte pazadas de terra...
Vinte apenas. Cada uma a 10,000 tomans.
De onde és?
- Curdistão. - És curdo!
Um curdo tem que ser corajoso!
O vosso povo combateu em tantas guerras,
passou por tanto sofrimento, Viu as suas aldeias dizimadas...
Aposto que já usaste uma arma, certo?
Sabes o que é uma arma, sabes porque ta dão?
Para matares quando for necessário.
Eu não te quero dar uma arma para me matares.
Vou dar-te uma pá.
És agricultor, certo?
Finge que trabalhas a terra...
e que eu sou estrume para ser espalhado à volta de uma árvore.
É assim tão difícil?
O teu destino é usar uma arma, não uma pá.
E nem uma pá sabes usar...
Obrigado.
Muito obrigado!
- Olá. - Olá.
- Como está? - Bem, obrigado.
- Para que serve essa máquina? - Para fazer cimento.
A sério? Porque não está a funcionar?
Isto está fechado. Os trabalhadores não estão aqui.
Que faz o senhor aqui então?
Eu sou o segurança.
- Está sozinho? - Sim.
Sozinho... E isso agrada-lhe?
Venha comigo.
- Não quero incomodá-lo. - Venha!
- Tenho de subir pela escada? - Sim.
- Como é que consegue subir isto? - Estou habituado.
- Está habituado. - Sim.
- Olá. - Olá.
Que lugar bonito.
Bonito? Não tem nada além de terra e pó.
Não acha a terra bonita?
A terra só nos dá coisas boas!
Então, para si, todas as coisas boas vêm da terra.
Eu acho que é...
Eu sou afegão.
- De que sítio? - Mazar-e Sharif.
Que nome estranho. O que é "Mazar"?
É o túmulo do Imã Ali.
É um lugar de peregrinação.
O túmulo do Imã Ali não fica em Najaf?
Sim, mas há quem pense que fica em Mazar-e Sharif.
Estranho...
O que está a fazer?
Estou a fazer uma omelete. Não acho que seja do seu gosto.
Vou preparar-lhe um chá.
Muito obrigado!
Não se aborrece aqui, sozinho?
Estou habituado. Também estou habituado à solidão.
Conhece aquele homem?
Sim, é da minha terra.
É afegão?
Sim, é seminarista. Está aqui de férias.
Um seminarista? Devia estar num seminário.
Sentia-se sozinho, veio visitar-me.
Vai ficar por duas ou três noites.
Vai ficar em definitivo?
Claro que não... apenas por três noites.
Não entendi o que disse.
- Ele fica cá esta noite? - Sim, ele vai ficar.
Então não está completamente só.
Não, não completamente só.
- Ele também é afegão? - Sim.
Há muitos afegões por aqui!
Estão cá muitos desde a guerra no Afeganistão.
Vivem no Irão. entre dois a três milhões de afegãos.
Com a guerra cá, porque não voltam?
A guerra contra o Iraque só diz respeito aos iranianos.
Mas a guerra em nossa casa já nos diz respeito a nós.
E a nossa guerra não vos preocupa?
Digamos que a vossa guerra nos criou dificuldades,
mas a guerra do Afeganistão foi pior... mais dolorosa para nós.
Diga-me,
se hoje é feriado, porque está aqui sozinho?
Sente-se triste, assim como eu.
Venha dar uma volta comigo, mudamos de ambiente e conversamos.
Sou o guarda daqui, estou em serviço.
- Isto precisa de um guarda? - Sim.
Quem poderia roubar uma máquina tão pesada?
É feriado. Ninguém precisa de guardas. Vamos lá.
Vamos apanhar ar fresco. Está tudo em segurança.
É o meu dever. Todos temos as nossas responsabilidades.
- Não posso deixar o meu posto. - Não pode mesmo?
Não, peço desculpa.
Achei que podíamos ir apanhar um pouco de ar...
Vou falar com o seu amigo, o seminarista.
Talvez ele queira ir dar um passeio comigo.
O chá está pronto.
Deixe para mais logo. Adeus.
- Tente ir pelo outro lado. - A escada abana toda!
É perigoso! Amarre-a.
Prenda-a com um bocado de arame.
Passou bem?
É afegão, não é?
Sim.
O que está a fazer?
Tenho três dias de férias.
Estava sozinho, meio deprimido.
O meu amigo Ahmad também estava, então resolvi visitá-lo.
Mas o que está a fazer no Irão?
Estudo no seminário de Tchizar.
Não há seminários no Afeganistão?
Há alguns, mas estávamos guerra.
E o seminário não era bom
e o meu pai disse sugeriu que fosse estudar para o Irão ou para Najaf.
Decidi vir estudar para o Irão.
E as suas despesas? O seu pai envia-lhe dinheiro?
O meu pai não tem grandes posses.
O seminário paga-me 2,000 tomans.
Durante o verão, trabalho
para ganhar algum dinheiro.
Que tipo de trabalho?
Trabalho agrícola, coisas simples.
Não sabia que um seminarista podia trabalhar nisso.
Quando é necessário, trabalha-se.
Então quando surge um trabalho, aceita-o?
Sim.
Não se perguntou pelo motivo que lhe ofereci uma boleia?
Sim.
Eu sei que o seu dever é pregar e guiar as pessoas.
Mas é jovem, tem tempo, pode fazer isso depois.
Para já, é das suas mãos que eu preciso.
Eu não preciso da sua língua
ou da sua mente.
É uma sorte essas mãos pertencerem a um crente.
Com a paciência, a resistência e perseverança que desenvolveu,
creio que é a pessoa adequada para fazer este trabalho.
Ainda não me disse o que tenho que fazer.
Sei que a minha decisão vai contra as suas crenças.
Sei que acredita que Deus dá vida e a tira quando assim o entende.
Mas há momentos em que um homem não consegue mais seguir em frente.
Está exausto, não pode esperar pela ação de Deus.
Então decide agir por conta própria.
É o que chamados de "suicídio".
Veja, a palavra "suicídio"
não foi feita apenas para os dicionários.
Tem de ter uma aplicação prática.
E aqui está a aplicação.
O homem tem de decidir quando a aplicar.
Não estou a compreender bem. Diga-me o que quer que faça.
Se puder, faço-o.
Decidi libertar-me desta vida.
E porquê?
Não lhe adiantaria saber, e não posso falar sobre isso.
Se lhe dissesse porquê, não ia compreender.
Não é que não entenderia,
é que não sentiria o que eu sinto.
Pode ter empatia, compreender,
mostrar compaixão. Mas sentir a minha dor? Não.
O senhor sofre e eu também. Eu compreendo-o.
Pode compreender a minha dor, mas não pode senti-la.
Por isso é que lhe peço para ser um muçulmano de verdade
e me ajudar. Pode fazer isso?
Sim, eu compreendo-o, mas o suicídio é errado.
Os Hadiths, os doze Imãs e o Alcorão
referem-se ao suicídio
e dizem que o o homem não se deve matar.
Deus confia um corpo a cada homem.
O homem não deve atormentar esse corpo.
Eu compreendo-o, mas o suicídio, visto de todas as formas...
Tudo bem,
mas eu disse-lhe que dispensava sermões.
Se quisesse um, teria procurado alguém com
mais experiência, alguém que já tivesse completado os estudos.
Só estou a pedir uma mão que me ajude.
A minha mão faz a justiça de Deus.
O que o senhor quer não seria justo.
Eu sei que o suicídio é um dos pecados mortais.
Mas ser infeliz também é um grande pecado.
Quando estamos infelizes, magoamos outras pessoas.
Isso também não é pecado?
Quando fere os outros, não é pecado?
Ferir a sua família... os seus amigos,
ferir-se a si mesmo,
isso não é pecado?
Se eu o ferisse não seria pecado,
mas se eu me matar seria?
Está certo,
ferir as pessoas próximas a você também é um grande pecado.
Eu creio que Deus é misericordioso e tão grande
que Ele não quer ver as Suas criaturas sofrerem.
Ele é tão grandioso que não poderia
forçar-nos a viver.
Por isso Ele concede ao homem essa solução.
Já parou para pensar sobre o significado disso?
Eu já pensei sobre isso, mas não da mesma forma que o senhor.
Em todo o caso, a nossa conversa não nos leva a lado nenhum.
Não é a hora ou o local para isso.
Veja. Perto daquela árvore, há um buraco.
Vá e veja. Explicarei depois.
Vamos lá. Veja.
Entre.
Explico-lhe agora.
Decidi tomar hoje à noite
todas os meus comprimidos para dormir,
e vir depois deitar-me naquele buraco.
Para dormir.
O que lhe peço é que espere pela madrugada,
e que cá venha depois como um irmão piedoso
e me cubra com terra. Apenas isso.
É claro,
eu sigo o Alcorão e o que ele diz...
Este trabalho vai valer-lhe uma recompensa divina,
mas também uma recompensa material que o dispensará de trabalhar este verão.
O Alcorão diz:
"Não matarás."
Qual a diferença entre matar alguém
e matar-nos a nós próprios?
Matar é matar.
Qual é a sua decisão?
Porque não sai?
O meu amigo preparou uma omelete, está com um cheiro ótimo. Vamos comer.
Arranjamos uma solução.
Obrigado. Sei que ele esteve a cozinhar, mas os ovos fazem-me mal.
Fica para a próxima. Adeus.
Senhor, senhor...
Senhor, retire o seu carro. A escavadora tem de trabalhar.
Liberte o caminho.
Retire o seu carro, a escavadora tem de trabalhar.
Que está a fazer aqui?
Isto não é sítio para se sentar!
Está doente? Vá lá tirar o carro!
Não pode dormir aqui!
Se quer cimento, tem de ir ao escritório.
Vamos, tire lá o carro.
O que veio aqui fazer?
Está doente?
Quer um pouco de chá?
Levante-se, tire o seu carro.
Vamos lá... vamos.
Obrigado.
Então, sem mais perguntas?
Não.
Entendeu tudo? Aquela árvore é um bom ponto de referência.
Sim.
Então, sem mais perguntas? Tudo certo?
Tudo certo mas...
Mas o quê?
Quando quer ajudar alguém,
deve fazê-lo como deve ser, com todo o seu coração.
É melhor... mais justo e mais razoável.
Pode usar as mãos em vez da pá.
Guarde os seus sentimentos para coisas mais essenciais.
Mas como?
Qual é o seu trabalho?
Já lhe disse.
Qual é a sua especialização?
Cavar não requer especialização.
É só cavar.
Se eu pudesse ajudar de outra forma,
eu preferiria.
Limite-se a fazer o que lhe peço.
Mas que ajuda?
Se um homem quer ajudar o seu próximo,
deve fazê-lo de outra maneira.
Pode salvar uma vida, por exemplo.
Eu não vou ser responsabilizado pela morte de alguém,
mas, se é a sua vontade, eu farei o que me pede.
Mas é difícil. Admita que não é fácil!
Se não explicar o seu problema,
quem o pode ajudar? Não me conhece.
Mas tem parentes, amigos, um irmão.
Peço desculpa pela indiscrição.
Seja um problema familiar ou de dívida.
Todo o problema tem uma solução.
Mas se não falar,
ninguém vai poder ajudá-lo.
Todos nós temos adversidades na vida.
Se todos nós escolhêssemos esse caminho para cada pequeno problema,
não sobrava ninguém na terra.
Não é verdade? Ninguém.
Nem uma alma!
Vire à esquerda, por favor.
- Eu não conheço essa estrada. - Eu conheço.
É mais longa, mas melhor e mais bonita.
Estive prisioneiro deste deserto durante 35 anos.
Vou contar-lhe uma coisa que me aconteceu.
Foi logo depois de me casar.
Tínhamos problemas que nunca mais acabavam.
Eu estava tão farto daquilo, que um dia
decidi pôr fim a tudo!
Uma manhã, antes do sol nascer,
enfiei uma corda no carro.
Estava decidido, queria matar-me.
Parti para Mianeh. lsto foi em 1960.
Andei até chegar às plantações de amoreiras.
Quando lá cheguei, ainda estava escuro.
Atirei a corda a uma árvore, mas ela não ficou presa.
Tentei uma, duas vezes, mas em vão.
Então trepei a árvore
e prendi bem a corda.
Então, senti uma coisa mole na mão. Eram amoras.
Amoras belas e deliciosas.
Comi uma. Suculenta!
Comi uma segunda e uma terceira...
De repente, reparei...
que o sol estava a nascer sobre as montanhas.
Que sol, que cenário,
toda aquela vegetação!
De repente, ouvi crianças que iam para a escola.
Pararam e olharam para mim.
Pediram-me para abanar a árvore.
As amoras caíram e elas comeram-nas.
Senti-me feliz.
Então recolhi algumas amoras e levei-as para casa.
A minha mulher ainda estava a dormir.
Quando ela acordou, também comeu as amoras.
E deliciou-se com elas!
Tinha saído de casa determinado a suicidar-me,
e voltei para casa com amoras.
Uma amora salvou-me a vida.
Uma amora salvou-me a vida!
Comeu amoras,
a sua mulher comeu amoras, e ficou tudo bem...
Não ficou tudo bem. Mas eu mudei.
As coisas correram melhor depois, mas porque eu mudara a minha perspetiva.
Eu é que estava melhor.
Todo o homem na terra tem problemas na vida.
É assim mesmo. Há tantas pessoas na terra
e não há uma única família sem problemas.
Eu não sei qual é o seu problema.
Se soubesse, talvez conseguisse explicar melhor.
Quando vai a um médico,
diz-lhe onde é que tem dores.
Desculpe, não é turco, pois não?
Vou contar-lhe uma piada. Não se ofenda.
Um turco
vai ver o médico. Diz-lhe:
"Doutor, doí-me o dedo quando toco no corpo,
"quando toco na cabeça, quando toco nas pernas,
quando toco na barriga, quando toco na mão..."
O médico examina-o e diz-lhe:
"O seu corpo está ótimo, o dedo está partido!"
Meu caro amigo, a sua mente está doente,
mas o seu corpo não. Mude a sua maneira de pensar!
Eu saí de casa decidido a matar-me,
mas uma amora salvou-me,
uma amora vulgar, insignificante.
O mundo não é como o vê.
Temos de pensar de outra maneira e mudar o mundo.
Seja otimista.
Olhe as coisas pelo lado bom!
Está na flor da idade!
Quer suicidar-se por causa de um problema qualquer,
um único problema...
A vida é como um comboio que continua a seguir em frente
e até chegar ao final da linha.
No final da linha, está a morte à espera.
Claro, a morte pode ser uma solução.
Mas não a primeira, não durante a juventude.
Desculpe lá obrigá-lo a percorrer esta estrada pedregosa.
Pensamos que uma coisa é boa até percebermos que estamos enganados.
O mais importante é pensar bem.
Acreditamos que estamos a fazer a coisa certa,
mas depois percebemos que estávamos enganados.
Fale, diga qualquer coisa para eu recuperar o fôlego.
Já falei demasiado, já disse tudo,
fiz um discurso inteiro. Diga alguma coisa!
Vire à esquerda aqui, por favor.
Bom, se não fala, continuo eu a falar.
Se não fala, falo eu.
Já perdeu toda a esperança?
Nunca olhou para o céu, de manhã, ao acordar?
Não quer ver o sol a nascer, de madrugada?
Os tons vermelhos e amarelos do pôr-do-sol,
não quer voltar a vê-los?
Já olhou bem para a lua? Não quer ver mais as estrelas?
A noite de lua cheia,
não quer vê-la de novo? Quer fechar os olhos?
Por favor, faça a decisão correta!
As pessoas do outro lado, cheias de vontade de cá vir dar uma espreitada,
e o senhor a querer ir para lá a correr!
Nunca mais quer beber água de uma fonte?
Ou lavar seu rosto nessa mesma água?
Vire à direita!
Se observar as quatro estações,
cada uma delas traz frutos.
O verão produz frutos, o outuno também,
o inverno traz frutos diferentes e a primavera a mesma coisa.
Nenhuma mãe consegue encher o frigorífico
com tanta variedade de frutas para os seus filhos.
Nenhuma mãe pode fazer tanto pelo seus filhos
quanto Deus faz pelas Suas criaturas.
Quer abrir mão de tudo isso? Quer desistir de tudo?
Quer abdicar do gosto das cerejas?
Não faça isso. Sou seu amigo, imploro-lhe!
Vire à direita.
Vire à direita, esta é a estrada principal.
Vire à esquerda, por favor.
Antes que eu parta,
vou cantar-lhe uma canção em turco.
"Meu amor, vou partir, Vem a mim.
"Sou perseguido no jardim do meu amigo, vem a mim.
"Longe estão os dias felizes de outrora,
"agora são só privações, Vem a mim."
Diga-me, mal nos conhecemos...
Se partir, sou seu amigo, se ficar, sou seu amigo.
Sou seu amigo, qualquer que seja o caso.
Se ficar, sou seu amigo, se partir, seu amigo serei.
Adeus.
Trabalha aqui?
Espere. Diga-me o que vai fazer.
Já lhe disse, trabalho aqui, no Museu de História Natural.
Não, refiro-me a amanhã.
Amanhã, vou lá ao amanhecer. Chamarei duas vezes:
"Senhor... Senhor..."
Badii!
Badii. E o senhor responde.
Depois pego-lhe na mão e ajudo-o a sair do buraco.
E se eu não responder?
Há-de responder! Por Alá, eu sei que vai responder.
Mas e se não responder?
Farei o que me pediu para fazer,
não se preocupe!
Diga em voz alta, para que eu fique tranquilo.
Algumas coisas
são mais fáceis de fazer do que dizer.
De qualquer forma, eu farei.
Se não fosse pelo meu filho, não fazia.
Acredite em mim, é difícil.
Fizemos um acordo.
Eu vou lá e cubro-o de terra.
Pega no dinheiro e vai-se embora.
Que alívio para si!
Eu tenho que ir, as crianças estão à espera.
Espero que este dinheiro ajude a curar o seu filho.
Cumpra a sua promessa ou não será abençoado.
Oxalá tenha razão.
Leve este dinheiro agora. Amanhã recebe o resto.
Obrigado pela boleia. Obrigado!
Vemo-nos às seis amanhã. Ou melhor, o senhor é que me verá a mim.
Se Deus quiser, o senhor também me verá.
Leve o dinheiro.
Obrigado, mas não. Levo depois do trabalho.
Desculpe, pode tirar-nos uma fotografia?
Está tudo pronto. Basta carregar no botão.
Obrigado.
Então? Qual é o problema? Está com pressa de morrer?
Está doido!
Senhor!
Quero falar com o homem que acabou de entrar.
- Entraram muitos homens. - Tinha um blusão azul.
O nome dele?
Trabalha aqui. Tinha um saco...
Muitos homens trabalham aqui.
Tinha um saco cheio de codornizes,
para os alunos. Para empalhar.
Qual é o nome dele?
Não sei. Tem um filho doente, com anemia.
Refere-se ao velhote que trabalha na oficina.
Sr. Bagheri.
Sim, o Sr. Bagheri. Pode chamá-lo?
Não posso fazer isso.
- Posso entrar? - Tem de comprar bilhete.
Por favor! Quanto custa?
- 100 tomans. - Para onde eu vou agora?
Siga em frente, vire à direita.
Atrás do prédio principal, encontrará escrito "Taxidermia".
Taxidermia.
Quatro, por favor.
Obrigado, Sr. Bagheri. Mais perdizes!
Tudo certo! O que recebe é uma questão de sorte.
Por favor, meninas...
Perdizes ou codornizes...
Devíamos estar a estudar codornizes!
As aves não caem na rede só para nos fazer a vontade...
Sr. Bagheri, está ali uma pessoa para si.
Primeiro, tem que virá-los de costas
e molhar o tórax com uma esponja.
Em seguida, abra-os com o bisturi
por toda a extensão do corpo.
Não cortem muito fundo senão saem as entranhas.
Sr. Bagheri, venha e sente-se comigo.
Não, obrigado. Estou ocupado.
- Sr. Bagheri, está bem? - Sim, obrigado.
Essa bata branca fica-lhe bem.
Muito obrigado.
O que está a fazer?
- Quais pássaros usou? - Codornizes.
Codornizes? E matou-as?
Sim. Para o trabalho.
Sente-se bem?
- Tenho algo para lhe dizer. - Diga.
Quando lá for amanhã,
leve duas pedras pequenas e atire-mas.
Posso estar apenas a dormir, mas ainda vivo.
Duas pedras não são o suficiente. Usarei três.
E sacuda-me os ombros. Talvez eu esteja vivo.
Olhe que prometeu!
Cumprirei a minha palavra, nem que me cortem a cabeça!
Prometeu, não me deixe ficar mal.
Acabámos. Estás a ouvir?
Diz aos teus homens que fiquem perto da árvore a descansar.
As filmagens terminaram.
Vamos só fazer uma captação de som.
Legendas por: FC
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